I Domingo da Quaresma

Atravessamos a Quaresma para aprender a amar. Percorremo-la com a luz do Crucificado-Ressuscitado no horizonte. Vivemo-la ampliando o coração para acolher e testemunhar a abundância da vida que dele nos vem. Esta aprendizagem do amor, síntese de todo esse caminho de crescimento na identificação com Jesus — na busca de, como Ele e com Ele, sermos inteiros —, faz-se de muitas pequenas aprendizagens.

Uma das primeiras será, porventura, a do desprendimento: aprender a desapegar-se de si e a superar a tentação da autorreferencialidade; desocupar o centro do coração, daí varrendo os próprios caprichos e suficiências para o abrir como espaço côncavo, acolhedor e fecundo para o outro e para Deus.

Eis o que poderá ser, em primeiríssimo e fundante lugar, o jejum de que nos fala este tempo quaresmal: o desapego do que nos coisifica e aprisiona, entulhando o nosso coração com entraves ao amor. Jejuar assim será dispor-se a percorrer esse caminho de desprendimento livre e generoso que oferece lugar para o que verdadeiramente humaniza e dignifica o outro, humanizando e dignificando o próprio que assim escancarou o coração.

Neste tempo favorável, deixemos crescer em nós, cultivando-o, o desejo por essa liberdade ampla e funda que nos configura com Jesus: a liberdade interior para fazer a vontade do Pai, tomando-a como centro e referencial do próprio coração. Assim desprendido, jejuado de si mesmo, o coração dilatar-se-á.

[André Pereira]