Madalena – sobreviver à perda

Como Maria Madalena, todos nós já passámos por lutos ou perdas… A Páscoa começa no lugar onde tudo parece ter terminado. Maria Madalena representa o ground zero da Páscoa. Ao regressar ao sepulcro – palavra “martelada” até à exaustão nos nossos ouvidos no episódio narrado pelo evangelista João – ela procura um corpo morto. Vai ao sepulcro porque o amor ainda não aceitou a ausência.

David Kessler, especialista em luto, descreve muito bem esta situação em que o sujeito vive num mundo onde a realidade perdeu coerência: procura do passado; repetição dos gestos antigos; incapacidade de reconhecer o novo; choro como linguagem da alma. Quem viveu uma perda reconhece este movimento interior: o cemitério torna-se o último ponto de ligação com aquilo que já não existe.

A Páscoa começa aqui: não na fé, mas na perda, no luto. João descreve o ambiente: era madrugada, ainda muito escuro (Jo 20,1). Não é apenas uma indicação horária. É um estado interior. Maria Madalena move-se dentro da noite escura para regressar ao lugar onde a ilusão terminou.

Assim, o mundo perdeu coerência. Quando há uma grande perda, não é apenas algo que desaparece, é o próprio sentido do real que vacila. Maria chora diante do túmulo vazio e, mesmo que os anjos lhe falem, ela não compreende. Mesmo quando Jesus está diante dela, ela não O reconhece. Porque o luto altera a perceção.

O psicólogo americano David Kessler acrescentou algo decisivo ao conhecido modelo das etapas do luto: depois da negação, da raiva, da negociação, da depressão e da aceitação, existe ainda uma sexta etapa – o sentido. Não o sentido para a perda. Mas o sentido, apesar da perda. A perda não é uma lição enviada para nos ensinar algo; não é um castigo; não é uma prova espiritual; não é uma bênção disfarçada. A perda é simplesmente aquilo que acontece na vida frágil.

E Maria Madalena não está ali para aprender nada. Está ali porque ama, porque perdeu. A fé cristã não começa explicando o sofrimento. Começa reconhecendo-o.

Maria procura Jesus onde Ele já não está. E esse erro é essencial.

Quem ama procura sempre no passado aquilo que o futuro ainda não revelou. O luto fixa o sujeito numa pergunta impossível: Onde está Aquele que perdi? Por isso ela insiste: «Levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.»

Curioso: não diz o Senhor. Diz o meu Senhor. A perda é sempre singular. Ninguém sofre de forma genérica. Por isso, Kessler diz que, para o trabalho de escuta empática de lutos e perdas, nós não podemos comparar lutos. E mais: do ponto de vista do enlutado, teremos mesmo de abandonar as expetativas que temos de que os outros possam compreender a fundo o nosso luto.

Como diz a Clarice Lispector: “Escuta-me, escuta o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo, mas outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e, no entanto, vivo dela.”

A escuta empática poderá ajudar a compreender que a Páscoa nasce exatamente neste ponto psicológico: quando o sujeito percebe que não pode regressar ao que existia antes.

O Ressuscitado não é a restituição do passado. É uma forma nova de presença que leva a novas atitudes nesse que integrou a experiência do luto. O vínculo renasce de outra maneira. O amor não terminou – mudou de forma.

Encontrar sentido não significa justificar a perda, mas permitir que ela se torne fecunda. Com Jesus, Maria Madalena é a primeira a atravessar esta passagem. Ela chega como enlutada. Parte como enviada.

Muitas pessoas vivem hoje junto a sepulcros invisíveis: perdas afetivas, falências interiores, doenças, projetos interrompidos, versões antigas de si mesmas que já não existem.

E frequentemente acrescenta-se uma segunda dor: a ideia de que deveriam aprender alguma coisa rapidamente, crescer espiritualmente, encontrar uma explicação.

A fé começa quando alguém, ainda a chorar, escuta o próprio nome pronunciado no meio da ausência.

Porque a Páscoa começa sempre assim: num sepulcro, numa procura sem sentido e num amor que se recusa a abandonar.

Pe. Humberto Martins, scj