Já ninguém contesta que está a emergir uma nova sensibilidade ecológica na nossa sociedade. As pessoas começam a preocupar-se mais com o ambiente e mostram-se mais conscientes das suas acções e das repercussões das mesmas. Inviabilizar um qualquer projecto, porque ecologicamente não é sustentável, já não causa tanta estranheza como dantes.
No entanto, penso que o maior risco que cai sobre esta nova sensibilidade ecológica é que, a curto prazo, se torne numa moda e, portanto, depois de um momento de grande fulgor, desapareça rapidamente e seja substituída por outra considerada mais moderna. Um dos sinais que me leva a esta afirmação é a desproporção existente entre o compromisso ao nível da ecologia natural e aquele que diz respeito à ecologia humana. Estou convencido que, sem uma verdadeira ecologia humana, a ecologia natural degenerará numa moda fugaz. Se as pessoas não aprenderem a respeitar-se a si próprias, não serão capazes de respeitar a natureza. Se as pessoas não reconhecerem em si mesmas a existência de ritmos e leis, não chegarão nunca a respeitar os existentes na criação.
A ecologia humana reivindica o respeito pela natureza do ser humano. Por isso, ter casa é «uma questão central da ecologia humana» (LS 152), como «aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados» (LS 155). Da mesma forma, «não é compatível a defesa da natureza com a justificação do aborto» (LS 120). A verdade é que já o papa João Paulo II, que foi o primeiro a falar em ecologia humana, se queixava do «pouco empenho que se põe em salvaguardar as condições morais de uma autêntica ecologia humana» (LS 5).
As pessoas pobres constituem um dos sinais mais eloquentes desta desatenção pela ecologia humana, mas mostram-se também os grandes especialistas: de facto, «é louvável a ecologia humana que os pobres conseguem desenvolver, no meio de tantas limitações. A sensação de sufocamento, produzida pelos aglomerados residenciais e pelos espaços com alta densidade populacional, é contrastada se se desenvolvem calorosas relações humanas de vizinhança, se se criam comunidades, se as limitações ambientais são compensadas na interioridade de cada pessoa que se sente inserida numa rede de comunhão e pertença. Deste modo, qualquer lugar deixa de ser um inferno e torna-se o contexto duma vida digna» (LS 148).
Quando o papa Francisco propõe uma ecologia integral, está a anunciar efectivamente uma visão em que ecologia natural e ecologia humana caminham a par, sem constituírem compartimentos estanques nem caminhos divergentes. Este não é um vínculo secundário ou dispensável, mas constitui uma dimensão estruturante da ecologia integral, porque, como tanto repete o Papa, tudo está inter-relacionado.
José Domingos Ferreira, scj