“Há uma fenda, uma fenda em todas as coisas. É por aí que entra a luz.” (Leonard Cohen).
Há em mim uma atração magnética na contemplação da cruz dehoniana. Alimenta em mim uma mística da saudade.
Habitualmente a espiritualidade do Coração de Jesus foi construída em torno de imagens de plenitude: “amor infinito”; “misericórdia infinita”; “coração ardente”.
E na cruz dehoniana, o cinzelar a fenda do lado aberto que possibilita espreitar para o outro lado, está um vazio.
Vazio não é a mesma coisa que nada. O nada é ausência absoluta, não promete encontro, dissolve o sentido, gera niilismo. O nada engole, é a voragem moderna: tudo é equivalente, tudo é descartável, nada permanece.
O vazio é outra coisa. Não é inexistência. É ausência habitada, perpassada pela saudade, espaço deixado por uma presença amada. O vazio não diz: não há ninguém; diz “não está aqui”… vai à nossa frente.
O vazio do coração cristão não é uma ausência anónima. Tem a forma de uma ferida. Nasce daquele lado aberto do Crucificado onde Deus se deixou vulnerável à nossa história.
Muitas vezes reduziu-se Dehon à reparação entendida de forma devocional. Mas o centro da sua intuição era outro: entrar no movimento de entrega do Cristo de Coração aberto.
Reparar não significa preencher uma falta de Deus. Significa habitar as feridas da história com a mesma disponibilidade com que Cristo as habitou.
Ao longo destas nossas reflexões o Ressuscitado sempre esteve precisamente na forma de ausência. Maria Madalena procura um corpo. Os discípulos de Emaús perdem-no quando o reconhecem. Tomé espreita o Lado Aberto. O Corpo de Cristo permanece, mas já não pode ser possuído.
O mesmo acontece na Trindade. A tradição oriental insiste que cada pessoa divina existe dando espaço à outra. No centro da vida divina não é a posse. É a hospitalidade.
E então o coração vazio da cruz torna-se imagem trinitária.
E se o Corpo de Cristo é agora a Igreja, então também ela deve aprender a existir segundo esta lógica. Não como sistema fechado. Não como totalidade completa. Mas como ponte pênsil.
O Corpo de Cristo continua a existir na história porque permanece ferido, trespassado, aberto sem portagens.
A Igreja é uma história aberta porque nasce de um coração aberto. Uma Igreja chamada a ir às periferias.
Estamos hoje a ver “teologizar” em figuras improváveis como JD Vance e Peter Thiel… Porque esta “necessidade” de teologia, precisamente aqui num ambiente tão “desprovido de competência”?
Talvez porque existe algo que resiste à lógica da totalidade tecnológica. Algo que escapa ao poder das nossas mãos e da nossa inteligência.
A tecnologia promete preencher o vazio. A espiritualidade do Coração de Jesus ensina a habitá-lo.
Thiel procura uma salvação produzida pelo próprio poder humano e tecnológico. A espiritualidade do Lado Aberto sugere que permanece uma inquietação que a técnica não consegue absorver completamente.
O coração humano não sofre por lhe faltar alguma coisa. Sofre porque foi criado para acolher uma alteridade que não pode fabricar.
O Papa Francisco não se cansava de falar de uma “mudança de época”.
O desafio do Coração de Jesus já não é hoje combater o racionalismo do século XIX.
É testemunhar que nem sequer uma civilização capaz de produzir inteligência artificial, engenharia genética ou prolongamento radical da vida consegue eliminar o vazio constitutivo do humano.
Não porque esse vazio seja um defeito.
Mas porque é o lugar da relação.
Padre Humberto Martins, scj
Conclusão deste ciclo de reflexões
Durante semanas contemplámos o Ressuscitado.
Procurávamos uma presença. Descobrimos uma ausência habitada.
Contemplámos a Trindade. Procurávamos uma definição. Descobrimos um espaço dado ao outro.
Contemplámos a Igreja. Procurávamos uma instituição. Descobrimos uma história ainda em curso.
E chegamos agora ao Coração de Jesus. Procurávamos um símbolo. Descobrimos uma ferida.
Porque talvez o coração aberto de Cristo seja o lugar onde Deus nos revela o seu segredo mais profundo: Deus não se revela ocupando o vazio humano. Revela-se habitando-o.