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A propósito da beatificação do Pe. Leon Dehon que vai ocorrer em Roma, no dia 24 de Abril, presenciada por uma grande representação da diocese do Funchal, D. Teodoro de Faria escreve a seguinte nota Pastoral, onde evoca a vocação do Padre Dehon e a chegada dos padres missionários do Sagrado Coração de Jesus à Madeira, a sua acção pastoral na Diocese e no mundo, e convida a estar em Roma nesse dia, para participar na cerimónia da sua beatificação.

1. A Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus é conhecida na diocese do Funchal desde 13 de Outubro de 1946, o seu Fundador, o Padre Leão Dehon, embora não sendo um desconhecido entre nós, merece uma maior divulgação e reconhecimento, pois é uma eminente figura da Igreja. A sua beatificação, já marcada pela Santa Sé para 24 de Abril deste ano, será uma ocasião para o tornar mais conhecido e invocado junto de Deus pelo nosso povo.
Nascido em França, junto da fronteira com a Bélgica, a 14 de Março de 1843 numa família de nobre ascendência, Deus mostrou por sinais claros ao jovem Leon que o chamava para o sacerdócio. Contrariado pelo seu pai na vocação, Leon estudou direito em Paris, esperando a ocasião propícia para os estudos de filosofia e teologia, o que veio a acontecer em Roma, após uma audiência com o beato Pio IX. Ficou hospedado como aluno no Seminário francês, junto ao Panteon, e frequentou a Universidade Gregoriana. Ordenado sacerdote, com a aprovação do pai, «durante um ano inteiro, escreveu, não fui capaz de celebrar sem lágrimas uma só vez».
Ao deixar Roma, ficou escrito nos registos do Seminário: Leão Dehon, da diocese de Soissons. Carácter excelente. Capacidade grandíssima. Piedade e regularidade perfeitas.
É este o carácter do jovem que Deus vai guiar na sua diocese, através de muitas dificuldades e trabalhos. Ele próprio vai reconhecer que a acção exterior o esmagava e a vida interior ressentia-se com demasiadas obras.
Sentindo-se inclinado para a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e reparação, confia ao seu bispo o projecto escondido de fundar um Instituto. Recebeu o consentimento do seu superior, que para ele significava o selo de Deus.
Como em todas as grandes obras da Igreja, as dificuldades foram muitas e as provações muito fortes. Por causa de problemas de membros exaltados, teve até de depor em Roma, junto do Santo Ofício, que usou de mão forte para com o jovem sacerdote. A obra não morreu e a prova teve efeitos benéficos. O bispo escreveu-lhe então: «Hoje vós estais no caminho querido por Deus».
A obra expande-se para fora da diocese e da Europa, embora sujeita a numerosas críticas e dificuldades. Em 1902 os religiosos estrangeiros são expulsos da França e os bens das Congregações religiosas confiscados e vendidos ao desbarato.
O Padre Dehon procurou resolver todos os problemas surgidos com esta prova, chegando a escrever quinze cartas por dia.
Preparava o nono Capítulo Geral da Ordem, quando o Senhor o chamou à sua presença, a 12 de Agosto de 1925.

O Coração de Cristo
2 – A característica da obra do Padre Dehon, não é o ensino nem a caridade, mas o «espírito de amor e de reparação ao Coração de Jesus». «O Coração de Cristo, escreve, é o símbolo do amor divino e humano de Jesus… é todo o Evangelho… O Coração de Jesus é como um novo nome de Jesus que ama, manifesta e encarna o amor de Deus».
O Pe. Dehon não inicia uma nova corrente de espiritualidade, ele vai ao centro do cristianismo, o amor. Lê o Evangelho e vive o mistério cristão sob o prisma do amor. Jesus é o amigo que pede o que há de mais central no homem: o coração, isto é o amor.
O Pe. Dehon vive em profunda união com Cristo, mas também com as realidades humanas, onde se incarna o amor de Deus. Desta forma ele funde o amor de Cristo com o empenhamento apostólico e até social. «Nisto conhecemos o Amor, escreve S. João. Ele deu a vida por nós. Também nós devemos dar a vida pelos irmãos» (Jo. 3, 16).

O Pe. Dehon na Madeira
3 – Através dos seus filhos, os sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, o Pe. Dehon chegou à Madeira em 1946, há cerca de 59 anos.
O Cardeal Teodósio de Gouveia, querendo patrocinar a causa missionária em Moçambique, pediu em Roma a Mons. Tardini, da Secretaria de Estado do Papa, que enviasse sacerdotes dehonianos para a Madeira, onde havia muitas vocações, para preparar sacerdotes para o mundo missionário.
O bispo D. António Manuel Pereira Ribeiro, embora não partilhando do «demasiado optimismo» do Cardeal Gouveia, acolheu na Diocese os padres do Sagrado Coração de Jesus.
Passados estes anos o Colégio Missionário tem cumprido a sua missão. De alguma forma os seus membros, juntamente com outros padres e leigos, apresentam o rosto missionário da nossa Diocese que nunca perdeu a sua vocação universal.

Na liturgia da beatificação, a 24 de Abril, a Diocese do Funchal estará presente em Roma com o seu bispo, sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus e muitos leigos que peregrinam ao túmulo de São Pedro nesta ocasião solene.
Num curto período de tempo a nossa Diocese rejubila com dois heróis da santidade que tanto influenciaram a piedade e a evangelização, o beato Carlos de Áustria e o Pe. Leão Dehon.
Peçamos a Deus para que a saúde do Santo Padre continue a melhorar para que a cerimónia da beatificação se realize com toda a solenidade que a figura do Papa lhe confere, como sucessor de São Pedro.
A 29 de Maio, na Sé do Funchal, agradeceremos publicamente a Deus a graça da beatificação do Pe. Dehon e a sua presença na Madeira através dos sacerdotes dehonianos nas paróquias, educação juvenil e dos padres que, nascidos nesta Diocese, exercem o seu ministério em várias partes do mundo, incluindo o Superior Geral, em Roma.
No Ano da Eucaristia, a espiritualidade do Pe. Dehon, é uma oferta de Deus para melhor conhecer as «insondáveis riquezas» (Ef. 3, 8) do Coração de Jesus Cristo no sacramento do altar, sinal do grande amor de Deus pela humanidade,

Funchal, 13 de Março de 2005,
D. Teodoro de Faria, Bispo do Funchal

in AGÊNCIA ECCLESIA