27º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

4 de Outubro, 2026

Ano A
27.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 27.º Domingo do Tempo Comum

O que é que Deus espera dos seus filhos? Qual deverá ser a nossa resposta ao amor, à solicitude, à ternura, ao carinho, aos cuidados extremosos de Deus? A “parábola da vinha” – que ecoa repetidamente nas leituras do 27º Domingo do Tempo Comum – oferece-nos uma resposta clara: Deus espera de nós frutos de amor, de paz, de justiça, de misericórdia, de solidariedade, de compaixão pelos últimos. Deus não está disposto a abençoar um cristianismo estéril, que não produza os frutos que humanizam o mundo e a vida.

Na primeira leitura o profeta Isaías canta, em versos apaixonados, o amor incomensurável de Deus pela sua “vinha”, Israel. No entanto, essa história de amor termina mal, pois a “vinha” de Deus só produz as uvas amargas da injustiça, da violência e da maldade. Defraudado e desiludido, Deus anuncia que vai abandonar a sua querida “vinha”, vai deixá-la saborear sozinha os frutos ácidos das suas decisões erradas. Deus, apesar do amor que tem pelo Seu povo, não está disposto a pactuar, a qualquer preço, com o “sangue derramado” e com os “gritos de horror” das vítimas da injustiça.
No Evangelho Jesus retoma a imagem da “vinha” como metáfora da relação de amor que Deus tem com o Seu povo. Denuncia, no entanto, a atitude dos líderes judaicos que se apropriaram em benefício próprio da “vinha de Deus” e que recusam dar a Deus os frutos que Ele espera. Deus retirará a Sua “vinha” das mãos desses “vinhateiros” ingratos e irá confiá-la a outros trabalhadores, gente leal e fiável, que entregue a Deus, em devido tempo, os frutos que Lhe são devidos.
Na segunda leitura, Paulo exorta os cristãos da cidade grega de Filipos – e todos aqueles que fazem parte da “vinha de Deus” – a viverem na alegria e na serenidade, tendo sempre no pensamento e no horizonte de vida tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, digno, amável e virtuoso. São esses os frutos que Deus quer ver a sua “vinha” produzir.

LEITURA I – Isaías 5,1-7

Vou cantar, em nome do meu amigo,
um cântico de amor à sua vinha.
O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina.
Lavrou-a e limpou-a das pedras,
plantou-a de cepas escolhidas.
No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar.
Esperava que viesse a dar uvas,
Mas ela só produziu agraços.
E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá,
sede juízes entre mim e a minha vinha:
Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?
Quando eu esperava que viesse a dar uvas,
porque é que apenas produziu agraços?
Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha:
vou tirar-lhe a vedação e será devastada;
vou demolir-lhe o muro e será espezinhada.
Farei dela um terreno deserto:
não voltará a ser podada nem cavada,
e nela crescerão silvas e espinheiros;
e hei de mandar às nuvens
que sobre ela não deixem cair chuva.
A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel,
e os homens de Judá são a plantação escolhida.
Ele esperava retidão e só há sangue derramado;
esperava justiça e só há gritos de horror.

CONTEXTO

Isaías exerceu o seu ministério profético em Jerusalém, no reino de Judá. O seu ministério profético começou por volta de 740/739 a.C. e prolongou-se pelos reinados de Jotam (740-736 a.C.), Acaz (736-716 a.C.), Ezequias (716-687 a.C.) e Manassés (687-642 a.C.). Um apócrifo do séc. I d.C. (“Ascensão de Isaías”) conta que o profeta foi assassinado por ordem do rei ímpio Manassés.
O carácter de Isaías pode conhecer-se suficientemente através da sua obra. É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento do seu chamamento vocacional. Seguramente, faz parte dos notáveis do país: participa nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (Is 7,10). É inimigo da anarquia (cf. Is 3,1-9); mas isso não significa que apoie as classes altas. Na verdade, os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos. Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (cf. Is 3,12-15).
A maioria dos comentadores considera que o texto que a primeira leitura deste domingo nos propõe pertence à primeira fase do ministério profético de Isaías (reinado de Jotam, anos 740-734 a.C.). É uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das super-potências. Tudo parece correr bem, num clima de paz generalizada. No entanto, o olhar crítico do profeta deteta, nas entrelinhas da história, uma realidade distinta… Internamente, a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e arbitrariedades: os poderosos exploram os mais débeis, os juízes deixam-se corromper, os latifundiários são dominados pela cobiça e inventam esquemas para se apropriar dos bens dos mais pobres, os governantes oprimem os súbditos, as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade, num desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais carenciados.
Em termos estritamente religiosos, o quadro também não é animador: é verdade que o culto floresce numa grande abundância de práticas de piedade e de solenes manifestações religiosas; no entanto, todo esse fausto cultual é incoerente e mentiroso, pois não resulta de uma verdadeira adesão a Javé, mas de uma tentativa de acalmar as consciências culpadas e de “comprar” Deus para que Ele não castigue os prevaricadores.
A avaliação que o profeta faz sobre a sociedade do seu tempo é implacável: Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para converter-se numa prostituta (cf. Is 1,21-26); a “vinha” de Deus só produz frutos amargos e não os frutos bons que Deus espera. A mensagem de Isaías neste período encontra-se nos capítulos 1-5 do seu livro. O texto que a primeira leitura deste domingo nos propõe – o “cântico da vinha” – é um dos textos mais emblemáticos deste período.
O “cântico da vinha” poderia ser, inicialmente, um “cântico de vindima” ou um “cântico de trabalho”, que um poeta popular entoa diante do seu círculo de amigos ou dos companheiros de trabalho. Mas, como acontece tantas vezes com as formas de expressão da cultura popular, rapidamente as palavras adquirem um duplo sentido e passam a evocar outra realidade. Na cultura judaica, a “vinha” é um símbolo do amor (cf. Ct 1,6.14; 2,15; 8,12). O “cântico da vinha” passa então a ser, na boca do poeta popular, uma “cantiga de amor”, que descreve os esforços do jovem apaixonado para conquistar a sua amada. Isaías vai utilizar esta “cantiga de amor” como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.

MENSAGEM

A “canção da vinha” é muito bela e o tema é bem sugestivo. Aquele que a canta (o profeta/poeta) recorre a todos os recursos literários que conhece para captar a atenção do seu auditório: brinca com as sonoridades e com o ritmo, alterna os sons doces das canções de amor com os sons ásperos das canções de trabalho… Toda a gente aprecia as canções de amor. Os interlocutores do profeta/poeta estão atentos e fascinados e escutam com prazer a descrição das quase patéticas tentativas do poeta para conquistar a sua amada. Ouvem-no falar dos seus trabalhos para construir a sua vinha, dos seus cuidados para com ela, das suas ilusões, dos seus sonhos; sorriem com cumplicidade perante as alusões ao “lagar” (o lugar onde será feito o vinho do amor) e à torre (de onde o amado vigiará, para que ninguém entre na sua “vinha” e colha os frutos do seu amor). Aprovam quando ele, depois de tantos cuidados, fica à espera dos “frutos saborosos” do amor que cultivou. Sentem-se desiludidos quando, depois de todo o empenho do amado, a “vinha” só lhe ofereceu frutos amargos. O auditório simpatiza com o poeta, identifica-se com ele, partilha a sua desilusão.
Mas, de repente, o poeta transforma o cântico em queixa e reclama justiça. Interpela diretamente os seus interlocutores e exige deles um veredicto. Tem o público na mão: todos concordam que o profeta/poeta tem razão em estar dececionado com a sua vinha e que tem o direito de tirar a vedação que a protegia, de não voltar a cuidar dela, de dar ordens às nuvens para que não a fecundem com a chuva.
Quando o público já pronunciou mentalmente um veredicto favorável ao profeta/poeta, este lança-lhe à cara a acusação que vinha preparando: “a vinha do Senhor do universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida de Deus. Deus esperava do Seu povo retidão (“mishpath”) e só há sangue derramado (“mispah”); esperava justiça (“tsedaqah”) e só há gritos de horror” (“tseaqah”). O auditório fica estupefacto; não estava à espera daquele volte-face que o atinge em cheio e que deixa a claro a culpa de todos.

A imagem da “vinha” aplicada ao Povo de Deus encontra-se frequentemente na Bíblia (cf. Is 3,14; 27,2-5; Jer 2,21; 12,10; Ez 17,6; Os 10,1; Sl 80,9-17). Os profetas e catequistas de Israel viram na imagem da “vinha” um símbolo privilegiado para expressar essa magnífica história de amor que Deus quis escrever com o seu Povo e que se expressou através da Aliança.
Nesta “parábola”, Deus é o “vinhateiro” e o povo de Deus é a “vinha”. Foi Deus quem trouxe de longe (do Egipto) essas videiras escolhidas, que as plantou numa terra fértil (a terra de Canaan), que removeu dessa terra as pedras (os outros povos que aí habitavam) que podiam estorvar a fecundidade da “vinha”, que cuidou e, sobretudo, que amou a sua “vinha”.
Como é que Israel respondeu aos esforços de Deus? Que frutos produziu a “vinha” de Javé? O profeta/poeta responde: Deus esperava que Israel vivesse no direito e na justiça cumprindo fielmente as exigências da Aliança; esperava do Seu povo uma vida de fidelidade aos mandamentos; esperava que Israel construísse uma sociedade fraterna e solidária, onde os direitos e a dignidade dos mais débeis fossem protegidos e respeitados… Na realidade, o Povo atua em sentido exatamente contrário ao que Deus esperava: os poderosos cometem injustiças e arbitrariedades, os juízes são corruptos e não fazem justiça ao pobre, os grandes praticam violências e derramam o sangue dos inocentes, os órfãos e as viúvas veem espezinhados os seus direitos sem que ninguém os defenda.
Na verdade, sugere o profeta, Deus não pode pactuar com este esquema e prepara-Se para abandonar essa “vinha” ingrata, essa amada infiel.
Deus amou o Seu povo e quis ensiná-lo a construir uma sociedade fraterna e solidária. Israel não quis saber das indicações de Deus e multiplicou as prepotências, as violências, as maldades. Em lugar de uma “civilização do amor”, o povo de Deus construiu uma “sociedade da injustiça”.
Alguns anos mais tarde (701 a.C.), Judá viverá momentos dramáticos, quando Senaquerib, rei da Assíria, invadir o país, devastar diversas cidades fortificadas e pôr cerco a Jerusalém. O rei Ezequias ver-se-á obrigado a pagar um pesado tributo aos assírios. Castigo de Deus para a infidelidade de Judá? Simplesmente o resultado de diversas opções erradas que minaram a coesão nacional e trouxeram devastação e morte à “vinha de Deus”.

INTERPELAÇÕES

• A “canção da vinha” canta o amor, a “parábola da vinha” é uma história de amor. Na intenção de um profeta/poeta chamado Isaías, a parábola expressa o amor incomensurável de um Deus que viu o Seu povo ser oprimido e desceu para o libertar, que estabeleceu com o Seu povo uma Aliança eterna, que ofereceu ao Seu povo indicações seguras sobre a forma de construir uma sociedade solidária e fraterna, que “plantou” o Seu povo numa terra onde “corre leite e mel”, que cuidou do Seu povo, o guardou de todos os males e o acompanhou em cada momento da sua peregrinação pela história… Essa “história de amor” que Deus quis viver com os seres humanos é uma história exclusiva, circunscrita a um determinado povo e a um tempo sem retorno? Não. É uma história que reflete a relação de amor que Deus pretende ter com todos os seus filhos e filhas, sem exceção de raça, de religião ou de estatuto social. Esse mesmo Deus que amou e cuidou de Israel continua a derramar sobre nós, todos os dias, o Seu amor, a Sua graça, a Sua bondade, a Sua misericórdia. Sentimo-nos envolvidos nesta “história de amor”? Estamos gratos a Deus pelo Seu amor, pela Sua ternura, pelo Seu cuidado? Que marcas é que esse amor infinito de Deus deixa nas nossas vidas?

• A experiência de ser profundamente amado é uma experiência que nos completa, que nos pacifica, que nos amacia, que nos torna melhores pessoas. Quando somos transformados pelo amor de Deus, sentimos vontade de dar as mãos a todos aqueles que caminham ao nosso lado e tornamo-nos arautos do amor. Tratamos os outros com mais tolerância, com mais misericórdia, com mais compreensão, com mais bondade. Quem trata os irmãos com arrogância, quem assume atitudes duras, agressivas e intolerantes, quem pratica a injustiça e espezinha os direitos dos mais débeis, quem é insensível aos dramas dos irmãos, certamente ainda não fez a experiência do amor de Deus, ainda não se abriu ao amor de Deus. Às vezes encontramos nas nossas comunidades cristãs pessoas muito válidas do ponto de vista da organização, do trabalho, da organização, da eficiência, que se consideram a si próprias colunas da comunidade, que parecem ter uma fé inabalável, mas que são insensíveis, amargas, agressivas, intolerantes… Provavelmente, ainda não se abriram ao amor de Deus. E nós? Somos testemunhas do amor de Deus? O amor de Deus transparece nos nossos gestos, nas nossas atitudes, nas relações que estabelecemos com aqueles com quem nos cruzamos?

• Na “canção da vinha”, Isaías identifica os “frutos bons” que Deus espera da sua “vinha” com o direito e a justiça; e afirma que Deus não pode tolerar uma “vinha” que produza “sangue derramado” e “gritos de horror”. Nos nossos dias, o “sangue derramado” das vítimas da violência, do terrorismo, da prepotência, dos sistemas que geram morte e sofrimento, continua a tingir a história do mundo; os “gritos de horror” de tantos homens e mulheres privados dos direitos mais elementares, torturados, excluídos, ignorados, maltratados, impedidos de ter acesso a uma vida minimamente humana, continuam a escutar-se na Europa, no Médio Oriente, na Ásia, na África, nas Américas… O cortejo da maldade não tem fim e continua todos os dias a entristecer o coração de Deus. Qual o nosso papel, no meio de tudo isto? Podemos calar-nos, num silêncio cúmplice e alienado, diante do drama de tantos irmãos nossos condenados à miséria, ao sofrimento e à morte? O que devemos fazer para que a “vinha” de Deus produza outros frutos, os frutos que Deus espera?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

Arrancastes uma videira do Egipto,
expulsastes as nações para a transplantar.
Estendia até ao mar as suas vergônteas
e até ao rio os seus rebentos.

Porque lhe destruístes a vedação,
de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
Devastou-a o javali da selva
e serviu de pasto aos animais do campo.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.

Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.

LEITURA II – Filipenses 4,6-9

Irmãos:
Não vos inquieteis com coisa alguma.
Mas, em todas as circunstâncias,
apresentai os vossos pedidos diante de Deus,
com orações, súplicas e ações de graças.
E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência,
guardará os vossos corações
e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
Quanto ao resto, irmãos,
tudo o que é verdadeiro e nobre,
tudo o que é justo e puro,
tudo o que é amável e de boa reputação,
tudo o que é virtude e digno de louvor
é o que deveis ter no pensamento.
O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim
é o que deveis praticar.
E o Deus da paz estará convosco.

CONTEXTO

A cidade de Filipos era, ao tempo do apóstolo Paulo, uma próspera colónia romana situada na província da Macedónia, a treze quilómetros do Mar Egeu. De origem trácia, a cidade tinha sido conquistada por Filipe II da Macedónia em 358 a.C., recebendo então o nome de Filipos em homenagem ao seu conquistador. Mais tarde, já no séc. I, a cidade foi repovoada por veteranos de guerra do exército romano. Organizada à maneira de Roma, era considerada uma “Roma em miniatura”. Estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador. Gozava dos mesmos privilégios das cidades de Itália e os seus habitantes tinham cidadania romana.
Paulo chegou a Filipos pelo ano 49 ou 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, acompanhado de Silvano, Timóteo e Lucas (cf. At 16,1-40). Da sua pregação nasceu a primeira comunidade cristã em solo europeu.
A comunidade cristã de Filipos era uma comunidade viva, entusiasta, generosa, comprometida. Paulo tinha a comunidade em grande apreço. Os filipenses, por sua vez, apreciavam muito Paulo e nutriam por ele um grande carinho. Apesar de tudo, a comunidade cristã de Filipos não era perfeita: os altivos patrícios romanos que a integravam tinham alguma dificuldade em assumir certos valores como o desprendimento, a humildade e a simplicidade.
Paulo escreve aos Filipenses numa altura em que estava na prisão (não sabemos se em Cesareia, em Roma, ou em Éfeso). Os filipenses tinham-lhe enviado, por um membro da comunidade chamado Epafrodito, uma certa quantia em dinheiro, a fim de que Paulo pudesse prover às suas necessidades. Na carta, Paulo agradece a preocupação dos filipenses com a sua pessoa (cf. Flp 4,10-20); exorta-os a manterem-se fiéis ao Evangelho de Jesus e a incarnarem os valores que marcaram a vida de Cristo (“tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus” – Flp 2,5).
O texto que hoje nos é proposto pertence à parte final da carta. Apresenta diversos apelos e exortações que recordam aos filipenses as obrigações que derivam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho.

MENSAGEM

Os dois primeiros versículos do texto que a segunda leitura deste domingo nos propõe (cf. Flp 4,6-7) integram uma passagem mais ampla (cf. Flp 4,4-7), na qual Paulo exorta os cristãos de Filipos a cultivarem a alegria. Essa “alegria” de que Paulo fala não é aquele sentimento que se expressa em gargalhadas ruidosas e em gestos excessivos, mas é o contentamento sereno que habita o coração daquele que está enxertado em Cristo, que vive em comunhão com o Senhor e que sabe que essa comunhão é fonte de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a comunhão com Cristo garante-lhe o acesso próximo (“o Senhor está próximo”) à vida em plenitude. Daí resulta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente enfrentar o dia a dia sem medo e sem angústia, sentindo-se perfeitamente seguro nos braços amorosos de Deus Pai (cf. Flp 4,6a). Essa relação com Deus alimenta-se “com orações, súplicas e ações de graças” (Flp 4,6b), num diálogo nunca terminado, que leva o crente viver em paz, a familiarizar-se cada vez mais com o projeto de Deus, a envolver-se sempre mais com Deus.
Paulo conclui a exortação com uma série de indicações que os cristãos devem ter em consideração para um projeto de vida com sentido. São oito as “qualidades” que Paulo recomenda: “tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento” (Flp 4,8). Há quem veja neste versículo a “magna carta do humanismo cristão”. Os valores elencados não são exclusivos do cristianismo: são valores sãos e louváveis, que constam também do ideal pagão (eram valores igualmente propostos pelos moralistas gregos da época, nomeadamente pelos filósofos estóicos). A comunidade cristã deve estar aberta ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos, venham eles de onde vierem. Tudo aquilo que humaniza o mundo e a vida dos homens deve constar da proposta cristã. De resto, estes valores que a cultura helénica cultiva constam já da tradição sapiencial bíblica e integram o estilo de vida dos judeus dispersos pelo mundo greco-romano.
Finalmente, o apóstolo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações, seguindo o exemplo que o próprio Paulo lhes ofereceu com as suas palavras e a sua vida (cf. Flp 4,9). Paulo é, para os filipenses, o “mestre” de vida que Jesus lhes enviou; se os filipenses praticarem o que aprenderam, receberam, ouviram e viram, caminharão com Deus e viverão em paz.

INTERPELAÇÕES

• Para Paulo de Tarso, aquele que se encontra com Cristo e que vive em comunhão com Cristo é, naturalmente, uma pessoa alegre, serena, que caminha em paz. De olhos postos em Cristo, o cristão sabe em que direção vai; no seu horizonte final está essa vida definitiva para a qual Cristo chama os Seus irmãos. Nada arredará o discípulo de Cristo dessa vida que o espera: nem as dificuldades, nem as ameaças, nem as perseguições, nem as incompreensões, nem a própria morte. “Em tudo isso somos mais do que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8,37) – dirá Paulo. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades que a vida nos traz? Porquê o medo que nos paralisa e que nos impede de ser testemunhas e arautos de um mundo mais fraterno, mais justo, mais humano? Porque é que tantas vezes destilamos pessimismo e contagiamos os que estão à nossa volta com as nossas apreciações sombrias e o nosso negativismo? Porque é que, tantas vezes, saímos das nossas reuniões e das nossas celebrações eucarísticas cabisbaixos, intranquilos, de semblantes tristonhos e ar irritado? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de esperança, de confiança em Deus?

• O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos de Filipos – e aos cristãos de todas as épocas e lugares – que não se esqueçam, no seu projeto de vida, desses valores humanos que todos os homens de boa vontade apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a lealdade, a tolerância, a responsabilidade, a integridade… Esses valores são os alicerces fundamentais da nossa convivência em sociedade e constam, de alguma forma, da proposta de Jesus. Ouve-se, por vezes, dizer que “os que vão à igreja são piores do que os outros”. Trata-se de uma expressão que vale o que vale e que poderá, simplesmente, servir a muitos de justificação para não se envolverem na comunidade cristã… Mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos? Tratamos aqueles que se cruzam connosco – em casa, no trabalho, no trânsito, nos encontros sociais – com bondade, com compaixão, respeitando os seus direitos e a sua dignidade? Quem contacta as receções das nossas igrejas ou das nossas casas religiosas, encontra sempre simpatia, compreensão, amabilidade, verdade, coerência?

• Paulo pede aos filipenses que incluam no seu projeto de vida diversos valores que os moralistas gregos da sua época apreciavam e propunham. Paulo não rejeitava, à priori, aquilo que a cultura ambiente oferecia; mas mantinha um olhar crítico e procurava discernir o que era positivo e o que era negativo, o que podia ser acolhido e aquilo que era incompatível com o seguimento de Jesus. Ora, esta posição de Paulo pode servir de ponto de partida para refletir sobre a forma de nos posicionarmos face aos valores que a sociedade do nosso tempo nos propõe. Não podemos, simplesmente, olhar o mundo com desconfiança, esconder-nos atrás dos nossos muros fortificados e atirar lá para fora condenações, catalogar como “mau” e “pecaminoso” tudo aquilo que a sociedade nos oferece a propõe… O que é necessário é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos faz bem e aquilo que nos faz mal, aquilo que nos liberta e aquilo que nos escraviza, aquilo que não é incompatível com a nossa fé e aquilo que ameaça o programa de vida que elegemos enquanto seguidores de Jesus. Como é que nos relacionamos com o mundo que nos rodeia e como consideramos os valores que a cultura ambiente nos propõe?

ALELUIA – cf. João 15,16

Aleluia. Aleluia.

Eu Vos escolhi do mundo, para que vades e deis fruto,
e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor.

EVANGELHO – Mateus 21,33-43

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos,
em maior número que
os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
‘Respeitarão o meu filho’.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
‘Este é o herdeiro;
matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
‘A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus
e dado a um povo que produza os seus frutos».

CONTEXTO

Estamos em Jerusalém, um dia depois de Jesus ter entrado triunfalmente na cidade (cf. Mt 21,1-11) e de ter denunciado o comércio que transformava a templo em “covil de ladrões” (cf. Mt 21,12-17). A cada hora que passa aumenta a tensão entre Jesus e os líderes religiosos judaicos. Os sacerdotes e os doutores da Lei já decidiram, do alto das suas certezas absolutas, que o reino de Deus anunciado por Jesus é incompatível com o sistema religioso vigente. No universo religioso que eles representam e que se cristaliza à volta do templo de Jerusalém, não há espaço para o projeto de Jesus. Portanto, aquele profeta recém-chegado da Galileia tem de ser silenciado. Adivinha-se, no horizonte próximo de Jesus, a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus está plenamente consciente do destino que lhe está reservado, mas enfrenta os dirigentes e condena implacavelmente a sua recusa em acolher o Reino.
O texto que nos é proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), propostas por Jesus, que ilustram a recusa de Israel em aceitar o projeto de salvação que Deus oferece aos homens. Ao propô-las, Jesus convida os líderes religiosos judaicos a reconhecer que se fecharam num esquema de autossuficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração aos desafios de Deus. O texto que o Evangelho deste domingo nos oferece é a segunda dessas três parábolas.
A história que nos vai ser narrada compreende-se melhor à luz da situação sócio-económica da Galileia daqueles tempos… A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades. Esses latifundiários utilizavam vários sistemas para a exploração das suas terras; mas uma das formas preferidas de exploração da terra (precisamente porque, para o latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do latifúndio, em troca de uma parte substancial dos produtos recolhidos. Os que arrendavam as terras eram, geralmente, camponeses que tinham perdido as suas próprias terras devido à pressão fiscal ou às más colheitas. Estes camponeses viviam numa situação periclitante: depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos e a parte que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentar a eles e às suas famílias. Em anos agrícolas maus, este esquema significava a miséria absoluta… Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de impostos. A “parábola da vinha” encaixa neste cenário.

MENSAGEM

A parábola contada por Jesus coloca-nos no mesmo ponto de partida da “parábola da vinha”, alguns séculos antes contada pelo profeta Isaías (cf. Is 5,1-7): um proprietário de terras plantou uma “vinha”, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre (cf. Mt 21,33a). Trata-se de um homem
A partir daqui, no entanto, a parábola de Jesus afasta-se um pouco da parábola de Isaías… Na versão de Jesus, o proprietário não explorou diretamente a “vinha”, mas confiou-a a uns “vinhateiros” que deviam, cada ano, dar ao dono da terra uma determinada percentagem dos frutos produzidos (cf. Mt 21,33b). No entanto, quando os “servos” do “senhor” apareceram para recolher a parte que pertencia ao seu amo, foram maltratados e assassinados pelos “vinhateiros” (cf. Mt 21,34-36); e o próprio filho do dono da “vinha”, enviado pelo pai para chamar os “vinhateiros” à responsabilidade e ao respeito pelos compromissos, foi assassinado (cf. Mt 21,37-39).
A “vinha” a que Jesus se refere na parábola é Israel, o Povo de Deus. O proprietário da “vinha” é Deus. Os “vinhateiros” são os líderes religiosos judaicos – aqueles a quem Deus confiou o cuidado da Sua vinha e encarregou de fazer com que ela produzisse frutos. Os “servos” enviados pelo “senhor” são os profetas que os líderes da nação tantas vezes perseguiram, apedrejaram e mataram. O “filho do proprietário”, morto “fora da vinha”, é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém.

A “parábola da vinha”, tal como Jesus a contou, expõe um quadro de uma gravidade extrema. Os “vinhateiros” não só não entregaram ao “senhor” os frutos que lhe deviam, mas enveredaram por um caminho de total confronto com o verdadeiro proprietário da “vinha”: maltrataram e apedrejaram os servos enviados pelo “senhor” e assassinaram-lhe o filho.
Chegado aqui, Jesus interpela diretamente os seus ouvintes: “quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?” (cf. Mt 21,40). Os sumo sacerdotes e os fariseus que rodeiam Jesus respondem sem hesitação: “mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo” (Mt 21,41). Ainda não tinham percebido, por essa altura, o alcance da parábola e que os “vinhateiros” maus de que Jesus falava eram eles próprios. Provavelmente, a parábola original, contada por Jesus, terminava aqui, com esta resposta.

Contudo, a comunidade cristã primitiva refletiu longamente sobre a questão colocada por Jesus e incluiu, na versão final da parábola, as conclusões a que chegou. Na perspetiva dos primeiros catequistas cristãos, a resposta de Deus à recusa de Israel foi dada em dois movimentos. Em primeiro lugar, Deus ressuscitou o “filho” que os “vinhateiros” mataram, glorificou-o e constituiu-o “pedra angular” de uma nova construção (cf. Sl 118,22-23), de um novo projeto; em segundo lugar, Deus decidiu retirar a “vinha” das mãos desses “vinhateiros” maus e ingratos e confiá-la a outros “vinhateiros”, a um povo que fizesse a “vinha” produzir bons frutos e que entregasse ao “senhor” os frutos a que ele tem direito.
Ao evangelista Mateus, no entanto, mais do que a glorificação do filho do “senhor” – ressuscitado, exaltado e colocado como pedra angular da nova construção – interessa a questão da entrega da “vinha” a um outro povo, a um povo que não defraude as expetativas de Deus, que produza frutos e que os apresente, em seu devido tempo, ao proprietário da “vinha”.
Ao sublinhar esta segunda dimensão, Mateus tem em vista uma dupla finalidade. Em primeiro lugar, ele pretende explicar porque é que, na maior parte das comunidades cristãs, os judeus – os primeiros trabalhadores da “vinha” de Deus – eram uma minoria: eles recusaram-se, enquanto povo, a oferecer frutos bons ao “senhor” da “vinha” e declinaram sempre as tentativas do “senhor” no sentido de uma aproximação, de um compromisso, de um entendimento; em consequência, o dono da “vinha” escolheu outros “vinhateiros”, gente de outras paragens e de outros horizontes. O que é decisivo, na perspetiva de Deus, não é que os trabalhadores da “vinha” sejam judeus ou não judeus; o que é decisivo é que eles estejam dispostos a oferecer ao proprietário da “vinha” os frutos que lhe são devidos e a acolher o “filho” que esse “senhor” lhes enviou. Em segundo lugar, Mateus pretende exortar a sua comunidade a produzir frutos bons, frutos que agradem ao “senhor” da “vinha”. Na época em que Mateus compõe o seu Evangelho, tratava-se de uma mensagem bem pertinente: tinham passado mais de cinquenta anos desde a morte de Jesus; o entusiasmo inicial tinha-se desvanecido e a comunidade mateana caminhava acomodada, instalada num cristianismo sem exigência e sem chama; era necessário despertar os discípulos de Jesus e colocá-los novamente na rota do seguimento do Mestre… Mateus propõe-se lembrar aos cristãos do seu tempo – e aos discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares – que Deus espera deles frutos de justiça, de paz, de partilha, de solidariedade, de bondade, de perdão, de misericórdia, de amor sem limites: os frutos do reino de Deus.

INTERPELAÇÕES

• Seria demasiado redutor explicar a “parábola da vinha” a partir da situação particular do povo de Israel e ficarmo-nos por aí, como se ela não tivesse nada a ver connosco… Esta parábola dirige-se a nós, provoca-nos, e deve continuar, a cada momento a desafiar-nos, a incomodar-nos, a confrontar-nos com a nossa autossuficiência, com a nossa passividade, com o nosso facilitismo, com a nossa indiferença, com os nossos desvios, com a nossa incoerência, com a nossa preguiça, com os nossos preconceitos, com a nossa instalação em certezas absolutas, com a nossa acomodação a situações dúbias, com a nossa falta de compromisso com o reino de Deus, com a maneira morna como sentimos e vivemos a fé… Quais são os frutos que Deus espera de nós? E quais são os frutos que realmente produzimos? O nosso compromisso com a construção do reino de Deus é sincero? Estamos empenhados em construir um mundo mais justo, mais humano, mais verdadeiro, mais pacífico, mais fraterno? Somos esse povo novo que Jesus pretende ver dedicado a produzir os frutos do reino de Deus, ou estamos dececionando a Deus?

• Na “parábola da vinha”, Jesus refere o envio, da parte Deus, de “servos” que receberam a incumbência de confrontar os trabalhadores da “vinha” com as suas responsabilidades e de solicitar-lhes a entrega dos frutos que são devidos ao dono da “vinha”. Ao longo de toda a história da salvação, foi através desses “servos” – os profetas – que a voz de Deus ecoou no mundo, questionou os homens e lhes recordou as suas obrigações e os seus compromissos… No entanto, esses enviados de Deus nunca tiveram uma vida fácil: experimentaram a rejeição, a recusa, o descrédito, a indiferença, e alguns até mesmo a tortura e a morte (cf. 1Re 19; Jr 38,1-13; 2Cr 24,20-21). Trata-se de uma história que ainda não terminou, pois Deus continua a enviar-nos os seus profetas; e o mundo continua a ignorá-los, a ridicularizá-los, a maltratá-los, a tentar silenciá-los. Como acolhemos esses homens e mulheres que Deus nos envia e que nos questionam sobre a forma como estamos a construir o nosso mundo? Que crédito damos a esses “servos” de Deus? Sentimo-nos também nós, de alguma forma, enviados de Deus a questionar o mundo e a lembrar aos homens as suas responsabilidades para com Deus e para com os irmãos?

• Na história contada por Jesus, os “vinhateiros” chegaram ao cúmulo de matar o “filho” do dono da vinha. Os “vinhateiros” pretendiam “herdar a vinha”, libertar-se de qualquer tutela, serem total e absolutamente senhores do seu destino; e aquele “filho” do “proprietário da vinha” constituía um obstáculo para as ambições que alimentavam. Não andamos longe das formulações de alguns filósofos recentes que, para afirmar a autonomia e a liberdade do homem, decretaram a “morte de Deus”: é preciso “matar Deus” para que nasça o verdadeiro homem, o homem emancipado, o homem definitivamente libertado das velhas e anquilosadas superstições religiosas. No entanto, após alguns anos, começamos a perceber que a proclamada “morte de Deus”, em lugar de emancipar o ser humano, ameaça aniquilá-lo… Esse homem pretensamente libertado da tutela de Deus, tornou-se escravo das suas neuroses, das suas angústias, dos seus medos, das suas fragilidades, da sua vulnerabilidade, da sua incapacidade de, por si só, dar pleno sentido à sua existência. Onde nos conduz uma existência sem Deus ou à margem de Deus? Seremos realmente mais livres e mais felizes se tivermos eliminado Deus das nossas vidas?

• Aquele “filho” lançado fora da “vinha” e assassinado pelos “vinhateiros” tornou-se a “pedra angular” de uma nova construção, de um novo projeto, do projeto do reino de Deus. A “pedra angular” era o elemento estrutural e de suporte principal em construções antigas. Para nós – os que pertencemos à comunidade do reino de Deus – Jesus (o “filho” de Deus assassinado pelos líderes judaicos fora das muralhas de Jerusalém) é de facto a nossa referência fundamental, a “pedra angular” à volta da qual vamos edificando o nosso projeto de vida? Qual o lugar de Jesus na nossa existência? Que “peso” e que importância têm as palavras e os gestos de Jesus na maneira como vivemos? Os valores propostos por Jesus são os nossos valores de referência? O Evangelho proposto por Jesus é a “magna carta” da nossa vida?

• Na “parábola da vinha” fala-se de “vinhateiros” que se apossaram da “vinha” e que pretendem fazer da “vinha” a sua propriedade particular. Não reconhecem a autoridade do “dono da vinha”, recusam entregar os frutos e honrar os compromissos assumidos, agem com uma arrogância inaudita, exercem violência para salvaguardar as suas pretensões egoístas, subvertem a justiça, o direito e a legalidade… Estes maus “vinhateiros” serão figuras “improváveis”, que aparecem apenas numa parábola com dois mil anos mas que não cabem na realidade do nosso mundo e das nossas comunidades civis ou religiosas? Ou são figuras que encontramos frequentemente, que conhecemos bem e que acrescentam a cada instante violência, sofrimento e morte à história dos homens? Que pensamos desses “vinhateiros” que põem o mundo a girar à volta deles próprios, que se revelam intransigentes e arrogantes para com os humildes, que impõem ao mundo as suas decisões arbitrárias e os seus projetos megalómanos, que não têm em consideração o bem comum? O que podemos fazer – na política, na sociedade, na Igreja – para impedir esses “vinhateiros” de continuarem a manter-nos a todos reféns dos seus interesses e esquemas?

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 27.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 27.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
Seria bom rezar hoje a Oração Eucarística IV, que traça a história da salvação e concorda com os textos deste domingo (evocação do amor de Deus pelo seu povo, do Antigo Testamento à Igreja).

3. PALAVRA DE VIDA.
Não podemos criticar o proprietário da vinha, posto em cena por Jesus numa parábola, por ter negligenciado a sua vinha: ele trata da vinha com todos os cuidados… Não podemos criticar a sua paciência e a sua perseverança para com os vinhateiros: ele envia os seus servidores que são lapidados, envia outros que têm o mesmo destino e, enfim, envia o seu próprio filho, pensando que ele seria respeitado. Evidentemente, pensamos em Deus que toma cuidado do seu Reino e que envia até o seu próprio Filho. E nós, de que lado nos situamos? Jesus foi-nos enviado… Que fizemos do seu mandamento de amor? Foram-nos enviados mensageiros… Escutámo-los? O Reino de Deus não é devido, é-nos confiado. Esperando que não nos seja retirado…

4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
Uma oferenda dos frutos da terra. Hoje, ou num dos domingos de Outubro, pode desenrolar-se durante a celebração uma oferenda dos frutos da terra: frutos, legumes, flores… No final da celebração, pode-se partilhar os dons oferecidos.

5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Escolher um “fruto”. Ao deixarmos a celebração, podemos escolher um “fruto” possível para produzir nesta semana: um gesto ou uma palavra de reconciliação em relação a alguém; uma partilha com um vizinho necessitado; ou uma iniciativa que pareça ainda mais gratuita e que traga alegria. Para os mais empenhados na vida espiritual: em cada dia, produzir um fruto de amor!

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org

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