A caminho da eternidade

A recente morte do padre João de Deus apanhou a muitos de surpresa. Para muita gente, foi uma notícia triste e dolorosa, tal a marca profunda que ele deixou na sua vida, ao longo dos vários anos de ministério pastoral. Há sempre qualquer coisa de injusto e de desperdício numa morte com carácter prematuro.

Por um lado, é a consciência de que aquela pessoa teria ainda muito a dar, mas, por outro, é também a percepção – esta talvez ainda mais dura de aceitar do que a anterior – de que a morte pode vir a qualquer momento para qualquer um de nós. Diz-se que a morte é certa, mas chega a hora incerta. A morte não faz acepção de pessoas e os nossos esforços em sobreviver são muitas das vezes uma tentativa frustrada de adiar o inadiável.

Neste dia do nascimento do Padre Dehon, aproveitei a parte da tarde para dar um passeio de bicicleta. Estava uma tarde agradável de sol e o vento não era muito forte. Não quis ficar dentro de casa e aproveitei então para percorrer algumas zonas por onde não costumo passar. A curiosidade levou-me para os lados de Rio Tinto e de Baguim do Monte. Havia muitas pessoas a caminhar pela rua, também elas a aproveitar o sol de Março.

A dada altura, enquanto pedalava tranquilamente, avistei à minha esquerda uma rua chamada “Rua da Eternidade”. O nome surpreendeu-me muito, até porque não captei nada que me ajudasse a compreender a razão daquela designação naquele lugar. Só mais tarde, através duma pesquisa no Google Maps, é que me dei conta que a Rua da Eternidade conduzia ao cemitério de Baguim do Monte. Não se senti atraído a percorrer esta rua, porque, como ciclista de fim-de-semana, não gosto muito de estradas a subir e feitas com esses paralelepípedos, tão típicos no nosso país. No entanto, achei graça ao nome dado à rua e para os meus botões até me perguntei como seria viver na Rua da Eternidade. Pareceu-me uma ideia feliz que se tivessem lembrado de dar este nome a uma rua, pois é preciso que nos recordem algumas verdades fundamentais da nossa vida.

O facto de não me ter sentido atraído a pedalar por aquela rua levou-me mais longe no pensamento. Com efeito, sabemos que estamos destinados a um outro mundo e que estamos de passagem por este, mas a verdade lá no fundo é que se pudermos adiar esse salto tanto melhor. Inclusivamente, tenho a impressão que não seriam poucos a preferirem uma estadia perpétua neste mundo, o que pode ser um sinal de que nos sentimos bem e que gostamos de viver nesta nossa terra.

A morte de alguém querido aparece, portanto, como um acontecimento difícil de assimilar. Por muito que acreditemos numa vida posterior, a nossa fé na eternidade nem sempre se apresenta vigorosa e musculada. A maior parte das vezes surge mesmo raquítica e débil. Por conseguinte, precisamos que nos recordem a cada passo que estamos a caminho da eternidade…

José Domingos Ferreira, scj