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26junho200517h30

Ultimamente, vários jornais de ampla difusão na França e também fora, publicaram artigos a propósito do Padre Leão DEHON, fundador da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, relativamente a dificuldades levantadas à volta da sua beatificação, que foi adiada.
Essas dificuldades vêm de passagens anti-judaicas que se encontram nalguns dos seus escritos.
A leitura desses artigos convida-nos a dar alguns esclarecimentos que nos parecem necessários.
Quando se iniciou o processo em vista da beatificação do Padre DEHON, a Congregação apresentou toda a sua obra, em edição completa, a qual sempre esteve ao alcance de todos. Nomeadamente os seus escritos de carácter social, donde são extraídas as passagens em questão.
Todos estes escritos foram submetidos a exame ao longo do processo: sem qualquer censura nem ocultação da parte da Congregação do Padre Dehon. Eles foram cuidadosamente examinados pelo censor nomeado pela Congregação da Causa dos Santos, um teólogo perito na questão social. E eles foram positivamente apreciados, como a obra de um apóstolo particularmente atento às questões da sociedade do seu tempo.
Segundo o nosso conhecimento, não foi emitida nenhuma reserva sobre o fundo das suas posições.
Por outro lado, agora e para o futuro, a Congregação dehoniana submete-se ao prudente julgamento da Igreja.
O carácter anti-judaico das passagens incriminadas é incontestável. Contudo, a verdade obriga a reconhecer que estas passagens envolvem apenas um aspecto, relativamente restrito, na abundante obra social do Padre Dehon. Elas datam de um determinado período do empenho social do seu autor e, segundo a opinião de muitos historiadores, no clima social do ambiente de então, elas são uma voz entre muitas outras, em particular entre as dos católicos sociais.
Temos de recordar, sobretudo, que elas são inseparáveis da análise social e política que as motiva: o compromisso em promover efectivamente o advento da justiça social no contexto da sociedade daquele tempo, com a preocupação de denunciar as causas do mal social, em particular a especulação, a usura excessiva…
É isto que levava o Padre Dehon, utilizando muito facilmente, sem dúvida, e de maneira não crítica a informação difundida nessa época, a denunciar a influência judaica em postos-chaves, particularmente no campo financeiro. Isto foi para ele apenas um dos elementos de uma análise muito mais completa. Aliás, nisso não é nem original nem particularmente agressivo, e não manifesta nenhum ódio pessoal. Ele não deixa de fazer o elogio do povo judeu, povo providencial na história de salvação.
É esta moderação que, no tempo do Padre Dehon e também depois, foi constantemente acentuada. O carácter anti-judaico, nunca ignorado, menos ainda ocultado, não foi considerado por ninguém como característica da personalidade do Padre Dehon, reconhecido por todos como um homem respeitoso e pacífico. Esse carácter em nada influenciou ou limitou a Congregação do Padre Dehon no serviço da sua missão.
Estes esclarecimentos não pretendem desculpar nem justificar. Os textos postos em causa são lamentáveis, insuportáveis para nós hoje. Contudo, é preciso saber situá-los no seu contexto. Seria objectivamente injusto reduzir o seu autor a este aspecto lamentável da sua obra. E seria um anacronismo julgá-los conforme a sensibilidade do nosso tempo.
Se é verdade que o anti-judaismo não encontrou na historiografia da Congregação do Padre Dehon toda a atenção desejável, é também verdade que a história religiosa em geral não desenvolveu uma tal sensibilidade a não ser numa época em que o processo de beatificação já entrara na sua fase decisiva.

Roma, 11 de Junho de 2005

A Comissão Teológica SCJ