04º Domingo da Quaresma - Ano A [atualizado]
15 de Março, 2026
ANO A
4º DOMINGO DA QUARESMA
Tema do 4º Domingo da Quaresma
Não fomos feitos para a escuridão; as trevas assustam-nos e não nos deixam caminhar em direção à vida plena. Só concretizamos a nossa vocação quando nos deixamos conduzir e iluminar pela luz de Deus. “Ama a luz, escolhe a luz, busca a luz, vive na luz” – pede-nos a Palavra de Deus que nos é dirigida nesta quarta etapa do caminho quaresmal.
No Evangelho Jesus apresenta-se como “a luz” que vem iluminar o mundo e libertar os homens das “trevas”. É essa a “obra” que o Pai Lhe confiou e na qual Ele irá trabalhar. Quem adere a Jesus, recebe o seu batismo e acolhe as suas indicações, envereda por um caminho novo, belo, desafiante, luminoso, onde progressivamente encontra a liberdade, a realização, a vida em plenitude. O homem que aceita viver na luz torna-se um Homem Novo, um homem que concretiza o projeto original que Deus tinha quando criou os seres humanos.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo lembra aos cristãos de Éfeso que, depois de terem aderido a Cristo, cortaram definitivamente com as trevas e abraçaram uma nova realidade. Agora são “filhos da luz” e devem produzir obras de bondade, de justiça, de verdade, de reconciliação, de misericórdia e de paz. Através deles e da luz que projetam, Jesus continua a iluminar o mundo e a história dos homens.
A primeira leitura conta a escolha de David, o filho mais novo de Jessé de Belém, para rei de Israel. À luz da lógica dos homens, parece, em todos os sentidos, uma escolha estranha; mas Deus parece não ter qualquer pejo em subverter as nossas lógicas e em escolher pessoas “improváveis” para serem uma luz que brilha na noite do mundo.
LEITURA I – 1 Samuel 16,1b.6-7.10-13a
Naqueles dias,
o Senhor disse a Samuel:
«Enche o corno de óleo e parte.
Vou enviar-te a Jessé de Belém,
pois escolhi um rei entre os seus filhos».
Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo:
«Certamente é este o ungido do Senhor».
Mas o Senhor disse a Samuel:
«Não te impressiones com o seu belo aspeto,
nem com a sua elevada estatura,
pois não foi esse que Eu escolhi.
Deus não vê como o homem;
o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração».
Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel,
mas Samuel declarou-lhe:
«O senhor não escolheu nenhum destes».
E perguntou a Jessé:
«Estão aqui todos os teus filhos?»
Jessé respondeu-lhe:
«Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho».
Samuel ordenou: «Manda-o chamar,
porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar».
Então Jessé mandou-o chamar:
era loiro, de belos olhos e agradável presença.
O Senhor disse a Samuel:
«Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo».
Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos.
Daquele dia em diante,
o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.
CONTEXTO
Foi no séc. XII a.C. que os filisteus – “povos do mar” oriundos, provavelmente, da zona do Mar Egeu – se estabeleceram na orla costeira sudoeste da terra de Canaan. Possuindo armas de ferro, tinham vantagem militar sobre os povos que habitavam a região, que ainda não conheciam o ferro e combatiam com armas de bronze.
As tribos do povo de Deus que tinham vindo do Egito com Moisés entraram na terra de Canaan por volta de 1200 a.C., conduzidas por Josué. De acordo com o livro dos Juízes, não constituíam uma unidade política: só em determinadas circunstâncias as tribos de determinada região se uniam em coligações defensivas, a fim de resistir aos ataques dos inimigos. Faltava-lhes, contudo, uma liderança militar e política capaz de organizar uma resistência eficaz contra os grupos que as ameaçavam.
Em meados do séc. XI a.C., a pressão militar dos filisteus constituía uma ameaça para as tribos do povo de Deus. Os anciãos das tribos, conscientes da necessidade de uma liderança forte, instaram um juiz chamado Samuel (pertencente à tribo de Efraim, uma tribo instalada no centro da terra de Canaan), a procurar um “rei” capaz de potenciar a unidade política das tribos e conduzi-las na luta contra os filisteus.
A primeira experiência monárquica aconteceu com Saúl e agrupava as tribos do centro e algumas do norte do país. Essa experiência terminou, no entanto, de forma dramática: Saúl e seu filho Jónatas morreram na batalha de Gelboé, em luta contra os filisteus, por volta do ano 1010 a.C.
Era preciso encontrar um outro “herói”, capaz de gerar consensos entre tribos muito diferentes, juntá-las e conduzi-las vitoriosamente ao combate contra os inimigos filisteus. A escolha dos anciãos – tanto das tribos do norte, como das tribos do sul – recaiu, então, num jovem chamado David.
David nasceu por volta de 1040 a.C., em Belém de Judá, no sul do país. Como é que David se tornou notado e se impôs, de forma a ser considerado uma solução para o problema da realeza?
O Livro de Samuel apresenta três tradições sobre a entrada de David em cena. A primeira apresenta David como um admirável guerreiro, cuja valentia chamou a atenção de Saúl, sobretudo após a sua vitória sobre um gigante filisteu chamado Golias (cf. 1Sm 17). A segunda tradição apresenta David como um poeta, que vai para a corte de Saúl para cantar e tocar harpa: segundo esta tradição – bastante hostil a Saúl – o rei só conseguia reencontrar a calma e o bem estar quando David o acalmava com a sua música (cf. 1Sm 16,14-23); e o poeta/cantor David foi conquistando simpatias na corte, tornou-se amigo de Jónatas, o filho de Saúl, e casou mesmo com Mical, a filha do rei. Finalmente, a terceira tradição – a menos verificável historicamente, mas a de maior importância teológica – apresenta a realeza de David como uma escolha de Javé. É a esta terceira tradição que a primeira leitura do quarto domingo da Quaresma se refere.
MENSAGEM
Independentemente das circunstâncias históricas que trouxeram o jovem David (pertencente a uma tribo do sul do país, a tribo de Judá) para a corte do rei Saul, o autor deuteronomista, responsável por este relato, está a propor-nos uma leitura da história da ascensão de David ao trono com os olhos da fé: Deus, por razões que só Ele conhece e que o homem não consegue entrever, elegeu David e confiou-lhe a missão de conduzir o Seu povo.
Após o falhanço de Saul como rei de Israel (cf. 1Sm 15,10-35), o profeta Samuel é enviado por Deus a Belém, a casa de um tal Jessé, para ungir como rei um dos seus filhos. Samuel não se sente muito à vontade nessa missão, pois receia que o rei Saul se venha a inteirar desse facto (cf. 1Sm 16,1b) e lhe “tire a vida”. No entanto, Samuel não ignora a ordem de Deus: dirige-se a Belém para cumprir a missão de que Deus o encarregou (cf. 1Sm 16,4). O profeta não sabe, à partida, qual é, entre os numerosos filhos de Jessé de Belém, o escolhido de Deus. Deus não lhe dá qualquer explicação: Ele é soberano e não tem de explicar ao homem as decisões que toma. A eleição de alguém para uma missão é sempre uma decisão que só a Deus pertence.
Chegado a Belém, Samuel vê desfilar diante de si os diversos filhos de Jessé. Apesar das qualidades que se lhes notam (belo aspeto, alta estatura, força, inteligência), Samuel percebe que nenhum deles é o eleito de Deus (cf. 1Sm 16,6-10). Samuel começa a perceber que a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens. Os critérios que Deus usa escolher os seus eleitos nem sempre coincidem com os critérios dos homens.
Terminado o desfile dos jovens, Jessé lembra-se que ainda falta um dos seus filhos: David, o mais jovem, que estava fora a cuidar dos rebanhos da família. David parecia – quer pela sua juventude, quer pelo lugar subalterno que ocupava na hierarquia familiar – o candidato mais “improvável” para assumir a missão de conduzir os destinos do povo de Deus. Mas, quando David chegou a casa e se apresentou diante de Samuel, o profeta percebeu que era ele o escolhido de Deus. Trata-se de uma realidade que se repete muitas vezes na história da salvação: Deus escolhe e chama com frequência os mais pequenos, os mais frágeis, aqueles que o mundo ignora e considera insignificantes para, através deles, concretizar o Seu projeto de salvação.
Samuel, por mandato de Deus, “ungiu” David “na presença dos seus irmãos” (cf. 1Sm 17,12). A partir daquele dia David passou a ser conduzido pelo Espírito de Deus: é o Espírito de Deus que toma conta daqueles que Deus elege e que os torna capazes de levar para a frente a missão que lhes é confiada.
Porque é que Deus elege este e não aquele? Quais são as qualidades que tornam alguém mais apto, aos olhos de Deus, para concretizar uma determinada missão no mundo? O nosso “catequista” não conhece as respostas para estas questões. Tem apenas uma certeza fundamental, que partilha connosco: quem leva para a frente a obra da salvação é Deus e não o homem; os homens não são mais do que instrumentos de Deus; quanto mais débeis são esses “instrumentos”, mais se vê que a obra é de Deus e que é Deus que opera no mundo para oferecer aos seus filhos a salvação e a vida.
David, o jovem de Belém que Deus escolheu para ser rei de Israel, assumiu o seu lugar no projeto de Deus. Cumpriu bem o seu papel. Da sua família nasceria, alguns séculos mais tarde, um tal José, esposo de Maria, a mãe de Jesus.
INTERPELAÇÕES
- Que ideia fazemos do mundo e do que nele acontece? Agrada-nos o que vemos, ou sentimo-nos profundamente perturbados pelos atos de pura maldade que alguns praticam, aparentemente sem que Deus faça seja o que for para os travar? Que dizemos de Deus quando parece que a injustiça e a mentira se multiplicam e gritam mais alto do que a justiça e a verdade? Acusamos Deus de se afastar de nós e de não querer saber do mundo? Criticamos a indiferença de Deus e o facto de ele não fazer nada? No entanto, Deus está atento e nunca desiste de atuar, de intervir, de nos ajudar a construir um mundo mais belo, mais justo e mais humano… A catequese de Israel já ensinava, no séc. VII/VI a.C., que Deus está sempre a escolher e a chamar homens e mulheres que atuem no mundo no sentido de o transformar e de o humanizar. É Deus que está por detrás de tantos e tantos gestos de amor, de bondade, de coragem, de perdão, de partilha, de serviço, de solidariedade, de compromisso que vemos a cada instante acontecer à nossa volta. Todos os gestos que trazem alegria, esperança, paz, harmonia, verdade, justiça, são gestos de Deus. Talvez sejam feitos por homens, mas por homens que aceitam ser instrumentos de Deus. São, portanto, gestos que provêm de Deus. Temos consciência disso?
- Quem são esses que Deus escolhe para, através deles, intervir no mundo e transformar a história dos homens? São anjos? São seres especiais, perfeitos, feitos de um material diferente do “barro” dos outros homens e mulheres? Não. São pessoas normais, mas que, apesar da sua fragilidade e limitações estão, simplesmente, disponíveis para colaborar no projeto que Deus tem para o mundo; são todos aqueles que aceitam ser instrumentos de Deus e que aceitam sonhar o sonho de Deus para o mundo; são todos aqueles que, como dizia Jesus, aceitam ser “sal da terra” e “luz do mundo”; são todos aqueles que caminham pela vida semeando à sua volta sementes de esperança. Estamos conscientes de que isto nos diz respeito? No dia em que escolhemos Deus e aceitamos integrar a família de Deus, recebemos a missão de colaborar com Deus na construção desse mundo mais justo e mais fraterno que queremos ver nascer. Temos cumprido o nosso papel? Temos sido sinais vivos de Deus no mundo e na vida dos irmãos que caminham ao nosso lado?
- O autor deuteronomista (responsável pela redação dos livros de Samuel) partilha connosco uma evidência que nunca deixa de lhe causar um profundo espanto: quando se trata de escolher alguém para cumprir uma missão importante, Deus age sempre num sentido diferente do homem e prefere chamar os mais “improváveis” – os mais pequenos, os mais frágeis, os menos capacitados. “Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração” – diz, em jeito de justificação, o autor deuteronomista. Talvez o “ver com o coração” nos mostre a verdadeira essência daquele irmão ou daquela irmã que se cruza connosco; talvez o “ver com o coração” nos ofereça uma fotografia mais nítida daquela pessoa que Deus colocou no nosso caminho; talvez “ver com o coração” nos ajude a descobrir a riqueza que se esconde por detrás daqueles que parecem insignificantes, sem qualificações e sem pretensões… Talvez “ver com o coração” nos ensine a respeitar a dignidade de cada homem e de cada mulher, mesmo quando não parecem pessoas importantes ou influentes. É isso que acontece nos “guichets” dos nossos serviços públicos? É isso que acontece nas receções das nossas igrejas? É isso que acontece nas portarias das nossas casas religiosas?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)
Refrão 1: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.
Refrão 2: O Senhor me conduz: nada me faltará.
O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.
LEITURA II – Efésios 5,8-14
Irmãos:
Outrora vós éreis trevas,
mas agora sois luz no Senhor.
Vivei como filhos da luz,
porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade.
Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor.
Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis;
tratai antes de condená-las abertamente,
porque o que eles fazem em segredo
até é vergonhoso dizê-lo.
Mas, todas as coisas que são condenadas
são postas a descoberto pela luz,
e tudo que assim se manifesta torna-se luz.
É por isso que se diz:
«Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos
e Cristo brilhará sobre ti».
CONTEXTO
A cidade de Éfeso, capital da Província romana da Ásia, estava situada na costa ocidental da Ásia Menor, a cerca de três quilómetros a sudoeste da moderna Selçuk, na província de Esmirna (Turquia). Era um dos principais centros comerciais e religiosos do mundo antigo. O seu importante porto e a sua numerosa população faziam de Éfeso uma cidade florescente. Era famosa pelo templo de Artémis, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, e pelo imponente teatro, que comportava cerca de 25.000 pessoas.
Paulo passou em Éfeso no final da sua segunda viagem missionária (cf. At 18,19-21). Mas foi mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária, que ele se deteve na cidade (cf. At 19,1). Encontrou lá alguns cristãos escassamente preparados. Paulo procurou instruí-los e dar-lhes uma adequada formação cristã. De acordo com o Livro dos Atos dos Apóstolos, Paulo permaneceu na cidade durante um longo período (mais de dois anos, segundo At 19,10), ensinando na sinagoga e, depois, na “escola de Tirano” (At 19,9). Assim, reuniu à sua volta um número considerável de pessoas convertidas ao “Caminho” (At 19,9.23). Paulo viveu em Éfeso alguns momentos delicados, como o tumulto que se levantou contra ele quando foi acusado pelos comerciantes efésios de estar a destruir a fé em Artémis, pondo em causa o negócio de imagens da deusa (cf. Ef 19,23-40). Ainda de acordo com o autor dos Atos, foi aos anciãos da Igreja de Éfeso que Paulo confiou, em Mileto (cf. At 20,17-38), o seu testamento espiritual, apostólico e pastoral, antes de ir a Jerusalém, onde acabaria por ser preso. Tudo isto faz supor uma relação muito estreita entre Paulo e a comunidade cristã de Éfeso.
Curiosamente, a carta aos Efésios é bastante impessoal e não reflete essa relação. Alguns dos comentadores dos textos paulinos duvidam, por isso, que esta carta venha de Paulo. Outros, porém, acreditam que o texto que chegou até nós com o nome de “Carta aos Efésios” é um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia Menor, inclusive à comunidade cristã de Éfeso.
Em qualquer caso, a Carta aos Efésios apresenta-se como uma carta escrita por Paulo, numa altura em que o apóstolo está na prisão (em Roma?). O seu portador teria sido um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.
Alguns veem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que Paulo considerava ter terminado a sua missão no oriente. O tema mais importante da carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.
O texto que nos é aqui proposto faz parte da “exortação aos batizados” que aparece na segunda parte da carta (cf. Ef 4,1-6,20). Nessa exortação, Paulo retoma os temas tradicionais da catequese primitiva e convida os crentes a deixarem a antiga forma de viver para assumirem a nova, revestindo-se de Cristo (cf. Ef 4,17-31), imitando Deus (cf. Ef 4,32-5,2) e passando das trevas à luz (cf. Ef 5,3-20).
MENSAGEM
A metáfora da “luz” e das “trevas”, aqui utilizada pelo autor da Carta aos Efésios, é frequente no Antigo Testamento para evocar a proximidade e o afastamento de Deus, a santidade e o pecado. A catequese primitiva recupera-a, como sugere o seu uso nos textos neotestamentários, sobretudo em João e Paulo (cf. Jo 1,4-5; 3,19.21; 8,12; 1Jo 1,5-7; 2,9-11; Rm 2,19; 2Cor 4,6; 1Ts 5,4-7). O símbolo “luz/trevas” aparece, também, nos escritos de Qûmran para definir o mundo de Deus (luz) e o mundo que se opõe a Deus (trevas).
Para o apóstolo Paulo, viver nas “trevas” é viver à margem de Deus, recusar as Suas propostas, viver prisioneiro das paixões e dos vícios; é viver no egoísmo, no orgulho, na ganância, na autossuficiência, agarrado a valores rasteiros e efémeros (cf. Ef 5,3-7). É o estilo de vida dos “pagãos”, daqueles que ainda não abraçaram o Evangelho de Jesus. O homem que vive “nas trevas” é, para Paulo, “o homem velho”, o homem amarrado às forças do pecado e da morte.
Em contrapartida, viver “na luz” é escolher Deus, acolher as indicações de Deus, viver segundo Deus; é escolher o amor, a bondade, o perdão, o serviço, a partilha, a solidariedade, os valores eternos (cf. Ef 5,8-10). É o estilo de vida daqueles que se encontraram com Jesus, abraçaram as Suas propostas, receberam o batismo e aceitaram o convite para integrar a família de Deus. O homem que vive “na luz” é, para Paulo, o “Homem Novo”, o homem que Cristo libertou da escravidão do pecado e que caminha de cabeça levantada em direção à vida verdadeira e eterna.
Paulo acha ainda que “viver na luz” é pôr a descoberto as trevas, a mentira, a escravidão, o egoísmo, o pecado (cf. Ef 5,11-13). Mais: os “de Deus” devem combater objetivamente tudo aquilo que deturpa o projeto de Deus para o homem e para o mundo; os “de Deus” têm a obrigação de desmascarar toda essa realidade sombria e injusta que por vezes desfeia o mundo e destrói a vida dos homens; os “de Deus” devem brilhar no mundo como Cristo brilhou e iluminar os caminhos que os homens percorrem. A propósito, Paulo cita um velho hino cristão batismal: “desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti” (vers. 14).
INTERPELAÇÕES
- “Luz” e “trevas” são, neste texto da Carta aos Efésios, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores, os seus comportamentos. Não somos obrigados por ninguém – nem sequer por Deus – a escolher uma destas duas “ordens” em detrimento da outra: a nossa vida não é dirigida por um cego determinismo que se nos impõe, quer queiramos, quer não. Somos livres de fazer as nossas escolhas. Não somos obrigados a escolher Deus e os caminhos que Ele nos aponta; no entanto, devemos ter consciência de que escolher Deus implica renunciar a tudo aquilo que está em absoluta contradição com o mundo de Deus: o egoísmo, a mentira, a violência, o orgulho, a ambição, a vaidade, a autossuficiência. Nós, os que um dia escolhemos Deus e recebemos o batismo, optamos pela luz. Temos de viver de forma coerente com essa opção. Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes mostrar a realidade de Deus, indica-nos o caminho que devemos percorrer, enquanto “filhos da luz”. Nós, os que optamos por Deus e que nos comprometemos a seguir Jesus, vivemos de forma coerente com essa opção? Quais são os esquemas, comportamentos e valores que devem ser definitivamente saneados da nossa vida, a fim de que sejamos verdadeiras testemunhas da “luz”?
- Para o apóstolo Paulo, não chega “viver na luz” e dar testemunho da “luz”. ”Os de Deus” também têm como missão denunciar e combater – de forma aberta, decidida, frontal e corajosa – as “trevas” que desfeiam o mundo, que escravizam os homens e que causam tantas feridas no corpo e na alma dos nossos companheiros de caminhada, particularmente nos mais frágeis, nos mais pequenos, nos mais humildes. “Desperta, tu que dormes” – pede-nos o autor da Carta aos Efésios. É um apelo à vigilância, a não adormecermos, a não deixarmos correr as coisas, a não nos conformarmos com as “trevas”. Contemplemos este mundo cheio de contradições, que é a “casa” dos homens: quais são as situações de “trevas” que obscurecem os nossos horizontes e que trazem sofrimento e morte às nossas vidas e às vidas dos nossos irmãos? O que podemos pessoalmente fazer para que as “trevas” sejam vencidas e brilhe, por todo o lado, a “luz” da esperança, a luz libertadora e salvadora de Deus?
ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO – Jo 8,12
Escolher um dos refrães:
Refrão 1: Louvor e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.
Refrão 2: Glória a Vós, Jesus Cristo, Sabedoria do Pai.
Refrão 3: Glória a Vós, Jesus Cristo, Palavra do Pai.
Refrão 4: Glória a Vós, Senhor, Filho do Deus vivo.
Refrão 5: Louvor a Vós, Jesus Cristo, Rei da eterna glória.
Refrão 6: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor.
Refrão 7: A salvação, a glória e o poder a Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor:
quem Me segue terá a luz da vida.
EVANGELHO – João 9,1-41
Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nasceu cego?
Ele ou os seus pais?
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,
nas obras d’Aquele que Me enviou.
Vai cegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?»
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
ungiu-me os olhos e disse-me:
‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?»
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizias d’Aquele que te deu a vista?»
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.
Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
Como é que agora vê?»
Os pais responderam:
«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
mas não sabemos como é que ele agora vê,
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
Foi por medo que eles deram esta resposta,
porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?»
Ele respondeu-Lhe:
«Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
Disse-lhe Jesus;
«Já O viste: é Quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse-lhe:
«Eu vim para exercer um juízo:
os que não veem ficarão a ver;
os que veem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?»
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: ‘Não vemos’,
o vosso pecado permanece».
CONTEXTO
Alguns estudiosos dividem o Evangelho segundo João em duas partes: o “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,54) e o “Livro da Hora” (cf. Jo 11,55-19,42). No “Livro dos Sinais” são-nos apresentadas diversas “catequeses” – recorrendo a “sinais” como a água (cf. Jo 4,1-5,47), o pão (cf. Jo 6,1-71), a luz (cf. Jo 7,1-9,41), o pastor (cf. Jo 10,1-42), a vida que vence a morte (cf. Jo 11,1-56) – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem que vive segundo Deus. No “livro da Hora”, o Messias encaminha-se para a cruz e, oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens como devem viver e como devem amar. Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.
A narrativa da cura de um cego de nascença integra o “Livro dos Sinais”. É a terceira “catequese” que esse “livro” nos oferece. Mostra como Jesus, “luz” de Deus a brilhar no mundo dos homens, veio libertar-nos da cegueira que nos impede de caminharmos como pessoas livres.
O autor do Quarto Evangelho coloca essa catequese no contexto da festa judaica de “Sukkot”, a festa das tendas” (cf. Jo 7,2). Celebrada no mês de Tishri (início do outono), durava oito dias. Primitivamente era uma festa agrícola, que marcava o final das colheitas. Durante os oito dias que a festa durava, os judeus viviam em tendas (ou cabanas) feitas de tábuas de madeira, com teto de folhas e ramos. Mais tarde, a festa foi ligada com a caminhada dos hebreus pelo deserto e as cabanas evocavam o tempo em que o povo viveu em tendas, durante a jornada em direção à Terra Prometida. Era uma das festas mais importantes do calendário religioso judaico. Celebrava-se a proteção de Deus durante o Êxodo, agradeciam-se as colheitas e anunciavam-se as bênçãos da era do Messias. Durante os dias da festa, o Templo era um centro privilegiado de encontro dos peregrinos que vinham de todos os cantos do país. Um dos rituais mais populares era o acendimento de quatro grandes candelabros gigantescos no Átrio das Mulheres, no Templo de Jerusalém, junto das caixas das ofertas. As luzes brilhavam por toda a cidade, num espetáculo extraordinário de alegria e de fé. A afirmação de Jesus “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12) encaixa perfeitamente neste cenário.
As figuras centrais do episódio narrado no Evangelho deste domingo são Jesus e um cego de nascença. Os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas, pela teologia oficial, como resultado do pecado. Os rabis chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência – se essa deficiência era o resultado de um pecado dos pais, ou se resultava de um pecado cometido pela criança no ventre da mãe.
Segundo a conceção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira, sendo uma deficiência que impedia o homem de estudar a Lei, era considerada o resultado de um pecado especialmente grave. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimónias religiosas no Templo.
MENSAGEM
O episódio da cura do cego de nascença é um dos episódios em que melhor se revela o sentido cénico do autor do Quarto Evangelho. Como um encenador que monta uma peça de teatro, ele constrói uma história – poderíamos dizer, uma “catequese” – a partir de diversos quadros ou cenas.
O quadro inicial (cf. Jo 9,2-5) expõe o tema que vai ser tratado: Jesus é a luz que vem de Deus para eliminar as trevas que cegam os homens. Nesta primeira cena participam, além do próprio Jesus, um homem “cego de nascença” e os discípulos de Jesus. O “cego de nascença” representa todos aqueles que nasceram e sempre viveram num contexto de debilidade e pecado e, portanto, não conhecem outro tipo de vida. É a condição do homem frágil, “de barro”, que desde sempre escolheu caminhos de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência. Os discípulos que presenciam a cena também estão “cegos”: conforme a teologia da época, concluíram que a “cegueira” daquele homem é um castigo de Deus, resultante de um pecado concreto cometido pelo homem ou pelos seus pais. Jesus desmonta esta compreensão e deixa entender que a situação daquele homem não é um castigo imposto por Deus, mas é a condição do homem frágil, que se afastou das indicações de Deus e acabou por perder o rumo da sua existência. No entanto, nada está perdido: Jesus recebeu do Pai a missão de tirar o homem das trevas e de lhe oferecer a possibilidade de viver na luz. Jesus, no cumprimento da vontade do Pai, irá concretizar esse projeto.
No segundo quadro (cf. Jo 9,6-7), Jesus começa a cumprir a missão que recebeu do Pai: trazer a luz ao homem que vive mergulhado nas trevas. Segundo a narrativa, Jesus cospe no chão, faz lodo com a saliva e unge com esse lodo os olhos do cego. O gesto de fazer lodo evoca o gesto criador de Deus de Gn 2,7, quando Deus amassou o barro e modelou o homem. A saliva transmitia, pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus, que deu vida a Adão – cf. Gn 2,7). Assim, Jesus juntou ao barro a sua própria energia vital, repetindo o gesto criador de Deus. A missão de Jesus é criar um Homem Novo, animado pelo Espírito de Deus.
No entanto, a cura daquele homem não é imediata: ao gesto de Jesus deve juntar-se a cooperação do enfermo. “Vai lavar-te na piscina de Siloé” – pede-lhe Jesus. A disponibilidade do cego em obedecer à indicação de Jesus é um elemento essencial na cura e sublinha a sua adesão à proposta que Jesus lhe faz. A referência ao banho na piscina do “enviado” (o autor deste texto tem o cuidado de explicar que Siloé significa “enviado”) é, evidentemente, uma alusão à água de Jesus (o enviado do Pai); essa água (o Espírito, dado por Jesus a todos aqueles que estão dispostos a viver “na luz”) transforma os homens, cura-os da cegueira, livra-os das trevas e da escravidão. A comunidade joânica que recebe esta catequese perceberá, sem qualquer dúvida, a mensagem implícita: quem quiser sair das trevas para viver na luz, como Homem Novo, tem de aceitar a água do batismo – isto é, tem de optar por Jesus e acolher a proposta de vida que Ele oferece.
Num terceiro quadro, o autor da “peça” coloca em cena diversos personagens. Eles vão, com as suas reações, comentários, explicações, incompreensões e mal-entendidos, ajudar-nos a esclarecer o alcance daquele “encontro” que mudou a vida do cego de nascença.
Os primeiros a ocupar a cena são os vizinhos e conhecidos do cego (cf. Jo 9,8-12). A imagem do cego, dependente e inválido, transformado em homem livre e independente, leva os seus concidadãos a interrogar-se… Eles conheciam um homem, cego de nascença, mergulhado nas trevas e incapaz de tomar nas suas mãos a condução da sua vida; mas agora aquele homem está radicalmente transformado. O que lhe terá acontecido? Das explicações do homem que fora cego, eles percebem que foi Jesus o responsável pela mudança; mas não parecem interessados em aprofundar a questão… Talvez sintam curiosidade, ou até anseiem pelo encontro com Jesus; mas não se atrevem a dar o passo definitivo para ter acesso à “luz”. Esses “vizinhos” e conhecidos que rodeiam o homem que fora cego são “figura” de todos aqueles que intuem a novidade da proposta de Jesus, que sabem que essa proposta é libertadora, mas que vivem na inércia, no comodismo, e não estão dispostos a sair do seu mundo limitado para irem ao encontro da “luz”.
Um outro grupo que aparece em cena é o dos fariseus (cf. Jo 9,13-17). Estes sabem que Jesus oferece algo novo, uma “luz” capaz de tirar o homem das trevas; mas essa “luz” não lhes interessa. Esses “fariseus” representam aqueles que têm conhecimento da novidade de Jesus, mas não estão dispostos a acolhê-la. Sentem-se mais confortáveis agarrados aos seus cómodos esquemas de egoísmo e de autossuficiência. Gostam das “trevas”, sentem-se bem no meio das “trevas”. Mais: irão fazer tudo o que lhes for possível para que a libertação que Jesus traz não se concretize: quando constatam que o homem curado por Jesus não está disposto a voltar atrás e a regressar à escravidão anterior, expulsam-no da sinagoga… Entre as “trevas” (que os dirigentes querem manter) e a “luz” (que Jesus oferece), não pode haver compromisso.
Também os pais do cego de nascença são convidados a subir ao palco e oferecer a sua leitura dos factos (cf. Jo 9,18-23). Questionados pelas autoridades judaicas, eles limitam-se a constatar a realidade: sim, o filho deles nasceu cego e agora vê… Mas, depois de afirmarem o óbvio, evitam comprometer-se na questão. Na atitude que exibem, transparece o medo de quem é escravo e não tem coragem de passar das “trevas” para a “luz”. O texto explica, inclusive, que eles “tinham medo de ser expulsos da sinagoga”. A “sinagoga” designava o local do encontro da comunidade israelita; mas designava, também, a própria comunidade do Povo de Deus. Ser expulso da sinagoga significava a excomunhão, o risco de ser declarado herege e apóstata, de perder os pontos de referência comunitários; ser expulso da sinagoga significava cair na solidão, no ridículo, no descrédito e na marginalidade. Aqueles “pais” preferem a segurança da ordem estabelecida – embora injusta e opressora – aos riscos da vida livre. Representam todos aqueles que, por medo, preferem continuar na escravidão, não correr riscos, não ir contra a maré… Amarrados pelo medo, deixam que a proposta transformadora de Jesus lhes passe ao lado.
Concentremos agora a nossa atenção no “caminho” que o cego de nascença percorre desde a cegueira até à luz. Antes de se cruzar com Jesus, é um homem prisioneiro das “trevas”, dependente e limitado. Depois, encontra-se com Jesus e recebe a “luz” (do encontro com Jesus resulta sempre uma proposta de vida nova para o homem). A narrativa descreve – com simplicidade, mas também de uma forma muito bela – a progressiva transformação que o homem vai sofrendo. Nos momentos imediatos à cura, ele não tem ainda grandes certezas (quando lhe perguntam por Jesus, responde: “não sei”; e quando lhe perguntam quem é Jesus, ele limita-se a afirmar de forma imprecisa: “é um profeta”); mas a “luz” que agora brilha na sua vida amadurece-o progressivamente e ajuda-o a ver as coisas cada vez com mais nitidez. Confrontado com os dirigentes e intimado a renegar a “luz” e a liberdade recebidas, ele argumenta com agilidade e inteligência, joga com a ironia, recusa-se a regressar à escravidão: mostra o homem adulto, maduro, livre, sem medo, de convicções firmes… A luz que Jesus oferece ao homem fá-lo crescer, atingir a estatura do Homem Novo.
Finalmente, a narrativa mostra o estádio final dessa caminhada progressiva: a adesão plena a Jesus (cf. Jo 9,35-38). Encontrando o homem que fora cego e que agora vê, Jesus convida-o a aderir ao “Filho do Homem” (“acreditas no Filho do Homem?” – Jo 9,35); a resposta do ex-cego é a adesão total: “creio, Senhor” (Jo 9,38). O título “Senhor” (“kyrios”) era o título com que a comunidade cristã primitiva designava Jesus, o Senhor glorioso. Depois, o homem curado prostrou-se e adorou Jesus: adorar significa reconhecer Jesus como o projeto de Homem Novo que Deus apresenta aos homens, aderir a Ele e segui-l’O.
Neste percurso está simbolicamente representado o “caminho” do catecúmeno. O primeiro passo nesse “caminho” é o encontro com Jesus; depois, o catecúmeno manifesta a sua disponibilidade para aderir à “luz” e recebe o batismo. À medida que vai consolidando e amadurecendo a sua descoberta torna-se, progressivamente, um homem livre, sem medo, seguro daquilo que quer para a sua vida; e esse “caminho” desemboca na adesão total a Jesus, no reconhecimento de que Ele é o Senhor que conduz a história e que tem uma proposta de vida nova para o homem… Depois disto, ao cristão nada mais interessa do que seguir Jesus.
A narrativa do autor do Quarto Evangelho também explicita a missão de Jesus. Deus criou o homem para ser livre e feliz; mas o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, dominaram o coração do homem, cegaram-no e frustraram o projeto de Deus. Então Deus enviou o Seu Filho ao encontro dos homens. A missão de Jesus será libertar o homem das trevas em que ele se encerrou e fazê-lo viver na “luz”. Trata-se de uma nova criação… Da ação de Jesus irá nascer um Homem Novo, liberto do egoísmo e do pecado, vivendo na liberdade, a caminho da vida em plenitude.
INTERPELAÇÕES
- Se ouvirmos a história da cura de um cego de nascença – narrada pelo autor do Quarto Evangelho – apenas como algo que aconteceu em Jerusalém no longínquo ano 30 do séc. I, talvez ela nos soe como um facto bizarro, singular, mas que não nos diz respeito. No entanto, ao contá-la, o autor do Quarto Evangelho pretendeu envolver-nos e questionar-nos sobre a nossa maneira de viver. Não se trata apenas de uma história sobre um homem desconhecido que viveu há dois mil anos e que há muito desapareceu; é uma história sobre nós, os “cegos” do séc. XXI. Sobre nós? Mas nós estaremos realmente na mesma situação de cegueira daquele homem que se encontrou com Jesus próximo da piscina de Siloé? Talvez… Caminhamos às claras, vendo perfeitamente o caminho que trilhamos, ou arrastamo-nos pela vida sem rumo e sem objetivo? Sabemos para onde vamos e conhecemos o nosso destino final, ou limitamo-nos simplesmente a sobreviver, às escuras, apanhando pequenas migalhas de felicidade efémera? Encaramos a realidade de frente, ou caminhamos de olhos fechados, recusando-nos a enfrentar as coisas que nos incomodam e que afetam o nosso bem-estar? Ousamos acolher os desafios que Deus nos vai apresentando, ou escondemo-nos atrás de um sem número de desculpas para justificar a nossa inércia e o nosso comodismo? Construímos a nossa vida ancorada na verdade e na autenticidade, ou vivemos iludidos, recusando-nos a enfrentar os nossos erros, preconceitos, manias, mentiras? Somos límpidos, sinceros, transparentes, leais, autênticos, ou tratamos de enganar os que nos rodeiam dando uma imagem falsa daquilo que somos? Vivemos na “luz”, ou vivemos nas “trevas”?
- João, o autor do Quarto Evangelho, garante-nos: apesar das nossas escolhas erradas, apesar das nossas mentiras e hipocrisias, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa instalação e do nosso comodismo, a nossa plena realização continua a ser a prioridade de Deus. Deus nunca se conforma quando vê os seus queridos filhos caminharem sem rumo, mergulhados e acomodados numa vida de “trevas”. Foi por isso que Ele enviou ao nosso encontro o Seu Filho Jesus. Jesus veio, segundo a Sua própria expressão, “trabalhar na obra” de Deus; e a “obra de Deus” é oferecer aos homens a possibilidade de abandonarem as trevas para viverem na luz. Jesus lutou objetivamente para derrotar as ideologias, as doutrinas, as instituições, as leis, os valores, os costumes que geram “escuridão”, sofrimento, injustiça, maldade. Jesus disse-nos claramente – com a Sua vida, com as Suas palavras, com os Seus gestos – como deveríamos viver para não ficarmos atolados numa vida sem saída. Deixou-se matar para vencer as “trevas” que dominavam o mundo. Apesar de tudo isso, continuamos – vinte e um séculos depois – a viver num mundo cheio de sombras. Porquê? O que é que está a faltar para que a luz de Deus ilumine plenamente os caminhos e a história dos homens?
- Na catequese que hoje nos foi oferecida pelo autor joânico, o cego de nascença viu-se livre da cegueira quando se encontrou com Jesus, escutou as Suas orientações e cumpriu aquilo que Jesus lhe recomendou: lavar-se na “piscina de Siloé”, lavar-se na água “do Enviado”. Há, neste processo de “cura” e de transformação, uma intervenção de Jesus e uma ação do homem. A indicação do catequista João não podia ser mais transparente: Jesus mostra o caminho e disponibiliza o Seu Espírito; o homem, por sua vez, acolhe esse dom, compromete-se com Jesus, faz o que Jesus diz e torna-se um Homem Novo. Jesus mostra o caminho; o homem concretiza as indicações de Jesus. Quando somos batizados (quando mergulhamos na “água” que o “Enviado” de Deus nos oferece), aderimos a Jesus, acolhemos o dom do Espírito, escolhemos viver na “luz”. Depois, seguindo as orientações de Jesus, começamos a percorrer um caminho… Como tem sido a nossa caminhada? Temos cumprido a nossa parte? Temos vivido de forma coerente com o compromisso que abraçamos no dia em que nos encontramos com Jesus e recebemos o batismo? Ao longo do caminho mais ou menos longo que temos feito, continuamos a escutar as indicações de Jesus e a ser dirigidos pelo Espírito, ou entretanto mergulhamos noutras vidas, noutros caminhos, em realidades e valores que nos afastaram da luz?
- No palco do “teatro” onde se representa a “peça” da cura do cego de nascença, o autor do Quarto Evangelho introduz diversos personagens que reagem de forma muito própria à presença no mundo daquela “luz” (Jesus) que liberta os homens das “trevas”. Há aqueles – como os líderes religiosos judaicos – que se opõem decididamente à proposta de Jesus porque estão instalados na mentira, porque cultivam a ambição, porque têm os seus interesses pessoais a defender, porque lhes dá jeito que o povo simples continue a viver nas trevas sem se revoltar. Há também aqueles – como os pais do cego de nascença – que ignoram a “luz” que Jesus traz porque não querem ter problemas: não sabem, ou não querem saber do que se passa à sua volta; entregam nas mãos de outros as decisões, preferem viver mergulhados numa ordem injusta do que correr o risco de serem livres; têm medo de escolher a luz porque não querem comprometer-se. Há ainda aqueles – como os vizinhos e conhecidos do cego de nascença – que, apesar de reconhecerem as vantagens da “luz”, estão comodamente instalados na sua zona de conforto e não mexem um dedo para ir ao encontro de Jesus; preferem permanecer agarrados a realidades corriqueiras e fúteis do que arriscar dar um passo em frente e enfrentar com ousadia a novidade de Jesus. Identificamo-nos com algum destes grupos?
- Estamos a percorrer o “caminho quaresmal” em direção à Páscoa, à vida nova. É um caminho de transformação, de mudança, de conversão, de renascimento. Ao longo deste caminho somos convidados a deixar para trás aquilo que nos escraviza, que nos aliena, que nos oprime, que nos impede de viver na “luz”. Faz sentido que, neste tempo, procuremos identificar aquilo que nos “cega”, que nos rouba a liberdade, que nos prende a uma vida rasteira e sem horizontes, que nos impede de nos realizarmos plenamente; faz sentido, neste tempo, lançarmos fora os velhos pesos que arrastamos, que não nos deixam respirar livremente, que nos fazem sentir eternamente culpados, que não nos permitem viver em paz connosco próprios ou com aqueles que nos rodeiam. Não seria boa ideia gastarmos algum tempo, nesta Quaresma, a identificar as “sombras” que nos impedem de viver na “luz”? Não seria boa ideia atirarmos fora, para qualquer abismo insondável, todos esses pesos que carregamos e que nos impedem de chegar à “luz”?
- Aquele cego de nascença, precisamente por causa da sua limitação física, era considerado, pela teologia “oficial” de Israel, um pecador, um maldito, um homem que não podia ter acesso ao mundo de Deus e à misericórdia de Deus. Jesus, no entanto, não se incomoda com isso. Detém-se no caminho, aproxima-se do cego, toca-lhe nos olhos, fala com ele, dá-lhe indicações para que ele possa libertar-se da cegueira e encontrar a luz. Jesus é assim. Para Ele não há excluídos nem malditos, mesmo que se trate de gente que as comunidades e instituições religiosas marcaram, condenaram e puseram à margem. Aqueles que, por decisão dos homens, não têm lugar na comunidade religiosa têm sempre um lugar privilegiado no coração de Jesus. O que é que isto nos sugere? Quem levará hoje esta mensagem libertadora àqueles “cegos”, excluídos por dirigentes religiosos de vistas curtas e de coração endurecido? Quem fará sentir a misericórdia de Jesus àqueles que não são acolhidos nas nossas comunidades cristãs e, tantas vezes, se veem obrigados a viver a sua fé em Jesus quase de maneira secreta e clandestina?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 4.º DOMINGO DA QUARESMA
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 4.º Domingo da Quaresma, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
2. FAZER UMA PROCISSÃO DA LUZ.
Para pôr em evidência a passagem das trevas à luz proclamada por todos os textos deste domingo, poder-se-á organizar uma procissão da luz para entrada da celebração e cantar um cântico com referência à Luz. Os portadores das luzes (velas acesas) poderão juntar-se à volta do evangeliário para a leitura do Evangelho: Cristo é a Luz do mundo!
3. LER O EVANGELHO A DIVERSAS VOZES.
Como mo domingo passado, o Evangelho (na sua forma longa) pode ser lido a diversas vozes: narrador, Jesus, cego, fariseus. De qualquer modo, é bom recordar que a leitura deve ser bem preparada e proclamada, para que seja escutada como Palavra de Deus e não como uma mera encenação…
4. BILHETE DE EVANGELHO.
A vida é conversão! Aquele que está na verdade vem à luz, diz Jesus a Nicodemos quando o vem encontrar de noite. Esta palavra também nos é dirigida. Fazer uma caminhada de reconciliação é fazer sempre a verdade. Receber o perdão é acolher sempre a luz. Mas antes de fazer esta caminhada, é preciso decidir voltar para Deus. Deus nunca se afastou de nós, não esqueçamos isso. Eis porque, antes de nos confessarmos, devemos confessar (= afirmar com outros) que Deus é Amor. Somos nós que nos afastamos de Deus. Tomamos distância em relação a Deus cada vez em que não amamos ou amamos mal. O pecado é tudo o que é contrário ao amor por Deus e pelos irmãos. Deus espera-nos. Demos-lhe a alegria de nos perdoar.
5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nós Te louvamos, ó Pai, porque nos julgas não segundo as aparências, mas olhas o coração do homem. Nós Te bendizemos pelo teu Espírito que nos dás e que faz de nós um povo real e sacerdotal.
Nós Te pedimos pelos pais e pelos educadores, pelas autoridades nas nossas sociedades, mas também pelos seus eleitores, responsáveis pelas boas escolhas.
No final da segunda leitura:
Nós Te damos graças, Cristo, Luz do mundo, que Te levantaste de entre os mortos, Tu que nos iluminas desde o nosso batismo.
Nós Te pedimos: arranca-nos das trevas, que o teu Espírito nos faça viver como filhos e filhas da luz, e que Ele produza em nós frutos de bondade, de justiça e de verdade, que Ele nos torne capazes de agradar a Deus.
No final do Evangelho:
Nós Te bendizemos pela nova criação realizada pelo teu Filho, que remodelou a nossa humanidade, e pela cura dos nossos olhos, quando estão fechados ao próximo e à luz da tua presença.
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística III da Assembleia com Crianças.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Um outro olhar… “Deus não vê à maneira dos homens, os homens veem a aparência, mas o Senhor olha o coração”. Uma Palavra para reajustar os nossos critérios de julgamento: Que olhar temos nós sobre as pessoas? Sobre os acontecimentos? Uma Palavra para nos alegrar também com as escolhas do nosso Pai que olha a verdade dos nossos corações!
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org