Não desperdices

«Nota-se um desperdício de água não só nos países desenvolvidos, mas também naqueles em vias de desenvolvimento que possuem grandes reservas» (LS 30). Ao mesmo tempo, «a maior parte do papel produzido é desperdiçado sem ser reciclado» (LS 22). Sabemos também que «se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos» (LS 50). Estes sinais alarmantes, recolhidos pelo Papa Francisco na Laudato si’, seriam suficientes para nos convencer de como a nossa sociedade se transformou numa “sociedade do desperdício”, onde muita coisa se deita fora de forma irresponsável.

Dada a capacidade limitada do nosso planeta, uma “sociedade do desperdício” está condenada a sucumbir, pois é impossível «sustentar o nível actual de consumo dos países mais desenvolvidos e dos sectores mais ricos da sociedade, onde o hábito de desperdiçar e deitar fora atinge níveis inauditos» (LS 27). A nossa sociedade tornou-se numa máquina de produzir lixo num ritmo frenético. Ora, uma sociedade especializada em produzir lixo transforma a natureza numa imensa lixeira.

É importante tornarmo-nos conscientes que «o desperdício da criação começa onde já não reconhecemos qualquer instância acima de nós, mas vemo-nos unicamente a nós mesmos» (LS 6). Não admira, portanto, que tenhamos deixado de «notar que alguns se arrastam numa miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o planeta» (LS 90). As catástrofes, que se tornam cada vez mais frequentes, devem-se então a que «o ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta» (LS 161). Não faz parte da intenção original do Criador que este planeta seja um imenso depósito de lixo e porcaria.

O caminho a percorrer exige que aprendamos a optimizar a utilização dos vários recursos naturais. O coração deveria doer-nos de cada vez que deitamos fora alguma coisa de maneira irreflectida e irresponsável. Esta é uma aprendizagem que deve começar desde logo dentro de casa e em família, para depois se estender à escola e aos restantes âmbitos educativos da sociedade. Só assim será possível gerar uma cultura de não desperdício, que não olhe para este como algo normal e inevitável.

Uma cultura do não desperdício é aquela que dá mais destaque à capacidade de partilha, pois está convicta de que «voltar – com base em motivações profundas – a utilizar algo em vez de o desperdiçar rapidamente pode ser um acto de amor que exprime a nossa dignidade» (LS 211). Faz-nos bem escutar estas palavras, particularmente neste momento em que o preço de tantos bens de primeira necessidade está a subir de forma imparável e preocupante.

 

José Domingos Ferreira, scj