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Da "questão operária" à "questão social"

S. Quentin era uma pequena cidade industrial do Norte de França; o primeiro choque sentido pelo jovem sacerdote Dehon é com a situação operária. Ele descobre todos os problemas dos operários assalariados, sem garantias da parte do Estado, com um clero que ainda não adquiriu sensibilidade para a “questão operária”. Faz uma análise lúcida da situação, que assim é descrita: “Cedo fiquei em contacto com o povo; os habitantes de S. Quentin vivem com um salário diário, salário que sobe e desce como o preço dos escravos… As casas são infectas, verdadeiros ninhos de ratos. Os operários são vítimas da tirania de patrões ávidos e sem escrúpulos. Basta uma doença, uma maternidade, um acidente de trabalho, e aí está a fome! e, enquanto os pais estão na fábrica de 11 a 14 horas por dia para ganhar o necessário para a vida, os filhos vagueiam pelas ruas, tornando-se presa fácil do vício ou da delinquência… Nas Igrejas não se vêm operários: lêem jornais anticlericais, nutrem ódio pela sociedade actual, antipatia pelos patrões, descontentes contra o clero que pouco faz por eles… Esta sociedade está pobre e todas as reivindicações operárias têm um fundamento legítimo”.

Em síntese, observava que para os operários havia somente “deveres sem direitos” e para os empresários só “direitos sem deveres”.

Leão Dehon apercebe-se das novas necessidades emergentes do povo e intui a resposta que se deve dar: “As novas necessidades exigem procedimentos novos. É preciso que a Igreja saiba mostrar que não é capaz apenas de formar almas piedosas, mas também fazer reinar a justiça, de que os povos estão ávidos. É preciso por isso que o padre se dedique a novos estudos, a novas obras… A velha Teologia (ensinada no Seminário) não é suficiente, é preciso afrontar as questões sociais… Não basta administrar os Sacramentos, é preciso fundar patronatos, abrir caixas de poupança, cooperativas…”.

Leão Dehon intui que para resolver a questão operária devem intervir ao mesmo tempo todas os grandes componentes da sociedade. A Igreja com a pregação e a promoção humana, mediante o reino da justiça e da caridade cristã. O Estado deve garantir os direitos dos trabalhadores por meio das reformas, a programação, as leis sobre os contratos, os salários, o descanso… Os próprios Trabalhadores com as cooperativas, associações, sindicatos… Os Empresários, o Patronato, como eram denominados então, com a consciência dos seus deveres para com os operários, para garantir a higiene no trabalho, a cooperação na gestão… Esta foi a grande intuição pastoral de Leão Dehon, para o qual a “questão operária” torna-se “questão social”, no sentido que coinvolge e interpela toda a sociedade.

Como nasceu esta vocação social, esta missão providencial no Pe. Dehon? Isto mesmo se perguntava ele nos últimos anos da sua vida e respondia assim: “A Providência tinha-me preparado para esta missão através dos meus estudos de direito em Paris e o meu Patronato em S. Quentin”; “Em Roma tinha muitas vezes orientado as minhas leituras nesse sentido…”
Embora ele fosse oriundo de uma família burguesa e abastada, mesmo já rapaz em Hazebrouk e jovem estudante em Paris, através da Conferência de São Vicente de Paulo, ele foi educado a sentir-se próximo dos pobres.
A quem o acusava pelo seu empenho social, ele respondia: “Neste apostolado social eu não queria senão reerguer os pequenos e os humildes, segundo o espírito do Evangelho”.

Da entrevista do P. Umberto Chiarello Scj à TeleDehon em Março de 1996, publicada como opúsculo para os benfeitores na revista “Piccola Opera Sacro Cuore” de Vitorchiano, em Março de 1997.

Tradução: P. Manuel Chícharo, scj