Ao contrário de Judas, Pedro não trai por cálculo. Trai por medo.
Massimo Recalcati, fazendo uma leitura psicanalista, defende que a negação de Pedro não revela um homem falso. Revela um homem dividido. A sua traição entra em dissonância com aquilo que ele acreditava ser.
Pedro não suporta descobrir que não é o discípulo corajoso que imaginava.
A verdadeira ferida não é ter negado Jesus. É ter-se tornado irreconhecível para si próprio.
Pedro experimenta aquilo que hoje chamaríamos uma rutura narrativa do eu: a história que sustentava a sua identidade deixa de funcionar. O “eu fiel” colapsa diante do “eu que teve medo”.
A traição torna-se, assim, antes de tudo, uma traição de si mesmo.
E Pedro sente vergonha. A vergonha não diz: “fiz algo de errado”; diz: “há uma fenda em mim”.
Pedro não foge apenas de Jesus. Foge do olhar que lhe revela quem ele é. E as lágrimas não são apenas arrependimento moral. São luto identitário. Morre o Pedro que (ele) pensava conhecer.
A escritora Iris Murdoch diz que prometemos sempre a partir de uma imagem incompleta de nós mesmos. Pedro prometera fidelidade absoluta, porque ainda não conhecia o alcance do seu medo. A queda revela-lhe não a ausência de amor, mas a fragilidade do sujeito que ama.
E o regresso à pesca, depois de tudo o que aconteceu, é a parte visível da regressão do eu. Depois da Páscoa, Pedro volta ao mar. Não é simples nostalgia. É tentativa de regressar a uma identidade anterior ao fracasso.
Quando o eu colapsa, procuramos versões antigas de nós próprios.
E o Ressuscitado aparece não nos templos, mas precisamente onde Pedro tenta esconder a sua falha: no quotidiano. Pedro está nu – imagem adâmica do ser humano depois da queda.
E, ao reconhecer Jesus, lança-se ao mar. Antes, quis caminhar sobre as águas para provar a sua fé. Agora, mergulha nelas porque já não precisa de provar nada. A fé passou do heroísmo para a verdade.
O diálogo na praia não é um interrogatório; é uma reconstrução. “Simão, filho de João, tu amas-me?” Jesus não pergunta: “porque me negaste?” Pergunta: “quem és tu agora?” A repetição não reabre a culpa; reabre o futuro.
Pedro responde com uma linguagem nova: “Senhor, Tu sabes que sou teu amigo.” Já não promete mais do que pode viver. Já não fala a partir do ideal. Fala a partir da verdade.
A ressurreição não transforma Pedro num herói impecável. Transforma-o num homem reconciliado com a própria fragilidade.
A Páscoa não salva o sujeito perfeito. Salva o sujeito dividido. Jesus não devolve a Pedro o Pedro anterior. Devolve-lhe um Pedro verdadeiro.
O fracasso deixa de ser o fim da vocação e torna-se o seu fundamento. Só quem conheceu o medo pode confirmar os irmãos. Só quem caiu pode sustentar quem cai.
Nós não somos definidos pelo momento em que falhámos, mas pelo encontro que nos permite recomeçar depois de falhar.
- Humberto Martins, scj