Caros Confrades
Quero partilhar convosco algo sobre as minhas andanças por terras africanas, concretamente nos “espaços dehonianos” de Moçambique e de Angola.
1. Encontro-me em Luanda, na nossa Casa Padre Dehon, em Viana, a 9 Km de Luanda, neste dia 10 de Janeiro de 2008. Parti de Lisboa pela noite de 30 de Dezembro do ano passado, rumo a Maputo, para orientar o retiro anual com os Confrades da Província Moçambicana. A tarde desse domingo na Casa Provincial foi bem preenchida até ao último momento da saída para o aeroporto: organizar e fotocopiar alguns materiais para o retiro, escrever uma carta à Província com alguns assuntos, ultimar alguns documentos pendentes, enfim, coisas de despacho sempre urgentes. Pela manhã comprara uma mala na “feira do relógio” que se foi desfazendo ao longo da viagem… Antes de pedir ao P. Jacinto para me conduzir ao aeroporto, ainda levei o P. Camilo à Gare do Oriente, com destino ao norte do país.
2. Pelas 22.30 horas desse domingo, o avião da TAP levantou voo, com meia hora de atraso e com meia lotação. Viagem agradável, com travessia de toda a África de norte a sul: Líbia, Zaire, Sudão, Zimbabué, Malawi… A um certo momento, no ecrã dos monitores, vi, à direita, o mapa de Angola e a zona do Luau e, à esquerda, a indicação de Madagáscar ali tão perto… Foram 10 horas de viagem.
3. Dia 31, pelas 10.30 horas (duas horas a mais em Moçambique), aterrei em Maputo. Mandaram-me abrir malas na alfândega, para vasculhar os materiais. Não me queriam deixar passar as três garrafas de Porto compradas em Lisboa e levadas à vista num saco do aeroporto (duas para Moçambique e uma para Angola), dizendo que havia restrições… Lá veio o chefe e deixou passar. Ninguém estava à minha espera nesta primeira ida a Moçambique. Ia telefonar, mas aproveitei a boleia de alguns padres de Nampula que viajaram no mesmo avião. Trânsito relativamente fluído, cidade mais ou menos limpa, com muitos buracos (nada que se compare ao caos de Luanda!). Chegado à nossa casa da Av. Salvador Allende, o P. Ricardo ficou admirado. De facto, no email que lhe enviara, a hora de chegada estava para duas horas depois (engano meu!).
4. Nesse último dia do ano tomei uma refeição simples, reorganizei as bagagens e toca a partir para Quelimane pelas 15 horas, na companhia aérea TAAG. O voo previa uma série de escalas, de modo que deu para descansar, pensar, agradecer o ano vivido… No ano anterior havia celebrado a passagem de ano em Madagáscar, este ano seria em Moçambique, o próximo ano… quem sabe onde?! Primeira escala em Nampula, após duas horas de viagem. Sobrevoámos a Beira, o Índico, o largo de Quelimane, depois novamente tão perto de Madagáscar… Mesmo na altitude, reparei nas enormes cheias que atingem toda esta zona de Moçambique. Impressionante! Em Nampula, em escala prevista de 20 minutos (afinal foram 50), mandaram-nos para a gare, sob chuva torrencial. Deu para ficar encharcado. Pelas 18 horas, nova partida para nova escala em Lichinga, no Niassa. Era noite, deu para observar lindíssimas nuvens esculturais. 50 minutos de viagem, nova escala de 20 minutos (afinal foram 40), nova ida para a aerogare, levantar novamente voo para Quelimane.
5. Após uma hora de viagem, aterrámos em Quelimane pelas 20.30 horas. À espera, o P. Carlos Lobo, Superior Provincial, e o P. Bellini, Ecónomo Provincial. Viagens seguidas num total de quase 24 horas de viagem (14 em voo aéreo, 10 em esperas e escalas), com quatro aterragens (algumas no limite dos equilíbrios) e quatro “levantamentos”. Deu para descansar, para ler e escrever algumas coisas. Soube-me bem “fazer o filme do ano” a nível de Província, Confrades, Comunidades, Missões, em atitude de memória agradecida a Deus, por aquilo que foi crescimento e construção, e de memória arrependida pelo que foi omisso ou realizado de modo menos conseguido. Foi um obrigado constante em atitude de esperança, mesmo agradecendo aquelas situações de sofrimento que ficarão no silêncio até à eternidade deste que se candidata a tal… O ano estava quase a terminar, deu para comer qualquer coisa na Casa Provincial de Quelimane, na companhia dos confrades. Descobri que o telemóvel funcionava automaticamente, pois recebi algumas mensagens escritas, mas não consegui enviar nada. Tal foi sol de pouca dura, pois iria entrar num período sem qualquer acesso à informação e à comunicação, em terras do norte da Zambézia. Enfim, uma passagem de ano a sós com Deus, a tentar descansar e adormecer, sob o calor intenso de Quelimane.
6. Pelas 6 horas do primeiro dia de 2008 já estávamos a rezar as Laudes e a celebrar a Eucaristia. Depois do “mata-bicho”, toca a partir em direcção a Milevane, na companhia dos padres Carlos Lobo (sempre a conduzir), José Diomário e Toller. Tirando alguns troços, a estrada está em muito bom estado e a velocidade é de auto-estrada. Paisagens bonitas, com muito verde e montanhas. Galgados cerca de 370 Km, chegámos ao Gurúè, à nossa Escola Industrial, orientada pelo P. Ilario, onde almoçámos. O Bispo do Gurúè já lá estava a almoçar. Visitada de relance a Escola, com as suas múltiplas secções, partimos rumo a Milevane. Pelo caminho visitámos a Casa do Noviciado no Gurúè (P. Saraiva e quatro noviços), a Missão do Gurúè, criada por nós e entregue a dois padres diocesanos, a casa das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição (ainda no Gurúè). No final da tarde do dia 1 já estava em Milevane para jantar e pernoitar. Uma grande casa num espaço de beleza natural. O nosso terreno tem a dimensão de 1.200 (mil e duzentos!) hectares, com casas, machambas, lagos e montanhas… Antigo seminário (chamava-se Escola Apostólica S. Francisco Xavier), é agora um centro de espiritualidade. Estava a decorrer o retiro das Irmãs do Amor de Deus, orientado pelo P. Elio Greselin. Entre elas, uma tia do P. Leandro e outras que recordam todos os portugueses que por ali passaram.
7. Pela manhã do dia 2, fomos até ao Alto Molócuè, onde temos uma vasta Missão (a primeira presença dehoniana em Moçambique foi na antiga missão) e um centro juvenil e vocacional, em fase final de construção, anexo à nova casa da comunidade, no centro da cidade, mais propriamente na velha pista do aeroporto. Pelo caminho, visitámos a Missão de Nauela. No Alto Molócuè, falei e almocei com as duas voluntárias Vera e Sónia, que se encontram neste momento a organizar a biblioteca e irão colaborar principalmente no projecto juvenil. Após o almoço, regressámos a Milevane, onde estavam a chegar os confrades da Província para o retiro. Aproveitei para pensar um pouco o esquema deste retiro de cinco dias.
8. Da manhã do dia 3 ao almoço do dia 7, passámos o tempo em retiro espiritual. O ambiente exterior a tal ajudava. Tempo passado em oração, em meditação, em renovação de vida… A 4 de Janeiro, celebrámos o 48º aniversá
;rio da casa de Milevane. O P. Toller historiou brevemente a memória desta casa e de todos os que aí passaram, em particular os confrades portugueses. Desde o início, ainda como religioso estudante, esteve presente o P. Manuel de Gouveia (recentemente falecido). Depois, seguiram-se tantos outros, como o P. José Diomário (agora em Maputo), o P. Vargem (no clero diocesano do Funchal), o P. José Alves (falecido), o P. José Bairos (falecido, um dos primeiros portugueses na Missão de Madagáscar), D. Manuel Quintas (Bispo do Algarve), o P. Fernando Fonseca (Aveiro), o P. Isildo (Funchal), o P. Adérito (Alfragide), o P. Ornelas (actual Superior Geral)… Tivemos outras presenças portuguesas, mas não estiveram propriamente nesta casa.
9. A 7 de Janeiro, terminado o retiro, aproveitei a tarde para visitar a Missão Protestante de Nauela (com início em 1913) e respectivo cemitério, vi novamente a Missão de Nauela em todo o seu esplendor (iniciada em 1947), subi a um dos montes para visitar uma família e ver os ambientes típicos, fui até às nossas lagoas, vi ao longe a longa extensão da machamba… sempre com as indicações precisas e preciosas do P. Ciascato, especialista nestas coisas da cultura e da arqueologia.
10. Bem cedo no dia 8, após me despedir dos confrades que iam iniciar a Assembleia Provincial, parti para Quelimane, conduzido pelo António, confrade do Brasil em estágio de vida religiosa, e pelo noviço Manuel. Passámos por Nauela, apanhámos a estrada que vem do Gurúè, passámos no Ile (que já foi nossa missão) e em Mugeba, parámos na casa das Irmãs do Amor de Deus em Mocuba. Ofereceram-nos um apetecível refresco e um bom café, além de um bonito presépio em pau-preto. Continuámos viagem para Quelimane, com passagem em Namacurra e Nicoadala. Seis horas de viagem para 430 Km, incluída a hora de paragem na casa das Irmãs. A seguir ao almoço, ainda visitei Quelimane, com as características ruas bem esburacadas, a contrastar com o bom estado da maior parte da estrada percorrida.
11. Refeitas as malas, toca a partir para o aeroporto. Já depois da prevista hora da partida e não havendo aparelho voador à vista além dos fiéis mosquitos, deram finalmente um aviso dizendo que o avião da AIR CORRIDOR havia sido desviado para Pemba, devido ao mau tempo em Nampula. Não havia a certeza de quando chegaria ou mesmo se chegaria. Lá passei as horas falando um pouco com a Irmã Vitória, Superiora Geral das Irmãs de Nossa Senhora da Visitação, fundação diocesana do bispo D. Bernardo, e com um senhor brasileiro, ministro da comunhão e que conhecia muito bem os nossos padres no Brasil. A companhia aérea ainda nos ofereceu um jantar no aeroporto, simples mas quente e saboroso. Embora com várias horas de atraso, o avião lá aterrou e voltou a partir. Chegado pela meia-noite a Maputo, telefonei para o P. Ricardo que, como combinado, me veio buscar. Ainda deu para preparar bagagens e dormitar um pouco, antes de encetar nova viagem.
12. Terça-feira, 9 de Janeiro. Bem cedo preparei-me para ir para o aeroporto, conduzido pelo P. Ricardo. Não deu tempo para visitar Maputo nem para ver a outra comunidade do Fomento. Fica para outra oportunidade, se houver… Pelas 11.30 horas, antes do horário previsto, lá estávamos a levantar voo, num avião da Southafrica Airlines. Pelas 12.30 horas, aterrávamos em Joanesburgo, onde deveria ficar quatro horas à espera do voo da companhia angolana TAAG, um daqueles monstros da Boeing, que chegou dentro do horário. Deveria… Só que o avião tinha três motores avariados (felizmente um estava bom…). Da sala de espera lá íamos vendo a reparação dos três motores, durante horas a fio, com todo aquele movimento de mecânicos e técnicos, com enormes chaves inglesas de metro e muito material de apoio. Com todo aquele aparato, já não contava viajar naquele dia. Ia vendo aviões de todo o mundo a chegar e a partir, um deles para Lisboa… Joanesburgo é, de facto, um centro nevrálgico de comunicações aéreas. Nestes mundos vamos percebendo que os nossos centros de interesse na Europa ficam tantas vezes reduzidos a pequena dimensão. Mas lá partimos algumas horas depois, após enorme confusão no embarque, para aterrar em Luanda já perto da meia-noite, com algumas horas de atraso. À minha espera estavam o P. Amândio e o P. Domingos. Chegada rápida à nossa bela casa, pois àquela hora não havia demasiado trânsito (mas há sempre muito!). Ainda nos esperavam os padres Madella, Jorge e Joaquim (o P. Vincenzo fora descansar, pois tinha missa bem cedo no dia seguinte). Deu para fazer um brinde e manifestar a alegria pelo reencontro entre confrades.
E aqui estou estes dias para, juntamente com os confrades da Comunidade Territorial de Angola, estarmos algum tempo em retiro e fazermos o ponto da situação desta Missão em duas Comunidades (Viana e Luau), em atitude de avaliação e de perspectivação. Nos próximos dias, espero partilhar convosco algumas notícias sobre esta presença missionária em Angola.
Sempre unido no Coração de Jesus, envio-vos um abraço amigo e fraterno.
| Manuel Barbosa, scj |