A vida de Jesus fez-se de múltiplos e variados encontros, com gente de todo o tipo. Os evangelhos estão costurados com muitos relatos, que nos mostram como realmente Jesus não fazia acepção de pessoas nem vivia numa bolha hermética.
Só para dar um exemplo, recordemo-nos daquele homem rico, que se aproxima de Jesus com essa pergunta extraordinária: «bom mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?». Não sabemos o seu nome, não voltaremos a ouvir falar dele, mas chegou até nós este relato do seu encontro com Jesus.
Os encontros com Jesus não se ficavam por aqueles cumprimentos formais de ocasião nem eram reuniões de trabalho. Quem se via cara a cara com Jesus entrava num diálogo profundo e sincero, do qual podia sair verdadeiramente transformado. Jesus, portanto, era um “mestre do encontro”: não levantava muros entre as pessoas, não aumentava as distâncias de separação, não erguia obstáculos à relação…
Diz Vinicius de Moraes que «a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida» (FT 215). Criados para o encontro, sentimos a cada passo como a nossa própria vida está distante deste desejo profundo que levamos dentro de nós. No entanto, a realidade palpável do desencontro não deve apagar este valor do encontro – com a atracção que ele produz em nós – nem a motivação para o viver e propor continuamente. Criados para viver em comunidade, damo-nos conta que estamos cada vez mais isolados e sós, mas isto não significa que devemos deixar de propor e promover a aproximação entre as pessoas.
Uma cultura do encontro aponta para um estilo de vida que integre as diferenças e que se deixe enriquecer por elas. Uma genuína cultura do encontro dá corpo a um modo de vida que considera que «de todos se pode aprender alguma coisa», pois «ninguém é inútil nem supérfluo» (FT 215). Enfim, uma verdadeira cultura do encontro não se compagina com relações descartáveis ou meramente utilitaristas.
Uma pessoa, forjada por esta cultura do encontro, sente gosto em estar com outras pessoas, mas, ao mesmo tempo, também sabe conviver com as diferenças, respeitando-as e integrando-as convenientemente. Isto só é possível, porém, se vencermos o medo do outro e se deixarmos de o olhar como um perigo, um adversário ou um inimigo. Neste sentido, a partir do que temos vivido nesta pandemia do Covid-19, pode ser útil que cada um se pergunte a si mesmo: como é que agora olho a outra pessoa, que é diferente de mim?
Nas palavras do Papa, «falar de cultura do encontro significa que nos apaixona querer encontrar-nos, procurar pontos de contacto, lançar pontes, projectar algo que envolva a todos» (FT 216). Só assim uma cultura do encontro se converte numa aspiração e num estilo de vida. Esta cultura do encontro ou toca a todos ou torna-se numa ideologia e numa forma de manipular as massas.
José Domingos Ferreira, scj