Festa da Sagrada Família – Ano A [atualizado]

ANO A

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ

Tema da Festa da Sagrada Família

 

O Deus que se vestiu de menino frágil e se apresentou aos homens no presépio de Belém encontrou abrigo numa família humana, a família de José e de Maria, dois jovens esposos de Nazaré, uma aldeia situada nas colinas da Galileia. Neste domingo, ainda em contexto de celebração do Natal do Senhor, a liturgia convida-nos a olhar para essa Sagrada Família; e propõe-nos que a vejamos como exemplo e modelo das nossas comunidades familiares.

Na primeira leitura um sábio israelita do séc. II a.C., empenhado em preservar os valores tradicionais do seu povo, convida os seus concidadãos a amarem e a honrarem os pais em todos os momentos da vida. Garante que Deus não esquecerá aqueles que assim procederem.

Na segunda leitura Paulo de Tarso lembra-nos que a opção por Cristo deve traduzir-se, na vida do dia a dia, em comportamentos compatíveis com a realidade do Homem Novo. Vivendo ao ritmo do amor, conforme as indicações de Cristo, devemos vestir-nos “de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência”, cuidando uns dos outros e perdoando as debilidades dos irmãos. Dessa forma seremos no mundo testemunhas e arautos da fraternidade.

No Evangelho Mateus oferece-nos uma “foto” a cores da família de Jesus. É, antes de mais, uma família que conta com Deus e que vive de Deus: escuta as indicações de Deus, aceita percorrer os caminhos de Deus, confia incondicionalmente em Deus. É, também, uma família unida, solidária, fraterna, onde cada um pode contar com o apoio incondicional dos outros, onde ninguém é descartado e deixado para trás, onde cada um é querido, cuidado, protegido e amado. É assim que se constrói uma família capaz de superar todas as provas e crises que a vida trouxer.

 

LEITURA I – Ben Sirá 3,3-7.14-17a [versão grega: 3,2-6.12-14]

Deus quis honrar os pais nos filhos
e firmou sobre eles a autoridade da mãe.
Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados,
e acumula um tesouro quem honra sua mãe.
Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos
e será atendido na sua oração.
Quem honra seu pai terá longa vida,
e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe.
Filho, ampara a velhice do teu pai
e não o desgostes durante a sua vida.
Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele
e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida,
porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida
e converter-se-á em desconto dos teus pecados.

 

CONTEXTO

O Livro de Ben Sirá (chamado, na sua versão grega, “Eclesiástico”) é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a “sábios” indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor é um tal Jesus Ben Sirá, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C.

A época de Jesus Ben Sirá é uma época conturbada para o Povo de Deus. Os selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicator, general de Alexandre Magno, que herdou parte do império de Alexandre, o Grande, quando este morreu, em 323 a.C.) dominavam a Palestina e procuravam impor aos judeus, mesmo pela força, a cultura helénica. Muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade”. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Neste contexto, Jesus Ben Sirá, um “sábio” judeu apegado às tradições dos seus antepassados, escreve para preservar as raízes do seu Povo. No seu livro, apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um Povo livre e feliz.

 

MENSAGEM

O texto apresenta uma série de indicações práticas que os filhos devem ter em conta nas relações com os pais.

A palavra que preside a este conjunto de conselhos do “sábio” Ben Sirá é a palavra “honrar” (repete-se cinco vezes, nestes poucos versículos). O que é que significa, exatamente, “honrar os pais”?

A expressão leva-nos ao Decálogo do Sinai (“honra teu pai e tua mãe” – Ex 20,12). Aí, o verbo utilizado é o verbo “kabad”, que costuma traduzir-se como “dar glória”, “dar peso”, “dar importância”. Assim, “honrar os pais” é dar-lhes o devido valor e reconhecer a sua importância; é que eles são os instrumentos de Deus, fonte de vida.

Ora, reconhecer que os pais são os instrumentos através dos quais Deus concede a vida deve conduzir os filhos à gratidão; e a gratidão não é apenas uma declaração de intenções, mas um sentimento que implica certas atitudes práticas. Jesus Ben Sirá aponta algumas: “honrar os pais” significa ampará-los na velhice e não os desprezar nem abandonar; assisti-los materialmente – sem inventar qualquer desculpa – quando já não podem trabalhar (cf. Mc 7,10-11); não fazer nada que os desgoste; escutá-los, ter em conta as suas orientações e conselhos; ser indulgente para com as limitações que a idade ou a doença trazem…

Dado o contexto da época em que Ben Sirá escreve, é natural que, por detrás destas indicações aos filhos, esteja também a preocupação com o manter bem vivos os valores tradicionais, esses valores que os mais antigos preservam cuidadosamente e que os mais jovens por vezes, com alguma ligeireza, negligenciam.

Como recompensa desta atitude de “honrar os pais”, Jesus Ben Sirá promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus. Numa altura em que a noção de “vida eterna” ainda não entrou na catequese de Israel, a referida recompensa é vista como a forma de Deus gratificar o comportamento do homem justo, enquanto filho que cumpre os seus deveres para com os pais.

 

INTERPELAÇÕES

  • Os nossos pais foram, em nosso favor, instrumentos do Deus criador. Através deles, Deus chamou-nos à vida. Sentimo-nos gratos aos nossos pais por eles terem aceitado colaborar com Deus, dando-nos vida e cuidando de nós ao longo do caminho que temos vindo a percorrer? Lembramo-nos de lhes demonstrar, com ternura e amor, a nossa gratidão?
  • Apesar da sensibilidade moderna aos direitos humanos e à dignidade das pessoas, a nossa civilização cria, com frequência, situações de abandono, de marginalização, de solidão, cujas vítimas são, muitas vezes, aqueles que já não têm uma vida considerada produtiva, ou aqueles a quem a idade ou a doença trouxeram limitações. No entanto, do ponto de vista de Deus, nenhum ser humano é “descartável”, ou estará alguma vez fora do prazo de validade. Não podemos admitir – com a nossa indiferença ou com o nosso silêncio cúmplice – que as pessoas em situação de fragilidade sejam abandonadas na berma da estrada, sempre que o mundo caminha a um ritmo que elas não podem acompanhar. Temos consciência disto?
  • É verdade que a vida de hoje é muito exigente a nível profissional e que nem sempre é possível a um filho estar presente ao lado de um pai que precisa de cuidados continuados ou de acompanhamento especializado. No entanto, se alguma vez as circunstâncias impuserem a necessidade de afastamento de um pai idoso ou descapacitado do ambiente familiar, isso não pode significar abandono e condenação à solidão. Seremos sempre responsáveis por aqueles que cativamos, e ainda mais por aqueles que foram, para nós, instrumentos do Deus criador e fonte de vida. Sentimo-nos responsáveis pelo bem-estar dos nossos pais, dos nossos avós, das pessoas idosas ou doentes que fazem parte da nossa história de vida?
  • O capital de maturidade e de sabedoria de vida que os mais idosos possuem é considerado por nós uma riqueza ou um desafio ridículo à nossa modernidade e às nossas certezas?
  • Face à invasão contínua de valores estranhos que, tantas vezes, põem em causa a nossa identidade cultural e religiosa (quando não a nossa humanidade), o que significam os valores que recebemos dos nossos pais? Avaliamos com maturidade a perenidade desses valores, ou estamos dispostos a renegá-los ao primeiro aceno dos “valores da moda”?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 127 (128)

Refrão 1: Felizes os que esperam no Senhor,
e seguem os seus caminhos.

Refrão 2: Ditosos os que temem o Senhor,
ditosos os que seguem os seus caminhos.

Feliz de ti, que temes o Senhor
e andas nos seus caminhos.
Comerás do trabalho das tuas mãos,
serás feliz e tudo te correrá bem.

Tua esposa será como videira fecunda
no íntimo do teu lar;
teus filhos serão como ramos de oliveira
ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.
De Sião te abençoe o Senhor:
vejas a prosperidade de Jerusalém
todos os dias da tua vida.

 

LEITURA II – Colossenses 3,12-21

Irmãos:
Como eleitos de Deus, santos e prediletos,
revesti-vos de sentimentos de misericórdia,
de bondade, humildade, mansidão e paciência.
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente,
se algum tiver razão de queixa contra outro.
Tal como o Senhor vos perdoou,
assim deveis fazer vós também.
Acima de tudo, revesti-vos da caridade,
que é o vínculo da perfeição.
Reine em vossos corações a paz de Cristo,
à qual fostes chamados para formar um só corpo.
E vivei em ação de graças.
Habite em vós com abundância a palavra de Cristo,
para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros
com toda a sabedoria;
e com salmos, hinos e cânticos inspirados,
cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão.
E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras,
seja tudo em nome do Senhor Jesus,
dando graças, por Ele, a Deus Pai.
Esposas, sede submissas aos vossos maridos,
como convém no Senhor.
Maridos, amai as vossas esposas
e não as trateis com aspereza.
Filhos, obedecei em tudo a vossos pais,
porque isto agrada ao Senhor.
Pais, não exaspereis os vossos filhos,
para que não caiam em desânimo.

 

CONTEXTO

A Igreja de Colossos, destinatária desta carta, foi fundada por Epafras, um amigo de Paulo, pelos anos 56/57. Tanto quanto sabemos, Paulo nunca visitou a comunidade…

Hoje, não é claro para todos que Paulo tenha escrito esta carta (o vocabulário utilizado e o estilo do autor estão longe das cartas indiscutivelmente paulinas; também a teologia apresenta elementos novos, nunca usados nas outras cartas atribuídas a Paulo); por isso, é um pouco difícil definirmos o ambiente em que este texto apareceu…

Para os defensores da autoria paulina, contudo, a carta foi escrita quando Paulo estava prisioneiro, possivelmente em Roma (anos 61/63). Epafras teria visitado o apóstolo na prisão e deixado notícias alarmantes: os Colossenses corriam o risco de se afastar da verdade do Evangelho, por causa das doutrinas ensinadas por certos doutores de Colossos. Essas doutrinas misturavam práticas legalistas (o que parece indicar tendências judaizantes) com especulações acerca do culto dos anjos e do seu papel na salvação; exigiam um ascetismo rígido e o cumprimento de certos ritos de iniciação, destinados a comunicar aos crentes um conhecimento mais adequado dos mistérios ocultos e levá-los, através dos vários graus de iniciação, à vivência de uma vida religiosa mais autêntica.

Sem refutar essas doutrinas de modo direto, o autor da carta afirma a absoluta suficiência de Cristo e assinala o seu lugar proeminente na criação e na redenção dos homens.

O texto que nos é hoje proposto pertence à segunda parte da carta. Depois de constatar a supremacia de Cristo na criação e na redenção (primeira parte), o autor avisa os Colossenses de que a união com Cristo traz consequências a nível de vivência prática (segunda parte): implica a renúncia ao “homem velho” do egoísmo e do pecado e o “revestir-se do Homem Novo” (Cl 3,9-11).

 

MENSAGEM

Os filhos e filhas amados de Deus devem imitar o ser de Deus, que lhes foi revelado em Cristo. Cristo, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens, é a referência fundamental à volta da qual se desenrola e se constrói a vida dos discípulos. Quem adere a Cristo e se dispõe a segui-l’O, deve vestir a mesma “roupa” que Cristo vestia – quer dizer, deve apresentar-se no mundo como Ele apresentava, dispor-se a viver ao jeito d’Ele, realizar as obras que Ele realizava.

O estilo de vida do seguidor de Cristo deve, portanto, estar marcado por atitudes de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência; deve privilegiar, na relação com os irmãos, o perdão, a compreensão, a indulgência… Aquele que está unido a Cristo, que vive “em Cristo”, deve ser capaz de, em todas as circunstâncias, amar sem medida, amar a fundo perdido, amar até ao dom total de si, como Cristo fez.

Catálogos de exigências semelhantes apareciam também nos discursos éticos dos gregos… O que é novo aqui é a fundamentação: tais exigências resultam da íntima relação do cristão com Cristo; viver “em Cristo” implica viver, como Ele, no amor total, no serviço, na disponibilidade, no dom da vida.

Uma vez apresentado o ideal da vida cristã nas suas linhas gerais, o autor da carta aplica o que acabou de dizer ao âmbito mais concreto da vida familiar. Às mulheres, recomenda o respeito para com os maridos (a referência à submissão das esposas deve ser vista tendo em conta o contexto e a prática da época); aos maridos, convida a amar as esposas, excluindo qualquer atitude de domínio tirânico sobre elas; aos filhos, recomenda a obediência aos pais; aos pais, com intuição pedagógica, pede que não sejam excessivamente severos para com os filhos, pois isso pode impedir o normal desenvolvimento das suas capacidades e da sua autonomia… Numa palavra, é a “caridade” (“agapê”) – entendida como amor de doação, de entrega, a exemplo de Jesus que amou até ao dom da vida – que deve presidir às relações entre os membros de uma família. Também no espaço familiar se deve manifestar o Homem Novo, o homem transformado por Cristo e que vive segundo Cristo.

 

INTERPELAÇÕES

  • A nossa vida de todos os dias é, a cada instante, marcada por tensões, ansiedades, conflitos e problemas que mexem com o nosso equilíbrio e a nossa harmonia. Perdemos o controlo, tornamo-nos quezilentos e conflituosos, criticamos os outros com palavras que magoam, assumimos poses de arrogância e de superioridade, enchemos as redes sociais com comentários infelizes… Talvez nos faça bem cada dia, em jeito de exame de consciência, reservar um momento para olhar para Jesus e para confrontar os nossos gestos, as nossas palavras, as nossas escolhas com os gestos, as palavras e as suas opções. Admitimos que esse “confronto” pode ajudar-nos a situar as perspetivas e a recentrar a nossa vida “em Cristo”?
  • A nossa primeira responsabilidade vai, evidentemente, para aqueles que connosco partilham, de forma mais chegada, a vida do dia a dia (a nossa família). Esse amor, que deve revestir-nos sempre, traduz-se numa atenção contínua àquele que está ao nosso lado, às suas necessidades e preocupações, às suas alegrias e tristezas, aos seus sorrisos e às suas lágrimas? Traduz-se em gestos sentidos e partilhados de carinho e de ternura? Traduz-se num respeito absoluto pela liberdade e pelo espaço do outro, por deixar o outro crescer sem o sufocar? Traduz-se na vontade de servir o outro, sem nos servirmos dele?
  • A expressão “esposas, sede submissas aos vossos maridos” é, evidentemente, uma expressão anacrónica, que deve ser devidamente contextualizada no universo cultural e social do séc. I, mas que hoje não faz sentido. Para os que vivem “em Cristo”, o valor que preside às relações é o amor… E o amor não comporta submissão ou superioridade, mas igualdade fundamental em dignidade e direitos. O mesmo Paulo dirá, noutras circunstâncias, que para os que vivem “em Cristo” “não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher”, porque todos são um só em Cristo Jesus (Gl 3,28). É este o horizonte em que vivemos e caminhamos? Alguma vez tratamos com sobranceria e superioridade as pessoas que caminham ao nosso lado?

 

ALELUIA – Colossenses 3,15a.16a

Aleluia. Aleluia.

Reine em vossos corações a paz de Cristo,
habite em vós a sua palavra.

 

EVANGELHO – Mateus 2,13-15.19-23

Depois de os Magos partirem,
o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe:
«Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto
e fica lá até que eu te diga,
pois Herodes vai procurar o Menino para O matar».
José levantou-se de noite,
tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto
e ficou lá até à morte de Herodes,
para se cumprir o que o Senhor anunciara pelo profeta:
«Do Egipto chamei o meu filho».
Quando Herodes morreu,
o Anjo apareceu em sonhos a José no Egipto e disse-lhe:
«Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe
e vai para a terra de Israel,
pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino
já morreram».
José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe,
e voltou para a terra de Israel.
Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia,
em lugar de seu pai, Herodes,
teve receio de ir para lá.
E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia
e foi morar numa cidade chamada Nazaré,
para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas:
«Há de chamar-Se Nazareno».

 

CONTEXTO

O interesse fundamental das primeiras gerações cristãs não se centrou na infância de Jesus, mas sim na Sua pregação e na Sua proposta de salvação; por isso, a primeira catequese cristã conservou especialmente as recordações sobre a vida pública e a paixão, morte e ressurreição do Senhor. Só num estádio posterior houve uma certa curiosidade acerca dos primeiros anos da vida de Jesus. Recolheram-se e ordenaram-se, então, algumas informações históricas sobre a infância de Jesus. Esse material serviu de base aos evangelistas Mateus e a Lucas para, a partir dele, tecerem as suas reflexões sobre o mistério de Jesus: a sua pessoa, a sua origem, a sua missão, a razão da sua presença no meio dos homens.

No entanto, a preocupação fundamental de Mateus e de Lucas – ao redigirem o “Evangelho da Infância de Jesus – não era de âmbito histórico e factual, mas sim teológico e catequético. Um e outro recorreram, para construir as suas narrativas, a métodos que os rabis da época utilizavam para explorar e comentar o texto bíblico e que incluíam histórias fantasiosas, reflexões, interpretações, comparações, tudo isso enlaçado com tipologias (correspondência entre factos e pessoas do Antigo Testamento e outros factos e pessoas do Novo Testamento), manifestações apocalípticas (anjos, aparições, sonhos) e outros recursos literários utilizados pelos “comunicadores” da época. O resultado desse trabalho é um texto muito belo, talvez um tanto ingénuo, artificioso e com base histórica discutível, mas que nos faz mergulhar profundamente no mistério de Jesus, o Deus que veio ao encontro dos homens e encontrou o seu “lar” numa humilde família de Nazaré.

Mateus situa nos dias do rei Herodes, o Grande, o episódio narrado no evangelho deste dia. Herodes nasceu por volta de 73 a.C. e morreu no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Tornou-se rei da Judeia no ano 40 a.C.; mas, a partir dessa data, foi recebendo das autoridades romanas jurisdição sobre outros territórios, até reinar sobre toda a Palestina. Embora se tenha distinguido pelas grandes obras que levou a cabo, Herodes foi um rei cruel e despótico, que para defender o seu trono cometeu atos de extrema violência, inclusive contra membros da sua própria família.

 

MENSAGEM

Quem é Jesus, aquele Menino que nasceu de Maria? Mateus, nos episódios que antecedem o texto que a liturgia deste domingo nos oferece, já alinhavou diversas respostas: Jesus é o Messias, o descendente de David, Aquele através de qual Deus vai concretizar as promessas feitas a Abraão e à sua descendência (cf. Mt 1,1-17); Ele é o Filho de Deus, nascido de Maria por obra do Espírito Santo, que vem ao encontro dos homens para ser o “Deus connosco” e para oferecer a salvação a todos aqueles que O quiserem acolher (cf. Mt 1,18-25); Ele é o “rei dos judeus” que nasceu em Belém, a terra de David, e que recebe a homenagem dos pagãos vindos de longe para o conhecer (cf. Mt 2,1-12). É tudo? Não. Para que o quadro de Jesus que Mateus nos quer desenhar fique completo, faltam alguns dados mais. O relato de Mt 2,13-15.19-23 fornece-os.

A narração de Mateus desenvolve-se em duas cenas. A primeira leva-nos até ao ano 7 ou 6 a.C., dois ou três anos antes da morte do rei Herodes. Herodes, o rei cruel que não suporta rivais, vê em Jesus uma ameaça e pretende eliminá-l’O. No entanto, Deus vela por Ele e avisa José, em sonhos, do perigo que o Menino corre. O próprio Deus sugere o lugar onde a família de Jesus deve buscar segurança: a província romana do Egito (vers. 13), território fora da jurisdição de Herodes, asilo bem conhecido para muitos que fugiam da perseguição do tirano que governava a Palestina. Correspondendo às indicações de Deus, José “levantou-se de noite, tomou o Menino e sua mãe e partiu para o Egipto e ficou lá até à morte de Herodes” (vers. 14-15).

A segunda cena leva-nos até ao ano 4 a.C., a altura da morte do rei Herodes. Jesus teria, por essa altura, dois ou três anos. Entra novamente em cena o anjo do Senhor que, em sonhos, avisa José da morte de Herodes e convida-o a regressar a Israel (vers. 19-20). José procedeu conforme as indicações (vers. 21); mas, ao saber que Arquelau, um dos filhos de Herodes, reinava na Judeia, “teve receio de ir para lá. Retirou-se para a região da Galileia, no norte da Palestina, e foi “esconder-se” numa cidade chamada Nazaré” (vers. 22-23), uma povoação praticamente desconhecida, com cerca de quinhentos habitantes, situada no meio das montanhas do norte do país. O “receio” de José fazia sentido: Arquelau revelou-se um governador impiedoso e despótico, que governou a Judeia e a Samaria alguns anos (de 4 a.C. a 6 d.C.) até ser deposto por causa da crueldade com que tratava os seus súbditos.

O catequista Mateus consegue ver nos acontecimentos relatados um paralelismo claro entre Jesus e Moisés, o profeta que Deus chamou e enviou para libertar o Seu povo da escravidão do Egito. O massacre das crianças de Belém pelo rei Herodes (cf. Mt 2,16-18) recorda a ordem do faraó de atirar ao rio Nilo os bebés hebreus do sexo masculino (cf. Ex 1,22); a fuga do menino Jesus através do deserto para escapar da morte (cf. Mt 2,14), lembra a fuga do jovem Moisés através do deserto para salvar a vida (cf. Ex 2,15); o regresso de Jesus do Egipto quando já tinha morrido o tirano Herodes (cf. Mt 2,15), recorda o regresso de Moisés ao Egipto quando já tinham morrido aqueles que o queriam matar (cf. Ex 4,19).

Mas há mais: a fuga da Sagrada Família para o Egito, para salvar a vida do Menino, lembra a ida para o Egipto da família de Jacob para escapar da fome (cf. Gn 46,1-7); a indicação dada por Deus a José para voltar com a sua família para a Terra Prometida (cf. Mt 2,19-20), recorda a ação libertadora de Deus em favor dos escravos hebreus prisioneiros no Egito; o caminho feito pela Sagrada Família no regresso à terra de Israel, lembra o caminho percorrido pelo povo de Deus até à terra da liberdade.

Mateus vislumbra nestes paralelismos um anúncio sobre Jesus e uma definição do programa que Ele vai realizar… Jesus, Aquele Menino que Deus salva das maquinações de Herodes, é o enviado de Deus que os grandes da terra não conseguirão derrotar. Esse Menino será o novo Moisés, o libertador enviado a salvar o povo de Deus. Pela ação de Jesus nascerá um novo povo de Deus; e esse povo, conduzido por Jesus, deixará definitivamente a terra da escravidão, do pecado e da morte, para iniciar uma vida nova na terra da vida e da liberdade. Mateus, no evangelho que escreveu, irá mostrar como Jesus concretizou esta missão.

No final da sua narração, depois de dizer que a família de Jesus foi estabelecer-se em Nazaré, Mateus deixa um comentário de difícil interpretação: (Isso aconteceu) “para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas: “há de chamar-Se Nazareno” (vers. 23b). Na verdade, não sabemos exatamente a que citação profética Mateus se refere. Será a Jz 13,5 (“esse menino será nazireu de Deus desde o seio de sua mãe) ou a Is 11,1 (“brotará um ramo do tronco de Jessé, um rebento – em hebraico: “neçer” – brotará das suas raízes”)? Embora nem a citação de Juízes nem a citação de Isaías tenham seja o que for a ver com Nazaré, Mateus usou-as pela semelhança fonética; o seu objetivo era mostrar aos judeus que, ao instalar-se em Nazaré, Jesus estava a cumprir as Escrituras e os desígnios de Deus.

No dia em que a Igreja celebra a Sagrada Família de Jesus, Maria e José, detenhamo-nos ainda um pouco a olhar para a realidade familiar que a narração de Mateus sugere. A família de Jesus, Maria e José é uma família pobre e humilde que, por causa da violência e da crueldade dos poderosos, tem de deixar o seu lar e buscar asilo num país estranho. Como tantas outras famílias pobres de ontem e de hoje, a família de Jesus experimenta a perseguição, a clandestinidade, a rejeição, a indiferença, as atribulações dos exilados e dos descartados. No entanto – diz-nos Mateus – os membros desta família não estão sozinhos na sua luta contra a maldade, a injustiça, a violência dos grandes do mundo: Deus está do lado deles em todos os momentos, indica-lhes o caminho que devem percorrer, protege-os, anima-os, guia-os, salva-os. Não é uma família “condenada” e perdida; é uma família que está nas mãos de Deus e que é conduzida pela solicitude amorosa de Deus.

Mas, além de contarem com Deus, os membros desta família também contam uns com os outros. A Família de Nazaré – a família que poderá ser modelo das nossas famílias – é uma família unida, solidária, fraterna. Os membros desta família caminham lado a lado, enfrentam juntos os perigos, as incomodidades, as incertezas, as crises, até mesmo o exílio numa terra estrangeira. É uma família que cuida dos mais frágeis, que se deixa “programar” pelas necessidades dos seus membros. É uma família onde ninguém é descartado, ninguém é deixado para trás. Na família de Nazaré vive-se esse amor até ao extremo que supera todos os egoísmos e que se faz dom absoluto ao outro.

A Sagrada Família é, finalmente, uma família que vive de Deus e que cultiva uma forte ligação com Deus. Escuta a Palavra de Deus, vive atenta aos sinais de Deus, procura seguir à risca as indicações de Deus, vive de olhos postos em Deus. O exemplo da Família de Nazaré mostra-nos que uma família que vive ao ritmo de Deus é uma família unida por laços fortes, que nem as maiores tempestades da vida conseguirão quebrar.

 

INTERPELAÇÕES

  • Nestes dias de celebração natalícia, tempo por excelência de reunião familiar e de fortalecimento dos laços familiares, a Igreja convida-nos a contemplar a Família de Jesus, Maria e José. Que vemos? Com que cores nos aparece desenhado este quadro familiar? Sobretudo com as cores da unidade, da solidariedade, da fraternidade, da comunhão. A Família de Nazaré não é uma família “sem problemas”, onde a vida não “dói” e onde tudo é um mar de rosas: é uma família perseguida e ameaçada, que tem de abandonar a comodidade do seu lar para viver na clandestinidade, que enfrenta a pobreza, a privação, a precariedade, talvez a hostilidade da gente da terra onde procurou refúgio… No entanto, é uma família que as vicissitudes e crises não conseguem derrotar. Os membros desta família mantêm-se unidos, solidários, dispostos a enfrentar juntos os riscos e perigos, disponíveis para qualquer sacrifício quando a vida de algum deles está em causa. Não vivem em compartimentos estanques, onde a dor do outro não chega; não se fecham nos seus mundos pessoais, surdos e indiferentes àquilo que se passa à volta… Sentem-se responsáveis pela vida do outro, estão dispostos a dar a vida pelo outro, amam-se verdadeiramente. São assim as nossas famílias? Nas nossas famílias há solidariedade, união e fraternidade? Sentimos os problemas do outro e empenhamo-nos seriamente em ajudá-lo a superar as dores que a vida traz? A nossa família é, apenas, um hotel onde temos (por preço módico) casa, mesa e roupa lavada, ou é um verdadeiro espaço de encontro, de partilha, de construção, de solidariedade, de comunhão, de amor?
  • A Sagrada Família é uma família onde Deus está quotidianamente presente e é referência fundamental. Ali escuta-se a Palavra de Deus, aprende-se a ler os sinais de Deus, faz-se a experiência do amor de Deus. É na escuta da Palavra de Deus que a família de Nazaré encontra força para vencer as crises e contrariedades; é na escuta de Deus que a família de Jesus, Maria e José consegue discernir os caminhos a percorrer; é na experiência de Deus que a Sagrada Família descobre e acolhe os valores que estão na base do seu projeto familiar… As nossa famílias são famílias construídas à volta de Deus? São famílias onde se aprende a dialogar com Deus e a ver Deus como um Pai bom e cheio de amor? São famílias onde se escuta a Palavra de Deus, onde se aprende a ler os sinais de Deus, onde se procura perceber o que Deus diz? Na organização do nosso projeto familiar, encontramos tempo, espaço e vontade para reunir a família à volta da Palavra de Deus e para partilhar, em família, a Palavra de Deus?
  • A Família de Jesus, Maria e José é, também, uma família que obedece a Deus… Depois de escutar as indicações de Deus, simplesmente age em conformidade. Não discute, não argumenta, não exige explicações suplementares, não pede garantias. Confia incondicionalmente em Deus e dispõe-se a concretizar os desígnios de Deus. Abandona o espaço onde se sente confortável e enfrenta o desconhecido com a confiança de quem está seguro da fiabilidade de Deus. Ora, é precisamente o cumprimento obediente dos projetos de Deus que assegura a esta família um futuro de vida, de tranquilidade e de paz. A nossa família aceita com serenidade os esquemas e a lógica de Deus – mesmo quando eles parecem incompreensíveis e estranhos à luz da lógica dos homens – e percorre, com confiança, os caminhos de Deus?
  • Quando numa família Deus “conta”, os valores de Deus passam a ser, para todos os membros daquela comunidade familiar, as marcas que definem o sentido da existência. O espaço familiar torna-se, então, a escola onde se aprende o amor, a solidariedade, a partilha, o serviço, o diálogo, o respeito, o perdão, a fraternidade universal, o cuidado da criação, a atenção aos mais frágeis, o sentido do compromisso, do sacrifício, da entrega e da doação… Procuramos que a nossa comunidade familiar seja uma “escola de valores” onde todos possam aprender os valores que dão sentido à existência? Procuramos, no contexto da nossa comunidade familiar, preparar cada um dos seus membros para ser um cidadão responsável e consciente, capaz de se comprometer na construção de um mundo mais justo, mais verdadeiro, mais fraterno, mais humano?
  • Vivemos num tempo difícil, que não favorece a construção de um projeto familiar coerente com os valores de Deus. Muitos pais, afundados em mil dificuldades, ultrapassados por uma sociedade de egoísmo, de bem-estar, de indiferença, de incredulidade, não sabem como agir no sentido de oferecer aos filhos uma educação responsável, sã, solidária, coerente com a fé cristã. Esses pais não poderiam e não deveriam receber, no exercício da sua missão de educadores, uma ajuda mais concreta e eficaz a partir das comunidades cristãs? Que apoio é que a comunidade cristã poderá dar aos pais crentes que encontram dificuldades no projeto de educar responsavelmente os seus filhos?
  • A família de Jesus foi obrigada a abandonar a sua terra para procurar segurança e paz numa terra estrangeira. Conheceu o mundo dos exilados, dos refugiados, dos “sem papéis”, dos perseguidos, dos rejeitados, dos que têm de lutar para terem um lugar onde se sintam “humanos” e onde possam viver com a dignidade que merecem. Vinte e um séculos depois, há famílias que continuam a percorrer um caminho idêntico: atravessam os mares em embarcações frágeis e sobrelotadas e arriscam a vida para tentar escapar da miséria, da violência, da fome; percorrem continentes a pé, enfrentam o pó dos caminhos e a violência das máfias, são detidos por muros que delimitam fronteiras e que os separam do sonho de uma vida melhor; conhecem todos os cantos e esquinas da clandestinidade, da miséria, da rejeição, do sofrimento… Como acolhemos e tratamos essas pessoas que chegam às nossas portas e nos estendem a mão? Como irmãos e irmãs por quem somos responsáveis? Temos consciência que fechar as portas a quem foge da violência ou da miséria é fechar as portas a Jesus, a Maria e a José?
  • No relato da fuga da Sagrada Família para o Egito, o evangelista Mateus estabelece uma correspondência entre as figuras de Jesus e de Moisés. Moisés foi chamado por Deus e enviado para libertar os hebreus da escravidão do faraó, rei do Egito; Jesus, o Messias de Deus, foi enviado por Deus ao mundo para libertar os homens da violência, da injustiça, do egoísmo, da maldade, de tudo aquilo que produz sofrimento e morte. Os escravos hebreus confiaram em Moisés e seguiram-no no caminho que levava à terra da liberdade; estamos nós, de igual maneira, disponíveis para acolher Jesus como o nosso libertador, para escutá-l’O, para confiar nas suas indicações, para O seguir no caminho que conduz à vida e à salvação?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA A FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA

(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

 

  1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo da Festa da Sagrada Família, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa…

 

  1. FAZER INTERVIR OS FILHOS.

Nesta festa da Sagrada Família, procure-se uma maior intervenção das crianças na celebração. Por exemplo, confiando-lhes um cântico (ou algumas estrofes cantadas por uma criança), confiando-lhes uma palavra de acolhimento na liturgia, confiando-lhes a proclamação de uma leitura, confiando-lhes a oração universal com algumas intenções por elas redigidas, confiando-lhes um momento de acção de graças…

 

  1. AS FAMÍLIAS À VOLTA DO ALTAR.

Onde tal for possível, pode-se convidar algumas famílias para ficarem à volta do altar durante a oração eucarística até à comunhão. Alguns podem ajudar a levar a comunhão à assembleia, juntamente com os celebrantes. Pode-se ainda propor um tempo de silêncio após a homilia, convidando cada um a fazer memória da própria família.

 

  1. BILHETE DE EVANGELHO.

Segredo de família… Qual é o segredo desta família chamada “santa”? Primeiro, a confiança. Maria tem confiança depois de ter posto a questão: “como será isso?” José tem confiança e recebe Maria. Jesus tem confiança ao consagrar-se às coisas do seu Pau. E, depois, a fidelidade. “Maria guardava todas estas coisas no seu coração e meditava-as”. José levanta-se quando o Senhor lhe pede e ensina a Jesus o ofício de carpinteiro. Jesus fará da vontade do Pai o seu alimento. Não há qualquer outro segredo da santidade: tornamo-nos santos no quotidiano da vida!

 

  1. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

 

No final da primeira leitura:

Deus nosso Pai, nós Te damos graças, porque nos criaste à tua imagem, para viver em comunidade. Tu és a fonte de toda a família humana.

Nós Te recomendamos os responsáveis pelo bem comum, que têm o papel de assegurar às famílias as condições de um pleno desenvolvimento.

 

No final da segunda leitura:

Deus nosso pai, oferecemos-Te as nossas ações de graças, cantamos-Te o nosso reconhecimento, porque nos escolheste e a tua Palavra habita nos nossos corações com toda a sua riqueza.

Nós Te pedimos por nós mesmos, teu povo. Faz-nos agir em tudo no nome do Senhor Jesus e reveste os nossos corações de bondade e de paciência.

 

No final do Evangelho:

Pai de bondade, nós Te bendizemos, porque guias o teu povo no caminho da salvação, para o preservar da morte; advertiste os teus fiéis de maneiras diversas, pela tua Palavra e pelos teus mensageiros. No teu Filho Jesus, conheceste a situação do emigrado e do deportado, habitaste nas nossas cidades e aldeias e nas nossas famílias humanas.

Eis porque ousamos pedir-Te pelas vítimas das perseguições, pelos refugiados, os exilados e os apátridas.

 

  1. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística I, com as variantes próprias de Natal e com a evocação bastante desenvolvida dos santos que são “nossa família”.

 

  1. PALAVRA EXPLICADA 1: DAVID E OS SALMOS.

O rei David tem um lugar importante na memória de Israel e da Igreja (ver 1 Sam 16-31; 2 Sam 1-24; 1 Re 1-2 e 1 Cr 11-29). Era músico. Foi nesta condição que foi contratado para junto do rei Saul, atingido por perturbações psíquicas, para o divertir (1 Sam 16,23). Esta atividade tinha riscos, porque Saul, nas suas crises, tornava-se ameaçador e manejava a sua lança (1 Sam 18,10; 19,9). David esquivava-se e fugia. Depois, David colocou os seus talentos ao serviço do culto divino. Aquando da transferência da Arca da Aliança, que significava a presença de Deus no meio do seu povo, David e toda a casa de Israel dançavam diante do Senhor com todas as suas forças, cantando ao som das cítaras, das harpas… (2 Sam 6,5.14; 1 Cr 15,27). Esta organização musical entrou depois no Templo. No Saltério, 74 Salmos têm a menção “Salmo de David”. Mas a tradição atribuiu globalmente todo o Saltério a David.

 

  1. PALAVRA EXPLICADA 2: SANTA CECÍLIA E A MÚSICA.

Cecília é uma das raras santas nomeadas na oração eucarística I (final da segunda lista). A popularidade veio-lhe do relato do seu martírio, composto em 490, dois séculos e meio após os factos. Se Cecília obteve tal lugar na tribuna celeste dos cantores e músicas da liturgia, tal aconteceu no século XV e por causa de uma interpretação errada de um detalhe anotado no relato do seu matrimónio falhado. Com efeito, este casamento tinha sido combinado pela sua família, mas Cecília esperava comunicar ao jovem prometido, ainda pagão, a sua decisão de se votar inteiramente a Deus. Fê-lo com tal sucesso que ele se converteu a Deus. Ora, o relato do casamento previsto começa com estas palavras: “No dia do casamento, enquanto tocavam órgão, ela cantava no seu coração para o Senhor”. Mas esta frase foi transmitida de um modo defeituoso, o que levou a compreender as coisas assim: Cecília cantava de modo habitual, fazendo-se acompanhar de órgão. E, de repente, Santa Cecília foi designada para se tornar a patrona dos músicos e dos cantores!

 

  1. ATENÇÃO ÀS CRIANÇAS: A FAMÍLIA DOS FILHOS DE DEUS.

Festejando hoje a família de Jesus, recordamos que, pelo Batismo, tornamo-nos irmãos e irmãs de Jesus, irmãos e irmãs entre nós, todos filhos do mesmo Pai. Para a oração do Pai Nosso, todos se reúnem, se possível, à volta do presépio, isto é, à volta da família de Jesus. No convite a esta oração, o presidente da assembleia pode mencionar quanto Maria e José rezavam e como o menino Jesus, quando se tornou grande, pediu aos seus amigos para rezar. Reza-se lentamente o Pai Nosso de mãos dadas, para manifestar que somos todos da mesma família. Segundo as possibilidades, pode-se preparar um painel no centro com o desenho do presépio, onde as crianças escrevem o seu nome.

 

  1. PALAVRA PARA O CAMINHO.

Renovar o nosso amor… Uma santa Família que não vive na autarcia, bem protegida das correntes e das dificuldades: é esta família que somos convidados a contemplar, procurando junto dela as nossas próprias referências de vida familiar. Ben Sirac e São Paulo propõem-nos meios muito concretos. Retomemos os seus textos na oração e decidamos sob que forma concreta vamos renovar o nosso amor e em relação a que membros da nossa família…

 

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
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