A integração do medo da morte

Se as outras testemunhas do Ressuscitado representam processos de reconhecimento progressivo, Estêvão representa algo ainda mais radical: a transformação da relação humana com a morte.

Nos Atos dos Apóstolos, Estêvão não é apenas o protomártir. Ele é o primeiro homem psicologicamente ressuscitado.

O livro dos Atos insiste, com alguma frequência, numa palavra decisiva: parrésia (ousadia, liberdade interior, destemor). Não é coragem moral. Não é heroísmo voluntarista. É outra coisa: a liberdade de quem já não precisa proteger a própria vida. Aqui acontece uma mutação psíquica profunda. Antes da ressurreição, o medo da morte organiza o comportamento humano: protegemos reputações, defendemos posições, evitamos conflitos, negociamos a verdade.

Estêvão rompe essa lógica. Ele fala sem cálculo. Não porque despreze a vida, mas porque a morte deixou de ser o centro da consciência.

O psiquiatra existencial Irvin D. Yalom afirma algo que ilustra bem este processo: o confronto real com a morte desperta a autenticidade humana. A maioria das pessoas vive em negação funcional da morte. Essa negação produz inverdade, superficialidade, ansiedade difusa, necessidade de aprovação, medo da perda. Mas quando a morte é integrada, ocorre uma reorganização interior: as prioridades tornam-se claras, a verdade torna-se urgente, o amor e a reconciliação tornam-se possíveis.

Estêvão já vive nesta segunda condição. Ele não procura sobreviver psicologicamente.

Ele vive inteiramente presente. A ressurreição não elimina a morte. Elimina o seu poder psicológico desintegrador.

Por seu lado, o antropólogo Ernest Becker constatou que a cultura humana constrói sistemas simbólicos para fugir ao terror da morte. Quando esses sistemas são ameaçados, surge violência, porque quem lembra a mortalidade torna-se perigoso. E Estêvão faz exatamente isso. A sua “homilia” (At 7) desmonta as seguranças religiosas, relativiza o Templo, mostra Deus em movimento na história. Ele retira ao sistema religioso a sua função psicológica de defesa contra a morte.

Na obra de Lucas, as homilias têm o condão de provocar estas reações violentas nos ouvintes.

Resultado inevitável: a comunidade precisa de o eliminar. Estêvão torna-se o bode expiatório, não por erro teológico, mas por revelar uma verdade existencial insuportável. Estêvão morre por uma interpretação da história. A sua leitura bíblica afirma que Deus nunca esteve preso a instituições; Deus desloca-se, precede sempre o povo. Ora, isso destrói a segurança religiosa baseada no controlo do sagrado.

Psicologicamente, a multidão reage como quem sente ameaçada a própria identidade. A violência nasce do medo. E quem teme desaparecer precisa de eliminar ameaças; quem teme perder-se precisa de controlar o outro e até o mundo.

Mas Estêvão já não responde dentro dessa lógica. Estêvão espelha o estado psíquico do mártir (palavra, porventura, hoje, muito banalizada): o não-violento que até reza pelos agressores, sem cair em leituras nominalistas da história. Não é êxtase emocional. É integração da finitude. A ressurreição produz algo psicologicamente inaudito: a capacidade de não odiar diante da destruição pessoal. Não é moralidade superior. É liberdade ontológica.

E nesse momento surge a maturidade espiritual plena. Ele já vive segundo a lógica pascal: a vida não precisa de defender-se para ser verdadeira.

Estêvão pertence a uma nova etapa espiritual. Não espera o fim do mundo para que Deus vença. Ele vive como se o fim já tivesse acontecido; o Julgamento Final já começou na consciência; a ressurreição já redefine a existência; o medo milenarista desaparece; a esperança deixa de ser fuga para a frente; torna-se modo presente de existir.

Padre Humberto Martins, scj