À medida que L. Dehon se aproxima dos 80 anos, os cadernos das Notes Quotidiennes assumem cada vez mais o caráter de uma apologia institucional – um esforço sistemático para estabelecer a “origem divina” da Obra SCJ para além de qualquer dúvida razoável. Ele consegue isso através de uma estratégia de reformulação retrospectiva: as provações institucionais do passado são apresentadas não como evidência de fracasso, mas como etapas necessárias num desígnio providencial.
A supressão da congregação em 1883 pela autoridade diocesana é reformulada como uma “crucificação” – o “Consummatum est” – que precede e garante uma “ressurreição”. O sofrimento da congregação é interpretado como um selo divino de autenticidade, em vez de um julgamento divino de inutilidade.
Em outubro de 1924, ao refletir sobre o aniversário da morte do P. Modeste – “um dos nossos principais conselheiros e colaboradores dos primórdios” –, L. Dehon apresentou uma das suas descrições mais completas do que chamou de “fundamentos divinos da Obra”, organizada em sete séries. A primeira, que “por si só bastaria”, é a sequência de aprovações eclesiásticas: pelo Bispo de Soissons em 1877; pela Santa Sé como congregação diocesana em 1884; pelo decretum laudis de 25 de fevereiro de 1888; pela aprovação definitiva do Instituto em 1906; pela aprovação das Constituições em 1923; e pela bula papal do mesmo ano elogiando o zelo de L. Dehon, “seja incitando o povo a professar a fé, seja exercendo a caridade, seja, finalmente, fatigando-se na pregação e no cuidado de escrever livros”. L. Dehon anota com profunda emoção: «foi, de facto, a obra de Deus que foi assim louvada, encorajada e aprovada pela sua Igreja».
A segunda série, tal como Dehon a relata, é “a resposta que a Providência deu” ao seu voto de vítima feito em 28 de junho de 1878: a perda da saúde; o sacrifício da Irmã Marie de Jésus para salvar a sua vida; a perda de uma herança de 800.000 francos devido a um processo judicial injusto; o incêndio no Colégio São João em 1881; a angústia da alma; e a perda de prestígio em São Quintino em 1882–1883. “O Padre Rasset comparava o meu estado ao de Job”, observa ele discretamente. Outras séries incluem a ação mística através das “luzes de oração” da Irmã Ignace (1878–1882); os encorajamentos de almas ilustres, tais como Dom Bosco, o Padre Modeste e a Madre Véronique; e a fundação de duas congregações de Irmãs que partilham a mesma espiritualidade, confirmando assim o carisma a partir do exterior.
A aprovação definitiva das Constituições por Pio XI, em 1923, representa o “clímax narrativo” deste projeto apologético: o momento em que a identidade da congregação passa definitivamente da autoridade carismática pessoal do fundador para a autoridade jurídico-institucional de um texto aprovado. A “defesa jurídico-espiritual” fica assim completa, e o autor pode preparar a sua partida em paz, tendo assegurado a Obra contra as contingências da sua própria mortalidade.
Extraído do contributo da
Comissão Teológica Dehoniana Europeia
ao VII Seminário Teológico em Taubaté (Brasil)




