A cura do cego de nascença: o sinal do batismo como sacramento da luz
No itinerário quaresmal deste ano, o Quarto Domingo oferece-nos a meditação da passagem evangélica da cura do cego de nascença, contado por São João (Jo 9,1-41). Se no domingo passado se considerava o batismo como banho espiritual que, pela água, purifica o homem do pecado, concedendo-lhe o dom do Espírito Santo e a graça da filiação de divina, neste domingo procura-se evidenciar que o batismo é o sacramento da luz, isto é, da fé.
Em síntese, neste domingo da Quaresma (Laetare), a liturgia propõe a meditação deste trecho evangélico como etapa fundamental do caminho para a Páscoa, exortando os fiéis a renovar a sua própria visão de fé.
O sentido litúrgico e teológico do sinal dado por Jesus.
Tendo lido o texto, fazemos a habitual pergunta: qual o significado litúrgico e teológico desta cena evangélica? Uma vez que é difícil abarcar todo o seu sentido e alcance teológico, destacamos apenas alguns elementos.
Na ótica do Quarto Evangelho, o relato da cura do cego de nascença não é apenas a crónica de um milagre, mas trata-se dum profundo e progressivo ensino (catequese mistagógica!) que procura dar a conhecer quem é Jesus e aquilo que Ele nos oferece e propõe como projeto de vida. Este texto tem uma forte vertente sacramental. Na verdade, para o evangelista, este episódio não é um mero encontro, mas um sinal (semeion), isto é, uma ação que remete para uma realidade mais profunda: a identidade de Jesus como Luz do mundo e seu Salvador.
Assim, desde os primeiros séculos, a narrativa do cego de nascença tem sido interpretada como imagem do batismo, na qual se dá conta, de forma simples, dos ritos prévios desse sacramento, descrito com o termo grego de photismòs (iluminação). Na verdade, os movimentos e os gestos da cura seguem a embrionária estrutura ou sequência litúrgica dos ritos de iniciação, a saber: o encontro com Cristo, a unção (a lama), o envio à piscina de Siloé (o lavacro batismal) e o regresso (ao convívio/relação) como um homem novo, capaz de ver.
Mas se o sentido litúrgico deste texto é importante, não é menor o seu significado teológico. Uma das linhas força deste texto é, precisamente, a “teologia da passagem”, isto é, a passagem duma situação paralisia-cegueira para um estado de liberdade e de cura integral; passagem das trevas para a luz; passagem da incredulidade à fé, em Cristo.
Bem ao gosto do evangelista São João, esta cena remete-nos para o início do Génesis. Não apenas para a criação, mas para a nova criação. De facto, Jesus usa lama e saliva para ungir os olhos do cego, recordando – ou atualizando! – o gesto de Deus que forma o homem do pó da terra (cf. Gn 2,7). A cura é apresentada como uma nova criação que devolve ao homem a sua dignidade e plenitude originária.
Para além deste aspeto teológico, encontramos um outro que se refere ao cancelamento e à superação do pecado, como estado que debilita e incapacita o homem de caminhar saudavelmente. O pecado limita os movimentos! Aqui, Jesus surge como o Enviado do Pai, que quebra a relação tradicional entre doença e culpa, causa e efeito. À pergunta dos discípulos sobre quem pecou, Ele responde que a cegueira daquele homem servirá para manifestar as obras de Deus, a sua glória. Porque, como refere Paulo, é na fraqueza que Deus mostra o seu poder (cf. 2Cor 12,9), isto é, o seu amor que tudo vence.
Um quarto elemento teológico desprende-se do tema da fé, que aqui é compreendida de forma progressiva. À semelhança da cena do encontro de Jesus com a Samaritana, também aqui o cego percorre um caminho gradual e espiritual. Inicialmente, reconhece Jesus como o homem chamado Jesus, depois como um profeta e, finalmente, adora-o como Senhor.
Por fim, o quinto aspeto a considerar é uma espécie de paradoxo teológico, isto é, aquele que é fisicamente cego chega à visão espiritual, enquanto os fariseus, que afirmam ver, mergulham na cegueira da incredulidade. E aí permanecem!
Antes de prosseguirmos, parece-nos importante indicar que podemos estabelecer aqui, uma certa relação entre a cura do cego de nascença (Jo 9,1-41) e a cura do paralítico da piscina de Betsatá (Jo 5,1-18). As maleitas físicas são diversas, mas o efeito espiritual é o mesmo: o pecado paralisa e impede de ver. Ele atinge os movimentos e a liberdade, a capacidade de ver e de ler a realidade à luz da fé. Só aderindo a Jesus, pela fé, a cura e libertação é possível!
De notar, ainda, que estas duas narrativas de João, estão associadas a outros relatos de curas de cegos, realizadas por Jesus e que são as seguintes: Mt 9,27-31 (cura de dois cegos); 20, 29-34 (os dois cegos de Jericó); Mc 8,22-26 (cura do cego de Betsaida); 10, 46-53 (cura do cego de Jericó); e Lc 18,35-43 (cura do cego de Jericó).
O que acabamos de considerar é importante, uma vez que, em muitas pinturas de arte sacra, os artistas fazem coincidir ou conjugam, na mesma representação pictórica, quase todas estes episódios evangélicos. Neste sentido, destacamos apenas duas pinturas, onde se pode admirar a beleza e o rico simbolismo do “sinal” de Jesus.
1. O batismo: sacramento da Luz, recebido no Enviado, na casa da misericórdia.
Propomos, como primeiro quadro, a cura do paralítico na piscina de Betsatá, do pintor Carl Heinrich Bloch, do séc. XIX.
https://artvee.com/dl/christ-healing-at-the-pool-of-bethesda#00
Esta pintura é considerada uma das obras-primas deste autor, onde o artista procura exprimir, podemos dizer, o sentido profundo desta cena evangélica, cujo significado espiritual reside na capacidade de tornar tangível o encontro pessoal com a misericórdia divina e a proximidade de Cristo com a humanidade sofredora, corporizada naquele homem paralítico; tal como noutros episódios evangélicos está num cego ou num leproso.
O quadro mostra Jesus, de vestes brancas, que se aproxima, sozinho, dum homem que jazia no chão, escondido, por debaixo duma espécie de abrigo ou tenda. Este homem, vive ali, passando os dias na sombra, limitado, excluído e na solidão. Aqui, o elemento da piscina é muito importante. Nesta pintura, o artista parece fazer coincidir, na mesma representação, as duas piscinas mencionadas por João, a de Betsatá (que significa casa da misericórdia) e a de Siloé (que significa enviado). Daqui se pode concluir que, quer a cura da cegueira, quer a cura da paralisia se faz por meio de Cristo, o Enviado, na casa da misericórdia que é a sua Igreja, no sacramento que lava e absolve. Numa palavra, estes males são curados nos sacramentos do batismo e da penitência, que aqui se apresentam em estreita relação, num primeiro e segundo momento do itinerário cristão.
Tendo em conta esta conjugação narrativa, simbólica e sacramental salientamos alguns temas teológicos ou espirituais deste quadro. O primeiro diz respeito à iniciativa de Deus, em Jesus, e o encontro pessoal com Ele. Efetivamente, “a fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida” (Lumen fidei 4).
Ao contrário de outros milagres onde os doentes procuram Jesus, neste, é o próprio Jesus quem “vê” o homem e toma a iniciativa. Bloch sublinha este aspeto através do gesto de Jesus que levanta o manto que cobre o homem, olhando-o nos olhos. O seu olhar é de compaixão, profundamente humano e divino. Um olhar que não é de julgamento, mas de reconhecimento das consequências do mal, que provoca sofrimento, isolamento e incapacidade de ver mais além e com esperança: a esperança de voltar a ver, de voltar a caminhar! De facto, uma das mensagens desta pintura poderá ser a esperança contra a resignação. Com o seu gesto e atitude, Jesus exorta-nos a se deixar resignar com o próprio estado, mas a acolher a luz que Ele mesmo comunica, acreditando nele e, assim, receber e seguir uma vida nova.
Por fim, uma característica típica de Bloch é a inclusão de figuras que olham diretamente para o espetador (como o marginal junto da coluna e a criança ao fundo). Este elemento tem como objetivo provocar interação e uma reação da parte do espetador, que não pode ser um observador passivo, mas é estimulado a identificar-se com a pessoa que se encontra diante de Jesus e vai ser curada, ou a questionar-se sobre qual é a sua cegueira ou paralisia espiritual que necessita da cura de Jesus e da luz da fé. Para que o milagre aconteça, quis o Senhor estabelecer a Igreja, santa e pecadora, como lugar-celebração da misericórdia e da transmissão da fé, que é dom de Deus, luz que ilumina as sombras da vida e lhe dá sentido e orientação.
2 Jesus que cura a cegueira da humanidade. Ele concede e sustenta a fé. Esta é a verdade revelada pela Igreja.
Como segundo quadro, propomos uma pintura de Domenikos Theotokopoulos (El Greco), a cura do cego (séc. XVI).
https://artvee.com/dl/christ-healing-the-blind-3#00
Associado à pintura de Carl Heinrich Block e à sua interpretação artística dos dois episódios do Quarto Evangelho, consideramos agora a interpretação do milagre da cura dos cegos de El Greco. Esta pintura retrata dois momentos distintos, que encontramos fundamentalmente em Mt 9,27-31 (cura de dois cegos) e Mt 20,29-34 (os dois cegos de Jericó), que o artista parece juntar na mesma tela. El Greco é um artista extraordinário do fim do renascimento e, como tantos outros artistas, pintou a cura dos cegos. A esta cena, o pintor acrescenta, no primeiro plano, um casal, que parece ser uma alusão aos pais do cego de nascença (cf. Jo 9,18-21). Assim, esta pintura deve ser vista como uma interpretação pessoal e artística que El Greco faz de Jesus como médico que cura da cegueira, Aquele que veio para libertar a humanidade do poder das trevas, esse mal que ensombra a humanidade, desde as origens.
Em segundo plano, que não significa menosprezo, vemos Jesus com as suas vestes púrpura e o seu manto azul, a tocar nos olhos dum cego. Este encontra-se de joelhos diante do Senhor, enquanto o segundo (à esquerda e de costas) se encontra de pé, curado da cegueira e tendo adquirido a capacidade de ver, aponta para o céu, como que a explicar, aos demais, a natureza e a origem da sua cura e do milagre acontecido. Este é, portanto, o terceiro plano da pintura.
Como foi dito, em primeiro plano, vemos duas figuras (homem e mulher) que parece ser uma referência aos pais do cego de nascença, conforme a narrativa de Jo 9,1-41. E na sequência desta relação com o texto de João, à direita da pintura, em quarto plano, encontram-se os vizinhos e os fariseus (cf. Jo 9,8-9) que, perplexos e incrédulos, contestam o facto dum homem curar em dia de sábado (cf. Jo 9,16): falam com um personagem, visto de costas, com uma pose sofisticada, segundo os modelos escultóricos antigos/clássicos, que fala e aponta, de forma descontraída, para os cegos curados. Segundo este plano, o milagre acontecido é, portanto, um facto evidente, digno de crédito, vindo do céu, realizado na terra, como se pode ver. Na verdade, a Deus que nos ama, tudo é possível. Jesus é “imagem do Pai” (Jo 14,8-9; 2Cor 4,4), que cura e livra da cegueira: é nele que se deve acreditar e a Ele que se deve seguir. Por isso, a “fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo” (Lumen fidei, 15).
De todos estes planos e personagens destaca-se a figura refinada de Cristo e o ambiente luminoso, feliz e harmonioso, sugerido pela beleza e conjugação das cores. Esta sinfonia luminosa acontece, tendo como pano de fundo um conjunto arquitetónico de edifícios, quase etéreos, que cruza o espaço do quadro, conferindo à tela um interessante dinamismo.
Nesta pintura, para além da capacidade de tornar visível numa só narrativa pictórica os vários milagres de Jesus, esta interpretação do artista é uma manifestação da confirmação e profissão de fé em Jesus, Redentor da Humanidade, como o único que pode curar a cegueira do homem e libertá-lo do poder das trevas, que procura possuí-lo e, com frequência, tentá-lo. Neste sentido, vale a pena dar atenção ao pormenor quase impercetível duma figura misteriosa de aparência monstruosa ou diabólica, que se esconde por entre Jesus e o cego que, naquele preciso momento, está a ser curado, pela palavra e pelo gesto de Jesus, que dá e recebe a fé daquele homem. A sua presença ali, aparece como algo ou alguém que interfere e quer influenciar ou tentar o cego na hora de aceitar ou negar a ajuda de Jesus, a tentação de ficar na mesma ou, então, de mudar, deixando-se transformar.
Digna de registo é a atitude do cego diante de Jesus, que, ao receber o dom da cura, quando recebe a visão, é agraciado também com a visão espiritual, isto é, a fé. A fé recebida, por meio da mão (direita) e da unção de Jesus, que aplica o colírio da sua própria pessoa, é sustentada pela outra mão (esquerda). É o Senhor quem concede a fé e ao mesmo tempo é Ele que a mantém e aceita.
Esta interpretação artística de El Greco inscreve-se plenamente no contexto da teologia pós-Trento, que atribui à arte muitas funções, especialmente, a tarefa de instruir e catequizar os fiéis. Neste caso, El Greco mostra Jesus, fonte de luz, que surge como Aquele que cura verdadeiramente e a sua Igreja como reveladora da verdade.
A Igreja mãe da nossa fé
Entre tantos aspetos a considerar na conclusão desta nossa viagem pela arte sacra, destacamos o facto de Jesus curar os cegos e paralíticos em contexto comunitário, em espaços de relação, de convívio e de confronto. Ele cura os que estão doentes na casa da misericórdia, que é a comunidade por Ele fundada e cuja missão não é outra senão a de cuidar. Esta é a missão da Igreja, que se concretiza em estruturas e em pessoas concretas, em ministros e fiéis.
A casa da misericórdia é também o lugar onde se recebe, se celebra e proclama a fé. Ela é dom de Deus, concedido pela mão de Jesus, que nos cura da cegueira e que é defendida pela outra mão do mesmo Senhor, que sempre no-la estende. Esta fé é-nos concedida no batismo, sacramento da fé, que nos capacita para viver segundo a Luz recebida e perseverar nessa mesma Luz da Fé, tornando-nos fiéis.
Neste sentido, vale a pena recordar as palavras tão sábias do Papa Francisco, quando afirma que “a fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do Corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens. Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé” (Lumen fidei 22).
Diz-nos ele ainda que, de facto, “quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz” (Lumen fidei 37).
Concluindo uma vez mais com palavras do Papa Francisco, “a fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5,6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver, a fé torna-se luz para os seus olhos.” (Lumen fidei 22).
Que o caminho quaresmal nos ajude a acolher a luz de Deus, de modo que a nossa fé seja fortalecida e renovada, através do encontro com o Senhor, na casa da sua misericórdia.
Pe. José Nélio da Silva Gouveia, scj
Centro de Espiritualidade do Seminário Nossa Senhora de Fátima – Alfragide

