Porque nos custa ficar em casa?

A casa é o lugar onde posso estar à vontade e ser eu mesmo, sem máscaras impostas, sem a ditadura do politicamente correcto, sem fingimentos nem encenações de bom tom. Dentro de casa, os sorrisos são genuínos e não estão dependentes das câmaras nem do trabalho artístico do dentista. De facto, se «os ambientes onde vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir, podemos, no nosso quarto, na nossa casa, usar o ambiente para exprimir a nossa identidade» (LS 147).

A casa aparece então como uma construção nossa, porque a vamos modelando, segundo a nossa maneira de ser, a tal ponto que ela se torna um reflexo daquilo que somos e da forma como vivemos. É nela que guardo as minhas coisas, sobretudo aquelas que têm para mim um grande valor afectivo. A casa é o lugar que representa a minha própria vida e as minhas raízes. Por isso, a nossa casa chega a ser a nossa autobiografia – talvez a mais completa de todas – e quem conseguir ler esse livro estará a ler o nosso coração…

A casa é também o lugar onde posso estar e conviver com quem gosto. Vivo nela com a minha família e posso convidar os meus amigos para passarmos juntos um bom momento. Neste sentido, entrar em casa de alguém é como entrar num pequeno santuário, num espaço sagrado, que devemos sempre respeitar. Não entramos em casa de um amigo como entramos no supermercado. O convite para ir a casa de um amigo é um dom que devemos agradecer e que nos deve alegrar muito. O dia em que entramos na morada de um amigo é certamente um dia que vale a pena.

A casa é também o lugar onde me sinto seguro e tranquilo, sem ter de estar a fazer alguma coisa para me sentir bem. A expressão «sentir-se em casa» diz muito acerca deste estar seguro, confortável, sereno, pouco ou nada preocupado com o que vem a seguir, nem ofegante com os horários e as tarefas a cumprir…

A casa é o lugar donde saio, mas para onde sempre regresso, porque é a minha referência e o meu abrigo. Entrar em casa é o movimento paralelo da entrada no coração como espaço mais íntimo.

Ter uma casa, portanto, é ter tudo isto. «A propriedade da casa tem muita importância para a dignidade das pessoas e o desenvolvimento das famílias. Trata-se duma questão central da ecologia humana» (LS 152). Vivemos tempos de confinamento, isto é, momentos em que nos pedem para ficarmos em casa. Muitos não podem fazê-lo, mas também há quem não o queira fazer. A sua casa pode não ser um espaço agradável nem cálido; pode não ser um lugar alegre e pacífico; pode não ser uma casa de sonho.

Não sabemos como seria a casa de Jesus, mas sabemos que um discípulo, depois de ver onde ele morava e passar algum tempo com ele, foi informar o seu irmão que tinha encontrado o Messias. A casa é também o lugar de revelação da identidade mais profunda…

José Domingos Ferreira, scj