Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo – Ano A [atualizado]

Ano A
34.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO

Tema do 34.º Domingo do Tempo Comum

A “Festa de Cristo Rei” foi instituída pelo Papa Pio XI, a 11 de dezembro de 1925, através da Carta Encíclica “Quas Primas”. Ao instituir esta festa, Pio XI quis propor ao mundo – saído há pouco da tragédia da I Guerra Mundial e asfixiado pelo surgimento dos regimes totalitários – o regresso a Cristo, o reconhecimento da soberania de Cristo sobre a História e sobre a vida dos homens, o reencontro da humanidade com os valores cristãos e com a paz que só Cristo pode dar. Celebrada inicialmente no último domingo de outubro, esta festa acabou mais tarde por fixar-se no último domingo do ano litúrgico.

Na primeira leitura Deus, através do profeta Ezequiel, dirige-se aos habitantes de Judá, exilados na Babilónia. Javé apresenta-se ao Seu povo como o “Bom Pastor”, o pastor responsável e cuidadoso que vai reunir as ovelhas dispersas para as conduzir a pastagens onde há vida em abundância. Todas as ovelhas do “rebanho de Deus” serão acolhidas, cuidadas e amadas. A “parábola do Bom Pastor” que Ezequiel nos apresenta é um magnífico hino ao amor de Deus.
No Evangelho Jesus, recorrendo à linguagem figurada mas interpeladora utilizada pelos pregadores da época, revela aos discípulos como devem viver para que as suas vidas tenham sentido. Segundo Jesus, é o amor que enche de significado as nossas vidas. Quem optar por viver fechado em si próprio, surdo aos apelos dos irmãos, malbarata a sua vida; mas quem escolher amar e pôr a sua vida ao serviço dos mais necessitados, terá feito a opção acertada: espera-o a vida eterna.
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo convida-nos a contemplar a meta que nos espera no final da nossa caminhada pela terra: o encontro final com Cristo nesse reino de luz e de paz onde Ele reinará depois de ter posto “todos os inimigos debaixo dos seus pés”. Então, tudo aquilo que antes nos assustava e limitava – a doença, a tristeza, o sofrimento, a injustiça, a maldade, a morte – terá já sido derrotado por Cristo. Ao lado de Cristo, conheceremos a vida eterna, a felicidade sem fim, o reino de Deus em toda a sua plenitude.

LEITURA I – Ezequiel 34,11-12.15-17

Eis o que diz o Senhor Deus:
«Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas
e hei de encontrá-las.
Como o pastor vigia o seu rebanho,
Quando estiver no meio das ovelhas que andavam tresmalhadas,
para as tirar de todos os sítios em que se desgarraram
num dia de nevoeiro e de trevas.
Eu apascentarei as minhas ovelhas,
Eu as levarei a repousar, diz o Senhor.
Hei de procurar a que anda tresmalhada.
Tratarei a que estiver ferida,
darei vigor à que andar enfraquecida
E velarei pela gorda e vigorosa.
Hei de apascentá-las com justiça.
Quanto a vós, meu rebanho,
assim fala o Senhor Deus:
Hei de fazer justiça entre ovelhas e ovelhas,
entre carneiros e cabritos».

CONTEXTO

Em 598 a.C. Nabucodonosor, rei da Babilónia, põe cerco a Jerusalém. O rei de Judá, Joaquim, desaparece de circulação, talvez morto nos combates, ou então aprisionado e deportado para a Babilónia. Jeconias sucede a Joaquim no trono de Judá; mas, depois de três meses de resistência, rende-se às tropas de Nabucodonosor. Os notáveis de Jerusalém são aprisionados e enviados para o cativeiro, na Babilónia (597 a.C.). Entre os deportados está um jovem chamado Ezequiel, de família sacerdotal.
Nabucodonosor coloca no trono de Judá um homem da sua confiança, um tal Sedecias. Durante algum tempo, Sedecias pagou pontualmente os tributos devidos aos babilónios; mas, ao fim de algum tempo, aproveitando a conjuntura política favorável, Sedecias aliou-se com os egípcios e deixou de cumprir os compromissos que tinha com a Babilónia. Nabucodonosor enviou imediatamente um exército que cercou novamente Jerusalém. Apesar do socorro de um exército egípcio, Jerusalém teve de se render aos babilónios (586 a.C.). A cidade foi destruída; Sedecias foi levado prisioneiro para a Babilónia, juntamente com a maior parte da população de Judá. Jerusalém ficou para trás, transformada num montão de ruínas.

Ezequiel, chamado “o profeta da esperança”, exerceu a sua missão profética junto dos exilados judeus na Babilónia. A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (o ano em que Jerusalém foi conquistada pela segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor). Nesta fase, o profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados – convencidos de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua terra – e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Javé por parte dos judeus que tinham permanecido em Jerusalém. A segunda fase do ministério profético de Ezequiel decorreu a partir de 586 a.C., data em que Jerusalém foi destruída e uma nova vaga de deportados judeus chega à Babilónia. Nesta nova fase, a mensagem de Ezequiel vai ser, sobretudo, uma mensagem de salvação, destinada a consolar os exilados e a alimentar a esperança num futuro novo de felicidade e de paz.
O texto que a liturgia da Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo nos propõe como primeira leitura pertence a esta segunda fase. O profeta, falando em nome de Deus, reconhece que os líderes de Judá foram pastores indignos, que não cuidaram do Povo que lhes foi confiado por Deus. Olharam apenas para os seus próprios interesses e deixaram o “rebanho de Deus” indefeso, à mercê de “animais selvagens”. A catástrofe nacional que atingiu Judá e que levou os seus habitantes para o cativeiro na Babilónia resultou da negligência e do egoísmo desses pastores indignos (cf. Ez 34,1-10). Ora Deus, não pode ficar indiferente diante de tudo isto.
Na tradição dos povos do Antigo Médio Oriente, nomeadamente os sumérios, os babilónios, os egípcios e os cananeus, a imagem do “pastor” era frequentemente associada aos deuses e aos reis. Também a catequese de Israel usava a mesma imagem para falar de Deus (cf. Sl 23; 80; Jr 23,1-8).

MENSAGEM

Ezequiel, o profeta convocado por Deus para animar os exilados de Judá, anuncia àquela comunidade desiludida, sem esperança e sem futuro, que, doravante, será o próprio Deus a pastorear o seu Povo.
O primeiro gesto de Deus, o “Pastor bom”, será ir à procura das suas ovelhas perdidas (“Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei de encontrá-las” – Ez 34,11). É Deus que toma a iniciativa. O “Bom Pastor” não ficará, comodamente instalado, à espera que as suas ovelhas se decidam a procurá-l’O para lhe pedir perdão pelas opções erradas que tomaram; irá, Ele próprio, ao encontro delas. Quem ama a sério dispõe-se sempre a dar o primeiro passo; e o amor de Deus ama pelo seu Povo é verdadeiro e eterno.
Depois, o “Bom Pastor” vai reunir as ovelhas tresmalhadas, que andam por aqui e por ali, sem rumo e sem objetivo. Não as deixará sozinhas, indefesas diante dos perigos e das ameaças. Juntá-las-á à sua volta, reuni-las-á num rebanho, colocá-las-á sob a sua proteção. Aquele povo que, abandonado pelos seus líderes, se dispersou e perdeu o norte, sob a direção de Deus recuperará a sua identidade, voltará a ter objetivos saberá para onde caminhar (cf. Ez 34,12). O “Bom Pastor” conduzirá as ovelhas de regresso a casa, à terra boa onde há pastagens abundantes. Será um novo Êxodo, que trará o “rebanho” de Deus da terra da escravidão (a Babilónia) para a terra da liberdade. Já aconteceu outrora, quando Deus conduziu o seu Povo do Egito para a Terra Prometida; acontecerá agora outra vez. Conduzido pelo seu “Pastor”, o “rebanho de Deus” reencontrará a liberdade e a vida em abundância.
Com a chegada dos exilados à terra da liberdade, estará concluída a ação de Deus em favor do seu Povo? Não. Mesmo depois de as “ovelhas” terem reencontrado a sua terra e as suas raízes, o “Pastor” (Deus) continuará a dispensar-lhes os seus cuidados… A ação salvadora e amorosa de Deus concretizar-se-á, ainda, na solicitude com que Ele tratará as ovelhas perdidas, desgarradas, feridas, enfermas (cf. Ez 34,15-16). Aí manifestar-se-á a “justiça” de Deus que é amor, solicitude, ternura, misericórdia para com os mais pobres, marginalizados e débeis.
O versículo final refere-se à “regulação” das relações entre as ovelhas. Deus, o “Bom Pastor”, velará para que as ovelhas mais fortes não prejudiquem as mais fracas (cf. Ez 34,17). Ele não transigirá com a maldade, a injustiça, a prepotência, a arrogância. Todas as ovelhas do rebanho de Deus conhecerão a justiça e viverão em paz.
Esta parábola é um magnífico hino ao amor de Deus. Estamos diante de um dos pontos mais altos da revelação de Deus aos homens.

INTERPELAÇÕES

• Quem é Deus? Como é Ele? Como é que Ele se relaciona com a humanidade que criou? Para responder a estas questões, os teólogos de Israel, olharam para a história do seu povo e tiraram conclusões a partir de alguns acontecimentos “improváveis”… Constataram como, contra todas as lógicas humanas, um grupo de escravos maltratados no Egito conseguiu iludir as tropas do faraó e salvar-se; souberam que esse grupo de homens e mulheres caminhou através do deserto em direção à liberdade e que, ao longo do caminho, encontrou miraculosamente água e comida; descobriram que essa gente, no sopé de uma montanha, se encontrou com o Deus que os tinha tirado da escravidão e recebeu d’Ele indicações para construir um projeto de vida com sentido; apuraram que esse povo chegou a uma terra boa e nela se estabeleceu, apesar da oposição de outros povos; verificaram como, ao longo do tempo, Deus continuou a falar a esse povo, através dos profetas, para lhes indicar o caminho que conduz à vida… Os catequistas de Israel recorreram a uma imagem tomada do seu passado nómada para descrever esta maravilhosa história: “Deus é o nosso pastor; como um pastor conduz as suas ovelhas até às pastagens onde há vida, assim Deus nos tem guiado pelos caminhos da história”. E nós, como é a nossa experiência de Deus? Somos capazes de olhar para a nossa história de vida e descobrir nela as marcas da presença e do cuidado desse Deus/Pastor bom que nos ama com um amor sem igual?

• A imagem do “bom pastor” é apresentada, neste texto do livro do profeta Ezequiel, em contraste com os “maus pastores” (os líderes de Judá). Esses “maus pastores” não cuidam nem amam as suas ovelhas. Exploram-nas, maltratam-nas e não querem saber delas. Só estão preocupados com os seus próprios projetos e usam as ovelhas para os concretizar. O que os move não é o bem das ovelhas que lhes foram confiadas. Isto pode servir-nos de aviso. Ao longo do caminho da nossa vida deparar-nos-emos, certamente, com líderes, com mestres, com “chefes”, com pessoas que erigimos como nossa referência e nosso modelo. Muitos deles poderão, genuinamente, ajudar-nos a fazer opções certas, indicar-nos objetivos a atingir, orientar-nos na direção a imprimir à nossa vida; alguns far-nos-ão, simplesmente, perder tempo; outros tentarão aproveitar-se de nós e levar-nos para caminhos sem saída. Temos de ser prudentes na avaliação dos “líderes” humanos que reclamam a nossa atenção. Não devemos passar-lhes “cheques em branco” e segui-los sem critério. Temos de manter um certo sentido crítico e avaliar a cada passo, quer os comportamentos que assumem, quer as indicações que nos dão. É assim que procedemos?

• A imagem de um Deus que é como um “Pastor bom”, constitui uma interpelação e um desafio para todos aqueles que têm responsabilidades na sociedade, na Igreja, na comunidade. Exige que o serviço da autoridade seja exercido com solicitude e amor; lembra a todos aqueles que exercem o serviço da autoridade que a prioridade é cuidar dos homens e mulheres que Deus lhes confiou; requer que a autoridade seja exercida sem autoritarismo, prepotência ou arrogância; pede que nos gestos dos que exercem a autoridade se manifeste o amor e a misericórdia de Deus. É assim que procedemos e que tratamos os irmãos que Deus nos confia, incluindo os mais pobres e os mais humildes?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas,
por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

LEITURA II – 1 Coríntios 15,20-26.28

Irmãos:
Cristo ressuscitou dos mortos,
como primícias dos que morreram.
Uma vez que a morte veio por um homem,
também por um homem veio a ressurreição dos mortos;
porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram,
assim também em Cristo serão todos restituídos à vida.
Cada qual, porém, na sua ordem:
primeiro, Cristo, como primícias;
a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.
Depois será o fim,
quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai.
É necessário que Ele reine,
até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés.
E o último inimigo a ser aniquilado é a morte,
porque Deus «tudo submeteu debaixo dos seus pés».
Quando todas as coisas Lhe forem submetidas,
então também o próprio Filho Se há de submeter
àquele que Lhe submeteu todas as coisas,
para que Deus seja tudo em todos.

CONTEXTO

No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (cf. 2Co 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Não tardou, no entanto, a entrar em conflito com os líderes da comunidade judaica de Corinto e foi expulso da sinagoga.
Corinto cidade nova e muito próspera, era a capital da Província romana da Acaia. Distinguia-se como centro comercial importante. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade era de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).
Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios quando estava em Éfeso, no decurso da sua terceira viagem missionária. Tinham-lhe chegado notícias alarmantes: a comunidade de Corinto estava mergulhada em divisões, conflitos e diversos escândalos. Paulo, compenetrado do seu papel enquanto fundador da comunidade, escreveu aos coríntios exortando-os a corrigir todas essas situações. Mas o olhar inteligente de Paulo apercebeu-se de que, para além dessas questões particulares, havia um problema mais grave: a dificuldade de inserção do cristianismo numa realidade cultural muito diferente da realidade palestina.
O trabalho missionário de Paulo de Tarso, em meados do séc. I, levou o cristianismo ao encontro do mundo grego. Paulo, depois de um certo discernimento, tinha concluído que a proposta de Jesus era para todos os povos da terra e não exclusivamente para os judeus. No entanto, o contexto judaico – de onde o cristianismo era originário – e o contexto grego eram realidades culturais e religiosas bastante diferentes. Como é que a proposta cristã se aguentaria quando mergulhasse num mundo que funcionava com dinamismos que lhe eram estranhos? Iria a brilhante cultura grega absorver ou desvirtuar os valores cristãos? Como é que os cristãos de origem grega integrariam a sua fé na realidade cultural em que estavam inseridos? Esta problemática é, em última análise, o cenário de fundo da reflexão de Paulo nesta carta.
Um dos pontos onde havia uma notória dificuldade em conciliar os dados da fé cristã com os valores do mundo grego era na questão da ressurreição. Enquanto que a ressurreição dos mortos era relativamente bem aceite no judaísmo (habituado a ver o homem na sua unidade), constituía um problema muito sério para a mentalidade grega. A cultura grega estava fortemente influenciada por filosofias dualistas, que viam no corpo uma realidade negativa e na alma uma realidade nobre e ideal. Aceitar que a alma viveria sempre não era difícil para a mentalidade grega… O problema era aceitar a ressurreição do homem total: sendo o homem (de acordo com a mentalidade grega) constituído por alma e corpo, como podemos falar da ressurreição do homem?

MENSAGEM

Frente às objeções e dúvidas dos coríntios, Paulo lembra-lhes que a ressurreição de Cristo está bem no centro da fé que eles acolheram (cf. 1Cor 15,1-11). Depois, tira desse facto as conclusões que se impõem: todos aqueles que se identificam com Cristo e que participam da vida de Cristo ressuscitarão com Cristo e triunfarão com Cristo (cf. 1Cor 15,12-34).
O nosso texto começa precisamente com a afirmação de que “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram” (1Cor 15,20). Para o rabi Paulo de Tarso, as “primícias” evocavam os primeiros frutos da terra oferecidos a Deus na primavera pelo israelita piedoso (cf. Dt 26). A oferta das “primícias”, além de significar que Deus ocupava o primeiro lugar na vida do crente, também simbolizava a consagração a Deus da totalidade dos produtos da terra que seriam colhidos mais tarde. Paulo, com esta expressão, sugere que a ressurreição de Cristo não foi um caso único e excecional, mas o primeiro caso de uma longa “colheita” de ressurreições. “Primeiro” deve ser entendido aqui, não apenas em sentido cronológico, mas sobretudo no sentido do princípio ativo da ressurreição de todos os outros homens e mulheres.
A “morte” – o pecado que priva de vida – entrou no mundo por um homem (Adão) e atingiu a humanidade inteira. A “vida” veio por Cristo e atingiu também toda a humanidade. Derrotando o pecado e a morte, Cristo devolveu a vida a todos os homens. Cristo tornou-se, portanto, princípio de uma nova humanidade, de uma humanidade destinada à vida. Enquanto “primeiro” dessa nova humanidade, Cristo arrasta atrás de si toda a sua “descendência”, isto é, todos aqueles que se identificam com Ele, que acolhem a sua proposta de vida e que O seguem. Com Cristo, todos eles irão ao encontro da vida plena e eterna (cf. 1Cor 15,21-23).
Depois da ressurreição/vitória de Cristo, vem a sua exaltação ou entronização com plenos poderes. Cristo, o vencedor da morte, rodeado dos seus “eleitos”, destruirá todos os inimigos de Deus e da vida: as forças do mal, o egoísmo, a injustiça, a miséria, o sofrimento, o medo, o pecado e até a própria morte. Essas realidades, definitivamente derrotadas por Cristo, serão banidas desse “reino” de luz, de paz, de alegria, de felicidade e de vida plena a que Cristo presidirá (cf. 1Cor 15,24-26).
O último ato de Cristo, o vencedor do pecado e da morte, será subordinar-se a Deus, submeter-se àquele que lhe tinha submetido todas as coisas. Então, Deus será “tudo em todos” e a humanidade conhecerá a plenitude do reino de Deus, a felicidade sem fim (1Cor 15,28). Deus será, definitivamente, o Senhor de todas as coisas

INTERPELAÇÕES

• Na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, o apóstolo Paulo convida-nos a contemplar a meta que nos espera no final da nossa caminhada pela terra: o encontro final com Cristo nesse reino de luz e de paz onde Ele reinará definitivamente depois de ter posto “todos os inimigos debaixo dos seus pés”. Então, tudo aquilo que antes nos assustava e limitava – a doença, a tristeza, o sofrimento, a injustiça, a prepotência, a maldade, a morte – terá já sido derrotado por Cristo. Ao lado de Cristo, conheceremos a vida eterna, a felicidade sem fim, o reino de Deus em toda a sua plenitude… Enquanto caminhamos pela terra, temos sempre diante de nós esse horizonte futuro que nos espera, ou deixamo-nos absorver e distrair pelas coisas rasteiras, banais e fúteis que nos aparecem no caminho? Caminhamos serenos, confiantes e cheios de esperança ao encontro da vida que há de vir?

• O apóstolo Paulo avisa aos cristãos de Corinto que, para chegar a esse “reino de Deus” que nos espera, temos de nos identificar com Cristo. Identificar-se com Cristo é viver – como Ele – na escuta atenta de Deus e na obediência incondicional ao projeto do Pai; identificar-se com Cristo é amar os homens – como Ele – e dar a vida para que todos tenham vida; identificar-se com Cristo é tornar-se – como Ele – servidor do reino de Deus e procurar lutar para que esse reino se concretize no mundo e no coração dos homens; identificar-se com Cristo é ficar do lado dos pobres, dos desprezados, dos pequenos, dos sem voz nem vez, dos que a sociedade despreza e as Igrejas condenam mas que são filhos e filhas muito queridos de Deus; identificar-se com Cristo é segui-l’O sem condições, ouvir cada palavra que Ele diz, ver e reproduzir os gestos que Ele faz, viver ao seu estilo… Aqueles que se identificam com Cristo chegarão com Ele à ressurreição, com Ele vencerão a morte; alcançarão a estatura do Homem Novo e ficarão para sempre com Ele nesse reino eterno que Deus preparou para os seus filhos. Identificamo-nos com Cristo? Cristo é a nossa referência, a nossa inspiração, o nosso modelo de vida?

• Quando temos consciência de que o reino de Deus – o reino da vida definitiva – é a meta final da nossa existência, libertamo-nos definitivamente do medo que nos paralisa e que nos impede de assumir um papel de protagonismo na construção do mundo novo. Sabemos que nenhum dos poderes do mundo poderá “mastigar-nos” e destruir-nos. Sendo assim, podemos enfrentar com coragem e determinação a injustiça, a prepotência, a oposição dos grandes do mundo; podemos denunciar corajosamente os mil e um rostos da mentira, os jogos sujos, os mecanismos que geram sofrimento e morte; podemos enfrentar tudo aquilo que faz sofrer os nossos irmãos e desfeia esse “mundo bom” que Deus ofereceu a todos os seus filhos. Viver de olhos postos nesse reino de Deus que nos espera no final do nosso caminho terreno é encontrar razões para viver de forma mais comprometida com Deus e com o bem dos homens. Como “profetas de Deus”, somos “voz de Deus” no mundo? Cumprimos a nossa missão sem medo, certos de que Deus nunca deixará que a morte e a maldade tenham a última palavra na nossa vida?

ALELUIA – Marcos 11,9.10

Aleluia. Aleluia.

Bendito O que vem em nome do Senhor!
Bendito o reino do nosso pai David!

EVANGELHO – Mateus 25,31-46

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quando o Filho do homem vier na sua glória
com todos os seus Anjos,
sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença
e Ele separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
‘Vinde, benditos de meu Pai;
recebei como herança o reino
que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer;
tive sede e destes-me de beber;
era peregrino e Me recolhestes;
não tinha roupa e Me vestistes;
estive doente e viestes visitar-Me;
estava na prisão e fostes ver-Me’.
Então os justos Lhe dirão:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome
e Te demos de comer,
ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos,
ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’
E o Rei lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
a Mim o fizestes’.
Dirá então aos que estiverem à sua esquerda:
‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno,
preparado para o demónio e os seus anjos.
Porque tive fome e não Me destes de comer;
tive sede e não Me destes de beber;
era peregrino e não Me recolhestes;
estava sem roupa e não Me vestistes;
estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’.
Então também eles Lhe hão de perguntar:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede,
peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão,
e não Te prestámos assistência?’
E Ele lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
também a Mim o deixastes de fazer’.
Estes irão para o suplício eterno
e os justos para a vida eterna».

CONTEXTO

Jesus e os discípulos estão sentados no Monte das Oliveiras, num final de tarde. Enquanto contemplam a cidade de Jerusalém, conversam longamente sobre o futuro. Jesus sabe que irá ser preso daí a poucas horas, julgado pelas autoridades judaicas, condenado à morte e executado na cruz. Os discípulos vão ficar sozinhos no mundo. Perseguidos e incompreendidos, eles experimentarão o ódio do mundo e sofrerão numerosas provações. Conseguirão, ao longo do caminho histórico que vão percorrer, permanecer fiéis ao projeto do reino de Deus? Manter-se-ão como testemunhas credíveis e comprometidas do Evangelho? Jesus pede-lhes que, aconteça o que acontecer, vivam atentos e vigilantes, sem se deixarem adormecer e sem se desviarem do caminho que lhes foi indicado. O discurso proferido por Jesus, nesta circunstância, é designado como “discurso escatológico” (cf. Mt 24,3-25,46).
Em Mateus, o “discurso escatológico” inclui três parábolas que mostram aos discípulos como devem viver enquanto esperam a segunda vinda do Senhor: a “parábola do mordomo fiel e do mordomo infiel” (cf. Mt 24,45-51), a “parábola das jovens previdentes e das jovens descuidadas” (cf. Mt 25,1-13) e a “parábola dos talentos” (cf. Mt 25,14-30). Depois dessas parábolas, Jesus apresenta, num último quadro, a situação em que ficarão uns e outros – aqueles que se mantiveram fiéis e vigilantes e aqueles que, com a passagem do tempo e a monotonia da viagem, cederam à preguiça, à instalação, ao facilitismo. A narrativa apresenta-se numa linguagem veemente, dramática e carregada de cores fortes, a mesma linguagem que os rabis da época costumavam usar quando queriam “sacudir” os seus ouvintes.
O evangelista Mateus oferece esta reflexão a uma comunidade cristã (provavelmente, a comunidade cristã de Antioquia da Síria) que precisa de “acordar” e de revitalizar a sua fé. Estamos na década de oitenta do séc. I; o entusiasmo inicial pela vinda iminente de Jesus para instaurar o definitivo reino de Deus evaporou-se com o passar do tempo. Os cristãos que constituem a comunidade de Mateus estão desinteressados, instalados, acomodados; esqueceram o essencial e vivem a fé de forma rotineira, morna, pouco exigente e pouco comprometida… Há até alguns crentes que, pressentindo a perseguição, decidem renunciar a Jesus e abandonar a comunidade cristã. Preocupado com a situação, Mateus procura reacender o entusiasmo e o compromisso: o Senhor virá e a todos pedirá contas do que fizeram enquanto esperavam a sua chegada.

MENSAGEM

No centro do dramático quadro do “julgamento final” está o “Filho do Homem” sentado no seu trono glorioso: Ele é o Rei do Universo e da História. À volta de Jesus estão reunidas “todas as nações”. Aquilo que vai ser narrado não diz apenas respeito aos cristãos; trata-se de algo que afeta toda a humanidade: a soberania de Jesus estende-se a todos os povos da terra.
A ação de Jesus, o Rei do Universo, começa com a separação das pessoas umas das outras “como o pastor separa as ovelhas dos cabritos” (Mt 25,31-33). A imagem era bem conhecida na Palestina daquela época: quando chegava a noite, os pastores separavam as ovelhas dos cabritos; as ovelhas, mais delicadas, ficavam no curral, protegidas das intempéries; os cabritos, mais resistentes, podiam passar a noite ao relento. Aqui, as “ovelhas” ficam à direita e os cabritos à esquerda do pastor.
Depois, a narrativa prossegue com dois diálogos: um, entre “o Rei” (o pastor) e “as ovelhas”, que estão à sua direita (cf. Mt 25,34-40); o outro, entre “o Rei” e os “cabritos”, que estão à sua esquerda (cf. Mt 25,41-46). No primeiro diálogo, o “Rei” acolhe as “ovelhas” (“vinde, benditos de meu Pai”) e convida-as a tomar posse da herança do “reino” que lhes estava “preparado desde a criação do mundo” (cf. Mt 25,34); no segundo diálogo, o “rei” afasta os “cabritos” (“afastai-vos de Mim, malditos”) e envia-os “para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos” (Mt 25,41). Porquê? O que é que determina sortes tão distintas para as “ovelhas” e para os “cabritos”? Qual é o critério que faz com que uns sejam acolhidos e outros rejeitados?
O elemento decisivo parece ser a forma como cada um destes grupos tratou os “irmãos” mais pequenos de Jesus (cf. Mt 25,40.45). Quem são eles? São todos aqueles que a vida feriu, aqueles que a máquina da injustiça triturou e deixou caídos na berma da estrada da vida, aqueles cuja voz nunca foi escutada pelos grandes do mundo: os que têm fome, os que têm sede, os peregrinos sem abrigo, os que não têm que vestir, os que estão doentes, os que estão na prisão (cf. Mt 25,25-26.42-43). A lista aqui exposta não difere substancialmente de outras listas de “sofredores” que circulavam pelo Antigo Médio Oriente e que eram bem conhecidas dos profetas e dos catequistas de Israel (cf. Is 58,6-7; Jb 22,6-7; 31,17.19.21). No entanto, há aqui algo que é radicalmente novo: o facto de Jesus se identificar com essas pessoas marginalizadas, abandonadas e esquecidas: “Em verdade vos digo: quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’” (Mt 25,40); “‘em verdade vos digo: quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’” (Mt 25,45). Manifestar amor, compaixão e solidariedade para com o pobre é cuidar do próprio Jesus; mostrar egoísmo e indiferença em relação ao pobre é ignorar o próprio Jesus. Os que vivem indiferentes à sorte dos irmãos que sofrem não fazem parte da família de Jesus, não podem integrar a comunidade do reino de Deus.
Os apelos feitos nas parábolas precedentes (cf. Mt 24,45-51; 25,1-13; 25,14-30) ganham, à luz desta cena final, um novo enquadramento. “Viver vigilante”, “estar preparado”, “não se deixar adormecer” é, fundamentalmente, viver o amor, a compaixão, a misericórdia e a solidariedade para com os pobres, os pequenos, os desprotegidos, os marginalizados. Um dia Deus irá pedir-nos contas da forma como amamos e como acolhemos aqueles homens e mulheres que Deus colocou no nosso caminho.
Em última análise, o amor aos irmãos é o critério que decide o êxito ou o fracasso da nossa vida. A nossa vida terá valido a pena se foi vivida em chave de amor; a nossa vida não terá qualquer sentido se optarmos por viver no egoísmo e na indiferença, passando ao lado do amor e ignorando as dificuldades e necessidades daqueles que se cruzam connosco nos caminhos da vida.

Percebemos, ao olhar deste ângulo a narrativa de Mateus, que a preocupação fundamental do evangelista não terá passado por oferecer-nos uma descrição exata do que vai acontecer no final dos tempos, quando comparecermos diante de Jesus, o Senhor do Universo e da História. A parábola deve antes ser considerada uma catequese, dirigida aos discípulos, sobre a maneira como devem viver no tempo histórico que vai da Páscoa até à segunda vinda de Jesus. A vida dos discípulos de Jesus tem de estar centrada no amor. Deus não aprova uma vida conduzida por critérios de egoísmo e de fechamento, sem espaço para os nossos irmãos, particularmente para os mais pobres e débeis. Uma vida vivida sem amor, é uma vida fria, insípida, desconsolada, desprovida de sentido e de finalidade.
Os que não amam, os que não têm compaixão (os “cabritos”) estarão irremediavelmente condenados ao inferno? O objetivo da parábola nunca foi responder a essa questão. A imagem do “fogo eterno” (Mt 25,41), utilizada por Jesus, é simplesmente uma maneira de descrever uma vida arruinada, perdida e condenada ao fracasso. Quem recusa o amor coloca-se num beco sem saída. Não pode estar com Deus, pois Deus é amor (cf. 1Jo 4,8). No entanto Jesus disse, em muitos outros momentos, que Deus é um pai de bondade infinita, que ama todos os seus filhos, mesmo quando eles optam por caminhos errados. Talvez Deus, o Pai bondoso e compassivo, nunca desista de nós e saiba como nos levar finalmente a abraçar o amor… Com o seu amor redentor Deus é bem capaz, no último instante, de nos “dar a volta”, de transformar os “cabritos” em “ovelhas”, de nos levar a abraçar o amor.

INTERPELAÇÕES

• O que devemos fazer e como devemos viver para que a nossa existência não seja um fracasso? O que é que distingue um “ganhador” de um “perdedor”? O que é que significa “triunfar na vida”? Há mil e uma maneiras de responder a estas questões. Mas essas respostas dependem, em boa parte, dos valores sobre os quais decidimos assentar a nossa vida. Há quem, numa visão simplesmente materialista, ligue o sucesso da existência à acumulação de riqueza, ao estatuto social e à posse de bens materiais. Nessa perspetiva, o “ganhador” é aquele que exibe sinais externos de poder e consumo, enquanto o “perdedor” é associado à falta de recursos ou de reconhecimento público. Jesus, no entanto, tinha uma perspetiva radicalmente diferente do que é “ganhar a vida” e “perder a vida”. Para Jesus, o critério fundamental para dar sentido pleno à vida é o amor ao irmão, sobretudo ao mais pobre, ao mais desprotegido, ao mais abandonado, ao mais necessitado. Quem ama e se interessa pelos irmãos que caminham ao seu lado, está a construir uma vida repleta de sentido, uma vida plenamente realizada; quem fica comodamente fechado no seu pequeno mundo egoísta e vazio, passando ao lado das dores e das necessidades dos seus irmãos, vive uma vida desconsolada, estéril e fracassada. Como nos situamos em relação a tudo isto? Como nos propomos viver a nossa vida?

• O amor ao irmão é, de acordo com Jesus, uma condição essencial para fazer parte da comunidade do reino de Deus. Como é que nós, cidadãos do reino de Deus, vivemos o mandamento do amor que Jesus nos deixou (“é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei” – Jo 15,12)? As dores e inquietações dos nossos irmãos e irmãs atingem-nos, inquietam-nos, preocupam-nos? Os que não têm trabalho, nem pão, nem casa, podem contar com a nossa solidariedade, com a nossa partilha, com o nosso interesse em proporcionar-lhes condições dignas de vida? Os imigrantes, perdidos numa realidade cultural e social estranha, vítimas de injustiças e violências, explorados e condenados a trabalhos duros e escassamente remunerados, podem contar com a nossa ajuda fraterna? Os pequenos, os sem voz, as vítimas das maldades e das arbitrariedades dos poderosos, os que são abandonados nas bermas das estradas que a humanidade percorre podem contar connosco para serem escutados e defendidos? Os que estão sozinhos, os que passam dias inteiros sem escutar uma palavra de conforto ou sem experimentar um gesto de bondade poderão esperar de nós o afeto de que precisam para voltar a sorrir? Os que estão amarrados a uma cama de hospital, os que estão condenados a passar os seus dias atrás das grades de uma cela de prisão poderão recuperar, a partir de um qualquer gesto nosso, a dignidade e a vontade de viver?

• Jesus veio lançar à terra e depositar nos corações dos homens a semente do “reino de Deus”. Essa semente produzirá um mundo totalmente novo, gloriosamente transformado, definitivamente alicerçado nos valores de Deus. O “reino de Deus”, na sua expressão definitiva, será uma realidade fascinante, que ultrapassa seguramente tudo aquilo que experimentamos aqui na terra. Conheceremos essa realidade, na sua plena realização, no mundo que há de vir. E até lá? Teremos de conformar-nos com a realidade cinzenta e efémera das nossas ilusões, dos nossos desejos rasteiros, da nossa debilidade? Teremos de viver atolados na injustiça, na violência, na maldade, na deceção, no medo? Teremos de submeter-nos aos projetos imperialistas e egoístas dos grandes da terra? Teremos de resignar-nos ao sofrimento, à miséria, à morte, a tudo aquilo que desfeia o mundo e degrada a dignidade dos filhos e filhas de Deus? Não. Jesus pediu aos seus discípulos que fossem, na terra, arautos e testemunhas do “reino de Deus”. Nós, discípulos de Jesus, estamos comprometidos com a construção do “reino de Deus”, aqui e agora. As nossas palavras e os nossos gestos devem ser anúncio, ao vivo e a cores, desse “reino de Deus” que iremos encontrar, na sua plenitude, na vida futura. Somos, de facto, testemunhas do “reino de Deus”? Anunciamos o “reino de Deus” com o nosso amor, com a nossa bondade, com a nossa compaixão pelos mais abandonados?

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 34.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 34.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
Porque se trata da “Parusia”, da vinda de Cristo na glória, no fim dos tempos, procurar-se-á visualizar, se possível com um poster, um símbolo que signifique a glória de Cristo que vem sobre o mundo. Além disso, procure-se, ao longo da celebração, pôr em realce as diversas aclamações a Cristo, particularmente festejado hoje.

3. PALAVRA DE VIDA.
A sua coroa será feita de espinhos… O seu trono será uma cruz… O seu poder diferente do poder do mundo… O seu mandamento será o do Amor… O seu exército será composto por homens desarmados… A sua Lei são as bem-aventuranças… O seu Reino será um mundo de paz… Decididamente, este rei não é como os outros, porque o seu Reino não é deste mundo. Contudo, nós somos os seus sujeitos convidados a segui-l’O, e mesmo a fazer com que se realize este Reino. Fazemo-lo sempre que somos artífices da paz e nos amamos como Ele nos ama. Nada mais… mas nada menos!

4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
Valorizar as aclamações…
Pôr em realce, hoje, as aclamações habituais. Um belo ícone de Cristo em majestade pode ser colocado em destaque, no princípio da celebração, durante o cântico de entrada. Depois das palavras de introdução, canta-se o Glória a Deus, cuja maior parte é um hino a Cristo. O Aleluia será a ocasião de uma aclamação solene, mais desenvolvida hoje, enquanto o Evangeliário é apresentado à assembleia. No final da celebração, alguém pega no ícone e apresenta-o à assembleia, que canta um cântico de glória a Cristo. O cântico que serve de anamnese na Eucaristia pode ser retomado aqui em forma de aclamação.

5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE…
Dar ternura e reconforto aos “pequenos”…
Pessoalmente e em comunidade cristã, empenhemo-nos nesta semana em dar, em nome do Senhor, ternura e reconforto aos “pequenos” até aqui ignorados e tão próximos (no nosso prédio, bairro, cidade… e, quem sabe, até na nossa casa, comunidade cristã, comunidade religiosa…).

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org