Eventos Junho 2024

  • VIII Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    VIII Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares


    1 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    VIII Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: Judas 17.20-25

    Caríssimos, 17quanto a vós, caríssimos, lembrai-vos das coisas preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, 20Edificando-vos uns aos outros sobre o fundamento da vossa santíssima fé e orando ao Espírito Santo, 21mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. 22Tratai com misericórdia aqueles que vacilam; 23a uns, procurai salvá-los, arrancando-os do fogo; a outros, tratai-os com misericórdia, mas com cautela, detestando até a túnica contaminada pelo seu corpo. 24Àquele que é poderoso para vos livrar das quedas e vos apresentar diante da sua glória, imaculados e cheios de alegria, 25ao Deus único, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso, seja dada a glória, a majestade, a soberania e o poder, antes de todos os tempos, agora e por todos os séculos. Ámen.

    O autor deste escrito, de que hoje meditamos a conclusão, apresenta-se como Judas «servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago» (v. 1). Deseja paz aos eleitos que vivem no amor de Deus Pai e foram preservados por Jesus Cristo (vv. 1s.). Judas está preocupado em salvaguardar a integridade e a beleza da fé (v. 3) e recorda àqueles a quem se dirige, provavelmente cristãos provenientes do paganismo, «as coisas preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo» (v. 17), incita-os a edificar-se uns aos sobre sobre o fundamento da fé (cf. v. 20) e a manter-se no amor de Deus (cf. v.21). Judas tem presente os perigos do gnosticismo. Havia que apoiar os vacilantes e ser misericordiosos e firmes com os que corriam o risco de se deixar envolver pelos seus erros.
    O autor termina com uma solene doxologia, certamente de matriz litúrgica, para louvar a Deus, único salvador, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. E conclui afirmando que só Deus tem poder para preservar das quedas e fazer comparecer na sua presença sem defeitos e cheios de alegria.

    Evangelho: Marcos 11, 27-33

    Naquele tempo, 27Jesus e os discípulos regressaram a Jerusalém e, andando Jesus pelo templo, os sumos sacerdotes, os doutores da Lei e os anciãos aproximaram-se dele 28e perguntaram-lhe: «Com que autoridade fazes estas coisas? Quem te deu autoridade para as fazeres?» 29Jesus respondeu: «Também Eu vos farei uma pergunta; respondei-me e dir-vos-ei, então, com que autoridade faço estas coisas: 30O baptismo de João era do Céu, ou dos homens? Respondei-me.» 31Começaram a discorrer entre si, dizendo: «Se dissermos 'do Céu', dirá: 'Então porque não acreditastes nele?' 32Se, porém, dissermos 'dos homens', tememos a multidão.» Porque todos consideravam João um verdadeiro profeta. 33Por fim, responderam a Jesus: «Não sabemos.»E Jesus disse-lhes: «Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas.»

    A atitude «subversiva» de Jesus no templo inquietou os chefes, que resolveram interrogá-lo. Dir-se-ia que se trata de um inquérito à margem do processo oficial. A resposta positiva de Jesus, à pergunta que lhe faziam, equivalia a declarar-se Messias, pois só Messias tem autoridade para tomar tais atitudes. E nada mais seria preciso para um processo oficial contra Ele. Com grande habilidade, Jesus responde com outra pergunta, que lança a confusão entre os seus adversários. Como não tiveram coragem para responder, e se escudaram num lacónico «não sabemos», Jesus despediu-os com uma expressão seca: «Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas» (v. 33).
    Talvez nos espante esta atitude de Jesus, tão atencioso e compassivo com Bartimeu. Mas o Senhor detesta a arrogância e a má vontade. É puro, mas não ingénuo. Além disso, a sua dureza podia levar os adversários a rever posições ou, pelo menos, a reconhecer que não procuravam a verdade, mas só desembaraçar-se dele.
    Jesus dá-nos exemplo de «ética profética». A sua autoridade está na linha da de João Baptista. Se os adversários de Jesus reconhecessem a autoridade de João, a sua resistência a Jesus seria menos grave. Mas não o fizeram. Acabaram por recusar Jesus, mas também por atraiçoar o Baptista, ignorando a confiança que o povo tinha nele, pois o considerava um verdadeiro profeta.

    Meditatio

    A Carta de Judas apresenta-nos uma preciosa exortação sobre dois pólos da vida recta: a santidade de vida e a solicitude pelas pessoas cuja fé corre perigo. A santidade cresce na relação com as Pessoas divinas cultivada na oração, na docilidade ao Espírito Santo, no amor a Deus Pai e na esperança na misericórdia de Jesus: «Edificando-vos uns aos outros sobre o fundamento da vossa santíssima fé e orando ao Espírito Santo, mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna» (vv. 20-21). Quanto à solicitude com os que correm perigo de vacilar na fé, há que ser misericordioso, mas também firme, sem descer a compromissos: «Tratai com misericórdia aqueles que vacilam; a uns, procurai salvá-los, arrancando-os do fogo; a outros, tratai-os com misericórdia, mas com cautela» (vv. 22-23).
    Judas apresenta, pois, um verdadeiro programa de vida, assente na rocha viva que é Jesus Cristo. Há que construir tudo sobre a fé, com simplicidade, correspondendo à graça de Deus, sem nos fiarmos no que é simplesmente humano, nem sequer em nós mesmos. O importante é praticar «a verdade na caridade» (Ef 4, 15).
    Os sumos-sacerdotes, os doutores da Lei e os anciãos de que nos fala o evangelho não agiam nem falavam com rectidão. É por isso que Jesus não responde à pergunta que Lhe fazem, mas, por sua vez, também os interroga acerca de João Baptista. A pergunta de Jesus visa fazê-los pensar e... converter-se. Mas, em vez de se deixarem tocar pela graça, entram em cálculos humanos: «Começaram a discorrer entre si, dizendo: «Se dissermos 'do Céu', dirá: 'Então porque não acreditastes nele?' Se, porém, dissermos 'dos homens', tememos a multidão» (vv. 31-32). Não lhes convinha dizer que o baptismo de João vinha «do céu»; mas também temeram dizer que vinha «dos homens». Escudaram-se no: «Não sabemos.». E assim se fecharam à fé.
    Também nós corremos o risco de dar respostas semelhantes quando resistimos às inspirações do Espírito Santo, ou deslizamos para soluções mais cómodas, menos empenhativas. Nos nossos exames de consciência havemos de nos interrogar: «Estes pensamentos, estes projectos, estas opções são motivadas pela minha fé, ou por outras razões mais ou menos conscientes?» Quais motivações me fazem falar, agir, caminhar? Certamente reconheceremos, com humildade e confiança, diante de Deus, que, nem sempre é por Ele que falamos, agi
    mos, optamos. Mas, reconhecê-lo, pedir perdão, e procurar emenda, é salvaguardar a nossa fé.

    Oratio

    Senhor, Jesus Cristo, não olhes para os nossos pecados, mas para a fé da tua Igreja. Dá-nos a graça de construirmos o nosso edifício espiritual sobre os fundamentos da fé e dos apóstolos. Perdoa as nossas hesitações e medos. Põe nos nossos caminhos pessoas compassivas, mas exigentes, que nos ajudem e superar as nossas misérias, mas não sejam coniventes com os nossos erros. Por vezes refilamos com as intervenções daqueles que, na tua Igreja, tem o serviço de vigiar pela integridade da fé e pela sã moral. A recordação de erros, ou de situações menos lineares e claras do passado, dão-nos ânimo para presumir respostas e rejeitar as intervenções e orientações dos nossos pastores.
    Dá-nos o teu Espírito Santo, Espírito de Conselho, para sabermos discernir as situações e ver quando é oportuno fazer-nos voz daqueles que não têm voz e quando, pelo contrário, as nossas recriminações são apenas fruto da nossa impiedade, e da dureza do nosso coração.
    Que sempre e em toda a parte, sejamos missionários misericordiosos da tua Verdade. Amen.

    Contemplatio

    S. Judas Tadeu era familiar de Nosso Senhor, um daqueles que chamavam seus irmãos, que o seguiam e o procuravam sempre. Era irmão de S. Tiago Menor, de S. Simão, bispo de Jerusalém, e de S. José, o justo, que foi proposto com S. Matias para substituir Judas, eram os filhos de Cléofas e de Maria, irmã da santa Virgem. Recebeu de sua mãe o amor de Jesus e de Maria e o espírito de reparação. Era do número dos discípulos mais amados de Jesus. Quando Jesus disse aos seus apóstolos: «Quem me ama e guarda os meus mandamentos será amado de meu Pai; eu o amarei também e me revelarei a ele», é S. Judas que toma a palavra e faz repetir a Nosso Senhor esta doce promessa! «Senhor, diz, de onde vem que vos revelareis a nós e não ao mundo?» Jesus respondeu-lhe: «É porque vós me amais e guardais a minha palavra, o meu Pai vos amará, e nós viremos a vós e faremos em vós a nossa morada» (Jo 14, 21). Ó bem-aventurado apóstolo, como invejo a vossa sorte! Mas não posso eu, se quiser, fazer-me amar também de Deus e de Nosso Senhor observando os mandamentos?
    S. Judas, na sua epístola, ensina o amor de Deus e do próximo: «Meus bem-amados, diz, tinha pressa em escrever-vos. Desejo-vos a misericórdia, a paz e a caridade divina... Mantende-vos fortemente agarrados a Jesus Cristo, e erguendo-vos a vós mesmos como um edifício espiritual sobre o fundamento da vossa santa fé, rezai por meio do Espírito Santo e conservai-vos no amor de Deus, aguardando a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo para obterdes a vida eterna» (Leão Dehon, OSP4, p. 401s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Mantende-vos no amor de Deus;
    tratai com misericórdia os que vacilam» (Jd vv. 21.22).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IX Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    IX Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    3 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    IX Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Pedro 1, 2-7

    Caríssimos, 2a graça e paz vos sejam concedidas em abundância por meio do conhecimento de Deus e de Jesus, Senhor nosso. 3O divino poder, ao dar-nos a conhecer aquele que nos chamou pela sua glória e pelo seu poder, concedeu-nos todas as coisas que contribuem para a vida e a piedade. 4Com elas, teve a bondade de nos dar também os mais preciosos e sublimes bens prometidos, a fim de que - por meio deles - vos torneis participantes da natureza divina, depois de vos livrardes da corrupção que a concupiscência gerou no mundo. 5Por este motivo é que, da vossa parte, deveis pôr todo o empenho em juntar à vossa fé a virtude; à virtude o conhecimento; 6ao conhecimento a temperança; à temperança a paciência; à paciência a piedade; 7à piedade o amor aos irmãos; e ao amor aos irmãos a caridade.

    Em princípios do século II, a Igreja debatia-se com os gnósticos, que pensavam que o homem pode conseguir tudo por si mesmo, inclusivamente a salvação. A Segunda Carta de Pedro começa com uma afirmação peremptória: Jesus é a única causa de salvação do homem. É a comunidade petrina que fala a todos os crentes em Cristo, «àqueles a quem coube em sorte, pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, uma fé tão preciosa como a nossa» (v. 1). Esses crentes, com a fé preciosa, também receberam aquela graça e paz, que agora, em Cristo ressuscitado, os tornam «participantes da natureza divina» (v. 4). O cristão é aquele que toma consciência do dom recebido, com inteligência e afecto, ou com um «conhecimento» pleno e grato, como insinua o nosso texto, pelo menos três vezes. Com efeito, o verdadeiro cristão, sentindo-se um predilecto de Deus, decide ser coerente com a graça que actua nele, uma graça mais forte do que a «corrupção que a concupiscência gerou no mundo» (v. 4). E o autor da nossa Carta aponta sete virtudes, a juntar à fé, e que hão-de distinguir o cristão: a virtude, o conhecimento, a temperança, a paciência, a piedade, o amor aos irmãos, a caridade cf. vv. 5-7). O princípio de toda a virtude é a «fé». A «virtude» é a atitude constante, que dá coragem nas dificuldades; o «conhecimento» é a abertura da mente ao esplendor da verdade; a «temperança» é o autodomínio, fruto da participação na vitalidade do Ressuscitado; a «paciência» não é simples resignação, mas força nas provações e resistência às oposições externas; a «piedade» é a relação com Deus, verdadeiro centro e coração da vida dos crentes; o «amor fraterno» é fruto da intimidade afectuosa com Deus Pai; deste amor, chega-se à «caridade», ao amor total e iluminado, meta do caminho do crente.

    Segunda leitura: Marcos 12, 1-12

    Naquele tempo, 1Jesus começou a falar-lhes em parábolas: «Um homem plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e construiu uma torre. Depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe. 2A seu tempo enviou aos vinhateiros um servo, para receber deles parte do fruto da vinha. 3Eles, porém, prenderam-no, bateram-lhe e mandaram-no embora de mãos vazias. 4Enviou-lhes, novamente, outro servo. Também a este partiram a cabeça e cobriram de vexames. 5Enviou outro, e a este mataram-no; mandou ainda muitos outros, e bateram nuns e mataram outros. 6Já só lhe restava um filho muito amado. Enviou-o por último, pensando: 'Hão-de respeitar o meu filho'. 7Mas aqueles vinhateiros disseram uns aos outros: 'Este é o herdeiro. Vamos matá-lo e a herança será nossa'. 8Apoderaram-se dele, mataram-no e lançaram-no fora da vinha. 9Que fará o dono da vinha? Regressará e exterminará os vinhateiros e entregará a vinha a outros. 10Não lestes esta passagem da Escritura:A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. 1Tudo isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos?» 12Eles procuravam prendê-lo, mas temiam a multidão; tinham percebido bem que a parábola era para eles. E deixando-o, retiraram-se.

    A alegoria usada por Jesus só se percebe se tivermos em conta o «cântico da vinha», que lemos em Is. 5, e o seu contexto histórico, isto é, a recusa da salvação pelos chefes de Israel, os «agricultores», que matam os profetas. Deus é o dono da vinha e o construtor do edifício, que é Israel. Surpreendentemente, aparece como «estrangeiro» no meio do povo de Israel. Deus não está vinculado às vicissitudes de um povo. Confiou uma tarefa aos responsáveis pela vinha israelita e foi-se embora, porque está noutro lado... Os servos são os numerosos profetas e homens de Deus enviados ao longo da história do povo escolhido. O filho recusado e morto, mas depois tornado pedra angular, é Jesus. A alegoria faz tocar os extremos: o amor de Deus Pai, que envia o seu Filho, e a recusa do chefes de Israel, que O matam.
    À volta de Jesus, e do mistério da sua morte e ressurreição, hoje, como no passado, decide-se, para cada um de nós, o acolhimento ou a recusa da salvação. Não há direitos de progenitura, ou de eleição preferencial, que nos valham. O pretenso monopólio dos israelitas sobre a salvação está votado ao fracasso: «O dono regressará e exterminará os vinhateiros e entregará a vinha a outros» (v. 9). O importante é que, no confronto com Jesus e com o seu mistério pascal, nos abramos a Ele, livre e responsavelmente, para sermos salvos. E Deus premiará a nossa coragem.

    Meditatio

    Na Segunda Carta de Pedro, o cristão é aquele que toma consciência do dom recebido, e o faz com inteligência e afecto, ou com um «conhecimento» pleno e grato, como insinua o nosso texto, pelo menos três vezes: «a graça e paz vos sejam concedidas em abundância por meio do conhecimento de Deus e de Jesus, Senhor nosso»(v. 2);«o divino poder, ao dar-nos a conhecer aquele que nos chamou pela sua glória e pelo seu poder, concedeu-nos todas as coisas...»(v. 3); «deveis pôr todo o empenho em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento ao conhecimento a temperança»(v. 5). A consciência é graça a que devemos estar abertos, e que exige renúncia às paixões, pureza de coração, disponibilidade para Deus, que nos tornou participantes da sua natureza, «participantes da natureza divina», como escreve Pedro.
    Ser participante da natureza divina significa ter-se livrado «da corrupção que a concupiscência gerou no mundo» (v. 4), isto é, participar do amor divino, e não do egoísmo e da ânsia de poder, que corrompem o mundo. A natureza divina é incorruptível, porque é puro amor.
    O evangelho mostra-nos em acção esse amor divino,
    mas também a concupiscência e a falta de conhecimento. Os vinhateiros querem apoderar-se da vinha e batem e insultam repetidamente os servos. Quando vêem chegar o «filho muito amado» (v. 6), não hesitam em matá-lo. E assim se auto-excluem do Reino do amor.
    Marcos anota que os sumos-sacerdotes, os escribas e fariseus «procuravam prendê-lo, mas temiam a multidão; tinham percebido bem que a parábola era para eles. E deixando-o, retiraram-se» (v. 12). O seu conhecimento é incoerente: escutaram, compreenderam, podiam pensar que estava a preparar um destino semelhante aos dos vinhateiros, que Jesus tenta evitar, mas a inveja cega-os. Jesus põe em perigo o poder deles. E decidem matá-l´O.
    O conhecimento de Deus, o conhecimento de Jesus, Filho de Deus é um dom do Espírito Santo. Como dehonianos, somos chamados a esse conhecimento, iluminado pelo carisma e pela missão que recebemos de Deus: «somos chamados a descobrir, cada vez mais, a Pessoa de Cristo e o mistério do seu Coração e a anunciar o seu amor que excede todo o conhecimento: «Cristo habite pela fé, nos vossos corações de sorte que, enraizados e fundados no amor, possais compreender, com todos os Santos, qual é a largura e o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer, enfim, o amor de Cristo que excede todo o conhecimento, para serdes repletos da plenitude de Deus» (Ef 3,17-19)». Esse conhecimento obtém-se na escuta da Palavra e na celebração da Eucaristia: «Fiéis à escuta da Palavra, e à fracção do Pão, somos chamados a descobrir, cada vez mais, a Pessoa de Cristo e o mistério do seu Coração...», escrevem as nossas Constituições (n. 17).

    Oratio

    Senhor Jesus, concede-nos, a mim, aos meus irmãos, ao mundo inteiro, a graça de vencermos os movimentos da concupiscência, do amor possessivo e da inveja, bem como o dom de nos deixarmos iluminar pela luz que sempre nos ofereces. Que toda a humanidade Te conheça, Te ame e possa tomar parte na herança que nos conquistaste ao derramar o teu precioso sangue na cruz.
    Abre os nossos olhos, Senhor. Abre a nossa mente. Tu, que és manso e humilde de coração, abate a nossa presunção e força-nos a não nos «retirarmos», como fizeram os teus adversários, quando perceberam que falavas para eles. Decidiram matar-te, mas temeram a multidão. Que jamais Te deixemos passar em vão pela nossa vida, mas saibamos reconhecer-Te como o «Deus connosco», como a Videira fecunda que o Pai plantou na nossa vinha. Amen.

    Contemplatio

    Só vós, Senhor, fizestes tudo. Tudo dispusestes para que me eleve degrau a degrau até à vida de união e de amor convosco.
    Conduzistes-me ao vosso Coração. Quereis que eu nele penetre e nele faça a minha morada. Quereis que me inspire nos seus sentimentos, que viva da sua vida, que me inflame do seu zelo, para levar por toda a parte o seu conhecimento e o seu amor. Como estabelecestes os vossos apóstolos para espalharem a fé, confiastes-me uma parte da missão de propagar o amor do Sagrado Coração. Eis-me aqui. Senhor, não permitais que eu me subtraia a esta admirável missão. Indicai-me pelas vossas inspirações o que devo fazer desde hoje para amar cada vez mais e fazer amar o vosso divino Coração (Pe. Dehon, OSP 3, p. 461s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «A graça e paz vos sejam concedidas por meio do conhecimento de Deus e de Jesus» (2 Pe 1, 2).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IX Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    IX Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    4 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    IX Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Pedro 3, 12-15ª.17-18

    Caríssimos: 12enquanto esperais e apressais a chegada do dia de Deus, quando os céus, a arder, se desintegrarem e os elementos do mundo, com o ardor do fogo, se derreterem! 13Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos uns novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça. 14Portanto, caríssimos, enquanto esperais estes acontecimentos, esmerai-vos para que Ele vos encontre imaculados, irrepreensíveis e em paz. 15Considerai que a paciência de Nosso Senhor é para nossa salvação. 17Vós, caríssimos, dado que sabeis isto de antemão, estai alerta para que não venhais a descair da vossa firmeza, arrastados pelo erro desses malvados. 18Crescei, antes, na graça e no conhecimento do Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A Ele seja dada glória, agora e até ao dia eterno. Ámen.

    A secção anterior a este texto terminou com a afirmação de que a vinda do Senhor pode ser «apressada», para que apareçam os novos céus e a nova terra onde reine a justiça. O texto que lemos hoje é uma reflexão sobre o estado do cristão que espera «a chegada do dia de Deus» (v. 12). O autor desta carta explica que, o que se espera, são «uns novos céus e uma nova terra» (v. 13; cf. Is 65, 17; 66, 22), nos quais se manifestará Cristo e se realizará, na «justiça», o projecto de Deus. Mas, a manifestação do Senhor não se deve aguardar passivamente. Uma vida na piedade e na santidade pode «apressar» o dia do Senhor, pois torna já presente na história a justiça típica do esperado dia do Senhor. Há pois que viver «imaculados e irrepreensíveis e em paz» (v. 14), tal como há-de acontecer no dia sem ocaso da vida futura. Mais importante do que procurar saber quando será o dia do Senhor, é viver na justiça e na santidade. O que realmente conta é a magnanimidade do Senhor, que organiza os tempos e a história na amorosa perspectiva da salvação. Os ímpios não conhecem esse desígnio de Deus. Mas os crentes vão-no conhecendo progressivamente.

    Segunda leitura: Marcos 12, 13-17

    Naquele tempo, 13foram enviados a Jesus alguns fariseus e partidários de Herodes, a fim de o apanharem em alguma palavra. 14Aproximando-se, disseram-lhe: «Mestre, sabemos que és sincero, que não te deixas influenciar por ninguém, porque não olhas à condição das pessoas mas ensinas o caminho de Deus, segundo a verdade. Diz-nos, pois: é lícito ou não pagar tributo a César? Devemos pagar ou não?» 15Jesus, conhecendo-lhes a hipocrisia, respondeu: «Porque me tentais? Trazei-me um denário para Eu ver.» 16Trouxeram-lho e Ele perguntou: «De quem é esta imagem e a inscrição?» Responderam: «De César.» 17Jesus disse: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.» E ficaram admirados com Ele.

    Alguns fariseus e partidários de Herodes, que se consideravam nacionalistas, mas colaboravam com os romanos, fingindo sinceridade, fazem a Jesus uma pergunta armadilhada. Queriam embaraçá-lo, tornando-O malvisto pelas autoridades romanas ou pela multidão. Jesus evita a armadilha, e aproveita a ocasião para oferecer um importante critério para a vida cristã: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (v. 17). Deus e César não se opõem, nem se colocam ao mesmo nível. O primado de Deus não retira ao Estado os seus direitos. O cristão deve obedecer a Deus, mas também aos homens. Em qualquer caso, obedece por causa de Deus e não por causa dos homens, porque toda a autoridade humana tem as suas raízes no Eterno. Este princípio está na origem da liberdade de consciência, afasta da idolatria do poder, leva a acolher a soberania da Igreja, mas também a do Estado.
    Esta mensagem de liberdade surpreende os adversários de Jesus: «Ficaram admirados com Ele» (v. 17b). A opção a fazer não é entre Deus e César, mas entre Deus e todo o movimento humano, ainda que chamado libertador, ainda que seja o dos zelotas. Os movimentos libertadores, mais tarde ou mais cedo, pretendem tornar-se absolutos. É por isso que o profeta mantém a devida distância, em relação a eles.

    Meditatio

    O cristão espera, - e até pode apressar -, a vinda do Senhor, para que apareçam os novos céus e a nova terra. Em vez de se pôr a calcular o tempo divino, que se rege por uma escala diferente da nossa, há que pensar na finalidade do tempo que Deus nos concede: dar a todos a oportunidade de se converterem, aproveitando a graça, que o seu amor nos oferece (cf. 1 Tm 2, 4). É à luz desta intenção divina que devemos avaliar a duração do tempo. A Segunda Carta de Pedro acentua o carácter repentino e imprevisível da parusia. O cristão deve estar sempre preparado para a segunda vinda de Cristo, vivendo na confiança e na entrega a Deus. Um comportamento digno, em conformidade com a sua condição de cristão, segundo a mentalidade judaica, podia até antecipar esse dia. Deus não destrói por destruir. Se destrói o mundo velho, ou envelhecido, é para criar um mundo novo, onde reine a justiça (cf. Mt 19, 28; Ap 20, 11; 21, 1).
    As duas imagens - esperar e apressar o dia do Senhor, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus - descrevem a vida do cristão. Em primeiro lugar, ela é espera de um acontecimento, anúncio de que o Esposo ainda não veio, saudade de um amor maior do que qualquer afecto humano, como um desejo ainda não satisfeito... Ao mesmo tempo, indica misteriosamente presente nele o Esposo, manifesta a alegria do encontro com Ele, do desejo satisfeito. Mas, como quando uma expectativa se realiza, o desejo satisfeito se torna desejo de algo mais, assim o encontro com o Senhor acende o desejo de maior intimidade, e, de algum modo, acelera a vinda do Senhor. É por isso que o cristão não foge do mundo nem da história, mas permanece aí, para indicar quanto neles há «de Deus», e a Deus há-de voltar, quanto no coração humano pertence ao Altíssimo e só nele encontra paz. Ao mesmo tempo, também revela quanto há de corruptível no homem, e deve ser abandonado. Não se trata de desprezar o que é humano, mas de dar a cada coisa o justo valor e de manter viva a esperança do «dia do Senhor», em que todo o fragmento terreno se há-de fundir no fogo do amor eterno. E acontecerão os «novos céus e a nova terra».
    Entretanto, o cristão é chamado a «dar a César o que é de César, e a dar a Deus o que é de Deus». É a inesperada reposta de Jesus à pergunta hipócrita dos fariseus e dos herodianos. Jesus reconhece que o Estado tem direito a receber o que lhe pertence, mas clarifica que nenhum poder político pode arrogar-se os direitos de Deus.
    A Igreja não é deste mundo, mas vive nele, com muitas relaç&
    otilde;es humanas, nas quais deve aplicar esta palavras de Jesus. O equilíbrio não é fácil. Há que rezar muito pelos pastores da Igreja, que têm essa grave responsabilidade.
    Com os nossos Pastores, e com todos os nossos irmãos na fé, também nós, que participamos no carisma do P. Dehon e, em harmonia com a sua experiência de fé, seguimos a Cristo e nos abrimos ao Espírito, e aos Seus dons, queremos irradiar os seus frutos e praticar as bem-aventuranças, convencidos de que, colaborando com o Espírito, «os novos céus» e a «nova terra», em que «habita a justiça» (2 Pe 3, 13; Cf. Is. 65, 17; 66, 22; Apoc 21, 1.27), não são apenas uma expectativa futura, escatológica, mas podem tornar-se uma realidade actual.

    Oratio

    Obrigado, Senhor, pela nossa história e pelo nosso tempo. Eles são teus e estão cheios de Ti. Vêm de Ti, e a Ti devem voltar, tal como eu, e cada um dos meus irmãos, com toda a nossa humanidade, com a nossa vontade de viver e de amar. Quando tal acontecer, quando testemunharmos que és a origem e o termo de quanto somos e temos, o nosso tempo entra na tua eternidade, e a nossa história torna-se história de salvação. A nossa vida celebra a tua soberania; a nossa morte será um regresso às origens.
    Perdoa que, tantas vezes, tenhamos tentado apoderar-nos do nosso tempo, e não tenhamos sabido esperar a novidade do teu dia. Perdoa que, tantas vezes, não tenhamos reconhecido a tua imagem nas coisas, e tenhamos tentado apoderar-nos delas, em vez de as reconduzirmos a Ti. Perdoa que, em vez de esperarmos os novos céus e a nova terra, tenhamos preferido apegar-nos a ilusões imediatas destes céus e desta terra.
    Ensina-nos a esperar o Dia do Senhor e, enquanto o esperamos, a sabermos «dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Amen.

    Contemplatio

    Toda a autoridade vem de Deus: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». - «Que cada um se submeta às autoridades superiores, diz S. Paulo; porque não há autoridade que não venha de Deus; e todas as autoridades da terra são dispostas por Deus. Portanto, quem resiste às autoridades, resiste à ordenação de Deus, e atrai sobre si a maldição... O príncipe é o ministro de Deus para o bem. É o executor da vingança divina a respeito daqueles que fazem o mal.
    Devemos ser submissos, não apenas por temor, mas também por princípio de consciência. É por isso que pagais o tributo aos príncipes, porque eles são ministros de Deus no cumprimento da sua missão. Dai, portanto, a cada um o que lhe é devido: o tributo, o imposto, o temor e a honra (Rm 13, 1).
    Nosso Senhor, portanto, consolidou a autoridade de todos os poderes estabelecidos. Unamo-nos aos sentimentos do Coração de Jesus para com toda a autoridade estabelecida pela Providência (Pe. Dehon, OSP4, p. 78).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» (Mc 12, 17).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IX Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    IX Semana - Quarta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    5 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    IX Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Timóteo 1, 1-3.6-12

    1Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, por desígnio de Deus, segundo a promessa de vida que há em Cristo Jesus, 2a Timóteo, meu filho querido: graça, misericórdia e paz de Deus Pai e de Cristo Jesus, Nosso Senhor. 3Dou graças a Deus, a quem sirvo em consciência pura, como já o fizeram os meus antepassados, ao recordar-te constantemente nas minhas orações, noite e dia. 6Por isso recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, 7pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso. 8Portanto, não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas compartilha o meu sofrimento pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. 9Ele salvou-nos e chamou-nos, por santo chamamento, não em atenção às nossas obras, mas segundo o seu próprio desígnio e a graça a nós concedida em Cristo Jesus, antes dos séculos eternos, 10e agora revelada na manifestação do nosso Salvador, Cristo Jesus, que destruiu a morte e irradiou vida e imortalidade, por meio do Evangelho, 11do qual eu próprio fui constituído arauto, apóstolo e mestre. 12Por este motivo é que suporto também esta situação. Mas não me envergonho, pois sei em quem acreditei e estou persuadido de que Ele tem poder para guardar, até àquele dia, o bem que me foi confiado.

    Quando escreve esta carta, Paulo encontra-se preso em Roma, e já antevê a sua morte próxima. Ela tem, pois, o sabor de um testamento espiritual.
    Depois de endereçar a carta ao seu discípulo predilecto, o Apóstolo exorta-o a lutar e a sofrer pelo Evangelho, que é «promessa de vida em Cristo Jesus» (v. 1), «que destruiu a morte e irradiou vida e imortalidade» (v. 10). Paulo é um homem escolhido por Deus para levar ao mundo este Evangelho da vida, não com um Espírito «de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso» (v. 7). O mundo não lhe perdoará, e irá privá-lo da liberdade. Mas Paulo não se envergonha das suas cadeias, e incita Timóteo à mesma atitude. É o preço do testemunho da fé, da vocação santa, da graça oferecida em Cristo Jesus e agora revelada no mistério da sua incarnação. As cadeias são sinal da liberdade nova que nasce da fé em Cristo e da confiança na sua fidelidade até ao último dia, quando a vida vencer a morte. Provavelmente, a comunidade de Timóteo estava ameaçada por perseguições. Mas os cristãos, e em particular aquele que foi ordenado, hão-de ser lutadores e dirigentes corajosos, evitando a prudência segundo a carne.

    Segunda leitura: Marcos 12, 18-27

    Naquele tempo, 18vieram ter com Ele os saduceus, que negam a ressurreição, e interrogaram-no: 19«Mestre, Moisés prescreveu-nos que se morrer o irmão de alguém, deixando a mulher e não deixando filhos, seu irmão terá de casar com a viúva para dar descendência ao irmão. 20Ora havia sete irmãos, e o primeiro casou e morreu sem deixar filhos. 21O segundo casou com a viúva e morreu também sem deixar descendência, e o mesmo aconteceu ao terceiro; 22e todos os sete morreram sem deixar descendência. Finalmente, morreu a mulher. 23Na ressurreição, de qual deles será ela mulher? Porque os sete a tiveram por mulher.» 24Disse Jesus: «Não andareis enganados por desconhecer as Escrituras e o poder de Deus? 25Quando ressuscitarem de entre os mortos, nem eles se casarão, nem elas serão dadas em casamento, mas serão como anjos no Céu. 26E acerca de os mortos ressuscitarem, não lestes no livro de Moisés, no episódio da sarça, como Deus lhe falou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? 27Não é um Deus de mortos, mas de vivos. Andais muito enganados.»

    Os saduceus, frios e calculistas, querem desfazer-se de Jesus, que consideram um homem perigoso, mas não perdem a calma. Limitam-se a procurar meter Jesus a ridículo diante do povo, levando até ao absurdo as suas ideias sobre a ressurreição. Jesus aproveita para apresentar correctamente o sentido da vida para além da morte.
    No tempo de Jesus, eram várias as posições diante do tema da ressurreição: os saduceus negavam-na; os rabinos fariseus afirmavam-na, mas com uma certa liberdade interpretativa: ressuscitariam só os justos, ou só os Judeus, ou todos os homens, os ressuscitados voltariam à sua corporalidade original, incluindo as enfermidades; os helenistas pagãos, influentes quando Marcos escreve o seu evangelho, preferiam falar da imortalidade do espírito, capaz de sobreviver por si mesmo ao corpo, e de se libertar da prisão. Jesus responde a todos, pondo no centro a verdade do amor de Deus: se Deus ama o homem, não pode abandoná-lo ao poder da morte, mas há-de uni-lo a Si, fonte de vida, tornando-o imortal.
    Como será a vida além-túmulo? Para Jesus, será uma vida que escapa aos esquemas do mundo presente: será divina, eterna, comparável à dos anjos, de tal modo que o matrimónio e a reprodução serão supérfluos. Não será um prolongamento desta vida, mas uma existência nova, resultante de uma misteriosa transformação, fruto da fidelidade do Eterno, que envolverá o homem todo, e não só o espírito.

    Meditatio

    Hoje, começamos por escutar a exortação de Paulo a Timóteo: «Recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso» (vv. 6-7). Esta exortação é também para nós. Há que ter ideias grandes sobre Deus, que é magnânimo, que fará grandes coisas por nós, tal como as fez por Paulo, prisioneiro em Roma, e por Timóteo. Se o «dom», que Paulo recomenda reavivar a Timóteo, é um carisma sacerdotal, todos nós recebemos a graça da vocação cristã, os dons de Cristo, que não devemos pensar de modo humano, como os fariseus pensavam na ressurreição. São dons no Espírito que havemos de não deformar, mas renovar com o auxílio do Espírito. Por isso, é que convém varrer da nossa mente todas as ideias mesquinhas sobre a vida em Cristo, e conformar os nossos pensamentos à magnanimidade, ao amor, ao poder glorioso de Deus, com humildade e com esperança.
    O cristianismo é o evangelho da vida. A vida é a boa nova que o cristão anuncia a um mundo cada vez mais mergulhado numa cultura de morte. Só quem acredita em Cristo pode falar de uma vida que venceu a morte, e acreditar na imortalidade. E tem de fazê-lo, sem medo nem timidez, graças ao Espírito de força e de amor que lhe foi dado, como Paulo o fez em Roma, pouco antes da sua morte violenta. O cristão não é dispensado do drama do sofrimento nem da derrota da mo
    rte. Mas, é mesmo nessa experiência, das profundezas do abismo, que anuncia a esperança da vida que não morre. Lembremos as palavras de Bento XVI na encíclica Spe salvi sobre o modo como Santa Josefina Bakhita, raptada aos nove anos pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão, e finalmente comprada, em 1882, por um comerciante italiano para o cônsul Callisto Legnani, chegou à esperança cristã. Em casa do cônsul, Bakhita acabou por conhecer um «patrão» totalmente diferente dos anteriores, isto é o Deus vivo, o Deus de Jesus Cristo. Soube que esse Senhor também a conhecia, a tinha criado e a amava. Mais ainda, soube que esse Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela «à direita de Deus Pai». E assim nasceu nela a «esperança», a grande esperança, que vinha de ser definitivamente amada e esperada por esse Amor. E, então, deixou de se sentir escrava, passando a sentir-se livre filha de Deus (cf. Spe salvi 3).
    Nesta santa como que se tocam dois abismos: o da fragilidade humana e o do poder divino, como aconteceu em Jesus crucificado. Por isso, tal como Deus Pai ressuscitou o Filho, também há libertar das cadeias da morte todo aquele que não se envergonhar do Evangelho da Vida. De facto, não é um «Deus de mortos, mas de vivos» (v. 27).
    «Na Igreja, fomos iniciados na Boa Nova de Jesus Cristo: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem" (1 Jo 4,16). Recebemos o dom da fé que dá fundamento à nossa esperança» (Cst 9).

    Oratio

    Senhor, Tu és o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob. Tu é o Deus que ama a vida. Tudo existe e subsiste em Ti. Sem Ti, eu seria nada. Mas como és, e estás comigo, vibra em mim um frémito de eternidade. Eu Te bendigo, porque venho de Ti, vivo por Ti, e vou para Ti. Que eu saiba proclamar sempre a tua glória, e jamais me envergonhe do Evangelho ou tenha medo das incompreensões e recusas que a sua proclamação me pode acarretar. Dá-me a coragem de Paulo, que, mesmo agrilhoado, proclama o Evangelho da vida. Reaviva em mim o teu dom para que, também eu, seja um livre prisioneiro de Cristo, deixando-me amarrar eternamente pelas cadeias daquele amor divino que venceu a morte. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor dá-nos o exemplo. Aceita as perseguições, as zombarias, as calúnias, para nos consolar nas nossas provações, para nos encorajar e para nos ensinar também que a paciência tem diante de Deus um grande valor. «A paciência, diz S. Paulo, é a provação, mas a provação prepara a esperança» (Rom 5,4).
    Nosso Senhor quis ser julgado e condenado e sucumbir vítima da justiça humana, para nos ensinar o desprezo das acusações falsas, das zombarias, dos juízos falsos e temerários. São tantas provas que se tornam também esperanças e fontes de graças, se as suportarmos em espírito de fé.
    O «seja crucificado» de Jesus, é a minha salvação, obtida pela sua paciência, pelos seus sofrimentos, pelas suas expiações, pelo amor do seu Coração. O «seja crucificado» da minha má natureza, é ainda a salvação obtida pelo sacrifício, pela mortificação, pela paciência. Agradeço a Nosso Senhor, pela sua adorável paciência, que é para mim a salvação e o exemplo a seguir (Pe. Dehon, OSP 3, p. 347s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Deus não é um Deus de mortos, mas de vivos» (Mc 12, 27).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IX Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    IX Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    6 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    IX Semana - Quinta-feira

    Lectio
    Primeira leitura: 2 Timóteo 2, 8-15

    Caríssimo, 8tem sempre bem presente Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos e nascido da linhagem de David, segundo o meu evangelho, 9pelo qual sofro mesmo estas cadeias, como se fosse um malfeitor. Mas a palavra de Deus não pode ser acorrentada. 10Por isso, tudo suporto pelos eleitos, para que também eles alcancem a salvação em Cristo Jesus e a glória eterna. 11É digna de fé esta palavra:Se com Ele morrermos, também com Ele viveremos. 12Se nos mantivermos firmes, reinaremos com Ele. Se o negarmos, também Ele nos negará. 13Se formos infiéis, Ele permanecerá fiel, pois não pode negar-se a si mesmo. 14Lembra-lhes estas coisas, advertindo seriamente em nome de Deus que não se envolvam em litígios de palavras. Isso não serve para nada e leva à ruína dos ouvintes. 15Esforça-te por te apresentares diante de Deus como trabalhador digno e irrepreensível, interpretando rectamente a palavra da verdade.

    A Segunda Carta a Timóteo, leva-nos comunidades cristãs da Ásia Menor, na última quarta parte do século I. Aí começavam a surgir controvérsias teológicas baseadas em diferentes interpretações da fé cristã. E cada uma tinha a pretensão de provir directamente da primeiríssima tradição e de assim obter o monopólio da interpretação da fé. Neste contexto, Timóteo lembra os conselhos do seu mestre, Paulo. Antes de discutir qualquer doutrina, há que ir ao único fundamento da fé, que é Jesus Cristo. A Teologia está sujeita à cristologia. Ser cristão é, fundamentalmente, acreditar em Jesus Cristo, naquele homem histórico concreto, conhecido de todos, e que continua misteriosamente presente na comunidade, depois da sua ressurreição. A vida do cristão é a vida de Cristo nele; é participação sempre renovada na morte e na vida gloriosa do Senhor, que misteriosamente sofre e ressuscita naquele que acredita nele. É o que se verifica em Paulo, preso «como um malfeitor» (v. 9), mas também convencido de «reinar com ele» (v. 12). Daqui, seguem duas consequências. Em primeiro lugar, os sofrimentos do cristão participam do valor redentor dos sofrimentos de Cristo e são, de facto, instrumento de salvação, na medida em que o cristão sofre, como Paulo, «por Cristo» e «morre com ele» (v. 11). Desde que o Filho de Deus morreu na cruz, nenhum sofrimento terreno é inútil, e nenhum crente pode sentir-se não responsável pela salvação dos outros. É a comunhão na cruz que dá a cada um a força para «tudo suportar» pelos irmãos, «para que também eles alcancem a salvação em Cristo Jesus e a glória eterna» (v. 10). E então - é a segunda consequência - a vida do cristão torna-se uma existência pascal, na memória da ressurreição de Jesus (v.8) e na profecia da sua própria ressurreição (v.11). Com estas perpectivas, o cristão não se perde em «em litígios de palavras» (v. 14), nem se envergonha da Palavra, mas proclama-a, ainda que, para isso, tenha de sofrer: «a palavra de Deus não pode ser acorrentada»(v. 9) .

    Segunda leitura: Marcos 12, 28b-34

    Naquele tempo, 28aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» 29Jesus respondeu: «O primeiro é: Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; 30amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. 31O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» 32O escriba disse-lhe: «Muito bem, Mestre, com razão disseste que Ele é o único e não existe outro além dele; 33e amá-lo com todo o coração, com todo o entendimento, com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios.» 34Vendo que ele respondera com sabedoria, Jesus disse: «Não estás longe do Reino de Deus.» E ninguém mais ousava interrogá-lo.

    Depois dos fariseus, herodianos e saduceus, aparece um escriba de boa vontade, que faz uma pergunta simplesmente teórica, sem armadilhas mais ou menos camufladas. Era uma questão clássica e frequentemente debatida. A resposta de Jesus também não era completamente nova. Na verdade trata-se de uma questão central para Jesus e para todos os crentes. A resposta mais completa será dada com toda a sua vida.
    Jesus oferece ao escriba honesto uma resposta rigorosamente bíblica: remete-o para Dt 6, 4s. e para Lv 19, 18. Mas a compreensão plena da resposta só se obtém à luz da revelação, segundo a qual o nosso amor a Deus e ao próximo supõe um facto precedente e fundante: o amor de Deus para connosco. O amor de Deus é a medida com que se deve confrontar todo o amor humano. Se este nascer daquele, estender-se-á a toda a humanidade, a todo o homem sem distinções, e será um amor com toda a humanidade de que dispomos: o coração, a mente e a vontade. Este amor supera todo e qualquer acto de culto, sobretudo aquele que está separado do amor ao próximo. Notemos também a afirmação clara e incisiva do monoteísmo (vv. 29.32), em polémica com o ambiente pagão em que vivia a comunidade para quem Marcos escrevia o seu evangelho.

    Meditatio

    Para o escriba, a questão posta a Jesus era simplesmente intelectual. Mas, para Jesus, tratava-se de uma questão vital.
    O Senhor começa por apresentar o essencial da vontade de Deus, que consiste em amar a Deus e amar ao próximo: «Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Jesus unifica o primeiro e o segundo mandamento: «Não há outro mandamento maior que estes» (vv. 30-31). Só Jesus viveu este único mandamento de modo perfeito. O seu amor pelo Pai e por nós levou-o a morrer na cruz, dando a sua vida até às últimas gotas de sangue, que jorraram do seu Coração trespassado.
    O nosso coração foi criado por Deus, à imagem e semelhança do seu, isto é, capaz de amar, e de amar à maneira divina. É o maior sinal do amor de Deus pelo homem. O Criador não guardou ciosamente para Si o poder de amar, mas partilhou-o com a criatura. É por isso que, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos é o maior de todos os mandamentos. É o maior porque, antes de ser um mandamento, é um dom. E, se é maior que todos os hol
    ocaustos e todos os sacrifícios, quer dizer que o homem realiza a maior experiência do amor divino quando ama à maneira de Deus, porque só então se pode dar conta de quando foi amado pelo Eterno, a ponto de poder amar como Ele ama.
    É nesta linha que Paulo convida Timóteo, e todos nós, a sofrer e a morrer por Cristo, para que os irmãos sejam salvos. Esta comunhão no amor redentor da cruz, revela-nos o surpreendente mistério da comunhão de Deus com o homem, do amor divino com o amor humano. Graças a esta comunhão, o amor de Deus já está presente e visível na terra. Mais ainda: o próprio Deus amou com um rosto humano, e um coração de carne bate desde já, com ritmos eternos, no meio dos homens.
    As nossas Constituições lembram-nos: «A vida reparadora será, por vezes, vivida na oferta dos sofrimentos suportados com paciência e abandono, mesmo na noite escura e na solidão, como eminente e misteriosa comunhão com os sofrimentos e com a morte de Cristo pela redenção do mundo» (n. 24). A nossa oblação, motivada e animada pelo amor oblativo de Cristo, torna-se instrumento de santificação para cada um de nós e para a Igreja, torna-se instrumento de redenção para o mundo. Por isso, as Constituições citam Paulo: «Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja» (Cl 1,24) (cf. Cst 24).

    Oratio
    Senhor Jesus, o Pai não quis holocaustos nem sacrifícios. Por isso, ofereceste-te a Ti mesmo e, num acto de perfeito amor filial, fizeste-te vítima e sacerdote, dom extremo de amor pelos teus: Por isso é que o teu discípulo amado, João, escreve: «Ele, que amara os seus, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13, 1).
    Agradeço, adoro e alimento-me do teu sacrifício, do teu duplo amor, tornado um único amor. Ensina-me a amar como Tu amaste. Sabes quanto vivo à procura de mim mesmo, grudado ao meu egoísmo, mesmo quando procuro amar. Ensina-me o teu amor oblativo. Ensina-me a morrer contigo, para que o mundo seja salvo. E, estou certo, viverei contigo, para sempre.
    Dá-me o teu Coração, alimenta-me sempre da Eucaristia, para que viva em união contigo, de modo cada vez mais profundo. Assim poderei amar o próximo como Tu o amas, e cumprir toda a Lei e os Profetas. Amen.

    Contemplatio

    O amor do Coração de Jesus pelo seu Pai é o modelo do nosso amor. Jesus é o corifeu do amor das criaturas por Deus. Há certamente o amor dos Anjos e de algumas boas almas, mas o que é isto para Deus? Jesus veio e oferece ao Pai um amor digno. E Pai compraze-se nesse amor, como disse o próprio Jesus nas margens do Jordão.
    Jesus ama o Pai. Esse amor é a sua vida. Amou-o na sua vida mortal, ama-o na Eucaristia, e ama-o no céu. Cumpre sempre o grande preceito: «Amarás o Senhor com todo o teu coração, com toda a sua alma, com todas as tuas forças».
    Entre os homens, Deus é tão pouco amado! Somos ingratos. Esquecemos Aquele de quem temos tudo: a vida, o perdão, a graça, a esperança do céu. E, no entanto, pede-nos o nosso coração: Filho, dá-me o teu coração (Pr 23, 26). Incapazes de O amarmos bem, por nós mesmos, amemo-lo pelo Coração de Jesus. Este divino Coração pertence-nos, suprirá à nossa impotência. Começarei, portanto, esta vida de amor em união com o Coração de Jesus. Amigo de Deus, amarei tudo o que me aproxima dele: a oração, o recolhimento, a visita ao Santíssimo Sacramento, a santa comunhão.
    Amar o próximo como o Coração de Jesus e com ele. O amor de Jesus pelos homens é o modelo daquele que devemos ter. Quanto Jesus nos amou! Porque é que o Filho de Deus se fez homem? Porque é que escolheu uma vida de pobreza, de trabalho e de sofrimento? Por nós e pela nossa salvação! O seu amor é a única explicação dos mistérios de Belém, de Nazaré, da Agonia e do Calvário. «Amou-me e entregou-se por mim» (Gal 2). Foi por nós também que quis permanecer na Eucaristia, e por nós ainda que intercede no céu.
    Jesus é caridade, como Deus é caridade. - A caridade é também o seu mandamento: «Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei», diz-nos (Jo 15). - «Se Jesus, diz S. João, sacrificou por nós a sua vida, devemos também estar prontos a sacrificar a nossa pelos nossos irmãos» (1Jo 3).
    Deus pede raramente um tal sacrifício, mas pede ao menos que pratiquemos a doçura e a paciência. Devemos mostrar-nos serviçais, sofrer as contrariedades, assistir aos infelizes, rezar pelos pecadores. Devemos ser afáveis e delicados, prestar serviços ao próximo, não o criticar nem o desprezar. (Pe. Dehon, OSP 3, p. 607s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Amarás o Senhor, teu Deus, e o teu próximo como a ti mesmo» (cf. Mc 12, 30-31).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • IX Semana – Sexta-feira – Tempo Comum – Anos Pares

    IX Semana – Sexta-feira – Tempo Comum – Anos Pares


    7 de Junho, 2024

    Tempo Comum – Anos Pares
    IX Semana – Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Timóteo 3, 10-17

    Caríssimo, 10Tu seguiste de perto o meu ensinamento, o meu modo de vida e os meus planos, a minha fé e a minha paciência, o meu amor fraterno e a minha firmeza, 11as perseguições e sofrimentos que tive de suportar em Antioquia, Icónio e Listra. Que perseguições tive de suportar! Mas de todas elas me livrou o Senhor. 12E assim também todos os que quiserem viver a fé em Cristo Jesus serão perseguidos. 13Quanto a esses perversos e impostores, irão de mal a pior, extraviando outros e extraviando-se a si próprios. 14Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e de que adquiriste a certeza, bem ciente de quem o aprendeste. 15Desde a infância conheces a Sagrada Escritura, que te pode instruir, em ordem à salvação pela fé em Cristo Jesus. 16De facto, toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, 17a fim de que o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa.

    A fé de Timóteo está autenticada pelas perseguições e sofrimentos que passou com Paulo: «Tu seguiste de perto o meu ensinamento, o meu modo de vida e os meus planos, a minha fé e a minha paciência, o meu amor fraterno e a minha firmeza, as perseguições e sofrimentos que tive de suportar» (vv. 10-11). Se Cristo sofreu, todo o discípulo há-de estar disposto a sofrer: «todos os que quiserem viver a fé em Cristo Jesus serão perseguidos» (v. 12). Paulo sofreu, e Timóteo participou nesses sofrimentos. Por isso, deve permanecer firme no que aprendeu e lhe foi transmitido. Deus é fiel, e há-de libertá-lo de todas as tribulações, que serão garantia da autenticidade da sua fé e do seu ensinamento.
    Em seguida, Paulo aponta duas dimensões vitais da fé. Em primeiro lugar, ela é recebida, das Escrituras e do testemunho de outros crentes, tais como os familiares. A fé recebida é, depois, submetida a um processo de aprendizagem que leva à convicção pessoal (v. 14), à fé, como sabedoria cristã, síntese de conhecimento orante e praxe coerente, que, de qualquer modo, passa pela provação, tornando-se fé provada e vivida. A Escritura, inspirada por Deus, tem o importante papel de «ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça» (v. 16) o crente e o mestre da fé.

    Segunda leitura: Marcos 12, 35-37

    Naquele tempo, 35ensinando no templo, Jesus tomou a palavra e perguntou: «Como dizem os doutores da Lei que o Messias é filho de David? 36O próprio David afirmou, inspirado pelo Espírito Santo: Disse o Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés’. 37O próprio David chama-lhe Senhor; como é Ele seu filho?» E a numerosa multidão ouvia-o com agrado.

    Terminado o diálogo com o escriba excepcionalmente honesto, o evangelista retoma a polémica com os outros escribas e fariseus para dar um ensinamento da máxima importância sobre o mistério da sua pessoa, e levantar muito discretamente o véu, que esconde o seu segredo messiânico. De acordo com a tradição judaica, fundada na promessa a Natan (2 Sam 7, 14), e confirmada pelos grandes profetas da esperança messiânica, o Messias devia ser um descendente de David. Mas, no Sl 110, 1, David chama «meu Senhor» ao Messias: «como é Ele seu filho» (v. 37). Com esta pergunta deixada em suspenso, Jesus rompe, mais uma vez, esquemas feitos e tidos por seguros, que parecem afastar o esforço por acreditar. Ao mesmo tempo incita-nos a reflectir, e a deixar-nos descobrir pelo mistério da sua pessoa, a não presumirmos saber tudo sobre Ele. Há que reflectir sempre sobre a «experiência de Deus» que já fizemos.
    Jesus não recusa a ascendência davídica do Messias, quer que ultrapassemos a lógica limitada da continuidade histórica dinástica, porque a promessa de Deus vai além dos critérios da sucessão hereditária. O dom do Pai, no Filho, vai muito além de tudo quanto a mente humana possa entender, porque será sempre um dom inédito e surpreendente.

    Meditatio

    A Sagrada Escritura é Palavra que vem do coração de Deus e fala ao nosso coração. Não é uma Palavra simplesmente escrita. É uma Palavra «aberta» por Jesus. Se assim não fosse, permaneceria enigmática e incompreensível, apesar da sua beleza.
    Paulo incita Timóteo a aprofundar as Escrituras, porque «toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça» (v. 16).
    Hoje, graças ao Senhor, dispomos de muitos meios para ler e compreender as Sagradas Escrituras. O concílio Vaticano II como que oficializou a Lectio divina, uma antiquíssima forma de ler a Bíblia, que estava adormecida na Igreja, principalmente depois das controvérsias da Reforma. A Lectio divina é, no fundo, uma leitura crente e orante da Bíblia que encontra as suas raízes no Novo Testamento. Lucas apresenta-nos Jesus a convidar os discípulos de Emaús a reler o Antigo Testamento a partir do acontecimento da Páscoa (Lc 24,13-35). E podemos dizer que os Evangelhos seguem, em grande parte, essa mesma dinâmica. A Lectio Divina pode assumir diferentes formulações e práticas. Mas, no essencial, consta dos quatro degraus indicados por Guigo II, o cartuxo, por volta de 1150: a leitura, a meditação, a oração e a contemplação. Este método de leitura da Sagrada Escritura pode contribuir em muito para que «o homem de Deus seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa» (v. 17), também para o anúncio correcto e eficaz da Boa Nova. Este anúncio leva inevitavelmente quem o faz ao encontro da rejeição, se não mesmo da perseguição. Foi o que aconteceu com o divino Mestre. Mas essa rejeição e perseguição levam à bem-aventurança: «Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa» (Mt 5, 11). Paulo, e muitos outros arautos do Evangelho, viveram essas perseguições e experimentaram essa bem-aventurança.
    As nossas Constituições afirmam: «Prestamos atenção ao que o Espírito nos inspira, mediante a Palavra de Deus recebida na Igreja e através dos acontecimentos da vida» (n. 57). O Pe. Dehon dá-nos um extraordinário exemplo de «escuta da Palavra», desde seminarista, como testemunham os dois primeiros cadernos do seu «Diário». Quase todos os conteúdos das suas notas têm raiz na Escritura. As citações são tomadas sem qualquer diferença tanto do Antigo como do Novo Testamento. Em 138 páginas manuscritas contamos 210 citações da Sagrada Escritura. A sua preferência vai para S. João (57 vezes) e para S. Paulo (38 vezes).
    Preparado pela “escuta da Palavra”, meditada e assimilada, Leão Dehon vive generosa e alegremente as exig
    ências do seu espírito de oblação, de reparação e de imolação.
    As palavras do evangelho de hoje são misteriosas: «Como dizem os doutores da Lei que o Messias é filho de David?… O próprio David chama-lhe Senhor; como é Ele seu filho?»(cf. vv. 35-37). Jesus insinua o mistério da sua pessoa: é filho de David, mas também Filho de Deus, Unigénito do Pai. É Ele quem no-lo revela. É por Ele que obtemos a salvação.

    Oratio

    Senhor, abre o meu coração à tua Palavra, aumenta a minha fé, incendeia o meu amor. E, então, poderei dar-te graças, porque iluminas a minha vida, dás sentido àquilo que faço, me ensinas, me convences, me corriges e formas em mim o homem novo. Também Te dou graças porque a tua palavra me dá força e me sustenta nas provações. Nela, a verdade brilha como o sol. Mas também Te agradeço por aquelas vezes em que a tua palavra é obscura e misteriosa, dura e amarga, e me penetra «como espada de dois gumes», pondo à luz os meus medos, as minhas feridas, os meus monstros, os meus demónios, provocando-me a buscar-te onde não queria que estivesses, onde não me leva o coração, muito para além dos meus gostos pessoais.
    Dá-me, Senhor, a coragem de Paulo nas provações. Faz com que aprenda, como Timóteo, a «permanecer firme» na Palavra, e naquilo que a Igreja me ensina, para que a minha fé seja recebida da Escritura e provada na vida. Amen.

    Contemplatio

    A Sagrada Escritura constitui, juntamente com a divina Eucaristia, o alimento da nossa vida espiritual. É uma parte do nosso pão supersubstancial: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que saí da boca de Deus (Mt 4, 4).
    Os Sacerdotes do Coração de Jesus, desejosos de fazer crescer em si mesmos a vida sobrenatural, farão da Sagrada Escritura o seu alimento quotidiano. Será o seu estudo preferido.
    Na Sagrada Escritura, com a ajuda da meditação, aprenderão a conhecer melhor o Coração de Jesus, objecto exclusivo do seu amor.
    O Apóstolo S. João é, de modo particular, o apóstolo do amor, o teólogo do Coração de Jesus. Mas todos os livros sagrados falam do Salvador.
    No Antigo Testamento, Jesus é anunciado, figurado, preparado. No Evangelho, encontramo-l’O vivo na terra: lá se encontram as suas palavras e os seus mistérios. Nas Epístolas, nos Actos dos Apóstolos e no Apocalipse, encontramos ainda Jesus que continua presente na Igreja e está glorioso no céu.
    Todas as leituras da Sagrada Escritura e de autores ascéticos devem servir-nos para melhor conhecermos a Jesus, a fim de aprendermos a amá-l’O melhor.
    A conclusão destas leituras, como também das nossas orações, deve ser sempre um amor novo e mais ardente ao Coração de Jesus.
    Cada um de nós leia todos os dias um trecho da Escritura Sagrada e faça a leitura espiritual (Leão Dehon, Directório Espiritual, nn. 143-144).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Permanece firme no que aprendeste» (2 Tm 3, 14).

    | Fernando Fonseca, scj |

     

  • IX Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    IX Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares


    8 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    IX Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Timóteo 4, 1-8

    Caríssimo: 1Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há-de julgar os vivos e os mortos, peço-te encarecidamente, pela sua vinda e pelo seu Reino: 2proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência. 3Virão tempos em que o ensinamento salutar não será aceite, mas as pessoas acumularão mestres que lhes encham os ouvidos, de acordo com os próprios desejos. 4Desviarão os ouvidos da verdade e divagarão ao sabor de fábulas. 5Tu, porém, controla-te em tudo, suporta as adversidades, dedica-te ao trabalho do Evangelho e desempenha com esmero o teu ministério. 6Quanto a mim, já estou pronto para oferecer-me como sacrifício; avizinha-se o tempo da minha libertação. 7Combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. 8A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor, justo juiz, e não somente a mim, mas a todos os que anseiam pela sua vinda.

    Paulo sente-se no crepúsculo da vida: «avizinha-se o tempo da minha libertação» (v. 7). O testo que hoje escutamos é a parte mais comovedora do testamento espiritual, que muitos vêem na Segunda Carta a Timóteo. O Apóstolo, por um lado, está consciente dos perigos que rondam a comunidade, e por outro, como dissemos, sabe que o seu fim se aproxima. E então esconjura o seu discípulo Timóteo a que nada deixe ao acaso, para anunciar a todos o Evangelho: «Tu, porém, controla-te em tudo, suporta as adversidades, dedica-te ao trabalho do Evangelho e desempenha com esmero o teu ministério» (v. 5). Timóteo deve sentir-se responsável pelo anúncio da Boa Nova, porque é da escuta da Palavra que vem a salvação (cf. Rm 10, 17). Os tempos são difíceis, é verdade. A Palavra corre o risco de ser sufocada por «fábulas». O prurido das novidades pode prevalecer sobre a escuta da verdade. Mas Timóteo, e todo aquele que está à frente de uma comunidade cristã, não podem baixar os braços. Devem, sim, vigiar, saber suportar, insistir, avisar, repreender, cumprir a missão de arautos do Evangelho até ao fim, até dar a vida, como Paulo.
    O Apóstolo sabe que o seu fim se aproxima. Mas isso não o entristece. Como um atleta que já avista a meta, e a vitória, Paulo está cheio de alegria. A sua vida vai ser oferecida em sacrifício de amor a Deus, tal como a vida de Jesus. É bom viver e morrer em oblação pela salvação dos outros. É bom regressar ao Pai depois de ter realizado a missão recebida. Paulo faz da sua fidelidade um veemente apelo à de Timóteo. Se conservar fielmente o depósito da fé que lhe foi confiado, receberá «a merecida coroa», resposta de amor do Senhor àqueles que «anseiam pela sua vinda» (v. 8). Todas estas exortações de Paulo brotam, como verificamos, de uma experiência profunda e dolorosa: está prestes a ser sacrificado e tem a consciência tranquila, porque observou as regras de combate expostas a Timóteo.

    Segunda leitura: Marcos 12, 38-44

    Naquele tempo, 38continuando o seu ensinamento, Jesus dizia: «Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, 39de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; 40eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa.»
    41Estando sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. 42Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões. 43Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; 44porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.»

    Jesus aponta duas atitudes erradas nos escribas: a vaidade e a hipocrisia. A vaidade revela-se nas longas vestes, no prazer em ser cumprimentados publicamente, na presunção de ocupar sempre os primeiros lugares. A hipocrisia revela-se em ostentarem grande devoção, prolongando os tempos de oração comum, só para darem nas vistas. A sua pretensa religiosidade torna-se ainda mais escandalosa quando não revelam qualquer pudor na opressão dos fracos e dos indefesos. Os escribas são homens impuros, incapazes de fazerem dom de si mesmos a Deus e ao próximo. Mesmo quando oferecem avultadas quantias ao templo, apenas revelam o seu egoísmo e a convicção de que são indispensáveis à causa de Deus. A viúva pobre, pelo contrário, lançou no tesouro do templo duas moedinhas, uns cêntimos. Mas «deitou tudo quanto possuía» (v. 44). Não julgava fazer uma grande oferta, nem «ajudar» a Deus. Mas tinha um coração puro. Amava a Deus e entregava-se a Ele completamente. É por isso que Jesus a apresenta aos discípulos como exemplo.

    Meditatio

    A primeira leitura e o evangelho, que hoje escutamos, completam-se reciprocamente. Paulo põe de sobreaviso Timóteo, e a comunidade a que preside, para o perigo de se deixarem levar por «mestres que lhes encham os ouvidos, de acordo com os próprios desejos» (v. 3). Por outras palavras, Paulo previne Timóteo, e a sua comunidade, contra a vã curiosidade nas leituras, nos divertimentos e nas doutrinas. No evangelho, Jesus fala de mestres que procuram satisfazer a própria vaidade, buscando honras, cumprimentos nas praças e «os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes» (v. 39).
    Também nós, hoje, corremos o risco de nos deixar levar pelas «fábulas» dos falsos mestres, que nos batem à porta, que encontramos na rua e que, sobretudo, vemos, ouvimos e lemos nos meios de comunicação social. Tanto a primeira leitura, como o evangelho, nos alertam para esse perigo.
    Mas há mais: tanto em Paulo como na viúva pobre, encontramos a coragem de amar e de viver aquilo em que crêem, até às últimas consequências. É por essa razão que Paulo está na prisão, e continua a anunciar o Evangelho, enquanto espera a morte. É por isso que a viúva pobre oferece a Deus tudo o que tem, nada reservando para as suas próprias necessidades. As duas leituras exaltam a fé dos apóstolos e dos mártires, a fé dos simples e humildes, mas também a força da própria fé e a sua coerência, fruto de uma paixão interior, que, unida à convicção da mente, é actuada na vida prática. Paulo está devorado pela sua paixão pelo Evangelho e pelo seu anúncio, tal como a viúva pobre está totalmente presa pela centralidade e pelo primado de Deus na sua vida. E, quando a fé se torna paixão, que envolve a mente, o coração, a vontade, os sentidos, a emotividade, as mãos, os pés, todo o seu ser, o crente já não teme dar tudo e entregar a si mesmo a Deus, por amor, e só por amor. Paulo oferece a sua vida
    em sacrifício de amor a Deus, tal como Jesus oferecera a sua. O Apóstolo sabe que é bom viver e morrer em oblação pela salvação dos outros, que é bom regressar ao Pai, depois de ter realizado a missão recebida. A viúva pobre também sabe que, dando tudo o que tem, ainda que sejam apenas «uns cêntimos» (v. 42), dá «mais do que todos os outros» (v. 43), por era «tudo quanto possuía, todo o seu sustento» (v. 44).
    Cristo deu-se inteiramente ao Pai e aos homens com um amor sem reservas (Cst 41). Como cristãos, e particularmente como dehonianos, havemos de estar dispostos, não só a dar tudo, mas também a dar-nos totalmente, sem reservas Àquele que tudo deu por nós. Numa carta escrita aos seus missionários, o Pe. Dehon mostrava-se orgulhoso por esses filhos, porque iam para terras longínquas, entregando tudo, e entregando-se inteiramente, à missão de alargar o Reino do Coração de Jesus, a viver a vida de reparação e de imolação, que a sua vocação exige. E, acrescenta o Fundador, «devem desejar morrer na missão, para que o sacrifício seja mais completo e sem reservas, para fazer conhecer e amar o bom Deus e o amor do Coração de Jesus, especialmente na Eucaristia».

    Oratio

    Senhor, quanto me sinto semelhante aos doutores da Lei, na minha vaidade, na minha auto-suficiência, que me tornam presumido diante de Ti e hipócrita diante dos meus irmãos. E quanto me sinto longe, mas também atraído, pelo exemplo de Paulo e da viúva pobre.
    Dá-me, Senhor, a coerência de Paulo, aquela coerência que o levou à prisão, mas que também lhe deu força, e autoridade moral, para pedir a Timóteo coragem no anúncio do Evangelho. Dá-me a fé corajosa e linear da viúva, que te deu tudo, e confiou na tua Providência.
    Interceda por mim a Virgem Maria, a humilde serva que se ofereceu a Si mesma Contigo, pela salvação do mundo. Amen.

    Contemplatio

    Desde o primeiro instante da sua vida humana, Jesus formula no seu coração os sentimentos que exprimiam os antigos sacrifícios. Substitui-se a todas as vítimas, que não eram senão figurativas. Oferece-se ao seu pai, dá-se. Torna-se hóstia, oblação, holocausto e vítima. Começa o sacrifício da obediência e da submissão à vontade de seu Pai; adora, dá graças, reza, repara.
    Ecce venio! Eis aqui, ó meu Pai, para suprir às vítimas imperfeitas do passado; eis-me aqui para vos oferecer doravante e sem interrupção a homenagem perfeita da adoração, do amor, da oração, da reparação.
    Estes actos formam o Coração espiritual de Jesus. Está deles penetrado, identifica-se com eles.
    Mas a nossa fraca inteligência não se dá conta da perfeição desta oblação senão supondo actos sucessivos.
    Vemos primeiro no Coração imolado de Jesus um acto de adoração e de amor, e para exprimir esta adoração, aniquilamentos infinitos.
    Jesus confessa a absoluta dependência na qual está diante da absoluta Majestade de seu Pai.
    Proclama que lhe deve tudo, e para lhe fazer um sacrifício de tudo o que é, abaixa-se até ao nada, como o explica S. Paulo (Fil 2, 6); porque foi bem o nada que esta natureza humana tomou na sua pobreza, na sua infinita pequenez, com a carga de todos os pecados dos homens.
    E este coração humilhado funde-se no amor da infinita beleza divina.
    Mas mais o Verbo de Deus se abaixa, mais devemos exaltá-lo com os nossos louvores (Leão Dehon, OSP 4, p. 414).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Estou pronto a oferecer-me em sacrifício» (2 Tm 4, 6).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • X Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    X Semana - Segunda-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    10 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    X Semana - Segunda-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 17, 1-6

    Naqueles dias, 1Elias, o tisbita, habitante de Guilead, disse a Acab: «Pela vida do Senhor, Deus de Israel, a quem eu sirvo, não cairá orvalho nem chuva nestes anos senão à minha ordem.» 2A palavra do Senhor foi-lhe dirigida nestes termos: 3«Vai-te daqui, dirige-te para Oriente e esconde-te na torrente de Querit, que fica em frente do Jordão. 4Beberás da torrente, e Eu já ordenei aos corvos que te levem lá de comer.» 5Então ele partiu segundo a palavra do Senhor e foi morar junto à margem do Querit, em frente do Jordão. 6Os corvos traziam-lhe pão e carne, de manhã e de tarde, e ele bebia água da torrente.

    Retomamos hoje a leitura do Primeiro Livro dos Reis, iniciada na quarta semana do tempo comum. O reino de David, que atingira a sua máxima grandeza no tempo de Salomão, estava dividido pelo cisma político-religioso de 931 a. C. O reino do Norte, Israel, formado por dez tribos, tinha a capital em Samaria. O reino do Sul, Judá, tinha a capital em Jerusalém. Enquanto no reino do Norte se sucederam dez famílias reinantes, no reino do Sul, manteve-se sempre a dinastia de David.
    O nosso texto situa-nos no Norte, durante o reinado de Acab e Jezabel. O casamento do rei de Israel com essa princesa fenícia tinha sido fatal para a causa javista. Acab mandou construir um templo a Baal em Samaria, promoveu uma política favorável ao baalismo, e uma ofensiva feroz contra o javismo, matando os seus profetas. É então que surge Elias, proveniente de Guilead, na Transjordânia, onde perdurava um javismo vigoroso. Elias significa «Javé é o meu Deus», um nome que resume a sua vida. O profeta foi enviado a Acab (854-853) para denunciar o culto de Baal, deus de Tiro, propiciador da chuva (1 Re 18, 19). Elias, em nome de Javé, anuncia e garante uma seca, que revelará a fraqueza de Baal aos seus devotos, pois não conseguirá fazer que chova em Israel, contra a vontade do profeta. Acab, instigado pela mulher, persegue Elias. Mas Deus protege-o directamente, alimentando-o de modo miraculoso, junto da torrente de Querit, tal como tinha alimentado o povo no deserto.

    Evangelho: Mateus 5, 1-12

    Naquele tempo, 1ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. 2Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo: 3«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. 4Felizes os que choram, porque serão consolados. 5Felizes os mansos, porque possuirão a terra. 6Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. 9Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. 10Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. 11Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. 12Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.»

    Começamos hoje a ler o primeiro dos cinco grandes discursos em que Mateus agrupou os ensinamentos de Jesus. Este primeiro discurso, o «Sermão da Montanha», ou a Magna Carta do Reino, como alguém já lhe chamou, vai prolongar-se pelos capítulos sexto e sétimo. Mateus, além das mais importantes exigências éticas de Jesus aos seus discípulos, narra dez milagres (cc. 8-9). Assim nos apresenta Cristo mestre, cuja palavra divina, não só é autorizada, mas também eficaz.
    Mateus apresenta Cristo como o novo Moisés, aquele que promulga a nova lei, sobre o monte das Bem-aventuranças, de que o Sinai fora antecipação. No discurso das Bem-aventuranças, o evangelista colecciona e sistematiza ensinamentos ministrados por Jesus em diversas ocasiões. Assim seria mais fácil e prático utilizá-los na pregação e no ensino da Igreja.
    A expressão «pobres em espírito», ainda que não se encontre no Antigo Testamento, reflecte um aspecto fundamental do mesmo: a expectativa do Reino por parte dos pequenos e humildes. Estes hão-de possuir a terra (cf. Sl 37, 11) e, portanto, o Reino, que começa já agora. Por isso, é que é «deles é o Reino do Céu» (v. 3).
    A consolação é apresentada como um traço característico de Deus e dom messiânico por excelência (Is 61, 2; cf. Lc 2, 25). O próprio Cristo se considera consolador e, a esse título, anuncia o dom do Espírito Santo (Jo 14, 26; 15, 26; 16, 7).
    O termo justiça indica o recto cumprimento da vontade divina, realizado com entusiasmo e determinação (fome e sede), conota o acesso à salvação, e será a razão de ser da incarnação do Verbo, cujo nome será «Senhor-nossa-Justiça» (Jr 23, 6).
    A expressão «coração puro» é recorrente na Sagrada Escritura e é sinónimo de «coração simples» (cf Sl 24, 3s; 51, 12; 73, 13; Pr 22, 11; Sab 1, 1: Ef 6, 5). O homem de coração puro verá a Deus, não nesta terra, mas nos céus, onde «O veremos tal qual é» (1 Jo 3, 2), «face a face» ( 1 Cor 13, 12).
    «Obreiro da paz» é o próprio Deus (Cl 1, 20), tantas vezes definido como «Deus da paz».
    A perseguição «por causa da justiça» não é outra coisa senão o preço a pagar pela coerência e pelo testemunho evangélico.

    Meditatio

    A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Elias, grande testemunha da santidade de Deus, num momento de decadência, em Israel, por causa da idolatria, que, por influência de Jezabel, e com a conivência de Acaz, ia ganhando terreno. Elias não suporta a situação e anuncia a punição de Deus. O rei não suporta a intervenção do profeta, e procura matá-lo. Mas Deus está com Elias e diz-lhe: «Vai-te daqui» (v. 3). O profeta refugia-se junto da torrente de Querit, onde Deus cuida do seu sustento.
    O Sermão da Montanha revela-nos o coração de Deus, que não só não abandona os seus profetas, mas ama a todos e a todos quer felizes: «Felizes... felizes ... felizes» é o termo mais repetido no evangelho que escutamos hoje. Deus quer a nossa felicidade, e ensina-nos o caminho para lá chegar. Esse caminho não passa pelas ilusões da riqueza, do poder, das alegrias fáceis, que não passam de becos sem saída, que nos afastam d´Ele e, por isso, também da felicidade.
    O caminho que Jesus nos indica para a felicidade é o seu próprio caminho. O mundo proclama as bem-aventuranças do egoísmo: felizes os ricos, os poderosos, os que mandam, os que, a qualquer custo, procuram satisfazer as suas reivindicações, os seus interesses. Jesus assume uma posição paradoxal, unindo termos em clara
    contraposição: «Felizes os pobres, os que choram...». É um convite a não nos determos à superfície das coisas, mas a olhá-las em profundidade, para vermos o que realmente conta, o que desde já nos dá alegria, ainda que em condições de sofrimento e de pobreza. É o caso da mansidão, da humildade, da misericórdia, que são premissas necessárias a um bem maior, como é a união com Cristo. Por isso, é particularmente paradoxal a última bem-aventurança: «Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa... porque grande será a vossa recompensa no Céu» (v. 11-12). Segundo Jesus, na injustiça, sofrida por causa d´Ele, havemos de encontrar a felicidade. E, aqui, encontramos a ligação com a primeira leitura: são felizes «os que têm fome e sede de justiça», isto é, de santidade, e que sofrem perseguições por causa disso. Elias, profeta perseguido e sofredor, já experimentou a felicidade que Jesus, nove séculos mais tarde, viria proclamar, para quantos tivessem de sofrer por sua causa.
    O verdadeiro discípulo, com efeito, alegra-se em participar nos sofrimentos do seu Senhor (1 Pe 4, 13). À imitação de Cristo, prefere a cruz à alegria imediata: «Em vista da alegria que Lhe era oferecida (Cristo) submeteu-Se à cruz» (Heb 12, 2). Considera «perfeita alegria» sofrer toda a espécie de provações (cf. Tg 1, 2). O laborioso ministério do Apóstolo é um exemplo típico de alegria nas tribulações (Cf. 2 Cor 6, 20; 7, 4; Fl 1, 17-18; 2, 17-18).
    A alegria nas provações é, desde já, posse e garantia da alegria do céu (cf. Apoc 18, 20; 19, 1-4.7-9). Então, será a perfeita alegria, desde já saboreada pelos filhos de Deus e suscitada pela comunhão com o Pai e com o Filho, no Espírito Santo (cf. 1 Jo 1, 1-4; 3, 1-2.2-4).
    O cristão e, sobretudo, o oblato-SCJ vive alegre em todas as situações, mesmo quando tiver de sofrer por causa de Cristo e do seu Reino, manifestando a misericórdia, a alegria e a bondade de Deus para com todos os homens, porque o Senhor está perto (cf. Fl 4, 4-5), e o esposo, logo que chegue, há-de introduzi-lo na alegre festa das núpcias (cf. Mt 25, 10), onde a bem-aventurança será eterna.

    Oratio

    Senhor Jesus, que no alto do monte proclamaste as bem-aventuranças, a nova Lei da nova Aliança, ajuda-me a recordá-la e a vivê-la em todas as circunstâncias da minha vida, para dar ao mundo aquele testemunho profético que me confias como cristão e como consagrado.
    A tua santidade é misericórdia e não dureza. Tu declaras felizes os que, à imitação do Pai, são misericordiosos. Que, a cada dureza e a cada injustiça, eu saiba sempre opor, com a ajuda da tua graça, a misericórdia. Foi assim que, Tu mesmo, reagiste às injustiças e aos sofrimentos a que foste submetido.
    Uma vez que me ensinaste os mais altos cumes das virtudes, infunde em mim o teu Espírito Santo, que venha em auxílio da minha fragilidade, para que possa alcançá-los e receber o prémio que me reservas. Amen.

    Contemplatio

    Feliz o justo que sofre pela justiça! É semelhante ao divino Mestre, que foi o Cordeiro imolado desde o começo, a vítima da salvação, da reparação, da redenção.
    Nosso Senhor predisse esta nossa semelhança com Ele: «O discípulo não está acima do Mestre, disse-nos. Como o mundo me persegue, perseguir-vos-á. Sereis como cordeiros entre os lobos. Arrastar-vos-ão diante dos tribunais. Encontrareis contradições até nas vossas famílias. Muitos vos odiarão por causa de Mim. Mas não sereis felizes por vos parecerdes com o vosso Mestre?» (Mt 10) ... Os discípulos não estão acima do mestre. Os apóstolos também foram perseguidos, porque anunciavam Cristo e pregavam a redenção, foram presos e flagelados; e voltando do tribunal, alegravam-se por terem tido a graça de sofrerem por Jesus Cristo (At 5, 4). Tiveram todos a heróica coragem de enfrentarem a morte pelo Salvador, e se S. João não morreu no seu suplício, foi por um milagre que não lhe tira o mérito do martírio.
    S. Paulo via com alegria a coragem dos seus discípulos na perseguição. Escrevia aos Tessalonicenses: «Gloriamo-nos em vós, nas Igrejas de Deus, por causa da vossa paciência e da vossa fidelidade, no meio das perseguições e das tribulações que tendes de suportar. É o sinal dos desígnios de Deus, o qual vos quer tornar dignos do seu Reino. É por isso que vós sofreis. Mas a seu tempo a todos nos tocará, quando Nosso Senhor descer do céu e aparecer com os anjos, ministros do seu poder» (2Tes 1, 4-7). (Leão Dehon, OSP4, p. 60s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra
    «Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem por minha causa (cf. Mt 5, 11).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • X Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    X Semana - Terça-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    11 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    X Semana - Terça-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 17, 7-17

    Naqueles dias, 7a torrente secou, pois não chovia sobre a terra. 8Então o Senhor disse-lhe: 9«Levanta-te, vai para Sarepta de Sídon e fica lá, pois ordenei a uma mulher viúva de lá que te alimente.» 10Ele levantou-se e foi para Sarepta; ao chegar à entrada da cidade, eis que havia lá uma mulher viúva que andava a apanhar lenha; chamou-a e disse-lhe: «Vai-me arranjar, te peço, um pouco de água numa vasilha, para eu beber.» 11Ela foi buscar a água e Elias chamou-a e disse-lhe: «Traz-me também um pedaço de pão nas tuas mãos.» 12Então ela respondeu: «Pela vida do Senhor, teu Deus, não tenho pão cozido; tenho apenas um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na ânfora; mal tenha reunido um pouco de lenha entrarei em casa para preparar esse resto para mim e para meu filho; vamos comê-lo e depois morreremos.» 13Elias disse-lhe: «Não tenhas medo; vai a casa e faz como disseste. Disso que tens faz-me um pãozinho e traz-mo; depois é que prepararás o resto para ti e para o teu filho. 14Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel:'A panela da farinha não se esgotará, nem faltará o azeite na almotolia até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra.'» 15Ela foi e fez como lhe dissera Elias: comeu ele, ela e a sua família, durante alguns dias. 16Nem a farinha se acabou na panela, nem o azeite faltou na almotolia, conforme dissera o Senhor pela boca de Elias.

    Na Palestina, a chuva e as boas colheitas estão em proporção directa (cf. Dt 11, 10-15). Jezabel tinha introduzido em Israel o culto de Baal, deus da chuva. E queria impô-lo a todos. Mas teve que haver-se com a oposição frontal de Elias. A multiplicação milagrosa da farinha e do azeite mostra que o verdadeiro Deus da fertilidade e das boas colheitas é Javé, e não Baal, incapaz de mandar chuva para interromper a seca proclamada por Elias. Ao fazer o milagre, em nome de Javé, Elias mostra que a poderosa rainha Jezabel, e todos os baalistas, não têm razão. Quem a tem é a pobre e indefesa viúva de Sarepta, que confia em Javé. O facto de ser uma estrangeira abre uma perspectiva universalista da salvação, que será completa no Novo Testamento. A viúva de Sarepta é tipo dos pagãos convidados para a mesa do Reino. Este episódio compreende-se plenamente à luz da citação que Cristo faz dele na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 24-26): o profeta, que os seus recusam a escutar, é ouvido e acreditado entre os pagãos. Podemos também comparar a viúva de Sarepta com aquela de que nos fala o Evangelho (Mc 12, 41-44; Lc 21, 1-4), para sublinharmos a generosidade de ambas. Esta viúva, generosa com Elias, também se contrapõe a Jezabel e à sua avidez insaciável (cf. 1 Rs 21, 1ss.). O milagre de Sarepta, à semelhança do da torrente de Quarit (1 Rs 17, 1-6), manifesta a solicitude e a providência de Deus em favor dos profetas.

    Evangelho: Mateus 5, 13-16

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 13«Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens. 14Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; 15nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. 16Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.»

    Quem vive a nova lei das Bem-aventuranças, proclamada por Jesus Cristo, o novo Moisés, torna-se sal e luz do mundo. Os dois provérbios parabólicos, do sal e da luz, definem a vida e missão dos discípulos, em contraste com a dos fariseus e pagãos: «Vós sois o sal da terra ... Vós sois a luz do mundo». O sal dá sabor aos alimentos, e ainda é usado para evitar a sua corrupção. O sal também era usado na confecção dos sacrifícios (Lv 2, 13) e, portanto, assumia um papel «consacratório» e, se perdesse a capacidade de salgar, era «pisado pelos homens», num gesto dessacralizante. O sal, finalmente, também lembra a sabedoria (Mc 9, 50): devemos condimentar com ele o nosso falar (Cl 4, 6).
    Os discípulos são «luz do mundo», tal como Cristo, que é a fonte da luz (Jo 8, 12). Não se acende uma luz «para a colocar debaixo do alqueire» (cf. Mc 4, 21), caso contrário, apaga-se, como acontece quando se coloca o apagador sobre uma vela.
    «Sal da terra... luz do mundo: a missão dos discípulos tem um horizonte cósmico, planetário.

    Meditatio

    Jesus proclama os seus discípulos sal da terra e luz do mundo. Cada um o deve ser conforme os seus carismas, conforme a sua vocação. Por isso, há muitos modos de ser sal da terra e luz do mundo. Elias, de que nos fala a primeira leitura, é sal da terra com o seu zelo pela verdadeira fé. Mas também a viúva pobre é luz do mundo, pela sua fé, esperança e caridade. Apenas tinha «um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na ânfora», para ela e para o filho. Mais um pouco de tempo, e morreriam ambos de fome. E o homem de Deus, o profeta, em vez de vir trazer alguma coisa, pedia-lhe um pouco de água e um pedaço de pão. Parecia legítimo negar-lhe o pedido. Mas a mulher «foi e fez como lhe dissera Elias» (v. 15). Acreditou na promessa do profeta: «a panela da farinha não se esgotará, nem faltará o azeite na almotolia» (v. 14). Deu e, por isso, recebeu. Não será rica; mas também não lhe faltará o necessário.
    O homem «foi criado para fazer boas obras» (Ef 2, 10), irradiando a luz que Cristo derrama sobre ele (cf. Ef 5, 14). O Senhor, que é a luz que ilumina, transforma-nos em luz iluminada, em luz que se reflecte sobre nós, no dizer de S. Gregório Magno. A comunidade dos «iluminados» (Heb 6, 4; 10, 13) torna-se aquele candelabro de ouro, imagem da Igreja, onde Cristo establece a sua morada (Ap 1, 13). Na tradição hebraica, o candelabro de sete braços simboliza a totalidade do tempo - a primeira semana genesíaca - e a totalidade da pessoa, sintetisada nos sentidos superiores, com as suas sete aberturas: dois olhos, dois ouvidos, duas narinas e a boca. Será útil pensar: em que medida irradiam luz os meus sentidos, através dos quais interajo com a humanidade?
    A generosidade, a que somos chamados, é resposta à generosidade d´Aquele «que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para (nos) enriquecer pela sua pobreza» (2 Cor 8,9). É permitir a Cristo continuar a viver e a realizar em nós a sua generosidade. Por isso, é um verdadeiro dom, uma «graça» ("karis"), tal como a pobreza de Cristo (2 Cor 8, 9). Com essas palavras, o Apóstolo pretende estimular os cristãos de Corinto, para que dêem, com generosidade, aos pobres da Igreja de Jerusalém:
    «Distingui-vos... nesta acção generosa» (2 Cor 8, 7). Esta «graça de Deus», já foi concedida às Igrejas da Macedónia (2 Cor 8, 1), as quais, apesar das tribulações e da «sua extrema pobreza», deram com «grande alegria... para além das suas posses, espontaneamente, pedindo-nos insistentemente a graça de tomarem parte neste serviço, a favor dos santos» (2 Cor 8, 2-4).
    Um ensinamento importante para todos os cristãos, particularmente para aqueles que fazem voto de pobreza.

    Oratio

    Senhor, que eu não encontre desculpa para não dar com genrosidade. Infunde no meu coração o teu Espírito Santo para saiba gastar o meu tempo, o que tenho e o que sou, em favor dos irmãos, particularmente dos mais fracos e carenciados. Que não olhe demasiadamente para os meus limites, e tenha sempre esperança. Dá-me a graça de dar o pouco que tenho, para que se possa prolongar em mim a tua generosidade. Assim serei realmente feliz, porque Tu mesmo disseste que há maior alegria em dar do que em receber. Amen.

    Contemplatio

    «Vós sois o sal da terra ... Vós sois a luz do mundo. Estas comparações aplicam-se em primeiro lugar e particularmente aos pastores das almas, mas também, de uma certa maneira, a todos os discípulos de Jesus Cristo, mesmo aos simples fiéis. Não têm todos alguns deveres de apostolado uns a respeito dos outros?
    Todos devem edificar o seu próximo pelo bom exemplo, pelas exortações, pelos bons avisos e por todos os meios que pode sugerir um zelo sábio e prudente.
    Este dever é mais complexo para aqueles que têm alguma autoridade familiar, patronal ou administrativa. Mas como é mais urgente o dever do apostolado para o padre! O apostolado é a sua missão, deve despender nele a sua inteligência, o seu coração, toda a sua actividade. «Despender-me-ei, diz S. Paulo, e despenderei tudo o que puder pela salvação das almas. O apóstolo não pode deixar de trabalhar pela salvação das almas sem se perder a si mesmo.
    – Todos os cristãos devem ser a luz do mundo pelas suas virtudes. O padre deve sê-lo particularmente. Tem como missão edificar e evangelizar.
    Uma lâmpada não é feita para estar escondida debaixo alqueire, mas para ser vista, para luzir e para iluminar.
    – Se uma lâmpada vem a extinguir-se, tudo recai na obscuridade; o apóstolo deve ser também uma lâmpada ardente, uma lareira de calor. Este calor é o zelo, é o amor de Deus e das almas. O apóstolo vai buscar facilmente este calor ao Coração de Jesus, que é uma fornalha ardente de caridade. O apóstolo fervoroso arde de amor por Deus e testemunha-lhe este amor por todos os actos da vida interior, pelos actos de amor e de reparação sobretudo, e aí será facilmente levado se contemplar o Coração de Jesus, o Coração amante e sofredor do Salvador, que nos pede o amor recíproco, a consolação e a reparação. Arde também de amor pelo próximo e alimentá-lo-á aproximando-se da mesma lareira, o Coração vítima do Redentor (Leão Dehon, OSP4, pp. 48-50, passim).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Vós sois o sal da terra;vós sois a luz do mundo» (cf. Mt 5, 13-14).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • X Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    X Semana - Quinta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    13 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    X Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 18, 41-46

    Naqueles dias, 41o profeta Elias disse a Acab: «Vai, come e bebe, pois já oiço o rumor de uma forte chuvada!» 42Acab foi comer e beber; Elias subiu ao cimo do monte Carmelo, prostrou-se por terra, colocando a cabeça entre os joelhos; 43e disse ao seu servo: «Sobe e observa para os lados do mar.» Ele subiu e observou, dizendo: «Não vejo nada!» Por sete vezes Elias lhe repetiu: «Volta e torna a observar.» 44À sétima vez, o servo respondeu: «Eis que sobe do mar uma pequena nuvem como a palma da mão!» Disse-lhe então Elias: «Vai dizer a Acab que prepare o seu carro e desça quanto antes, para que a chuva não o detenha aqui.» 45Nesse momento, cobriu-se o céu de nuvens negras, o vento soprou e a chuva começou a cair torrencialmente. Acab subiu para o seu carro e partiu para Jezrael. 46A mão do Senhor esteve sobre Elias que, de rins cingidos, ultrapassou Acab e chegou a Jezrael.

    O profeta Elias anuncia a Acab o fim da seca, e o fim do jejum ordenado para obter a chuva: «Vai, come e bebe, pois já oiço o rumor de uma forte chuvada» (v. 41). O alimento pode também simbolizar a reconciliação entre Acab, Elias e Javé, depois da triunfal vitória do javismo sobre o baalismo. Em seguida, Elias sobe ao Carmelo e entra provavelmente na gruta onde costumava recolher-se em oração. A posição, que assume, prostrando-se e colocando a cabeça entre os joelhos, indica profunda concentração, mas também o despertar de energias interiores capazes de influenciar os próprios elementos naturais, como atestam antigas tradições egípcias e mesopotâmicas. Tiago faz essa releitura, quando recorda o episódio e escreve: «A oração fervorosa do justo tem muito poder (em grego: energuménê). Elias...rezou com fervor para que não chovesse, e durante três anos e seis meses não choveu sobre a terra. Depois voltou a rezar, e o céu deu chuva, e a terra produziu o seu fruto» (Tg 5, 16-18). A formação progressiva das nuvens e a chuva, depois de sete súplicas insistentes, muito ao estilo semita, ajusta-se à topografia e à meteorologia da Palestina. Do alto do Carmelo, consegue ver-se o horizonte longínquo do Mar Mediterrâneo, único manancial de nuvens e de chuva sobre a franja sírio-palestiniana.

    Evangelho: Mateus 5, 20-26

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.» 21«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. 22Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar 'imbecil' será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar 'louco' será réu da Geena do fogo. 23Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta. 25Com o teu adversário mostra-te conciliador, enquanto caminhardes juntos, para não acontecer que ele te entregue ao juiz e este à guarda e te mandem para a prisão. 26Em verdade te digo: Não sairás de lá até que pagues o último centavo.»

    Jesus afirmou aos seus discípulos que não vinha ab-rogar a Lei, mas aperfeiçoá-la. Como vontade de Deus, devia ser aceite na sua totalidade sem a reduzir a árdua casuística, como faziam os doutores e os fariseus, tergiversando e defraudando a própria Lei. Formulado o princípio, Jesus deu seis exemplos concretos, começando sempre por «Ouvistes o que foi dito aos antigos ... Eu, porém, digo-vos». A frase alude a alguma prescrição do Antigo Testamento, preparando o leitor para a nova interpretação.
    A primeira antítese refere-se ao quinto mandamento (Ex 20, 13; Dt 5, 17). Jesus compara o homicídio intencional ao material. O homicídio intencional pode conhecer diversas modalidades: a ira, o desprezo (chamar rhaká, isto é, imbecil) são ofensas para as quais está previsto o «juízo» do tribunal local, a sentença do sinédrio (o supremo tribunal sedeado em Jerusalém) e, finalmente, o fogo da Geena, a proverbial depressão a sudoeste da Cidade santa considerada, a partir do Novo Testamento, lugar de maldição.
    Quando alguém se deixa dominar pela ira e pelo desprezo dos outros, não está em condições para oferecer sacrifícios de acção de graças ou de expiação. Se, por qualquer razão tiverem sido iniciados nessas condições, apesar da sacralidade do culto, devem ser interrompidos para recompor a ordem social. Jesus equipara uma situação de índole moral simplesmente interior, a uma grave impureza legal, que implicava a suspensão do rito, segundo o ensinamento profético: «Quero misericórdia, e não sacrifício» (cf. Mt 9, 13; 12, 7). E nem vale a pena presumir o perdão de Deus, se não perdoarmos aos irmãos (cf. Mt 6, 12). Caso nos atrevamos a apresentar-nos diante do Senhor, a pedir misericórdia, sem antes a termos usados com os outros, teremos de pagar até ao último «cêntimo».

    Meditatio

    Elias anuncia a Acab o fim da seca, que tinha anunciado como castigo da impiedade geral, e o fim do jejum, que o rei tinha ordenado, para obter a clemência divina. Deste modo, o profeta demonstra que é Deus que actua em Acab, e em Israel, no castigo e no perdão. O castigo de Deus tem sempre uma finalidade pedagógica: levar o pecador a reconhecer os seus erros e a regressar a Deus, à vivência da Aliança, a dar-Lhe o lugar que Lhe é devido. E assim, voltará a experimentar a fidelidade e a misericórdia divinas.
    O evangelho leva-nos a reflectir sobre o mandamento do amor a Deus e ao próximo, que são um só amor. Os fariseus quase que só se preocupavam com o amor a Deus, negando uma justa relação com o próximo. Jesus, pelo contrário, considerava o amor fraterno uma exigência rigorosa. Por isso, diz aos discípulos: «Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu» (v. 20). Chegou mesmo a colocar o amor ao próximo acima das ofertas a Deus: «Se fores, portanto, apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta» (v. 23-24). O dom mais agradável a Deus é exactamente a caridade fraterna. Se ela faltar, tudo o resto fica sem valor. Uma explicação simples para isto, pode ser a seguinte: como Jesus vive em nós, pede-nos uma caridade perfeita, que não sufoque a sua vida em nós, com preconceitos, atitudes, palavras agressivas e maldosas.
    A nossa oferta sobre
    o altar significa a nossa vida posta à sua disposição. É-lhe agradável se lhe permitir viver em nós a sua vida. Caso contrário, pode dizer-nos: «A tua oferta não é sinal de amorosa disponibilidade para com o teu irmão; por isso, vai primeiro reconciliar-te com ele; depois, vem fazer a tua oferta».
    Não podemos separar o amor de Deus do amor aos irmãos, porque Jesus está na charneira dos dois amores: Ele ama os irmãos porque ama o Pai, e ama o Pai amando os irmãos.
    A nossa capacidade de amar o Pai e de amar os irmãos, não vem de nós, mas de «mais além do que nós mesmos» (A. Carminatti). Vem de Deus caridade: «Caríssimos - escreve S. João - amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus... Nisto consiste o amor: não fomos nós a amar a Deus por primeiro, mas foi Ele que nos amou...» (1 Jo 4, 7.10). Por isso, «enviou o Seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10) e «nos deu o Espírito» (1 Jo 4, 13), o Espírito de amor. É o Espírito de amor que nos leva a amar a Deus, mas também aos irmãos. Por isso, o amor aos irmãos é possível, mesmo em situações muito difíceis. A única condição é permanecermos no amor de Jesus Cristo: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei, assim também deveis amar-vos uns aos outros» (Jo 13, 34). «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós... Permanecei no Meu amor» (Jo 15, 4.9; cf. Jo 17, 21.23).

    Oratio

    Senhor, Tu ensinas-me a apresentar-me diante de Ti, livre de qualquer rancor, e sem culpa por ter omitido ajuda aos irmãos, que estão em situações difíceis. Mas, - quantas vezes! -, realizo o meu «serviço sacerdotal», apresentando-te sacrifícios espirituais sobre o altar de um coração não reconciliado. Esqueço que afastas o olhar daqueles que estão separados dos irmãos. Por isso, ainda antes de me levantar para ir ao encontro dos irmãos, hei-de pôr-me em estado de benevolência e começarei a «falhar-lhes ao coração» (Jz 19, 3) para lhes oferecer estima, reconciliação e paz.
    Envia sobre mim o teu Espírito Santo, que ilumine as minhas relações com os outros, para que, se for necessário, as reformule à luz dos teus ensinamentos. Amen.

    Contemplatio

    Nada de injúrias, diz Nosso Senhor; aquele que profere injúrias contra o seu irmão deve reparar a sua falta (Mt 5, 22). Nada de julgamentos injustos, inspirados pela inveja, pela indiscrição, pela ligeireza, pelo amor-próprio. «Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados» (Lc 6, 37).
    S. Pedro, conformando-se ao espírito de Nosso Senhor, diz-nos: «Não deis mal por mal, nem maldição por maldição; mas, ao contrário, abençoai os vossos irmãos (porque foi para isso que fostes chamados), para possuirdes vós mesmos a bênção como herança. - Se alguém quer ser abençoado nesta vida e ver dias felizes, que guarde a sua língua do mal e que os seus lábios se abstenham da mentira, que se desvie do mal e que faça o bem; que procure e que persiga a paz; porque o olhar do Senhor se detém sobre os justos e os seus ouvidos escutam as suas orações» (1Pd 3, 9).
    «Não cedais ao demónio, diz S. Paulo: que todo o azedume, toda a cólera, toda a irritação, toda a querela, toda a maledicência e toda a malícia seja banida do vosso meio. Sede bons uns para com os outros, sede misericordiosos, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo» (Ef 4, 27).
    «Como se faz, diz ainda S. Paulo, que se veja entre vós erguerem-se diferendos que são levados diante dos tribunais seculares? Porque os santos julgarão um dia o mundo, poderão muito bem julgar os vossos pequenos diferendos. Os membros mais humildes da Igreja deveriam bastar para isso, mas em caso de necessidade tomai de entre vós um homem sábio para julgar os vossos processos, e mesmo para maior perfeição, sofrei que procedam para convosco injustamente» (1Cor 6, 1) (Leão Dehon, OSP4, p.66s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão » (Mt 5, 24).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • X Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares

    X Semana - Sexta-feira - Tempo Comum - Anos Pares


    14 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    X Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 19.9ª.11-16

    Naqueles dias, 9o profeta Elias chegou ao monte Horeb, Elias passou a noite numa caverna, onde lhe foi dirigida a palavra do Senhor: «Que fazes aí, Elias?» 11O Senhor disse-lhe então: «Sai e mantém-te neste monte, na presença do Senhor; eis que o Senhor vai passar.» Nesse momento, passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante do Senhor; mas o Senhor não se encontrava no vento. Depois do vento, tremeu a terra. 12Passou o tremor de terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo se encontrava o Senhor. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave. 13Ao ouvi-lo, Elias cobriu o rosto com um manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. Disse-lhe, então, uma voz: «Que fazes aqui, Elias?» 14Ele respondeu: «Ardo em zelo pelo Senhor, Deus do universo, porque os filhos de Israel abandonaram a tua aliança, derrubaram os teus altares e mataram os teus profetas. Só eu escapei; mas agora também me querem matar a mim.» 15O Senhor disse-lhe: «Vai e volta pelo caminho do deserto, em direcção a Damasco e, chegando lá, hás-de ungir Hazael como rei da Síria. 16Jeú, filho de Nimechi, como rei de Israel, e Eliseu, filho de Chafat, de Abel-Meolá, como profeta em teu lugar.

    Acab e Jezabel tinham sido testemunhas dos prodígios realizados por Elias. Mas, enquanto Acab se converteu ao javismo, Jezabel ameaçava de morte o profeta. A corrida de Acab no seu carro, e de Elias nas asas do espírito, até Jezrael, o bastião mais forte do baalismo, e donde partira a campanha anti-javista, talvez tivesse a ver com uma tentativa de conquistar a rainha para a causa do javismo. Mas Jezabel não cedeu e o profeta teve de fugir para o Sul, refugiando-se no deserto de Judá. E, completamente esgotado, pediu a Deus a morte. Mas o Senhor faz-lhe encontrar, por duas vezes, pães cozidos sob a cinza e uma bilha de água, convidando-o a comer e a prosseguir viagem. Assim, chegou ao Horeb, isto é, ao Sinai, lugar tradicional das revelações divinas. E entrou na gruta para passar a noite.
    Aí, Elias manifesta-se angustiado por causa da perversão do seu povo. Só ele ficara a defender a religião dos pais. Mas Deus confirma-lhe a vocação, numa teofania bem diferente das clássicas. Não há trovões nem tremores de terra, mas apenas «o murmúrio de uma brisa suave» (v. 12), «o murmúrio do silêncio», numa tradução mais próxima do hebraico. Elias é reconduzido à sua interioridade, para encontrar, na gruta do coração, o Senhor que lhe dará força para prosseguir a caminhada. O profeta retoma a missão e repara que, afinal, não está só, pois o esperam «sete mil homens», que não dobraram o joelho diante de Baal (v. 18). E o Senhor indica-lhe algumas importantes tarefas a realizar (vv. 15-16).

    Evangelho: Mateus 5, 27-32

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 27«Ouvistes o que foi dito: Não cometerás adultério. 28Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração. 29Portanto, se a tua vista direita for para ti origem de pecado, arranca-a e lança-a fora, pois é melhor perder-se um dos teus órgãos do que todo o teu corpo ser lançado à Geena. 30E se a tua mão direita for para ti origem de pecado, corta-a e lança-a fora, porque é melhor perder-se um só dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.»
    31«Também foi dito: Aquele que se divorciar da sua mulher, dê-lhe documento de divórcio. 32Eu, porém, digo-vos: Aquele que se divorciar da sua mulher - excepto em caso de união ilegal - expõe-na a adultério, e quem casar com a divorciada comete adultério.»

    Mateus apresenta-nos hoje mais uma antítese usada por Jesus, neste caso, visando o adultério. Mais uma vez, o Senhor acaba com a distinção, própria dos fariseus, entre a intenção e a acção, e declara o princípio da unidade: adultérios do coração, dos olhos, das mãos, são igualmente proibidos. São mencionados os olhos e as mãos pela participação que têm nos desejos do coração. Relativamente à certidão de repúdio, Jesus admite uma única excepção: o caso de união ilegal. Será só uma excepção, ou deverá entender-se que o divórcio, neste caso, não só é permitido, mas exigido pela lei judaica? Ainda não há uma resposta satisfatória. Mas notemos a posição de Cristo em defesa das categorias mais fracas e no restabelecimento da ordem social. Jesus tomará esta mesma atitude quando se referir às crianças (Mt 18, 1-10).

    Meditatio

    Deus não se revela no vento impetuoso e violento, nem no terramoto, nem no fogo, mas no «murmúrio de uma brisa suave» (v. 12). Esta revelação «suave» contrasta com as anteriores intervenções de Elias, e com a sua história. Deus quer consolar o seu profeta, que aparentemente lutou em vão, e agora está desalentado, no limite das suas forças, e já não entende o modo de agir do Deus dos exércitos: «Ardo em zelo pelo Senhor, Deus do universo ... Só eu escapei; mas agora também me querem matar a mim» (v. 14). Deus não lhe dá explicações, mas recoloca-o na sua missão: «Vai... hás-de ungir ... Jeú como rei de Israel, e Eliseu como profeta» (cf. vv. 15-16). A presença misteriosa de Deus repôs força e paz no coração de Elias. Quantas vezes experimentamos algo de semelhante, depois de uma intensa e esgotante actividade apostólica, de que não vemos os frutos esperados, ou depois de uma absorvente e pesada obra em favor dos irmãos, que nos traz incompreensões, calúnias e más vontades. Mas, também para nós, o Senhor está presente, para nos confortar e reconfirmar na missão.
    O evangelho diz-nos que a luta espiritual não admite compromissos. Não podemos pretender a alegria espiritual e os prazeres da vida, a alegria espiritual e a possibilidade de satisfazer as nossas tendências naturais. As palavras de Jesus não nos dão hipótese para escapar. O preço da felicidade é amputar, eliminar o que, em nós, é ocasião de mal, de pecado. Não é que Deus nos queira fisicamente deficientes. Mas exige a «circuncisão do coração» (Jr 4, 4), isto é, a quebra da esclerose do coração - «foi por causa da dureza dos vossos corações» (Mt 19, 8), que desfaz o vínculo sagrado do amor.
    Sendo assim, impõe-se, a cada um de nós, uma verdadeira ecografia do coração, à luz do implacável diagnóstico proposto por Cristo: «É do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos, as prostituições, roubos, ass
    assínios, adultérios, ambições, perversidade, má fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios.» (Mc 7, 21-22).
    A história de Elias, bem como o evangelho, mostram-nos que, para o reconhecimento de Deus, e do seu lugar nas sociedades, bem como para a verdadeira libertação do homem, não adianta mudar as estruturas sócio-políticas, se não se mudar o coração do homem; pelo contrário, quando mais as estruturas forem perfeitas, melhor servem ao homem poderoso, para satisfazer os seus interesses, os seus objectivos egoístas.
    Só a presença suave, mas transformadora, do Espírito no coração dos homens é capaz de nos configurar à oblação d´Aquele que, por amor, Se entregou totalmente ao Pai e aos homens. Só a presença suave, mas transformadora, do Espírito nos nossos corações, nos torna atentos aos apelos de Deus e dos irmãos, nos acontecimentos pequenos e grandes, nas expectativas e realizações humanas (cf. Cst 35).

    Oratio

    Senhor, ainda que a minha consciência não me acuse de adultério do corpo, reconheço-me adúltero do olhar, da imaginação, do sentimento, do pensamento. E mesmo que de nada disso me acuse o coração, não posso considerar-me imune do adultério espiritual, que cometo todas as vezes que não Te coloco em primeiro lugar, na hierarquia dos meus afectos, dos meus interesses, do meu desejo de amor.
    Confesso diante de Ti, Senhor, que, enquanto cuido da integridade do corpo, estando atento para que nenhum dos membros sofra, não cuido igualmente da integridade do espírito, mas o abandono às paixões e aos instintos.
    Purifica, Senhor o meu coração, e todo o meu interior, para que, de modo nenhum caia em adultério, mas sempre Te glorifique nos pensamentos, nas palavras e nas obras. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor restabeleceu em toda a sua integridade a regra da castidade: «Sabeis, diz, o que foi dito aos antigos: Não cometereis adultério». - Eu, porém, digo-vos: Quem olhar para uma mulher com concupiscência já cometeu adultério no seu coração (Mt 5, 27).
    Nosso Senhor não admite nenhuma desculpa nem nenhum acomodamento. A lei é formal e inflexível. Desde que estejamos envolvidos numa ocasião próxima de pecado, o sacrifício impõe-se, por grande que seja. O nosso olho direito, a nossa mão direita, isto é, o que temos de mais caro e de mais precioso deve ser imolado sem demora, senão é o inferno.
    Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo, diz S. Paulo. Irei então tomar os membros de Cristo para fazer deles os membros de uma prostituta? Que Deus não permita!... Aquele que permanece unido ao Senhor é um mesmo espírito com Ele. Fugi da fornicação ... O vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que reside em vós e que recebestes de Deus; e já não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai a Deus e levai-o no vosso corpo (1Cor 6,15). (Leão Dehon, OSP4, p. 75s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Vai e volta pelo caminho do deserto» (1 Rs 19, 15).

    | Fernando Fonseca, scj |

  • X Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares

    X Semana - Sábado - Tempo Comum - Anos Pares


    15 de Junho, 2024

    Tempo Comum - Anos Pares
    X Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: 1 Reis 19, 19-21

    Naqueles dias, 19o profeta Elias partiu dali e encontrou Eliseu, filho de Chafat, que andava a lavrar com doze juntas de bois diante dele; ele próprio conduzia a duodécima junta. Elias aproximou-se e lançou o seu manto sobre ele. 20Eliseu deixou logo os seus bois, correu atrás de Elias e disse-lhe: «Deixa-me ir beijar meu pai e minha mãe, que depois te seguirei.» Elias disse: «Vai, mas volta, pois sabes o que te fiz.» 21Eliseu, deixando Elias, tomou uma junta de bois e imolou-os. Com a lenha do arado cozeu as carnes, dando-as depois a comer à sua gente. Em seguida, pôs-se a caminho e seguiu Elias para o servir.

    Eliseu é chamado a ser profeta, quando se encontra a trabalhar no campo. Deus chama profetas de todas as origens e condições sociais. A sua vocação é sancionada por um gesto exterior, que funciona como uma espécie de sinal sacramental. Assim foi também com Eliseu, quando Elias lançou sobre ele o seu manto. E assim começa o chamado Ciclo de Eliseu.
    Eliseu dá testemunho de uma opção radical por Deus, quando larga os bois e o arado, o trabalho e a família, para seguir Elias. Cristo será ainda mais exigente quando se der conta de que alguém que pretendia segui-lo, queria despedir-se da família: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus» (Lc 9, 62). Poderá haver alguma margem de hipérbole; mas as exigências de Jesus eram, de facto, mais urgentes e radicais.

    Evangelho: Mateus 5, 33-37

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 33«Do mesmo modo, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás diante do Senhor os teus juramentos. 34Eu, porém, digo-vos: Não jureis de maneira nenhuma: nem pelo Céu, que é o trono de Deus, 35nem pela Terra, que é o estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei. 36Não jures pela tua cabeça, porque não tens poder de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal.»

    A quarta antítese refere-se ao segundo e ao oitavo mandamento (Ex 20, 7.16; Nm 30, 3ss.; Dt 23, 22-24). Na sociedade judaica abusava-se do juramento (Mt 23, 16-22). Porque não se podia pronunciar o nome divino, contornava-se o obstáculo referindo-se ao céu, à terra, a Jerusalém, à própria cabeça. Mas, mais uma vez, Jesus elimina a casuística ao afirmar: «Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal» (v. 37).
    Num mundo onde predomina a mentira, seria necessário invocar Deus como testemunha do que afirmamos. Mas o cristão sabe que Deus está sempre presente, que não é preciso chamá-lo como testemunha. «Sim, sim», «não, não», proferidos na presença de Deus, equivalem a um juramento. A Carta de Tiago faz eco deste ensinamento de Cristo, quando diz: «Meus irmãos, não jureis, nem pelo Céu, nem pela Terra, nem façais qualquer outro juramento. Que o vosso «sim» seja sim e que o vosso "não" seja não, para não incorrerdes em condenação» (5, 12).

    Meditatio

    Eliseu realizou um gesto radical ao desfazer-se dos bois e do arado, e ao deixar a família e a profissão. Mas Jesus será ainda mais exigente com aqueles que chama para O seguirem. Um desses diz-lhe: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Mas Jesus respondeu-lhe: «Segue-me e deixa os mortos sepultar os seus mortos» (cf. Mt 8, 21-22). «Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus.» (Lc 9, 61-62). Quais são os apegos que impedem ou dificultam o meu seguimento de Jesus?
    Jesus mostra-se contrário ao perjúrio, que é contrário ao respeito devido a Deus. Mas também se mostra contra toda a espécie de juramento, em que se pretende envolver Deus para sufragar uma afirmação. O juramento é falta de respeito por Deus, que se invoca como testemunha, talvez de palavras não verdadeiras, instrumentalizando-O aos nossos interesses egoístas. E também é falta de respeito pelas criaturas de Deus, quando são elas as invocadas: «Não jureis de maneira nenhuma ... Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não» (cf. vv. 34-37).
    Geralmente recorre ao juramento quem não é sincero; temendo não ser acreditado, procura apoio para as suas palavras na autoridade de Deus, que, pelo contrário, quer sinceridade e simplicidade.
    Pode ser útil um bom diagnóstico às patologias da minha oralidade, uma vez que «é no falar que o homem se dá a conhecer» (Sir 27, 7). Por isso, convém perguntar: são as minhas palavras vazias, ociosas, insignificantes, mentirosas, inexpressivas, estultas, expeditas, vulgares? A assimilação da Sagrada Escritura permitir-me-à «falar com as palavras de Deus» (1 Pe 4, 11), «falar com graça» (Cl 4, 6), isto é, falar sob a inspiração do Espírito Santo: «Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós» (Mt 10, 20).
    Como cristãos, e como dehonianos, conhecemos e acreditamos, aderimos àquele que é a Verdade, Jesus Cristo. Por isso, há que ser verdadeiros. Na Igreja recebemos o dom da fé, que orienta a nossa vida e nos inspira a deixar tudo para seguir a Cristo (cf. Cst 9).

    Oratio

    Virgem Maria, Mãe de Jesus e minha mãe, ajuda-me a ser verdadeiro. O teu «Sim», tão simples, empenhou toda a tua vida, no respeito profundo por Deus e por todas as criaturas. Por isso, todos recorrem a Ti e te invocam como Espelho da santidade divina, Virgem fiel, Mãe do bom conselho.
    Ajuda-me, Senhora, a viver sempre na simplicidade, na sinceridade, no respeito, e ser generoso no seguimento do teu Filho Jesus. Amen.

    Contemplatio

    Pilatos não tem desculpa. Sabe que os Judeus são levados pela inveja e pelo ódio: «Que tendes a reprovar neste homem?», diz-lhes. Custa-lhe condenar um inocente, mas falta-lhe coragem. Portanto, acabará por ceder aos Judeus.
    Por outro lado, a santidade e a majestade de Jesus impõem-se-lhe: «És tu verdadeiramente o rei dos Judeus? - pergunta-lhe: «Sim, diz-lhe Jesus, sou, mas o meu reino não é um reino temporal. É o reino da verdade. Vim à terra para dar testemunho da verdade, para a fazer reinar e triunfar. Os que amam a verdade escutam a minha voz». Pilatos podia compreender. Foi informado muitas vezes da santidade de Jesus e dos seus milagres. Devia inclinar-se diante da autoridade moral de Jesus, se tivesse o cuidado da verdade. Mas é céptico. O que quer é viver à vontade entre as honras, os gozos e os prazeres mun
    danos. Responde com ligeireza: «O que é a verdade?», e não espera mesmo que Jesus lhe diga. Não quer ser convencido.
    Vaidade, ligeireza, descuido, cobardia, eis o carácter de Pilatos.
    Infelizmente não estou isento destes defeitos... Sim, ligeireza e falta de cuidado, tal foi o mais das vezes a característica da minha conduta ... Depois de tantas graças e de luzes que recebi, ofendia gravemente o Coração de Jesus com a minha indiferença a seu respeito. (Leão Dehon, OSP3, p. 316s).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não.» (Mt 5, 37).

    | Fernando Fonseca, scj |

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