02º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]
1 de Março, 2026
ANO A
2.º DOMINGO DA QUARESMA
Tema do 2.º Domingo da Quaresma
Na segunda etapa do caminho quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos a revitalizar a nossa fé, a escutar a voz de Deus, a pormo-nos a caminho, sem reticências nem prevenções, na direção que Ele nos indicar. Pode ser que, à luz da lógica humana, os caminhos que Deus nos aponta pareçam estranhos e ilógicos; mas eles conduzem, indubitavelmente, à vida verdadeira e eterna.
A primeira leitura coloca diante dos nossos olhos aquele que a catequese de Israel considera o “modelo” do crente: Abraão. Depois de ouvir Deus dizer-lhe “põe-te a caminho”, Abraão deixa tudo, corta todas as amarras e avança rumo ao desconhecido, disposto a abraçar todos os desafios que Deus entender apresentar-lhe. A sua obediência é total, a sua confiança é inabalável. A forma como Abraão se entrega nas mãos de Deus interpela e desafia os crentes de todas as épocas.
No Evangelho Jesus pede aos discípulos que confiem n’Ele e que ousem segui-l’O no caminho de Jerusalém. Esse caminho, embora passe pela cruz, conduz à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, relutantes e assustados, Deus confirma a verdade da proposta de Jesus: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Ousaremos também nós seguir Jesus no caminho de Jerusalém?
Na segunda leitura, o autor da Carta a Timóteo recorda-nos que Deus conta connosco para sermos, no mundo, arautos da Boa Notícia da sua salvação. Talvez isso signifique correr riscos, enfrentar medos, suscitar oposições, viver em sobressalto; mas a proposta de Deus não pode ser riscada dos caminhos que a humanidade percorre: tem de ser proclamada de cima dos telhados e chegar ao coração de todos os homens.
LEITURA I – Génesis 12,1-4
Naqueles dias,
o Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
CONTEXTO
A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se costuma dar o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Esses capítulos reúnem materiais bastante diversos: “mitos de origem” (relatos que descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca de um determinado clã), “lendas cultuais” (narrativas populares cheias de elementos fantásticos, que descreviam como uma figura divina tinha aparecido num determinado lugar ao patriarca de um clã e lhe tinha deixado uma mensagem, dando origem a um culto), indicações mais ou menos concretas sobre o dia a dia dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o segundo milénio (nascimentos e mortes, casamentos, conflitos familiares, lutas pela água ou pelas pastagens contra os pastores de outros clãs ou contra os povos sedentários das regiões que atravessavam) e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto nesses capítulos estão as migrações históricas de diversos povos nómadas, antepassados do povo bíblico, nos inícios do segundo milénio a.C. Por essa época, a história regista um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egipto, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia – ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registadas nessa zona no início do segundo milénio – e que continuaram o seu caminho migratório ao longo do Crescente Fértil, à procura de uma terra onde “plantar” definitivamente a sua tenda, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nómada. Os nossos patriarcas bíblicos fazem parte dessa onda migratória.
Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac, Jacob e Lot – transportavam consigo os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. “Uma terra e uma descendência numerosa”: tal era o sonho que cada uma destas tribos longamente contemplava enquanto deambulava de terra em terra, ao sabor das vicissitudes do dia a dia, da abundância ou da carência de pastos e de fontes de água. O deus aceite pelo clã seria, para cada um destes grupos, o garante da concretização desses sonhos.
Abraão, o protagonista da nossa primeira leitura deste domingo, viveu por volta de 1850 a.C.
MENSAGEM
Nos primeiros capítulos do livro do Génesis (cf. Gn 3-11), a catequese de Israel apresentou o quadro de uma humanidade que, optando por caminhos de egoísmo e de autossuficiência, pretendeu viver de costas voltadas para Deus. Como consequência das suas opções erradas, essa humanidade conheceu o pecado, o sofrimento e a morte.
A opção errada do homem significará que o projeto de Deus falhou? Deus, dececionado com a ingratidão do homem terá desistido de o salvar? Deus irá renunciar ao seu projeto de construir uma história de relação e de comunhão com o homem?
Não. Deus não desiste porque ama a humanidade que criou. O amor, quando é verdadeiro, nunca desiste. O que Javé vai fazer é tentar de novo, talvez de uma forma diferente. Desta vez, Javé lança o seu olhar sobre o mundo, escolhe um homem, interpela-o diretamente, começa com ele uma relação, elege-o para ser, no meio das nações, um “sinal” de Deus. Esse homem – esse escolhido de Deus – chama-se Abraão.
O nome ”Abraão” é amorreu (significa “o pai é exaltado”). O clã de Abraão poderá ser originário de Ur, na baixa Mesopotâmia (cf. Gn 11,28). Os textos indicam que Abraão e a sua família terão emigrado para ocidente, para Haran (cf. Gn 11,31), talvez para fugir às convulsões políticas que, no início do segundo milénio a.C. agitavam a baixa Mesopotâmia. Foi de Haran que Abraão, após a morte de seu pai, desceu para a terra de Canaan.
A catequese de Israel, no entanto, não verá na migração de Abraão para a terra de Canaan um acontecimento banal, fruto das circunstâncias da vida ou das vicissitudes da história. Segundo o teólogo javista, Abraão procedeu assim por indicação de Deus. Foi Deus que o convidou a deixar a sua terra e a sua família e a partir ao encontro de uma outra terra (cf. Gn 12,1). O convite de Deus está ligado, segundo o relato javista, a uma bênção e também à promessa de uma descendência numerosa. Porquê esta iniciativa de Deus? Porquê o chamamento a este homem, em particular? O catequista javista não dá qualquer tipo de explicação. Temos aqui um exemplo típico desse mistério, sempre novo e sempre sem explicação, chamado “vocação”.
Como é que Abraão reage ao chamamento de Deus? É preciso ter em conta que, para os antigos, abandonar a terra (o horizonte natural onde o clã vive e onde tem as suas referências – inclusive em termos de paisagem física), a pátria (isto é, o espaço onde o clã encontra o afeto e a solidariedade e, além disso, o seu espaço protegido por usos, leis e costumes) e a família (o círculo familiar íntimo, onde o homem encontra o apoio e o seu complemento), era pouco menos do que irrealizável. Abraão será capaz de arriscar tudo, deixando o seguro para apostar num projeto nebuloso e incerto?
Com consumada mestria, o autor javista descreve, de uma forma muito bela, a “resposta” de Abraão ao chamamento de Deus. Curiosamente, Abraão mantém-se completamente mudo, sem discutir, sem objetar, sem pedir qualquer explicação, sem impor nenhuma condição; contudo, os seus gestos valem por mil palavras: depois de escutar o desafio de Deus, o patriarca, simplesmente, pôs-se a caminho. O verbo “yalak” utilizado no vers. 4 (“ir”, “partir”, “pôr-se a caminho”) tem uma força extraordinária e expressa a audácia do crente que é capaz de arriscar tudo, de “cortar amarras”, de deixar o seguro para apostar em algo que não é certo, confiando apenas em Deus e na sua Palavra. Trata-se de um rasgo maravilhoso, que define uma atitude de fé radical, de confiança total, de obediência incondicional aos desígnios de Deus. Esta é uma das passagens onde o que se conta de Abraão tem um valor de modelo: o autor javista pretende ensinar aos seus concidadãos a obediência radical às propostas de Deus.
Deus, por sua vez, compromete-se com Abraão e acena-lhe com uma promessa. A promessa expressa-se, neste contexto, através da bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes, nestes poucos versículos). A bênção é uma comunicação de vida, através da qual Deus realiza a sua promessa de salvação. Na promessa aqui formulada, a bênção concretiza-se como descendência numerosa (noutros textos das “tradições patriarcais”, a bênção de Deus, além da descendência numerosa, completa-se com a promessa de uma terra).
Particularmente importante, neste contexto da promessa é a ideia de que o Povo nascido de Abraão será uma fonte de bênção para todas as nações (vers. 3c): inaugura-se, aqui, a ideia de que Israel é o centro do mundo e de que a sua “vocação” é ser testemunha da salvação de Deus diante de todos os povos da terra. A eleição de Israel é um privilégio que Deus, de forma inexplicável e parcial concede a um povo? Mais do que um privilégio, trata-se de uma responsabilidade: Israel terá a responsabilidade de ser um “sinal” de Deus na história e na vida do mundo.
INTERPELAÇÕES
- A figura de Abraão que nos é apresentada pela catequese de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência plena e com uma entrega total… Abraão, o homem que vive de Deus e para Deus, continua hoje a questionar o homem moderno, esse homem atarefado e autossuficiente que não tem tempo para “perder” com Deus pois está demasiado ocupado a conquistar o mundo, a ganhar dinheiro, a construir uma carreira recheada de êxitos, ou a aproveitar todos os “gozos” que a vida lhe pode proporcionar. Há lugar para Deus no nosso projeto de vida? No meio do ruído ensurdecedor que preenche as nossas idas e vindas, conseguimos escutar a voz de Deus? Como respondemos aos desafios que Deus a cada passo nos coloca?
- Abraão escuta a voz de Deus. Deus manda-o partir e Abraão simplesmente põe-se a caminho. Não discute, não argumenta, não pede garantias, não põe condições. Não pede nenhum “sistema de posicionamento global” (GPS) para se orientar, nem solicita mapas atualizados dos caminhos que terá de percorrer. Não pergunta qual é o seu destino final, não exige saber se vai ao encontro de uma vida mais fácil. Simplesmente entrega-se nas mãos de Deus e vai. Com confiança absoluta, com total disponibilidade. A atitude de Abraão questiona o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estamos dispostos a mudar os nossos horizontes, a “pormo-nos a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica que Deus nos aponta, ou preferimos continuar prisioneiros dos nossos esquemas pré-concebidos, dos nossos medos, dos nossos velhos hábitos, das nossas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
- O “encontro” de Deus com Abraão não foi obra do acaso, mas sim fruto de uma clara decisão de Deus. A iniciativa de Deus mostra o seu interesse em relacionar-se com a humanidade, em estabelecer com os homens laços de comunhão e de familiaridade. Por detrás desse “interesse” de Deus está o seu projeto de salvação: Deus quer – quer muito – oferecer aos homens e mulheres que criou a possibilidade de se realizarem, de terem acesso à vida eterna. Talvez nós, seres humanos, encerrados em horizontes limitados e ocupados a viver “a prazo” nem sempre consigamos vislumbrar o alcance do projeto de salvação que Deus tem em marcha; talvez nós, seres humanos, seduzidos pela ambição, pelo comodismo e pela autossuficiência, prefiramos apostar no imediato, no facilitismo, no brilho ilusório das coisas efémeras… Os homens e mulheres do nosso tempo – do séc. XXI – têm consciência de que Deus tem um plano de salvação – de vida eterna, de realização plena – para lhes propor? Sentimo-nos testemunhas e arautos desse projeto no meio dos homens e mulheres que percorrem connosco o caminho da vida?
SALMO RESPONSORIAL – SALMO 32 (33)
Refrão 1: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.
Refrão 2: Desça sobre nós a vossa misericórdia,
porque em Vós esperamos, Senhor.
A palavra do Senhor é reta,
na fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.
Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.
A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protetor.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.
LEITURA II – 2 Timóteo 1,8b-10
Caríssimo:
Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.
Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade,
não em virtude das nossas obras,
mas do seu próprio desígnio e da sua graça.
Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus,
desde toda a eternidade
manifestou-se agora pelo aparecimento
de Cristo Jesus, nosso Salvador,
que destruiu a morte
e fez brilhar a vida e a imortalidade,
por meio do Evangelho.
CONTEXTO
De acordo com a narrativa dos Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia (região histórica no interior da antiga Ásia Menor, na atual Turquia), no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tm 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições”), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1Tm 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.
A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Ts 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 11,1; 2Ts 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rm 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Flp 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Cl 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1Ts 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).
Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, uma questão em aberto: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). Talvez alguns dados da carta – de natureza bastante pessoal – venham de Paulo; mas dificilmente este escrito pode ser atribuído a Paulo na sua totalidade.
Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.
MENSAGEM
O autor do escrito – que refere, de passagem, a sua situação de “prisioneiro” por causa do Evangelho (vers. 8a) – exorta Timóteo a ser, para a comunidade cristã cuja responsabilidade lhe foi confiada, um modelo de fidelidade, de amor, de bom senso e de fortaleza no testemunho da fé. Foi para isso que ele recebeu a “imposição das mãos”, gesto que o capacitou para o cumprimento da sua missão apostólica (cf. 2Tm 1,6-7). O dom de Deus, continuamente reavivado, fará com que Timóteo supere a sua juventude e timidez e dê testemunho de Cristo e do seu Evangelho.
De resto, Timóteo deverá ter sempre presente que foi escolhido e chamado para colaborar no projeto salvador de Deus em favor dos homens. Recorrendo, provavelmente, a um fragmento de um velho hino litúrgico cantado nas primeiras comunidades cristãs, o autor da Carta lembra a Timóteo a grandeza e a beleza desse projeto: Deus, no seu amor infinito, quer que todos os homens se salvem e encontrem vida em abundância; sem ter em conta as faltas e as indignidades dos homens, Deus quis oferecer-lhes gratuitamente a sua salvação; ora, essa salvação “apresentou-se“ na história humana na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que “desceu” ao encontro dos homens, que caminhou com eles, que lhes ofereceu a salvação de Deus, que lutou contra a injustiça, a violência e o pecado, que derrotou a morte, que irradiou a vida e a imortalidade por meio do Evangelho que propôs (vers. 9-10). Esta maravilhosa iniciativa de Deus é o acontecimento decisivo da história dos homens. Nesse longo caminho que a humanidade vem percorrendo pela história, nada há de mais grandioso e de mais decisivo do que este projeto de Deus.
Ora, tanto Paulo como Timóteo foram escolhidos por Deus para “ministros” deste projeto. É uma vocação sublime! Apesar dos seus limites e fragilidades, Deus quis contar com eles para darem testemunho no meio dos homens da sua salvação. Paulo e Timóteo – e tantos outros que Deus escolheu e enviou – são arautos da salvação de Deus. Não podem, de forma nenhuma, “esconder-se”, demitir-se da responsabilidade que lhes foi confiada, deixar-se abater pelo medo, calar essa “Boa Notícia” que Jesus lhes confiou e os convidou a testemunhar em toda a terra.
Sim, aproximam-se tempos de dificuldade e de perseguição para todos aqueles que aderiram à proposta de salvação que Jesus veio trazer. O império declarou guerra ao Evangelho de Jesus. Por todo o lado, as comunidades cristãs sentem enfraquecer a sua coragem e diminuir o seu compromisso. Muitos instalam-se na mediocridade, deixam-se arrastar pela corrente, escolhem viver sem problemas, optam pela facilidade. Nestes tempos difíceis, contudo, aqueles que, como Paulo ou como Timóteo, têm a responsabilidade de presidir às comunidades e animar os seus irmãos na fé, devem levar muito a sério a missão que lhes foi confiada. Têm de manter-se fortes; têm de ser, no meio dos seus irmãos mais frágeis, testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus.
INTERPELAÇÕES
- Quando olhamos para a história da humanidade com olhos de “crentes”, conseguimos com alguma facilidade detetar a presença e a ação salvadora de Deus em cada passo do caminho que os homens vão percorrendo. Formados na escola da fé, talvez isso nos pareça bem “normal”: o Deus no qual acreditamos é um Deus que ama incondicionalmente os seus queridos filhos e que, por isso, está sempre disposto a oferecer-lhes a possibilidade de chegarem à vida verdadeira. O que talvez nos pareça mais estranho é o facto de Deus nos chamar a colaborar com Ele nesse projeto: apesar da nossa pequenez e dos nossos limites, da nossa debilidade e da nossa tibieza, da nossa inclinação para a preguiça e da nossa apetência pelo comodismo, apesar de não sermos “de fiar”, Deus oferece-nos um papel na concretização do seu projeto de salvação. É através de nós que Deus vem ao encontro dos homens e lhes oferece a sua salvação. Paulo e Timóteo fizeram essa experiência. Talvez se tenham sentido indignos e talvez tenham desconfiado das suas frágeis forças; mas sentiram que não podiam defraudar as expetativas de Deus e levaram a sério o papel que Deus entendeu confiar-lhes enquanto arautos da Boa Nova da salvação. E nós, sentimos que isto também nos diz respeito? Sentimos que Deus nos chama a ser arautos da sua salvação no meio dos nossos irmãos?
- Ser colaborador de Deus na obra da salvação, dar testemunho corajoso das propostas de Deus, ser “sinal” de Deus no mundo será uma vocação sublime; mas, em geral, não é uma vocação demasiado apreciada nos tempos que correm. O homem do séc. XXI tem dificuldade em “correr atrás da eternidade”, em sacrificar-se para colher os valores eternos, em caminhar sob o olhar de Deus; prefere “agarrar o instante”, apostar no efémero, dar primazia à banalidade, viver para as coisas materiais, instalar-se na mediocridade, estabelecer-se naquilo que assegura comodismo e bem-estar imediato… A “salvação” em que o homem do séc. XXI aposta é uma “salvação” que não sacia a sede de vida e de felicidade que todo o homem sente. Como resultado dessa falta de horizontes, vivemos mergulhados na frustração, na depressão, na ansiedade, na tristeza, no desespero; caminhamos de mãos vazias, sentindo-nos desorientados e à deriva; temos medo que a nossa vida termine de repente num beco sem saída. Como poderemos nós, os que nos dispomos a colaborar com Deus no projeto de salvação que Ele tem para o mundo, colocar a transcendência e a vida eterna no horizonte dos homens? O que podemos fazer para que os nossos contemporâneos redescubram e abracem a salvação que Deus quer oferecer a todos os seus filhos? O que podemos fazer para que esta pobre humanidade que trilha os caminhos do mundo encontre a água viva que dá vida eterna?
ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO
Escolher um dos refrães:
Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.
Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.
Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.
Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.
Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.
Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.
Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.
No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:
«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».
EVANGELHO – Mateus 17,1-9
Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
CONTEXTO
O episódio da transfiguração de Jesus situa-se praticamente no final da “etapa da Galileia”. Durante um tempo relativamente longo (talvez perto de três anos), Jesus tinha andado pela Galileia, anunciando – com palavras (cf. Mt 5-7; 13) e com gestos poderosos (cf. 8,1-9,34) – a chegada do Reino de Deus. Ao longo dessa “etapa” Jesus esteve sempre acompanhado por um grupo de discípulos: gente que tinha escutado o chamamento de Jesus (cf. Mt 4,18-22; 10,1-10,42) e que tinha decidido segui-l’O. Esses discípulos, depois de tudo o que tinham visto e escutado enquanto acompanhavam Jesus pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convencidos que Ele era realmente o Messias que Israel esperava (cf. Mt 16,13-20).
No entanto, alguns dias antes da cena da transfiguração, os discípulos tinham ficado perplexos pela maneira como Jesus lhes descreveu o futuro próximo, a nova “etapa” que os esperava. O Mestre disse-lhes que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Mt 16,21-22). Os discípulos ficaram estupefactos: o caminho que Jesus se propunha seguir passava pelo sofrimento e pela morte (Ele tinha também falado em ressurreição; mas, por essa altura, eles não sabiam bem o que isso queria dizer)? Era esse o horizonte de Jesus? Não era com isso que contavam quando se dispuseram a andar com Ele. Pedro expressou a sua oposição a tudo isso num gesto radical: tomando Jesus de parte, “começou a repreendê-l’O, dizendo: ‘Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!’” (Mt 16,22). Para piorar as coisas, Jesus pediu-lhes, logo a seguir, que renunciassem a si mesmos, tomassem a cruz e o seguissem no caminho do dom da vida até à morte (cf. Mt 16,24-26).
É natural que tudo isto afetasse os discípulos. Poderemos mesmo falar de uma “crise” que deixou o grupo num estado de absoluto desânimo. Jesus achou, face a este estado de coisas, que tinha chegado a hora de lhes desvelar o sentido do caminho que se propunha seguir. Chamou, então, Pedro, Tiago e João – o “núcleo duro” daquele grupo – e convidou-os a subir com Ele a um monte. Nesse dia e nesse monte eles iriam achar algumas respostas para as perguntas que os inquietavam.
O texto não identifica o “monte” para onde Jesus, Pedro, Tiago e João se dirigiram. Contudo, a tradição fala do Monte Tabor, uma montanha com 588 metros de altura, situada no meio da planície de Jezreel, coberta de carvalhos, pinheiros, ciprestes, aroeiras e plantas silvestres. O Tabor tinha sido, nos tempos antigos, um lugar sagrado para os povos cananeus. Nesse monte aqueles três discípulos vão entrever, ainda que por breves instantes, o projeto de Deus.
Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai elaborar um quadro onde coloca todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato exato de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a confirmar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.
MENSAGEM
Jesus, acompanhado por Pedro, Tiago e João, subiu ao “monte”. A narração do que aconteceu nesse dia naquele monte vai ser construída a partir de elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é num monte (o Sinai) que Ele faz uma aliança com o seu Povo e dá a Moisés as tábuas da Lei.
A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter recebido as tábuas da Lei. Além disso, o branco é a cor de Deus: indica que estamos no âmbito do divino.
A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).
Moisés e Elias, as duas figuras do Antigo Testamento que também aparecem no cenário da transfiguração de Jesus, representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23).
As tendas que Pedro pretende montar no cimo daquele monte (serão uma alusão à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto?) serão talvez uma forma de referir a “esperança” dos discípulos, assustados com as implicações do seguimento de Jesus: deterem-se ali, naquele momento de revelação gloriosa, evitando “descer” à planície para enfrentar um destino de sofrimento, de cruz e de morte.
O “medo” que toma conta dos discípulos é a reação habitual do homem diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16; 20,18-21).
Mas o elemento mais significativo é, sem dúvida, “a voz” que vem da “nuvem” (o espaço onde Deus se oculta). Essa “voz” dirige-se aos discípulos e declara solenemente: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. O próprio Deus “apresenta” Jesus e garante que Ele é “o Filho” que veio ao encontro dos homens com um mandato do Pai. E o testemunho de Deus sobre Jesus completa-se com um imperativo: “escutai-o”. Os discípulos ficam assim prevenidos de que devem escutar e acolher as indicações de Jesus, segui-l’O sem hesitações e sem medos pois o caminho que Ele propõe está de acordo com o projeto de Deus.
Por cima de todo o cenário, iluminando-o, paira a luz gloriosa da ressurreição. A glória de Deus que se manifesta em Jesus, as “vestes de uma brancura refulgente” (lembram as “túnicas brancas como a neve” do “anjo do Senhor que, na manhã de Páscoa, apareceu às mulheres que tinham ido procurar Jesus ao túmulo – cf. Mt 28,2-3) apontam nesse sentido. Os discípulos são, assim, convidados a olhar para lá da cruz e a descobrir que, no final do caminho de Jesus, não está o fracasso, mas está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.
Mateus, na linha do que Marcos já tinha feito (cf. Mc 9,2-10), pegou em todos estes elementos e com eles construiu a sua catequese. Nela, Jesus é apresentado, antes de mais, como o Filho, o Eleito, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele não é um visionário que vive iludido e que não tem os pés assentes na terra; nem é um revolucionário com sede de protagonismo que se aproveita, em benefício do seu projeto político, de um grupo de discípulos ingénuos… Jesus é o Filho de Deus, enviado aos homens para lhes propor a salvação e a Vida verdadeira. Tudo o que Ele diz e propõe está de acordo com o projeto salvador de Deus. Os discípulos devem escutá-lo, levar a sério as suas indicações, mesmo quando Ele propõe um caminho de morte, de dom da vida até às últimas consequências (cf. Mt 16,24-28).
Jesus é, também, de acordo com esta catequese, o Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Ele veio concretizar as promessas que, ao longo da história da salvação, Deus fez ao seu Povo.
Finalmente, Jesus é o novo Moisés, Aquele através de quem Deus dá ao seu Povo a nova Lei e através de quem propõe aos homens uma nova Aliança. Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Guiado por Jesus, esse Povo caminhará pelo deserto da cruz e da morte até chegar à Terra Prometida, onde encontrará Vida em abundância.
Mateus termina o seu relato referindo a “ordem” de Jesus, quando desciam do monte: “Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” (vers. 9). É provável que só mais tarde, após a ressurreição de Jesus, tenha resultado claro para os discípulos o que tinham experimentado no monte da transfiguração. Mas, desde logo, aquele “momento” com Jesus constituiu para os discípulos uma injeção de esperança: deu-lhes o ânimo de que necessitavam para seguirem atrás de Jesus no caminho para Jerusalém.
INTERPELAÇÕES
- Neste segundo domingo da Quaresma façamos, também nós, a experiência de subir com Jesus ao monte… Enquanto subimos, podemos conversar com Ele e, com toda a sinceridade, dizer-Lhe as nossas dúvidas e inquietações. Podemos dizer-Lhe que, por vezes, nos sentimos perdidos e desanimados diante da forma como o nosso mundo se constrói; podemos dizer-lhe que o caminho que Ele aponta é duro e exigente e que não sabemos se teremos a coragem de o percorrer até ao fim; podemos até dizer-lhe, talvez com alguma vergonha, que às vezes duvidamos dele e corremos atrás de outras apostas, mais cómodas, mais atraentes e menos arriscadas… E, depois de lhe dizermos isso tudo, deixemos que Jesus nos fale, nos explique o seu projeto, nos renove o seu desafio… E vamos, também, prestar atenção à voz de Deus que nos garante: “olhem que esse Jesus que Eu enviei ao vosso encontro é o meu Filho, o meu eleito, aquele a quem Eu entreguei o projeto de um mundo mais humano e mais fraterno… Confirmo a verdade do caminho que Ele vos propõe. Escutai-O, ide com Ele, acolhei as suas propostas e indicações, mesmo que tenhais de remar contra a maré. O caminho que Ele vos aponta pode passar pela cruz, mas conduz à Vida verdadeira, à ressurreição”. Há espaço na nossa vida para ouvir essa “voz de Deus” e para caminharmos na direção que ela aponta?
- “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. É verdade: precisamos de escutar Jesus mais e melhor. Quando o “escutamos” – quer dizer, quando ouvimos o que Ele nos diz, quando acolhemos no coração as suas indicações e quando procuramos concretizá-las na vida – começamos a ver tudo com uma luz mais clara. Começamos a perceber qual é a maneira mais humana de enfrentar os problemas da vida e os males do nosso mundo; damos conta dos grandes erros que os seres humanos podem cometer e descobrimos as soluções que Deus nos aponta… Escutar Jesus pode curar-nos das nossas cegueiras seculares, dos preconceitos que nos impedem de acolher a novidade de Deus, dos medos que nos paralisam; escutar Jesus pode libertar-nos de desalentos e cobardias, e abrir o nosso coração à esperança. A escuta de Jesus está no centro da nossa experiência de fé? Nas nossas comunidades cristãs damos espaço suficiente à escuta de Jesus?
- O tempo de Quaresma é um tempo favorável de conversão, de transformação, de renovação. Traz-nos um convite a questionarmos a nossa forma de encarar a vida, os valores que priorizamos, as opções que vamos fazendo, as nossas certezas e apostas, os nossos interesses e projetos… O que é que precisamos de mudar, na nossa forma de pensar e de agir, a fim de nos tornarmos discípulos coerentes e comprometidos, que seguem Jesus no caminho do amor levado até às últimas consequências, até ao dom total de nós próprio?
- É verdade que, para muitos dos nossos contemporâneos, o caminho proposto por Jesus não parece muito entusiasmante… Não assegura bem-estar, nem bens materiais, nem triunfos, nem reconhecimento, nem fama, nem poder, nem tranquilidade, nem qualquer outro valor que muitos dos homens e mulheres do nosso tempo consideram fundamentais para que as suas vidas tenham algum sentido. Contudo, nós, discípulos de Jesus, acreditamos que só o amor – o amor vivido como serviço, como dom de si próprio, ao estilo de Jesus – dá sentido à vida; acreditamos que a construção de um mundo novo – mais humano, mais são, mais verdadeiro – depende de acolhermos e vivermos as propostas de Jesus. O que poderemos fazer para contagiar os nossos irmãos e irmãs com o nosso entusiasmo por Jesus e pelo seu projeto de um mundo novo?
- Pedro, Tiago e João, testemunhas da transfiguração de Jesus, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e de enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Propõem fazer três tendas e ficar no cimo daquele monte, onde tudo parece tão fácil e tão indolor. Representam aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga-nos a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens, mesmo contra a corrente, que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. O nosso compromisso com Jesus e com a construção do Reino de Deus concretiza-se na luta diária pela construção de um mundo mais justo, mais humano, mais cheio de amor?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 2.º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
- A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 2.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
- “SENHOR, DESÇA SOBRE NÓS A VOSSA MISERICÓRDIA!”
Mesmo durante a Quaresma, o rito penitencial não deve cair na introspeção culpabilizante. Na celebração, este rito é um convite à assembleia para aderir à misericórdia de Deus na confiança. O Salmo de hoje convida-nos particularmente a esta atitude. Em vez do “Senhor, tende piedade…”, poder-se-ia utilizar o refrão do Salmo responsorial: “Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor”. A equipa litúrgica poderia preparar algumas intenções neste sentido de esperança e confiança no amor de Deus… A proclamação do Salmo responsorial, no momento próprio, teria outra ressonância a partir desta utilização no momento penitencial.
- PREVER UM TEMPO DE CONTEMPLAÇÃO.
Pode-se prever, à imagem dos discípulos na montanha, um tempo de contemplação alimentado por um texto, um cântico, um trecho musical ou, muito simplesmente, um longo silêncio quer depois da homilia quer depois da comunhão.
- BILHETE DE EVANGELHO.
A vida é combate. O primeiro ato do ser humano no seu nascimento é um grito. Ele deverá lutar para viver. Muitos doentes sabem que devem lutar contra o mal, o sofrimento, o desencorajamento, a lassidão. Desistir de lutar é sintoma de uma doença que se chama depressão. Podemos lutar para nos curarmos fisicamente. Podemos lutar para nos mantermos de pé na provação. A vida espiritual também é um combate. O Senhor é Alguém que se deixa procurar. Segui-l’O supõe, por vezes, escolhas radicais. Nesta semana, aceitemos conduzir um combate. Não para ser os melhores, nem para esmagar os outros, mas para viver e fazer viver. A vitória neste combate é-nos anunciada neste domingo, em que nos juntamos ao Senhor transfigurado. Mas Ele diz-nos que, antes de ressuscitar, deve passar pelo combate da Paixão. A ressurreição é a vitória do combate pela vida.
- ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Pai de todos os homens, nós Te damos graças por Abraão, que escolheste e chamaste para constituir um povo de amigos.
Nós Te suplicamos por todas as famílias da terra: envia-lhes os teus mensageiros, para que sejam um dia abençoadas no teu Filho.
No final da segunda leitura:
Deus de vida, nós Te bendizemos pelo teu projeto e pela tua graça, porque fizeste resplandecer a vida e a imortalidade pelo anúncio do Evangelho. Tu nos salvaste e nos deste uma vocação santa, apesar da nossa indignidade.
Nós Te pedimos pelos teus servidores que sofrem no anúncio e no testemunho do Evangelho. Sustenta-os com a força do teu Espírito.
No final do Evangelho:
Deus de luz, nós Te damos graças pela transfiguração do teu Filho, pela alegria e pela felicidade que nos dá a sua presença radiosa.
Nós Te pedimos pelo teu povo e pelos teus fiéis: levanta-nos quando estamos paralisados pelo medo; cura os nossos corações e os nossos espíritos, para os tornar atentos a escutar o teu Filho. Estabelece a tua tenda nas nossas casas e nas nossas comunidades, não te afastes de nós.
- ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III.
- PALAVRA PARA O CAMINHO.
A aventura da fé… “deixa a tua terra…”; “sofre comigo pelo Evangelho…”; “levou-os, em particular, a um alto monte…” A aventura da fé não nos deixa qualquer repouso até ao dia em que toda a Criação se prostrará diante do Filho Bem-Amado. Cremos verdadeiramente que a nossa pequena parte é indispensável? E fazemos por isso?
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org