Nas nossas igrejas, os bancos de madeira são bem mais do que aquele lugar onde nos sentamos nas celebrações. Eles lembram também que há um lugar para todos, sem que a posição social ou a proveniência geográfica sirvam de elemento distintivo ou hierarquizador. Aliás, nas nossas igrejas, a única distinção possível seria a de quem ocupa o lugar mais à frente, mas o curioso é que esses são precisamente os lugares que com frequência ficam vazios.
Fratelli Tutti é uma encíclica sobre a fraternidade e a amizade social. Embora a expressão “amizade social” soe a algo inédito e, portanto, muito querido ao actual papa, o tema da fraternidade merece uma atenção demorada. De facto, ao longo do texto, o papa Francisco procura matizar o tipo de fraternidade que é necessária ao mundo de hoje. Fá-lo com o recurso a dois adjectivos: uma fraternidade aberta (FT 1 e 94) e universal (FT 9.50.106.110.142.173.176.276.286).
Uma fraternidade aberta e universal – uma fraternidade inclusiva teria uma conotação mais ideológica – não sintoniza com uma «cultura dos muros» (FT 27), mas tem mais a ver com uma cultura das pontes (FT43.62.216.276), com esta capacidade de unir aquilo que está distante e separado, aproximar aquilo que está afastado, fazer com que aqueles que estão de costas voltadas possam, aos poucos, voltar a olhar-se e reconhecer-se. Ao bom estilo deste Papa, o diálogo é, sem dúvida, o caminho que todos temos de percorrer, sem medos nem hesitações, cientes que não iremos estar todos de acordo, mas que é possível chegar a consensos e linhas comuns de acção.
Uma fraternidade aberta e universal é o sonho de uma casa de portas abertas, onde todos têm o seu lugar ou, pelo menos, um lugar à espera da sua chegada, porque há muito que aí são esperados. Acostumamo-nos a falar da terra como a nossa «casa comum», como esse espaço onde todos têm o seu lugar, mas também já nos apercebemos que há lugares que são inabitáveis, como há pessoas que são indesejadas. Será que algum daqueles refugiados, que tentam atravessar o Mediterrâneo, consegue sentir que a Europa é uma casa de portas abertas? Ou será que a vê antes como uma muralha intransponível, pouco amistosa e disposta a usar da força, se necessário?
Temos, por isso, um longo caminho a percorrer. Espero que com esta nova encíclica não se caia no erro de abandonar a anterior, que nos falava precisamente sobre o cuidado da casa comum. É que, no fundo, elas estão profundamente unidas e as problemáticas que ambas tratam são inseparáveis. Com efeito, as duas falam-nos de ecologia: a Laudato si’ dá mais importância à ecologia natural, enquanto a Fratelli Tutti dá prioridade à ecologia humana. Penso que estes dois textos podem inspirar o nosso compromisso social, pois situam-nos no centro das principais problemáticas que afectam hoje o nosso mundo.
José Domingos Ferreira, scj