28º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]

11 de Outubro, 2026

Ano A
28.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 28.º Domingo do Tempo Comum

Qual o projeto de Deus para nós? Qual é a meta final da nossa existência, o nosso horizonte último? Para onde é que Deus nos está a conduzir? As leituras que a liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum nos oferece recorrem à imagem de um “banquete” para descrever esse mundo de amor, de alegria, de felicidade e de vida sem fim que Deus quer oferecer a todos os seus filhos. “O banquete está preparado; vinde sentar-vos comigo à mesa” – diz-nos Deus.

Na primeira leitura, o profeta Isaías anuncia uma festa esplêndida que, um dia, Deus vai oferecer a todos os seus filhos, sem exceção. Homens e mulheres de todas as raças formarão uma única família, reunida à mesa de Deus, numa fraternidade sem sombras nem fraturas. Sobre a mesa familiar estarão “manjares suculentos”, “comida de boa gordura”, “vinhos deliciosos e puríssimos”, vida bela e abundante. Será o início de uma nova era de paz e de felicidade, de um tempo em que a humanidade estará livre de tudo aquilo que a fere e a faz sofrer. O poema em que Isaías canta estas coisas eternas é um dos mais belos cânticos de esperança que a humanidade já escutou.
No Evangelho Jesus compara o reino de Deus a uma festa que um rei preparou para celebrar o casamento do seu filho. Houve convidados que se recusaram a comparecer; mas a festa não foi cancelada: o rei abriu as portas da sala do banquete a todo o tipo de pessoas – gente “improvável”, encontrada nas “encruzilhadas dos caminhos” – que tiveram a oportunidade de se sentar à mesa do rei e de participar numa festa inolvidável. No banquete do reino de Deus haverá lugar para todos os homens e mulheres que estiverem dispostos a acolher o convite de Deus.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo apresenta-nos um exemplo concreto de uma comunidade que aceitou o convite do Senhor e vive animada pelo dinamismo do reino de Deus: a comunidade cristã de Filipos. É uma comunidade generosa e solidária, verdadeiramente empenhada na vivência do amor e em dar testemunho do Evangelho diante de todos os homens.

LEITURA I – Isaías 25,6-10a

Sobre este monte,
o Senhor do Universo há de preparar para todos os povos
um banquete de manjares suculentos,
um banquete de vinhos deliciosos:
comida de boa gordura, vinhos puríssimos.
Sobre este monte,
Há de tirar o véu que cobria todos os povos,
o pano que envolvia todas as nações;
destruirá a morte para sempre.
O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces
e fará desaparecer da terra inteira
o opróbrio que pesa sobre o seu povo.
Porque o Senhor falou.
Dir-se-á naquele dia:
«Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação;
é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança.
Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou.
A mão do Senhor pousará sobre este monte».

CONTEXTO

Isaías exerceu em Jerusalém, no reino de Judá, a missão profética a que foi chamado. O seu ministério profético começou por volta de 740/739 a.C. e prolongou-se pelos reinados de Jotam (740-736 a.C.), Acaz (736-716 a.C.), Ezequias (716-687 a.C.) e Manassés (687-642 a.C.). Foi um tempo histórico de grande instabilidade geopolítica no Antigo Médio Oriente, marcado pela expansão da Assíria e pela ameaça militar que esse império fez pender sobre os povos da região. Foi durante esse tempo que o reino do Norte (Israel) foi invadido pelos assírios e perdeu a independência (721 a.C.); foi também durante esse tempo que Judá foi invadida pelos assírios e que o rei Acaz se tornou vassalo da Assíria, ficando a pagar aos assírios um tributo ruinoso. Não sabemos exatamente quando é que o profeta Isaías terminou a sua missão profética e saiu de cena. Um apócrifo do séc. I d.C. (“Ascensão de Isaías”) conta que o profeta foi assassinado por ordem do rei ímpio Manassés.

É extremamente difícil dizer em que altura e em que circunstância histórica terá Isaías proferido o oráculo que a primeira leitura deste domingo nos oferece. Alguns comentadores colocam-no na fase final da vida do profeta (final do séc. VIII ou princípio do séc. VII a.C.), quando Isaías, desiludido com a política errática dos reis de Judá, começa a sonhar com uma intervenção de Deus que iria restabelecer o direito e a justiça e inauguraria uma nova era de felicidade e de paz para o povo de Deus.
Contudo, também há quem pense que o autor do texto não seria o primeiro Isaías (o autor dos capítulos 1-39 do Livro de Isaías), mas sim um autor posterior. A referência à superação da morte, das lágrimas e da vergonha, poderia sugerir que a composição deste texto se situaria num momento histórico posterior ao Exílio na Babilónia, quando Judá já teria reconquistado a liberdade.

Em qualquer caso, o oráculo constrói-se à volta da imagem do “banquete”. O “banquete” é, no ambiente sociocultural do mundo bíblico, o momento da partilha, da comunhão, da constituição de uma comunidade de mesa, do estabelecimento de laços familiares entre os convivas.
Mas, para além de acontecimento social, o “banquete” tem também, frequentemente, uma dimensão religiosa. Os “banquetes sagrados” celebram e potenciam a comunhão do crente com Deus, o estabelecimento de laços familiares entre Deus e os fiéis. É por isso que, na perspetiva dos catequistas que redigiram as tradições sobre a Aliança do Sinai, o compromisso entre Javé e Israel tinha de ser selado com uma refeição entre Deus e os representantes do Povo (cf. Ex 24,1-2. 9-11).
No âmbito religioso são particularmente significativos os “sacrifícios de comunhão” (“zebâh shelamim”) previstos no ritual litúrgico israelita. Quando o crente queria oferecer a Deus um “sacrifício de comunhão”, levava ao Templo um animal e promovia a sua imolação. Depois, separava-se a gordura do animal imolado, que era queimada sobre o altar: era a parte reservada a Deus. A carne do animal era repartida pelo oferente e pelos sacerdotes. O oferente e a sua família comiam, no espaço sagrado do santuário, a parte que lhes cabia. Dessa forma, “sentavam-se à mesa” com Deus, celebravam a sua pertença ao círculo familiar de Deus e renovavam com Deus os laços de paz, de harmonia e de comunhão (cf. Lv 3).
Para entender o alcance e o significado do “banquete” referido no oráculo de Isaías que hoje nos é proposto, é conveniente ter em conta este enquadramento e cenário.

MENSAGEM

O profeta anuncia um “banquete”, a realizar num futuro sem data marcada. É Deus quem o promove e prepara. Esse “banquete” destina-se a “todos os povos”. Trata-se, portanto, de uma iniciativa de Deus, que se dispõe a estabelecer laços de família com toda a humanidade.
O cenário do “banquete” é “este monte” (Is 25,6). O profeta refere-se, evidentemente, ao monte do Templo, em Jerusalém, o lugar onde está a “casa de Javé”, a residência de Deus, o lugar onde Israel presta culto a Javé e se senta à mesa de Deus para “comer” os sacrifícios de comunhão. Esses sacrifícios de comunhão que Israel celebra no templo poderão ser prefiguração e anúncio desse maravilhoso banquete universal preparado por Deus: banquete pacífico de confraternização, onde todos os povos reconhecerão a soberania magnífica de Deus e a Sua providência universal; banquete que fará de todas as raças e culturas uma só família, reunida à volta de Deus, o soberano de todos.
Nesse “banquete” serão servidos “manjares suculentos”, “comida de boa gordura”, “vinhos deliciosos” e “puríssimos” (Is 25,6). As expressões são uma metáfora poética e profética para falar da abundância de vida, da eterna alegria, da festa total, da bem-aventurança sem fim. São expressões que deviam calar bem fundo na fantasia da gente de Israel, habituada a comer uma vez por dia e que raramente podia incluir na sua dieta carne ou vinho. O “banquete” onde se comia com abundância constituía, para eles, uma imagem bem expressiva dessa vida maravilhosa que Deus se propunha oferecer aos seus “convidados”.
Para os que aceitarem o convite, iniciar-se-á uma nova era de comunhão íntima com Deus e de vida sem fim. O profeta/poeta usa uma imagem bem sugestiva para significar a comunhão total, sem limites, entre Deus e os homens: será removido “o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações” (Is 25,7) e que impedia o contacto total com o mundo de Deus. Será o início de uma nova era de paz e de felicidade, de um tempo em que a humanidade estará livre de tudo aquilo que a limita, a fere, a faz sofrer (“o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo” – Is 25,8).
O oráculo termina com um cântico de ação de graças que evoca, provavelmente, uma fórmula usada na aclamação de um novo rei (“eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou” – Is 25,9). A catequese de Israel entenderá que esse novo rei é o Messias, que chega para iniciar o reinado de Deus sobre toda a terra.
A partir daqui a ideia de um “banquete messiânico” tornou-se corrente no judaísmo. Jesus retomará a mesma metáfora e falará do “banquete do Reino dos céus”. Ao fazê-lo, estará a referir-se a essa nova era de salvação, de comunhão plena com Deus, de alegria eterna, que Ele próprio veio inaugurar.

INTERPELAÇÕES

• Amamos a vida, agarramo-nos ansiosamente à vida, almejamos sempre ter mais vida. No entanto, sentimos que a vida passa vertiginosamente por nós e que os nossos anseios mais profundos nos vão escapando. Experimentamos a cada instante a nossa finitude e as nossas limitações, convivemos com a dor e com o medo, somos agarrados pelo desânimo e pela frustração, perdemos a esperança e instalamo-nos num pessimismo que nos paralisa… Passamos demasiado tempo a lamentar-nos e até dizemos, nas nossas orações (“salvé-Rainha”), que somos “degredados filhos de Eva” e que andamos “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. Afinal, para que é que fomos criados? Para nos arrastarmos numa existência de sofrimento sem remédio? O profeta Isaías garante-nos que Deus tem um projeto muito belo para nós, um projeto capaz de dar significado pleno à nossa existência. O que Deus mais quer – diz o profeta – é reunir todos os seus filhos à volta de uma mesa, fazê-los sentir que são uma família unida e fraterna, libertá-los de tudo aquilo que os aflige e os faz sofrer, oferecer-lhes uma festa sem fim. É para esse horizonte que devemos olhar, é sobre esse quadro que devemos fundamentar a nossa esperança. Acreditamos que é esse o projeto de Deus para nós? Estamos dispostos a construir os nossos dias sobre esta convicção?

• O “banquete” que, segundo Isaías, Deus vai preparar, não se destina a um grupo fechado de gente seleta ou a um “clube” exclusivo de gente de vida irrepreensível; mas é uma festa destinada a “todos os povos”, sem distinção de raça, de nação, de cor da pele, de estatuto social… À mesa desse “banquete” têm lugar, de pleno direito, todos os queridos filhos de Deus: todos, todos, todos. É o “banquete” da confraternização universal, o “banquete” da inclusão, o “banquete” da igualdade e da comunhão, o “banquete” do reino de Deus. Se, nesse “banquete”, alguém tiver um tratamento privilegiado, serão os pobres, os pequeninos, os esquecidos, os abandonados, os sem voz e sem vez. Como vemos esta lógica inclusiva de Deus? Podemos aceitar o convite de Deus para participar no banquete da fraternidade universal e depois, na nossa vida de todos os dias, discriminar os pobres, os imigrantes, as minorias étnicas, os que têm comportamentos religiosa ou socialmente incorretos, os que carregam o peso de feridas insaráveis, os condenados e marginalizados por uma sociedade sem compaixão?

• No primeiro instante da nossa existência, Deus fez-nos chegar o seu convite para nos sentarmos à Sua mesa, à mesa desse “banquete” fraterno que Ele preparou para “todos os povos”. No dia do nosso batismo nós aceitamos o convite de Deus e dispusemo-nos a integrar a família de Deus. Assumimos um compromisso com Deus, decidimos dizer “não” ao egoísmo e à autossuficiência, dispusemo-nos a abraçar os valores de Deus. Juntamente com todos os outros homens e mulheres que aceitaram o convite de Deus para se sentarem à mesa do “banquete”, comprometemo-nos a construir, já aqui, uma nova terra de justiça, de solidariedade, de partilha, de amor. A nossa vida tem sido coerente com essa opção?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão: Habitarei para sempre na casa do Senhor.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa,
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

LEITURA II – Filipenses 4,12-14.19-20

Irmãos:
Sei viver na pobreza e sei viver na abundância.
Em todo o tempo e em todas as circunstâncias,
tenho aprendido a ter fartura e a passar fome,
a viver desafogadamente e a padecer necessidade.
Tudo posso n’Aquele que me conforta.
No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição.
O meu Deus proverá com abundância
a todas as vossas necessidades,
Segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus.
Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Amen.

CONTEXTO

A cidade de Filipos, situada na Macedónia oriental, era considerada a “porta de entrada” na Europa para os viajantes provenientes da Ásia. Com uma população constituída maioritariamente por veteranos do exército romano, a cidade estava organizada à maneira de Roma e dependia diretamente do imperador. Gozava dos mesmos privilégios das cidades de Itália e os seus habitantes tinham cidadania romana.
O apóstolo Paulo chegou a Filipos, acompanhado por Silvano, Timóteo e Lucas (cf. At 16,1-40), pelo ano 49 ou 50, no decurso da sua segunda viagem missionária. Do labor apostólico de Paulo e seus companheiros nasceu a comunidade cristã de Filipos, a primeira comunidade cristã em solo europeu.
A Igreja de Filipos era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como se viu no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5). Paulo nutria pelos cristãos de Filipos um afeto especial e admirava a integridade e o sentido de justiça dos filipenses. Apesar de tudo, a comunidade cristã de Filipos não era perfeita: os altivos patrícios romanos de Filipos tinham alguma dificuldade em assumir certos valores como o desprendimento, a humildade e a simplicidade.
Paulo escreve aos Filipenses numa altura em que estava na prisão (não sabemos ao certo se em Cesareia, em Roma, ou em Éfeso). Os filipenses tinham-lhe enviado uma certa quantia em dinheiro, a fim de que o apóstolo pudesse prover às suas necessidades. Na carta, Paulo agradece a preocupação dos filipenses com a sua pessoa (cf. Flp 4,10-20); exorta-os a manterem-se fiéis ao Evangelho de Jesus e a incarnarem os valores que marcaram a vida de Cristo (“tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus” – Flp 2,5).
O texto que a segunda leitura deste domingo nos propõe é tirado do capítulo final da Carta aos Filipenses. Paulo, num tom emocionado, agradece os dons que lhe foram enviados e a solidariedade que os seus queridos filhos de Filipos lhe manifestaram.

MENSAGEM

Os filipenses enviaram a Paulo, através de Epafrodito, uma generosa quantia em dinheiro, que vai permitir ao apóstolo manter-se durante o tempo em que estiver prisioneiro. Como é que o apóstolo reage a essa dádiva?
Paulo sente-se verdadeiramente feliz pelo gesto dos filipenses (cf. Flp 4,10). Mas a alegria que o apóstolo sente não resulta do facto de aquele gesto lhe resolver as suas necessidades materiais imediatas (cf. Flp 4,11). Paulo nunca buscou uma vida regalada, uma situação confortável, a abundância de bens materiais… Ele sabe “viver na pobreza” e “viver na abundância”, está preparado para “ter fartura” e para “passar fome”, é capaz de “viver desafogadamente” e de “padecer necessidade” (Flp 4,12). Essa “liberdade interior” que Paulo sente face aos bens efémeros brota de Cristo: é Cristo quem lhe dá forças para superar as privações, quem o anima nos momentos de dificuldades, quem lhe dá a coragem para enfrentar as necessidades que a vida apostólica impõe (cf. Flp 4,13).
O gesto dos filipenses para com Paulo, no entanto, mostra generosidade, solicitude, cuidado, empatia, bondade, amizade, solidariedade; expressa o compromisso dos filipenses com o anúncio do Evangelho; manifesta o apoio dos filipenses ao esforço missionário de Paulo (cf. Flp 4,14-16). Tudo isso conforta, anima e alegra o coração do apóstolo; mostra-lhe que os seus “filhos” de Filipos levam a sério o Evangelho e a vida nova que resulta da sua adesão a Cristo.
De resto, a generosa oferta dos filipenses, mais do que uma ajuda a Paulo, é uma oferenda a Deus (cf. Flp 4,18), de quem Paulo é servidor. Paulo está seguro, portanto, que o gesto dos filipenses não cairá em saco roto: Deus não deixará de lhes “pagar” generosamente a boa ação que eles fizeram (cf. Flp 4,19).
A doxologia que encerra a perícope (“glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Amen” – Flp 4,20) é o agradecimento final de Paulo, não à comunidade cristã de Filipos, mas a Deus, aquele de quem procede todo o bem.

INTERPELAÇÕES

• Com o seu generoso gesto em favor de Paulo, prisioneiro por causa do Evangelho, a comunidade cristã de Filipos deixa-nos o exemplo de uma comunidade que se mantém atenta às necessidades das pessoas, que está aberta à partilha e ao dom, que cuida dos seus membros quando estão em situação de fragilidade, que pratica a caridade… O testemunho que os filipenses dão ao mundo é o testemunho de quem acredita no Evangelho, de quem está comprometido com os valores do reino de Deus. Como são as nossas comunidades cristãs? São comunidades que testemunham os valores do reino de Deus? São comunidades atentas às necessidades dos mais frágeis e carentes? São comunidades que cuidam daqueles que a vida feriu e que arrastam cruzes impossíveis de carregar sozinho? São comunidades disponíveis para partilhar os bens? São comunidades “com coração”, onde se pode fazer a experiência da bondade, da misericórdia, da compaixão de Deus por todos os seus filhos?

• Paulo, o apóstolo que se encontrou com Jesus na estrada de Damasco e que, a partir desse encontro, se fez missionário do Evangelho, também nos deixa um belo testemunho… Não o preocupa “viver na pobreza” ou “viver na abundância”, “passar fome” ou “ter fartura”, estar despojado de comodidades ou ter a segurança que os bens materiais oferecem, ser desprezado e atirado para a prisão ou ser reconhecido e adulado; só lhe interessa estar em comunhão com Cristo, viver para Cristo e ser uma testemunha credível desse projeto que Cristo lhe apresentou. Os valores efémeros são, para Paulo, algo de bastante secundário; indubitavelmente, a base fundamental sobre a qual Paulo constrói a sua vida é Cristo e o seu Evangelho. O que sentimos face ao exemplo de Paulo? Quais são as nossas prioridades e apostas? Interessa-nos primordialmente a construção do reino de Deus ou o nosso conforto, o nosso bem-estar?

• A ajuda que os filipenses enviam a Paulo não é apenas um simples gesto de generosidade e de partilha; mas deverá ser, além disso, um gesto que traduz o compromisso dos filipenses com o anúncio do reino de Deus. Provavelmente a comunidade tem presente o pedido que Jesus fez aos seus discípulos quando se despediu deles (“ide pelo mundo inteiro e proclamai a Boa Nova a toda a criatura” – Mc 16,15); e plasma a sua resposta a Jesus num gesto concreto de envolvimento na missão: ajuda um irmão missionário que trabalha na “linha da frente” e que está preso por causa do seu serviço ao Evangelho. O imperativo missionário continua vivo nas nossas comunidades cristãs? Sentimos que o anúncio do Evangelho continua a ser, em pleno séc. XXI, missão de toda a Igreja, missão de todos nós? Apoiamos aqueles e aquelas que, em qualquer lugar da terra, são enviados da Igreja para o serviço do Evangelho? Como os apoiamos?

ALELUIA – cf. Efésios 1,17-18

Aleluia. Aleluia.

Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
ilumine os olhos do nosso coração,
para sabermos a que esperança fomos chamados.

EVANGELHO – Mateus 22,1-14

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se de novo
aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo
e, falando em parábolas, disse-lhes:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei
que preparou um banquete nupcial para o seu filho.
Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,
mas eles não quiseram vir.
Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:
‘Dizei aos convidados:
Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,
tudo está pronto. Vinde às bodas’.
Mas eles, sem fazerem caso,
foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;
os outros apoderaram-se dos servos,
trataram-nos mal e mataram-nos.
O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,
que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.
Disse então aos servos:
‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.
Ide às encruzilhadas dos caminhos
e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.
Então os servos, saindo pelos caminhos,
reuniram todos os que encontraram, maus e bons.
E a sala do banquete encheu-se de convidados.
O rei, quando entrou para ver os convidados,
viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.
E disse-lhe:
‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.
Mas ele ficou calado.
O rei disse então aos servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;
aí haverá choro e ranger de dentes’.
Na verdade, muitos são os chamados,
mas poucos os escolhidos».

CONTEXTO

Estamos em Jerusalém, nos dias que antecedem a Páscoa. Jesus chegou há pouco da Galileia, acompanhado pelos discípulos. Alojado em Betânia (a atual “al-Azariye”, uma pequena povoação situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, a cerca de três quilómetros de Jerusalém), Jesus todas as manhãs, desce o Monte das Oliveiras e entra em Jerusalém pela Porta Dourada, situada a oriente. Dirige-se ao templo e por lá fica a falar do reino de Deus a todos aqueles que se detêm a ouvi-l’O. Os dirigentes religiosos judaicos também andam por ali; vigiam Jesus e, sempre que podem, confrontam-no, criticam-no e acusam-no. Instalados nas suas certezas e seguranças, decidiram que a proposta de Jesus não vem de Deus. Por isso, rejeitam de forma absoluta esse mundo novo que Ele anuncia.
O texto que o Evangelho deste domingo nos apresenta faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto que Deus oferece aos homens através de Jesus. Ao propô-las, Jesus convida os seus opositores – os líderes religiosos judaicos – a reconhecerem que se fecharam num esquema de autossuficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, de ganância, que não os deixa abrir o coração e a vida aos dons de Deus. O nosso texto é a última dessas três parábolas.
A crítica do texto mostra que Mateus juntou aqui duas parábolas diferentes: a parábola dos convidados para o “banquete” (que é comum a Mateus e Lucas, embora as duas versões apresentem diferenças consideráveis – cf. Mt 22,1-10; Lc 14,15-24) e a parábola do convidado que se apresentou no banquete sem o traje adequado (cf. Mt 22,11-14). Esta última é exclusiva de Mateus. Originalmente, as duas parábolas teriam enquadramentos diferentes; mas a temática comum do “banquete” aproximou-as e juntou-as.
As nossas duas parábolas situam-nos no cenário de um “banquete”. É do domínio comum que o “banquete” era, na cultura semita, o lugar do encontro, da comunhão, do estreitamento de laços familiares entre os convivas. À volta da mesa constituía-se uma “comunidade de mesa” que ligava os convivas. O “banquete” acabava por ser também um espaço de afirmação e de reforço de uma “identidade social”: a participação num “banquete” confirmava a pertença do um indivíduo a um certo grupo social e dava-lhe a possibilidade de estreitar laços e de cimentar relações. Ser convidado para uma refeição e sentar-se à mesa com um grupo confirmava o estatuto da pessoa, o seu lugar dentro da escala social. A disposição à mesa, a ordem em que eram servidos, os lugares que ocupavam, tudo isso refletia a importância dos convidados na estrutura comunitária. A rejeição de um convite para um “banquete” constituía uma espécie de insulto à pessoa que convidava: era entendida como uma recusa a integrar o grupo social a que o anfitrião pertencia.
Em determinadas ocasiões – por exemplo, quando se celebrava um “banquete” de casamento de um filho – a seleção dos convidados era especialmente cuidada. Convidava-se pessoas importantes, pois a sua presença contribuía para salientar, aos olhos da comunidade, o estatuto e a honra da família; mas evitava-se a presença de gente “desclassificada”, pois isso diminuía, aos olhos da comunidade, o estatuto social do anfitrião e da sua família.

MENSAGEM

A primeira das duas parábolas que o Evangelho deste domingo nos oferece compara o reino dos céus a uma festa de casamento (Mt 22,1-10).
Jesus sabia o que as festas de casamento significavam para as gentes da Galileia e da Judeia. Ele próprio deve ter participado em algumas delas. Eram momentos inolvidáveis, durante os quais se esquecia a dureza do trabalho e, “em boa companhia”, se cantava e dançava à volta de uma mesa abundante. Jesus vai recorrer a esta imagem para comunicar a sua experiência de um Deus bom, empenhado em oferecer a todos os seus filhos uma vida plenamente ditosa.
A parábola contada por Jesus fala de um rei que quis preparar uma festa para celebrar as núpcias do seu filho (cf. Mt 22,2). Esse rei enviou às pessoas das suas relações – a pessoas escolhidas, a pessoas que ele considerava “dignas” – os convites para a festa. No entanto, quando os servos do rei foram chamar os convidados para o banquete, eles não quiseram comparecer. Uns recusaram o convite de maneira consciente e absoluta (“não quiseram vir” – Mt 22,3); outros mostraram-se indiferentes àquela festa e preferiram ir tratar dos seus assuntos pessoais (“sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio” – Mt 22,5); outros, finalmente, assumiram uma inqualificável atitude de desafio e responderam com violência ao convite recebido (“apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos” – Mt 22,6). A recusa dos convidados parecia condenar aquela festa a um monumental fracasso.
Como vai o rei lidar com este desprezo pela sua honra e pela festa das núpcias do seu filho? O primeiro gesto do rei foi enviar as suas tropas para castigar os homicidas (cf. Mt 22,7). Este pormenor (que não aparece no relato de Lucas) é uma provável interpretação da destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos de Tito, no ano 70, vista pela comunidade cristã como um “castigo” dado à nação judaica pela rejeição do Messias e da sua proposta.
Apesar das desistências e recusas dos convidados, o rei não quis desistir do seu projeto. Se aqueles convidados não estavam interessados, outros participariam na festa que tinha sido preparada (cf. Mt 22,8). Portanto, o rei mandou outra vez os seus servos com a indicação de irem “às encruzilhadas dos caminhos” e de trazerem para a sala do banquete todos os que encontrassem (Mt 22,9).
Foi assim que a sala do banquete se encheu de convidados… Era gente “improvável”, que nunca se tinha sentado à mesa de um personagem importante; mas era gente disponível para participar no banquete. Será com eles – e não com a gente “de classe”, com a gente fina, com a gente aprovada pelas convenções sociais – que se celebrará a festa das núpcias do filho do rei.

O sentido da parábola é óbvio… Deus é o rei que convidou Israel para o “banquete messiânico”, para a festa que inaugura os tempos messiânicos (as bodas do “filho”). O “filho do rei” é Jesus, que veio ao encontro dos homens para lhes propor uma nova Aliança, para lhes dar a possibilidade de viverem uma nova relação com Deus. Os primeiros convidados são os líderes judaicos (os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei) que recusaram o convite de Deus e preferiram continuar agarrados às suas certezas, aos seus preconceitos, aos seus sistemas de autossalvação. Os convidados de última hora, aqueles que foram trazidos das “encruzilhadas dos caminhos”, são o “povo da terra” (“’am ha-aretz”: o povo sem instrução religiosa que, devido à sua ignorância, era negligente na observância rigorosa dos mandamentos), os pecadores, os malditos, todos aqueles que, na perspetiva da religião oficial, estavam arredados da comunhão com Deus e da comunidade da salvação.
Provavelmente Jesus contou a parábola em resposta àqueles que O acusavam de se dar com todo o tipo de desclassificados e de pecadores. Na verdade, essa acusação não era descabida. A mais genuína tradição evangélica diz-nos que Jesus participava, com frequência, em banquetes onde havia gente duvidosa, ao ponto de os seus inimigos lhe chamarem “comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de pecadores” (Mt 11,19; Lc 7,34). Porque é que Jesus participava nesses banquetes, correndo o risco de adquirir uma fama tão desagradável?
A tradição profética referia-se aos tempos messiânicos recorrendo à imagem de um “banquete” preparado por Deus para todos os povos (cf. Is 25,6-10). Quando o Messias chegasse, sentaria todos os homens à mesa do banquete do reino de Deus. Ora, Jesus estava consciente de que, com Ele, o tempo do reino de Deus tinha chegado. Convencido de que o convite de Deus para o banquete do reino se destinava a todos os filhos e filhas de Deus, Jesus sentava-se à mesa com toda a gente, mesmo com aqueles que a sociedade e a religião condenavam e marginalizavam.
Na perspetiva de Jesus, para participar no banquete do reino de Deus só havia uma condição: era necessário estar disponível para acolher o convite de Deus. Os líderes religiosos judaicos nunca manifestaram essa disponibilidade; mas os publicanos, as prostitutas e outros pecadores notórios acolheram a proposta de Jesus e mostraram-se disponíveis para integrar a comunidade da salvação. A parábola original de Jesus traduzia esta leitura da realidade.
Algumas dezenas de anos depois, no entanto, a comunidade mateana vai fazer uma releitura da mesma parábola. Diante da adesão maciça à fé cristã de gente que vinha do mundo pagão, a comunidade cristã sentiu que era necessário explicar porque é que os pagãos acolheram melhor do que os judeus a Boa Nova de Jesus. A parábola foi, então, lida nesta perspetiva; e passou a dizer o seguinte: os judeus, apesar de serem o povo da Aliança, recusaram-se a corresponder ao convite de Deus; por isso, Deus resolveu chamar outros convidados – apanhados nas “encruzilhadas dos caminhos” – para se sentarem à mesa do “banquete messiânico”, à mesa de Deus.

Chegado aqui, Mateus achou que o assunto não estava encerrado e que era necessário deixar um aviso final a todos esses que aceitaram entrar na sala do banquete e se dispuseram a integrar a comunidade do reino de Deus… Para eles, o “caminho” está concluído? Aqueles que entraram na sala do banquete terão assegurado definitivamente, só por isso, a sua pertença à comunidade da salvação?
A segunda parábola responde a estas questões. Refere-se a um convidado que se apresentou na festa sem o traje nupcial. O rei, ao constatar tal facto, ordenou que ele fosse lançado fora da sala onde se realizava a festa (cf. Mt 22,11-14).
A atitude do rei deixa-nos perplexos. Como poderia um convidado “recrutado” à última hora “nas encruzilhadas dos caminhos” estar convenientemente vestido para uma festa de casamento? O rei não tinha consciência disso? Porque é que o rei assumiu uma atitude de tal intolerância para com aquele convidado? Na cultura do Antigo Médio Oriente, era habitual que o anfitrião de um grande banquete real oferecesse a cada convidado o “traje de festa”, que deveria ser envergado durante o banquete. Portanto, se um convidado se apresentasse na sala do banquete sem a roupa adequada, não seria porque não tinha o traje apropriado, mas sim porque não aceitara vesti-lo.
A parábola pretende ser uma advertência àqueles que aceitaram o convite de Deus para a festa do Reino, aderiram à proposta de Jesus e receberam o Batismo. Na linguagem cristã, a vida nova do cristão (que começa no Batismo) é frequentemente comparado com um traje novo, uma veste branca que se enverga nesse dia e para sempre.
Mateus escreve no final do século primeiro (anos 80), numa altura em que muitos cristãos já tinham esquecido o entusiasmo inicial e viviam instalados numa fé morna e pouco exigente. Precisavam de reavivar a fé e o compromisso com o seguimento de Jesus. Mateus, ao propor-lhes esta parábola, diz-lhes: “atenção, porque não chega entrar na sala do banquete; é preciso, além disso, vestir um estilo de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus. Quem foi batizado, mas recusa envergar o traje do amor, da partilha, do serviço, da misericórdia, do dom da vida, não pode sentar-se à mesa com a comunidade do reino de Deus; quem continua vestido com a roupa velha do egoísmo, da arrogância, do orgulho, da injustiça, não pode participar na festa do encontro e da comunhão com Deus. Deus chama todos os homens e mulheres para participarem no Seu banquete; mas só se sentarão com Ele à mesa os que se dispõem a “vestir” a vida nova, a vida de Deus.

INTERPELAÇÕES

• Para onde caminhamos? Qual o projeto de Deus para nós? Qual é a meta final da nossa existência? A nossa vida resumir-se-á a aproveitar uns breves instantes de felicidade, antes que a morte ponha fim a essa experiência efémera que é a nossa caminhada pela terra? Jesus conhecia bem Deus e estava seguro de que Ele tem um projeto magnífico para os seus filhos. Para nos descrever o projeto que Deus tem para nós, Jesus utiliza uma imagem que fazia sonhar os seus contemporâneos: a de uma festa de casamento. Segundo Jesus, Deus quer reunir todos os seus filhos numa festa eterna, que será como um grandioso banquete nupcial; aí, como em qualquer festa de casamento, haverá alegria transbordante, comida abundante para saciar a nossa fome, vinhos finíssimos para alegrar o nosso coração, fraternidade sem fronteiras, experiência plena de amor, de comunhão, de encontro. O que é que pensamos disto? Trata-se de um “programa” capaz de nos entusiasmar? Vemo-nos a aceitar o convite de Deus para participar nesta festa?

• Jesus fala, na parábola dos convidados para o banquete das núpcias do filho do rei, de gente que não aceitou o convite para participar nessa maravilhosa “festa” preparada por Deus para todos os seus filhos… Eram, talvez, pessoas com uma visão totalmente desfocada das prioridades e das escolhas acertadas; eram, talvez, pessoas orgulhosas e autossuficientes, apenas viradas para o seu pequeno mundo de interesses próprios; eram, talvez, pessoas instaladas nas suas certezas, seguranças e preconceitos, que não estavam dispostas a arriscar para abraçar a novidade de Deus; eram, talvez, pessoas acomodadas, preguiçosas, instaladas na sua zona de conforto, ridiculamente satisfeitas com a mediocridade das suas vidas; eram, talvez, pessoas com uma compreensão muito rasteira e muito material da existência, incapazes de sonhar com voos mais altos e com horizontes mais vastos… Em qualquer caso, foram pessoas que recusaram uma oferta irrecusável e que perderam a oportunidade de encher as suas vidas de significado… Seremos, em algum momento, desses que se mantêm surdos ao chamamento de Deus e que seguem o seu caminho indiferentes aos desafios de Deus?

• A festa das núpcias do filho do rei fez-se com gente “improvável”, recolhida à última hora nas “encruzilhadas dos caminhos”. As pessoas que se podem encontrar “nas encruzilhadas dos caminhos” são, muitas vezes, pessoas “sem eira nem beira”, que ainda não encontraram o seu lugar no seio de uma sociedade que as ignora e que não lhes dá voz; são pessoas “duvidosas”, talvez com comportamentos inadequados, que têm atitudes que as Igrejas condenam e que as “pessoas de bem” criticam; são pessoas pobres e simples, que não contam nas estatísticas e que muitas vezes ficam abandonadas na berma das estradas por onde o mundo avança. Contudo, é com essas pessoas que Deus enche a sala do banquete; é a essas pessoas que Deus oferece a comida deliciosa e o vinho bom que resolveu servir na sua festa. Para nos sentarmos à mesa Deus, o que é decisivo não é o comportamento religiosamente correto, os títulos canónicos, as dignidades eclesiásticas, os conhecimentos doutrinais, a extensão das nossas rezas, a pertença a uma qualquer confraria religiosa… Para participarmos no banquete que Deus prepara para os seus filhos só conta a nossa confiança em Deus e a nossa disponibilidade para acolher a salvação de Deus. Estamos disponíveis para responder positivamente ao convite de Deus e para acolher os desafios de Deus?

• Quem tem acesso à sala do banquete está já garantido? Faça o que fizer, escolha o que escolher, viva como viver, terá assegurado, a partir daí, a pertença à comunidade do reino de Deus? A parábola do homem que não quis vestir o traje apropriado, lembra-nos que a opção por Deus tem de ser renovada a cada instante e traduzir-se em gestos concretos, em opções claras. No dia em que acolhemos o convite de Deus – o dia do nosso batismo – entramos na sala do banquete e envergamos o vestido branco, símbolo da vida nova que escolhemos; mas, para permanecermos sentados à mesa de Deus, temos de viver de forma coerente com a opção feita no momento em que fomos batizados. Se isso não acontecer, não podemos considerar-nos membros da comunidade do reino de Deus. A nossa vida tem sido coerente com a opção feita no momento em que acolhemos o convite de Deus e recebemos o batismo?

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 28.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 28.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
Procure-se fazer com que a comunhão, hoje, seja ao mesmo tempo mais solene (fazê-la preceder por um tempo de recolhimento e de silêncio…) e mais festiva (procissão com música…). Pode-se solenizar o convite «felizes os convidados para a Ceia do Senhor». É uma bem-aventurança!

3. PALAVRA DE VIDA.
Jesus compara Deus seu Pai a um rei que celebra as bodas do seu filho: nada é mais belo para a festa, e os convidados são numerosos, mas eles declinam o convite, encontrando desculpas, algumas que vão até a maltratar e a matar os que fazem o convite. O rei poderia resignar-se, mas não: é preciso que a sala do banquete esteja cheia. Tal é a prodigalidade de Deus: parece querer que todos tenham recebido o convite, «os maus e os bons». Que criticar a este rei e a este Deus? De se contentar em convidar com o risco de apanhar com recusas? Deus convida sempre, espera uma resposta: «felizes os convidados para a Ceia do Senhor».

4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
Introduzir melhor o rito penitencial. «Reconheçamos que somos pecadores», que introduz frequentemente o rito penitencial, corre o risco de lhe dar uma tonalidade culpabilizante. E o «Senhor, tende piedade» pode acentuar ainda mais esta impressão… Mas esta oração quer, logo no início da celebração, renovar a nossa confiança em Deus que nos ama, apesar das nossas fraquezas. Pode-se tomar hoje a fórmula 3 do missal, com a seguinte introdução: «Reconheçamos juntos que Deus nos ama, pois o seu Filho está presente no meio de nós e diz-nos, cada domingo, que temos valor aos olhos de seu Pai: invoquemo-l’O com toda a confiança». Depois de cada intenção do missal, a assembleia repete: «Bendito sejais, Senhor, mudai os nossos corações».

5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Repetir um versículo do Salmo 22. Empenhar-se em repetir regularmente, nesta semana, como uma «oração do coro» (repetindo-a frequentemente), esta oração de confiança do Salmo 22: «A bondade e a graça hão de acompanhar-me todos os dias da minha vida». Mostrar-se feliz, e dar graças a Deus pela sua presença ao nosso lado, no quotidiano das nossas vidas.

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
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