O mal-entendido que provoca uma rutura de identidade

Se as primeiras testemunhas da Ressurreição mostram formas de reconhecimento, Saulo de Tarso revela algo mais radical: a transformação da própria estrutura da consciência.

Com Saulo ocorre algo novo. Ele não procura o Ressuscitado. Ele resiste-lhe. Saulo pensa defender Deus, ao perseguir cristãos. O encontro revela-lhe que perseguia o próprio Cristo. Aqui não há reconhecimento progressivo. Há rutura da identidade.

A experiência na estrada de Damasco não é apenas conversão moral. É colapso do sistema interior/anterior: as crenças, a missão, a autoimagem e a segurança espiritual. A antiga consciência de si torna-se inviável.

O psiquiatra Stanislav Grof descreve estas crises transformativas: perda de orientação, desintegração do self, experiência de morte simbólica e emergência de nova identidade.

Por isso, a cegueira simboliza uma suspensão da interpretação anterior do mundo, silêncio interior e incubação de um novo olhar. Antes de ver de novo, Paulo precisa deixar de interpretar o mundo segundo o antigo paradigma.

A cegueira é uma pedagogia ontológica. Ele já não pode confiar no regime antigo de perceção.

A Páscoa começa com um não ver. Tal como Maria Madalena e os dois de Emaús e Pedro… Na verdade, o Ressuscitado inaugura um modo novo de perceber o real.

A Páscoa passa por um momento de não saber quem se é.

No processo de Paulo, Ananias torna-se indispensável. Nenhuma transformação profunda é puramente individual. Paulo não passa por um processo de autoajuda. A nova identidade nasce mediada pelo outro, de uma interpretação inter-relacional. A experiência interior precisa de reconhecimento comunitário para não se perder. Com Ananias (e, mais tarde, Barnabé), a crise torna-se vocação.

E a passagem do nome Saulo para Paulo expressa esta reorganização narrativa do eu. Não é rejeição do passado, mas a sua integração num centro novo. Paulo não abandona o zelo; o zelo muda de objetivo.

Com Paulo compreendemos algo decisivo: a Ressurreição não consiste apenas em reconhecer Jesus vivo. Consiste em tornar-se alguém novo porque Ele vive em nós: “Já não sou eu que vivo.”

A experiência pascal atinge o núcleo da consciência. Não altera uma crença. Altera, isso sim, o princípio organizador da existência.

Na estrada de Damasco, Saulo não procurava Deus. Ele pensa estar a defender a verdade, a proteger a tradição e a combater uma heresia. Mas acontece a inversão absoluta: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” Talvez, aqui ocorra a correção do maior equívoco teológico do Novo Testamento! Saulo acreditava perseguir uma doutrina e descobre que, afinal, perseguia uma Pessoa. O erro não é moral – é ontológico. E perseguir uma Pessoa pode até terminar com a reconfiguração da própria vida por causa dessa mesma pessoa!

Aqui encontramos algo que dialoga surpreendentemente com a psicologia narrativa contemporânea: o sujeito não muda apenas de ideias; ele muda a história que conta sobre si próprio. É pouco a Ressurreição provar que Jesus voltou; é mais importante ela mostrar uma reorganização de quem encontra o Ressuscitado.

Por isso, Paulo não diz: “Eu encontrei uma nova ideia”. Talvez esteja a dizer: “Eu desci à zona mais sombria da minha existência, porque Aquele que me fez perder a visão me possibilita um novo olhar do real”.

A Ressurreição não começa com uma prova, mas com uma transformação. Eis: quando Cristo é encontrado, não muda apenas aquilo em que acreditamos; muda aquele que acredita. Crer na Ressurreição não é afirmar que algo extraordinário aconteceu apenas a Jesus, mas que o mundo foi atravessado por vida nova. E a fé é começar a ver tudo de uma outra maneira.

Padre Humberto Martins