03º Domingo da Páscoa - Ano A [atualizado]
19 de Abril, 2026
ANO A
3.º Domingo da Páscoa
Tema do 3.º Domingo da Páscoa
A certeza da vitória de Jesus sobre a morte continua a ecoar ao longo de cada hora deste “grande domingo” que é o tempo pascal. Mas hoje a liturgia lembra-nos, especificamente, que também nós podemos experimentar a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, nos caminhos que todos os dias percorremos. Essa experiência transforma-nos, renova-nos, santifica-nos e faz de nós testemunhas vivas do Ressuscitado.
No Evangelho o “catequista” Lucas convida-nos a acompanhar dois discípulos que, abalados pela aparente falência do projeto de Jesus, desistem da comunidade cristã e põem-se a caminho de uma outra vida. No entanto Jesus, sem se identificar, acompanha-os no caminho, ajuda-os a encontrar respostas, devolve-lhes a esperança. Eles só reconhecem Jesus quando, à mesa, Ele parte e reparte o pão. O relato – com um evidente “sabor” eucarístico – é uma maravilhosa parábola sobre os nossos desencontros e encontros com Jesus ressuscitado: Ele nunca deixará de nos acompanhar no caminho, de nos explicar o sentido da vida e de nos alimentar com a sua Palavra e o seu Pão.
A primeira leitura é um extrato do discurso de Pedro na manhã de Pentecostes. Anuncia aos habitantes de Jerusalém e ao mundo que, aquele Jesus assassinado pelas autoridades judaicas, derrotou a maldade, a injustiça, a violência e a própria morte. Pedro, com ousadia profética, garante: “disso todos nós somos testemunhas”. É esta Boa Notícia que os discípulos de Jesus de todas as épocas continuam a anunciar ao mundo.
Na segunda leitura, um autor cristão do séc. I lembra aos batizados a vocação fundamental a que são chamados: a santidade. Para dar mais força ao seu apelo a uma vida santa, recorda-lhes que foram resgatados por um preço bem alto: pelo sangue precioso de Cristo. Ao ressuscitar e glorificar o seu Filho Jesus, Deus caucionou a proposta de vida que Ele nos veio oferecer.
LEITURA I – Atos dos Apóstolos 2,14.22-33
No dia de Pentecostes,
Pedro, de pé, com os onze Apóstolos,
ergueu a voz e falou ao povo:
«Homens de Israel, ouvi estas palavras:
Jesus de Nazaré
foi um homem acreditado por Deus junto de vós
com milagres, prodígios e sinais,
que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio,
como sabeis.
Depois de entregue,
segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus,
vós destes-Lhe a morte,
cravando-O na cruz pela mão de gente perversa.
Mas Deus ressuscitou O, livrando O dos laços da morte,
porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio.
Diz David a seu respeito:
‘O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção.
Destes me a conhecer os caminhos da vida,
a alegria plena em vossa presença’.
Irmãos, seja-me permitido falar vos com toda a liberdade:
o patriarca David morreu e foi sepultado
e o seu túmulo encontra se ainda hoje entre nós.
Mas, como era profeta
e sabia que Deus lhe prometera sob juramento
que um descendente do seu sangue
havia de sentar-se no seu trono,
viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo,
dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos,
nem a sua carne conheceu a corrupção.
Foi este Jesus que Deus ressuscitou
e disso todos nós somos testemunhas.
Tendo sido exaltado pelo poder de Deus,
recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo,
que Ele derramou, como vedes e ouvis».
CONTEXTO
O texto que a liturgia deste dia nos propõe como primeira leitura situa-nos em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes.
Após a Ascensão os discípulos tinham estado no Cenáculo, à espera que se cumprisse a promessa que Jesus lhes tinha feito: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (At 1,8). Ora, de acordo com o relato de Lucas, essa promessa cumpriu-se no dia do Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a comunidade reunida no Cenáculo (cf. At 2,1-12). Nesse dia, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança dos muros do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.
A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) que os judeus celebravam por esses dias era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.
As palavras que, segundo Lucas, Pedro naquele dia dirigiu à multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa judaica do Pentecostes serão rigorosamente históricas? Não. Trata-se, certamente, de uma composição do autor dos Atos dos Apóstolos que reproduz, em parte, a pregação que a primitiva comunidade cristã fazia sobre Jesus.
Este discurso de Pedro é, aliás, muito semelhante a outros discursos que aparecem no livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 3,12-26; 4,8-12; 10,34-43; 13,16-41). Em qualquer um deles, aparece sempre um núcleo central que procede do kerigma primitivo e o resume: apresentação breve da atividade de Jesus, anúncio da sua morte e ressurreição e a salvação que daí resulta em favor dos homens. Mesmo que o texto não reproduza exatamente a pregação de Pedro no dia do Pentecostes, reproduz certamente a fórmula mais ou menos consagrada do kerigma primitivo e a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus. Há até quem veja neste “anúncio” um texto que era aprendido de cor por todos os catecúmenos durante a sua preparação para o batismo.
MENSAGEM
Depois e invocar o testemunho das Escrituras (cf. At 2,16-21), Pedro expõe o “kerigma”, o núcleo fundamental da catequese cristã primitiva: Jesus, creditado por Deus, veio ter com os homens e passou pelo mundo realizando gestos poderosos, gestos que testemunhavam o amor de Deus e anunciavam a sua salvação (cf. At 2,22); no entanto, a proposta apresentada por Jesus chocou com a recusa do mundo e Ele foi morto na cruz “pela mão de gente perversa” (cf. At 2,23); mas Deus ficou do lado d’Ele, ressuscitou-o, fê-lo triunfar sobre a injustiça, a mentira, a violência e a morte. Ao ressuscitar Jesus, Deus deu-lhe razão: disse àqueles que se recusaram a escutar Jesus que Ele estava certo: que uma vida gasta ao serviço do projeto de Deus não pode terminar no fracasso, mas conduz à ressurreição, à vida plena (cf. At 2,24). Pedro é aqui o porta-voz dessa comunidade que testemunhou a oferta de salvação que Jesus veio trazer, que acreditou nela e que recebeu de Jesus a missão de a propor aos homens de toda a terra.
Este anúncio feito por Pedro é dirigido a judeus que conhecem bem as Escrituras e as promessas de Deus. Por isso, Lucas coloca na boca de Pedro argumentos tirados da própria Escritura para fundamentar aquilo que pretende anunciar-lhes sobre Jesus. Em concreto, Pedro refere-se ao salmo 16,8-11, atribuído aqui a David: “O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença’” (At 2,25-28).
Trata-se de um dos raros textos do Antigo Testamento onde se vislumbra a vitória da vida sobre a morte. O raciocínio do compositor deste discurso é o seguinte: David refere-se, nesse salmo que a tradição lhe atribui (cf. Sl 16,1), a um “amigo de Deus” que haveria de vencer a morte; não se trata, é claro, do próprio David pois, como todos sabem, ele morreu na primeira metade do séc. X a.C. (“o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós” – At 2,29); sendo assim, esse “amigo de Deus” de que David fala será com certeza aquele descendente de David que, segundo a promessa de Deus, haveria de herdar o trono do seu pai e estabelecer um reino eterno (cf. 2Sm 7,12-16). Era a esse rei, da descendência de David, que os judeus chamavam “Messias” (“ungido”); era esse rei, da descendência de David que alimentava a esperança de Israel e que era aguardado ansiosamente (cf. At 2,30). A conclusão parece óbvia: Jesus é esse “amigo de Deus”, anunciado por David, que Deus não abandonou na habitação dos mortos e cuja carne não conheceu a corrupção do túmulo (cf. At 2,31). Portanto, Jesus está vivo: uma vez ressuscitado dos mortos, foi elevado à glória pelo poder de Deus, recebeu o Espírito Santo e derramou-O sobre os discípulos que deixou na terra para serem testemunhas do Evangelho da salvação (cf. At 2,33). Estarão os habitantes de Jerusalém disponíveis para acolher, finalmente, a proposta de salvação trazida por Jesus?
Temos aqui, portanto, o testemunho da comunidade cristã sobre Jesus, o Messias, enviado ao mundo para cumprir o plano de Deus – isto é, para libertar os homens e para instaurar um Reino de justiça, de abundância, de paz e de verdade. A vitória de Jesus sobre a morte e a sua exaltação atestam que Ele é esse Messias enviado por Deus com uma proposta de salvação. Os discípulos de Jesus são as testemunhas disto diante de todo o mundo (“disso todos nós somos testemunhas” – At 2,33). Por agora, esse testemunho é dado em Jerusalém; mas Lucas irá descrever, ao longo do livro dos Atos, a forma como o anúncio sobre Jesus irá conquistando o mundo, até atingir o próprio coração do império (Roma).
INTERPELAÇÕES
• Desde os alvores da humanidade insistimos em trilhar caminhos de orgulho e de autossuficiência, julgando encontrar aí a nossa plena realização, o sucesso inquestionável da nossa existência; mas só conseguimos, com as nossas opções egoístas, trazer à história humana mentira, violência, infelicidade e morte. Então Deus enviou-nos Jesus. Ele veio dizer-nos cara a cara, na nossa linguagem e em gestos humanos bem claros, que a nossa plena realização passa pelo amor, pela vida dada até às últimas consequências, pela partilha, pelo perdão, pelo serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos. No entanto, não acreditamos n’Ele; e convocamos a injustiça, a violência, a mentira, para o calar e para o fechar num túmulo onde Ele não pudesse incomodar-nos com os seus desafios… Caso arrumado? Não. Deus ressuscitou Jesus; e, ao ressuscitá-l’O, deu-lhe razão. Disse-nos que Ele falava verdade quando nos dizia que uma vida gasta ao serviço do plano do Pai, na entrega aos homens, não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida nova. Entretanto, passaram-se dois mil anos… Há dois mil anos que sabemos, de fonte segura, que o egoísmo, o orgulho, a maldade, a violência, nos arrastam para caminhos de morte e infelicidade; há dois mil anos que temos diante de nós o exemplo de Jesus e que sabemos que só a proposta que Ele nos apresentou é geradora de vida verdadeira e eterna. Mas ainda não conseguimos “digerir” tudo aquilo que a vida, a morte e a ressurreição de Jesus nos mostrou. O que mais será necessário para levarmos a sério as indicações de Deus? Quando nos disporemos a acolher, sem desculpas nem hesitações, a lição de Jesus?
• Pedro, dirigindo-se à multidão no dia de Pentecostes, diz: “foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas”. Esse “todos nós” inclui, naturalmente, todos aqueles que, por aqueles dias, fizeram a experiência de encontrar Jesus vivo e atuante e se sentiram desafiados a continuar a aventura do Reino de Deus; mas também inclui todos os outros que, pelos séculos fora, continuam a encontrar-se com Jesus vivo, a escutar as suas indicações, a viver ao seu estilo, a sentarem-se com Ele à mesa eucarística, a caminhar com Ele pelos caminhos do mundo. A Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus – é hoje, no mundo, a testemunha de Jesus, da sua ressurreição, da verdade da sua proposta, da viabilidade do seu projeto. Sentimo-nos investidos dessa missão? Os homens desiludidos e desorientados que todos os dias se cruzam connosco nos caminhos do mundo encontram em nós – testemunhas de Cristo ressuscitado – uma proposta de vida definitiva e de realização plena? Somos nós que contaminamos o mundo com a Boa Notícia de Jesus e lhe oferecemos uma alternativa à desilusão e ao desespero, ou é o mundo que nos domestica e nos convence a abandonar os valores propostos por Jesus?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)
Refrão 1: Mostrai me, Senhor, o caminho da vida.
Refrão 2: Aleluia.
Defendei me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.
Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas Vossas mãos o meu destino.
Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.
Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena em Vossa presença,
delícias eternas à Vossa direita.
LEITURA II – 1 Pedro 1,17-21
Caríssimos:
Se invocais como Pai
Aquele que, sem aceção de pessoas,
julga cada um segundo as suas obras,
vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo.
Lembrai vos que não foi por coisas corruptíveis,
como prata e oiro,
que fostes resgatados da vã maneira de viver,
herdada dos vossos pais,
mas pelo sangue precioso de Cristo,
Cordeiro sem defeito e sem mancha,
predestinado antes da criação do mundo
e manifestado nos últimos tempos por vossa causa.
Por Ele acreditais em Deus,
que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória,
para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.
CONTEXTO
A primeira Carta de Pedro oferece-nos um conjunto de indicações que, à partida, poderiam deixar perfeitamente definida a questão do seu autor e dos seus destinatários. O autor apresenta-se como “Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo” (1Pe 1,1a), “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar” (1Pe 5,1). Os destinatários seriam os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). A Carta seria escrita “desde Babilónia” (designativo frequentemente usado pelos primeiros cristãos para falar de Roma), onde o autor está acompanhado por Marcos (1Pe 5,13).
No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia que Jesus chamou para ser “pescador” de homens (cf. Mc 1,16-18), tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como era o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (o Apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).
Sendo assim, o mais natural é que o autor da primeira Carta dita “de Pedro” seja um cristão culto cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã –, empenhado em fortalecer o compromisso cristão de algumas comunidades instaladas nas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).
Os destinatários desta carta são, maioritariamente, camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente do meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.
Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.
MENSAGEM
Dirigindo-se aos batizados, o autor da carta exorta-os a viverem como filhos de Deus. Isso significa abandonar completamente os “desejos antigos” e optar pela santidade (cf. 1Pe 1,14-15). Citando a Escritura, lembra-lhes o pedido de Deus: “sede santos, porque Eu sou santo” (1Pe 1,16).
Como devem viver aqueles que são chamados à santidade e que invocam a Deus como Pai? De acordo com o autor da Carta, devem viver “com temor, durante o tempo de exílio neste mundo” (1Pe 1,17). O “temor” traduz, na linguagem vétero-testamentária, a atitude de obediência, de confiança, de entrega a Deus, de total conformação com a vontade de Deus.
Para dar mais força à sua exortação, o autor da carta lembra aos batizados que não têm o direito de voltar atrás, pois Deus pagou um alto preço para os resgatar da antiga maneira de viver; e esse preço não foi pago com bens corruptíveis, como o ouro ou a prata, mas sim com algo infinitamente precioso: o sangue de Cristo, derramado na cruz. Foi um preço bem alto que, no entanto, Deus não hesitou em pagar… Poderá esse enorme “investimento” de Deus ser malbaratado e desprezado pela ingratidão dos batizados?
O verbo “resgatar” (“lytróô”), aqui utilizado pelo autor da carta para falar da ação salvífica de Deus em favor do homem, é um verbo usado no grego profano para designar a libertação de uma pessoa (nomeadamente de um escravo), mediante o pagamento de uma determinada quantia. No Antigo Testamento, contudo, o verbo tem um alcance eminentemente teológico e refere-se à atuação salvífica de Deus, que intervém para salvar o seu povo do cativeiro egípcio (cf. Dt 7,8; 15,15), do exílio babilónico (cf. Es 41,14; 43,1) ou do pecado (cf. Sl 130,8). Em algumas passagens, o mesmo verbo inclui o sentido de “adquirir”: Javé resgata Israel para que ele passe a ser o povo de Deus (cf. 2Sm 7,23; 1Cr 17,21), a tribo da sua herança (cf. Sl 74,2), a comunidade que pertence a Deus e que está ao serviço de Deus. Dizer que Deus “resgata” quer então dizer que Deus, no seu amor, liberta Israel da escravidão e do pecado, a fim de fazer dele um Povo consagrado ao seu serviço.
É provavelmente neste contexto que devemos entender a afirmação do autor da Primeira Carta de Pedro. A referência a Cristo como “cordeiro sem defeito e sem mancha” (1 Pe 1,19) leva-nos ao cordeiro pascal (é nesses termos que se fala do “cordeiro pascal” em Ex 12,5, o cordeiro que os escravos hebreus sacrificaram e comeram na noite em que fugiram da escravidão para a liberdade) e, portanto, à tipologia do Êxodo. Assim como o “cordeiro pascal” marcou a libertação dos hebreus da escravidão do Egito e assinalou o nascimento de um povo dedicado ao serviço de Deus, assim também a morte de Cristo “resgatou” o homem da escravidão do pecado e fez nascer um povo novo e santo, cuja vocação é servir a Deus e colocar a sua fé e a sua esperança em Deus (cf. 1Pe 1,21).
Os que foram batizados são convidados a contemplar o plano de salvação que Deus quer concretizar em favor do homem, um plano que passa pela entrega de Jesus (o “Cordeiro sem mancha nem defeito” na cruz. Constatando a grandeza do amor de Deus e a sua vontade salvífica, os batizados – apesar das dificuldades e perseguições que enfrentam – aceitam comprometer-se com Deus e renascer para uma vida nova e santa. Dessa forma, nascerá um Povo novo, consagrado ao serviço de Deus.
INTERPELAÇÕES
• Deus dispôs-se a “pagar” um alto preço para nos libertar da nossa vã maneira de viver: enviou-nos o seu Filho Jesus, apesar de saber que nós não somos “de confiança” e que, na nossa insensatez, O condenaríamos a uma morte infame. Jesus cumpriu o projeto do Pai: fez-se um de nós, caminhou connosco, falou-nos do amor do Pai, curou as nossas feridas, lutou contra a mentira e a injustiça, mostrou-nos como viver, deixou-se matar para nos libertar do pecado e da morte. Isto dá-nos bem a medida do imenso amor que Deus nos tem. Esta história de amor deixa o autor da primeira Carta de Pedro maravilhado. E a nós? Conseguimos medir, a partir desta realidade, a importância que temos para Deus? Deixamo-nos “tocar” e maravilhar por este “amor maior”?
• Não podemos ficar indiferentes diante da ação de Deus em nosso favor. Um amor tão grande como aquele que Deus nos mostrou ao entregar-nos a vida do seu Filho Jesus, exige uma resposta clara e inequívoca da nossa parte. Qual? De acordo com o autor da Primeira Carta de Pedro, a nossa resposta deve traduzir-se numa conduta nova, numa atitude de acolhimento de Deus, de obediência total a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos planos, valores e projetos de Deus. O amor de Deus inspira-nos e motiva-nos para vivermos uma vida santa, uma vida “segundo Deus”?
• Jesus não anda hoje, em pessoa, pelas ruas das nossas aldeias, vilas e cidades, a propor-nos o Reino de Deus e a dizer-nos, com palavras e com gestos concretos, como devemos viver para que a nossa vida faça sentido. No entanto, antes de voltar para o Pai, Ele encarregou os seus discípulos de serem suas testemunhas no mundo. A sua proposta tem de continuar hoje a chegar aos homens. Sentimos que isso nos diz respeito? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos a sua mensagem, que decidimos segui-l’O, que aceitamos viver ao seu estilo, damos testemunho dessa Boa Notícia que Ele nos deixou? A nossa vida é um anúncio, ao vivo e a cores, dessa vida nova que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas?
ALELUIA – cf. Lc 24,32
Aleluia. Aleluia.
Senhor Jesus, abri-nos as Escrituras,
falai-nos e inflamai o nosso coração.
EVANGELHO – Lucas 24,13-35
Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
Pararam entristecidos.
E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém
a ignorar o que lá se passou estes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?»
Responderam Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras
diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito
para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
para entrar na Sua glória?»
Depois, começando por Moisés
e passando por todos os Profetas,
explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram n’O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar
e vem caindo a noite».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n’O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?»
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele,
que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão.
CONTEXTO
A narração de uma aparição de Jesus ressuscitado a dois discípulos que iam a caminho de uma povoação chamada Emaús, no próprio dia de Páscoa, é exclusiva de Lucas: nenhum outro evangelista a refere. Discute-se, no entanto, se se trata de uma criação de Lucas, ou de um relato que Lucas recebeu da tradição e que o evangelista terá trabalhado e adaptado. O mais provável é que Lucas utilize uma tradição prévia, que ele retoca e completa.
A menção de um lugar chamado Emaús (lugar de destino dos dois discípulos) levanta diversas interrogações… Que lugar é esse? O nome não identifica um lugar conhecido na geografia do mundo palestino. A indicação da distância de Jerusalém a Emaús poderia constituir um fator adicional para ajudar na identificação da referida localidade; contudo, esse dado também não é conclusivo, uma vez que os mais importantes códices antigos situam a povoação a “sessenta estádios” de Jerusalém (o equivalente a cerca de onze quilómetros), mas outros falam de “cento e sessenta estádios” (o que equivaleria a cerca de trinta quilómetros). Os partidários da “maior distância” (cento e sessenta estádios) falam de Amwas-Nicópolis (uma localidade situada a cerca de trinta quilómetros de Jerusalém) como o local da Emaús evangélica; mas os partidários da “menor distância” preferem falar da atual El-Qubeibeh (uma localidade palestina que conserva a memória do acontecimento), ou então de Abu Gosh, uma localidade situada a cerca de dez quilómetros de Jerusalém.
Os comentadores destacam frequentemente a intenção teológica de Lucas ao dar-nos este relato. Que é que isto significa? Significa que a narrativa lucana não é uma reportagem factual de uma viagem geográfica, mas é uma catequese sobre Jesus. O que interessa a Lucas não é escrever um relato lógico e coerente (se o evangelista estivesse preocupado com a lógica e com a coerência, teria mais cuidado com a situação geográfica de Emaús; e explicaria melhor algumas incongruências do texto, nomeadamente porque é que aqueles dois discípulos discípulos partiram para Emaús na manhã de Páscoa sem investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e Jesus tinha ressuscitado). O que interessa ao autor é explicar aos cristãos para quem escreve – em meados da década de oitenta do primeiro século – como é que podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma verdadeira experiência de encontro com Jesus ressuscitado. Trata-se, portanto, de uma página de catequese, mais do que a descrição fiel de acontecimentos concretos.
MENSAGEM
No primeiro dia da semana (Lucas começa o seu relato utilizando a expressão “naquele mesmo dia”, o que nos remete para o relato anterior – o relato que descreve como, na manhã de Páscoa, algumas mulheres vão ao túmulo levando os perfumes que haviam preparado para “tratar” o corpo de Jesus e se deparam com “dois homens com vestes refulgentes” que lhes anunciaram a ressurreição – cf. Lc 24,1-12), dois discípulos de Jesus saem de Jerusalém e põem-se a caminho de um lugar chamado Emaús. Um deles chama-se Cléofas; o outro não é identificado. Muito se tem dito sobre esse discípulo anónimo, que alguns identificam com Pedro, outros com Natanael, com Simão e até mesmo com a mulher de Cléofas. Talvez Lucas, ao não identificar o referido discípulo, esteja simplesmente a sugerir que ele podia ser “qualquer um” dos crentes que tomam conhecimento da história.
Percebemos, pelas palavras que os dois viajantes trocam enquanto caminham, porque é que se afastam de Jerusalém: estão desiludidos, pois os seus sonhos de triunfo e de glória ao lado de Jesus ruíram pela base, aos pés de uma cruz. Esse Messias poderoso, capaz de derrotar os opressores, de restaurar o reino grandioso de David (“nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel” – Lc 24,21) e de distribuir benesses aos seus colaboradores diretos revelou-se, afinal, um rotundo fracasso. Em lugar de triunfar, deixou-Se matar numa cruz; e a sua morte é um facto consumado pois “é já o terceiro dia depois que isto aconteceu” (o “terceiro dia” após a morte é o dia da morte definitiva, do não regresso do túmulo). Portanto, os dois abandonam a comunidade dos discípulos – que, doravante, não parece fazer qualquer sentido – e afastam-se de Jerusalém, dispostos a esquecer o sonho, a pôr os pés na terra e a enfrentar, de novo, uma vida dura e sem esperança. A discussão entre eles a propósito de “tudo o que tinha acontecido” (Lc 24,14) deve entender-se neste enquadramento: é essa partilha solidária dos sonhos desfeitos que torna menos doloroso o desencanto.
Chegados aqui, o autor do relato introduz no quadro um novo personagem: o próprio Jesus. Ele alcança Cléofas e o companheiro e põe-se a caminhar ao lado deles; mas os dois discípulos, ocupados a “lamber as feridas” da desilusão, não O reconhecem: acontece-lhes a mesma coisa que a Maria Madalena quando, na manhã de Páscoa, confundiu Jesus ressuscitado com o jardineiro (cf. Jo 20,15). Jesus, com solicitude, questiona-os sobre o assunto que os inquieta tanto (cf. Lc 24,17); e eles, estranhando que o viajante não conheça “o que se passou nestes dias” em Jerusalém, contam-lhe a história do “profeta poderoso em obras e palavras” que os príncipes dos sacerdotes e os chefes entregaram para ser condenado à morte e crucificaram” (Lc 24,19-20). Para eles, infelizmente, a história de Jesus terminou aí e ficou sepultada num túmulo, em Jerusalém, onde colocaram o Seu corpo morto. Falta, na leitura que fazem dos acontecimentos, a fé no Senhor ressuscitado – ainda que conheçam a tradição do túmulo vazio e o testemunho das mulheres que foram ao túmulo na manhã de Páscoa (cf. Lc 24,22-24).
Para sossegar os dois discípulos e para lhes demonstrar que tudo se encaixava perfeitamente na lógica do plano de Deus, Jesus, “começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito” (Lc 24,27). Lucas não refere em pormenor os textos vétero-testamentários que Jesus teria citado; mas talvez esteja a pensar, concretamente, em Dt 18,18 (“suscitar-lhes-ei um profeta como tu, de entre os seus irmãos; porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu ordenar”), nos cânticos do “Servo de Javé” (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12) e em alguns salmos que enquadram o sofrimento e a glorificação do justo no contexto do projeto salvador de Deus (cf. Sl 22; 35,6; 110,1; 118,22).
Aqueles dois discípulos percebem, então, que “o messias tinha de sofrer tudo isso para entrar na glória” (Lc 24,26). Lucas, por sua vez, parece interessado em sugerir aos discípulos de todas as épocas e lugares que é na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido; e que só através da Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente pode perceber que o amor até às últimas consequências e o dom de si próprio não levam ao fracasso, mas geram vida nova e definitiva.
Os três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) chegam, finalmente, a Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus, mas oferecem-lhe hospitalidade (cf. Lc 24,28-29): é de noite e não é seguro continuar a viagem. Aquele desconhecido encanta-os e eles não querem vê-lo partir. Jesus aceita o convite, entra com eles em casa e senta-se com eles à mesa. Enquanto comem, Jesus, assumindo o papel do dono da casa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho” (Lc 24,30). As palavras usadas por Lucas referem os mesmos gestos que Jesus tinha feito na multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Lc 9,16) e naquela inolvidável ceia de despedida que Ele celebrou com os discípulos na véspera da Sua morte (cf. Lc 22,19). São também as palavras que a Igreja primitiva repetia sempre que se encontrava reunida à volta da mesa eucarística. É então que os olhos dos dois discípulos se “abrem” e eles reconhecem, no companheiro de viagem, o próprio Jesus (cf. Lc 24,31).
A última cena da nossa história põe os discípulos a retomar o caminho, a regressar a Jerusalém e a apresentar-se novamente à comunidade que tinham abandonado horas antes (cf. Lc 24,33-35). Não os inquieta a noite, os quilómetros a percorrer, nem a comida que ficou na mesa; a única coisa que lhes interessa é dar testemunho de que Jesus venceu a morte, está vivo e caminha novamente com os seus discípulos.
Não será difícil vermos, por detrás da construção lucana, uma evidente intenção catequética. Quando Lucas escreve o seu Evangelho (década de 80 do primeiro século), a comunidade cristã defrontava-se com algumas dificuldades. Tinham decorrido cerca de cinquenta anos depois da morte de Jesus, em Jerusalém. A catequese dizia que Ele estava vivo; mas no dia a dia de uma vida monótona, cansativa e cheia de dificuldades, era difícil fazer essa experiência. As testemunhas oculares de Jesus tinham já desaparecido e os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição pareciam demasiado distantes, ilógicos e irreais. “Se Jesus ressuscitou e está vivo, como posso encontrá-l’O? Onde e como posso fazer uma verdadeira experiência de encontro real com esse Jesus que a morte não conseguiu vencer? Porque é que Ele não aparece de forma gloriosa e não instaura um reino de glória e de poder, que nos faça triunfar definitivamente sobre os nossos adversários e detratores?” – perguntavam os crentes das comunidades lucanas.
É a isto que o catequista Lucas vai procurar responder. A sua mensagem dirige-se a esses crentes que caminham pela vida desanimados e sem rumo, cujos sonhos parecem desfazer-se ao encontro da realidade monótona e difícil do dia a dia… Lucas diz-lhes: “Sim, Jesus está vivo e caminha ao nosso lado nos caminhos do mundo. Às vezes, não conseguimos reconhecê-l’O, pois os nossos corações estão ocupados com as nossas preocupações pessoais, com os nossos interesses egoístas, com os nossos preconceitos enraizados, com as nossas visões estreitas… Ficamos amarrados aos nossos limites, incapazes de olhar mais longe e de compreender o projeto de Deus. Apesar de tudo isso, Jesus faz-Se nosso companheiro de viagem, caminha connosco passo a passo, alimenta a nossa caminhada com a esperança que brota da sua Palavra, faz-Se encontrar sempre que nos sentamos à mesa da comunidade para partilhar o pão eucarístico.
Na catequese lucana aparece, sobretudo, a ideia de que é na celebração comunitária da Eucaristia que os crentes fazem a experiência do encontro com Jesus vivo e ressuscitado. A narração sugere claramente o esquema litúrgico da celebração eucarística: a liturgia da Palavra (a “explicação das Escrituras”, que permite aos discípulos entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus) e o “partir do pão” (que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus, recebam d’Ele vida, O reconheçam nesses gestos que são o “memorial” da sua entrega até ao extremo por amor).
Anotemos ainda uma última sugestão que o “catequista” Lucas nos deixa: depois de fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, cada crente é, implicitamente, convidado a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na história e na caminhada dos homens.
INTERPELAÇÕES
• Aquele quadro de desencanto e de desânimo em que se movem os dois discípulos que caminham de Jerusalém para Emaús não nos é completamente estranho. Experimentamo-lo também nós, mais vírgula menos vírgula, diante das crises que a vida traz, do carácter transitório das nossas conquistas, da debilidade que nos habita, da falência dos nossos projetos mais queridos, dos sonhos que se evaporam e nos deixam de mãos vazias, das nossas certezas derrubadas, das nossas seguranças com pés de barro… Abalados e magoados sentimos a tentação de baixar os braços, de abandonar a luta, de nos demitirmos das nossas responsabilidades, de nos fecharmos em nós próprios, de “aguentarmos” a vida sem arriscar, de vivermos para o trivial que não encanta mas também não fere excessivamente. Talvez pensemos até, muitas vezes, que Deus nos virou as costas e nos deixou “sem rede”, abandonados à nossa sorte; e damos por nós a arrastar-nos pela vida sem rumo nem horizontes. Ora, hoje um catequista chamado Lucas vem dizer-nos: “Garanto-vos que não estais sozinhos; Jesus, vivo e ressuscitado, está e estará sempre convosco. Talvez nem sempre reconheçais a sua presença; mas Ele apanha-vos no caminho, conversa convosco, esclarece as vossas dúvidas, pacifica o vosso coração, dirige os vossos passos em direção a um horizonte de esperança. Já fizemos esta experiência? Dispomo-nos, em cada passo do nosso caminho, a detetar a presença consoladora e vivificante de Jesus ao nosso lado?
• Como é que Cléofas e o outro discípulo conseguem encontrar sentido no sem sentido da cruz e da morte? Como é que os homens e as mulheres que caminham afogados em angústias e desencantos podem perceber o projeto salvador que Deus tem para lhes propor? Como é que podemos escutar Jesus e receber d’Ele esse suplemento de esperança que nos permite continuar? Lucas responde: é através da Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida. A Palavra de Deus ajuda-nos a colocar a vida em perspetiva e a definir o sentido correto da nossa existência; a Palavra de Deus incendeia-nos o coração (“não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”), faz-nos vencer o desânimo e o pessimismo, leva-nos ao compromisso com a transformação do mundo e da história; a Palavra de Deus mostra-nos perspetivas novas e renova a nossa esperança; a Palavra de Deus diz-nos como chegar à vida verdadeira e eterna… Que lugar e que papel desempenha a Palavra de Deus nas nossas vidas? No nosso caminho de fé encontramos espaço para escutar a Palavra de Deus, para partilhá-la, para orar a partir dela, para contemplá-la?
• Para os dois discípulos que vão em direção a Emaús, o viajante que se lhes junta no caminho é um perfeito desconhecido. No entanto, quando se sentam à mesa com ele e o veem tomar o pão, recitar a bênção, parti-lo e partilhá-lo, percebem imediatamente que esse viajante desconhecido é Jesus. Como podemos nós, homens e mulheres do séc. XXI, fazer uma experiência de encontro com Jesus vivo? O evangelista Lucas não tem dúvidas: é quando nos sentamos com Ele à mesa da eucaristia. Todos os domingos, reunidos em comunidade à volta da mesa eucarística, damo-nos conta que o Ressuscitado continua vivo, a caminhar ao nosso lado, a alimentar-nos com a sua Palavra e o seu Pão; sempre que nos juntamos com os irmãos à volta da mesa de Deus, celebrando na alegria e na festa o amor, a partilha e o serviço, encontramos o Ressuscitado a encher a nossa vida de sentido, de plenitude, de vida autêntica. Que lugar e que papel tem, na nossa experiência de fé, a participação na eucaristia?
• Depois de se encontrarem com Jesus, vivo e ressuscitado, à mesa eucarística, os dois discípulos deixaram a comida na mesa, esqueceram o cansaço, enfrentaram os perigos da noite e regressaram imediatamente a Jerusalém, decididos a partilhar a sua descoberta com os outros discípulos. Não ficaram em casa, felizes e repousados, a gozar beatificamente uma experiência inolvidável; mas sentiram que aquilo que tinham experimentado devia ser partilhado com urgência. Os discípulos de Emaús perceberam que quando alguém encontra Jesus tem de tornar-se sua testemunha. Nós, que todos os domingos nos sentamos à mesa eucarística, que descobrimos a presença de Jesus vivo no meio da comunidade reunida, que nos alimentamos da sua Palavra e do seu Pão, damos testemunho d’Ele? Sentimos a urgência de o levar ao encontro do mundo? Os nossos gestos são um anúncio vivo desse Jesus que, ainda hoje, quer oferecer a todos os homens e mulheres a vida nova e definitiva?
• Os relatos pascais referem amiudamente a alegria irreprimível que enche o coração dos discípulos que se encontram com Jesus ressuscitado. A narração da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, sem falar concretamente de alegria, alude ao entusiasmo que aqueles dois discípulos sentiram pela presença e pela companhia de Jesus ressuscitado. É o entusiasmo que resulta de uma Presença que enche de paz, que dissipa o temor, que multiplica a coragem, que oferece esperança, que aumenta o amor, que dá sentido ao caminho… Conseguimos ver, hoje, essa alegria e esse entusiasmo no rosto dos discípulos de Jesus? Conseguimos perceber essa alegria na vida, na partilha, no testemunho, na celebração da fé nas nossas comunidades cristãs?
• Os dois discípulos de Emaús, dececionados com um projeto que parecia ter falido, abandonaram a comunidade e fugiram para Emaús. Aquela comunidade triste e amedrontada, fechada dentro de uma casa de Jerusalém, afundada na inércia e no pessimismo, já não lhes dizia nada. Hoje há, também, muitos irmãos e irmãs que fazem uma experiência semelhante. Veem a Igreja nascida de Jesus como uma comunidade imóvel e estacionada no passado, com um discurso pomposo mas pouco atraente, mais preocupada com a liturgia do que com o cuidado dos pobres, mais interessada nas leis e nas normas do que no Evangelho da misericórdia; e, sentindo-se dececionados, rompem com a comunidade. Afastar-se da comunidade, viver à margem, desistir do projeto cristão, será a solução? A “lição de Emaús” diz-nos que, apesar de tudo, é na comunidade cristã que reside e se revela Jesus ressuscitado. Por isso, os dois discípulos transviados voltaram a toda a pressa ao encontro da comunidade que tinham abandonado. A solução para o nosso desencanto passará por cortar os laços com a comunidade, ou por revitalizar a vinculação comunitária com Jesus e com o Evangelho? Se Jesus ainda nos apaixona, poderemos abandonar a comunidade e perder-nos em caminhos que não levam a nenhum lado?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 3.º DOMINGO DA PÁSCOA
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 3.º Domingo da Páscoa, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…
2. AS DUAS MESAS DA MISSA.
A missa está estruturada sobre o mesmo plano que o Evangelho dos discípulos de Emaús. Tem duas partes, que constituem as duas mesas: a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística. Neste domingo, para significar a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia, o ambão da Palavra e o altar do pão e do vinho poderiam ter uma decoração floral de igual importância.
3. UM VERDADEIRO ALELUIA PASCAL.
Neste tempo de Páscoa, procure-se que o Aleluia seja um verdadeiro Aleluia de Páscoa, com carácter festivo e de aclamação. Às vezes, por demasiado repetida, a melodia utilizada não tem o impacto festivo que deveria ter…
4. BILHETE DE EVANGELHO.
Denunciamos a violência, mas será que lhe renunciamos? Sofremos quando vemos na televisão ou na Internet imagens de situações violentas de várias partes do mundo. Esperamos acordos que façam cessar os atentados, as exclusões, a morte das vítimas inocentes, os conflitos de qualquer espécie. Mas a violência está primeiro no coração do ser humano antes de se manifestar nas suas palavras e nos seus atos. Somos violentos, quando recusamos o outro diferente, quando não lhe permitimos que se exprima, quando procuramos fazê-lo calar ou ridicularizar. Somos violentos quando recusamos dar o passo para uma reconciliação, quando recusamos perdoar. Os violentos não são apenas que trazem armas, mas também aqueles que endurecem o seu coração.
5. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Nosso Pai, Nós Te damos graças pelo teu Filho Jesus. N’Ele realizaste os anúncios dos profetas, Tu O ressuscitaste de entre os mortos e O elevaste na tua glória. Bendito sejas!
Pai, como o teu Filho Jesus, olhamos para Ti sem cessar e Te pedimos: mostra-nos o caminho da vida, derrama sobre nós o teu Espírito.
No final da segunda leitura:
Nós Te bendizemos por Jesus Cristo, o Cordeiro sem pecado e sem mancha, cujo precioso sangue nos libertou. Por Cristo ressuscitado, acreditamos e colocamos em Ti a nossa fé e a nossa esperança.
Nós Te invocamos como nosso Pai, Tu que não fazes distinção entre os homens e que dás sentido às nossas existências: liberta-nos do erro.
No final do Evangelho:
Bendito sejas, Senhor Jesus, Tu que caminhas nos nossos caminhos, ao nosso lado, para nos fazer compreender as Escrituras. Nós Te damos graças pelo Pão partido e pela revelação da tua ressurreição.
Nós Te pedimos: torna-nos atentos à tua presença, cura os nossos corações, tão lentos a crer; fica connosco, quando se aproxima a noite, e ilumina o nosso caminho.
6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher uma das quatro fórmulas para a Oração Eucarística V para as Circunstâncias Especiais, também pela sua referência explícita aos discípulos de Emaús.
7. PALAVRA PARA O CAMINHO.
Emaús… é a nossa história de cada dia: os nossos olhos fechados que não reconhecem o Ressuscitado… os nossos corações que duvidam, fechados na tristeza… os nossos velhos sonhos vividos com deceção… o nosso caminho, talvez, afastando-se do Ressuscitado… N’Ele, durante este tempo, ajustemos o seu passo ao nosso para caminhar junto de nós no caminho da vida. Há urgência em abrir os nossos olhos para reconhecer a sua Presença e a sua ação no coração do mundo e para levar a Boa Notícia: Deus ressuscitou Jesus! Eis a nossa fé!
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org