Print Friendly, PDF & Email

 

 

 

Empenho político

O Pe. Dehon viveu plenamente o seu tempo, inserido no tecido religioso, social e político da sua época, trabalhando activamente para a sua transformação em direcção a metas de justiça social e de democracia política. Movido por zelo sacerdotal empenhou-se com muita força no social, pelo que vinha como consequência também a atenção à vida política.

Ele viveu a história da França no período que vai desde o Imperador Napoleão III (1852) até ao fim da primeira Guerra Mundial (1918): desde o tempo do império e da monarquia até ao surgir da terceira república francesa (1870); desde o tempo da nobreza e da burguesia até ao nascimento dos partidos políticos.

O anticlericalismo republicano (1870-1914), além de combater a Igreja, introduz na sociedade civil um sentido de irreligiosidade, de materialismo e de ateísmo. “Uma falsa táctica dos conservadores e dos católicos fez crescer a força do partido antireligioso. Os católicos e os conservadores permaneciam agarrados aos velhos partidos políticos, embora fosse evidente que não havia nenhuma séria esperança pelo regresso da monarquia. Era colocar a Igreja contra as massas populares, que queriam a república” (NHV XII, 105). Pela leitura crítica dos acontecimentos, como também depois pelas intervenções de Leão XIII, o Pe. Dehon, de conservador e monárquico que era converter-se-á à democracia e à república.

O Papa Leão XIII, não obstantes as resistências do clero francês, procurará o diálogo e a reconciliação com a república francesa. O princípio delineado pelo Papa é claro e linear: A Igreja aceita os governos legalmente constituídos, sejam monárquicos ou republicanos, e isto para colaborar para o bem comum; o empenho dos católicos é de colaborar na formulação de leis justas e de lutar com meios legais contra as leis injustas.

O Pe. Dehon não se empenha directamente na actividade política, como alguns padres farão, mas defenderá, com seus escritos e conferências, as ideias do Papa Leão XIII, dando assim o seu contributo para o desenvolvimento das ideias democráticas no clero francês.

O Pe. Dehon fala de “democracia cristã” como governo do povo, e não de uma classe social, para o bem do povo, e cuja política deve inspirar-se nos princípios cristãos da justiça e da caridade, com a finalidade de realizar a justiça social. Ele observa com ironia: “Os católicos conservadores vêem como meios de salvação apenas duas virtudes pessoais: a beneficência cristã por parte do patrão e resignação cristã por parte do operário…,pelo contrário deve ser colocado em primeiro lugar o cumprimento da justiça”.

Comemorando a morte do Papa Leão XIII, na sua revista “O Reino” em Agosto de 1903, Leão Dehon lança um olhar penetrante sobre o nosso século: “Este século (XX) será democrático. Os povos querem uma grande liberdade civil, política e comunal. Os trabalhadores querem uma parte razoável do fruto das suas fadigas. Mas esta democracia ou será cristã ou não será democracia. A natureza humana está impregnada de egoísmo. Todas as civilizações pagãs viram os fracos oprimidos pela força. Só o Evangelho pode fazer reinar a justiça e a caridade… O século XX fará tentativas desastrosas e voltará ao Evangelho para não perecer na anarquia”. Assim tinha escrito o Pe. Dehon e isso foi uma profecia para o nosso tempo!

Da entrevista do P. Umberto Chiarello Scj à TeleDehon em Março de 1996, publicada como opúsculo para os benfeitores na revista “Piccola Opera Sacro Cuore” de Vitorchiano, em Março de 1997.

Tradução: P. Manuel Chícharo, scj