ANO A
24.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
Tema do 24.º Domingo do Tempo Comum
Como devemos responder à maldade, à injustiça, aos abusos, às traições que nos ferem e que nos revoltam? A violência e a vingança serão a resposta adequada a quem nos magoou? A Palavra de Deus que a liturgia do vigésimo quarto Domingo do Tempo Comum nos propõe convida-nos a escolher o perdão. Mostra-nos o rosto bondoso e compassivo de Deus; e convida-nos a ser misericordiosos como o nosso Pai do céu é misericordioso.
Na primeira leitura um “sábio” de Israel avisa que a ira e o rancor são sentimentos maus, que não convêm à felicidade e à realização do homem. A vingança desumaniza o homem e envenena-lhe o coração; só o perdão pacifica e permite curar as feridas que a maldade abriu. O mesmo “sábio” deixa no ar uma pergunta bem pertinente: depois de experimentarmos a misericórdia infinita de Deus, poderemos recusar-nos a perdoar aos irmãos que nos ofenderam?
No Evangelho Jesus explica aos discípulos a “matemática” de Deus no que diz respeito ao perdão: a misericórdia, a compaixão, a clemência, o amor incondicional, entrarão sempre, em doses ilimitadas, nas contas que Deus tem a acertar connosco. Por isso, Deus nunca entenderá a nossa recusa em perdoar as pequenas dívidas que temos uns para com os outros. É a capacidade de perdoar que nos identifica como filhos autênticos de Deus.
Na segunda leitura o apóstolo Paulo convida os cristãos de Roma a cimentarem a sua caminhada no essencial que os une e não no secundário que os divide. Ora, no entender de Paulo, o essencial é Cristo: foi Ele que, pela sua morte e ressurreição, nos salvou; é Ele que é o Senhor de todos; é a Ele que todos pertencemos. Unida à volta de Cristo, a comunidade cristã deve ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão.
LEITURA I – Ben Sirá 27,33-28,9
O rancor e a ira são coisas detestáveis,
e o pecador é mestre nelas.
Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor,
que pedirá minuciosa conta de seus pecados.
Perdoa a ofensa do teu próximo
e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas.
Um homem guarda rancor contra outro
e pede a Deus que o cure?
Não tem compaixão do seu semelhante
e pede perdão para os seus próprios pecados?
Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor,
quem lhe alcançará o perdão das suas faltas?
Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio;
pensa na corrupção e na morte,
e guarda os mandamentos.
Recorda os mandamentos
e não tenhas rancor ao próximo;
pensa na Aliança do Altíssimo
e não repares nas ofensas que te fazem.
CONTEXTO
O Livro de Ben Sirá (também chamado “Eclesiástico”) é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a “sábios” indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor parece ter sido um tal Jesus Ben Sirá, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C. (cf. Sir 51,30).
A época de Jesus Ben Sirá é uma época em que o povo de Deus se viu seriamente pressionado a esquecer a sua fé e os seus valores tradicionais. Quando Alexandre da Macedónia morreu, em 323 a.C., o seu império foi dividido por duas famílias: os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, a Palestina ficou nas mãos dos Ptolomeus; e, nos anos de domínio Ptolomeu, o Povo de Deus pôde, em geral, viver na fidelidade à sua fé e aos seus valores ancestrais. Em 198 a.C., contudo, depois da batalha de Pânias, a Palestina passou para o domínio dos Selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicanor, general de Alexandre). Os Selêucidas, sobretudo com Antíoco IV Epifanes, procuraram impor, por vezes pela força, a cultura helénica. Nesse contexto muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade” e com a pressão exercida pelas autoridades selêucidas. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Jesus Ben Sirá, um “sábio” judeu apegado às tradições dos seus antepassados, entendeu desenvolver uma reflexão que ajudasse os seus concidadãos a manterem-se fiéis aos valores tradicionais. No livro que escreveu para esse efeito, Jesus ben Sira apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um Povo livre e feliz.
O texto que a liturgia de hoje nos oferece como primeira leitura integra a primeira parte do livro (cf. Sir 1,1-42,14). Nesses capítulos Jesus Ben Sirá oferece-nos, bem ao estilo sapiencial, um catálogo de ensinamentos práticos sobre a arte de bem viver (“sabedoria”). Esta secção não apresenta uma estrutura definida e coerente: os temas vão-se sucedendo uns aos outros, aparentemente sem uma ordem lógica. Predominam as “máximas” que definem os comportamentos corretos no âmbito das relações sociais.
Uma nota de carácter prático: o nosso texto aparece, na maior parte das versões recentes da Bíblia, numerado como 27,30-28,7. O “Lecionário Dominical”, contudo, numera-o como 27,33-28,9. Esta discrepância resulta do facto de o texto apresentado pelo “Lecionário” seguir a versão latina, mais longa do que a versão grega que serve de base às traduções mais recentes do Livro de Ben Sirá.
MENSAGEM
Como se deve responder a alguém que nos agride? O rancor, a ira, a vingança, a réplica agressiva e impiedosa serão a resposta mais conveniente a quem nos causou qualquer mal? O “canto de Lamec” (um dos mais antigos poemas registados na Bíblia) preconiza a vingança brutal e desproporcionada contra quem nos agrediu: “Lamec disse às suas mulheres: (…) matei um homem porque me feriu, e um rapaz porque me pisou. Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete” (Gn 4,23-24). No entanto, a mais genuína tradição de Israel propõe um caminho diferente. O “código de santidade” (cf. Lv 17,1-26,46) diz, textualmente: “não odiarás o teu próximo no teu coração (…). Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,17-18). Ora, o texto de Ben Sira que a primeira leitura deste domingo nos propõe aponta no mesmo sentido que o “código de santidade”.
Jesus ben Sirá, dirigindo-se a todos aqueles que estão interessados em adquirir a verdadeira sabedoria, pede-lhes que não se deixem dominar pelo rancor, pela ira e pelos sentimentos de vingança. O ódio, o ressentimento, a retaliação, introduzem desequilíbrios insanáveis no coração do ser humano: envenenam-no, desumanizam-no, mantêm-no em sobressalto, roubam-lhe a paz. O “sábio” – isto é, aquele que quer construir uma vida com sentido, que se propõe ter êxito e ser feliz – é aquele que é capaz de perdoar as ofensas e de assumir uma atitude de compaixão para com o seu semelhante.
Particularmente significativa é a relação estabelecida por Jesus Ben Sirá entre o perdão humano e o perdão divino… Aquele que se recusa a perdoar ao seu irmão, como poderá ter coragem para pedir para si próprio o perdão de Deus? Em contrapartida, aquele que perdoa as ofensas dos outros, está em boa posição para pedir e esperar o perdão do Senhor para as faltas que cometeu (“perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas” – Sir 28,2). Cerca de dois séculos antes de Jesus, a catequese judaica via uma clara ligação entre o perdão humano e o perdão de Deus.
Para tornar mais interpelante o seu apelo ao perdão, Ben Sira convida os seus concidadãos a lembrarem-se da morte: “lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos” (Sir 28,6). Diante da realidade final que nos espera, que sentido é que fazem esses sentimentos grosseiros de rancor, de ira, de vingança que consomem tantas das nossas energias e que nos impedem de construir uma vida válida? Gastar a vida a odiar não será um desperdício? E podemos, com coerência, esperar o perdão final de Deus, se a nossa vida foi toda ela vivida numa lógica de ódio e de vingança?
Para Jesus ben Sirá, as coisas parecem bem claras: a nossa vida ficará notavelmente mais pobre se substituirmos o perdão e a misericórdia pelo rancor e pela vingança. Só a bondade, o perdão e a compaixão constituirão uma boa base para construirmos uma vida com sentido.
INTERPELAÇÕES
• O rancor, a ira e o desejo de vingança estão profundamente enraizados na experiência humana. Constituem respostas quase naturais às injustiças, às ameaças, às agressões, aos insultos que nos fazem. Frequentemente deixamo-nos dominar por estas emoções e permitimos que elas ditem a nossa resposta a quem nos ofendeu. Dizemos que “quem não sente não é filho de boa gente”; e dispomo-nos a responder na mesma moeda a quem nos prejudicou. Será esta a melhor forma de lidar com o mal? Uma resposta violenta leva, quase sempre, a um círculo vicioso de conflito, onde a escalada de tensão e o ressentimento são os únicos resultados garantidos. Além disso, o ódio e a mágoa envenenam-nos, amarguram-nos, alimentam o stress e a ansiedade, prejudicam a nossa saúde mental e a nossa paz de espírito… Em contraposição a tudo isto, há um outro caminho: o caminho do perdão. O perdão, mais do que um sentimento, é uma decisão: diante de uma ofensa, decidimos que não nos deixaremos amarrar e condicionar por esse mal que nos atingiu. Não é um caminho fácil. É um caminho que não apaga o passado, nem justifica a dor; mas é um caminho que nos liberta, que nos pacifica e que nos oferece a possibilidade de viver uma vida radicalmente nova. Jesus ben Sira propõe, a todos aqueles que pretendem construir uma vida com sentido, que tenham a coragem de experimentar o perdão. Estamos dispostos a escolher essa opção?
• Jesus Ben Sira vê uma relação clara entre o perdão de Deus e o perdão humano: “perdoa a ofensa do teu próximo e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas” Este nexo entre o perdão de Deus e o perdão humano não significa, no entanto, que a justiça de Deus seja igual à nossa e que Deus só nos perdoe se nós também conseguirmos perdoar aos irmãos que nos ofenderam. Jesus disse-o de muitas formas: o perdão de Deus derrama-se sobre nós de forma incondicional, com total gratuidade, quer o mereçamos, quer o não mereçamos. A verdade é que bondade e a misericórdia de Deus são infinitamente maiores do que a nossa mesquinhez. No entanto, tenhamos isto em consideração: se o nosso coração estiver prisioneiro de uma lógica de rancor, de ira, de vingança, terá capacidade para compreender e para acolher o perdão de Deus? Um coração duro, violento, vingativo, incapaz de compreender e de perdoar as falhas dos outros, estará suficientemente disponível para acolher a bondade e o amor de Deus?
• A propósito do perdão, Jesus Ben Sira convida-nos a recordar que o horizonte do nosso caminho na terra está marcado pela inevitabilidade da morte: “lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos”. O objetivo de Jesus ben Sira será alertar-nos para o julgamento de Deus e para a possível condenação daqueles que não trataram bem os seus irmãos, nomeadamente no que diz respeito à bondade e à misericórdia? Provavelmente não. Na verdade, na altura em que Jesus ben Sira desenvolve a sua reflexão, a catequese de Israel ainda não tem uma noção claramente definida de uma vida futura, onde os justos serão recompensados e os maus serão condenados. O mais provável é que o sábio Ben Sira pretenda sugerir que a nossa vida na terra está marcada pela brevidade e que o pouco tempo que temos para construir uma vida com sentido não pode ser perdido com sentimentos negativos, amargos, que trazem infelicidade a nós e aos outros. Jesus ben Sira tem razão: estamos dispostos a gastar o curto tempo da nossa vida a alimentar sentimentos negativos, que não são construtivos nem nos ajudam a dar sentido pleno à nossa existência?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)
Refrão: O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.
Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades.
Salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.
Não está sempre a repreender
nem guarda ressentimento.
Não nos tratou segundo os nossos pecados
nem nos castigou segundo as nossas culpas.
Como a distância da terra aos céus,
assim e grande a sua misericórdia para os que O temem.
Como o oriente dista do Ocidente,
assim Ele afasta de nós os nossos pecados.
LEITURA II – Romanos 14,7-9
Irmãos:
Nenhum de nós vive para si mesmo
e nenhum de nós morre para si mesmo.
Se vivemos, vivemos para o Senhor,
e se morremos, morremos para o Senhor.
Portanto, quer vivamos quer morramos,
pertencemos ao Senhor.
Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou
para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.
CONTEXTO
Por volta do ano 57 ou 58, Paulo está prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Prepara-se para embarcar para a Palestina, onde vai entregar os donativos que recolheu nas comunidades da Grécia e da Ásia Menor em favor dos cristãos de Jerusalém. Sente, no entanto, que o seu trabalho apostólico no Mediterrâneo oriental está terminado: as comunidades cristãs que nasceram do seu labor missionário estão a fazer o seu caminho e já não necessitam da vigilância constante do apóstolo. Paulo pode, portanto, dirigir o seu esforço missionário para outras paragens, talvez para esse imenso ocidente onde o Evangelho de Jesus ainda não chegou. Paulo resolve, então, dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, dando-lhes conta dos seus planos. Conta-lhes que passará por Roma e lá permanecerá algum tempo; depois, conta ir até à Espanha, onde pretende anunciar o Evangelho (cf. Rm 15,24-28).
A Carta de Paulo aos Romanos, no entanto, não é apenas uma missiva com informações sobre os planos futuros do apóstolo. Paulo aproveita a oportunidade para apresentar aos cristãos da capital do império um resumo da sua teologia, desse Evangelho que tem anunciado na Ásia Menor e na Grécia. Um dos temas que aparece em pano de fundo na carta, é um problema que, na época, afetava boa parte das comunidades cristãs: o problema da unidade. Trata-se, aliás, de um problema que a comunidade cristã de Roma conhecia bem: as dificuldades de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos também em Roma causavam alarme, minavam a fraternidade, afetavam a unidade e a comunhão.
Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna. Na segunda parte da carta (cf. Rm 12,1-15,13) Paulo, de uma forma bastante prática, exorta os cristãos a viverem de acordo com a vida nova que receberam de Jesus.
O nosso texto integra a segunda parte da Carta aos Romanos. Faz parte de uma perícope (cf. Rm 14,1-12) em que Paulo dá indicações acerca da conduta a ter face aos outros membros da comunidade, particularmente face àqueles que têm perspetivas diferentes da fé e do caminho cristão. De um lado estão aqueles a quem Paulo chama “os fracos”: são aqueles que fazem finca-pé nas leis, nos ritos, nas tradições antigas, e ficam escandalizados pelo facto de esses valores não serem assumidos por toda a gente (na nossa linguagem de hoje, chamar-lhes-íamos “integristas”). Do outro lado estão “os fortes”: são aqueles que já se libertaram decisivamente da escravidão da Lei e dos ritos e consideram que só os valores do Evangelho são decisivos no caminho da fé (na nossa linguagem de hoje chamar-lhes-íamos “progressistas”). A uns e a outros Paulo lembra que, mais importante do que as divergências, é o respeito pelo irmão e a construção da fraternidade. Os “fortes” não podem desprezar aqueles que não pensam como eles; e os “fracos” não têm o direito de julgar ou de catalogar aqueles que têm, quanto à fé, uma outra perspetiva.
MENSAGEM
Os três versículos que a segunda leitura deste domingo nos apresenta constituem o centro desta exortação. Recorrendo a um pequeno texto provavelmente anterior a esta carta, primitivamente usado para falar da sorte dos crentes que esperam a parusia do Senhor, Paulo recorda a todos, tanto aos “fracos” como aos “fortes”, que o importante não são as opiniões pessoais, as convicções de cada um, os diferentes entendimentos da experiência de fé (“nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo” – Rm 14,7); o que deve ser realmente decisivo é que todos dependem de Cristo, pertencem a Cristo e caminham ao encontro de Cristo (“se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor” – Rm 14,8). Todos foram igualmente salvos pela morte e ressurreição de Cristo e devem estar unidos à volta de Cristo (“na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos” – Rm 14,9). Só Cristo, o único Senhor, o vencedor da morte, aquele que dá vida, tem uma palavra definitiva sobre o homem e o caminho que ele percorre; mais ninguém se deve dedicar a julgar e a condenar o seu irmão.
Faz sentido os crentes confrontarem-se e dividirem-se por questões absolutamente secundárias, como o tipo de alimentos que devem comer, as festas que devem celebrar, os jejuns que devem fazer, as devoções pessoais a que cada um deve dar importância? É evidente que não. O que faz sentido é que todos tomem consciência daquilo que os une: a absoluta confiança em Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou para a todos dar vida. A comunidade cristã tem de entender-se a si própria, não como um mosaico formado por peças antagónicas, mas sim como uma família de irmãos e de irmãs reunidos à volta do mesmo Senhor.
INTERPELAÇÕES
• Há maneiras diversas, igualmente válidas, de vivermos o nosso seguimento de Jesus; há caminhos diversos, igualmente legítimos, para chegarmos à proposta de salvação que Jesus veio trazer. A diversidade na vivência da fé não é necessariamente um mal: se respeitar o essencial e se não puser em causa a unidade, pode mesmo ser um fator que enriquece a nossa experiência comunitária. A comunidade cristã não pode ser o lugar da intolerância, da incompreensão, da condenação, do desrespeito pela diversidade de opiniões, da uniformidade rígida imposta em nome da fé; mas tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças legítimas, da partilha, do perdão. A intolerância divide; a tolerância une e potencia a comunhão. É a diversidade que torna a comunidade mais aberta a todos, mais espelho e sinal da misericórdia e da bondade de Deus no mundo. Como é que as comunidades onde fazemos a nossa caminhada cristã lidam com as diferenças? Como é que nós próprios nos situamos em relação àqueles que têm maneiras de expressar a fé não exatamente coincidentes com as nossas?
• Nas nossas comunidades cristãs aparecem, frequentemente, pessoas que se consideram mais esclarecidas, mais preparadas, mais iluminadas, mais conhecedoras da doutrina, mais “modernas” do que as outras… Convencidas da sua superioridade, olham com desdém para aqueles que têm conceções menos racionais da fé, que vivem agarrados a determinadas devoções, que expressam a sua fé recorrendo a ritos e a linguagens marcados pelo pó dos séculos. Ora, o olhar de desdém transforma a diversidade num motivo de exclusão, cria tensões e clivagens, divide a comunidade em cristãos “de primeira” e cristãos “de segunda”, destrói a harmonia, a comunhão e a fraternidade. O apóstolo Paulo recomenda a esses “fortes”: “não desprezeis ninguém nem vos julgueis superiores aos outros; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”. Conhecemos pessoas dessas na nossa comunidade cristã? Nós próprios não olharemos com desdém para alguns dos irmãos da comunidade por causa da forma como eles expressam a sua fé?
• Nas nossas comunidades cristãs aparecem, por vezes, pessoas que se consideram mais santas e virtuosas do que as outras, porque se mantêm fiéis às antigas tradições, cumprem escrupulosamente os dias de jejum e as determinações da Igreja, condenam a “relaxação” dos costumes, praticam as devoções antigas, recusam as “modernices” que “estragam a religião”… Convencidos da sua verdade, olham com desdém para aqueles que têm uma compreensão menos rígida da vivência cristã, criticam-nos, julgam-nos, condenam-nos, procuram desacreditá-los diante dos outros membros da comunidade… Paulo recomenda a esses “fracos”: “não julgueis nem condeneis os vossos irmãos; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”. Conhecemos pessoas dessas na nossa comunidade cristã? Nós próprios não olharemos com desdém para alguns dos irmãos da comunidade por causa da forma como eles expressam e vivem a sua fé?
• O apóstolo Paulo convida-nos a descobrir o essencial que nos une e a não absolutizar o secundário que nos divide. Ora, na perspetiva de Paulo, o essencial é Cristo: foi Ele que, pela sua morte e ressurreição, nos salvou; é Ele que é o Senhor de todos; é a Ele que todos pertencemos; é Ele a nossa referência fundamental; é Ele o Caminho que devemos seguir, a Verdade que devemos escutar, a Vida que devemos abraçar. É à volta de Cristo que situamos e articulamos a nossa experiência de fé? Qual o lugar de Cristo na vida das nossas comunidades cristãs?
ALELUIA – João 13,34
Aleluia. Aleluia.
Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.
EVANGELHO – Mateus 18,21-35
Naquele tempo,
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender,
quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?»
Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo,
apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar,
o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía,
para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
‘Paga o que me deves’.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’.
Ele, porém, não conseguiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena,
os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
‘Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?’
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos,
até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste,
se cada um de vós não perdoar a seu irmão
de todo o coração».
CONTEXTO
A “etapa da Galileia” estava prestes a terminar. Jesus e os discípulos tinham reentrado há pouco em Cafarnaum (cf. Mt 17,24), depois de uma digressão pela Galileia que os levara até Cesareia de Filipe, no extremo norte dessa região meridional (cf. Mt 16,13). Dentro de pouco tempo vão partir para Jerusalém (cf. Mt 19,1), onde Jesus vai encontrar-se com o seu destino de cruz.
Porém, antes de voltar ao caminho, Jesus quis dirigir aos discípulos uma “instrução” que ficou conhecida como o “discurso eclesial” (cf. Ma 18,1-35). Nessa “instrução”, Jesus deixa aos discípulos orientações bastante concretas sobre a forma de construir a comunidade do Reino de Deus.
Para redigir esta “instrução” de Jesus, Mateus partiu de alguns materiais recebidos de Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37.42-47), ampliados por outros materiais vindos de outras fontes, talvez da “fonte Quelle” (um documento hipotético, nunca encontrado, mas que conteria diversos “ditos” de Jesus, e que foi utilizado como base comum pelos evangelhos de Mateus e de Lucas). Apesar da diversidade de fontes que entram na sua composição, o “discurso eclesial” apresenta uma grande unidade temática e estilística.
Por detrás do texto que o Evangelho deste domingo nos apresenta, podemos entrever uma comunidade concreta, certamente a comunidade à qual Mateus endereça o Evangelho que compôs. Seria uma comunidade formada maioritariamente por cristãos de origem judaica, situada na região da Síria (poderia ser a Igreja de Antioquia da Síria). Trata-se, segundo o cenário que podemos entrever, de uma comunidade onde existem tensões, problemas de convivência, atitudes de prepotência e arrogância, ofensas que deixam feridas abertas no tecido comunitário, dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos “pecadores”. O nosso texto centra-se especificamente sobre a problemática do perdão (cf. Mt 18,21-35).
MENSAGEM
Para os povos do antigo Médio Oriente, a vingança era uma lei sagrada, ao passo que o perdão era algo humilhante. No entanto, o povo de Deus já conhecia, antes de Jesus, o mandamento do perdão. A catequese tradicional de Israel falava em perdoar as ofensas e em não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido qualquer falha (cf. Sir 27,30-28,7). Os “mestres” de Israel estavam, no entanto, de acordo em que a obrigação de perdoar não era ilimitada: existia apenas em relação aos membros do povo de Deus (os inimigos estavam excluídos dessa dinâmica de amor e de misericórdia) e não devia repetir-se indefinidamente. A grande discussão girava, porém, à volta do número limite de vezes em que se devia perdoar: uma vez? Duas vezes? Três vezes? Todos – desde os mais exigentes aos mais misericordiosos – estavam, apesar de tudo, de acordo numa coisa: não se deve perdoar indefinidamente.
É nesta discussão que Jesus é envolvido pelos discípulos. Pedro, o porta-voz da comunidade, consulta Jesus acerca dos limites do perdão. Ele conhece as ideias radicais do Mestre; por isso, talvez com alguma ironia, pergunta-lhe se se deve perdoar “até sete vezes” (Mt 18,21). O número sete, na cultura semita, indica “totalidade”. Deve-se perdoar sempre?
Jesus responde que não só se deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada, total, absoluta (“não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” – Mt 18,22). Deve-se perdoar sempre, a toda a gente (mesmo aos inimigos) e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção. Para Jesus, o perdão tem de estar para além de todas as nossas matemáticas, para além de todas as nossas contas de somar ou de multiplicar.
É neste contexto que Jesus propõe aos discípulos uma parábola inverosímil sobre o perdão (cf. Mt 18,23-35). A parábola apresenta-se em três quadros ou cenas.
O primeiro quadro (vers. 23-27) coloca-nos diante de uma cena de corte: um funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor (provavelmente de impostos recebidos e nunca entregues), revela-se incapaz de saldar a sua dívida. O senhor ordena que o funcionário e a sua família sejam vendidos como escravos; mas, perante a humildade e a submissão do servo, o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia e perdoa totalmente a dívida. Neste quadro, o que impressiona mais é o montante astronómico dessa dívida: dez mil talentos. Um talento correspondia a cerca de trinta e seis quilos de ouro ou de prata. Dito de outra forma: um talento equivalia a cerca de seis mil denários, isto é, ao salário de seis mil dias de trabalho de um operário especializado. Dez mil talentos é, portanto, uma soma colossal, quase inimaginável. O exagero da dívida serve, aqui, para pôr em relevo o tamanho incomensurável da misericórdia do senhor.
O segundo quadro (cf. Mt 18,28-30) descreve como esse funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor se recusou, logo a seguir, a perdoar um companheiro que lhe devia cem denários (um denário equivalia a doze gramas de prata e era o pagamento diário de um operário especializado). Correspondia, portanto, a uma quantia bastante modesta para um alto funcionário da corte.
Quando estes dois quadros são postos em paralelo, sobressaem, por um lado, a desproporção entre as duas dívidas e, por outro, a diferença de atitudes e de sentimentos entre o senhor (capaz de perdoar infinitamente) e o funcionário do rei (incapaz de se converter à lógica do perdão, mesmo depois de ter experimentado a alegria de ser perdoado).
É precisamente desta diferença de comportamentos e de lógicas que resulta o terceiro quadro (cf. Mt 18,28-35): as testemunhas destes acontecimentos, chocadas com a insensibilidade daquele funcionário real, vão contar ao rei o que se tinha passado; e o rei, revoltado com a falta de misericórdia daquele homem, voltou atrás e decidiu castigá-lo duramente.
A parábola contada por Jesus é, antes de mais, uma catequese sobre a misericórdia de Deus. Aquele “rei” misericordioso que aparece na parábola é Deus. No seu infinito amor, Ele cancelou todas as nossas dívidas. O perdão que Deus nos oferece é ilimitado, total e absoluto.
Depois, a parábola convida-nos a analisar as nossas atitudes e comportamentos face aos irmãos que falharam. Lembra-nos que, neste capítulo, a nossa lógica está, muitas vezes, distante da lógica de Deus. Diante de qualquer falta do irmão (por menos significativa que ela seja), assumimos a pose de vítimas magoadas e tomamos atitudes de desforra e de vingança que são o sinal claro de que ainda não interiorizámos a lógica misericordiosa de Deus. Ora, diz Jesus, isso não é admissível.
O último quadro da parábola parece sugerir uma relação (aliás já afirmada na primeira leitura deste domingo) entre o perdão de Deus e o perdão humano. Será verdade que Deus só nos perdoa se nós formos capazes de perdoar aos irmãos que nos ofenderam? Será verdade que o perdão de Deus é condicional e que só se tornará efetivo se nós também perdoarmos aos nossos irmãos?
De maneira nenhuma. Jesus disse-nos, de mil formas e em mil circunstâncias, que o perdão de Deus será sempre total, sem condições, completamente “a fundo perdido”. O pagamento “na mesma moeda” não é próprio de Deus, não é o método de Deus, não corresponde ao “ser” de Deus. O que acontece é que o “catequista” Mateus usa aqui, bem ao estilo dos pregadores do seu tempo, imagens fortes e dramáticas para nos dizer que temos de vestir-nos urgentemente da lógica do perdão. Só podemos considerar-nos filhos de Deus quando tivermos aprendido a ser misericordiosos como o nosso Pai do céu é misericordioso. Depois de experimentarmos o amor misericordioso de Deus, não é admissível que continuemos a escolher caminhos de revanchismo e de vingança. Para os filhos de Deus, o não perdoar não pode ser opção, em nenhuma circunstância.
INTERPELAÇÕES
Como devemos responder à violência, à injustiça, à arbitrariedade, à prepotência, aos abusos que nos ferem e que nos revoltam? Como devemos situar-nos quando as tensões, os conflitos, as incompreensões criam entre nós uma teia de enfrentamentos e de ressentimentos? Como devemos proceder quando a amizade ou o amor são traídos, quando sofremos humilhações, enganos e infidelidades que não esperávamos? A vingança, a retaliação, a desforra serão a resposta adequada, a reação que nos pacifica e que nos realiza? Por outro lado, a aplicação de uma justiça retributiva estrita, a condenação fria e sem contemplações daqueles que infringiram as regras socialmente definidas, terão de ser o caminho obrigatório para lidar com o mal? Jesus olhava para lá das nossas respostas e propunha outra via: a misericórdia, a indulgência, a clemência, o perdão. Quando Ele projetava o mundo sonhado por Deus – aquilo a que chamava o “reino de Deus” – nunca se esquecia de colocar o perdão no “desenho” desse mundo novo. Na avaliação de Jesus, um mundo sem compaixão é um mundo inabitável; uma sociedade de onde foi banida a misericórdia, é uma sociedade desumana; uma família onde não há perdão, torna-se um inferno. O que pensamos de tudo isto? Conseguimos perceber a perspetiva e o posicionamento de Jesus?
Onde é que Jesus foi buscar essa certeza de que o perdão, a misericórdia e a compaixão têm de ser incluídos no nosso projeto de vida? Evidentemente, a Deus. A experiência que Ele tinha de Deus era a de um Pai bom, que ama incomensuravelmente os seus filhos e que tem uma capacidade infinita de perdoar as faltas que eles cometem. Aquele “senhor” da parábola que se compadece do seu funcionário e que lhe perdoa uma fortuna incalculável (cf. Mt 18,23-35) é, na perspetiva de Jesus, o rosto do Deus da misericórdia infinita e do perdão sem limites. O que sentimos diante desse “amor maior” de Deus que não cessa de escrever nas nossas vidas uma história de compaixão, de misericórdia e de perdão? Depois de termos experimentado o perdão de Deus, em toda a sua infinita dimensão, fará sentido recusarmo-nos a perdoar aos irmãos que nos ofenderam? Estamos disponíveis para sermos o rosto da compaixão de Deus junto dos irmãos que nos acompanham no caminho da vida?
O que significa, realmente, perdoar? Significa ceder sempre diante daqueles que nos maltratam e nos ofendem? Significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa “deixar correr” enquanto forem coisas que não nos afetem diretamente? Significa pactuar com a injustiça e a opressão para não pôr em causa o nosso sossego? Significa tolerar tudo num silêncio feito de cobardia, de acomodação e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença… O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada… O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, não assume comportamentos vingativos, não permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha… Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade. Perdoar é para gente forte, corajosa, não conformista; perdoar é para filhos e filhas de Deus… Somos desses?
Haverá limites para o perdão? Não teremos de, alguma vez, dizer um “basta” definitivo àqueles que, uma, e outra, e outra vez, repetem comportamentos abusivos? Era precisamente essa a questão que inquietava o apóstolo Pedro: “se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?” Na verdade, a lógica de Pedro não é desajustada… A nossa paciência tem limites e a nossa boa-vontade só aguenta até um certo ponto. Por outro lado: perdoar sempre não será prejudicial, não será antipedagógico, não enviará mensagens contraproducentes ao infrator? Além disso, antes de perdoar não seria conveniente exigir àquele que errou provas de arrependimento e de vontade sincera de mudar de vida? Tudo isto parece bem razoável; mas quando escutamos Jesus, toda essa razoabilidade cai por terra: “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Jesus quebra todos os limites e todas as barreiras ao perdão; Jesus deita por terra todas as boas desculpas que podemos arranjar para evitar perdoar. Ousaremos escutar Jesus e assumir, na sua gratuidade e grandeza, a maneira de perdoar que Ele veio propor?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 24.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
1. A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 24.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…
2. Testemunhos De Reentrada.
Em certas paróquias, há por vezes o costume de preparar breves testemunhos dados por membros da assembleia no momento dos avisos. Pode haver alguns breves testemunhos (cerca de 1 minuto cada) sobre atividades eclesiais em que se participou durante o tempo de verão. A intercalar, pode-se cantar um breve refrão cantado.
3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Pai misericordioso, nós Te bendizemos pela longa aprendizagem ao perdão na qual formaste o teu povo desde o tempo de Moisés. Nós Te louvamos pela pedagogia da misericórdia e pelas mensagens de paz.
Nós Te pedimos por todas as populações ainda submetidas ao ciclo infernal do ódio, do terrorismo, do rancor e da vingança cega.
No final da segunda leitura:
Cristo ressuscitado, Senhor dos mortos e dos vivos, bendito sejas pelo teu caminho de Páscoa: Tu conheceste a morte, para dela nos libertares e nos fazeres partilhar a vida nova que manifestaste pela tua ressurreição.
Nós Te pedimos por todos os batizados: demos-Te a nossa fé, aderimos a Ti. Que o teu Espírito nos faça viver para Ti.
No final do Evangelho:
Pai do céu, Deus de paciência, Tu que perdoaste a nossa imensa dívida, bendito sejas pelo perdão que liberta das cadeias e livra do desespero.
Nós Te pedimos: que o teu Reino venha aos nossos corações, que todas as nossas comunidades manifestem a presença do teu Reino na nossa terra, como um reino de paz, em que o perdão é dado do fundo do coração.
4. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística IV, que recorda as alianças e as misericórdias de Deus.
5. PALAVRA PARA O CAMINHO.
«Senhor, quantas vezes devo perdoar?» A resposta de Jesus não tem nada de matemática e o perdão que Ele nos propõe para oferecer aos nossos irmãos é ilimitado – por vezes também muito difícil. Nesta semana, poderíamos retomar o salmo 102 na oração e nos deixarmos habitar – impregnar, modelar – pelos seus acentos de ternura, de perdão, de amor, que nos revelam o Coração d’Aquele que nos convida a perdoar como Ele nos perdoa.
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org