A Trindade que passa pela Ressurreição

O Ressuscitado abre-nos espaço dentro da comunhão de Deus

Talvez nenhuma palavra cristã tenha ficado tão distante da vida comum como “Trindade”.

Durante séculos, transformámo-la num quebra-cabeças teológico, numa espécie de problema matemático divino…

O Papa Francisco lembra que a linguagem da fé “procura comunicar cada vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado”, sem medo de “sujar-se com a lama da estrada” (EG 45).

Parece-me sábia esta forma de dizer nas entrelinhas, observando o que não se pode focar, advertindo-o pelo “canto do olho”.

Santo Agostinho diz: “Se nos perguntarmos o que são estes Três, temos de reconhecer a extrema insuficiência da linguagem humana. É certo que se responde: ‘três pessoas’, mas mais para não ficarmos sem nada dizer do que para expressar essa realidade” (De Trinitate, V, 9, 10).

Uma das coisas mais curiosas ditas precisamente “mais para não ficarmos sem nada dizer do que para expressar essa realidade”, e que é a Trindade, e que eu encontrei nestes últimos tempos, é “A Cabana” de William Paul Young. É um romance leve de se seguir e que eu aconselho. O enredo veio a dar um filme com o mesmo nome.

A história acompanha Mack, um pai marcado pela violência do passado e pela tragédia do desaparecimento e assassinato da sua filha mais nova. Consumido pela culpa, pela revolta e pela sensação de abandono de Deus, Mack entra numa profunda crise espiritual.

Anos mais tarde, ao revisitar a cabana onde a sua filha desaparecera, onde ainda se podem ver as marcas da violência perpetrada contra a menina, Mack encontra-se com Deus-Trindade representado de forma profundamente humana e surpreendente, em diálogo com as questões clássicas do sentido: “Onde está Deus no sofrimento?”; “Porque existe o mal?”; “Como perdoar o imperdoável?”; “O que significa amar verdadeiramente?”; “Porque tendemos a transformar Deus em juiz e controlador?”.

Talvez o maior pecado da religião tenha sido transformar a Trindade num quebra-cabeças teológico, quando ela é, antes de tudo, uma experiência.

Deus não é um indivíduo solitário no céu.

Deus é mesa comum. É convivialidade, como com Maria, Mãe da Igreja e com os discípulos “no andar de cima” (At 1,12-14).

Deus é relação: espaço onde cada um existe para o outro sem deixar de ser diferente.

Pela Ressurreição, é criado espaço para o humano entrar dentro dessa comunhão. É que o contrário da solidão é o “existir para o outro”. E isso é o ADN divino em nós.

A Ressurreição não revela apenas que Jesus venceu a morte; revela que, no coração da realidade, há uma marca indelével do divino, traduzida na experiência da vida como dom: recebida, partilhada e transmitida.

Na mesa de Deus há uma cadeira vazia. E a Ressurreição é a notícia de que ela estava reservada para nós desde o princípio. Nós temos lugar na sua mesa!

Pe. Humberto Martins