Contemp(l)o…

O vínculo existente entre oração e cuidado da criação alcança uma forte densidade naquilo a que se costuma chamar contemplação. Uma rápida ida ao dicionário serve para definir o acto de contemplar como “olhar muito tempo e com atenção”. Neste sentido, há uma oração que é contemplativa como também o acto de olhar demoradamente a natureza se pode descrever como uma acção contemplativa.

Contemplar, portanto, aponta para uma atitude mais pausada, feita de respeito, admiração e serenidade. Trata-se – como está fácil de ver – de um modo de viver em claro contraste com a velocidade, a agitação e a dispersão da vida actual. A pessoa “contemplativa” poderá ser menos produtiva, mas saboreará melhor a vida de cada dia, na medida em que compreende que «o mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor» (LS 12). Por maior força de razão, a pessoa “contemplativa” apresenta maior resistência ao vírus do consumismo, que é uma verdadeira pandemia, a ponto de não deixar ninguém completamente imune.

A pessoa que reza de forma perseverante e fiel dá-se conta que o seu olhar sobre as pessoas e as coisas, pouco a pouco, se vai transformando e renovando até ser capaz de ver toda a realidade com os olhos de Deus. Ninguém sai da oração da mesma forma com que entrou. Por isso, um olhar moldado pela oração é um olhar capaz de ver mais além, capaz de olhar em profundidade, precisamente porque descobre que tudo é graça e dom de Deus. Percebemos então mais claramente o que significam aquelas palavras de S. Boaventura, quando diz que «a contemplação é tanto mais elevada quanto mais o homem sente em si mesmo o efeito da graça divina ou quanto mais sabe reconhecer Deus nas outras criaturas» (LS 233).

Quando uma pessoa chega a este ponto, o mundo para ela deixa de ser natureza para ser criação, porque verdadeiramente reconhece a presença de Deus em cada criatura. Já não se trata mais de uma distinção meramente semântica ou ideológica, mas de um enriquecimento ao nível da própria compreensão da realidade. Se “na grandeza e na beleza das criaturas, se contempla, por analogia, o seu Criador” (Sab 13,5), então «a contemplação da criação permite-nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos quer transmitir através de cada coisa, porque, para o crente, contemplar a criação significa também escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e silenciosa» (LS 85).

Se a crise ecológica é concomitante de uma crise da oração (especialmente ao nível da oração pessoal), então podemos inferir o total e completo naufrágio da dimensão contemplativa, ainda que nunca como hoje os nossos olhos fossem tão solicitados por ecrãs, visores, monitores… Nunca tão solicitados, mas também nunca tão desrespeitados…

José Domingos Ferreira, scj