Tomé – reconhecer pelas feridas

Um homem pediu aos filhos que observassem o horizonte: «Reparem bem… parece-me que o vosso avô se aproxima. Reconheço-o pelos sinais das antigas feridas». As crianças viram apenas um homem ao longe. O pai, porém, sabia quem vinha. As feridas tornavam-no reconhecível.

O psicanalista italiano Claudio Risè conta esta pequena história para explicar algo profundamente humano: reconhecemos verdadeiramente alguém não pela perfeição, mas pelas marcas da sua história, pelo mapa das suas feridas.

Porque é que nos reconhecemos pelas feridas, e não apenas pelos traços peculiares dos nossos rostos ou do timbre da nossa voz? Quando penso no meu pai não posso deixar de o reconhecer verdadeiramente pelas feridas que tem trazido e que, no fim de contas, são um pouco as mesmas que eu também trago.

Com o tempo, percebi que nós, seres humanos, “encaixamo-nos” nas nossas feridas, nas nossas necessidades mais verdadeiras e profundas e, muitas vezes, é daí que nascem as nossas relações mais belas e verdadeiras.

O relato de Tomé é, talvez, o mais psicologicamente honesto da Páscoa. Enquanto todos falam do Ressuscitado, Tomé permanece fora da experiência comum. Não acredita no entusiasmo coletivo (que, aliás, ainda os mantém fechados na segurança do grupo). Não aceita uma fé por contágio emocional. Quer ver. Quer tocar. Quer verificar se Aquele que vive é realmente o mesmo que morreu.

Durante séculos, Tomé foi apresentado como o discípulo da dúvida. Mas, visto a partir da experiência humana, da psicologia, Tomé é o ser humano que recusa separar a fé da realidade psíquica. Ele não procura milagres; procura continuidade. Precisa reconhecer identidade.

E é precisamente isso que Jesus ressuscitado lhe oferece.

O Ressuscitado não aparece apagando as feridas da crucifixão. Pelo contrário, mostra-as. Paul Ricoeur costumava dizer que “o símbolo só aparece depois da suspeita”. A ressurreição não elimina a história; integra-a. A vida nova não nasce da negação do sofrimento, mas da sua transformação.

Tomé acredita quando percebe que aquele que está diante dele é o mesmo que foi ferido. Não uma aparição ideal, mas uma presença reconciliada com a própria vulnerabilidade.

Talvez por isso este episódio continue tão moderno. Também nós desconfiamos das experiências demasiado perfeitas. Reconhecemos a verdade quando ela traz consigo marcas reais. As feridas tornam-se sinais de identidade.

A este propósito: há uma curiosidade fascinante na história da música do século XX. Nos anos 60 surgiu um instrumento estranho: o Mellotron. Era um teclado eletromecânico que tentava imitar orquestras inteiras através de pequenas fitas magnéticas. O som era instável, ligeiramente desafinado, tecnicamente imperfeito. Qualquer sintetizador moderno o ultrapassaria facilmente em fidelidade sonora. E, no entanto, músicos como John Lennon e muitos outros ficaram fascinados por ele.

O Mellotron não soava perfeito – soava humano. Cada nota trazia pequenas irregularidades, respirações mecânicas, fragilidades audíveis. Em vez de esconder as imperfeições, deixava-as ouvir. E era precisamente isso que tornava o som reconhecível, quase íntimo. Não era uma perfeição artificializada, mas uma máquina caprichosa que transpirava uma história atribulada. Integrar uma pista sonora do Mellotron num álbum era um desafio para os técnicos e músicos!

Talvez aconteça algo semelhante com a fé pascal. Desconfiamos das experiências demasiado perfeitas, das certezas sem história, das respostas sem cicatrizes. Reconhecemos a verdade quando ela conserva marcas reais.

A ressurreição não apaga o ruído humano da existência. Transforma-o em música universal.

Padre Humberto Martins