É uma imagem muito bela e sugestiva a do agricultor que «espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e a tardia» (Tg 5, 7). Desde logo, aponta para uma vivência do tempo mais lenta e mais saboreada, mas evoca também uma vida integrada e reconciliada com a natureza. É uma espera paciente, que transparece «uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza» (LS 67). É uma paciência esperançada, que não se confunde com passividade nem com preguiça, pois, enquanto espera, o agricultor continua diligentemente a cuidar da sua horta.
Esta metáfora do agricultor guarda em si qualquer coisa de contracultural, ao entrar em contraste com aquela «contínua aceleração das mudanças na humanidade e no Planeta» e com «a intensificação dos ritmos de vida e de trabalho», precisamente aquilo que alguns acabaram por designar com a palavra «rapidação». Aliás, é o papa Francisco quem diz que, «embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as acções humanas contrasta com a lentidão natural da evolução biológica» (LS 18). Em linguagem simples e acessível, não é preciso muito esforço para reconhecer que temos pouca paciência, que queremos obter tudo muito rapidamente, que esperar é algo que nos aborrece imenso e que temos pouca tolerância à frustração. Pura e simplesmente, há dimensões da vida humana que não se resolvem com um clique, mas que necessitam de tempo e, às vezes, de muito tempo…
A paciência está então a tornar-se um grande desafio nas nossas vidas, pelo que não podemos esquecer que «a gravidade da crise ecológica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do diálogo que requer paciência, ascese e generosidade» (LS 201). As dimensões da actual emergência climática são de tal proporção que é lamentável que ainda haja gente preocupada em defender os interesses da sua capelinha, frequentemente mesquinhos…
Uma ecologia integral reclama que aprendamos a respeitar a natureza com os seus ritmos e leis próprias, o que significa não embarcar em esquemas injustos, opressores e corruptos, que procuram sempre queimar etapas e romper os limites impostos pelo Criador. Sabemos bem que a pressa é inimiga do bem e que meter-se em atalhos muitas vezes traz mais trabalhos…
Deste modo, o agricultor, que aprendeu a esperar pacientemente «o precioso fruto da terra», é capaz de receber esse fruto como um dom de Deus e, de forma natural e quase automática, encher-se de gratidão, reconhecimento e alegria, virtudes verdadeiramente ecológicas. Deste modo, ele experimenta que o seu trabalho é tocado pela bênção de Deus, simbolizada nessa «chuva temporã e tardia», que não é comandada por ele, mas sem a qual o seu esforço teria sido em vão.
José Domingos Ferreira, scj