A Ressurreição prolonga a mesa

“Em verdade vos digo que não voltarei a beber do fruto da videira até aquele dia em que o beba novo no Reino de Deus.” (Mc 14,25)
Há pessoas que continuam a sentar-se à mesa, mas já não esperam ninguém. A mesa está posta. Os lugares ocupados. As conversas repetem-se. Tudo está em ordem. Mas já não se espera nada de novo.

Mas há pessoas que deixam uma cadeira vazia à mesa para receber um viajante que chegue improvisamente. A esperança talvez seja isso: deixar um lugar livre para alguém que ainda não chegou. E, quando esse alguém chega, tudo se transforma. Tudo ganha sentido!
O grande pensador Auerbach interpreta esta promessa de Jesus: “Vou à vossa frente a preparar-vos um lugar”, assim: “não poderia ter este significado: vou habituar o Pai, a Divindade, ao humano, com todo o seu peso, com toda a sua laceração e incompletude. Com toda a sua tormentosa e trágica graça?” (Erich Auerbach, Mimesis). Quem sabe se não será este o vinho novo do Reino?

A Ressurreição é precisamente esse primeiro sabor do vinho novo do Reino.

Na partida, Jesus deixa uma refeição. E uma refeição que fica em aberto.

A Eucaristia une duas mesas: a Ceia e a mesa do Reino. Entre ambas existe uma promessa que a Ressurreição inaugura e que o Reino consumará.

A Ressurreição prolonga a mesa. Deixa-a em aberto.

Se repararmos, o Ressuscitado aparece frequentemente à mesa: Emaús; o peixe assado junto ao lago; os encontros com os discípulos. Eis: a comensalidade continua.

A Eucaristia não fecha Deus dentro de um objeto.
Não recebemos um Corpo acabado.
Recebemos um Corpo que nos recebe dentro de si.
Não comungamos apenas Cristo.
Fomos comungados por Cristo.
E a mesa continua posta.
A Ressurreição é a convicção de que ainda vale a pena deixar uma cadeira vazia à mesa.

Pe. Humberto Martins