03º Domingo do Tempo Comum - Ano A [atualizado]
25 de Janeiro, 2026
ANO A
3.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Tema do 3.º Domingo do Tempo Comum
A liturgia do terceiro domingo comum desvela-nos o projeto de salvação e de vida plena que Deus tem para oferecer ao mundo e aos homens. Ele visita-nos, toma nota das nossas dificuldades, cuida das nossas feridas, mostra-nos em que direção caminhar para chegarmos à vida, fica à nossa espera para nos acolher e abraçar no final do caminho. A sua salvação ilumina cada um dos nossos passos.
Na primeira leitura, o profeta/poeta Isaías – que fala aos habitantes de Judá num tempo histórico marcado pelo imperialismo da Assíria – anuncia uma luz que Deus irá fazer brilhar por cima das montanhas da Galileia e que porá fim às trevas que se abateram sobre aquela região. Talvez as intervenções de Deus não estejam sincronizadas com nossa impaciência e a nossa pressa; mas Ele nunca deixará de vir em socorro dos seus filhos que caminham no mundo.
O Evangelho mostra-nos a concretização da promessa feita por Deus através do profeta Isaías: Jesus é a luz que começa a brilhar na Galileia para iluminar os caminhos e as vidas de todos aqueles que habitam “na sombria região da morte”. Ele anuncia a chegada de Deus para fazer nascer um mundo novo, mais justo, mais fraterno e mais humano. Jesus não está sozinho neste projeto: junta à sua volta alguns discípulos e convida-os a colaborar com Ele na construção do Reino de Deus.
Na segunda leitura o apóstolo Paulo pede aos cristãos de Corinto que não se esqueçam do compromisso que assumiram quando se dispuseram a seguir Jesus e a acolher a Boa Notícia da salvação. Membros do “Corpo de Cristo”, os cristãos não podem viver no meio de disputas, de conflitos e de divisões. Compete-lhes anunciar, com a própria vida, esse mundo novo de fraternidade, de comunhão e de paz que Cristo veio propor.
LEITURA I – Isaías 8,23b-9,3
Assim como no tempo passado
foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali,
também no futuro será coberto de glória
o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios.
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam nas sombras da morte
uma luz se levantou.
Multiplicastes a sua alegria,
aumentastes o seu contentamento.
Rejubilam na vossa presença,
como os que se alegram no tempo da colheita,
como exultam os que repartem despojos.
Vós quebrastes, como no dia de Madiã,
o jugo que pesava sobre o povo,
o madeiro que ele tinha sobre os ombros
e o bastão do opressor.
CONTEXTO
O profeta Isaías (autor dos caps. 1-39 do Livro de Isaías) nasceu por volta do ano 760 a. C., no tempo do rei Ozias. De origem nobre, parece ter vivido em Jerusalém.
Isaías sentiu-se chamado por Deus à vocação profética quando tinha cerca de vinte anos. Sabemos também que casou e teve filhos. Desconhecemos o nome da esposa, conhecida somente como “a profetiza” (Is 8,3).
O carácter de Isaías pode conhecer-se suficientemente através da sua obra. É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento do seu chamamento vocacional. Seguramente, faz parte dos notáveis do país: participa nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (Is 7,10). É enérgico e nunca se deixa desanimar. É inimigo da anarquia (cf. Is 3,1-9); mas isso não significa que apoie as classes altas. Na verdade, os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos. É duro e irónico com as mulheres da classe alta de Jerusalém (cf. Is 3,16-24; 32,9-14). Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (cf. Is 3,12-15).
Os últimos oráculos de Isaías são de 701 ou, talvez, de 689 a. C., altura em que o rei assírio Senaquerib invadiu Judá e pôs cerco a Jerusalém. Isaías deve ter morrido poucos anos depois, embora não saibamos ao certo quando. Um apócrifo judeu do séc. I d. C. – “Ascensão de Isaías” – afirma que foi assassinado pelo rei ímpio Manassés.
Em 721 a.C. o rei assírio Sargão II invadiu o reino do Norte (Israel), tomou a Samaria e deportou uma parte da sua população para a Assíria. As melhores terras da Samaria foram ocupadas por colonos assírios que se instalaram na região e se misturaram com a população local. Esse acontecimento histórico inaugurou uma época de desolação e de trevas para as tribos do Povo de Deus que ocupavam a região setentrional da Palestina, nomeadamente os antigos territórios de Zabulão e de Neftali, e toda a região da Galileia.
No sul do país, Ezequias (716-687 a.C.) subiu ao trono de Judá alguns anos depois da queda da Samaria. Era a época em que o poder militar assírio se impunha em toda a região. Durante algum tempo, Ezequias evitou envolver-se nos jogos da política internacional, a fim de não proporcionar aos assírios pretextos para invadir Judá. Mas em 705 a.C., após a morte de Sargão II, Ezequias, desdenhando as indicações do profeta Isaías (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros eram sintoma de grave infidelidade para com Javé, pois significavam colocar a confiança e a esperança nos homens), enviou embaixadas ao Egipto, à Fenícia e à Babilónia, procurando consolidar uma frente política e militar capaz de lutar contra os desígnios imperialistas dos assírios. Senaquerib, o sucessor de Sargão II no trono assírio, dispôs-se imediatamente a castigar as nações que desafiavam o poderio assírio. Tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, invadiu finalmente Judá, devastou o país e pôs cerco a Jerusalém (701 a.C.). O rei Ezequias teve de submeter-se e ficou a pagar um pesado tributo à Assíria.
Nesta circunstância, o profeta Isaías assumiu uma atitude bastante crítica em relação aos dirigentes de Judá, considerando-os incapazes de governar de forma sensata e de conduzir o povo de Deus em direção à paz e à prosperidade. Desiludido com os líderes humanos, o profeta começou a pensar numa intervenção de Deus que derrotasse os opressores e devolvesse a Israel e a Judá a liberdade e a paz. O texto que a liturgia deste terceiro domingo comum nos propõe como primeira leitura poderia entender-se neste contexto.
MENSAGEM
A profecia de Isaías está construída sobre um jogo de oposições: “humilhar/cobrir de glória”, “trevas/luz”, “caminhar nas sombras da morte (desolação, desespero)/alegria e contentamento”. Os conceitos negativos (“humilhar”, “trevas”, “caminhar nas sombras da morte”) definem a situação atual dos territórios de Zabulão e Neftali, esmagados sob o peso do jugo assírio; os conceitos positivos (“cobrir de glória”, “luz”, “alegria e contentamento”) referem-se ao futuro.
Como se passará da atual situação de opressão, de frustração, de desespero, à situação futura de alegria, de contentamento, de esperança?
O profeta fala de “uma luz” que irá começar a brilhar por cima dos montes da Galileia e que irá iluminar toda a terra. Essa luz eliminará “as trevas” que mantêm o Povo oprimido e sem esperança e inaugurará o dia novo da alegria e da paz sem fim. O jugo da opressão que pesava sobre o Povo será, então, quebrado e a paz deixará de ser uma miragem para se tornar uma realidade. Para descrever a alegria que, nesse novo quadro, encherá o coração dos israelitas, o profeta utiliza duas imagens bem sugestivas: será igual à festa que se faz no final das colheitas, quando toda a gente dança feliz, celebrando a abundância dos alimentos; será igual aos festejos que se fazem após a caçada, quando os caçadores dividem a presa abundante.
Qual a origem dessa luz libertadora e recriadora que vai brilhar sobre a Galileia? O sujeito das ações descritas em Is 9,3 é, indubitavelmente, Deus: será Deus quem quebrará a vara do opressor, quem levantará o jugo que oprime o Povo de Deus, quem triturará o bastão de comando que gera escravidão e humilhação. O mundo novo de alegria e de paz sem fim é um dom de Deus.
O texto que a liturgia deste dia nos propõe fica por aqui; mas, na sequência, o oráculo de Isaías ainda fala num “menino”, enviado por Deus para restaurar o trono de David, para reinar no direito e na justiça (cf. Is 9,5-6), para transformar a opressão em liberdade e a violência em paz. É a promessa messiânica em todo o seu esplendor. Jesus, setecentos anos depois da profecia de Isaías, irá concretizá-la.
INTERPELAÇÕES
- Os dramáticos acontecimentos históricos da época de Isaías não foram um caso isolado. Infelizmente, a história dos homens – a mais recuada, mas também a dos nossos dias – regista a cada instante situações intoleráveis de opressão, de injustiça, de violência, que trazem sofrimento a milhões de inocentes, vítimas da prepotência e da ambição dos poderosos. No meio de tudo isto, onde está Deus? Ele passa ao lado do sofrimento dos seus filhos que sofrem sem lhes fazer justiça? Ele deixa que os grandes, os violentos, os poderosos, atuem impunemente? Deus fica indiferente quando os seus queridos filhos gemem sob o peso insuportável da maldade de outros homens? O profeta Isaías tinha a certeza de que Deus se importa com o sofrimento dos seus filhos e intervirá para lhe pôr cobro. O oráculo de Isaías que ouvimos hoje deixa-nos essa garantia. Deus sempre esteve e sempre estará do lado dos oprimidos, dos injustiçados, dos sofredores. Talvez Deus, por razões que só Ele sabe, não atue logo e demore algum tempo a repor a justiça; talvez nós, que queremos sempre tudo “para ontem”, nem sempre consigamos entender os vagares de Deus; mas Deus – o Deus que preside à história e que não ignora o sofrimento dos seus filhos – há de atuar e mudar as trevas em luz, a opressão em liberdade, a morte em vida. Acreditamos nisto? É com essa certeza que enfrentamos as “sombras” do nosso tempo?
- O nosso texto não explica como é que Deus vai atuar no sentido de restabelecer a justiça e mudar as trevas em luz (o oráculo de Isaías irá dizê-lo mais à frente, nuns versículos que a leitura deste domingo não conservou: Deus irá enviar à humanidade um “menino”, o “Príncipe da paz”, que inaugurará um reino novo de prosperidade e de vida para todos os homens – cf. Is 9,5-6). Nós, contudo, percebemos logo que Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para nos anunciar e propor o “Reino de Deus”, tem um papel fundamental no projeto de Deus. Ele veio acender uma luz que ilumina as trevas que cobrem a Galileia e o resto do mundo. Porque é que, dois mil anos depois de Jesus, a luz que Jesus trouxe ainda não ilumina as sombras que cobrem o mundo? Jesus não foi claro quando nos disse o que devemos fazer para vencer a violência, a injustiça, a morte? Será que temos levado a sério tudo o que Jesus nos ensinou? Depois de Deus ter feito tudo o que fez para nos indicar o caminho da justiça, do amor e da paz, podemos culpá-lo pelas sombras que ameaçam o nosso mundo?
- Jesus reuniu à sua volta um grupo de discípulos e ensinou-os a viver na lógica do Reino de Deus. Mostrou-lhes os valores sobre os quais, segundo Deus, deve assentar a ordem do mundo – a justiça que traz paz, o perdão sem limites, o serviço simples e humilde, o amor sem fronteiras, o dom da própria vida em benefício de todos – e enviou-os a anunciar a todos os homens o Reino de Deus. Nós, que aderimos a Jesus, que nos dispusemos a segui-l’O, que aceitamos ser suas testemunhas, temos sido arautos do Reino de Deus? Esforçamo-nos, dia a dia, por tornar realidade esse mundo novo de justiça, de amor e de paz? Como lidamos com as situações de injustiça, de opressão, de conflito, de violência: com a indiferença de quem sente que não tem nada a ver com isso, ou com a inquietação de quem se sente responsável pela instauração do Reino de Deus entre os homens?
- O profeta Isaías conhecia bem os notáveis de Judá: frequentava os ambientes da corte e participava nas decisões relativas ao Reino; falava com autoridade aos altos funcionários e mesmo aos reis. No entanto descobriu, a certa altura, que os homens são falíveis, que os dirigentes se equivocam, que as desilusões esperam-nos ao virar da esquina, que nem tudo o que reluz é ouro. Isaías descobriu que só Deus é absoluto, só Deus não falha; é n’Ele e só n’Ele que podemos colocar, com plena certeza, a nossa confiança e a nossa esperança. Trata-se de uma boa dica para nós. Em quem ou em quê colocamos a nossa confiança? Em quem ou em quê assentamos as nossas vidas? Onde está a “rocha segura” a que podemos agarrar-nos sem vacilar no meio das tempestades e das crises que temos de enfrentar ao longo do nosso caminho na terra?
SALMO REPONSORIAL – Salmo 26 (27)
Refrão 1: O Senhor é minha luz e salvação.
Refrão 2: O Senhor me ilumina e me salva.
O Senhor é minha luz e salvação:
a quem hei de temer?
O Senhor é protetor da minha vida:
de quem hei de ter medo?
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor
e visitar o seu santuário.
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor
na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem confiança e confia no Senhor.
LEITURA II – 1 Coríntios 1,10-13.17
Irmãos:
Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que faleis todos a mesma linguagem
e que não haja divisões entre vós,
permanecendo bem unidos,
no mesmo pensar e no mesmo agir.
Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé,
que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga:
«Eu sou de Paulo», «eu de Apolo»,
«eu de Pedro», «eu de Cristo».
Estará Cristo dividido?
Porventura Paulo foi crucificado por vós?
Foi em nome de Paulo que recebestes o Batismo?
Na verdade, Cristo não me enviou para batizar,
mas para anunciar o Evangelho;
não, porém, com sabedoria de palavras,
a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.
CONTEXTO
Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos, e aos sábados usava da palavra na sinagoga. Como resultado da sua pregação, nasceu a comunidade cristã de Corinto. Paulo ficou na cidade cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52).
A dada altura, porém, os líderes da comunidade judaica reprovaram o testemunho que Paulo dava sobre Jesus e expulsaram-no da sinagoga (cf. At 18.6). Paulo decidiu então dedicar-se à evangelização dos pagãos. Os judeus, no entanto, acusaram-no de atividades contrárias à fé judaica e levaram-no diante de Galião, procônsul da Acaia, para ser julgado. Galião, a quem essas questões religiosas típicas dos judeus não interessavam, recusou-se a tomar posição. De Corinto, Paulo foi para Éfeso e de lá voltou a Antioquia da Síria, a cidade de onde tinha partido em missão.
Paulo continuou, contudo, em contacto com a comunidade cristã de Corinto. Sempre solícito, sempre interessado, Paulo recebia notícias e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus amigos de Corinto enfrentavam.
Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes (levadas “pela gente de Cloé” – 1Co 1,11) sobre a comunidade de Corinto. Após a sua partida da cidade, tinha aparecido em Corinto um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Na pregação, Apolo era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de eloquência (cf. 2Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1Cor 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias.
MENSAGEM
Paulo entende que, no centro da experiência cristã, não está uma determinada filosofia de vida, defendida mais ou menos brilhantemente por um qualquer “mestre”, mas sim o encontro, a adesão e o seguimento de Jesus Cristo. É Ele e apenas Ele o único e verdadeiro mestre; é Ele e só Ele que está no centro da experiência cristã; é a Ele e apenas a Ele que todos devem escutar e seguir.
Plenamente certo destas verdades, Paulo dirige-se aos coríntios e lembra-lhes que foi em Cristo que todos foram batizados; foi Cristo que ofereceu por todos a sua vida na cruz. Portanto, só Cristo pode ser a referência de todos, a única fonte de salvação e de vida para todos.
Sendo assim, quando alguém da comunidade se apresenta como sendo “de Paulo”, “de Cefas”, ou “de Apolo”, ou de qualquer outro, está a desvirtuar gravemente a essência da fé cristã. Os coríntios – bem como os cristãos de qualquer outro lugar ou de qualquer outro tempo – não foram batizados em nome de Paulo, ou de Cefas, ou de Apolo; nem foi Paulo, Cefas ou Apolo que morreram na cruz para os salvar. Paulo, Cefas e Apolo foram, cada um à sua maneira, simples instrumentos de Deus para que os coríntios conhecessem Jesus Cristo e abraçassem o seu Evangelho.
Que sentido fazem as divisões e os “partidos” na comunidade? “Estará Cristo dividido?” (vers. 13) – pergunta Paulo. As divisões, os conflitos, as discussões, as tentativas de garantir a superioridade de um grupo sobre o outro não serão a negação da unidade, da fraternidade, da comunhão que Cristo veio propor e que a comunidade nascida de Cristo e alimentada por Cristo deve testemunhar?
De resto, o anúncio do Evangelho não é um concurso de eloquência. O “enviado” deve proclamar a Boa Notícia da salvação numa linguagem simples e despida de enfeites, a fim de não distrair os destinatários da essência da mensagem (cf. vers. 17).
Os coríntios são, portanto, intimados a não fixar a sua atenção em mestres humanos e a redescobrir Cristo, morto na cruz para dar vida a todos, como a essência da sua fé e do seu compromisso. Dessa forma, a comunidade será uma verdadeira família de irmãos, que recebe vida de Cristo e que vive em unidade e comunhão.
INTERPELAÇÕES
- Paulo de Tarso, o “apóstolo” que levou o Evangelho de Jesus ao encontro do mundo greco-romano, tinha ideias absolutamente claras sobre aquilo que é decisivo na experiência cristã: o encontro, a adesão, o seguimento de Jesus Cristo. Isso é algo que há muito assumimos? Talvez. Isso é algo que temos sempre presente diante dos olhos e que marca cada passo que damos no caminho da fé? Talvez não. Por vezes falamos mais de leis canónicas e de rituais litúrgicos do que da Palavra de Jesus; por vezes preocupamo-nos mais com a organização de uma estrutura paroquial eficiente do que com o conhecimento e a escuta de Jesus; por vezes confiamos mais em líderes religiosos ou políticos do que em Jesus; por vezes ligamos a nossa experiência de fé mais a figuras humanas (veneráveis e santas, claro, mas humanas) do que a Jesus. Cristo é, de facto, a nossa referência fundamental? É à volta d’Ele e da sua proposta de vida que a nossa experiência de fé se constrói? Os erros e as falhas das pessoas que encontramos na comunidade cristã são para nós razão para nos afastarmos do caminho da fé? A nossa participação na vida da comunidade eclesial é condicionada ao facto de “estar lá” determinada pessoa?
- Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que acreditar em Cristo e fazer parte do “Corpo” de Cristo (a Igreja) é incompatível com os “partidos”, as querelas, as disputas, os ciúmes, os conflitos que fraturam a comunidade e deixam feridas incuráveis no tecido comunitário. Poderá Cristo estar dividido? Os conflitos e as divisões serão compatíveis com a proposta de Jesus? As guerras e rivalidades dentro de uma comunidade cristã não serão um sinal evidente de que estamos a ser conduzidos não por Cristo, mas sim pelos nossos interesses, pelo nosso orgulho, pela nossa vaidade, pela nossa autossuficiência, pelo nosso egoísmo? A nossa comunidade cristã dá testemunho de harmonia, de comunhão, de entendimento, de concórdia, de solidariedade, de amor verdadeiro? Alguma vez fomos, na comunidade, fator de desunião, de conflito, de divisão?
- A Igreja de Jesus é santa e pecadora. As pessoas que a constituem são chamadas à santidade, mas experimentam a cada instante a fragilidade inerente à condição humana. Por isso, casos de abuso de poder, de prepotência, de culto da personalidade, de ambição, podem aparecer, aqui e ali, em pessoas a quem foram atribuídas funções de responsabilidade na animação das comunidades cristãs. Embora compreendamos as falhas que a esse nível possamos testemunhar, convém também saber que isso não é “normal” ou “aceitável”. Ninguém tem o direito de se apresentar como “dono da comunidade” e de tratar os irmãos com sobranceria; ninguém tem o direito de desviar o foco de Cristo para o dirigir para si próprio. Como vemos essas situações? Como lidamos com elas?
ALELUIA – cf. Mateua 4,23
Aleluia. Aleluia.
Jesus proclamava o Evangelho do reino
e curava todas as doenças entre o povo.
EVANGELHO – Mateus 4,12-23
Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
CONTEXTO
Depois de ter recebido o batismo no rio Jordão, Jesus permaneceu algum tempo no deserto, talvez ligado a João Batista. O tempo passado no deserto foi, para Jesus, um tempo de preparação para a missão. É natural que, durante esse tempo, Jesus tenha refletido sobre a missão que o Pai Lhe confiava e tenha definido as grandes linhas do seu ministério. Sentiu que o tempo de preparação para a intervenção de Deus, de que João falava, tinha terminado e que começava um tempo novo, o tempo da salvação. Jesus achava que essa nova etapa da história da salvação estava ligada à sua pessoa e ao seu ministério: Deus enviava-O a anunciar a presença de Deus na história dos homens – o “Reino de Deus”.
Então, Jesus deixou o deserto onde tinha passado algum tempo e deslocou-se para a terra habitada de Israel. A salvação de Deus ia ao encontro dos homens nos lugares onde eles viviam e trabalhavam. Transformado em profeta itinerante, Jesus pretendia percorrer as aldeias e vilas da Galileia para anunciar a todos a chegada de Deus, desse Deus misericordioso e bom, que vinha oferecer uma vida mais digna e mais humana a todos os seus queridos filhos. Estávamos no ano 28 e Jesus teria uns trinta e dois anos.
Jesus dirigiu-se para a Galileia, a região que conhecia bem pois aí tinha passado a maior parte da sua vida. A Galileia tinha a vantagem de ficar longe de Jerusalém, havendo por isso menos controle por parte das autoridades religiosas judaicas. Jesus, no entanto, não se instalou na pequena aldeia de Nazaré, onde vivia a sua família, mas estabeleceu-se em Cafarnaum, cidade situada na margem do lago de Tiberíades, também chamado Mar da Galileia. A cidade tinha entre 1.000 e 1.500 habitantes. Parte dos habitantes de Cafarnaum viviam da agricultura; os outros eram pescadores, comerciantes e artesãos. Em Cafarnaum funcionava uma alfândega onde os funcionários – os cobradores de impostos – controlavam o movimento de uma importante via comercial pela qual chegavam mercadorias de grande valor vindas do oriente. A cidade contava ainda com uma guarnição romana constituída por cerca de cem soldados.
MENSAGEM
Jesus instalou-se em Cafarnaum por causa da situação estratégica da cidade. Daí Ele podia facilmente chegar a outras regiões da Galileia, às cidades fenícias da costa e até mesmo aos territórios pagãos da região da Decápole, situada a oriente do Mar da Galileia. Mateus, sempre preocupado com a realização das antigas profecias, vê na instalação de Jesus em Cafarnaum, “terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali” (vers. 13), o cumprimento do anúncio profético de Isaías: “terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou” (Is 8,23-9,1). Para Mateus, Jesus é a luz outrora prometida por Deus, a luz que, depois de tantos séculos de espera, se acende na humilhada terra da Galileia, ainda a sangrar das terríveis feridas que os ocupantes assírios lá tinham deixado desde que conquistaram e ocuparam o reino de Israel (no séc. VIII a.C.). Com a chegada de Jesus chega também um tempo novo de salvação, de graça e de paz.
A mensagem que Jesus, o profeta itinerante do Reino de Deus, começou a anunciar dirige-se, antes de mais, aos pequenos, aos desprezados, aos esquecidos – os pobres, os camponeses, os pescadores – de Israel; mas destina-se também aos pagãos e tem, portanto, uma dimensão universal. Para Mateus é bem significativo que o primeiro anúncio de Jesus ecoe na Galileia, terra onde os gentios se misturam com os judeus e, concretamente, em Cafarnaum, a cidade que, pela sua situação geográfica, é uma porta aberta para as terras dos pagãos.
Qual é o conteúdo do anúncio que Jesus faz? O núcleo central da pregação de Jesus, a sua preocupação mais profunda, a sua grande “paixão” era uma realidade a que Ele chamava “o Reino de Deus”. A expressão “Reino de Deus” (ou “Reino dos céus”, como Mateus prefere dizer) é rara no Antigo Testamento. Jesus, no entanto, começa a usá-la para se referir a uma das aspirações mais profundas do Povo de Deus. A catequese de Israel via Deus como o Senhor absoluto do mundo e da história, o “rei” que “governa o mundo com justiça e os povos com a sua fidelidade” (Sl 96,13). Esse “rei” tinha libertado Israel da escravidão do Egito, tinha-o acompanhado pelo caminho do deserto, tinha feito com ele uma Aliança, tinha-lhe dados as suas leis e preceitos, tinha-lhe dado a Terra Prometida, tinha-o conduzido ao longo do seu caminho pela história. Deus era um rei bom, que amava o seu povo e queria assegurar-lhe um futuro de prosperidade, de abundância e de paz. No entanto, depois de instalado na Terra Prometida, o Povo de Deus quis organizar-se à maneira dos outros povos e quis ser governado por reis humanos. Esses reis humanos, contudo, exerceram a realeza de forma dececionante. No discurso profético encontramos frequentemente denúncias de injustiças cometidas pelos reis contra os pobres, de atropelos ao direito orquestrados pela classe dirigente, de responsabilidades dos líderes no abandono da Aliança, de graves omissões no que diz respeito aos compromissos assumidos para com Javé. Dececionado com os reis terrenos, o Povo de Deus começou a sonhar com um tempo novo, um tempo em que o próprio Deus iria reinar diretamente sobre o seu Povo; e esse reinado seria marcado pela justiça, pela misericórdia, pela preocupação de Deus em relação aos pobres e marginalizados, pela abundância e fecundidade, pela paz sem fim. O povo de Deus vivia, há séculos, na expetativa da chegada de Deus para reinar sobre Israel e para inaugurar esse mundo novo.
Jesus tem consciência de que a chegada do Reino de Deus está ligada à sua pessoa. Por isso, começa a percorrer a Galileia e a dizer: “o reino de Deus está próximo” (vers. 17). Ele acha, no entanto, que a chegada do Reino de Deus está associada a uma “conversão”, a uma mudança radical na mentalidade, nos valores, na postura de vida; por isso pede: “convertei-os” (‘metanoeite’). A “conversão” corresponde, na linguagem profética, a um reorientar a vida para Deus, a um reequacionar a vida, de modo que Deus e os seus valores passem a estar no centro da existência do homem. Sim, para que o Reino de Deus aconteça, tem de haver primeiro uma “conversão”: só quando o homem abandonar os caminhos errados e voltar para Deus estará preparado para acolher a realeza de Deus… Então, o Reino de Deus pode tornar-se realidade no mundo e nos corações dos homens.
A cena seguinte situa-nos em Cafarnaum, nas margens do Mar da Galileia. Jesus passa, vê Simão Pedro e André, dois irmãos que lançavam as redes ao mar, e convida-os a segui-l’O. Diz-lhes que, doravante, serão “pescadores de homens” (vers. 18-20). Também chama outros dois pescadores – Tiago e João, irmãos, que deixaram o barco e o pai para seguir Jesus (vers. 21-22).
Provavelmente o relato de Mateus (que é tomado do Evangelho de Marcos – cf. Mc 1,16-20) não é uma descrição factual de um chamamento, mas sim uma catequese cujo objetivo é pôr em relevo os passos fundamentais da vocação. Através da resposta pronta de Pedro e André, Tiago e João, propõe-se um exemplo de seguimento de Jesus, de conversão radical ao Reino de Deus e de adesão às suas exigências.
O relato sublinha, antes de mais, a diferença fundamental entre os chamados por Jesus e os discípulos dos rabis da época: o habitual entre os judeus era cada discípulo escolher o seu mestre; mas aqui é Jesus que toma a iniciativa, que chama os discípulos que Ele próprio escolheu, que os convida a segui-l’O e lhes propõe uma missão.
A resposta dos quatro discípulos ao chamamento é paradigmática: eles renunciam à família, ao seu trabalho, às suas seguranças e seguem Jesus prontamente e sem condições. Esta rutura (que significa não só uma rutura afetiva com pessoas, mas também a rutura com um quadro de referências sociais e de segurança económica) indicia uma opção radical pelo Reino e pelas suas exigências.
Os discípulos que aceitam seguir Jesus e abraçar o desafio do Reino, trabalharão como “pescadores de homens”. Na cultura judaica, o mar é o lugar dos demónios, das forças da morte que se opõem à vida e à felicidade dos homens. A tarefa dos discípulos de Jesus será, portanto, libertar os homens dessa realidade de morte e de escravidão em que eles estão mergulhados, conduzindo-os à liberdade e à realização plenas.
Simão Pedro, André, Tiago e João, os quatro discípulos que Jesus encontrou e chamou nas margens do lago da Galileia, passarão a andar com Jesus. Com Ele irão descobrir o Reino de Deus e as suas exigências. Mais tarde, depois de Jesus ter voltado para o Pai, tornar-se-ão testemunhas do Reino de Deus em toda a terra. Com a sua resposta decidida, com o seu seguimento radical de Jesus, com o seu compromisso com o Reino, eles tornar-se-ão modelo para os discípulos de todos os tempos e lugares.
Para terminar, Mateus mostra Jesus a andar por toda a Galileia e a construir ativamente o Reino de Deus (vers. 23). Ao anúncio do Reino com palavras, somam-se os gestos curadores de Jesus, que levam vida a todos os enfermos que vivem mergulhados “na sombra da morte”. Pela ação de Jesus abre-se uma nova era, um tempo de esperança para o mundo e para os homens. Com Jesus, Deus chegou para reinar no mundo e para transformar a escravidão em liberdade, a morte em vida.
INTERPELAÇÕES
- Hoje como ontem, há sempre homens e mulheres que habitam “na sombria região da morte”. São as vítimas da prepotência, da maldade e da ambição dos poderosos; são os condenados à fome, à violência, à miséria, à escravatura; são aqueles que deixamos para trás, abandonados nas bermas da estrada da vida; são os despojados dos seus direitos e da sua dignidade pelo egoísmo dos seus irmãos; são aqueles que as sociedades e as igrejas ignoram e marginalizam; são aqueles que se sentem malditos e indignos, abandonados por Deus e pelos homens… A vida deles estará perdida? Deus não tem nada para lhes oferecer? É a esses que, em primeiro lugar, é dirigida a Boa Notícia que Jesus apregoou por toda a Galileia e que mandou os seus discípulos espalhar por todo o mundo: “Deus não se conforma com o vosso sofrimento e não vos abandona; Ele vem ao vosso encontro para mudar a vossa triste situação e para vos oferecer a possibilidade de viverdes uma vida nova, uma vida com sentido; Deus vai atuar para fazer nascer um mundo novo, um mundo que seja construído conforme o seu projeto”. Talvez este anúncio, diante da realidade que vemos todos os dias, nos pareça apenas uma bela quimera sem concretização… Mas Jesus não mente: a verdade é que Deus está empenhado em fazer aparecer um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano, onde os seus queridos filhos possam viver felizes e em paz. Acreditamos que Deus está a trabalhar para fazer nascer, aqui e agora, o Reino de Deus? O que falta para que o projeto de Deus se concretize e mude a face da terra? Aceitamos ser colaboradores de Deus na construção desse mundo novo?
- Jesus enlaçou o anúncio da chegada do Reino com um convite à conversão. Ele tinha razão. O Reino de Deus só será possível se fizermos uma “inversão de marcha” na nossa vida, se mudarmos os nossos esquemas e comportamentos, a nossa maneira de pensar, a nossa forma de agir, o nosso olhar sobre o mundo e sobre os nossos irmãos, os valores que colocamos no centro da nossa existência… Convertermo-nos implica despirmo-nos do egoísmo, da ambição mesquinha, da vaidade, dos tiques de autoritarismo e de intolerância; implica vencermos o comodismo, a instalação, a preguiça, a indiferença face às necessidades dos irmãos; implica a superação da autossuficiência, do isolamento, do orgulho que nos impedem de ver os nossos irmãos sofredores; implica a renúncia a qualquer tipo de violência, de dominação do outro, de compromisso com a injustiça; implica deixarmos de colocar no centro da nossa vida os bens efémeros; implica renunciarmos à mentira, à corrupção, à desonestidade, às trevas… O que é que na nossa vida, nas nossas opções, nos nossos comportamentos constitui um obstáculo à chegada do Reino de Deus?
- Jesus, pouco depois de começar a propor o Reino de Deus, encontrou Simão Pedro, André, Tiago e João nas margens do Mar da Galileia, junto de Cafarnaum, e convidou-os a segui-l’O. Começou assim a constituir-se, de forma muito modesta, a comunidade do Reino de Deus. Neste “seguimento” de Jesus está o núcleo central que define a experiência cristã. Ser cristão não é confessar um “credo”, ou aderir a uma proposta moral, ou cumprir determinados ritos, ou recitar determinadas fórmulas; mas é, antes de mais, seguir atrás de Jesus, escutá-l’O a cada instante, inspirar-se n’Ele, viver ao seu estilo; seguir Jesus é acreditar no que Ele acreditava, interessar-se pelas coisas que O interessavam, defender as causas que Ele defendia, olhar os homens como Ele olhava, amar as pessoas como Ele amava, confiar em Deus como Ele confiava… Estamos disponíveis para acolher o chamamento de Jesus e para segui-l’O sem reservas, com a mesma decisão e a mesma convicção de Pedro, André, Tiago e João? O nosso caminho de fé é um caminho “de discípulos”, um caminho que nos faz avançar tendo sempre Jesus como referência? Como é que vivemos, hoje, o seguimento de Jesus?
- Quando chamou os seus primeiros discípulos e os convidou a segui-l’O, Jesus disse-lhes que contava com eles para serem “pescadores de homens”. O que é que Ele queria dizer? Há muita gente mergulhada num imenso mar de sofrimento, de angústia, de medo, de injustiça, de privações, de morte. Ontem como hoje, é tarefa dos discípulos de Jesus libertá-los desse mar, devolvê-los à vida, curá-los das suas feridas, abrir-lhes as portas da esperança. Trata-se de continuar a missão de Jesus, que andava pela Galileia “curando todas as doenças e enfermidades entre o povo”; trata-se de construir o Reino de Deus”, de fazer nascer um mundo mais justo, mais são, mais fraterno, mais solidário, mais belo e mais feliz. Nós, os que escutamos o chamamento de Jesus e nos dispusemos a segui-l’O, estamos disponíveis para colaborar com Ele na construção do Reino de Deus e para sermos “pescadores de homens”, arautos da salvação de Deus?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)
- A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo do 3º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo…
Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…
- ORAÇÃO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS.
Este domingo situa-se no centro da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18-25 de janeiro). Pode-se associar a assembleia a esta intenção fundamental da Unidade. Pode ser proposta uma caminhada no momento do Credo: lamparinas ou pequenas velas são distribuídas aos fiéis à entrada da igreja e acesas para a profissão de fé; terminada esta, todos vão em procissão e colocam-nas junto a uma grande Cruz perto do altar. Antes da profissão de fé, uma introdução apresenta o gesto como o reconhecimento da luz da Cruz, única fonte de Unidade.
- BILHETE DE EVANGELHO: UNIDADE E PAZ…
Estamos quase a terminar o mês de janeiro, celebrando duas dimensões marcantes da caminhada neste mês: a Paz (Natal e primeiro dia do ano) e a Unidade (Semana de Oração que estamos a viver). Nestes dias, rezamos pela Unidade, em comunhão com todos os nossos irmãos cristãos que a história separou. Em dezembro e início do ano, rezámos pela Paz, em comunhão com todos os crentes que erguem os olhos para Aquele que chamam Deus. Devemos desejar esta Unidade e esta Paz, porque sofremos todos da separação e dos conflitos de vária ordem. Mas se a Unidade e a Paz permanecem apenas como votos, quem os realizará? É preciso decidir e fazer a Unidade. Há palavras, gestos, caminhadas que unem, que congregam. Isso tem um nome: Reconciliação. É preciso decidir e fazer a Paz: há mãos estendidas, olhares benevolentes, escutas atentas, palavras apaziguadoras, julgamentos compreensíveis. Isso tem um nome: Perdão. A Unidade e a Paz: podemos desejá-las! A Reconciliação e o Perdão: devemos decidi-los!
- ATENÇÃO ÀS CRIANÇAS.
A primeira leitura e o Evangelho mencionam nomes de lugares. Para os concretizar junto das crianças, pode-se preparar um mapa (foto, desenho ou projeção) da terra de Jesus. Nele podemos inscrever o nome dos lugares mencionados, mas também alguns pontos de referência: o Mediterrâneo, Jerusalém, Belém. O objetivo é ajudar as crianças a perceber que este país existe e que há, como no nosso país, cidades, aldeias, regiões, montanhas, lagos, etc. Este mapa pode ser apresentado durante a introdução às leituras. Os lugares de referência estão já são escritos anteriormente. Os que são mencionados nas leituras são colocados pelas crianças no momento em que são citados pelo leitor.
- ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Deus de luz e de glória, nós Te damos graças pela tua constante presença ao lado do teu povo. Depois da saída do Egipto até hoje, Tu nos visitas sempre que estamos nas trevas.
Nós Te pedimos pelos nossos irmãos que habitam a terra das trevas, e por nós mesmos, que nos envias a levar-lhes a luz.
No final da segunda leitura:
Deus nosso Pai, nós Te bendizemos pelo Espírito de unidade que revelas às tuas Igrejas em todo o tempo e lugar, desde a época de São Paulo até aos nossos dias.
Nós Te pedimos pelas comunidades e pelas famílias cristãs: que não haja divisão entre nós, que estejamos em perfeita harmonia, para tornar credível o anúncio do Evangelho e a salvação pela Cruz de Cristo.
No final do Evangelho:
Nosso Pai, nós Te louvamos pelo Reino dos céus, do qual manifestaste a presença no meio de nós, e pelo apelo que diriges a cada um de nós.
Nós Te pedimos pelas tuas comunidades e por todos nós: Converte os nossos corações à tua presença nas nossas vidas. Tu nos envias como pescadores de homens. Fortalece a nossa fé em Ti, que ela seja irradiadora de luz.
- ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística I, dizendo o nome dos apóstolos referidos no Evangelho…
- PALAVRA EXPLICADA: A ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
O Missal atual propõe, à escolha, uma dezena de orações eucarísticas, enquanto, antes do Concílio, as liturgias latinas só conheciam uma, o cânone romano, a atual Oração Eucarística I. Todas as dez orações eucarísticas têm os mesmos elementos, com importantes variantes, mas a organização do conjunto varia ligeiramente: na Oração Eucarística I, as intercessões pelos vivos são colocadas antes da narração da Última Ceia e, nas orações eucarísticas das assembleias com crianças, são mais numerosas que nas outras. Todas as orações eucarísticas começam pelo louvor a Deus e a recordação das suas obras, com uma evocação da liturgia celeste, à qual nos associamos pelo cântico do Três vezes Santo. O louvor converge para a narração da Última Ceia que é o culminar da obra da salvação. As palavras que envolvem e seguem esta narração exprimem a implicação que ela tem para a assembleia: expressão de oferenda, invocação do Espírito Santo, intercessões pela Igreja, pelos seus membros vivos e defuntos, e pelo mundo.
- PALAVRA PARA O CAMINHO.
Irradiar a luz… Os textos bíblicos de hoje são atravessados de Luz para o nosso caminho de trevas. Quantos homens e mulheres andam à procura de sentido e procuram o seu caminho na noite… As nossas vidas de batizados estão em coerência com Aquele de quem nos reclamamos como cristãos? A Luz do Ressuscitado é-nos confiada para nos juntarmos aos nossos irmãos… Somos focos que irradiam luz ou candeeiros opacos?
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org