26º Domingo do Tempo Comum - Ano C [atualizado]

28 de Setembro, 2025

ANO C

26.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 26.º Domingo do Tempo Comum

Como é que Deus vê as desigualdades gritantes que fazem sofrer tantos dos seus filhos? O que é que Deus acha daqueles que se instalam numa vida de bem-estar e não querem saber da sorte dos seus irmãos? Os textos que a liturgia deste dia nos convida a escutar procuram responder a estas questões. Deixam claro que o projeto de Deus para o mundo e para os homens não inclui a injustiça, a exploração, a apropriação por parte de alguns dos bens que pertencem a todos. Deus quer, para todos os seus filhos, uma vida digna, plena e feliz.

Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia violentamente o egoísmo dos ricos e poderosos, agarrados a uma vida de luxo e esbanjamento, indiferentes à sorte dos pequenos e dos pobres. O profeta avisa que Deus não está disposto a suportar uma situação que contrasta com o projeto que sonhou para o mundo e para os homens. Se Israel insistir em continuar nesse caminho, irá sofrer as consequências das suas escolhas egoístas.

No Evangelho Jesus, através da parábola do rico e do pobre Lázaro, diz-nos que é uma má opção assentar a própria vida sobre o dinheiro, o bem-estar, o conforto, os interesses egoístas. Quem se preocupa apenas em gozar a vida e fica indiferente ao sofrimento dos irmãos, falha completamente o sentido da existência. Há de perceber, quando fizer as contas finais, que a sua vida não valeu para nada.

A segunda leitura, num registo um pouco diferente das outras duas leituras deste dia, apresenta a “fotografia” do “homem de Deus”. O “homem de Deus” está em contraste total com o homem egoísta, apegado aos bens materiais, ambicioso e injusto de que falam as outras duas leituras. O “homem de Deus” é aquele que, correspondendo aos compromissos que assumiu no momento do seu batismo, se torna um sinal vivo de Deus no meio dos seus irmãos.

 

LEITURA I – Amós 6,1a.4-7

Eis o que diz o Senhor omnipotente:
«Ai daqueles que vivem comodamente em Sião
e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria.
Deitados em leitos de marfim,
estendidos nos seus divãs,
comem os cordeiros do rebanho
e os vitelos do estábulo.
Improvisam ao som da lira
e cantam como David as suas próprias melodias.
Bebem o vinho em grandes taças
e perfumam-se com finos unguentos,
mas não os aflige a ruína de José.
Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados
e acabará esse bando de voluptuosos».

 

CONTEXTO

Amós era natural de Técua, uma pequena localidade situada a cerca de oito quilómetros a sudeste de Belém, no reino de Judá. Não pertencia a um grupo organizado de profetas, nem se movia nos círculos religiosos tradicionais. Era “pastor e cultivava frutos de sicómoros” (Am 7,14) quando Deus o chamou a exercer a missão profética e o enviou para o Reino do Norte (Israel). Jeroboão II (782-753 a.C.) era, por essa altura, o rei de Israel. Estaríamos por volta de 760 a.C.

Israel conhecia, por essa altura, uma grande prosperidade económica. As conquistas militares de Jeroboão II tinham ampliado os limites do reino e feito entrar no país riquezas consideráveis, resultantes dos tributos pagos pelos povos vencidos. A classe dirigente, rica e poderosa, vivia em festas intermináveis; o comércio e a indústria (mineira e têxtil) asseguravam bem-estar e riqueza; as habitações da burguesia urbana atingiram um luxo e magnificência até então desconhecidos.

No entanto, a prosperidade das classes favorecidas contrastava com a miséria de uma parte significativa da população do país. O sistema de distribuição de bens essenciais estava nas mãos de comerciantes sem escrúpulos que, aproveitando o bem-estar económico, especulavam com os preços. Com o aumento dos preços, as famílias de menores recursos endividavam-se e acabavam por se ver espoliadas das suas terras em favor dos grandes latifundiários. Os poderosos dominavam os tribunais, subornavam os juízes e utilizavam o aparelho judicial para proteger os seus interesses de classe. Os mais pobres, espoliados dos seus direitos, não tinham quem os defendesse face às injustiças de que eram alvo.

Por outro lado, a religião florescia num esplendor ritual nunca visto. Magníficas festas, abundantes sacrifícios de animais, um culto esplendoroso, marcavam a vida religiosa dos israelitas… O problema é que esse culto não tinha nada a ver com a vida: no dia a dia, os mesmos que participavam nesses ritos cultuais majestosos praticavam injustiças contra os pobres e cometiam toda a espécie de atropelos ao direito. Mais ainda: os ricos ofereciam a Deus abundantes ofertas, a fim de serenar as suas consciências culpadas e assegurar a cumplicidade de Deus para os seus negócios escuros… Além disso, a influência da religião cananeia estava a levar os israelitas para o sincretismo religioso: o culto a Javé misturava-se com rituais pagãos provenientes dos cultos a Baal e Astarte. Essa confusão religiosa punha em sérios riscos a pureza da fé javista.

É neste contexto que Amós, o “profeta da justiça social”, vai fazer ouvir a sua denúncia profética. O seu discurso, rude e sincero, traz algo da dureza do deserto; a sua mensagem, desafiadora e inquietante, avisa que Deus está cansado de ver injustiças e arbitrariedades. Israel está em grave perigo, pois Deus não está disposto a suportar por mais tempo aquilo que está a acontecer. Se Israel continuar neste caminho, espera-o o castigo e a morte.

O texto que hoje nos é proposto pertence ao género literário dos “ais” (vers. 1). Começa com uma interjeição (“hwy”) que é, habitualmente, usada em lamentações fúnebres. A palavra corresponde ao grito com que as carpideiras acompanham o cortejo fúnebre… É o terceiro “ai” de Amós; os outros dois aparecem em Am 5,7 (a propósito da justiça e dos tribunais) e em Am 5,18 (a propósito do culto). No discurso profético esta palavra aparece como introdução a um oráculo que anuncia o castigo: indica que certas pessoas ou grupos se encontram às portas da morte por causa dos seus pecados.

 

MENSAGEM

Quem são esses que, na denúncia profética de Amós, se encontram às portas da morte por causa dos seus pecados?

Amós parece dirigir-se indistintamente à gente rica de Jerusalém (“ai dos que vivem comodamente em Sião”) e da Samaria (“ai dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria” – vers. 1), que vivem comodamente nos seus palácios e que levam uma vida de indolência e de luxo. Amós dá mesmo pormenores concretos: “deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo. Improvisam ao som da lira e cantam como David as suas próprias melodias. Bebem o vinho em grandes taças e perfumam-se com finos unguentos” (vers. 4-6a). Será mau viver bem e “aproveitar a vida”? Porque é que Deus, através do profeta, condena este estilo de vida?

Por duas razões. A primeira (Amós não a formula explicitamente neste texto, mas ela está sempre presente na sua denúncia profética) é porque todo este luxo e esbanjamento resultam da exploração dos mais pobres e das rapinas e prepotências cometidas contra os fracos. Os mecanismos de injustiça que a sociedade israelita criou e que se traduz na exploração dos pobres, subverte completamente o projeto que Deus tem para o seu Povo e atenta gravemente contra os compromissos que Israel assumiu no âmbito da Aliança. A segunda é porque ninguém tem o direito de viver uma vida cómoda e confortável sem se preocupar com a miséria e o sofrimento que afligem os seus irmãos. A indiferença face à sorte dos pequenos, dos desprezados, dos injustiçados, dos desfavorecidos, é um pecado que Deus não está disposto a ignorar.

Com a veemência e com a integridade de um homem do deserto, Amós anuncia que Deus não aceita ser cúmplice daqueles que mantêm um elevado nível de vida à custa do sangue e das lágrimas dos pobres. Por isso, diz o profeta, o castigo chegará em forma de exílio numa terra estrangeira (o profeta refere-se à futura queda da Samaria nas mãos das tropas assírias de Salamanasar V, em 721 a.C., e à partida dessa classe dirigente, indolente e egoísta, para o cativeiro na Assíria).

 

INTERPELAÇÕES

  • O mundo de Amós parece-nos substancialmente diferente daquele que conhecemos nos nossos dias? É claro que não. Também hoje há pessoas que vivem comodamente instaladas numa vida fácil e despreocupada, sem querer saber do imenso cortejo de homens e mulheres que não têm o necessário para viver dignamente; também hoje há pessoas que ganham fortunas com o trabalho escravo, mas que pagam salários de miséria aos seus empregados; também hoje há pessoas que malbaratam fortunas em festas esplêndidas, cuja finalidade é apenas ter visibilidade social; também hoje há pessoas que se apossam indevidamente de dinheiros públicos e que nunca são responsabilizados porque encontram sempre maneira de fazer com que os seus crimes prescrevam… E, por contraste, há homens e mulheres que trabalham duramente e que nem sempre conseguem assegurar o pão de cada dia para os seus filhos; há pessoas de idade que passaram toda a vida a trabalhar e que, nos últimos anos das suas vidas enfrentam dificuldades porque a sua magra reforma mal dá para pagar os medicamentos de que necessitam; há imigrantes que vêm à procura de uma vida mais digna e acabam por ser obrigados a contentar-se com condições que os degradam. Podemos conformar-nos com estes quadros? Que podemos fazer para que o nosso mundo seja mais justo e mais humano? Como reivindicar, com coragem profética, um mundo mais parecido com o projeto de Deus?
  • Não nos contentemos, contudo, em condenar simplesmente uma sociedade egoísta e injusta, que não se importa com as fraturas sociais e que cultiva a indiferença… Atrevamo-nos também a olhar para nós, para o nosso estilo de vida, para os valores que nos governam, para a forma como utilizamos os bens que Deus nos confiou… É possível que não frequentemos festas que reúnem os colunáveis da nossa praça; é possível que não usemos dinheiros públicos para pagar os nossos divertimentos e esbanjamentos; é possível que remuneremos com justiça as pessoas que nos servem… Mas o nosso estilo de vida é simples, sóbrio, equilibrado, sem excessos? Cedemos à tentação do consumismo, vivemos voltados para as coisas fúteis e supérfluas? Os valores que privilegiamos são os valores consistentes e duradouros, ou são os valores efémeros, impostos pela moda ou pelos “fazedores” de opinião? Tratamos com respeito as pessoas mais pobres, mais humildes, aquelas que nos servem?
  • Amós contempla o quadro da sociedade do seu tempo e não tem dúvidas: Deus não aprova, de forma nenhuma, uma situação que degrada a dignidade dos seus queridos filhos. Por isso, diz Amós, Deus vai pôr um ponto final na maldade e na injustiça: esses que não se afligem com o sofrimento dos seus irmãos, “partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos”. São palavras arrepiantes, que nos devem fazer pensar. Talvez nos choque – a nós que frequentamos a “escola de Jesus” e que aprendemos com Jesus a ver em Deus um Pai benevolente e misericordioso – esta “versão” de um Deus justiceiro, que castiga duramente os injustos e os maus… Mas a radical afirmação do profeta, fruto da sua indignação, serve para nos fazer perceber que Deus nunca estará do lado daqueles que não se importam com o sofrimento dos seus irmãos. A afirmação de Amós é a condenação radical de um estilo de vida que fere a dignidade dos filhos de Deus, particularmente dos mais frágeis e humildes. O que sentimos diante disto?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)

Refrão 1:
Ó minha alma, louva o Senhor.

Refrão 2:
Aleluia.

 

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é Rei por todas as gerações.

 

LEITURA II – 1 Timóteo 6,11-16

Caríssimo:
Tu, homem de Deus, pratica a justiça e a piedade,
a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão.
Combate o bom combate da fé,
conquista a vida eterna, para a qual foste chamado
e sobre a qual fizeste tão bela profissão de fé
perante numerosas testemunhas.
Ordeno-te na presença de Deus,
que dá a vida a todas as coisas,
e de Cristo Jesus,
que deu testemunho da verdade diante de Pôncio Pilatos:
guarda este mandamento sem mancha
e acima de toda a censura,
até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo,
a qual manifestará a seu tempo
o venturoso e único soberano,
Rei dos reis e Senhor dos senhores,
o único que possui a imortalidade e habita uma luz inacessível,
que nenhum homem viu nem pode ver.
A Ele a honra e o poder eterno. Amen.

 

CONTEXTO

Timóteo era uma figura bem conhecida nas comunidades cristãs ligadas ao apóstolo Paulo. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo era natural da cidade de Listra, situada na região da Licaónia, a cerca de trinta quilómetros a sul de Icónio. Paulo encontrou-se com Timóteo quando passou em Listra, no decurso da sua segunda viagem missionária. Timóteo acompanhou Paulo a partir daí. O livro dos Atos dos Apóstolos refere a presença de Timóteo junto de Paulo na Bereia, em Atenas (cf. At 17,14-15), em Corinto (cf. At 18,5) e em Éfeso (cf. At 19,22). Paulo confiava plenamente em Timóteo, chegando mesmo a confiar-lhe algumas missões delicadas junto de comunidades cristãs que se defrontavam com problemas (cf. 1 Ts 3,2.6; 1 Cor 4,17; 16,10-11). A tradição cristã apresenta Timóteo como o primeiro bispo de Éfeso.

Discute-se se a primeira Carta a Timóteo é de autoria paulina. A maior parte dos biblistas pensa que não. A linguagem e a teologia parecem significativamente distantes de outras cartas reconhecidamente paulinas. Além disso, a carta refere-se a um modelo de organização eclesial que parece bem posterior à época de Paulo (Paulo teria sido martirizado em Roma por volta do ano 66/67, durante a perseguição de Nero). A grande preocupação que transparece na primeira Carta a Timóteo já não é a difusão do Evangelho, mas sim a organização e a conservação do “depósito da fé”. Parece ser um escrito de uma época tardia, de um tempo em que a comunidade cristã começa a sofrer a influência de “mestres” que difundem doutrinas estranhas à fé apostólica. O autor da carta deixa-nos o perfil desses “falsos mestres”: são orgulhosos e ignorantes, fomentam a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, as invejas e os ciúmes, discutem questões sem importância, são gananciosos e preocupam-se com o lucro pessoal (cf. 1 Tm 6,4-6). A comunidade cristã deve desconfiar deles e não lhes dar crédito. A esses “falsos mestres”, o autor da Carta contrapõe o “homem de Deus”: aquele em quem a comunidade cristã pode confiar, pois transmite sem falhas a fé apostólica.

 

MENSAGEM

O autor da Carta dirige-se a Timóteo e exorta-o a ser uma referência para as comunidades cristãs que lhe foram confiadas. Pela sua entrega a Cristo, Timóteo é um “homem de Deus”; e, como “homem de Deus”, deve cultivar “a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão” (vers. 11). A sua vida deve estar ancorada na fé e no amor aos irmãos. Na concretização da missão apostólica que lhe foi confiada, Timóteo deve combater “o bom combate da fé”, enfrentando e superando todas as dificuldades. É um combate que vale a pena travar, pois o prémio é aliciante: a vida eterna. Na verdade, foi esse o compromisso que Timóteo assumiu quando, “na presença de muitas testemunhas”, proclamou a sua bela profissão de fé em Jesus (vers. 12).

Para dar ainda mais solenidade à exortação que lhe dirige, o autor da Carta recorda a Timóteo o testemunho que Jesus, como Messias e portador da verdade, deu diante do procurador romano Pôncio Pilatos (vers. 13). Do mesmo modo, Timóteo deve guardar “o mandamento” que recebeu de Paulo, sem o adulterar nem deturpar, “até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo” (vers. 14). Esse “mandamento” é, o Evangelho que Timóteo recebeu de Jesus através do ensino de Paulo.

O texto termina com um extrato de um hino litúrgico, que se refere a Deus como “o venturoso e único soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade e habita uma luz inacessível, aquele que nenhum homem viu nem pode ver” (vers. 15-16). Trata-se de uma solene doxologia que provém, sem dúvida, do repertório das orações usadas nas sinagogas judaicas do mundo grego. É provável que o autor da Carta, ao referir-se a Deus com estes “títulos”, tenha em mente polemizar contra o culto aos falsos deuses e denunciar a vanidade dos títulos atribuídos no mundo romano a reis e a imperadores.

 

INTERPELAÇÕES

  • O autor da primeira Carta a Timóteo traça, neste breve trecho que a liturgia deste domingo nos propõe como segunda leitura, o perfil daquele a quem chama o “homem de Deus”. O que é um “homem de Deus”? É alguém que faz coisas transcendentes e que vive a meio caminho entre o céu e a terra? Não. O “homem de Deus” é, simplesmente, aquele que é no mundo um sinal vivo de Deus; é aquele que é, no meio dos seus irmãos, um anúncio da bondade e do amor de Deus; é aquele que, pela forma como age, torna Deus presente na vida de todos aqueles que com ele se cruzam. Talvez hoje, nesta época um tanto peculiar em que nos toca viver, ser “homem de Deus” não pareça uma “carreira” muito atrativa: exige compromisso, entrega, coerência, verdade, sacrifício, dom de si próprio; exige um estilo de vida que leva, por vezes, a “remar contra a corrente”, a “circular em contramão”, a prescindir de valores que a maioria aprecia e cultiva. Ser “homem de Deus” ou “mulher de Deus” faz parte do nosso programa de vida?
  • Detenhamo-nos um pouco mais nas implicações de ser “homem de Deus”: de acordo com o autor da primeira Carta a Timóteo, o “homem de deus” é alguém que “pratica a justiça e a piedade, a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão”; é alguém que leva muito a sério a sua fé, que a vive em todas as circunstâncias, mesmo em contextos de incompreensão e de perseguição; é alguém que, como Jesus, dá testemunho da verdade, sem medo nem respeito humano. Ou seja: ser “homem de Deus” é viver de acordo com os compromissos que assumimos quando aderimos a Cristo, no dia do nosso batismo. Temos procurado viver de acordo com os compromissos que resultam do nosso batismo? Seguimos Jesus, como discípulos, no caminho da entrega, do serviço, do dom da vida? Praticamos a caridade, a mansidão, a misericórdia? Damos testemunho da verdade de Deus, seja em que circunstâncias forem?
  • Embora isso não apareça de forma explícita no texto que escutamos hoje, o autor da primeira Carta a Timóteo denuncia a “ganância do dinheiro” que levou muitos “falsos mestres” a desviarem-se da fé e a enveredarem por caminhos equívocos (cf. 1 Tm 6,10). A Timóteo, o autor da Carta pede: “foge dessas coisas” (1 Tm 6,11a). Este aviso – que antecede imediatamente o texto que escutamos – encaixa perfeitamente na temática que domina a liturgia deste domingo: o perigo de nos apegarmos ao dinheiro e de sacrificarmos toda a nossa vida ao deus dinheiro. A advertência vale para todos os “homens de Deus”, inclusive os “pastores” das comunidades cristãs… Quando nos deixamos dominar pelo amor do dinheiro, perdemos o controle da nossa vida, esquecemos os nossos valores, passamos a ser mercenários que trabalham por interesse, fazemos da fé um negócio, esquecemos o significado da caridade, tornamo-nos escravos da mentira, subvertemos o Evangelho. Os bens materiais são o nosso horizonte dominante?

 

ALELUIA – 2 Coríntios 8,9

Aleluia. Aleluia.

 

Jesus Cristo, sendo rico, fez-Se pobre,
para nos enriquecer na sua pobreza.

 

EVANGELHO – Lucas 16,19-31

Naquele tempo,
disse Jesus aos fariseus:
«Havia um homem rico,
que se vestia de púrpura e linho fino
e se banqueteava esplendidamente todos os dias.
Um pobre, chamado Lázaro,
jazia junto do seu portão, coberto de chagas.
Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico,
mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas.
Ora sucedeu que o pobre morreu
e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão.
Morreu também o rico e foi sepultado.
Na mansão dos mortos, estando em tormentos,
levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado.
Então ergueu a voz e disse:
‘Pai Abraão, tem compaixão de mim.
Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo
e me refresque a língua,
porque estou atormentado nestas chamas’.
Abraão respondeu-lhe:
‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida
e Lázaro apenas os males.
Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado,
enquanto tu és atormentado.
Além disso, há entre nós e vós um grande abismo,
de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós,
ou daí para junto de nós,
não poderia fazê-lo’.
O rico insistiu:
‘Então peço-te, ó pai,
que mandes Lázaro à minha casa paterna
– pois tenho cinco irmãos –
para que os previna,
a fim de que não venham também para este lugar de tormento’.
Disse-lhe Abraão:
‘Eles têm Moisés e os Profetas.
Que os oiçam’.
Mas ele insistiu:
‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles,
arrepender-se-ão’.
Abraão respondeu-lhe:
‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas,
mesmo que alguém ressuscite dos mortos,
não se convencerão’.

 

CONTEXTO

Jesus vai a caminho de Jerusalém, acompanhado pelos discípulos. Enquanto caminham, Jesus vai desvelando aos discípulos os mistérios do Reino de Deus. O tempo de Jesus junto dos discípulos está a esgotar-se, pois a cruz está a espera d’Ele em Jerusalém, no final desse “caminho”. É necessário preparar os discípulos para que, após a partida de Jesus, assumam a missão de dar testemunho do Reino de Deus por todo o lado, “até aos confins do mundo”.

A história de um rico anónimo e de um mendigo chamado Lázaro é mais uma das “lições” que Jesus oferece enquanto caminha para Jerusalém. Trata-se de um episódio exclusivo de Lucas, que mais nenhum dos evangelistas refere. Desta vez, a “lição” de Jesus não se destina apenas aos discípulos: destina-se também aos fariseus (cf. Lc 16,14), que representam todos aqueles que amam o dinheiro e vivem em função dos bens materiais. Poucos antes esses fariseus tinham troçado de Jesus por Ele dizer: “não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

 

MENSAGEM

A parábola contada por Jesus gira à volta de duas figuras contrastantes: um rico não identificado e um pobre chamado Lázaro (o nome significa “Deus ajuda”).

O rico é descrito com os traços que caraterizavam a classe alta judaica, a classe endinheirada que residia em Tiberíades, Séforis ou Jerusalém. Vestia-se de púrpura e de linho, tecidos valiosos reservados a gente rica. Em si, “púrpura” designa a cor de uma tinta obtida a partir da secreção de algumas espécies de moluscos, que era usada para tingir os tecidos; o seu alto custo tornava-a acessível apenas a gente com muitas posses. O linho era usado para as roupas interiores e era normalmente importado do Egito. Diz-se ainda que esse homem rico “se banqueteava esplendidamente todos os dias”, facto insólito numa região onde a maior parte da população tinha dificuldade em assegurar o pão de cada dia. De resto, não se diz se o homem era bom ou se era mau, se frequentava ou não o Templo, se tratava bem ou mal os seus empregados.

O outro personagem, o pobre Lázaro, “jazia junto do portão do rico”. Não se vestia de roupas finas, mas sim “de chagas”. Muito provavelmente a sua enfermidade impedia-o de se mover. O “portão” junto do qual ele jazia era a entrada da magnífica casa do rico. Tinha fome. Ficaria feliz se pudesse comer os pedaços de pão que, segundo o costume, se utilizavam para limpar as mãos e que em seguida eram atirados para debaixo da mesa para serem comidos pelos cães domésticos.

Também não se diz que o rico alguma vez tenha dado qualquer atenção àquele pobre. Aparentemente o rico, ocupado em disfrutar do seu bem-estar, vivia demasiado afastado daquilo que se passava fora do seu portão. Os únicos que davam atenção ao pobre Lázaro eram os cães que vinham lamber-lhe as feridas. Lázaro vivia entregue à sua triste sorte, no meio da indiferença geral.

Em seguida, o cenário muda. A parábola leva-nos até um tempo posterior, depois de os dois homens – o pobre e o rico – terem morrido. Lázaro, logo após a sua morte, “foi levado pelos anjos para o seio de Abraão” (vers. 22). O “seio de Abraão” era o lugar de honra na festa final presidida por Abraão, o banquete onde, segundo o imaginário judaico, os eleitos se juntariam aos patriarcas e aos profetas. Expressa, portanto, a ideia de que Lázaro, após a sua morte, foi acolhido num lugar delicioso, onde era devidamente considerado e onde não experimentava as carências que tinha experimentado quando era vivo. O rico, por seu lado, após a morte, foi para o Hades, termo grego que designa o mundo subterrâneo. Aqui a palavra define um lugar de tormentos, onde o bem-estar de que o rico desfrutou em vida não existia mais. Para compor o cenário, fala-se de umas “chamas” que atormentam o homem rico e que lhe provocam uma sede terrível. A imagem está em consonância com a tradição judaica (cf. Is 66,24).

Na composição lucana, os dois lugares estão à vista um do outro. Convém ao narrador da parábola apresentar esse cenário, a fim de enquadrar o diálogo que se segue. O homem rico, atormentado pela sede, pede ao “pai” Abraão que lhe mande Lázaro, com o dedo humedecido em água, para lhe refrescar a língua. É curioso como esse rico que, em vida tinha ignorado completamente o pobre Lázaro, agora já o “vê” e já o integra no seu horizonte vital. Abraão, contudo, sem renegar o rico (chama-lhe “filho” – vers. 25), recusa a sua pretensão. Fala de “um abismo” que divide o mundo onde está Lázaro do mundo onde está o rico. Trata-se do “abismo” que o rico cavou quando, em vida, passou indiferente ao lado do sofrimento do pobre Lázaro. É enquanto vivemos que os “abismos” que nos separam dos nossos irmãos devem ser eliminados.

Aquele rico que agora constata a vanidade da sua existência de bem-estar, de comodismo e de indiferença aos irmãos, tem ainda outro pedido a fazer a Abraão: quer que Lázaro seja enviado aos seus irmãos, também eles ricos, insensatos e indiferentes ao sofrimento dos pobres, para que os avise sobre o sem sentido de uma existência construída nesses moldes. Abraão, uma vez mais, recusa. Recorda ao rico que a Palavra de Deus (Moisés e os Profetas” – vers. 29) é bem clara. Quem quiser, escuta-a e constrói a vida a partir dela. Os “avisos” mais interpelantes – como poderia ser um recado trazido à terra por um morto – serão inúteis para aqueles que têm o coração fechado aos desafios que a Palavra de Deus oferece.

Apesar do cenário e das imagens usadas, a parábola do rico e do pobre Lázaro não é sobre o que nos espera na vida futura. É sobre a forma como devemos viver, enquanto caminhamos na terra, para dar significado à nossa vida. É uma catequese “brutal”, que nos vai direita à consciência e ao coração e que nos faz pensar sobre o sentido da existência. Lembra-nos, antes de mais, que os bens que Deus nos confia pertencem a todos e devem ser partilhados com todos os nossos irmãos. Quem se apossa desses bens e os usa apenas em benefício próprio, está a subverter o projeto de Deus. Quem usa os bens para ter uma vida luxuosa e sem cuidados, esquecendo-se das necessidades dos outros homens, está a defraudar os seus irmãos que vivem na miséria. Não somos donos dos bens, mesmo que os tenhamos adquirido de forma legítima; somos “administradores” encarregados de fazer chegar a todos os bens que Deus põe à disposição dos seus filhos. Esquecer isto é viver de forma egoísta e, por isso, estar destinado aos “tormentos”. A parábola lembra-nos também que a indiferença à sorte dos irmãos que caminham ao nosso lado significa o falhanço completo da nossa vida. Somos responsáveis uns pelos outros; somos chamados à comunhão. Se nos instalamos em esquemas de egoísmo e de autossuficiência, teremos falhado completamente o sentido da nossa existência. Finalmente, a parábola diz-nos que devemos deixar-nos guiar pela Palavra de Deus e construir a nossa vida de acordo com as indicações de Deus. Se, talvez distraídos pelo bem-estar e pelo comodismo, ignorarmos os desafios de Deus, estaremos a construir uma vida vazia, sem sentido, que não nos realiza nem leva a lado nenhum.

 

INTERPELAÇÕES

  • A história do rico e do pobre Lázaro poderá ser vista como uma parábola sobre o nosso mundo… Há gente que vive comodamente instalada numa sociedade de bem-estar, cercada de luxo e de abundância, com hábitos consumistas e com preocupações fúteis, cuja vida é uma festa interminável e um esbanjamento sem medida. E há gente – muita, muita gente – sem recursos e sem futuro, abandonada nas bermas do caminho que a humanidade percorre, afundada na miséria mais sombria, que vive privada de pão, de instrução, de cuidados médicos, de dignidade e de amor. Podemos arranjar mil e uma razões para justificar este estado de coisas; podemos inventar todas as culpas e desculpas que quisermos para explicar este quadro… Mas tratar-se-á sempre de um escândalo intolerável, que subverte completamente o projeto de vida que Deus tem para os seus queridos filhos. Jesus di-lo claramente na história que contou a caminho de Jerusalém e que o Evangelho deste domingo nos traz: Deus não concorda, de forma nenhuma, que o mundo seja construído desta forma; Deus não pode aceitar que um quarto da humanidade açambarque oitenta por cento dos recursos que Ele pôs à disposição de todos e que três quartos da humanidade tenham de viver com os vinte por cento restantes. E nós, aceitamos? Podemos viver tranquilos sabendo que em tantos lugares do nosso mundo há pessoas que não têm o necessário para viver? Que podemos fazer?
  • O grande pecado do “rico” da parábola é ficar completamente indiferente à sorte do pobre Lázaro. Lázaro está todos os dias deitado junto do portão da casa do homem rico, derrotado e necessitado; mas o “rico” não o vê, ou não o quer ver, ou vê-o e acha que aquilo não lhe diz respeito. O pobre Lázaro, cheio de fome e com o corpo cheio de chagas, não conta, não interessa, não tem voz nem vez, não atrai um olhar, não suscita compaixão, vale tanto como uma pedra muda e insensível. A indiferença desumaniza: desumaniza o “pobre” que perde, aos olhos dos seus irmãos o estatuto de pessoa; desumaniza o “rico”, aquele que vive apenas voltado para os seus interesses e que deixa de ter sentimentos de humanidade pelo seu irmão. Fala-se hoje muito da “globalização da indiferença”. É uma realidade. Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de sentir compaixão, de chorar com os que choram e de rir com os que riem; passamos pelo irmão que sofre sem ver, ou como se o sofrimento do outro não nos dissesse respeito. Encolhemos os ombros diante da miséria, levantamos barreiras para que os pobres não entrem no nosso país e não batam à porta da nossa casa, criamos instituições onde escondemos aqueles que, pelo seu sofrimento, nos questionam e incomodam, reduzimos a fome e a enfermidade a números e estatísticas que não nos tocam. Se continuarmos a viver assim, sem sentir compaixão, não estaremos a desumanizar-nos? Onde é que nos leva a globalização da indiferença?
  • Há uma coisa que Jesus deixa bem claro na parábola: Deus não está de acordo com a nossa insensibilidade diante do sofrimento, com a nossa indiferença face ao irmão necessitado, com o egoísmo que nos leva a olhar apenas para o nosso bem-estar, com o esbanjamento dos bens que pertencem a todos os homens. Com uma linguagem dura, muito própria dos pregadores da época, Jesus declara solenemente que uma vida vivida em chave de egoísmo e autossuficiência é uma vida completamente perdida, falhada, sem sentido. Os “tormentos” que o “rico” da parábola sofre, no final da sua vida, são a maneira de representar a situação daqueles que, chegados ao fim do seu caminho, descobrem que a sua existência egoísta foi um total fracasso e que já não lhes é possível voltar atrás. Para nós, que ainda caminhamos na terra, a vida não está ainda fechada: é possível retrocedermos, é possível dar sentido à nossa vida, é possível construirmos um mundo mais humano, mais fraterno e mais feliz. Ousaremos fazê-lo?
  • Às vezes, diante da maldade e do egoísmo que desfeiam o mundo e que fazem sofrer os homens, interpelamos Deus, duvidamos da sua justiça e do seu amor, criticamos a sua indiferença face aos homens, garantimos que não compreendemos o silêncio que Ele mantém face às desgraças que acontecem no mundo e na história dos homens… Quando tecemos essas críticas, estaremos a ser justos? Desde o início da humanidade, Deus anda a avisar-nos, a propor-nos caminhos, a indicar-nos como devemos viver para construir um mundo mais humano e mais feliz. A certa altura, Deus até nos enviou o seu filho, o seu Jesus, para nos ensinar a construir a civilização do amor. Se os homens continuam a caminhar por caminhos de egoísmo e de maldade, a culpa será de Deus? Não ouvimos a cada passo a Palavra de Deus, uma Palavra que nos aponta inequivocamente o caminho que conduz à vida? Vivemos atentos a essa Palavra? Levamo-la a sério? Deixamo-nos conduzir por ela?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 26.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 26º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pe.ssoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. ORAÇÃO DOS FIÉIS INSPIRADA NO SALMO.

Pode-se fazer a oração dos fiéis inspirada no Salmo de hoje: “Senhor, faz justiça aos oprimidos, aos famintos dá o pão, protege os estrangeiros…”.

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
“Bendito sejas, Deus de justiça e Pai dos pobres, porque abres os olhos dos profetas aos sinais dos tempos. Nos excessos da fortuna e do bem-estar, Tu fazes-nos ler os anúncios de revoltas e de desordens.

Nós Te pedimos pela nossa terra e pela nossa sociedade, cujas riquezas estão tão mal distribuídas. Nós Te pedimos perdão pelos nossos próprios excessos”.

No final da segunda leitura:
“Soberano único e bem-aventurado, Rei dos reis e Senhor dos senhores, que possuis a imortalidade, nós Te damos graças porque dás vida a todas as coisas e nós Te bendizemos pelo teu Filho Jesus, que se manifestará no tempo fixado.

Nós Te pedimos: guarda-nos irrepreensíveis e justos, na fé e no amor, na perseverança e na doçura”.

No final do Evangelho:
“Pai dos pobres e defensor dos oprimidos, nós Te bendizemos pelos profetas que nos envias, quando deixamos os caminhos da justiça, e pela glória que reservas àqueles que os homens desprezam.

Presos nas redes de uma sociedade que produz tantos pobres, nós Te pedimos: ilumina-nos com o teu Espírito, conduz-nos nos caminhos da justiça”.

4. BILHETE DE EVANGELHO.

Durante a sua vida, o rico de quem ignoramos o nome conheceu uma certa felicidade, enquanto que o pobre Lázaro conheceu a infelicidade. A felicidade nesta terra é efémera pois está ligada às riquezas. A infelicidade é provisória porque a verdadeira riqueza será dada. Então, é preciso que a morte intervenha para que cada um encontre o seu verdadeiro lugar e a justiça seja feita: o pobre é elevado, ele que tinha sido rebaixado, ele a quem os cães vinham lamber as chagas. Quanto ao rico, é enterrado, ele que trazia vestes de luxo e fazia festins sumptuosos. São os pobres que são exaltados porque esperam a consolação de Deus. São os ricos que são enterrados, porque procuram a sua própria consolação.

5. À ESCUTA DA PALAVRA.

Eis ainda uma parábola sobre a má riqueza. Notemos, em primeiro lugar, que é a única parábola em que Jesus dá um nome a um dos protagonistas da história que inventa. O pobre chama-se Lázaro. Este nome, em hebraico, significa “Deus socorreu”. É bem isto que Jesus fez pelo seu amigo. O rico, esse, é descrito com todo o fausto que o rodeava: vestidos luxuosos, festins sumptuosos e quotidianos. Mas não tem nome. Ele é “o rico”. Aos olhos de Deus, os que ocupam o primeiro lugar são os pobres. Vamos mais longe. Uma frase é central no relato: “Lázaro bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas”. Uma frase muito próxima da parábola do filho pródigo, quando o filho mais novo lamenta não poder comer as bolotas dos porcos. O filho mais novo simboliza, sem dúvida, o homem pecador fechado na sua solidão. O pobre Lázaro, esse, é vítima do pecado do rico, mas o resultado é o mesmo: não são vistos por ninguém. Ninguém lhes dá atenção. Só os cães vêm lamber as chagas do pobre. Temos aí uma descrição muito realista do que são muitas vezes as nossas relações. “O rico” é um nome anónimo. As nossas relações não são muitas vezes anónimas? Mesmo com os nossos mais próximos, não acontece, por vezes, que não os vemos verdadeiramente, a ponto de esquecer simplesmente de lhes dizer bom dia, de estar atentos a eles. A indiferença é verdadeiramente um pecado que pode matar. Nomeando o pobre Lázaro, Jesus recorda-nos, ao contrário, que, para Ele e para o seu Pai, cada ser humano é olhado como único. Jesus veio compensar o olhar vazio e anónimo do rico. Veio socorrer todos os pobres – é o sentido do nome de Lázaro! Mais ainda que Moisés e os profetas, é Jesus que devemos escutar, para agir como Ele.

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística I, que faz alusão a Abraão (primeira leitura).

7. PALAVRA PARA O CAMINHO…

E nós hoje? As palavras de Amós atingem sem compaixão aqueles que não se preocupam com o desastre de Israel. Lucas põe em cena um homem rico fechado no luxo, que não tem mesmo qualquer olhar para o pobre Lázaro que está à sua porta. E nós hoje? Ricos ou não, diante de todos os desastres do mundo, temos um olhar diferente para com todos os “Lázaros” da nossa sociedade ou ficamo-nos por um simples relance no ecrã da televisão? Ouvimos os golpes discretos à nossa porta? Ou serão somente cães a dar-lhes assistência?

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

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José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
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