Reconhecer o Ressuscitado

A tradição cristã nunca descreveu a ressurreição como uma ideia clara ou uma evidência imediata. Nos relatos pascais, ninguém reconhece Jesus à primeira vista. Maria Madalena pensa encontrar um jardineiro. Os discípulos de Emaús caminham horas sem perceber quem os acompanha. Tomé precisa de tocar. Pedro precisa de recomeçar.

A Páscoa não começa com certezas, mas com uma experiência profundamente humana: aprender a reconhecer a Vida interrompida, quando ela regressa sob uma forma inesperada.

Durante as próximas semanas, este percurso propõe revisitar algumas figuras pascais — Tomé, Pedro, Maria Madalena, Paulo, os discípulos de Emaús, Estêvão — não como modelos espirituais distantes, mas como histórias humanas de transformação interior.

Inspirando-se também na psicologia contemporânea, estas reflexões procuram olhar a ressurreição menos como um acontecimento extraordinário e mais como um processo do humano: o momento em que aquilo que parecia perdido volta a integrar a nossa história e nos obriga a tornar-nos outros.

Talvez a fé pascal comece exatamente aí: não quando tudo se torna evidente, mas quando aprendemos a reconhecer, nas feridas da vida, nas perdas e nas mortes, sinais inesperados de Presença.

Padre Humberto Martins

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Entre nós e Nosso Senhor, há um regime de amizade, de cooperação e de comunidade de bens, análogo à união de Nosso Senhor com seu Pai… Regime de amor, de santa liberdade e de familiaridade (Jo 15,16). Jesus revela-me esta amizade, para me encher de alegria (Jo 15,11). Que farei para lhe responder?
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