O pecado da guerra

A guerra na Ucrânia já dura há mais de um mês e não se conhece qualquer vislumbre do seu fim. Os refugiados contam-se aos milhões, espalhados um pouco por toda a Europa. Os mortos de um e de outro lado aumentam continuamente. Em cada dia chegam-nos imagens da destruição de cidades outrora belas e imponentes, agora reduzidas a ruínas e escombros. Não há beleza na guerra!

Recordo-me de um pensamento que ouvi na boca da minha mãe, era eu muito pequeno: «se fossem as mulheres a mandar, não haveria guerras, porque elas não aceitariam nunca que os seus filhos pudessem morrer em combate». Efectivamente, esta guerra parece ser uma coisa de homens, para quem os outros homens são simplesmente um número, um dano colateral ou o inimigo a abater.

As guerras prolongam-se, porque encontram normalmente corações endurecidos que não se comovem perante o sofrimento e a dor dos inocentes. Há corações de pedra que não amolecem perante o olhar desesperado de uma mãe que perde um filho ou de uma família que se vê sem os bens de toda uma vida. Nem sequer o olhar inocente de uma criança a fugir das bombas abranda a dureza de alguns corações. Efectivamente, a recusa do amor de Deus está na base dos males da nossa sociedade.

Há quase sete anos, o papa Francisco escreveu o seguinte: «é previsível que, perante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favorável para novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações. A guerra causa sempre danos graves ao meio ambiente e à riqueza cultural dos povos, e os riscos avolumam-se quando se pensa na energia nuclear e nas armas biológicas. Com efeito, não obstante haver acordos internacionais que proíbem a guerra química, bacteriológica e biológica, subsiste o facto de continuarem nos laboratórios as pesquisas para o desenvolvimento de novas armas ofensivas, capazes de alterar os equilíbrios naturais. Exige-se da política uma maior atenção para prevenir e resolver as causas que podem dar origem a novos conflitos» (LS 57). Nunca como hoje pudemos ler este número e senti-lo tão actual e tão pertinente. Mas é sempre muito triste descobrir que levamos anos a ser avisados do perigo, mas preferimos um prato de tremoços com uma cerveja bem fresca. Agora o medo fará o resto…

Lembra-nos ainda o Papa que «o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza» (LS 66). É preciso dizê-lo sem receio: fazer a guerra é pecar gravemente contra Deus, contra o ser humano e contra a natureza. Deus certamente está presente na guerra, mas não como um dos beligerantes. Na guerra, Deus continua a tentar salvar o ser humano. Deus tenha misericórdia dos senhores da guerra!!!

José Domingos Ferreira, scj