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  • 26º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    26º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    1 de Outubro, 2023

    ANO A
    26º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    Tema do 26º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum deixa claro que Deus chama todos os homens e mulheres a empenhar-se na construção desse mundo novo de justiça e de paz que Deus sonhou e que quer propor a todos os homens. Diante da proposta de Deus, nós podemos assumir duas atitudes: ou dizer "sim" a Deus e colaborar com Ele, ou escolher caminhos de egoísmo, de comodismo, de isolamento e demitirmo-nos do compromisso que Deus nos pede. A Palavra de Deus exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Deus - um compromisso que signifique um empenho real e exigente na construção de um mundo novo, de justiça, de fraternidade, de paz.
    Na primeira leitura, o profeta Ezequiel convida os israelitas exilados na Babilónia a comprometerem-se de forma séria e consequente com Deus, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. Cada crente deve tomar consciência das consequências do seu compromisso com Deus e viver, com coerência, as implicações práticas da sua adesão a Jahwéh e à Aliança.
    O Evangelho diz como se concretiza o compromisso do crente com Deus... O "sim" que Deus nos pede não é uma declaração teórica de boas intenções, sem implicações práticas; mas é um compromisso firme, coerente, sério e exigente com o Reino, com os seus valores, com o seguimento de Jesus Cristo. O verdadeiro crente não é aquele que "dá boa impressão", que finge respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas é aquele que cumpre na realidade da vida a vontade de Deus.
    A segunda leitura apresenta aos cristãos de Filipos (e aos cristãos de todos os tempos e lugares) o exemplo de Cristo: apesar de ser Filho de Deus, Cristo não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas assumiu a realidade da fragilidade humana, fazendo-se servidor dos homens para nos ensinar a suprema lição do amor, do serviço, da entrega total da vida por amor. Os cristãos são chamados por Deus a seguir Jesus e a viver do mesmo jeito, na entrega total ao Pai e aos seus projectos.

    LEITURA I - Ez 18,25-28

    Leitura da Profecia de Ezequiel

    Eis o que diz o Senhor:
    «Vós dizeis: 'A maneira de proceder do Senhor não é justa'.
    Escutai, casa de Israel:
    Será a minha maneira de proceder que não é justa?
    Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto?
    Quando o justo se afastar da justiça,
    praticar o mal o vier a morrer,
    morrerá por causa do mal cometido.
    Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado,
    praticar o direito e a justiça,
    salvará a sua vida.
    Se abris os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido,
    há-de viver e não morrerá».

    AMBIENTE

    Ezequiel, o "profeta da esperança", exerceu o seu ministério na Babilónia no meio dos exilados judeus. O profeta fez parte dessa primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor deportou para a Babilónia.
    A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (data em que Jerusalém foi conquistada uma segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados foi encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, o profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados (convencidos de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua terra) e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Jahwéh por parte desses membros do Povo judeu que escaparam ao primeiro exílio e que ficaram em Jerusalém.
    A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrolou-se a partir de 586 a.C. e prolongou-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estavam desiludidos e duvidavam de Jahwéh e do compromisso que Deus tinha assumido com o seu Povo. Nessa fase, Ezequiel procurou alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador não tinha abandonado nem esquecido o seu Povo.
    Até esta altura, Israel reflectia a sua relação com Deus em termos colectivos e não em termos individuais. A catequese de Israel considerava que a Aliança tinha sido feita, não com cada israelita individualmente, mas com toda a comunidade. Assim, as infidelidades de uns (inclusive dos antepassados) traziam sofrimento e morte a toda a comunidade; e a fidelidade de outros (inclusive dos antepassados) era fonte de vida e de bênção para todos.
    Os exilados liam à luz desta perspectiva teológica o drama que tinha caído sobre eles. Consideravam que eram justos e bons, que não tinham pecado e que estavam ali a expiar os pecados de toda a nação. Havia até um refrão muito repetido por esta altura: "os pais comeram as uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados" (Ez 18,2b). Parece ser uma reprovação velada à acção de Deus que, na perspectiva da teologia da época, fez dos exilados o bode expiatório de todas as infidelidades da nação. É justo, isto? Está certo que os justos paguem pelos pecadores?
    É a estas questões que o profeta Ezequiel vai tentar responder.

    MENSAGEM

    Na verdade, os membros do Povo de Deus que estão exilados na Babilónia não podem "sacudir a água do capote" e presumir de justos e inocentes: não há justos e inocentes neste processo, uma vez que todos, sem excepção, são responsáveis por atitudes de infidelidade a Jahwéh e de desrespeito pelos seus mandamentos. Fará algum sentido que os exilados acusem Jahwéh de ser injusto, depois de terem violado sistematicamente a aliança e terem cometido tantos pecados e infidelidades (vers. 25)?
    Para além disso, Israel não pode continuar a esconder-se atrás de uma responsabilidade colectiva, que implica todos, mas não responsabiliza ninguém. Chegou a altura de cada membro do Povo de Deus se sentir pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas acções e pelos compromissos assumidos no âmbito da Aliança. Cada membro do Povo de Deus tem de descobrir que, quando fizer escolhas erradas e se obstinar nelas, sofrerá as consequências; e que quando abandonar os caminhos de egoísmo e de pecado e optar por Deus e pelos seus valores, encontrará a vida (vers. 26-28).
    Significa isto que o pecado de um membro da comunidade não afecta os outros irmãos, membros da mesma comunidade? É claro que afecta. O pecado introduz sempre elementos de desequilíbrio, de desarmonia, de egoísmo, de ruptura, que atingem todos aqueles que caminham connosco... Mas o que Ezequiel aqui pretende sublinhar é que cada homem ou mulher tem de sentir-se pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas opções e pelos seus actos.
    Esta superação da mentalidade co
    lectiva, dando lugar à responsabilidade individual, é um dos grandes progressos na história teológica de Israel. Doravante, o Povo aprenderá a reagir em termos individuais e não em termos de massa. Está aberto o caminho para uma Nova Aliança: uma Aliança que não é feita genericamente com uma comunidade, mas uma Aliança pessoal e interior, feita com cada crente.

    ACTUALIZAÇÃO

    Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

    • Antes de mais, a leitura convida-nos a tomar consciência de que um compromisso com Deus é algo que nos implica profundamente e que devemos sentir pessoalmente, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. No nosso tempo - no tempo da cultura do plástico, do "light", do efémero - há alguma tendência a não assumir responsabilidades, a não absolutizar os compromissos (no mundo do futebol e da política há até uma máxima que define a flutuabilidade, a incoerência, a contradição em que as pessoas se movem: "o que é verdade hoje, é mentira amanhã"). Mas, com Deus, não há meias tintas: ou se assume, ou não se assume. Como é que eu sinto esses compromissos que assumi com Deus no dia do meu Baptismo e que ao longo da vida, nas mais diversas circunstâncias, confirmei? Trata-se de algo que eu levo a sério e que eu aplico coerentemente a toda a minha existência e às opções que faço, ou de algo que eu só me lembro quando se trata de fazer uma bonita festa de casamento na igreja ou de cumprir a tradição e baptizar os filhos?

    • O profeta Ezequiel convida-nos também a assumir, com verdade e coerência, a nossa responsabilidade pelos nossos gestos de egoísmo e de auto-suficiência em relação a Deus e em relação aos irmãos. Entre nós, no entanto, muitas vezes "a culpa morre solteira". Há homens e mulheres que não têm o mínimo para viver dignamente? A culpa é da conjuntura económica internacional... Há situações de violência extrema e de injustiça? A culpa é do governo que não legisla nem coloca suficientes polícias nas ruas... A minha comunidade cristã está dividida, estagnada e não testemunha suficientemente o amor de Jesus? A culpa é do Papa, ou do bispo, ou do padre... E a minha culpa? Eu não terei, muitas vezes, a minha quota-parte de responsabilidades em tantas situações negativas com que, dia a dia, convivo pacificamente? Eu não precisarei de me "converter"?

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 24 (25)

    Refrão: Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia.

    Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
    ensinai-me as vossas veredas.
    Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
    porque Vós sois Deus, meu Salvador:
    em vós espero sempre.

    Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
    e das vossas graças que são eternas.
    Não recordeis as minhas faltas
    e os pecados da minha juventude.
    Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
    por causa da vossa bondade, Senhor.

    O Senhor é bom e recto,
    ensina o caminho aos pecadores.
    Orienta os humildes na justiça
    e dá-lhes a conhecer os seus caminhos.

    LEITURA II - Filip 2,1-11

    Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

    Irmãos:
    Se há em Cristo alguma consolação,
    algum conforto na caridade,
    se existe alguma consolação nos dons do Espírito Santo,
    alguns sentimentos de ternura e misericórdia,
    então, completai a minha alegria,
    tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade,
    numa só alma e num só coração.
    Não façais nada por rivalidade nem por vanglória;
    mas, com humildade,
    considerai os outros superiores a vós mesmos,
    sem olhar cada um aos seus próprios interesses,
    mas aos interesses dos outros.
    Tende em vós os mesmos sentimentos
    que havia em Cristo Jesus.
    Ele, que era de condição divina,
    não Se valeu da sua igualdade com Deus,
    mas aniquilou-Se a Si próprio.
    Assumindo a condição de servo,
    tornou-Se semelhante aos homens.
    Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
    obedecendo até à morte, e morte de cruz.
    Por isso, Deus O exaltou
    e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
    para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem,
    no céu, na terra e nos abismos,
    e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
    para glória de Deus Pai.

    AMBIENTE

    Filipos, cidade situada no norte da Grécia, era uma cidade habitada maioritariamente por veteranos romanos do exército. Estava organizada à maneira de Roma e era uma espécie de Roma em miniatura. Os seus habitantes gozavam dos mesmos privilégios dos habitantes das cidades de Itália.
    A comunidade cristã de Filipos foi fundada por Paulo no verão de 49, no decurso da sua segunda viagem missionária. Numa das estadias de Paulo na prisão (em Éfeso?), a comunidade enviou um dos seus membros para o ajudar e uma generosa quantia em dinheiro para prover às necessidades do apóstolo.
    Apesar de ser uma comunidade viva, piedosa e generosa, a comunidade cristã de Filipos não era uma comunidade perfeita. O desprendimento, a humildade, a simplicidade, não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios romanos que compunham a comunidade.
    É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Trata-se de um texto que, em termos literários, apresenta duas partes. A primeira (vers. 1-5), em prosa, contém recomendações concretas de Paulo aos Filipenses acerca dos valores que devem cultivar. A segunda (vers. 6-11), em poesia, apresenta aos Filipenses o exemplo de Cristo (trata-se, provavelmente, de um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs e que Paulo integrou no texto da carta).

    MENSAGEM

    Na primeira parte (vers. 1-5), Paulo, em tom solene, pede aos altivos romanos que constituem a comunidade de Filipos que não se deixem dominar pelo orgulho, pela auto-suficiência, pela vaidade, pela ambição, que só provocam egoísmo e divisão. Recomenda-lhes que vivam unidos, que se amem e que sejam solidários, pois foi isso que Cristo, não só com palavras, mas com a própria vida, ensinou aos seus discípulos.
    Na segunda parte (vers. 6-11), Paulo vai referir-se, com mais pormenor, ao exemplo de Cristo. Para apresentar esse exemplo, Paulo recorre, então, ao tal hino litúrgico, que celebrava a "Kenosis" ("despojamento") de Cristo e a sua exaltação.
    Cristo Jesus - nomeado no princípio, no meio e no fim - constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos, quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados, têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como &
    eacute; o exemplo de Cristo?
    O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu - cf. Gn 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.
    Em traços precisos, o hino define o "despojamento" ("kenosis") de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse "abaixamento" assumiu mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante - a morte de cruz - para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.
    No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projectos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d'Ele o "Kyrios" ("Senhor" - nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira ("os céus, a terra e os infernos") reconhece Jesus como "o senhor" que reina sobre toda a terra e que preside à história.
    É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que Paulo faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos; esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glorificação, à vida plena.

    ACTUALIZAÇÃO

    Para reflexão, podem considerar-se as seguintes indicações:

    • Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?

    • Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

    ALELUIA - Jo 10,27

    Aleluia. Aleluia.

    As minhas ovelhas ouvem a minha voz, diz o Senhor;
    Eu conheço-as e elas seguem-Me.

    EVANGELHO - Mt 21,28-32

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes
    e aos anciãos do povo:
    «Que vos parece?
    Um homem tinha dois filhos.
    Foi ter com o primeiro e disse-lhe:
    'Filho, vai hoje trabalhar na vinha'.
    Mas ele respondeu-lhe: 'Não quero'.
    Depois, porém, arrependeu-se e foi.
    O homem dirigiu-se ao segundo filho
    e falou-lhe do mesmo modo.
    Ele respondeu: 'Eu vou, Senhor'.
    Mas de facto não foi.
    Qual dos dois fez a vontade ao pai?»
    Eles responderam-Lhe: «O primeiro».
    Jesus disse-lhes:
    «Em verdade vos digo:
    Os publicanos e as mulheres de má vida
    irão diante de vós para o reino de Deus.
    João Baptista veio até vós,
    ensinando-vos o caminho da justiça,
    e não acreditastes nele;
    mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.
    E vós, que bem o vistes,
    não vos arrependestes, acreditando nele».

    AMBIENTE

    O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos em Jerusalém, na etapa final da caminhada terrena de Jesus. Pouco antes, Jesus entrara em Jerusalém e fora recebido em triunfo pela multidão (cf. Mt 21,1-11); no entanto, o entusiasmo inicial da cidade foi sendo substituído, aos poucos, por uma recusa categórica em acolher Jesus e o seu projecto.
    Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo - os líderes religiosos judaicos - aparecem como o motor da oposição a Jesus. Eles não estão dispostos a reconhecer Jesus como o Messias de Deus e a aceitar que Ele tenha um mandato de Deus para propor aos homens uma nova realidade - a realidade do Reino. Há uma tensão no ar, que anuncia a proximidade da paixão e da morte de Jesus.
    No quadro que antecede o episódio que nos é hoje proposto - mas que está em relação directa com ele - os líderes judeus encontraram-se com Jesus no Templo; perguntaram-Lhe com que autoridade Ele agia e quais eram as suas credenciais (cf. Mt 21,23-27). Jesus respondeu-lhes convidando-os a pronunciarem-se sobre a origem do baptismo de João. Os líderes judaicos não quiseram responder: se dissessem que João Baptista não vinha de Deus, tinham medo da reacção da multidão (que considerava João um profeta); se admitissem que o baptismo de João vinha de Deus, temiam que Jesus lhes perguntasse porque não o aceitaram... Diante do silêncio embaraçado dos seus interlocutores, Jesus deu-lhes a entender que não tinha uma resposta para lhes dar, enquanto eles continuassem de coração fechado, na recusa obstinada da novidade de Deus (anunciada por João e proposta pelo próprio Jesus).
    Na sequência, Jesus vai apresentar três parábolas, destinadas a ilustrar a recusa de Israel em acolher a proposta do Reino. Com elas, Jesus convida os líderes da nação judaica a reflectir sobre a situação de "gueto" em que se instalaram e a reconhecerem o sem sentido das suas posições fixistas e conservadoras. O nosso texto é a primeira dessas três parábolas.

    MENSAGEM

    A parábola dos dois filhos ilustra duas atitudes diversas diante dos desafios e das propostas de Deus.
    O primeiro filho foi convidado pelo pai a trabalhar "na vinha". A sua primeira resposta foi negativa: "não quero". No contexto familiar da Palestina do tempo de Jesus, trata-se de uma resposta totalmente reprovável, particularmente porque uma atitude deste tipo ia contra todas as convenções sociais... Enchia um pai de vergonha e punha em causa a sua autoridade diante dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. No entanto, este primeiro filho acabou por reconsiderar e por ir trabalhar na vinha (vers. 28-29).
    O segundo filho, diante do mesmo convite, respondeu: "vou, sim, senhor". Deu ao pai uma respos
    ta satisfatória, que não punha em causa a sua autoridade e a sua "honra". Ficou bem visto diante de todos e todos o consideraram um filho exemplar. No entanto, acabou por não ir trabalhar na vinha (vers. 30).
    A questão posta, em seguida, por Jesus, é: "qual dos dois fez a vontade do pai?" A resposta é tão óbvia que os próprios interlocutores de Jesus não têm qualquer pejo em a dar: "o primeiro" (vers. 31).
    A parábola ensina que, na perspectiva de Deus, o importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros; mas, de acordo com a lógica de Deus, o importante é cumprir, realmente, a vontade do pai. Na perspectiva de Deus, não bastam palavras bonitas ou declarações de boas intenções; mas é preciso uma resposta adequada e coerente aos desafios e às propostas do Pai (Deus).
    É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do Povo, disseram "sim" a Deus ao aceitar a Lei de Moisés... A sua atitude - como a do filho que disse "sim" e depois não foi trabalhar para a vinha - foi irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas, do ponto de vista do cumprimento da vontade de Deus, a sua atitude foi uma mentira, pois recusaram-se a acolher o convite de João à conversão. Em contrapartida, aqueles que, de acordo com o "política e religiosamente correcto" disseram "não" (por exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas), cumpriram a vontade do Pai: acolheram o convite de João à conversão e acolheram a proposta do Reino que Jesus veio apresentar (vers. 32).
    Lida no contexto do ministério de Jesus, esta parábola dava uma resposta àqueles que O acusavam de acolher os pecadores e os marginais - isto é, aqueles que, de acordo com as "convenções", disseram não a Deus. Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, não interessam as convenções externas, mas a atitude interior. O que honra a Deus não é o que cumpre ritos externos e que dá "boa impressão" às massas; mas é o que cumpre a vontade de Deus.
    Mais tarde, a comunidade de Mateus leu a mesma parábola numa perspectiva um pouco diversa. Ela serviu para iluminar a recusa do Evangelho por parte dos judeus e o seu acolhimento por parte dos pagãos. Israel seria esse "filho" que aceitou trabalhar na vinha mas, na realidade, não cumpriu a vontade do Pai; os pagãos seriam esse "filho" que, aparentemente, esteve sempre à margem dos projectos do Pai, mas aceitou o Evangelho de Jesus e aderiu ao Reino.

    ACTUALIZAÇÃO

    Para a reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

    • Antes de mais, a parábola dos dois filhos chamados para trabalhar "na vinha" do pai sugere que, na perspectiva de Deus, todos os seus filhos são iguais e têm a mesma responsabilidade na construção do Reino. Deus tem um projecto para o mundo e quer ver todos os seus filhos - sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, de formação intelectual - implicados na concretização desse projecto. Ninguém está dispensado de colaborar com Deus na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais verdadeiro, mais fraterno. Tenho consciência de que também eu sou chamado a trabalhar na vinha de Deus?

    • Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de resposta... Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a auto-suficiência e não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito "sim" a Deus e tenham sido baptizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel activo no projecto criador e salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?

    • O que é que significa, exactamente, dizer "sim" a Deus? É ser baptizado ou crismado? É casar na igreja? É fazer parte de uma confraria qualquer da paróquia? É fazer parte da equipa que gere a Fábrica da Igreja? É ter feito votos num qualquer instituto religiosos? É ir todos os dias à missa e rezar diariamente a Liturgia das Horas? Atenção: na parábola apresentada por Jesus, não chega dizer um "sim" inicial a Deus; mas é preciso que esse "sim" inicial se confirme, depois, num verdadeiro empenho na "vinha" do Senhor. Ou seja: não bastam palavras e declarações de boas intenções; é preciso viver, dia a dia, os valores do Evangelho, seguir Jesus nesse caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, construir, com gestos concretos, um mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão, de paz. Como me situo face a isto: sou um cristão "de registo", que tem o nome nos livros da paróquia, ou sou um cristão "de facto", que dia a dia procura acolher a novidade de Deus, perceber os seus desafios, responder aos seus apelos e colaborar com Ele na construção de uma nova terra, de justiça, de paz, de fraternidade, de felicidade para todos os homens?

    • Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um comportamento "religiosamente correcto" ou que não cumprem estritamente as regras do "bom comportamento" cristão... Atenção: não temos qualquer autoridade para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar... Na perspectiva de Deus, o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar "na vinha". A este propósito, Jesus diz algo de inaudito aos "santos" príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: "os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus". Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os "vós"? Hoje, quem são os "publicanos e mulheres de má vida"?

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM
    (adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 26º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
    O rito penitencial poderá ser preparado com mais cuidado, para não ser vivido de maneira demasiado mecânica e rotineira. As intenções penitenciais podem ser ditas mais lentamente para melhor serem interiorizadas, os silêncios podem permitir a cada um entrar nesta atitude de conversão à qual nos chama o Senhor.

    3. PALAVRA DE VIDA.
    É sempre fácil fazer belas promessas e proferir belas declarações. O que conta são os actos. Quantas mães disseram ao seu filho de quando em vez: "Pára de me dizer que gostas de mim... Prova-me!". Muitas vezes exprimimos a Deus a nossa confiança através de uma bela profissão de fé, muitas vezes reafirmamos-Lhe o nosso amor através de belas orações, mas Ele espera que Lhe manifestemos esta confiança e este amor. Não basta dizer os actos de fé, de esperança e de caridade. É preciso pôr em acção a nossa fé, a nossa esperança e a nossa caridade. Então, seremos verdadeiros praticantes, pondo em prática o que ouvimos e vivemos na missa.

    4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
    O Salmo Responsorial. No interior da liturgia da Palavra, o salmo não é uma peça mestra, pois ele exprime a mensagem da primeira leitura. Mas é muitas vezes um tempo de meditação e de oração, é o caso de hoje. Não basta contentar-se em ler o salmo, é preciso lê-lo bem. Salmodiar este texto não é difícil, o cântico favorece a interiorização. O solista deve preparar-se muito bem para cantar o salmo, cujo refrão é cantado pela assembleia. Se alguém souber tocar flauta, poderá acompanhar a melodia do solista ou tocar algumas notas depois do refrão, antes de cada estrofe.

    5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE...
    Tomar parte numa acção caritativa... Procuremos tomar a nossa quota-parte numa acção caritativa da paróquia, no bairro ou na cidade, um serviço particular a prestar nesta semana... Não temos a tendência, muitas vezes, de deixar que as equipas "especializadas" façam e, quanto a nós, ficarmos apenas no dizer?

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

    S. Teresa do Menino Jesus, Virgem

    S. Teresa do Menino Jesus, Virgem


    1 de Outubro, 2023

    Santa Teresa do Menino Jesus nasceu em Alençon, França, em 1873. É a filha mais nova dos Beatos Luís Martin e Célia Guérin, casal cristão exemplar. Aos 15 anos, Teresa entrou no Carmelo de Lisieux. A vida de clausura e de contemplação, a vivência da infância espiritual, não a impediram de ser missionária. Pelo contrário, viveu de modo extraordinário o ideal de Santa Teresa de Ávila: "Vim para salvar almas e sobretudo a fim de rogar pelos sacerdotes". A entrega de amor fê-la vítima de amor. Faleceu aos 24 anos de idade, em 1897. Pio XI canonizou-a em 1925, proclamando-a Padroeira das Missões.

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 66, 10-14

    Alegrai-vos com Jerusalém, rejubilai com ela, vós todos que a amais; regozijai-vos com ela, vós todos os que estáveis de luto por ela. 11Como criança amamentando-se ao peito materno, ficareis saciados com o seu seio reconfortante, e saboreareis as delícias do seu peito abundante. 12Porque, assim diz o Senhor: «Vou fazer com que a paz corra para Jerusalém como um rio, e a riqueza das nações, como uma torrente transbordante. Os seus filhinhos serão levados ao colo, e acariciados sobre os seus regaços. 13Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei; em Jerusalém sereis consolados. 14Ao verdes isto, os vossos corações pulsarão de alegria, e os vossos ossos retomarão vigor,como a erva fresca. A mão do Senhor há-de manifestar-se aos seus servos, e a sua ira aos seus inimigos.

    Jerusalém foi consolada por Deus, fonte de toda a consolação. Agora é chamada a oferecer essa mesma consolação, como mãe generosa, aos filhos das suas entranhas. O profeta especifica essas consolações, que não são promessas vãs ou retórica vazia, mas paz e segurança a todos os níveis. Acabaram-se os tempos das tensões e das guerras, acabaram-se as ameaças dos inimigos. A cidade santa está em paz, dom de Deus, e pode oferecê-la aos seus habitantes. Aliás a Nova Jerusalém identifica-se com Javé, que, pela sua presença e pelo seu espírito, atrairá todos os povos para lhes oferecer a paz e a consolação definitivas.

    Evangelho: Mateus 18, 1-5

    Naquela hora, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: «Quem é o maior no Reino do Céu?» 2Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles 3e disse: «Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. 4Quem, pois, se fizer humilde como este menino será o maior no Reino do Céu. 5Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe.

    Ao dizer estas palavras, Jesus parece pensar na humildade das crianças, que não têm pretensões, que têm consciência de ser crianças e aceitam a sua pequenez, a sua impotência e a necessidade que têm dos pais para sobreviver. Na relação com Deus, estas palavras têm ainda mais sentido: que é o homem diante d´Ele?
    A humildade é necessária particularmente aos dirigentes da comunidade cristã pelo que eles são - bem pouca coisa - e pelo que são os outros, - filhos de Deus.

    Meditatio
    Os pensamentos de Deus são bem diferentes dos nossos, tal como os seus caminhos são distantes dos nossos. Os nossos pensamentos vêm do orgulho; os pensamentos de Deus vêm da humildade. Os nossos caminhos são esforço para nos tornarmos grandes; os caminhos de Deus conduzem à pequenez. Como quem quer ir para o Norte deve caminhar em direção oposta ao Sul, assim, para avançar nos caminhos de Deus devemos tomar a direção oposta ao nosso orgulho.
    Teresa tinha grandes ambições: queria ser simultaneamente contemplativa e ativa, apóstola, doutora, missionária e mártir. Aliás, parecia-lhe pouco um só martírio e desejava-os todos. Acabou por descobrir que, no coração da Igreja, é o amor que tudo anima e move. Então, escreve: "Compreendi que o Amor encerra todas as Vocações e que o Amor é tudo!... E, num transporte de alegria delirante, exclamei: encontrei finalmente a minha vocação; a minha vocação é o Amor! No Coração da Igreja Minha Mãe, eu serei o Amor, assim serei tudo, assim o meu sonho será realizado." E, enquanto, no seu tempo, muitas pessoas fervorosas se ofereciam a Deus como vítimas da sua justiça, Teresa preferiu entregar-se ao seu Amor Misericordioso. Descobrira esse amor ao meditar na parábola do filho pródigo ou, melhor dizendo, do pai misericordioso. Dizia a santa de Lisieux: "Deus infinitamente Misericordioso, que se dignou perdoar com tanta bondade os pecados do filho pródigo, não será também justo comigo, que estou sempre a seu lado?" Para Teresa, Deus manifesta-se justo exatamente na sua misericórdia e no seu perdão a quem deles necessita. A Justiça de Deus é Amor e Misericórdia. Foi aceitando a sua pequenez e pobreza, e acolhendo e caminhando no amor misericordioso de Deus que ela chegou à Santidade.
    Como escreveu o P. Dehon: "A união íntima a Cristo na sua oblação e imolação de amor é-nos confirmada pela sua predileção pela oferta como vítima "ao Amor misericordioso" de Santa Teresa de Lisieux. "Nascemos do espírito de Santa Margarida Maria, aproximando-nos do da Ir. Teresa". Seguidamente o Pe. Dehon transcreve a fórmula com que a santa se ofereceu como vítima ao Amor misericordioso. Depois, conclui: "Com a Ir. Teresa, abandonamo-nos completamente à vontade divina" (Diário XLV, 53.55-56: Abril de 1925).
    A descoberta do Deus Misericordioso foi o ponto mais importante do Caminho Espiritual de Teresa do Menino Jesus. Essa perceção levou-a a dar-se conta da sua missão na Terra: anunciar que Deus não é Castigador, mas Misericordioso. Esta confiança na Misericórdia de Deus, tomou, transformou e entreteceu toda a sua vida e tornou-se o grande motor do que fez e disse até ao fim dos seus dias. Como vemos há uma forte semelhança e quase identidade entre a experiência espiritual e a missão do P. Dehon e de Santa Teresa.

    Oratio

    Ó Cristo Senhor, Tu nos escolheste e chamaste ao teu serviço pelo grande Amor que tens a Deus Pai e aos teus irmãos. Foste tu quem nos escolheu e não nós a Ti. Faz, pois, com que possamos, hoje, segundo o desígnio da tua chamada, dar frutos de salvação ao mundo, pelo qual nos oferecemos, como pessoas e como comunidade. Aviva em nós o espírito do Pe. Dehon, o qual, por teu amor, não se cansava de trabalhar para que toda a humanidade fosse, um dia, recapitulada em Ti. Torna-nos um testemunho vivo do teu amor na Igreja. Ámen.

    Contemplatio

    O Pai de misericórdia que nos ama ternamente chama-nos. Chama-nos seus filhinhos. Descreveu-se com complacência na parábola do filho pródigo. Eu sou este filho pródigo, que viveu, se não na luxúria, pelo menos na vaidade e na inutilidade. Volto para o meu Pai, hesitante, tímido, temeroso, mas ele está lá, que me acolhe com amor. O seu coração bate fortemente no seu peito. Deseja-me com ardor, observa, procura. E se regresso, atira-se ao meu pescoço e aperta-me contra si, coração contra coração. E chama os seus servos, os seus anjos, para me darem tudo o que perdi. Nada falta: o manto de outrora, o anel de nobreza, os sapatos, e o vitelo gordo para a festa. O Coração de Jesus está emocionado; os seus olhos choram de ternura, mas sorriem de alegria: «Alegremo-nos, diz o bom Mestre, este filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado». (Leão Dehon, OSP 3, p. 653).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "No Coração da Igreja Minha Mãe, eu serei o Amor" (Santa Teresa do Menino Jesus).

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    S. Teresa do Menino Jesus, Virgem (01 Outubro)

  • Santos Anjos da Guarda

    Santos Anjos da Guarda


    2 de Outubro, 2023

    O Anjos, criaturas puramente espirituais e dotadas de inteligência e vontade, servem a Deus e são seus mensageiros. Eles "

    veem constantemente a face de meu Pai que está no Céu" (Mt 18, 10). São "poderosos mensageiros, que cumprem as suas ordens" (Sl 103, 20). São encarregados por Deus de proteger a humanidade. O povo de Deus sempre sentiu o dever de corresponder à sua silenciosa e benévola companhia, honrando-os. Em 1615, entrou no Calendário romano a celebração que hoje lhes dedicamos.

    Lectio

    Primeira leitura: Êxodo 23, 20-23a

    Eis que o que diz o Senhor: "Eu envio um anjo diante de ti, para te guardar no caminho e para te fazer entrar no lugar que Eu preparei. 21Mantém-te atento na sua presença e escuta a sua voz. Não lhe causes amargura, porque ele não suportará a vossa transgressão, porque está nele a minha autoridade. 22Mas se escutares a sua voz e se fizeres tudo o que Eu falar, Eu serei inimigo dos teus inimigos e serei adversário dos teus adversários, 23pois o meu anjo caminhará diante de ti.

    Estamos no epílogo do código da aliança, numa seção com caráter de pregação, possivelmente de origem eloísta. Logo no início aparece-nos a figura de um anjo, que irá à frente do povo na sua caminhada para a Terra Prometida, para o proteger e orientar. Chama-se o anjo de Deus ou anjo de Javé, idêntico ao próprio Deus. O povo deve, pois, obedecer-lhe. O enquadramento contextual do texto permite também afirmar que o anjo de Deus é, agora, a Lei, palavra de Deus encarnada na palavra humana. Mas poderão ser igualmente os acontecimentos futuros, todos eles mensageiros potenciais de Deus, testemunhas da sua palavra e da sua ação. Em última análise, como já dissemos, o anjo é o próprio Deus com o homem. Importa que o homem tome consciência dessa presença e se torne digno dela, deixando-se guiar docilmente.

    Evangelho: Mateus 18, 1-5.10

    Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: «Quem é o maior no Reino do Céu?» 2Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles 3e disse: «Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu.4Quem, pois, se fizer humilde como este menino será o maior no Reino do Céu. 5Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe.» 10«Livrai-vos de desprezar um só destes pequeninos, pois digo-vos que os seus anjos, no Céu, vêem constantemente a face de meu Pai que está no Céu.

    Na literatura judaica, a função dos anjos era tripla: adoração e louvor de Deus; agentes ou mensageiros divinos nos assuntos humanos; guardiães dos homens e das nações (Heb 12, 15). Segundo uma crença generalizada, eram poucos os anjos que tinham acesso direto a Deus. Tendo em conta estas premissas, o ensinamento tem por alvo a dignidade dos pequeninos que acreditam em Jesus: se os seus anjos têm essa dignidade, quanto maior será a dignidade dos crentes ao serviço dos quais eles estão!
    Como Deus nos protege com os seus anjos, assim também nós havemos de proteger os irmãos, sobretudo os mais frágeis e pequenos.

    Meditatio

    Esta memória dos anjos recorda-nos que, no caminho da vida, não estamos sós. Deus não nos abandona. Deus caminha connosco.
    Há, com efeito, uma criação visível, que podemos ver, pelo menos parcialmente, com os olhos da carne; e há uma criação invisível, mas real, que só os sentidos espirituais nos permitem perceber, por meio da fé, da oração, da iluminação interior que vem do Espírito Santo.
    Os anjos são, em primeiro lugar, um sinal luminoso da divina Providência, da bondade paterna de Deus, que nada, do que é necessário, deixa faltar aos seus filhos. Intermediários entre a terra e o céu, os anjos são criaturas invisíveis postas à nossa disposição para nos guiarem no caminho de regresso à casa do Pai. Vêm do Céu para nos reconduzirem ao Céu e nos fazer pregustar algo das realidades celestes. Por vezes, podemos experimentar a presença dos anjos de modo muito concreto e sensível, desde que a saibamos reconhecer. Trata-se de encontros "casuais", - que todavia se tornam fundamentais e determinantes na nossa vida - ou de auxílio súbito e inesperado, em situações de perigo. Pode ser também uma intuição repentina, que nos permite dar-nos conta de um erro, de um esquecimento. Como não sentir-nos guiados, protegidos, nesses momentos? Os anjos protegem-nos de tantos perigos de que nem nos damos conta. Sobretudo do perigo de nos tornarmos ímpios, de não escutarmos nem obedecermos à Palavra de Deus. Os anjos sugerem-nos pensamentos de retidão e de humildade. Sugerem-nos bons sentimentos.
    Havemos também de ser anjos Deus em relação aos outros, ajudando-os a ver e a orientar-se pelos caminhos de Deus.
    O P. Dehon rezava: "Anjos do Senhor, recomendai-me à misericórdia do Sagrado Coração." (OSP 4, p. 317).

    Oratio

    Pai santo, Deus eterno e providente, nós vos damos graças por Cristo, Nosso Senhor. Proclamamos a vossa imensa glória, que resplandece nos Anjos e nos Arcanjos, e, honrando estes mensageiros celestes, exaltamos a vossa infinita bondade, porque a veneração que eles merecem é sinal da vossa incomparável grandeza sobre todas as criaturas. Por isso, com a multidão dos Anjos, que celebram a vossa divina majestade, Vos louvamos e bendizemos. Ámen. (cf. Prefácio dos Anjos).

    Contemplatio

    Os Anjos louvam a Deus e servem-n'O. «Eles são milhares de milhares, diz Daniel, à volta do trono de Deus, ocupados em servi-l'O» (Dan 7, 10). «Anjos do céu, diz o salmo, bendizei o Senhor, vós que executais as suas ordens» (Sl 102). Deus envia-os junto das criaturas. O seu nome significa «mensageiros». «São os enviados de Deus, diz S. Paulo, vêm ajudar os homens a realizarem a sua salvação» (Heb 1, 14). Há os anjos das nações e os anjos de cada um de nós. Deus dizia ao seu povo por Moisés: «Enviarei o meu anjo diante de vós. Conduzir-vos-á, guardar-vos-á e dirigir-vos-á para a terra que vos prometi» (Ex 23). Deus acrescentava: «Honrai-o, escutai a sua voz quando vos fala por Moisés. Se lhe obedecerdes, sereis abençoados e triunfareis sobre os vossos inimigos. Se o desprezardes, sereis castigados» (Ibid.). «Deus ordenou aos seus anjos, diz o salmo, que vos guardassem em todos os vossos caminhos. Levar-vos-ão nas suas mãos para que eviteis as pedras do caminho» (Sl 90). Trata-se aqui dos anjos de cada um de nós. «Respeitai as crianças, diz Nosso Senhor, os seus anjos veem constantemente a face de meu Pai» (Mt 18, 10). Os anjos vigiam particularmente as crianças. (L. Dehon, OSP 4, p. 315).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Anjos do Senhor, bendizei o Senhor!" (Sl 103, 20).

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    Santos Anjos da Guarda (02 Outubro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Segunda-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Segunda-feira

    2 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Zacarias 8, 1-8

    A palavra do Senhor do universo foi-me dirigida de novo nestes termos: 2«Assim fala o Senhor do universo: 'Sinto por Sião um amor ardente, que me provoca ciúme e grande cólera.'» 3Assim fala o Senhor do universo: «Volto a Sião e vou habitar no meio de Jerusalém. Jerusalém será chamada 'Cidade Fiel', e a montanha do Senhor do universo, 'Montanha Santa'.» 4Assim fala o Senhor do universo: «Velhos e velhas sentar-se-ão ainda nas praças de Jerusalém; cada um terá na mão o seu bastão, por causa da sua muita idade. 5As praças da cidade ficarão cheias de meninos e meninas que brincarão nelas.» 6Assim fala o Senhor do universo: «Se isto parece um milagre aos olhos do resto deste povo, acaso será impossível aos meus olhos, naqueles dias?» - oráculo do Senhor do universo. 7Assim fala o Senhor do universo: «Eis que Eu salvo o meu povo dos países do Oriente e dos países do Ocidente. 8Eu os levarei a habitarem em Jerusalém. Eles serão o meu povo e Eu serei o seu Deus em fidelidade e em justiça.»

    Ao terminar a primeira parte do seu livro, Zacarias apresenta-nos, num mosaico de pequenos oráculos de salvação, um decálogo dos tempos messiânicos. São oráculos independentes, fechados na sua expressão literária mas abertos à realização escatológica; fiéis à tradição mas vigorosos na sua perene actualidade. Cada um deles é uma verdadeira injecção de optimismo, é a confirmação de muitos desejos e esperanças frustrados pela malícia do povo. Os dois primeiros sugerem a fidelidade de Deus à aliança. É por causa dessa fidelidade que Deus ama Sião e não tolera o sofrimento do seu povo. O Senhor vai perdoar Judá, e vai fazê-lo voltar. Jerusalém renascerá, santificada pela palavra de Deus, fiel e dócil a essa mesma palavra (v. 3).
    Vêm, depois, os oráculos de fertilidade: os habitantes da cidade vão ter vida longa e uma fecundidade inesperada (vv. 4-6); vão multiplicar-se; os exilados vão regressar. Alguns objectam que tudo isto são sonhos irrealizáveis. Mas o profeta insiste: «Se isto parece um milagre aos olhos do resto deste povo, acaso será impossível aos meus olhos, naqueles dias?» - oráculo do Senhor do universo» (v. 6). O que parece impossível aos homens é possível a Deus.

    Evangelho: Lucas 9, 46-50

    Naquele tempo, 46veio-lhes então ao pensamento qual deles seria o maior. 47Conhecendo Jesus os seus pensamentos, tomou um menino, colocou-o junto de si 48e disse-lhes:«Quem acolher este menino em meu nome, é a mim que acolhe, e quem me acolher a mim, acolhe aquele que me enviou; pois quem for o mais pequeno entre vós, esse é que é grande.» 49João tomou a palavra e disse: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome e impedimo-lo, porque ele não te segue juntamente connosco.» 50Jesus disse-lhe: «Não o impeçais, pois quem não é contra vós é por vós.»

    O evangelho de hoje lembra-nos duas atitudes fraternas muito comuns na vida dos santos. A primeira atitude é a da humildade, que se opõe a toda a ambição (vv. 46-48). Outra é a tolerância (cf. Vv. 49 ss.). São temas frequentes nos evangelhos que, no fundo, sublinham a necessidade de ultrapassar a auto-suficiência de quem aspira a títulos e dignidades, bem como o orgulho de grupo, que se pode encontrar em algumas comunidades cristãs. Põe vezes, pensa-se que os mais importantes são os que possuem mais dotes ou responsabilidades na gestão dessas comunidades. Por outro lado, é bastante espontâneo o desejo de ser o primeiro num grupo. Também os apóstolos caem nesse engano. Discutem sobre o lugar que ocupam e sobre quem é o primeiro entre eles. Mas Jesus não embarca nesse tipo de discussões. Toma uma criança e coloca-a ao seu lado, no lugar de maior dignidade, afirmando: «quem for o mais pequeno entre vós, esse é que é grande» (v. 48b). O pequeno é grande porque é fraco e pobre: é pequeno de corpo, precisa dos outros, não tem liberdade de acção, é inútil. É símbolo do discípulo último e pobre. Mas também é imagem de Jesus que se abandona nos braços do Pai: «Quem acolher este menino em meu nome, é a mim que acolhe, e quem me acolher a mim, aco­lhe aquele que me envio» (v. 48ª).
    Perante a atitude ciumenta dos apóstolos, Jesus ensina a tolerância: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome e impedimo‑lo, por­que ele não te segue juntamente connosco.» (v. 49). Mas Jesus não está de acordo: «Não o impeçais» (v. 50). O discípulo deve ter um coração aberto e tolerante. Deus envia quem quer a anunciar a Palavra e a fazer o bem. Não tem necessariamente que pertencer ao grupo de Jesus ou que ser importante. Não conta o arauto: conta a mensagem, o evangelho anunciado. Deus tem muitos modos de falar aos homens.

    Meditatio

    A Palavra de Deus é sempre viva e penetrante. O texto de Zacarias, que hoje escutamos, é um hino ao poder de Deus, que torna possível o que aos olhos dos homens parece impossível: «Se isto parece um milagre aos olhos do resto deste povo, acaso será impossível aos meus olhos, naqueles dias?» (v. 6). Estas palavras ecoarão, mais tarde no Evangelho: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível» (Mt 19, 26; cf. Mc 10, 16). As palavras do profeta são, pois, um convite à esperança. Deus conduz infalivelmente a realização do seu projecto de salvação. Muitas vezes fá-lo por caminhos e com métodos que nada têm a ver com a lógica humana. É o que sugere o menino que Jesus colocou junto de si (v. 42). O próprio Deus, para nos salvar, se fez Menino simples e pobre, mas rico de amor para com todos.
    A fraternidade, que todos desejamos, tem condições. A primeira é, sem dúvida, a humildade. Se nos pomos a discutir sobre quem é o maior, está tudo estragado. Os Apóstolos ainda viviam muito influenciados pela lógica humana. Por isso, «veio-lhes ao pensamento qual deles seria o maior» (v. 46). O desejo de ser grande é natural ao homem e não é um mal. Foi Deus que nos pôs no coração esse desejo, para que façamos por crescer. A questão é que não o façamos à custa dos outros, e saibamos onde está a verdadeira grandeza. Deus não nos repreende por buscá-la, mas ensina-nos o justo caminho para a encontrar: «quem for o mais pequeno entre vós, esse é que é grande» (v. 48). A verdadeira grandeza alcança-se pelo serviço amoroso e humilde aos outros. Foi esse o caminho escolhido por Jesus, caminho sintetizado no gesto do lava-pés (Jo 13, 1ss.). O Senhor serviu por amor e com humildade. Foi, por excelência, o servo de Deus e dos homens. Por isso é que Deus O exaltou e Lh
    e deu um nome que está acima de todos os nomes (cf. Fl 2, 9). O caminho da verdadeira grandeza passa pelo acolhimento dos pequenos e fracos e pelo serviço que lhes prestamos por amor e com humildade.
    A tolerância é outra condição para a fraternidade: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome e impedimo-lo, porque ele não te segue juntamente connosco.» Jesus disse-lhe: «Não o impeçais, pois quem não é contra vós é por vós» (vv. 49s.). No seguimento de Cristo, nem todos caminham do mesmo modo, nem tal se pode exigir. Há que respeitar cada um, com as suas capacidades, com os seus carismas, com a sua vocação. Que sentido fazem certas lutas, mais ou menos visíveis, entre comunidades, entre grupos, entre movimentos, na Igreja? Jesus acrescenta uma frase que nos pode parecer contraditória: «quem não é contra vós é por vós» (v. 50). Noutra ocasião tinha dito: «Quem não está comigo, é contra mim» (Mt 12, 30). Mas não há contradição, porque não se trata de Jesus, mas dos discípulos e do modo como O seguem. Os discípulos devem alegrar-se quando virem que outros seguem a Jesus, ainda que de modo diferente do deles. Como estes princípios teriam podido, e podem ainda, evitar tantas discussões, tantas divisões entre os cristãos, e dentro das próprias comunidades!

    Oratio

    Pai santo, que amas os pequenos e humildes, ajuda-me a caminhar na simplicidade e na humildade. Dá-me um coração manso e humilde como o do teu Filho Jesus. Que, como Ele, eu saiba servir a todos por amor e com humildade, porque só esse é o caminho que leva à verdadeira grandeza. Cria em mim, Senhor, um coração livre da mania das grandezas, livre do triunfalismo, um coração agradecido por tudo quanto tens feito por mim, por tudo quanto queres fazer servindo-te de mim. Dá um coração tolerante, compreensivo, misericordioso para com todos. Amen.

    Contemplatio

    Ó doce misericórdia de Deus, toda cheia de compaixão e de clemência, venho na dor e na angústia do meu coração recorrer aos vossos conselhos: porque vós sois toda a minha esperança e toda a minha confiança. Vós nunca desprezastes o infeliz, nunca repelistes um pecador, por muito repugnantes que fossem as chagas da sua alma... A vossa mão generosa dignar-se-á fazer-me uma esmola bastante abundante para reparar a minha vida que perdi. A vossa caridade dignar-se-á cobrir todos os meus pecados e suprir a todas as minhas negligências. - E vós, amor divino, o meu Jesus é o vosso real cativo. Fostes vós que o fizestes prisioneiro no Getsémani e ligastes depois com cordas e cadeias. Apoderastes-vos da sua pessoa e dos seus bens para enriquecerdes o céu e a terra com este precioso espólio, para cumulardes de bens todos os seres indo buscar aos tesouros de um tão glorioso prisioneiro. Com o preço de um tão rico espólio, de um tão ilustre cativo, vós podeis, ó amor, resgatar a minha vida que eu tinha perdido, e dar-me, não sete vezes, mas cem vezes o valor das minhas obras tão inúteis até ao presente. Apoderai-vos de mim também, ó amor e encadeai-me com o meu Jesus amado, a fim de que nunca mais me separe dele. (Leão Dehon, OSP 3, p. 487).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Mostrai-me, Senhor, as maravilhas do vosso amor» (cf. Sl 16, 7ª)

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Terça-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Terça-feira

    3 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Zacarias 8, 20-23

    Assim fala o Senhor do universo: «Virão povos e habitantes de grandes cidades. 21E os habitantes de uma cidade irão para outra, dizendo: 'Vamos implorar a face do Senhor! - Eu também irei procurar o Senhor do universo!' 22E numerosos povos e nações poderosas virão procurar o Senhor do universo em Jerusalém e implorar a face do Senhor.» 23Assim fala o Senhor do universo: «Naqueles dias, dez homens de todas as línguas das nações tomarão um judeu pela dobra do seu manto e dirão: 'Nós queremos ir convosco, porque soubemos que Deus está convosco'.»

    O último oráculo é um verdadeiro evangelho posto na boca dos pagãos: «Naqueles dias, dez homens de todas as línguas das nações tomarão um judeu pela dobra do seu manto e dirão: 'Nós queremos ir convosco, porque soubemos que Deus está convosco» (v. 23).
    A comunidade dos regressados do exílio era propensa a uma atitude penitencial. Mas essa atitude não podia abafar a alegria da salvação realizada por Deus em favor do seu povo. O jejum é importante. Mas é a alegria que deve caracterizar a nova comunidade, que, para isso, deve amar a verdade e a paz. Para além do regresso dos exilados, como motivo de festa, há também a reunião de todos os povos em Jerusalém. Esses povos hão-de reconhecer o Senhor e tornar-se mestres do caminho que a Ele conduz (v. 23).
    Toda esta esperança, que o profeta procura incutir no seu povo, baseia-se na confiança no Senhor e na certeza profunda na sua fidelidade.

    Evangelho: Lc 9, 51-56

    51Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém 52e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. 53Mas não o receberam, porque ia a caminho de Jerusalém. 54Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» 55Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os. 56E foram para outra povoação.

    Depois do ministério na Galileia, com todas as suas palavras, a sua mensagem, os seus milagres e o testemunho do seu amor, Jesus caminha decididamente para Jerusalém, para a realização do seu destino. O caminho de Jerusalém levará Jesus até à cruz e à ressurreição. É a sua «hora» (cf. Jo 12, 23;16, 32). A hora manifesta a vontade de Jesus de dar a vida. Essa vontade acompanhou-o toda a vida. Nele tudo tendia para o momento do dom. Nessa hora, Jesus acolhe todo o sofrimento dos homens e dá a vida para os salvar. A primeira parte do evangelho de Lucas (ministério na Galileia) visa a "compreensão" do Reino; a segunda visa a "realização" do Reino. Na primeira parte, o Reino é apresentado em parábolas, como um mistério que cresce no escondimento, um crescimento atribulado e fatigante; agora revela-se mais claramente como o mistério da morte e da ressurreição de Cristo. Ao falar deste itinerário, Lucas escreve que Jesus «se dirigiu resolutamente» (v. 51) para Jerusalém. Literalmente, «endureceu o rosto». É uma expressão do cântico do Servo: «Tornei o meu rosto duro como pedra» (Is 50, 7). Jesus vê claramente os sofrimentos que vai enfrentar. Mas abandona-se completamente à vontade do Pai.

    Meditatio

    Comecemos por dar atenção às belas palavras de Zacarias: «Naqueles dias, dez homens de todas as línguas das nações tomarão um judeu pela dobra do seu manto e dirão: 'Nós queremos ir convosco, porque soubemos que Deus está convosco» (v. 23). Que bom seria que isto continuasse a acontecer hoje com cada um dos membros do novo Povo de Deus, a Igreja. Na Igreja, todos os fiéis deviam ser capazes de fazer sentir que há neles algo de extraordinário: a presença divina, que transforma a vida. Um descrente, ou um simples ouvinte, que entre numa comunidade cristã, vendo o que ali se passa, deveria sentir a necessidade de se prostrar com o rosto por terra, adorar a Deus, e proclamar que Deus está realmente no meio de nós (cf. 1 Cor 14, 24s.), deixando-se atrair para a Igreja. O nosso modo de viver a caridade, a alegria, o Senhor, deve atrair a todos para o caminho da salvação.
    O evangelho ajuda-nos a compreender a atitude com que havemos de viver e reagir às dificuldades e oposições. Os discípulos indignaram-se com os habitantes de certa aldeia da Samaria, que não acolheram a Jesus, e propunham uma punição imediata para eles: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» (v. 34). Parecia-lhes justo punir quem não quisesse receber a Jesus. Provavelmente tinham em mente um episódio da vida de Elias. De facto, muita gente dizia que Jesus era Elias que tinha regressado à Terra. Ora, quando o rei Ocozias enviou um grupo de soldados para prender Elias, o profeta invocou o fogo do céu que desceu e reduziu a cinzas esses soldados (cf. 2 Rs 1, 10s.). Os discípulos estavam provavelmente convencidos que a sua reacção era impulsionada pelo Espírito de Deus. Mas Jesus não pensa do mesmo modo e repreende-os. Ele sabe que, sobre os homens que não acolhem a fé, pende a ameaça do castigo. Mas sabe que há tempo para a conversão e tempo para o castigo. Agora é o tempo da conversão! O tempo do juízo será no fim dos tempos. Agora reina a bondade, a misericórdia, a paciência divina. Agora é o tempo da paciência divina (cf. 2 Pd 3, 9ss). E nós devemos participar nessa paciência e não exigir o castigo imediato. Sem a paciência divina, de que Jesus nos dá exemplo, não há verdadeira caridade. Temos que aprender a ser mansos e humildes de coração, como Jesus. Assim suscitaremos nos outros o desejo de se juntarem a nós, porque Deus está connosco.

    Oratio

    Bendito sejas, Pai, pela paciência que usas para connosco, tantas vezes impacientes e severos com os outros. Bendito sejas pela tua misericórdia para connosco, que não éramos Israel, mas que pela tua morte nos tornámos participantes das promessas feitas ao teu povo, Israel. Bendito sejas pela tua fidelidade, pela qual continuaste a confiar em nós e a acreditar no nosso discipulado, apesar das nossas infidelidades e quedas. Agora, agarro-me à orla do teu manto do teu Filho Jesus, certo de encontrar em n´Ele a cura para todas as minhas chagas, certo de que me conduz à tua casa, Pai misericordioso. Amen.

    Contemplatio

    Ecce homo! Eis o Homem-Deus que tanto vos amou! - Eis o Homem-Deus, o homem santo por excelência, que aceita estes sofrimentos e estas ignomínias para reparar a glória do seu Pai e para salvar as nossas almas. Ah! Aquele é infinitamente amável sob o seu aspecto de sofrimento e de humilhação. Está presente em todo o heroísmo da virtude, no acto do mais perfeito amor pelo Pai e por nós. Ecce homo! Sim, contemplo-o, o Homem-Deus, admiro-o, agradeço-lhe, amo-o com toda a ternura do meu coraç&
    atilde;o. Ah! Senhor, é, portanto, por nós, por mim, para me dar a minha realeza que humilhastes a vossa! Tomastes a coroa de espinhos e o ceptro de cana, para me dar a coroa e o ceptro de ouro. Aceitastes o farrapo ensanguentado, para me dar a púrpura real. Senhor, neste mistério como no calvário, sois infinitamente amável. O nosso amor será sempre insuficiente para responder ao do vosso coração. Ofereço-vos em reparação todas as homenagens reais que jamais recebestes no céu e na terra. Todos os fiéis proclamaram a vossa realeza. Cada dia, elevam a vossa eucaristia sobre tronos. As cúpulas das nossas igrejas são coroas reais que procuram ser dignas de vós. Os príncipes cristãos humilharam as suas coroas aos vossos pés. Com toda a Igreja, reconheço e proclamo que sois o Rei dos reis e Senhor dos senhores. (Leão Dehon, OSP 3, p. 344s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Nós queremos ir convosco,
    porque soubemos que Deus está convosco» (Zc 8, 23)

  • S. Francisco de Assis

    S. Francisco de Assis


    4 de Outubro, 2023

    S. Francisco de Assis nasceu em 1181, ou 1182. Filho de um rico comerciante, Francisco sonhava tornar-se cavaleiro. Desviado desse ideal, procurou com persistência vontade de Deus. O encontro com os leprosos, e a oração diante do Crucifixo na igreja de S. Damião, levaram-no a abandonar a família e a iniciar uma vida evangélica penitencial. Bem depressa o Senhor lhe deu irmãos dispostos a viverem o evangelho sine glossa, em fraternidade. O papa Honório III aprovou a Regra e a vida dos frades menores, em 1222. No ano seguinte, Francisco recebeu os estigmas do Crucificado, selo da sua conformidade com o único Senhor e Mestre. Faleceu em 1226, sendo canonizado em 1228. Grande amigo da Natureza, S. Francisco é padroeiro dos ecologistas. É também um dos padroeiros da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, Dehonianos.

    Lectio

    Primeira leitura: Gálatas 6, 14-18

    Irmãos: Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. 15Pois nem a circuncisão vale alguma coisa nem a incircuncisão, mas sim uma nova criação. 16Paz e misericórdia para todos quantos seguirem esta regra, bem como para o Israel de Deus. 17De agora em diante ninguém mais me venha perturbar; pois eu levo no meu corpo as marcas de Jesus. 18A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso Espírito, irmãos!Ámen.

    Ao terminar a sua Carta aos Gálatas, Paulo declara ter agido retamente ao desmascarar a hipocrisia dos que defendiam a necessidade da circuncisão e da observância de lei hebraica para os cristãos (v. 12). Em seguida, afirma que não procura a glória do mundo, mas se sente honrado por estar em comunhão com Jesus Crucificado, cujo amor redentor afastara dele toda a ambição, orgulho e egoísmo. O seu único motivo de orgulho é a cruz do Senhor, que iniciou uma nova economia fundamentada, não na Lei, mas no Espírito. Acolhendo e pondo em prática o amor misericordioso de Deus, o cristão pode usufruir da plenitude dos bens messiânicos. Consciente de tal dom, Paulo não quer ouvir falar de outras doutrinas. A sua pertença exclusiva ao Senhor é manifestada pelos sofrimentos que, a seu exemplo, suporta para Lhe ser fiel (v. 17).

    Evangelho: Mateus 11, 25-30

    Naquele tempo, Jesus exclamou: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 28«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos.29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

    A relação entre Jesus e o Pai é única, como declara o nosso texto. Jesus é o Filho do Pai, de Quem recebeu tudo, por Quem é conhecido, e a Quem conhece como mais ninguém. Jesus revela-nos esse conhecimento, que é dom recíproco de amor. Na sua oração de bênção, Jesus reconhece que só os pequenos, os que não presumem de si mesmos, estão em condições de conhecer o amor do Pai e viver em comunhão com Ele. Que se fecha na sua "sabedoria" autoexclui-se dessa vida e comunhão. Francisco de Assis foi um desses pequenos e humildes que encontraram respiro e vida nova nas palavras e gestos de Jesus.

    Meditatio

    Francisco de Assis foi um daqueles pequenos, que receberam de coração aberto e disponível a revelação de Jesus, como Filho muito amado do Pai. O Evangelho, sine glossa, tornou-se a única regra da sua vida, regra que também propôs àqueles que se lhe quiseram juntar como irmãos. Para Francisco, tudo se resumia à relação com Jesus, no amor. Os estigmas, que recebeu já perto do fim da sua vida, são sinal da intensíssima relação com Jesus, que o levou a identificar-se com Ele também fisicamente. Numa época em que os homens da Igreja procuravam riquezas e grandezas, Francisco quis permanecer pobre e pequeno diante de Deus e dos homens. Por causa disso, nem aceitou ser ordenado sacerdote, permanecendo simplesmente irmão entre os irmãos, como o mais pequeno de todos, por amor do Senhor.
    Para ele realizaram-se plenamente as palavras de Jesus: "o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (v. 30). Quanta alegria enchia o coração de Francisco, pobre de tudo e rico de tudo, que no amor do Senhor sentia como suaves os maiores sofrimentos. "Carregai as cargas uns dos outros e assim cumprireis plenamente a lei de Cristo." (Gl 6, 2). As cargas dos outros: é esse o jugo do Senhor. S. Francisco compreendeu-o desde o princípio da sua conversão. No fim da vida, contava: "Estando eu em pecado, parecia-me coisa excessivamente amarga ver os leprosos, mas o próprio Senhor me conduziu para meio deles e eu exercia misericórdia para com eles". Este é o jugo, que consiste em carregar as cargas dos outros, mesmo que isso nos parece muito duro. E continuava Francisco: "Carregando-as, o que me parecia amargo, converteu-se para mim em doçura na alma e no corpo". Pouco mais adiante, encontramos a segunda frase de Paulo: "Cada um terá de carregar o próprio fardo" (Gl 6, 5). Aqui, trata-se de não julgar os outros, de ter muita compreensão por todos, de não impor aos outros os nossos pontos de vista e os nossos modos de fazer, de vermos os nossos próprios defeitos e de não aproveitar os defeitos dos outros para lhes impor pesos que não estão de acordo com o pensamento do Senhor. "Ninguém se deve julgar o primeiro entre os irmãos", recomendou. "Quem jejua, não julgue os que comem". A caridade não critica os outros, não os julga, mas ajuda-os.
    Carreguemos, também nós, o jugo do Senhor, os fardos dos outros, e não os sobrecarreguemos com críticas e juízos sem misericórdia. Assim conheceremos melhor o Filho de Deus, que morreu por nós, e nele o Pai que está nos céus, com a mesma alegria de S. Francisco.

    Oratio

    Fazei, ó meu Deus, exclamava, que a doce violência do vosso amor me desapegue de todas as coisas sensíveis e me consuma inteiramente, a fim de que eu possa morrer por vosso amor infinito. Eu vo-lo peço por vós mesmo, ó Filho de Deus, que morrestes por amor de mim. Meu Deus e meu tudo! Quem sois vós, e quem sou eu, senão um verme de terra? Desejo amar-vos, Senhor adorável. Consagrei-vos a minha alma e o meu corpo com tudo o que sou. Levar-me-ei a fazer com ardor o que mais contribuir para vos glorificar. Sim, meu Deus, este é o único objeto dos meus desejos. (Oração de S. Francisco, citada por Leão Dehon, in OSP 4, p. 322)

    Contemplatio

    O Coração de Francisco foi, como o de Jesus, um porto de refúgio no qual todos os pobres corações humanos, agitados pela tempestade, podiam encontrar um asilo. O coração de Francisco foi um coração de apóstolo, um coração de fogo. Semelhante a um carro inflamado, percorria o mundo, ardendo por arrastar atrás de si todos os homens para os conduzir ao céu. O seu coração inflamado de amor gerou três ordens que deram e que dão tantos santos ao céu. Depois do capítulo geral da sua ordem em 1219, enviou religiosos para a Grécia, para África, para a França, para a Inglaterra, para aí estender o reino de Deus. Tinha reservado para si a missão da Síria e /323 do Egipto onde esperava encontrar o martírio! O coração de Francisco não estava simplesmente aberto às misérias morais, mas também às misérias físicas. Oh! Como amava os pobres e a pobreza! Como era terno para com os doentes e os aflitos! S. Francisco diz-nos a todos como S. Paulo: «Sede meus imitadores». A seu exemplo, entremos no Coração de Jesus pelo amor e pela imitação. (Leão Dehon, OSP 4, p. 322s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Carregai as cargas uns dos outros
    e assim cumprireis plenamente a lei de Cristo." (Gal 6, 2).

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    S. Francisco de Assis (04 Outubro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Quarta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Quarta-feira

    4 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Neemias

    No mês de Nisan, no vigésimo ano do rei Artaxerxes, como o vinho estivesse diante do rei, tomei-o e ofereci-lho. Ora, jamais eu estivera triste na sua presença. 2O rei disse-me: «Porque tens o semblante tão sombrio? Não estás doente. Portanto, isso só pode ser tristeza do coração.» Eu fiquei muito conturbado, 3e respondi ao rei: «Viva o rei para sempre! Como não hei-de estar triste quando a cidade onde se encontram os túmulos dos meus pais está em ruínas, e as suas portas consumidas pelo fogo?» 4E o rei disse-me: «Que queres?» Então, fiz uma oração ao Deus do céu 5e disse ao rei: «Se aprouver ao rei, e se o teu servo achar graça diante de ti, deixa-me ir ao país de Judá, à cidade onde se encontram os túmulos dos meus pais, a fim de a reconstruir.» 6O rei, junto de quem a rainha se sentara, perguntou-me: «Quanto tempo durará essa viagem? Quando será o regresso?» Aprouve ao rei deixar-me partir, e eu indiquei-lhe a data do regresso. 7Prossegui: «Se o rei achar bem, dêem-me cartas para os governadores da outra margem do rio, de modo que me deixem passar para Judá; 8e também outra carta para Asaf, o intendente da floresta real, a fim de que me forneça madeira para construir as portas da cidadela do templo, para as muralhas da cidade e para a casa que eu habitar.» O rei concordou com o meu pedido porque me favorecia a bondosa mão de Deus.

    Neemias, que detém um alto cargo na corte persa, e intervém junto do rei em favor do seu povo, lembra José no Egipto, Daniel em Babilónia, Marduqueu, Ester e o próprio Esdras na Pérsia.
    Esdras dedicou-se sobretudo à reconstrução do templo; Neemias, à reconstrução da cidade. De qualquer modo, são os artífices da reconstrução pós-exílica. Mas a cronologia e a relação entre os dois levanta diversos problemas. Actualmente a disposição dos livros é Esdras-Neemias. Mas historiadores modernos pensam que a reconstrução das muralhas da cidade e toda a actividade profana e material de Neemias deve ter precedido a reforma religiosa de Esdras. Provavelmente foi o Cronista, levita do templo, que inverteu a ordem dos livros e colocou Esdras primeiro, a fim de acentuar a preeminência do sacerdócio e da vida religiosa da comunidade.
    Se lermos os primeiros seis capítulos de Neemias, ficaremos com melhor compreensão da sua audácia, coragem e fortaleza.
    A memória de Neemias, narrada em primeira pessoa, acaba por conduzir à presença protectora e providente de Deus, cuja mão guia os protagonistas da reconstrução do povo (v. 8).

    Evangelho: Lucas 9, 57-62

    Naquele tempo, 57Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que fores.» 58Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.» 59E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» 60Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» 61Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» 62Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus.»

    Como vimos ontem, depois do ministério na Galileia, Jesus tomou a direcção de Jerusalém. Não se trata só de mudança de caminho em sentido topográfico, mas também em sentido teológico e místico. Este novo caminho culminará na morte ressurreição de Jesus. É uma perspectiva paradigmática também para os discípulos. A vida cristã passa necessariamente por um encontro com Cristo no Calvário. Não basta contemplar a glória de Cristo; é preciso fixar o nosso olhar também na cruz, onde Cristo atingiu perfeição e chegou à glória (cf. Heb 5, 8s.)
    Os diálogos referidos no evangelho dizem-nos que, além dos Doze, havia outros que queriam seguir Jesus, ainda que não soubessem claramente o que isso significava. As exigências do seguimento de Cristo só se tornaram claras depois da Páscoa. Lucas não nos diz quem são os três interlocutores. Mateus diz-nos que um era um escriba e outro, um discípulo (8, 19.21). Em Lucas, os três retraem-se atemorizados pela "nudez" exigida por Jesus a quem O quer seguir. O primeiro apresentou-se por sua iniciativa. Jesus mostra-lhe o esvaziamento que segui-l´O significa: «o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (v. 58). O segundo já é discípulo, como nos informa Mateus. Jesus ordena-lhe que O siga. Mas ele pede licença para ir enterrar o pai. Jesus responde-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos» (v. 60). Para o Senhor, está morto tudo o que não seja o Deus vivo (cf. Jo 14, 6). O terceiro fez um programa que apresenta a Jesus: «Eu vou seguir‑te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família» (v. 61). Mas Jesus diz-lhe: «Quem olha para trás, de­pois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus» (v. 62).
    Não sabemos como acabaram estes episódios. O evangelho apenas refere o que Jesus oferece a quem o segue: o caminho da cruz. É preciso coragem!

    Meditatio

    A primeira leitura pode levar-nos, mais uma vez, à meditação sobre o dever de cada crente em colaborar na edificação do Povo de Deus e no fortalecimento da sua caminhada na fé. Como discípulos do Senhor, não podemos deixar de sentir uma verdadeira paixão pela sua comunidade, a Igreja.
    Mas a primeira leitura e o evangelho também nos podem levar a outra reflexão, sempre importante. As exigências de Jesus, no evangelho, são radicais: «"Segue-me"» ... Deixa que os mortos sepultem os seus mortos...Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus». Na primeira leitura, a piedade filial é expressa de modo comovente: Neemias está triste porque a cidade onde estão os túmulos dos seus pais está em ruínas e quer reconstruí-la para que guarde dignamente esses túmulos. A presença de Jesus no meio de nós realiza grandes transformações na nossa vida. Agora, como lemos na Segunda Carta aos Coríntios, estamos no tempo em que «os que vivem, não devem viver mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. De agora em diante, não conhecemos ninguém à maneira humana... Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 15ss.). O desapego que Jesus pede a quem O segue tem em vista esta vida nova, a nova criação que Ele realizou na sua morte e ressurreição. Agora vivemos em Deus, em Cristo Jesus. «Na nossa maneira de ser e de agir, - diz o n. 38 das nossas Consti
    tuições - pela participação na construção da cidade terrena e na edificação do Corpo de Cristo, devemos testemunhar eficazmente que é o Reino de Deus e a sua justiça que se devem procurar antes de tudo e acima de tudo (cf. Mt 6,33)». Por isso, o nosso estilo de vida deve ser desapegado de tudo e de todos, sóbrio e simples, denso de fé, e compreendido na caridade. De outro modo, nem ele nem a nossa pregação serão credíveis nem representarão a «Igreja dos pobres».
    Peçamos a graça de vivermos como ressuscitados na comunidade dos homens novos, que é a Igreja, contribuindo com a nossa vida desapegada e sóbria, e com nossa dedicação generosa, para a edificação da mesma.

    Oratio

    Senhor Jesus, que me chamaste à comunidade dos homens novos, nascidos do teu Lado aberto na cruz, infunde em mim o teu Espírito, que me torne membro vivo da tua Igreja. Que eu saiba seguir-te no caminho do desapego e da doação total, servindo o Reino, e servindo cada um dos irmãos e irmãs. Que eu saiba sempre reconhecer-te como Senhor da minha vida, e não me distraia de Ti com outras preocupações ou trabalhos. Que em todas as circunstâncias eu saiba contemplar-te ressuscitado e glorioso, ou mergulhado nos sofrimentos da tua paixão e morte. Amen.

    Contemplatio

    Preparai o caminho do Senhor. Há nas vossas almas perturbações e irregularidades, nada de igual, de limpo e de correcto, como era necessário que estivesse para um caminho real. Abaixai as elevações, que marcam o orgulho e a vaidade; aplanai estas partes baixas, que marcam a lassidão, a sensualidade, a avareza, a tibieza; endireitai estes caminhos tortuosos, que são as vias da hipocrisia e da inconstância; igualai os caminhos irregulares, que marcam os defeitos de carácter, a impaciência, a dureza, o mau humor. Preparai para o Salvador um caminho digno dele, onde ele avançará com prazer distribuindo as suas bênçãos. Assim falava S. João Baptista. E os seus ouvintes questionavam-no. Que havemos de fazer? Diziam de todas as partes na multidão. Ele respondia: Produzi dignos frutos de penitência, confessai os vossos pecados e mudai de vida. Que é preciso fazer, perguntavam alguns publicanos ou cobradores de impostos. Dizia-lhes: Não exijais nada para além do que vos foi prescrito. Que havemos de fazer? - perguntavam os soldados. Disse-lhes: Abstende-vos da violência e de toda a delação e contentai-vos com o vosso soldo. Acontecia, de facto, muito frequentemente que soldados denunciavam inocentes, como culpados de rebelião e de outros crimes, a fim de se apoderarem dos seus bens ou de receberem um salário vergonhoso. Em resumo, S. João recomenda a todos o cumprimento do dever de estado. É também cumprindo todos os deveres do meu estado e da minha vocação especial de amigo do Sagrado Coração que hei-de preparar os caminhos para o bom Mestre. Sei o que ele espera de mim, mas não o dou sempre. Pede de mim um coração puro e amoroso, uma grande fidelidade à minha regra de vida, com o hábito do recolhimento, da oração e da vida interior. Nestas condições, virá de boamente à minha alma e aí derramará as graças do seu divino Coração. (Leão Dehon, OSP 3, p. 210s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação» (2 Cor 5, 17)

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Quinta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Quinta-feira

    5 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Neemias 8, 1-4a.5-6.7b-12

    Naqueles dias: 1os filhos de Israel já estavam instalados nas suas cidades. Então todo o povo se reuniu, como um só homem, na praça que fica diante da porta das Águas e pediu a Esdras, o escriba, que trouxesse o livro da Lei de Moisés, que o Senhor prescrevera a Israel. 2O sacerdote Esdras apresentou, pois, a Lei diante da assembleia de homens e mulheres e de todos quantos eram capazes de a compreender. Foi no primeiro dia do sétimo mês. 3Esdras leu o livro, desde a manhã até à tarde, na praça que fica diante da porta das Águas, e todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei. 4O escriba Esdras subiu para um estrado de madeira, mandado levantar para a ocasião. 5Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, pois achava-se num lugar elevado acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo o povo se levantou. 6Então, Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: «Ámen! Ámen!» Depois, inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor, com a face por terra 7e os outros levitas explicavam a Lei ao povo, e cada um ficou no seu lugar. 8E liam, clara e distintamente, o livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de modo que se pudesse compreender a leitura. 9O governador Neemias, Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que instruíam o povo disseram a toda a multidão: «Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus; não vos entristeçais nem choreis.» Pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. 10Então, Neemias disse-lhes:«Ide para as vossas casas, fazei um bom jantar, bebei vinho doce e reparti com aqueles que nada têm preparado; este é um dia grande, consagrado a Deus; não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é que é a vossa força.» 11Os levitas exortaram o povo ao silêncio: «Calai-vos! - diziam eles. Este é um dia santo; não vos lamenteis.» 12E todo o povo se retirou para comer e beber, repartir porções pelos pobres e entregar-se a grandes alegrias, porque tinham entendido o sentido das palavras que lhes tinham sido explicadas.

    O capítulo 8 de Neemias é a continuação de Esd 8, 36. Isto quer dizer que Ne 8-10 pertence às memórias de Esdras, verdadeiro protagonista destes capítulos. O texto que escutamos apresenta-nos o povo reunido pela Palavra, que inspira o serviço e o governo da comunidade. Regressado de Babilónia, o povo não reconstrói a sua vida religiosa apenas à volta do Templo e dos sacrifícios, mas começa a elaborar uma nova instituição: uma comunidade que se reúne para ler e rezar a Palavra, isto é, a Sinagoga. A religião de Israel torna-se a religião do Livro! Concluída a reforma civil e religiosa, Neemias e Esdras convocam todo o povo para que escute a leitura da Lei de Moisés. Esta assembleia em Jerusalém, durante a festa dos Tabernáculos, assinala o nascimento do judaísmo. Depois do exílio, o povo de Deus não recuperou a independência política, mas viveu sob o domínio sucessivo dos persas, gregos e romanos. Por isso, nunca mais formou uma entidade política, mas religiosa. Era uma espécie de "Igreja". Tinha o seu estatuto religioso próprio, que era a Lei, tinha a hierarquia sacerdotal e tinha como centro de coesão a cidade santa e o templo. Parte do povo judeu não vivia na Palestina, pois se tinha dispersado em diversas comunidades na diáspora. Este tipo de organização religiosa, que se estabelece na comunidade pós-exílica, foi o que veio a denominar-se "judaísmo". Tem um pai, Esdras; tem uma data de nascimento, 398 a. C.; tem um estatuto, a Lei de Moisés. A assembleia de que nos fala o nosso texto pode ser qualificada como uma renovação da aliança. De facto, Esdras faz alusão a um compromisso e a um documento selado e assinado pelos representantes da comunidade (Ne 10).

    Evangelho: Lucas 10, 1-12

    Naquele tempo, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Disse-lhes:«A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho. 5Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. 7Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, 9curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus já está próximo de vós.' 10Mas, em qualquer cidade em que entrardes e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: 11'Até o pó da vossa cidade, que se pegou aos nossos pés, sacudimos, para vo-lo deixar. No entanto, ficai sabendo que o Reino de Deus já chegou.'» 12«Digo-vos: Naquele dia haverá menos rigor para Sodoma do que para aquela cidade.

    O sim cordial dos discípulos a Cristo torna-se a força da missão evangélica. Jesus manda os discípulos a fazer o que Ele mesmo fez. É o que a Igreja continua, ainda hoje, a fazer. Os Doze são o fundamento da missão da Igreja. Mas Jesus escolheu ao longo dos séculos, e continua a escolher hoje, muitos outros. A messe é grande e os operários são poucos. Os 72 de que nos fala o evangelho anunciam a mensagem do Reino. O número "Doze" evoca as doze tribos de Israel. O número "Setenta e dois" evoca os 72 povos da terra elencados em Gn 10. A missão dos discípulos é universal, destinada a toda a terra. Os Setenta e dois são sinal de todos quantos o Senhor da messe chama para o anúncio do Evangelho. Trata-se de uma empresa divina, do Reino, que só é possível realizar com a força de Deus, e não com as simples forças humanas.
    O verdadeiro operário do Reino, não é aquele que o anuncia, mas o próprio Jesus Cristo. É Ele que envia, que toma a palavra, que actua. Mais do que fazer, é preciso deixar Jesus fazer. O mais importante é ser como Ele, adoptar o seu estilo, com as suas vicissitudes e os seus frutos - e por isso com alegria. "Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos» (v. 3). Não há que lamentar-se sobre as dificuldades da missão. Elas são o sinal do Reino. São obra do Espírito Santo. Jesus pede aos discípulos que não se preocupem: «Não vos preocupeis com o que haveis de dizer... Não sois vós a falar, mas é o Espírito do Pai que falará por vós» (10, 19 s). O Mestre não nos quer ver ansiosos. A missão é sempre um milagre do Senhor.

    Meditatio

    A primeira leitura apresenta-nos a comunidade reunida, que escuta a Palavra de Deus e reage. Os que t
    inham regressado do exílio não tinham um conhecimento adequado da Palavra do Senhor, até porque tinham esquecido o hebraico e tinham começado a falar aramaico. Era preciso ler a Lei, escrita em hebraico, e traduzi-la para aramaico, para que fosse compreendida pelo povo.: «Os outros levitas explicavam a Lei ao povo, e cada um ficou no seu lugar. E liam, clara e distintamente, o livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de modo que se pudesse compreender a leitura» (v. 7s.). A escuta e a compreensão da Palavra de Deus enchem de alegria o povo: «Todo o povo se retirou para comer e beber, repartir porções pelos pobres e entregar-se a grandes alegrias, porque tinham entendido o sentido das palavras que lhes tinham sido explicadas» (v. 12).
    Aqueles que estudam a Bíblia têm o dever de tornar possível esta festa, esta alegria. A sua missão é diferente da dos pregadores, que falam directamente ao povo. Os estudiosos preparam a pregação, explicando bem a Palavra de Deus, para que a pregação possa ser mais fiel à Palavra e mais frutuosa. Assim contribuem para a instrução do povo, para a sua alegria. «A alegria do Senhor é que é a vossa força», diz Neemias (v. 10). A força e a alegria vêm da Palavra de Deus, que é alimento e luz, que é a maior consolação que temos na terra.
    A escuta da Palavra de Deus provoca, em primeiro lugar, a conversão, que se torna caridade, atenção aos mais carenciados, impulso de partilha e de fraternidade: «Reparti com aqueles que nada têm preparado» (v. 10). O encontro salvífico com Deus, e a caridade para com o próximo, provocados pela escuta livre e acolhedora da Palavra, produzem em nós a verdadeira alegria, que jamais acabará: «Fiéis à escuta da Palavra... somos chamados a descobrir, cada vez mais, a Pessoa de Cristo e o mistério do seu Coração e a anunciar o seu amor que excede todo o conhecimento» (Cst 17).

    Oratio

    Senhor, a tua Palavra é realmente eficaz. Mas não é mágica. Exige acolhimento livre, consciente e activo, e paciência para esperar. Que eu seja terreno bom, onde a Palavra lance raiz, germine e dê fruto, tanto na minha vida pessoal, como na minha vida familiar, profissional, apostólica. Que a tua Palavra seja em mim impulso de caridade, de entrega, de missão, de anúncio do teu amor que excede todo o conhecimento, porque «a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos». Amen.

    Contemplatio

    Fala-se pouco em Nazaré. O Evangelho não quis dar uma única palavra de S. José. Dá algumas de Maria, mas bem poucas. Assinala antes, por duas vezes, a sua vida de silêncio e de recolhimento: «Ela conservava e meditava no seu coração os mistérios de que tinha sido testemunha». Esta meditação habitual implica uma vida de calma, de silêncio e de união com Deus. Ouvia-se somente em Nazaré, na santa casa, algumas conversas curtas, afectuosas, discretas, em intervalos regrados, não invadindo nunca as horas sérias, sem lamentos nem murmurações, sem este fluxo de palavras, estes vãos propósitos que caracterizam os espíritos agitados, dissipados e curiosos. Cada um fazia abnegação de si para servir a Deus, seja directamente na oração, seja indirectamente ajudando o próximo. Nada senão as palavras necessárias para se entenderem no trabalho ou na vida de família, e algumas palavras de piedade para se ajudarem a amarem e a servirem a Deus. Oh! Como isto difere da minha maneira de agir! Como estou longe desta calma, desta discrição, desta reserva! Que farei hoje para disto me aproximar? (Leão Dehon, OSP 3, p. 67.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «A alegria do Senhor é a vossa força» (Ne 8, 10)

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Sexta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Sexta-feira

    6 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Baruc 1, 15-22

    Para o Senhor nosso Deus, a justiça; para nós, porém, a vergonha, estampada no rosto, como acontece hoje para os homens de Judá e os habitantes de Jerusalém, 16para os nossos reis e príncipes, os sacerdotes, os profetas e os nossos antepassados, 17porque pecámos contra o Senhor. 18Desobedecemos ao Senhor nosso Deus, não ouvimos a sua voz nem seguimos os mandamentos que Ele nos deu. 19Desde o dia em que o Senhor tirou os nossos pais da terra do Egipto até hoje, temos desobedecido ao Senhor, nosso Deus e, na nossa leviandade, recusámos ouvir a sua voz. 20Por isso, agora, persegue-nos o infortúnio e a maldição que o Senhor predissera pela boca de Moisés, seu servo, quando tirou os nossos pais da terra do Egipto, a fim de nos dar uma terra onde mana leite e mel. 21Nós, porém, não escutámos a voz do Senhor, nosso Deus, conforme a palavra dos profetas, que Ele nos enviou. 22Cada um de nós, andou segundo as inclinações do seu mau coração, servindo deuses estrangeiros e praticando o mal aos olhos do Senhor, nosso Deus".

    Depois da escuta da Palavra, na grande celebração presidida por Esdras e Neemias, Baruc apresenta-nos uma longa oração penitencial de que escutamos, hoje, os primeiros versículos. É a oração do povo regressado do exílio, mas submetido a poderes estrangeiros, na Palestina ou noutras zonas mais ou menos distantes. É a oração do povo de Deus em diáspora, que não quer perder a sua identidade.
    Este povo sente-se solidário na história passada feita de promessas divinas e de pecados do povo. A história é solidária no bem e no mal. O povo não correspondeu à generosidade de Deus. Revoltou-se e desobedeceu. Por isso, confessa as suas culpas, e reconhece a inocência e a justiça de Deus. Mas é a justiça de Deus que dá ao povo capacidade para recomeçar, ter nova esperança, e esperar o perdão.

    Evangelho: Lucas 10, 13-16

    Naquele tempo, Jesus disse: 13Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sídon se tivessem operado os milagres que entre vós se realizaram, de há muito que teriam feito penitência, vestidas de saco e na cinza. 14Por isso, no dia do juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sídon do que para vós. 15E tu, Cafarnaúm, porventura serás exaltada até ao céu? É até ao inferno que serás precipitada. 16Quem vos ouve é a mim que ouve, e quem vos rejeita é a mim que rejeita; mas, quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou.»

    O evangelho de hoje conclui a mensagem com que foram enviados os setenta e dois discípulos. Porque fala Jesus tão duramente das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaúm? Que nos quer dizer Jesus?
    A condenação das três cidades deve se entendida a vários níveis. Em primeiro lugar, Jesus sublinha que estas cidades não acolheram a Palavra pregada por Ele, isto é, a graça do Evangelho, o apelo à conversão. Em segundo lugar, Jesus realça o abandono dos seus. Talvez se dê conta da hostilidade do povo. As cidades pagãs de Tiro e Sídon terão um juízo menos severo que o povo de Israel. Em terceiro lugar, Jesus prevê que o Evangelho ultrapasse as fronteiras da Galileia, que chegue aos gentios, enquanto as cidades que, por primeiras, ouviram a sua pregação permaneçam fechadas num judaísmo anticristão.
    Este evangelho é um aviso para todos aqueles que se excluem da graça do Senhor e caem na hipocrisia e na resistência sublinhadas pelos "Ai" de Jesus. Jesus lastima o maior dos pecados, o pecado contra o Espírito Santo: fechar os olhos às manifestações da graça, à oferta de perdão. É o grande risco da missão cristã. Jesus disse claramente: «Quem vos ouve é a mim que ouve, e quem vos rejeita é a mim que rejeita; mas, quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou» (v. 16).

    Meditatio

    As duas leituras convidam-nos ao arrependimento e à penitência. O cristão, que quiser ser fiel a Jesus, deve sofrer com os seus pecados e com os que se cometem à sua volta, fazendo sua a oração de Baruc: «Para o Senhor nosso Deus, a justiça; para nós, porém, a vergonha, estampada no rosto» (v. 15). Trata-se de uma oração inspirada na catástrofe nacional, que aniquilou o povo judeu e o levou para o exílio. Perante esses factos, os Judeus voltaram-se para a sua vida e para a sua história, reconhecendo a sua infidelidade e o seu pecado: «Pecámos contra o Senhor. Desobedecemos ao Senhor nosso Deus, não ouvimos a sua voz nem seguimos os mandamentos que Ele nos deu» (v. 17s.).
    O novo povo de Deus, que é a Igreja, também precisa de olhar para a sua vida e para a sua história, reconhecer os seus pecados e manter uma atitude de contínua penitência e conversão. O duro aviso de Jesus às cidades ribeirinhas do lago de Genesaré também se dirige a nós, que lemos a Palavra de Deus e, particularmente, o Evangelho. Todos corremos o risco de deixar endurecer o coração e de nos fecharmos à escuta da Palavra, à penitência e à mudança de vida que ela cada dia nos sugere. Tanto Baruc como Jesus nos convidam a reconhecer e a confessar os nossos pecados, afirmando, ao mesmo tempo, a fidelidade e a misericórdia de Deus. Mas podemos e devemos pensar também nos pecados do mundo, no ódio que aqui e ali explode ferozmente, fazendo vítimas inocentes, na corrupção que torna possíveis tantos abusos, nos pobres que continuam a ser oprimidos, nos ricos que não querem partilhar os seus bens nem ceder nos seus privilégios, na imoralidade de toda a espécie que, como maré negra, nos cerca destruindo a vida. Há que tomar sobre nós tudo isto, com a solidariedade de quem partilha e quer, com Jesus, tirar o pecado do mundo: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!» (Jo 1, 29).
    Escutemos as nossas Constituições, que são fruto da nossa leitura do Evangelho, à luz do nosso carisma: «Implicados no pecado, mas participantes na graça redentora, pela realização de todas as nossas tarefas, queremos unir-nos a Cristo presente na vida do mundo e, em solidariedade com Ele e com toda a humanidade e a criação inteira, oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável (cf. Rm 12,1). «Caminhai no amor segundo o exemplo de Cristo que nos amou e Se entregou por nós a Deus, como oferenda e sacrifício de agradável odor» (Ef 5,2) (Cst 22). A nossa reparação é cooperação na obra redentora de Deus no coração do mundo (cf. Cst 23), que consiste em libertar os homens do pecado e das suas consequências, e em transformá-lo em oblação santa e agradável a Deus.

    Oratio

    Pai santo, nós Te louvamos, bendizemos e damos graças, porque nos reconciliaste em Cristo e nos regeneraste pelo Espírito Santo, fazendo de nós homens novos, animados por um Espírito novo. Dá-nos a graça de cooperar alegre e generosamente na obra d
    a redenção, que realizas no coração do mundo, para que toda a humanidade e a criação inteira, libertas do pecado e das suas consequências, se tornem oblação viva, santa e agradável para Ti. Amen.

    Contemplatio

    Ecce homo! Eis o homem castigado por Deus em nosso lugar. - Eis o homem que, carregado com o pesado fardo dos nossos pecados dos quais se constituiu vítima expiatória, representa neste momento a humanidade em toda a sua miséria. Eis o homem-vítima que nos descreve Isaías. Já não tem beleza. Todo o seu corpo não é senão uma chaga. Dir-se-ia um leproso. Quando o vemos, desviamos dele o olhar. É um homem atingido pela justiça de Deus. Que é então o pecado para que tenha tais efeitos? Deus é, portanto, por ele muito ofendido, muito irritado, para que o possa punir até este ponto, mesmo naquele que não o cometeu, mas que dele aceitou a responsabilidade. E se o lenho verde, o justo por excelência, é assim tratado por causa dos pecados de outros, que será então do lenho seco, dos verdadeiros culpados, quando vier a hora do seu juízo? Este mistério do Ecce homo não é o mais adequado para nos excitar ao arrependimento, à conversão, ao ódio ao pecado? Eis o homem! Eis o vosso rei! Repete Pilatos. Eis onde caiu a vossa realeza, diz-nos o nosso Deus. Todo o homem era rei, pela graça de Deus. Todo o homem era chamado a reinar sobre si mesmo e sobre a natureza. Mas vede o homem do pretório, aquele que tomou sobre si todos os vossos pecados, que é feito da sua realeza? O seu ceptro é uma cana; o seu manto real, um farrapo tingido pelo sangue; a sua coroa, um ramo de espinhos entrançado. Eis o retrato do homem culpado, é um rei decaído, desonrado, injuriado, ridicularizado. Eu podia ser rei e posso ainda sê-lo: «Fizestes-nos reis e sacerdotes», dizem os eleitos falando a Deus, no Apocalipse (5,10), Mas é preciso para isso deixar de ofender a Deus, é preciso servi-lo real e sacerdotalmente, com força, com piedade, com o espírito de sacrifício e de devoção. (Leão Dehon, OSP 3, p. 343s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Para o Senhor nosso Deus, a justiça; para nós, a vergonha» (Br 1, 15)

  • Nossa Senhora do Rosário

    Nossa Senhora do Rosário


    7 de Outubro, 2023

    O Rosário, que apareceu entre os séculos XV e XVI, foi divulgado pelos Dominicanos, tornando-se uma das mais populares devoções marianas. Nossa Senhora recomendou-o insistentemente em Fátima.

    A memória de Nossa Senhora do Rosário, inicialmente celebrada por algumas famílias religiosas, entrou na liturgia de toda a Igreja por disposição do Papa S. Pio V, dominicano, em 1572. Com essa festa, então abertamente chamada "comemoração da Bem-aventurada Virgem Maria da Vitória", o Papa queria agradecer a Nossa Senhora a sua intervenção na vitória da frota cristã contra a dos turcos, em Lepanto, a 7 de Outubro de 1571. Atualmente celebra-se simplesmente a memória de Nossa Senhora do Rosário.

    Lectio

    Primeira leitura: Atos, 1, 12-14

    Os Apóstolos desceram, do monte chamado das Oliveiras, situado perto de Jerusalém, à distância de uma caminhada de sábado, e foram para Jerusalém. 13Quando chegaram à cidade, subiram para a sala de cima, no lugar onde se encontravam habitualmente.Estavam lá: Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, filho de Tiago.14E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.

    Depois de ter convivido durante quarenta dias com os discípulos, Jesus elevou-se ao céu. Então os Onze, que tinham andado dispersos, com outros discípulos e familiares de Jesus, entre os quais a sua mãe, reuniram-se provavelmente em casa de um deles, enquanto esperavam o Pentecostes, em que haviam de receber o Espírito Santo prometido. Neste texto, Lucas antecipa algumas notas sobre o modo de vida da primitiva comunidade eclesial de Jerusalém, que irá desenvolver depois. Uma característica evidente é a oração partilhada pelos irmãos e irmãs de modo assíduo e concorde. Depois do Pentecostes, em que Maria também participará (At 2, 1), a comunidade eclesial irá desenvolver a sua identidade e a diaconia. A oração, que precede o Pentecostes, é como que uma preparação; a assiduidade à oração e a concórdia entre os irmãos são garantia de crescimento e de futuro para a comunidade.

    Evangelho: Lucas 1, 26-38

    Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,27a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. 28Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» 29Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. 30Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. 31Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.32Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» 34Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» 35O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. 36Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril,37porque nada é impossível a Deus.» 38Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

    A devoção do Rosário encontrou na anunciação a Maria o primeiro quadro para contemplação. O colóquio entre Deus e a jovem Maria, mediado pelo anjo Gabriel, - "força de Deus" -, decorre num clima de serena e alegre disponibilidade obediente da humilde «serva do Senhor». A disponibilidade de Maria decorre da reflexão ou meditação sobre a palavra proferida pelo enviado de Deus. Maria tenta uma exegese da mensagem, verdadeiramente surpreendente, pois se trata de um grandioso projeto de Deus, que a envolve. A contemplação de Maria sobre o primeiro mistério do seu envolvimento evangélico e messiânico é iluminada pela disponibilidade do Senhor, pronto a dar explicações. Maria acolhe-as e medita-as no seu coração. Deus não impõe uma tarefa absurda, mas "esforça-se" por convencer aquele que chama a participar nela.

    Meditatio

    S. Lucas oferece à meditação do devoto de Maria, na memória de Nossa Senhora do Rosário, uma sequência histórica de acontecimentos que têm o seu princípio na perícopa do evangelho que escutamos hoje e passa imediatamente para a dos Atos dos Apóstolos que também escutámos na primeira leitura. São duas paragens na peregrinação devocional do Rosário: uma com que começam os "mistérios gozosos" e outra que encontramos do terceiro dos mistérios gloriosos. Essa disposição dos quadros a contemplar dá-nos uma metodologia para a nossa meditação que nos ensina e ajuda a passar do individual ao comunitário, da contemplação à ação.
    De fato, a Anunciação é, para a Virgem Maria, uma experiência muito pessoal de Deus, uma paragem na contemplação da palavra de Deus, junto ao próprio Deus. É um evento gozado na solidão. Essa solidão ou experiência individual não significa isolamento: de fato, Aquela que recebeu o anúncio, partilha a vida da comunidade, a espera da manifestação poderosa e gloriosa do Espírito Santo. Põe em comum a sua experiência de Deus.
    A Anunciação constitui para Maria uma subida aos cumes da contemplação dos mistérios de Deus, uma aproximação, guiada pela luz da palavra divina, ao projeto que Deus quer realizar com a sua disponibilidade. Essa contemplação sustenta a obediência consciente. A Virgem da Anunciação não permanece imóvel no seu genuflexório, com o livro entre as mãos, como a imaginaram muitos pintores. Atua em si mesma de acordo com a Palavra recebida, meditada, contemplada e rezada; atua na comunidade, nascida do amor de Jesus e da fé em Cristo ressuscitado; e tudo com assiduidade e em concórdia com os outros discípulos.
    A atitude de Maria marca a primitiva comunidade e orienta-a para o uso dos meios que façam dela, o mais possível, comunidade do Senhor: a assiduidade ao "ensino dos Apóstolos", a "união fraterna", a "fração do pão", a oração e a partilha dos bens (cf. At 2, 42.44).
    Os primeiros monges pretendiam viver este mesmo espírito que animou, primeiro a Maria e, depois, a comunidade de Jerusalém. Daí a importância que davam à escuta da Palavra, à oração, à Eucaristia, à partilha de bens, à união fraterna. O mesmo espírito deve animar as nossas atuais comunidades. Daí a necessidade de usar os mesmos meios.

    Oratio

    Ó Maria, Mãe de Deus, Rainha e Mãe dos homens, eu vos ofereço as homenagens da minha veneração e do meu amor filial. Quero viver como vosso filho dedicado, consolando-vos e obedecendo-vos em tudo. Pela vossa poderosa intercessão, fazei que todos os meus pensamentos e ações sejam conformes à vossa vontade e à do vosso divino Filho. (Leão Dehon, OSP 4, p. 338).

    Contemplatio

    As orações dos santos são poderosas junto de Deus; e todavia não são mais do que as orações de servos. Mas as de Maria são orações de Mãe. Santo Antonino dizia: «a oração de Maria tem sobre o coração de Jesus a força de uma ordem». Também considera impossível que a divina Mãe peça ao Filho uma graça e que o Filho lhe recuse. «É impossível - dizia - que a Mãe não seja ouvida». É por isso que S. Bernardo nos exorta a pedir, por intercessão de Maria, todas as graças que desejamos alcançar de Deus. «Procuremos a graça - escreve - mas procuremo-la por Maria, porque ela é mãe; ela é sempre ouvida, e não pode obter uma recusa». Deste modo, vemos a imensa família dos cristãos recorrer a Maria como mãe amada e dedicada. Quem poderá contar os santuários, os altares, as imagens, as bandeiras, os escapulários, as imagens de Maria? A todo o momento, de todos os lugares da terra, se eleva um apelo filial: «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores». E eu mesmo grito: «Augusta Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim. Vede as misérias da minha alma, e tende piedade de mim. Sim, rogai e não cesseis jamais de rogar por mim, enquanto não me virdes no céu, seguro da minha salvação eterna. Ó Maria, sois a minha esperança, não me abandoneis». (Leão Dehon, OSP 4, p. 337).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores».
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    Nossa Senhora do Rosário (07 Outubro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Sábado

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVI Semana - Sábado

    7 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Baruc 4, 5-12.27-29

    5Coragem, povo meu, que trazes o nome de Israel! 6Fostes vendidos às nações, mas não para serdes aniquilados. Porque provocastes a ira de Deus, fostes entregues aos inimigos. 7Irritastes o vosso criador, oferecendo sacrifícios aos demónios e não a Deus. 8Esquecestes o vosso criador, o Deus eterno, e contristastes Jerusalém, que vos alimentou. 9Quando viu precipitar-se sobre vós o castigo de Deus, disse: «Escutai, nações vizinhas de Sião! Deus enviou-me um grande tormento. 10Vi o cativeiro dos meus filhos e filhas, que o Eterno lhes infligiu. 11Eu tinha-os criado com alegria e despedi-os com lágrimas e tristeza. 12Que ninguém se regozije com a minha viuvez e o meu desamparo! Se estou deserta, é por causa dos pecados dos meus filhos, porque se afastaram da Lei de Deus. 27Coragem, meus filhos, clamai ao Senhor, porque aquele mesmo que vos provou, há-de lembrar-se de vós. 28Se um dia quisestes afastar-vos de Deus, convertei-vos, agora, e procurai-o com um empenho dez vezes maior; 29pois aquele que vos enviou o castigo vos trará a alegria eterna da vossa salvação.»

    Escutamos hoje um oráculo de consolação, semelhante aos que encontramos no Segundo e no Terceiro Isaías. A cidade de Jerusalém personifica todo o povo, comparado a uma viúva desolada, que reconhece a justeza do castigo recebido de Deus, porque pecou e esqueceu o Senhor, o seu poder e a sua paternidade.
    Reconhecida a justeza do castigo, o povo reconhece também o carácter pedagógico que ele tem. Por isso, surge a esperança no perdão: o povo castigado, ao reconhecer o seu pecado e a justiça do castigo, pode regressar a Deus e experimentar novamente a salvação, uma salvação que transcende os limites das expectativas humanas.
    Jerusalém exorta os seus filhos, maus e desobedientes, a corrigir-se e a retomar o caminho da maturidade e da positividade. Há que converter-se a Deus, Àquele que deu as Dez Palavras ao seu povo. E, depois do castigo, encontrará a alegria eterna da salvação (v. 29).

    Evangelho: Lucas 10, 17-24

    Naquele tempo, 17os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se sujeitaram a nós, em teu nome!» 18Disse-lhes Ele:«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. 19Olhai que vos dou poder para pisar aos pés serpentes e escorpiões e domínio sobre todo o poderio do inimigo; nada vos poderá causar dano. 20Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu.» 21Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 22Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho.» 23Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: «Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. 24Porque - digo-vos - muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!»

    Os setenta e dois discípulos voltam «cheios de ale­gria» (v. 17) e Jesus revela-lhes o conteúdo profundo daquilo que fizeram.
    O tema é tratado em duas secções ligeiramente diferentes, mas unitárias (vv. 17-20 e vv. 21-24). Temos, em primeiro lugar a missão, considerada pelos 72 discípulos uma vitória na luta contra Satanás (v. 18); depois, a vitória sobre Satanás, que evidencia a capacidade dos discípulos em vencer o mal que há no mundo. Por isso são chamados «Felizes» (v. 23) e os seus nomes estão «escritos no Céu» (v. 20); em terceiro lugar, o evangelho faz notar que «os pequenos» (v. 21) estão abertos ao mistério e recebem a verdade de Jesus; finalmente, Jesus louva o Pai pelo dom concedido «aos pequenos» e revela a união de amor entre Ele e o Pai: «Tudo me foi entregue por meu Pai; e nin­guém conhece quem é o Filho senão o Pai...» (v. 22).
    Pode dizer-se que a missão é irradiação do amor que une o Pai e o Filho. Este amor, revelado «aos pequenos» é a força que destrói o mal. Os discípulos são «felizes» (v. 23) porque vêem e saboreiam desde já o amor do Pai e do Filho.

    Meditatio

    Jerusalém, comparada a uma viúva desamparada e desolada com a sorte dos seus filhos, mas também cheia de esperança na sua recuperação, faz-nos pensar em Maria, mãe da verdadeira Jerusalém, preocupada com os seus filhos, que não seguem o Senhor, mas andam afastados dele por causa dos seus pecados.
    De facto, nas suas diversas aparições, a Virgem manifesta sempre a sua materna solicitude pelos pecadores, exortando a rezar e a fazer penitência por eles. Pensemos nas aparições de Fátima, nas palavras de Maria e na seriedade e empenho com que os Pastorinhos as acolheram! Todavia, nas intervenções da Senhora, também há sempre palavras de encorajamento, semelhantes às de Jerusalém: «Coragem, meus filhos, clamai ao Senhor, porque aquele mesmo que vos provou, há-de lembrar-se de vós. Se um dia quisestes afastar-vos de Deus, convertei-vos, agora, e procurai-o com um empenho dez vezes maior; pois aquele que vos enviou o castigo vos trará a alegria eterna da vossa salvação» (v. 27ss.). Maria ama-nos e quer a nossa felicidade e a nossa alegria. Por isso, clama: «Fazei penitência!... Rezai pelos pobres pecadores!» O caminho da alegria e o caminho da conversão coincidem.
    A reparação do pecado, que ofende a Deus e prejudica o homem, deve ser um dos nossos principais objectivos como cristãos e como dehonianos: «O Padre Dehon espera que os seus religiosos sejam profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens e do mundo em Cristo (cf. 2 Cor 5,18). Assim comprometidos com Ele, para reparar o pecado e a falta de amor na Igreja e no mundo, prestarão com toda a sua vida, com as orações, trabalhos, sofrimentos e alegrias, o culto de amor e de reparação que o seu Coração deseja (cf. NQ XXV, 5) (Cst 7). «Implicados no pecado, mas participantes na graça redentora, pela realização de todas as nossas tarefas, queremos unir-nos a Cristo presente na vida do mundo e, em solidariedade com Ele e com toda a humanidade e a criação inteira, oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável (cf. Rom 12,1).» (Cst 22).
    Voltando-nos para o evangelho, talvez não seja difícil reconhecer-nos nos discípulos que regressam cansados de uma missão cujos resultados não são fáceis de avaliar. Por um lado, não tiverem sucesso com pessoas junto das quais esperavam alcançá-lo; por outro lado, reconhecem o surpreendente acolhimento obtido junto de outras de quem o não esperavam. É o
    que acontece com todos aqueles que se dedicam ao anúncio do Evangelho. Então, é preciso voltarmos a escutar Jesus que dá graças ao Pai e rejubila no Espírito pelos seus imperscrutáveis desígnios que revelam o mistério do Reino aos últimos, aos humildes, e o escondem «aos sábios», aos soberbos, aos que contam com a sua presumida justiça. E, mais uma vez, nos podemos lembrar dos Pastorinhos e de tantos outros "pequenos e humildes" a quem Deus revelou por meio da Virgem Maria importantes mistérios do Reino.

    Oratio

    Senhor Jesus, hoje quero unir-me ao teu grito de júbilo no Espírito, porque me enche de comoção saber que também me tratas como amigo e confidente, e me tornaste participante do diálogo de amor com o Pai. Assim me fazes compreender quanto sou precioso aos olhos do mesmo Pai e como Ele pensou em mim desde toda a eternidade e me quis seu filho, à tua imagem, que és o Filho unigénito gerado antes de todos os séculos. Bendito é o Pai, Bendito é o Espírito e bendito sejas Tu, para sempre. Amen.

    Contemplatio

    O Coração de Maria é o refúgio dos pecadores. Deus quis muito particularmente fazer de Maria a esperança e a salvação dos pecadores. Os Padres da Igreja não se calam sobre este privilégio de Maria. A Idade Média, muito ávida de símbolos, comparou Maria ao astro da noite, porque ilumina o pecador, que caminha na noite dos seus pecados. «O sol, criado para brilhar durante o dia, é, diz o cardeal Hugo, a figura de Jesus, cuja luz alegra os justos que vivem no grande dia da graça divina; a lua, criada para luzir durante a noite, é a figura de Maria, cuja luz ilumina ainda os pecadores, mergulhados na noite do pecado». - «Se alguém, diz Inocêncio III, se encontra miseravelmente empenhado na noite do pecado, que levante os olhos para o astro do noite, que invoque Maria!». «A divina misericórdia, diz o P. Eudes, reina tão perfeitamente no Coração de Maria, que lhe faz levar o nome de Rainha e de Mãe de misericórdia. Ganhou de tal modo o coração da divina misericórdia, que lhe deu as chaves de todos os seus tesouros, e tornou-a absolutamente senhora». Recusará ela o seu concurso aos pecadores, ela que durante a sua vida ofereceu o seu divino Filho por eles, no Templo e no Calvário? (Leão Dehon, OSP 3, p. 670).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Coragem: aquele que vos enviou o castigo
    vos trará a alegria eterna da vossa salvação» (Br 4, 27)

  • 27º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    27º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    8 de Outubro, 2023

    Ano A
    27º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    Tema do 27º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia do 27º Domingo do Tempo Comum utiliza a imagem da "vinha de Deus" para falar desse Povo que aceita o desafio do amor de Deus e que se coloca ao serviço de Deus. Desse Povo, Deus exige frutos de amor, de paz, de justiça, de bondade e de misericórdia.
    Na primeira leitura, o profeta Isaías dá conta do amor e da solicitude de Deus pela sua "vinha". Esse amor e essa solicitude não podem, no entanto, ter como contrapartida frutos de egoísmo e de injustiça... O Povo de Jahwéh tem de deixar-se transformar pelo amor sempre fiel de Deus e produzir os frutos bons que Deus aprecia - a justiça, o direito, o respeito pelos mandamentos, a fidelidade à Aliança.
    No Evangelho, Jesus retoma a imagem da "vinha". Critica fortemente os líderes judaicos que se apropriaram em benefício próprio da "vinha de Deus" e que se recusaram sempre a oferecer a Deus os frutos que Lhe eram devidos. Jesus anuncia que a "vinha" vai ser-lhes retirada e vai ser confiada a trabalhadores que produzam e que entreguem a Deus os frutos que Ele espera.
    Na segunda leitura, Paulo exorta os cristãos da cidade grega de Filipos - e todos os que fazem parte da "vinha de Deus" - a viverem na alegria e na serenidade, respeitando o que é verdadeiro, nobre, justo e digno. São esses os frutos que Deus espera da sua "vinha".

    LEITURA I - Is 5,1-7

    Leitura do Livro de Isaías

    Vou cantar, em nome do meu amigo,
    um cântico de amor à sua vinha.
    O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina.
    Lavrou-a e limpou-a das pedras,
    plantou-a de cepas escolhidas.
    No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar.
    Esperava que viesse a dar uvas,
    Mas ela só produziu agraços.
    E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá,
    sede juízes entre mim e a minha vinha:
    Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?
    Quando eu esperava que viesse a dar uvas,
    porque é que apenas produziu agraços?
    Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha:
    vou tirar-lhe a vedação e será devastada;
    vou demolir-lhe o muro e será espezinhada.
    Farei dela um terreno deserto:
    não voltará a ser podada nem cavada,
    e nela crescerão silvas e espinheiros;
    e hei-de mandar às nuvens
    que sobre ela não deixem cair chuva.
    A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel,
    e os homens de Judá são a plantação escolhida.
    Ele esperava rectidão e só há sangue derramado;
    esperava justiça e só há gritos de horror.

    AMBIENTE

    Isaías, filho de Amós, exerceu o seu ministério profético em Jerusalém, no reino de Judá, durante a segunda metade do séc. VIII a.C. (de acordo com os seus oráculos, o profeta foi chamado por Deus ao ministério profético por volta de 740-739 a.C.; e os seus oráculos vão até perto de 700 a.C.). A sua pregação abarca, portanto, um arco de tempo relativamente longo e abrange vários reinados.
    Isaías - como os outros profetas - não fala de realidades abstractas e intangíveis. A sua pregação refere-se a acontecimentos concretos e toca a realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens do seu tempo. Para perceber a sua mensagem temos, portanto, de situá-la na época e na realidade histórica que o profeta conhece e sobre a qual é chamado por Deus a pronunciar-se.
    A primeira fase do ministério de Isaías desenrola-se durante o reinado de Jotam (740-734 a.C.). É uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das super-potências. Tudo parece correr bem, num clima de paz generalizada.
    No entanto, o olhar crítico do profeta detecta uma realidade distinta. Internamente, a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e arbitrariedades... Os poderosos exploram os mais débeis, os juízes deixam-se corromper, os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriar dos bens dos mais pobres, os governantes oprimem os súbditos, as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade, num desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres.
    Em termos religiosos, o culto floresce numa abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas; no entanto, todo esse fausto cultual é incoerente e mentiroso, pois não resulta de uma verdadeira adesão a Jahwéh, mas de uma tentativa de acalmar as consciências e de "comprar" Deus.
    Para o profeta, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para converter-se numa prostituta (cf. Is 1,21-26); ou, dito de outra forma, a "vinha" cuidada por Deus só produz frutos amargos e não os frutos bons (de justiça e de amor) pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.
    A mensagem de Isaías neste período encontra-se nos capítulos 1-5 do seu livro. O texto que hoje nos é proposto é um dos textos mais emblemáticos deste período.
    O "cântico da vinha" poderia ser, inicialmente, um "cântico de vindima" ou um "cântico de trabalho", que um poeta popular entoa diante do seu círculo de amigos ou de companheiros de trabalho. Mas, como acontece tantas vezes com as formas de expressão da cultura popular, rapidamente as palavras adquirem um duplo sentido e passam a evocar outra realidade.
    Na cultura judaica, a "vinha" é um símbolo do amor (cf. Cant 1,6.14; 2,15; 8,12). O "cântico da vinha" passa então a ser, na boca do poeta popular, uma "cantiga de amor", que descreve os esforços do jovem apaixonado para conquistar a sua amada.
    Isaías vai utilizar esta "cantiga de amor" como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.

    MENSAGEM

    A canção que o profeta canta é bonita e o tema é sugestivo. O profeta/poeta brinca com as sonoridades e com o ritmo, alterna os sons doces das canções de amor com os sons ásperos das canções de trabalho. Os interlocutores do profeta/poeta estão atentos e fascinados e escutam com prazer a descrição das quase patéticas tentativas do poeta para conquistar a sua amada. Ouvem-no falar dos seus trabalhos para construir a sua vinha, dos seus cuidados com ela, das suas ilusões, dos seus sonhos; sorriem perante as alusões ao "lagar" (o lugar onde será feito o vinho do amor) e à torre (de onde o amado vigiará, para que ninguém entre na sua "vinha" e colha os frutos do seu amor). Aprovam quando ele, depois de tantos cuidados, fica à espera dos "frutos saborosos" do amor que cultivou. Ficam revoltados quando, depois de todo o empenho do amado, a "vinha" só lhe ofereceu frutos azedos. O auditório s
    impatiza com o poeta, identifica-se com ele, partilha a sua desilusão...
    De repente, o poeta transforma o cântico em queixa e reclama justiça. Interpela directamente os seus interlocutores e exige deles um veredicto. Tem o público na mão: todos concordam que o profeta/poeta tem razão e que tem todo o direito em tirar a vedação que protegia a vinha, em não voltar a cuidar dela, em dar ordens às nuvens para que não a fecundem com a chuva...
    Quando o seu público já pronunciou mentalmente um veredicto favorável ao profeta/poeta, este lança-lhe à cara a acusação que vinha preparando: "a vinha do Senhor do universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava rectidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror" (vers. 7).
    A imagem da "vinha" aplicada ao Povo de Deus encontra-se frequentemente na Bíblia (cf. Is 3,14; 27,2-5; Jer 2,21; 12,10; Ez 17,6; Os 10,1; Sal 80,9-17). Os profetas e catequistas de Israel viram na imagem da "vinha" um símbolo privilegiado para expressar essa história de amor que Deus quis escrever com o seu Povo, isto é, a Aliança.
    Nesta "parábola", Deus é o "vinhateiro" e Israel é a "vinha". Foi Deus quem trouxe de longe (do Egipto) essas videiras escolhidas, que as plantou numa terra fértil (a terra de Canaan), que removeu dessa terra as pedras (os outros povos que aí habitavam) que podiam estorvar a fecundidade da "vinha", que cuidou e, sobretudo, que amou a sua "vinha".
    Como é que Israel respondeu aos esforços de Deus? Que frutos produziu a "vinha" de Jahwéh? O profeta/poeta responde: Deus esperava que Israel vivesse no direito e na justiça ("mishpat" e "zedaqa") cumprindo fielmente as exigências da Aliança; esperava uma vida de coerência com os mandamentos; esperava que Israel respeitasse os direitos dos mais débeis... Na realidade, o Povo actua em sentido exactamente contrário àquilo que Deus esperava: os poderosos cometem injustiças e arbitrariedades, os juízes são corruptos e não fazem justiça ao pobre, os grandes praticam violências e derramam o sangue do inocente, os órfãos e as viúvas vêem espezinhados os seus direitos sem que ninguém os defenda.
    Na verdade, sugere o profeta, Deus não pode pactuar com este esquema e prepara-Se para abandonar essa "vinha" ingrata, essa amada infiel.
    Atente-se nesta "lição" fundamental: o amor de Deus pretende criar no coração do seu Povo uma dinâmica que leve ao amor ao irmão. Deus ama-nos, para que nos deixemos transformar pelo amor e amemos os outros.

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão, considerar os seguintes dados:

    • A "parábola da vinha" é uma história de amor. Fala-nos do amor de um Deus que liberta o seu Povo da escravidão, que o conduz para a liberdade, que estabelece com ele laços de família, que lhe oferece indicações seguras para caminhar em direcção à justiça, à harmonia, à felicidade, que o protege nos caminhos da história... É preciso termos consciência de que esta história de amor não terminou e que o mesmo Deus continua a derramar sobre nós, todos os dias, o seu amor, a sua bondade, a sua misericórdia. Tenho consciência desse facto? Tenho o coração aberto aos seus dons? Encontro tempo e disponibilidade para Lhe agradecer e para O louvar?

    • O encontro com o amor de Deus tem de significar uma efectiva transformação do nosso coração e tem de nos levar ao amor ao irmão. Quem trata os irmãos com arrogância, quem assume atitudes duras, agressivas e intolerantes, quem pratica a injustiça e espezinha os direitos dos mais débeis, quem é insensível aos dramas dos irmãos, certamente ainda não fez a experiência do amor de Deus. Às vezes encontramos nas nossas comunidades cristãs ou religiosas pessoas muito válidas do ponto de vista da organização e da animação, que se consideram a si próprias colunas da comunidade, que têm uma fé inabalável, mas que são insensíveis, amargas, agressivas, intolerantes... Será possível ser sinal de Deus e testemunhar o Deus que ama os homens, sem nos deixarmos conduzir pela tolerância, pela misericórdia, pela bondade, pela compreensão?

    • O nosso texto identifica os "frutos bons" que Deus espera da sua "vinha" com o direito e a justiça e afirma que Deus não tolera uma "vinha" que produza "sangue derramado" e "gritos de horror". Nos nossos dias, o "sangue derramado" das vítimas da violência, do terrorismo, das guerras religiosas, dos sistemas que geram morte e sofrimento continua a tingir a nossa história; os "gritos de horror" de tantos homens e mulheres privados dos direitos mais elementares, torturados, marginalizados, excluídos, impedidos de ter acesso a uma vida minimamente humana, continuam a escutar-se na Europa, na Ásia, na África, nas Américas... Qual o nosso papel, no meio de tudo isto? Podemos calar-nos, num silêncio cúmplice e alienado, diante do drama de tantos irmãos condenados à morte? O que podemos fazer para que a "vinha" de Deus produza outros frutos?

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 79 (80)

    Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

    Arrancastes uma videira do Egipto,
    expulsastes as nações para a transplantar.
    Estendia até ao mar as suas vergônteas
    e até ao rio os seus rebentos.

    Porque lhe destruístes a vedação,
    de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
    Devastou-a o javali da selva
    e serviu de pasto aos animais do campo.

    Deus dos Exércitos, vinde de novo,
    olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
    Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
    o rebento que fortalecestes para Vós.

    Não mais nos apartaremos de Vós:
    fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
    Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
    iluminai o vosso rosto e seremos salvos.

    LEITURA II - Filip 4,6-9

    Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

    Irmãos:
    Não vos inquieteis com coisa alguma.
    Mas, em todas as circunstâncias,
    apresentai os vossos pedidos diante de Deus,
    com orações, súplicas e acções de graças.
    E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência,
    guardará os vossos corações
    e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
    Quanto ao resto, irmãos,
    tudo o que é verdadeiro e nobre,
    tudo o que é justo e puro,
    tudo o que é amável e de boa reputação,
    tudo o que é virtude e digno de louvor
    é o que deveis ter no pensamento.
    O que aprendestes, recebestes, ouvi
    stes e vistes em mim
    é o que deveis praticar.
    E o Deus da paz estará convosco.

    AMBIENTE

    Continuamos a ler a carta enviada pelo apóstolo Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos. Quando escreve aos seus amigos filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva. Entretanto, recebeu ajuda dos filipenses (uma soma em dinheiro e a visita de Epafrodito, um membro da comunidade, encarregado pelos filipenses de cuidar de Paulo e de prover às suas necessidades) e está sensibilizado pela bondade e pela preocupação que os filipenses manifestam para com a sua pessoa.
    A Carta aos Filipenses é, sobretudo, uma carta dirigida a amigos muito queridos, na qual Paulo manifesta o seu apreço por essa comunidade que o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Enviando de volta Epafrodito - que estivera gravemente doente - Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho.
    O texto que hoje nos é proposto pertence à parte final da carta. Apresenta um conjunto de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho.

    MENSAGEM

    Os primeiros dois versículos do nosso texto (vers. 6-7) fazem parte de uma passagem mais longa, na qual Paulo recomenda aos cristãos de Filipos que vivam na alegria (vers. 4-7). Esta "alegria" não tem nada a ver com gargalhadas histéricas ou com optimismos inconscientes; mas é a "alegria" que resulta de uma vida de comunhão com o Senhor, com tudo o que isso significa em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a comunhão com Cristo garante-lhe o acesso próximo ("o Senhor está próximo") à vida definitiva. Daí resulta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente enfrentar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai (vers. 6a). Ao crente resta cultivar a comunhão com Deus, entregando-Lhe diariamente a sua vida "com orações, súplicas e acções de graças" (vers. 6b).
    Depois (vers. 8), Paulo recomenda aos filipenses um conjunto de seis "qualidades" que eles devem cultivar e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é "virtude", tudo isto é digno de louvor. Há quem veja neste versículo a "magna carta do humanismo cristão". Estes valores não são exclusivos do cristianismo: são valores sãos e louváveis, que constam também do ideal pagão (eram valores igualmente propostos pelos moralistas gregos da época). No entanto, a comunidade cristã deve estar aberta ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Os cristãos devem ser, antes de mais, arautos e testemunhas dos verdadeiros valores humanos.
    Finalmente, Paulo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações segundo o exemplo que receberam do próprio Paulo (vers. 9). O cristão tem de viver os valores humanos em confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho.

    ACTUALIZAÇÃO

    Considerar na reflexão e actualização, as seguintes linhas:

    • As palavras de Paulo aos filipenses definem alguns dos elementos concretos que devem marcar a caminhada do Povo de Deus. Em primeiro lugar, Paulo convida os crentes a não viverem inquietos e preocupados. Os cristãos estão "enxertados" em Cristo e têm a garantia de com Ele ressuscitar para a vida definitiva. Eles sabem que as dificuldades, os dramas, as perseguições, as incompreensões são apenas acidentes de percurso, que não conseguirão arredá-los da vida verdadeira. Os cristãos não são pessoas fracassadas, alienadas, falhadas, mas pessoas com um objectivo final bem definido e bem sugestivo. O caminho de Cristo é um caminho de dom e de entrega da vida; mas não é um caminho de tristeza e de frustração. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades da nossa caminhada? Porque é que, tantas vezes, saímos das nossas celebrações eucarísticas cabisbaixos, intranquilos, de semblantes tristonhos e ar irritado? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de tranquilidade?

    • Em segundo lugar, Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade... Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que "os que vão à igreja são piores do que os outros". Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados "cristãos não praticantes" para justificar o facto de não irem à igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos? Quem contacta as recepções das nossas igrejas, encontra sempre simpatia, compreensão, amabilidade, verdade, coerência?

    • A forma como Paulo propõe aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época, deve convidar-nos a reflectir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. Não podemos esconder-nos atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho...

    ALELUIA - cf. Jo 15,16

    Aleluia. Aleluia.

    Eu Vos escolhi do mundo, para que vades e deis fruto,
    e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor.

    EVANGELHO - Mt 21,33-43

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
    «Ouvi outra parábola:
    Havia um proprietário que plantou uma vinha,
    cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
    e levantou uma torre;
    depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
    Quando chegou a época das colheitas,
    mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
    Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
    espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
    Tornou ele a mandar outros servos,
    em maior número que
    os primeiros.
    E eles trataram-nos do mesmo modo.
    Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
    'Respeitarão o meu filho'.
    Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
    'Este é o herdeiro;
    matemo-lo e ficaremos com a sua herança'.
    E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
    Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
    Eles responderam:
    «Mandará matar sem piedade esses malvados
    e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
    que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
    Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
    'A pedra que os construtores rejeitaram
    tornou-se a pedra angular;
    tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos'?
    Por isso vos digo:
    Ser-vos-á tirado o reino de Deus
    e dado a um povo que produza os seus frutos».

    AMBIENTE

    Estamos em Jerusalém, pouco tempo após a entrada triunfal de Jesus na cidade (cf. Mt 21,1-11). De hora para hora, cresce a tensão entre Jesus e os seus adversários. Os líderes judaicos pressionam Jesus, num esquema que apresenta foros de processo organizado. Adivinha-se, no horizonte próximo de Jesus, a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus está plenamente consciente do destino que lhe está reservado, mas enfrenta os dirigentes e condena implacavelmente a sua recusa em acolher o Reino.
    O texto que nos é proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projecto de salvação que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas, Jesus convida os seus opositores - os líderes religiosos judaicos - a reconhecerem que se fecharam num esquema de auto-suficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos desafios de Deus. O nosso texto é a segunda dessas três parábolas.
    A história que nos vai ser narrada compreende-se melhor à luz da situação sócio-económica da Galileia do tempo de Jesus... A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades. Esses latifundiários utilizavam vários sistemas para a exploração das suas terras; mas uma das formas preferidas de exploração da terra (precisamente porque, para o latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do latifúndio, em troca de uma parte substancial dos produtos recolhidos. Os que arrendavam as terras eram, geralmente, camponeses que tinham perdido as suas próprias terras devido à pressão fiscal ou às más colheitas. Estes camponeses viviam numa situação periclitante: depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentar a si e à sua família. Em anos agrícolas maus, este esquema significava a miséria absoluta... Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de impostos.
    É neste cenário que Jesus vai colocar a parábola que hoje nos apresenta.

    MENSAGEM

    A parábola contada por Jesus coloca-nos no mesmo ponto de partida da parábola da "vinha" de Is 5,1-7: um "senhor" plantou uma "vinha", cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre.
    A partir daqui, no entanto, a parábola de Jesus afasta-se um pouco da parábola de Isaías... Na versão de Jesus, o proprietário não explorou directamente a "vinha", mas confiou-a a uns "vinhateiros" que deviam dar-lhe, cada ano, uma determinada percentagem dos frutos produzidos. No entanto, quando os "servos" do "senhor" apareceram para recolher a parte que pertencia ao seu amo, foram maltratados e assassinados pelos "vinhateiros"; e o próprio filho do dono da "vinha", enviado pelo pai para chamar os "vinhateiros" à responsabilidade e ao respeito pelos compromissos, foi assassinado.
    A "vinha" de que Jesus aqui fala é Israel - o Povo de Deus. O dono da "vinha" é Deus. Os "vinhateiros" são os líderes religiosos judaicos - os encarregados de trabalhar a "vinha" e de fazer com que ela produzisse frutos. Os "servos" enviados pelo "senhor" são, evidentemente, os profetas que os líderes da nação, tantas vezes, perseguiram, apedrejaram e mataram. O "filho" morto "fora da vinha" é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém.
    É um quadro de uma gravidade extrema. Os "vinhateiros" não só não entregaram ao "senhor" os frutos que lhe deviam, mas fecharam todos os caminhos de diálogo e recusaram todas as possibilidades de encontro e de entendimento com o "senhor": maltrataram e apedrejaram os servos enviados pelo "senhor" e assassinaram-lhe o filho.
    Diante deste quadro, Jesus interpela directamente os seus ouvintes: "quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?"
    A comunidade cristã primitiva encontrou facilmente resposta para esta questão. Na perspectiva dos primeiros catequistas cristãos, a resposta de Deus à recusa de Israel foi dada em dois movimentos. Em primeiro lugar, Deus ressuscitou o "filho" que os "vinhateiros" mataram, glorificou-o e constituiu-o "pedra angular" de uma nova construção; em segundo lugar, Deus decidiu retirar a "vinha" das mãos desses "vinhateiros" maus e ingratos e confiá-la a outros "vinhateiros" - a um povo que fizesse a "vinha" produzir bons frutos e que entregasse ao "senhor" os frutos a que ele tem direito.
    Entretanto, a Mateus não interessa tanto a questão do filho - ressuscitado, exaltado e colocado como pedra angular da nova construção - quanto a questão da entrega da "vinha" a um outro povo. Ao sublinhar este aspecto, Mateus tem em vista uma dupla finalidade...
    Em primeiro lugar, ele explica dessa forma porque é que, na maioria das comunidades cristãs, os judeus - os primeiros trabalhadores da "vinha" de Deus - eram uma minoria: eles recusaram-se a oferecer frutos bons ao "senhor" da "vinha" e recusaram sempre as tentativas do "senhor" no sentido de uma aproximação e de um compromisso. Logicamente, o "senhor" escolheu outros "vinhateiros". O que é decisivo, para a escolha de Deus, não é que os novos trabalhadores da "vinha" sejam judeus ou não judeus; o que é decisivo é que eles estejam dispostos a oferecer ao "senhor" os frutos que lhe são devidos e a acolher o "filho" que o "senhor" enviou ao seu encontro.
    Em segundo lugar, Mateus exorta a sua comunidade a produzir frutos verdadeiros que agradem ao "senhor" da "vinha". Estamos no final do séc. I (década de 80); passou já o entusiasmo inicial e os crentes da comunidade de Mateus instalaram-se num cristianismo fácil, sem exigência, descomprometido, instalado. O catequista Mateus aproveita a oportunidade para exortar os irmãos da comunidade a que despertem, a que saiam do comodismo, a que se empenhem, a que dêem frutos próprios do Reino, a que vivam com radicalidade as propostas de Jesus.

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:

    • O problema fundamental posto por este texto é o da coerência com que vivemos o nosso compromisso com Deus e com o Reino. Deus não obriga ninguém a aceitar a sua proposta de salvação e a envolver-se com o Reino; mas uma vez que aceitamos trabalhar na sua "vinha", temos de produzir frutos de amor, de serviço, de doação, de justiça, de paz, de tolerância, de partilha... O nosso Deus não está disposto a pactuar com situações dúbias, descaracterizadas, amorfas, incoerentes, mentirosas; mas exige coerência, verdade e compromisso. A parábola convida-nos, antes de mais, a não nos deixarmos cair em esquemas de comodismo, de instalação, de facilidade, de "deixa andar", mas a levarmos a sério o nosso compromisso com Deus e com o Reino e a darmos frutos consequentes. O meu compromisso com o Reino é sincero e empenhado? Quais são os frutos que eu produzo? Quando se trata de fazer opções, ganha o meu comodismo e instalação, ou a minha vontade de servir a construção do Reino?

    • O que é que é decisivo para definir a pertença de alguém ao Reino? É ter uma "tradição familiar" cristã? É o ter entrado, por um acto formal (Baptismo) na Igreja? É o ter feito votos de pobreza, castidade e obediência numa determinada congregação religiosa? É o cumprir determinados actos de piedade? É o participar nos ritos? Nada disso é decisivo. O que é decisivo é o "produzir frutos" de amor e de justiça, que pomos ao serviço de Deus e dos nossos irmãos. Como é que eu entendo e vivo a minha caminhada de fé?

    • A parábola fala de trabalhadores da "vinha" de Deus que rejeitam o "filho" de forma absoluta e radical. É provável que nenhum de nós, por um acto de vontade consciente, se coloque numa atitude semelhante e rejeite Jesus. No entanto, prescindir dos valores de Jesus e deixar que sejam o egoísmo, o comodismo, o orgulho, a arrogância, o dinheiro, o poder, a fama, a condicionar as nossas opções é, na mesma, rejeitar Jesus, colocá-l'O à margem da nossa existência. Como é que, no dia a dia, acolhemos e inserimos na nossa vida os valores de Jesus? As propostas de Jesus são, para nós, valores consistentes, que procuramos integrar na nossa existência e que servem de alicerce à construção da nossa vida, ou são valores dos quais nos descartamos com facilidade, sob pressão de interesses egoístas e comodistas?

    • As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na "vinha" do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes... e completamente desligadas da vida?

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 27º DOMINGO DO TEMPO COMUM
    (adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 27º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
    Seria bom rezar hoje a Oração Eucarística IV, que traça a história da salvação e concorda com os textos deste domingo (evocação do amor de Deus pelo seu povo, do Antigo Testamento à Igreja).

    3. PALAVRA DE VIDA.
    Não podemos criticar o proprietário da vinha, posto em cena por Jesus numa parábola, por ter negligenciado a sua vinha: ele trata da vinha com todos os cuidados... Não podemos criticar a sua paciência e a sua perseverança para com os vinhateiros: ele envia os seus servidores que são lapidados, envia outros que têm o mesmo destino e, enfim, envia o seu próprio filho, pensando que ele seria respeitado. Evidentemente, pensamos em Deus que toma cuidado do seu Reino e que envia até o seu próprio Filho. E nós, de que lado nos situamos? Jesus foi-nos enviado... Que fizemos do seu mandamento de amor? Foram-nos enviados mensageiros... Escutámo-los? O Reino de Deus não é devido, é-nos confiado. Esperando que não nos seja retirado...

    4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
    Uma oferenda dos frutos da terra. Hoje, ou num dos domingos de Outubro, pode desenrolar-se durante a celebração uma oferenda dos frutos da terra: frutos, legumes, flores... No final da celebração, pode-se partilhar os dons oferecidos.

    5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE...
    Escolher um "fruto". Ao deixarmos a celebração, podemos escolher um "fruto" possível para produzir nesta semana: um gesto ou uma palavra de reconciliação em relação a alguém; uma partilha com um vizinho necessitado; ou uma iniciativa que pareça ainda mais gratuita e que traga alegria. Para os mais empenhados na vida espiritual: em cada dia, produzir um fruto de amor!

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Segunda-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Segunda-feira

    9 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Jonas 1, 1 - 2, 1.11

    A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas, filho de Amitai, nestes termos: 2«Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e anuncia-lhe que a sua maldade subiu até à minha presença.» 3Jonas pôs-se a caminho, mas na direcção de Társis, fugindo da presença do Senhor. Desceu a Jafa, onde encontrou um navio que partia para Társis; pagou a sua passagem e embarcou nele para ir com os outros passageiros a Társis, longe da presença do Senhor.4Porém, o Senhor fez vir sobre o mar um vento impetuoso, e levantou no mar uma tão grande tempestade que a embarcação ameaçava despedaçar-se. 5Cheios de medo, os marinheiros puseram-se a invocar cada um o seu deus e alijaram ao mar toda a carga do navio para, assim, o aliviar. Entretanto Jonas tinha descido ao porão do navio e, deitando-se ali, dormia profundamente. 6O capitão do navio foi ter com ele e disse-lhe: «Dormes? Que fazes aqui? Levanta-te, invoca o teu Deus, a ver se porventura se lembra de nós e nos livra da morte.» 7Em seguida disseram uns para os outros: «Vinde e deitemos sortes, para sabermos quem é a causa deste mal.» Lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas. 8Disseram-lhe então: «Diz-nos porque nos aconteceu este mal. Qual é a tua profissão? Donde vens? Qual a tua terra e a que povo pertences?» 9Ele respondeu-lhes: «Sou hebreu e adoro o Senhor, Deus do céu, que fez os mares e a terra.» 10Então, aqueles homens ficaram possuídos de grande medo, e disseram-lhe: «Porque fizeste isto?» Com efeito, compreenderam, ao ouvir a confissão de Jonas, que ele fugia do Senhor. 11Disseram-lhe: «Que te havemos de fazer para que o mar se nos acalme?» De facto, o mar estava cada vez mais embravecido. 12Ele respondeu-lhes: «Pegai em mim e lançai-me ao mar, e o mar se acalmará, porque por minha causa é que vos sobreveio esta grande tempestade.» 13Os homens remavam para ver se conseguiam ganhar a terra, mas em vão, porque o mar cada vez se embravecia mais contra eles. 14Então clamaram ao Senhor, dizendo: «Senhor, não nos faças perecer por causa da vida deste homem, nem nos tornes responsáveis do sangue inocente, porque Tu, ó Senhor, fizeste como foi do teu agrado.» 15Depois pegaram em Jonas e lançaram-no ao mar; e a fúria do mar acalmou-se. 16Então, estes homens temeram o Senhor; ofereceram um sacrifício ao Senhor e fizeram-lhe votos. 1O Senhor fez com que ali aparecesse um grande peixe para engolir Jonas; e Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe. 11Então, o Senhor ordenou ao peixe e este vomitou Jonas em terra firme.

    O livro de Jonas é o único que se encontra integralmente no Leccionário, com excepção da oração do capítulo 21. Este livro é uma narrativa didáctica, nascida num contexto judaico, em que, por um lado, se pretende defender ciosamente a própria identidade, e, por outro, alguns querem permanecer fechados aos outros povos. O livro de Jonas, com uma narrativa paradoxal e humorística, ridiculariza essa mentalidade nacionalista e exclusivista, para afirmar que o Deus de Israel é também o Deus de todos os povos, mesmo dos inimigos do povo, como era o caso da Assíria, cuja capital era Nínive. O profeta, que representa a mentalidade fechada do judaísmo, é precisamente enviado a essa cidade inimiga, para a convidar à conversão. Tenta escapar, fugindo na direcção oposta, rumo às Colunas de Hércules, o mais longe possível da cidade detestada. Mas Deus sabe como vencer a resistência do profeta, que apesar da tua teimosia, volta a encontrar-se no lugar de partida.
    Notemos que os marinheiros pagãos são apresentados como bons homens, que temem ao Senhor. É com repugnância e muita dificuldade que sacrificam o profeta. Também entre os pagãos há gente boa, disposta a acolher os sinais que vêm de Deus. Pelo contrário, entre o Povo de Deus, nem todos se comportam bem, como acontece com o próprio Jonas.

    Evangelho: Lucas 10, 25-37

    Naquele tempo, 25Levantou-se um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» 26Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» 27O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» 28Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.» 29Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?» 30Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. 31Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. 32Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. 33Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. 34Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.' 36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» 37Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

    Jesus vai a caminho de Jerusalém. Um judeu faz-lhe uma pergunta armadilhada: que devo fazer para alcançar a vida eterna? Jesus responde com outra pergunta que conduz o doutor à própria lei de Moisés. Que está escrito nela? O homem lembra o preceito do amor, tal como estava formulado em Dt 6, 3: «Amarás ao Senhor, teu Deus... e ao teu próximo como a ti mesmo» (v.27), e que os israelitas recitavam todos os dias, acrescentando o preceito do amor do próximo, tal como está expresso no Lv 19, 18.
    O legalista, vendo a sua síntese aprovada por Jesus, acrescenta outra pergunta armadilhada: «quem é o meu próximo?» (v. 29). Pensando que, no Antigo Testamento, "próximo" era apenas o israelita e, mais tarde, o imigrado que se tinha inserido na comunidade israelita (cf. Lv 19, 33s.); pensando que, no tempo de Jesus, o «próximo» estava limitado ao membro da própria seita (fariseus, zelotas, etc.), compreendemos a força inovadora que se solta da parábola contada por Jesus. O Senhor não dá uma resposta teórica. Conta uma parábola que ia ao encontro da experiência dos ouvintes, que deviam estar lembrados de acontecimentos idênticos ao narrado por Jesus.
    O cenário também é importante: a estrada que, de Jerusalém (situada a 740 metros acima do nível do mar), leva a Jericó (situada a 350 metros abaixo do nível do mar), desenha um percurso cheio de curvas e contracurvas, de gargantas e ravinas, onde facilmente se escondiam salteadores. A acção &e
    acute; animada e forte: o homem agredido, dilacerado e a sangrar é visto por um sacerdote e um levita, que passam ao largo. Finalmente aparece o protagonista da parábola: um samaritano, mestiço, bastardo e herético, que cuida do ferido. Jesus compraz-se na descrição das acções deste homem malvisto pelos judeus. Cheio de compaixão, aproxima-se do homem caído, desinfecta-lhe as feridas com vinho, minora-lhe as dores com azeite, e leva-o para a estalagem onde, à sua custa, o faz curar.
    Jesus faz mais uma pergunta: «Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem» (v. 36). Está aqui o centro da narrativa. Quando Jesus diz ao doutor: «Vai e faz tu também o mesmo» (v. 37), desloca totalmente o centro da questão. Não se trata de saber quem é o nosso próximo, porque toda a criatura humana o é; trata-se, isso sim, de saber como nos tornamos próximo do outro. Quem manifesta a sua compaixão em acções concretas em favor de quem precisa, esse é verdadeiro discípulo de Deus porque «se faz próximo» do homem.

    Meditatio

    As leituras de hoje estão cheias de movimentos que nos envolvem. Jonas foge para não ir a Nínive, como Deus lhe tinha ordenado. Mas, fugindo aos ninivitas, foge de Deus. Quando vezes também eu fujo à missão que Deus me confia, alegando determinadas motivações e as dificuldades do mundo de hoje, tais como a indiferença da juventude, o desmesurado poder dos mass media, a secularização, o fenómeno da globalização e tantas outras questões bem afastadas da lógica de Jesus. Mas fugindo à missão, afasto-me de Deus.
    No evangelho, o sacerdote e o levita também fogem do homem caído à beira do caminho. E não encontraram a Deus. O samaritano, pelo contrário, aproxima-se do ferido e abandonado, cuida dele e torna-se disponível. E encontra a Deus, porque «sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).
    Visto de outro ponto de vista, aquele samaritano, que usa de misericórdia para com o homem caído à beira da estrada, é Deus que se faz próximo do homem, numa dinâmica de amor e de misericórdia. Deus é o Bom Pastor, que procura a ovelha perdida para a reconduzir ao redil, é o Pai que corre ao encontro do filho perdido que regressa, é o Samaritano que se inclina sobre o homem caído, é Jesus que morre na cruz por nosso amor. Deus é assim, e não quer uma religião que nos afaste dos outros, na tentativa de nos protegermos de certos contágios, de uma religião em que o primado não pertença à caridade.
    O convite de Jesus - «Vai e faz tu também o mesmo» - é dirigido a cada um de nós. Seria uma boa tradução para o «Ite missa est», pronunciado no fim de cada eucaristia, memorial da morte e ressurreição do Senhor, memorial do seu amor sem reservas nem limites: «Vai e faz tu também o mesmo»; dá-te, entrega-te por amor ao serviço de Deus e ao serviço dos homens, particularmente dos "caídos" à beira dos caminhos da vida, sê uma eucaristia permanente para glória e alegria de Deus, para bem e salvação da humanidade.
    Jonas, lançado ao mar e engolido pelo peixe, é reconduzido à praia. Mas, entre um e outro acontecimento, dirige a Deus uma oração que não vem no texto, mas reencontramos no salmo responsorial: «Na minha aflição invoquei o Senhor e Ele respondeu-me. Da morada dos mortos clamei por socorro e ouviste a minha voz» (Jn 2, 3). É um elemento muito importante, porque, sem oração, não é possível abrir-se à graça, passar do egoísmo preocupado consigo mesmo, com a própria vida, com a própria reputação, para o amor que se faz próximo de quem precisa, a exemplo de Jesus, o Bom Samaritano da humanidade.

    Oratio

    Senhor Jesus, conheces a minha fraqueza, os meus temores, a minha pusilanimidade. Mas nem por isso me dispensas de colaborar no teu projecto de salvação. Dá o teu Espírito de coragem e fortaleza, de atrevimento e zelo, para que, não só não fuja de Ti ou da missão que me confias, mas Te procure com afinco e me entregue com total disponibilidade. Que jamais despreze aqueles a quem me queres enviar. Que jamais engrandeça as dificuldades do meu ministério, para me desculpar da pouca criatividade, do pouco zelo que nele ponho. Dá-me a tua luz, para que reconheça o meu próprio pecado, possa converter-me e trabalhar generosamente na conversão dos meus irmãos. Amen.

    Contemplatio

    É certo que Nosso Senhor quis descrever-se a si mesmo sob os traços do bom samaritano. Quis revelar-nos sob esta parábola toda a bondade e a compaixão do seu Coração. E se foi o bom samaritano na sua vida mortal semeando por toda a parte os seus cuidados, as suas consolações, socorrendo e curando todos os feridos e os doentes, não endureceu o seu Coração na Eucaristia. Está lá com a mesma bondade, a mesma ternura por aqueles que sofrem. E diz ainda: «Vinde a mim, vós todos que penais e sofreis, e eu vos aliviarei». Irei ter com ele, mostrar-lhe-ei as minhas chagas, as chagas espirituais sobretudo. Ele pôr-lhes-á óleo que adoça e o vinho que cauteriza. Aliviar-me-á, estou seguro. Vede, Senhor, em que estado me reduziram as tentações da carne, do mundo e do demónio, revelai-me, curai-me. (Leão Dehon, OSP 3, p. 642)

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Vai e faz tu também o mesmo.» (Lc 10, 37).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Terça-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Terça-feira

    10 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Jonas 3, 1-10

    A palavra do Senhor foi dirigida pela segunda vez a Jonas, nestes termos: 2«Levanta-te e vai a Nínive, à grande cidade e apregoa nela o que Eu te ordenar.» 3Jonas levantou-se e foi a Nínive, segundo a ordem do Senhor. Nínive era uma cidade imensamente grande, e eram precisos três dias para a percorrer. 4Jonas entrou na cidade e andou um dia inteiro a apregoar: «Dentro de quarenta dias Nínive será destruída.» 5Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, ordenaram um jejum e vestiram-se de saco, do maior ao menor. 6A notícia chegou ao conhecimento do rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou o seu manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. 7Em seguida, foi publicado na cidade, por ordem do rei e dos príncipes, este decreto: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas não comam nada, não sejam levados a pastar nem bebam água. 8Os homens e animais cubram-se de roupas grosseiras, e clamem a Deus com força; converta-se cada um do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos. 9Quem sabe se Deus não se arrependerá e acalmará o ardor da sua ira, de modo que não pereçamos?» 10Deus viu as suas obras, como se convertiam do seu mau caminho, e, arrependendo-se do mal que tinha resolvido fazer-lhes, não lho fez.

    Reconduzido ao ponto de partida pelo peixe, Jonas escutou novamente a voz de Deus: «Levanta-te e vai a Nínive, à grande cidade e apregoa nela o que Eu te ordenar» (v. 2). Depois do sucedido, Jonas não ousa objectar e vai para onde o Senhor o envia e apregoa a destruição da grande cidade de Nínive. A descrição da cidade é certamente exagerada, como tudo no livro de Jonas. A palavra "grande" aparece 14 vezes na narrativa. A ordem do rei que impõe penitência aos próprios animais é também exagerada. Os próprios «quarenta dias» de pregação (v. 4) não têm valor matemático mas simbólico, significando o tempo necessário para completar uma acção ou uma obra.
    Nínive, contra o que era de esperar, converte-se. E Deus também tem que mudar de opinião e não castigar a cidade. O Deus de Israel está disposto a mudar as suas decisões mesmo quando alguém, que está muito longe d´Ele pela fé e pela vida, decide converter-se, mudar de vida. Deus é misericordioso, não só para com Israel, mas também para com todos os povos. O Deus de Israel é o Deus de todos os povos. Se salvou Israel, é para, com ele, salvar a todos. Este discurso era sem dúvida dirigido aos grupos mais sectários de Israel. Um discurso sempre actual.

    Evangelho: Lucas 10, 38-42

    Naquele tempo, 38Continuando o seu caminho, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. 39Tinha ela uma irmã, chamada Maria, a qual, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. 40Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços; e, aproximando-se, disse: «Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.» 41O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; 42mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.»

    Este texto foi usado ao longo dos séculos para "justificar" a vida activa, figurada em Marta, e a vida contemplativa, figurada em Maria. Mas, mais importante que os dois estados de vida, são as duas atitudes interiores.
    Jesus vai a caminho de Jerusalém, rumo à consumação do mistério pascal da nossa salvação: «continuando o seu cami­nho, Jesus entrou» (v. 38). Em Betânia, entra em casa de Lázaro, onde Marta, irmã de Maria e de Lázaro, faz as honras da casa. Mas parece que estavam só as duas irmãs. Por isso, a entrada de Jesus na casa é um gesto audacioso. Na verdade, para Ele, «já não conta ser judeu ou grego, homem ou mulher»; o que conta é ser «nova criatura» que, na relação com Ele, se afirma (cfr. Gal 6, 15).
    Marta acolhe Jesus; Maria senta-se a seus pés e escuta a palavra. Aqui, a atenção não está centrada em Jesus que fala, mas na "mulher-verdadeira-discípula" acocorada a seus pés e esquecida de tudo quanto não seja Ele e a sua palavra. Marta, pelo contrário, «andava atare­fada» (v. 40), em grande tensão, quase diríamos, alienação, com o que havia para fazer. Então, com alguma petulância, como se pode entrever numa tradução literal do v. 40: «adiantando-se» ou, mais rigorosamente, «pondo-se por cima», Marta perturba a quieta contemplação das palavras de Jesus e da escuta de Maria. Marta quase acusa Jesus de não ligar atenção e interesse aos seus serviços.
    É então que Jesus aproveita a ocasião para repreender, não o útil serviço que Marta está a prestar, mas a excessiva inquietação e preocupação que lhe marcam negativamente o agir. Já noutra ocasião Jesus dissera: não vos preocupeis com o que haveis de vestir, ou comer, ou com qualquer outra coisa (cfr. Mt 6, 25-34). Mas a escolha de Maria foi acertada, porque deu atenção à única coisa que interessa, isto é, à escuta da Palavra. É a melhor parte que não será tirada a quem ama.

    Meditatio

    O encontro com Deus e com a sua Palavra permite-nos compreender a sua misericórdia e a sua compaixão. Jonas não obedeceu a Deus, não acolheu a sua vontade de misericórdia e de salvação em relação a Nínive porque, em vez de frequentar a Deus e escutar a sua Palavra, se deixou envolver pelo ambiente em que vivia e pelas opiniões dominantes no mesmo. Um contacto superficial com a Palavra de Deus permite-nos reestruturá-la à medida dos nossos gostos e dos nossos critérios. Mas um contacto profundo com a Palavra de Deus desestrutura-nos, faz-nos entrar nos critérios de Deus. Por isso, é necessário fazer-nos discípulos, desarmados e devotos, dispostos a render-nos à Palavra e não a domesticá-la.
    Como Jonas se esforça por encontrar as suas próprias soluções, também nós queremos procurar as nossas, quando não recebemos Jesus como hóspede e Senhor da nossa vida. Ao escutarmos o evangelho de hoje, provavelmente sentimos uma certa pena por não sermos como Maria, sentados aos pés de Jesus, dando-Lhe toda a nossa atenção, escutando a sua palavra. Mas certamente já nos demos conta de que, quando temos ocasião para isso, por exemplo durante um retiro, preferimos assumir a atitude de Marta, ou até arranjamos mil pretextos para nos distrairmos ... Por outro lado, quando andamos agitados como Marta, desejamos ocasiões para assumirmos o papel de Maria. Isso quer dizer que procuramos satisfazer o nosso egoísmo, e que o papel de Maria, mais do que para escutar Jesus, só nos agrada pelo sossego que proporciona...
    Quem quer ser fiel ao Senhor aproveita todos os momentos para estar com Ele,
    escutando a sua Palavra, mesmo no meio de muito trabalho. Há pessoas muito activas, permanentemente a correr de um trabalho para outro, mas interiormente em paz, em secreta contemplação, porque têm o coração junto do Senhor. Pensemos no Papa João Paulo II... Por isso, fazem o que têm a fazer com total tranquilidade, servindo serenamente a Deus e ao próximo.

    Oratio

    Senhor Jesus, ajuda-me a ser fiel à tua Palavra. Que jamais me deixe sufocar pelo rumor do ambiente e pelas opiniões dominantes, mas obedeça docilmente à tua voz e realize todas as missões que me quiseres confiar. Que jamais caia na tentação de me buscar a mim mesmo, seja no repouso seja na actividade, para poder usufruir da tranquilidade da união Contigo em todas as acções, em todas as circunstâncias. Amen.

    Contemplatio

    Santa Madalena é o modelo de um amor sincero e verdadeiro, saído do mais perfeito arrependimento. Desde o momento da sua conversão, Madalena é generosa. Ela lança-se aos pés de Nosso Senhor, derrama abundantes lágrimas, afronta o respeito humano, consagra a Nosso Senhor perfumes de um grande preço. É já uma alma amante. Dá-se sem reservas a Nosso Senhor, e doravante o seguirá, fielmente o servirá. Nosso Senhor é tudo para ela. Mantém-se aos seus pés e é tudo. Em Betânia, não se agita para servir Nosso Senhor, contempla-o, escuta-o. Quem tem Jesus tem tudo. Quando Lázaro morre, que fé e que confiança ela testemunha! Marta agita-se ainda e Maria diz somente: «Mestre, se aqui tivésseis estado, ele não estaria morto». Marta e Maria são ambas amantes, mas testemunham o seu amor de um modo diferente: Marta é activa e Maria é contemplativa. Ambas são nossos modelos, devemos todos unir a contemplação à acção. (Leão Dehon, OSP 4, p. 81).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Jesus amava Marta e Maria!» E ama-me a mim!

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Quarta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Quarta-feira

    11 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Jonas 4, 1-11

    Jonas ficou profundamente aborrecido com isto e, muito irritado, 2dirigiu ao Senhor esta oração: «Ah! Senhor! Porventura não era isto que eu dizia quando ainda estava na minha terra? Por isso é que, precavendo-me, quis fugir para Társis, porque sabia que és um Deus misericordioso e clemente, paciente, cheio de bondade e pronto a renunciar aos castigos. 3Agora, Senhor, peço-te que me mates, porque é melhor para mim a morte que a vida.» 4O Senhor respondeu-lhe: «Julgas que tens razão para te afligires assim?» 5Jonas saiu da cidade e sentou-se a oriente da mesma. Ali fez para si uma cabana e sentou-se à sua sombra, para ver o que ia acontecer na cidade. 6O Senhor Deus fez crescer um rícino, que se levantou acima de Jonas, para fazer sombra à sua cabeça e o proteger do Sol. Jonas alegrou-se grandemente por aquele rícino. 7Ao outro dia, porém, ao romper da manhã, enviou Deus um verme que roeu as raízes do rícino, e este secou. 8Quando o Sol se levantou, Deus fez soprar um vento quente do oriente, e o Sol dardejou os seus raios sobre a cabeça de Jonas, de forma que ele, desfalecido, desejou a morte e disse: «Melhor é para mim morrer do que viver.» 9Então Deus disse a Jonas: «Julgas tu que tens razão para te indignares por causa deste rícino?» Jonas respondeu: «Sim, tenho razão para me indignar até desejar a morte.» 10Disse-lhe Deus: «Sentes pena de um rícino que não te custou trabalho algum para o fazeres crescer, que nasceu numa noite, e numa noite pereceu! 11E não hei-de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e um grande número de animais?»

    A teologia e a sátira misturam-se no final da narrativa de Jonas. O profeta está desgostoso por causa da conversão de Nínive. Afinal, tinha mesmo razão para tentar não ir a essa cidade, pois bem sabia que «Deus é misericordioso e clemente, paciente, cheio de bondade e pronto a renunciar aos castigos». Neste desgosto de Jonas pela conversão de Nínive, revela-se o ódio ancestral de Israel pelos seus inimigos políticos. Mas Deus mostra-se misericordioso também para com o seu teimoso profeta, e quer ser misericordioso para com todos aqueles que pretendem impor-Lhe os próprios pontos de vista. Deus converte o seu profeta dissidente, recorrendo às astúcias pedagógicas, que o seu domínio sobre a natureza Lhe permite.
    O livro termina com um desafio que continua actual: «E não hei-de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e um grande número de animais?» (v. 11). Não é Deus livre de actuar de acordo com os Seus critérios? Teria que sujeitar-se aos de Jonas. Pode Deus ficar insensível diante da sorte do homem, ainda que viva afastado d´Ele? Dos pequenos sofrimentos pessoais, como os que a seca do rícino causa a Jonas, havemos de passar aos sofrimentos bem maiores da humanidade, e não nos escandalizar por Deus querer usar de amor misericordioso para com todos.

    Evangelho: Lucas 11, 1-4

    Naquele tempo, 1Sucedeu que Jesus estava algures a orar. Quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou os seus discípulos.» 2Disse-lhes Ele: «Quando orardes, dizei:Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; 3dá-nos o nosso pão de cada dia; 4perdoa os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos deixes cair em tentação.»

    «Jesus estava algures a orar» (v. 1). Em qualquer tempo e lugar se pode rezar, ainda que haja tempos e lugares expressamente destinados à oração. Ao ver Jesus rezar, um dos discípulos percebeu que não sabia rezar e suplicou: «Senhor, ensina‑nos a orar» (v. 1). Então, Jesus ensinou-lhes a sua oração, o «Pai nosso».
    A oração de Jesus começa com a invocação do Pai, Abba, no texto lucano, palavra que exprime uma ternura e um à vontade idêntico à nossa palavra "papá". Jesus introduz-nos, deste modo, a um novo tipo de relação com Deus, caracterizado pela confiança, semelhante à de um filho que se dirige ao pai, por quem se sente amado. Chamando Pai a Deus, assemelhamo-nos a Jesus, o Filho por excelência, e partilhamos a relação íntima que existe entre Ele e o Pai. É nisto que caracteriza, em primeiro lugar, a oração do cristão.
    – «santificado seja o teu nome»: pedimos a Deus que seja glorificado por todos e em todos; que seja glorificado em cada um de nós, isto é, que vendo o nosso modo de ser e de agir, todos O reconheçam e louvem; este pedido sublinha a verdade de que é procurando a glória de Deus, e não na nossa, que encontramos a nossa própria felicidade, entrando em comunhão com Ele, com os outros, com o cosmos.
    – «venha o teu Reino»: toda a história é aspiração, consciente ou não, por este Reino, que é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14, 7).
    – «dá‑nos em cada dia o pão da nossa subsistência»: o «pão» é o elemento vital que simboliza tudo o que o homem precisa para viver dignamente, crescer e realizar-se (pão, vestuário, cultura, habitação, ...). Pede-se o pão «nosso» ... Se for só «meu», torna-se elemento de morte. Partilhado, faz crescer. «Pão» é também a Eucaristia, a Palavra de Deus... porque «não só de pão vive o homem».
    – «perdoa‑nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos»: o perdão de Deus liga-se à nossa atitude de perdoar, como raiz à árvore. O fundamento do nosso perdão e saber-nos perdoados por Deus... Perdoar não significa esquecer. Desejar perdoar, pedir a Deus que nos ajude a perdoar, já é atitude de perdão...
    – «não nos exponhas à tentação». Esta expressão significa pedir a Deus a graça de não sucumbirmos à tentação, por causa da nossa fraqueza. Sabemos que Deus nos ouve porque «é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças» (1 Cor 10, 13).

    Meditatio

    Compreendemos certamente a atitude de Jonas, nós que, tantas vezes, tentamos resistir à lógica de Deus, e aplicar os nossos próprios critérios na relação com os outros e em diversas situações. Tanto trabalho por causa d´Ele, por causa do Reino, para Lhe ser fiéis, para torná-lo conhecido e amado... No fim, tudo «acaba em glória», também para aqueles que nada fazem por Ele ou até O ofendem! Muitos vivem como lhes apetece, como se Deus não existisse, e Ele, ao mínimo gesto de arrependimento, perdoa a todos! Ma
    s há muitos elementos que nos escapam. Deus, por exemplo, quer ser tratado como Pai, quer que Lhe peçamos perdão e ajuda nos momentos de provação, quer que não nos cansemos de lembrar a todos que é misericordioso e sempre disposto a perdoar. No fundo, compreende a nossa fraqueza e quer ser mais amado do que temido por nós.
    A atitude de Jonas é exactamente o contrário daquilo que pedimos na primeira invocação do "Pai nosso": «Pai, santificado seja o teu nome» (v. 2). Jonas opõe-se a este pedido e não quer que o nome de Deus seja manifestado. O profeta conhece esse nome, mas não quer que outros o conheçam. «Eu sabia que és um Deus misericordioso e clemente, paciente, cheio de bondade e pronto a renunciar aos castigos», diz o profeta (v. 2). Jonas conhecia, da revelação bíblica, o «nome» de Deus, que devia ser manifestado a todos. Mas isso opunha-se aos gostos e à vontade de viver do profeta. Foi enviado a Nínive para anunciar: «Dentro de quarenta dias Nínive será destruída» (v. 4). Agora teima em que a profecia seja realizada. Caso contrário, perde a sua reputação de profeta! Mas a ameaça de Deus era condicionada: «Se não vos converterdes, perecereis». Os habitantes de Nínive converteram-se e Deus está satisfeito por poder manifestar «o seu nome», isto é, o seu amor, a sua ternura, a sua misericórdia. Dá uma lição a Jonas para que compreenda as motivações da compaixão para com aqueles que criou, e a lógica de perdoar, de chamar à vida e não à morte. Quantas vezes, também nós, não aceitamos que Deus se manifeste como mansidão e paciência! Quantas vezes gostaríamos que Deus interviesse com violência, sem esperar que os homens se convertam! Quanto gostaríamos que os criminosos fossem eliminados da sociedade! As nossas reacções espontâneas, muitas vezes, estão realmente em contradição com o primeiro pedido do Pai nosso. Aprendamos a tolerância e a paciência de Deus. Sem elas, nem nós mesmos poderíamos ter esperança de salvação.

    Oratio

    Senhor, que és lento para a ira e cheio de misericórdia, dá-me um coração semelhante ao teu, para que saiba reagir e actuar à semelhança do teu Filho Jesus, sempre manso e humilde na relação com todos, também com os pecadores.
    Também eu caio muitas vezes no erro de julgar com rigor e sem compaixão os meus irmãos, particularmente aqueles que perturbam gravemente a minha vida e a vida da sociedade e da Igreja, de que faço parte. Como os teus discípulos, também eu gostaria de ver cair sobre eles os fogo do céu... Infunde em mim o teu Espírito Santo. Faz-me tolerante, compreensivo e misericordioso, como Tu o fostes para com os ninivitas, como o teu Filho o foi para com os pecadores, entre os quais, com humildade e verdade, me quero colocar. Amen.

    Contemplatio

    Jesus e a generosidade do seu Coração. - Como Jesus é doce e bom nesta circunstância! Não recusa o beijo sacrílego, que profana o seu rosto divino. Diz a Judas com uma emoção profunda e uma dor celeste: «Meu amigo, a que vens?» Que crime abominável vens cometer! «Judas, tu trais o Filho do homem com um beijo!» Cada uma destas palavras devia retinir como um raio no coração de Judas. Que contraste! De um lado, toda a paciência e a bondade de um Deus; do outro, toda a dureza do coração de um traidor e de um sacrílego. A tropa ignóbil que seguia Judas hesita por um momento. Mas Jesus avança para ela: «Quem procurais, diz. - Jesus de Nazaré? - Sou Eu». Caem como que atingidos por um raio. Jesus diz-lhes para se levantarem. «Prendei-me, diz-lhes, mas deixai ir os meus discípulos». É sempre a bondade do seu Coração que se manifesta. Salva os seus apóstolos, que destina a fundar a Igreja. Tinha dito na sua oração ao Pai: «Daqueles que me destes, não perdi nenhum, excepto o filho da perdição». Simão Pedro fere um servo do sumo sacerdote. Jesus detém esta luta e cura o ferido. «Não é preciso, diz a S. Pedro, que a vontade de meu Pai se execute, e que eu beba o cálice que meu Pai me dá? Se pedisse a meu Pai para escapar a esta violência, não credes que em vez de doze apóstolos fracos e medrosos, me enviaria doze legiões de anjos? Mas como então havia de cumprir-se as Escrituras, que predisseram que assim devia ser?». Jesus quer cumprir tudo, tudo o que importa à nossa salvação. Quer e deseja-o vivamente, tem pressa de lá chegar. Assim entrega-se voluntariamente a esta turba que o vem prender. Ó maravilha incompreensível da bondade divina! O Coração de Jesus é todo amor. (Leão Dehon, OSP 3, p. 280).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Pai, santificado seja o teu nome»» (Lc 11, 2)

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Quinta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Quinta-feira

    12 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Malaquias 3, 13-20a

    Tendes pronunciado palavras ofensivas contra mim - diz o Senhor. E, contudo, perguntais: 'Que temos nós dito contra ti?' 14E ainda vos interrogais: 'De que vale servir a Deus? Que lucrámos em ter observado os seus preceitos e em ter andado de luto diante do Senhor do universo? 15E agora temos de chamar ditosos aos arrogantes, pois eles fazem o mal e prosperam; põem Deus à prova e ficam impunes'. 16Assim falavam uns com os outros, aqueles que temem o Senhor. Mas o Senhor ouviu atento. Na sua presença foi escrito um livro de memórias: 'Dos que temem o Senhor e prezam o seu nome.' 17Eles serão meus, no dia em que Eu agir - diz o Senhor do universo. Terei compaixão deles, como um pai se compadece do filho que o serve. 18Então vereis de novo a diferença entre o justo e o ímpio, entre quem serve a Deus e quem não o serve. 19Pois, eis que vem um dia abrasador como uma fornalha. Todos os soberbos e todos os que cometem a iniquidade serão como a palha; este dia que vai chegar queimá-los-á - diz o Senhor do universo - e nada ficará deles: nem raiz, nem ramos. 20Mas, para vós que respeitais o meu nome, brilhará o sol de justiça, trazendo a cura nos seus raios.

    É com esta disputa, entre Deus e o seu povo, que termina o livro de Malaquias, nome que significa «o meu mensageiro». O povo, com presunção e arrogância, acusa o Senhor, perguntando: «Que temos nós dito contra ti?» (v. 13). E Deus riposta: «E ainda vos interrogais: 'De que vale servir a Deus? Que lucrámos em ter observado os seus preceitos e em ter andado de luto diante do Senhor do universo?» (v. 14). É a eterna interrogação do homem sobre as razões das dificuldades dos justos e sobre as razões da prosperidade daqueles que vivem sem grandes preocupações morais. Deus responde que o nome dos justos está escrito no livro da vida, que eles são "propriedade" sua, sua herança. Sobre eles recairão, como orvalho matutino, as complacências divinas. Quando? Não certamente no momento em que as esperamos, mas «no dia em que Eu agir» (v. 17). No dia do Senhor, há-de manifestar-se a Sua justiça, no meio de todas as injustiças humanas. Será um dia tétrico, aterrador, um dia de purificação. O próprio Deus virá como fogo «abrasador como uma fornalha» (v. 19). «Os soberbos e todos os que cometem a iniquidade serão como a palha» (v. 19). Estas expressões não hão-de ser entendidas como referências ao inferno. Na altura em que foram escritas ainda não havia ideias sobre a vida além-túmulo. O prémio e o castigo ainda eram vistos numa perspectiva muito terrena. Mas, depois do «dia do Senhor», dia terrível, em que Deus irá agir, outro dia despontará

    Evangelho: Lucas 11, 5-13

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5«Se algum de vós tiver um amigo e for ter com ele a meio da noite e lhe disser: 'Amigo, empresta-me três pães, 6pois um amigo meu chegou agora de viagem e não tenho nada para lhe oferecer', 7e se ele lhe responder lá de dentro: 'Não me incomodes, a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados; não posso levantar-me para tos dar'. 8Eu vos digo: embora não se levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos, levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar.» 9«Digo-vos, pois: Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; 10porque todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra, e ao que bate, abrir-se-á. 11Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? 12Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!»

    Depois de nos transmitir o «Pai nosso», a oração de Jesus, Lucas dá-nos alguns ensinamentos sobre a atitude interior com que havemos de nos dirigir a Deus, que é Pai e amigo do homem. Fá-lo com duas parábolas: a primeira é a do amigo importuno que, no meio da noite, vai pedir pão a outro amigo. A nota principal é a insistência de quem sabe bater ao coração (mais do que à porta) de um amigo, e a confiança em obter o que pede.
    A segunda parábola usa coloridas imagens (peixe/serpente, ovo/escorpião) para aprofundar o conceito de «pai». O peixe, tal como o pão, é símbolo de Cristo; a serpente evoca o inimigo por excelência do homem (cf. Gn 3). O ovo é símbolo da vida, enquanto o escorpião, que tem veneno na cauda, simboliza a morte.
    Os verbos fortemente correlativos entre eles (pedir/obter, procurar/achar, bater/abrir) ensinam-nos que a oração nunca é perda de tempo, ou desafio a um deus longínquo e surdo. A oração tem sempre resposta positiva. Mas precisa de ser perseverante (cf. Lc 18, 1).
    A interrogação de Jesus, depois da segunda parábola, interpela fortemente a nossa sensibilidade. Sabemos que, por natureza, não somos bons. Mas o instinto paterno é tão forte que leva a corresponder positivamente aos pedidos dos filhos, dando-lhes o que é bom. O Espírito Santo é o Dom por excelência, que jamais será negado a quem O pedir.

    Meditatio

    As leituras de hoje iluminam as dúvidas daqueles que, como os antigos hebreus, continuam a interrogar-se: «'De que vale servir a Deus? Que lucrámos em ter observado os seus preceitos e em ter andado de luto diante do Senhor do universo? 15E agora temos de chamar ditosos aos arrogantes, pois eles fazem o mal e prosperam; põem Deus à prova e ficam impunes'» (vv. 14s.). Que ganhamos em fazer o bem e em rezar? Afinal, parece que nada muda, que tudo continua como antes. Ainda por cima sentimo-nos olhados com ironia por tantos que acham essas actividades pura perda de tempo. O Novo Testamento, mais do que o Antigo, traz-nos respostas a essas dúvidas. Os cristãos sabem que Deus é Pai. Ora um pai, como ensina Jesus no evangelho de hoje, dá bom alimento ao seu filho: «Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? 12Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!» (vv. 11-13). Há, pois, que aproximar-se do nosso Pai do céu com a simplicidade e a insistência das crianças. E tudo alcançaremos d´Ele! A última palavra de Jesus, «quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!», introduz no círculo fechado das nossas preocupações horizontais a linha recta que nos faz erguer o olhar, dá sentido, sustenta a coragem para continuar, ilumina com a própria beleza de Deus a fidelidade de cada dia. Com o Espírito Santo tudo é transformado e torn
    ado possível. É possível convencer-nos de que é bom fazer o bem. É possível ultrapassar o sentido de inutilidade, sabendo que nada se perde. É possível sentir o gosto de invocar a Deus como Pai. É possível enfrentar as provações da vida humana, e da própria vida cristã. É possível não se fixar em resultados imediatos, na aprovação dos outros, mas confiar em Deus que tudo orienta para o bem. É possível orar sem se cansar, porque é assim que o Espírito vem a nós, trazendo o Reino e conduzindo-nos ao Reino.
    Peçamos, pois a Jesus que nos obtenha do Pai o dom do Espírito Santo, e agradeçamos-Lhe por nos ter aberto um horizonte tão luminoso, pois nos ter dado a possibilidade de ir a Deus como a um Pai que nos ama e nos quer dar tudo.

    Oratio

    Vem Espírito Santo! Enche o meu coração de fé e de confiança; mostra-me a verdade, para que não me deixe enganar pelas aparências; abre os meus olhos ao bem que tantos irmãos e irmãs vão fazendo silenciosamente neste mundo, tantas vezes dominado pelo barulho e pela prepotência de uns tantos; faz-me saborear a tua presença e alegrar-me com ela; mantém vivo em mim o desejo da vida eterna, na esperança do dia do Senhor; acende no meu coração o desejo de conhecer, amar e servir o Pai. Amen.

    Contemplatio

    É um laço de amizade e de doce intimidade. É a fonte de toda a alegria pura e verdadeira: Disse-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É a fonte de vida, como a seiva para as árvores e torna-nos fecundos em frutos de salvação. Esta união abre-nos o Coração de Jesus e dispõe-o para nos conceder tudo o que lhe pedirmos: Pedi o que quiserdes e vos será dado. Atrai sobre nós graças de salvação e de bênção sobre os nossos trabalhos. Podemos conceber algo mais desejável do que esta união, do que este amor? Mas Nosso Senhor mesmo deseja dar-nos este amor, tem sede dos nossos corações, bate à nossa porta. Não o façamos esperar. Fez tudo para obter de nós um amor terno e solícito. Poderia encontrar no nosso amor uma compensação pela ingratidão e pela indiferença de muitas almas, disponhamo-nos então para recebermos plenamente o dom do seu amor. (Leão Dehon, OSP 3, p. 590s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Mandai, Senhor, o vosso Espírito» (cf. Sl 104, 30)

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Sexta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Sexta-feira

    13 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Joel 1, 13-15; 2, 1-2

    Cingi-vos, sacerdotes, e chorai. Lamentai-vos, ministros do altar. Vinde, passai a noite vestidos de saco, ministros do meu Deus. Porque, da casa do vosso Deus, desapareceram as ofertas e libações. 14Ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni, anciãos, todos os habitantes do país na casa do Senhor, vosso Deus, e clamai ao Senhor. 15Ai que Dia! Pois o Dia do Senhor está próximo. E virá como a devastação da parte do devastador. 1Tocai a trombeta em Sião, elevai um clamor sobre o meu monte santo! Estremeçam todos os habitantes da terra porque se aproxima o Dia do Senhor! Ele está próximo! 2Dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e sombras. Como a luz da aurora sobre os montes, assim se difunde um povo numeroso e forte, como nunca houve semelhante desde o princípio nem depois haverá outro, no decorrer dos séculos!

    Sabemos muito pouco de Joel. O seu ministério pode situar-se entre 400 e 350 a. C. Trata-se de um sacerdote-profeta cultual que não entra em debates, nem religiosos nem políticos, que não sente necessidade de repreender, nem as autoridades nem o povo, pelas suas infidelidades a Deus. É um profeta que não grita nem ameaça. É um homem fiel ao serviço da casa de Deus, que exorta o povo à oração e à penitência. É o homem que intuiu os «últimos dias» caracterizados pela «efusão do espírito sobre toda a carne» e que mereceu o título de «profeta do Pentecostes».
    Uma invasão de gafanhotos devastou o país, semeando destruição e morte. Os agricultores, que perderam os frutos do seu trabalho, andam acabrunhados. Mas o mesmo se passa com os sacerdotes «porque, da casa do vosso Deus, desapareceram as ofertas e libações» (v. 13). Vive-se um luto nacional! É preciso preparar uma liturgia penitencial, até porque a calamidade é vista como um aviso sobre a proximidade do «dia do Senhor», «dia de trevas e escuridão» (2, 2ª), que envolverá a própria natureza. A nuvem de gafanhotos, que encobria o sol, prefigurava esse dia espantoso, «como nunca houve semelhante desde o princípio nem depois haverá outro, no decorrer dos séculos» (2, 2b). A fúria devastadora do flagelo convida à reflexão, à oração, à conversão e à penitência. E Joel sabe aproveitar um fenómeno frequente na antiga Palestina para exercer o seu ministério.

    Evangelho: Lucas 11, 15-26

    Naquele tempo, Jesus expulsou um demónio, 15mas alguns dentre eles disseram: «É por Belzebu, chefe dos demónios, que Ele expulsa os demónios.» 16Outros, para o experimentarem, reclamavam um sinal do Céu. 17Mas Jesus, que conhecia os seus pensamentos, disse-lhes:«Todo o reino, dividido contra si mesmo, será devastado e cairá casa sobre casa.
    18Se Satanás também está dividido contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que é por Belzebu que Eu expulso os demónios. 19Se é por Belzebu que Eu expulso os demónios, por quem os expulsam os vossos discípulos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. 20Mas se Eu expulso os demónios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou até vós. 21Quando um homem forte e bem armado guarda a sua casa, os seus bens estão em segurança; 22mas se aparece um mais forte e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos. 23Quem não está comigo está contra mim, e quem não junta comigo, dispersa.» 24«Quando um espírito maligno sai de um homem, vagueia por lugares áridos em busca de repouso; e, não o encontrando, diz: 'Vou voltar para minha casa, de onde saí.' 25Ao chegar, encontra-a varrida e arrumada. 26Vai, então, e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele; e, entrando, instalam-se ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro.»

    Neste texto, Lucas faz-nos entrar no mistério do encarniçamento da luta contra Jesus, não só por parte dos seus inimigos, mas também por parte de Satanás, o Adversário por excelência, aqui chamado Belzebu, termo de origem sírio-fenícia (de Beelzebul: "senhor do monte", ou de Beelzebub: "rei das moscas"). Jesus expulsou um demónio. Os inimigos insinuam que o prodígio foi operado pelo poder do próprio chefe dos demónios. Alguém até exige um milagre como «sinal do Céu» (v. 16) para confirmar o seu ser de Deus. É a habitual prova-tentação em que os inimigos de Jesus queriam também envolvê-l´O, mas que é contrária a um verdadeiro caminho fé.
    Mas Jesus, «que conhecia os seus pensamentos» (v. 17), desarma-os com uma lógica inequívoca: como pode Satanás dar-lhe poder de combater os seus subalternos? Seria como se quisesse o desmoronamento do seu reino. Mais ainda: se a acusação contra Jesus fosse verdadeira, também poria em causa os exorcistas hebreus, - ironiza Jesus. Mas o centro da questão é colocado por Jesus a outro nível: se Ele expulsa demónios com o poder de Deus ("mão" indica poder: cf. Sl 8, 13) quer dizer que a sua presença equivale à presença do Reino no meio deles (cf. 11, 17-26).
    Segue a parábola do homem forte e do «mais forte» que evidencia a vitória de Cristo sobre Satanás. Em relação a Jesus, não há espaço para neutralidade. Ou se está com Ele e se recolhe para a vida que dura, ou se está contra Ele e se perde todo o verdadeiro bem. Note-se também o apelo à vigilância. Satanás não descansa, nem se dá por vencido. Onde vê a casa «varrida e arrumada» (v. 24), isto é, a pessoa decidida a seguir a Cristo, lança um ataque totalitário (expresso pelo número 7: v. 26) porque, por inveja (cf. Sab 2, 24), anseia pela ruína do homem.

    Meditatio

    O evangelho de hoje leva-nos a meditar sobre o mistério da luta de Jesus contra o Demónio. Os Padres do Deserto davam grande importância a essa luta, que se prolonga na vida dos cristãos. Apesar do cepticismo difuso na nossa sociedade, que se considera evoluída, o Demónio continua presente e actuante no mundo, muito mais do que se possa pensar. A sua força, assenta na estratégia de se fazer esquecer e em aparecer sob formas mais sedutoras e tranquilizantes. Conhecendo bem as suas presas, lança os seus ataques a partir das realidades a que são mais sensíveis. Ceder é abrir brechas a partir das quais se tornam mais fáceis os seus assaltos. Por isso, há que combatê-lo corajosamente, usando as armas da oração, da memória perene da Palavra do Senhor e das suas Promessas, da penitência, com uma grande humildade, que leva a pôr toda a confiança na Graça e a permanecer vigilantes para não sermos surpreendidos. Somos chamados a combater um adversário mais poderoso do que nós, mas com uma arma de que só nós podemos dispor, o Espírito Santo. Com o
    Espírito do Senhor seremos sempre mais fortes do que Belzebu, que, diante de nós, não passará de "um pobre diabo", acabando por ser vencido.
    Pelo seu Espírito, Jesus Cristo une-nos ao seu combate, para cooperarmos com sucesso na luta contra o mal quer serpeia pelo mundo, e participarmos na vitória, por mais demorada que seja.
    A presença do Demónio leva-nos a meditar sobre a dramaticidade da existência cristã, sobre o poder do mal, sobre a vitória de Cristo, sobre a necessidade de estarmos do Seu lado e cerrarmos fileiras, pois o combate espiritual é parte essencial do itinerário do discípulo de Cristo.
    Que Cristo se torne o dono da nossa casa, e nós deixemos cair os nossos pensamentos, as nossas preferências, os nossos caprichos, para acolhermos sempre os seus desejos.

    Oratio

    Senhor Jesus Cristo, que combateste com decisão e persistência o espírito do mal, tem compaixão de mim, teu discípulo fraco, tantas vezes assustado e medroso. Sabes quão frequentes e fortes são os assaltos do maligno! Está comigo, eu to suplico, na hora da tentação. Infunde em mim o teu Espírito Santo, que me fortaleça e ilumine, que me ajude a discernir o bem do mal, nas ambiguidades e incertezas da vida. Em todas as circunstâncias, particularmente nas horas de sofrimento e de luta, quero invocar o teu nome. Contigo a meu lado, ninguém poderá atingir-me. Invocando o teu nome, a vitória será certa. Amen.

    Contemplatio

    Toda a vida de Nosso Senhor foi um combate contra Satanás, cujo império vinha destruir; mas o Evangelho assinala-nos duas circunstâncias principais desta luta, no começo e no fim do seu ministério público. Na primeira destas lutas, Satanás procurou seduzi-lo pela atracção da tríplice concupiscência, pelas seduções da sensualidade, da vanglória e da ambição. Na segunda, procurou abatê-lo com o medo e os terrores da morte. Foi da queda de Adão, seduzido pelo demónio, que saíram o mal e o pecado; era da vitória de Nosso Senhor que deviam sair a reparação e a salvação. Ele quis particularmente, na sua tentação do Jordão, ensinar-nos a arte dos combates espirituais e merecer-nos a vitória. Quis mostrar-nos o segredo da força, que é o amor. Vede em que condições avança para enfrentar as tentações: Cheio de Espírito Santo (S. Lucas); conduzido pelo Espírito (S. Marcos). O seu Coração está cheio do amor do seu Pai, esta é a sua força. Notai as suas respostas ao demónio, são todas tiradas da Escritura, porque Ele se alimenta da palavra do seu Pai bem amado e nada mais procura do que a sua vontade. Satanás propõe-lhe mudar as pedras em pão para matar a sua fome; mas Ele tinha empreendido este jejum para fazer a vontade do seu Pai e levá-lo-á até ao fim sem nada alterar. Reserva-se fazer milagres para manifestar aos homens a sua missão divina e não para a sua própria utilidade. O demónio propõe-lhe em seguida de se atirar do alto do templo contando no socorro divino, mas Ele responde que nós não devemos tentar a Deus e colocar a sua omnipotência ao serviço da nossa própria vontade. Satanás propõe-lhe, finalmente, dar-lhe todos os reinos do mundo se quiser adorá-lo; mas Jesus responde-lhe que só tem uma lei e um cuidado, que é de adorar o seu Pai. O amor do seu Pai é a sua luz e a sua força. (Leão Dehon, OSP 3, p.216s.)

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «O Reino de Deus está no meio de nós» (cfr. Lc 11, 20).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Sábado

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVII Semana - Sábado

    14 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Joel 4, 12-21

    Nações, levantai-vos e vinde ao Vale de Josafat; aí me sentarei para julgar as nações vindas de toda a parte. 13Metei a foice porque a messe está madura, vinde pisar porque o lagar está cheio, as cubas transbordam porque a malícia deles é muito grande. 14Multidões e multidões, no Vale do Julgamento, porque o Dia do Senhor está perto, no Vale do Julgamento. 15O Sol e a Lua obscurecem-se, as estrelas perdem o seu brilho.» 16«O Senhor rugirá de Sião! Trovejará de Jerusalém! Então os céus e a terra serão abalados. Mas para o seu povo, o Senhor será um refúgio, uma fortaleza para os filhos de Israel! 17Sabereis então que Eu sou o Senhor, vosso Deus, que habito em Sião, minha montanha santa. Jerusalém será um lugar sagrado, onde os estrangeiros não tornarão mais a passar. 18Acontecerá naquele dia que os montes destilarão vinho novo, o leite manará das colinas, as águas jorrarão em todas as ribeiras de Judá. Uma fonte sairá do templo do Senhor para irrigar o Vale das Acácias. 19O Egipto será a desolação e Edom será um deserto desolado pois trataram com crueldade os filhos de Judá e derramaram, no seu país, o sangue inocente. 20Mas Judá será habitada para sempre e Jerusalém, de geração em geração. 21Eu vingarei o seu sangue, não os deixarei impunes. E o Senhor habitará em Sião.»

    Dos capítulos 3 e 4 do livro de Joel, nitidamente escatológicos e apocalípticos, apenas este texto foi conservado na liturgia. Apresenta-nos o «dia do Senhor», o dia do embate final entre o povo de Deus e os pagãos coligados. A descrição é viva e aterradora. Os pagãos são convidados a apresentar-se no vale de Josafat, «no Vale do Julgamento», contíguo à torrente do Cedron e ao antiquíssimo cemitério judeu. Aí serão ceifados como seara madura e exprimidos como uvas no lagar, enquanto o cosmos participa do «rugido» do Senhor, sofrendo enormes convulsões, como é próprio da literatura apocalíptica. Bem diferente será a sorte do povo de Deus, que finalmente experimentará o poder do Senhor, que entregará definitivamente Jerusalém aos seus fiéis e fará justiça contra todas as opressões e abusos sofridos.
    Assim se anuncia o castigo dos maus e a salvação do povo do Senhor: «para o seu povo, o Senhor será um refúgio, uma fortaleza para os filhos de Israel!» (v. 16). Israel e Judá triunfarão definitivamente, e a terra recuperará a fertilidade, a do Paraíso perdido e a do Messias esperado.

    Evangelho: Lucas 11, 27-28

    Naquele tempo, 27Enquanto Jesus falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: «Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!» 28Ele, porém, retorquiu: «Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.»

    Depois do discurso sobre o Demónio, Lucas insere a "bem-aventurança" pronunciada por uma ouvinte desconhecida e que se podia resumir assim: «Bem-aventurada a mãe que tem um filho como Jesus». A ouvinte pensaria certamente na força da sua palavra que introduzia no mistério das realidades espirituais. Mas, para Jesus, "bem-aventurado" é aquele que escuta a palavra de Deus e a põe em prática. O "antes" parece contradizer as palavras da mulher, e relegar Maria para a sombra.
    Mas, se aprofundarmos esta perícopa, lendo-a à luz de outras, damo-nos conta de que é exactamente o contrário. De facto, a Mãe de Jesus, em Lc 1, 42-45, é proclamada "feliz" porque acreditou e obedeceu à Palavra (cf. 1, 38). No Magnificat, a própria Virgem profetiza que todas as gerações a proclamarão "bem-aventurada" por se ter rendido totalmente à Palavra que compromete a sua fé e a sua vida.
    Por outro lado, já noutra ocasião, Jesus aproveitara o facto de sua mãe e os seus parentes terem ido à procura d´Ele para proclamar que sua mãe e seus irmãos são aqueles «que escutam a palavra de Deus e a vivem» (cf. Lc 8, 19-21). Esta é, portanto, a identidade profunda de Maria que também a nós é proposta. Escutar a palavra de Jesus, que é o Verbo, a substancial palavra do Deus vivo, é o segredo para ser bem-aventurado.

    Meditatio

    «Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!» (v. 27b ), gritou uma mulher, do meio da multidão, para Jesus. «Ele, porém, retorquiu: «Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática». (v. 28). À primeira vista, Jesus parece recusar o elogio de sua Mãe. Na verdade, proclama a bem-aventurança que Lhe vem da escuta da Palavra e da sua vida de fé. E isto é muito mais importante que os laços de sangue que Os unem. Para Maria, foi uma enorme alegria ser Mãe do Salvador. Mas a condição de serva, que sabe escutar e guardar a Palavra, provoca n´Ela uma felicidade maior. Para acolher os projectos de Deus, Maria até renunciou duas vezes à maternidade. A primeira, quando do anúncio do Anjo; a segunda, no Calvário, quando aceitou o sacrifício do Filho. Ao pedir-Lhe estes sacrifícios, Deus deu-lhe muito mais: uniu-a a Si, revelou-lhe os seus projectos e fez d´Ela colaboradora desses mesmos projectos, num grau muitíssimo elevado.
    Em todos os chamamentos de Deus há diversos aspectos. Mas é importante apegar-se ao mais autêntico. O mesmo acontece nas diversas situações, em que podemos descobrir vantagens humanas e vantagens espirituais. Corremos o risco de nos apegarmos aos aspectos humanos e de ficarmos em crise quando eles nos faltam. Se, pelo contrário, nos fixarmos no aspecto mais profundo, estamos defendidos de certas crises, porque, se for necessário fazer alguns sacrifícios, sabemos que não se altera a nossa relação com Deus, a nossa vida de intimidade com Ele. Há pessoas que justamente se sentem felizes por viver perto de um determinado santuário, neste ou naquela situação privilegiada, a exercer este ou aquele cargo na Igreja. Mas, mais importante que isso, é a relação que mantêm com Deus. Se assim pensarem e viverem, aceitarão tranquilamente as mudanças que as circunstâncias ou a obediência lhes impuserem. Saberão apegar-se ao essencial, a sua relação com Deus, e não ao secundário, o lugar onde vivem, a situação em que vivem o cargo ou a missão que exercem. A bem-aventurança das "entranhas e do seio" é, sem dúvida grande; mas a "bem-aventurança da fé" é ainda maior: «Bem-aventurados, antes, os que escutam a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 28). É essa bem-aventurança mais preciosa que somos chamados a descobrir em Maria: «Bem-aventurada aquela que acreditou» (Lc 1, 45) e meditou a fundo no mistério do seu filho, Jesus. «Maria... guardava todas estas coisas,
    meditando-as no seu coração» (Lc 2, 19; 2, 51).

    Oratio

    Senhor Jesus, Tu disseste: «Bem-aventurados os que escutam a palavra de Deus e a põem em prática». Bem-aventurados, porque essa Palavra nos revela o teu mistério, o projecto de amor do Pai, a sua vontade, e nos alimenta a alma como alimentou a tua durante a vida terrena que partilhaste connosco. Dá-me a graça de permanecer apegado ao que, na verdade, é essencial, para ser livre de oferecer com alegria ao Pai o sacrifício de tudo quanto me queira pedir. Amen.

    Contemplatio

    Ecce ancilla Domini, regra de vida de Maria. O abandono a Deus e à vontade divina é também a regra de vida de Maria e nós vemo-la na perturbação e na dúvida fixar-se nesta disposição: «Eis a serva do Senhor, que me seja feito como quereis». Estas palavras exprimem o abandono, a docilidade à graça, a conformidade à vontade divina, o sacrifício e a imolação. Com esta resposta, com o seu consentimento, Maria aceitava a dignidade e a honra da maternidade divina, mas ao mesmo tempo também os sofrimentos, os sacrifícios que lhe estavam ligados. Declarava-se pronta a cumprir a vontade de Deus em tudo como sua serva. Era como um voto de vítima e de abandono. Esta disposição é a mais perfeita, é a fonte dos maiores méritos e das melhores graças. Maria proclamou-o mesmo no seu Magnificat: A minha alma louva o Senhor, porque olhou com favor a humildade da sua serva. - Deus encontrou muita alegria nesta disposição de Maria. Ela acrescentava: Todas as gerações me hão-de proclamar bem-aventurada. Durante a sua vida mortal, poucas pessoas a proclamaram bem-aventurada, excepto Isabel e aquela mulher que ergueu a voz no meio do povo, e à qual Jesus respondeu: Bem-aventurados são aqueles que escutam a minha palavra e que a praticam. A felicidade de Maria durante a sua vida mortal era o sacrifício com Jesus, por Jesus e pelas almas. Ela não era, como o seu Filho, senão um objecto de desprezo, de humilhação e de ignomínia da parte dos inimigos de Deus. Para aqueles que estavam bem dispostos, era um objecto de compaixão e de piedade. O ecce Ancilla era a disposição do seu coração em todos os sacrifícios que teve de fazer: quando da Apresentação no Templo, quando ofereceu o seu Filho em sacrifício e escutou a profecia do velho Simeão; na fuga para o Egipto e assim por diante, em todas as ocasiões, até debaixo da cruz do seu Filho moribundo. Do mesmo modo para o resto da sua vida, consentiu em ser a mãe da Igreja nova fundada no sangue do seu Filho. A sua graça e os seus méritos aumentavam sempre pela sua fiel cooperação, pela sua pureza, pelo santo e perfeito amor com o qual cumpria a missão que se tornara a sua. (Leão Dehon, OSP 3, p.328s.)

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    «Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 28).

  • 28º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    28º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    15 de Outubro, 2023

    Ano A
    28º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    Tema do 28º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum utiliza a imagem do "banquete" para descrever esse mundo de felicidade, de amor e de alegria sem fim que Deus quer oferecer a todos os seus filhos.
    Na primeira leitura, Isaías anuncia o "banquete" que um dia Deus, na sua própria casa, vai oferecer a todos os Povos. Acolher o convite de Deus e participar nesse "banquete" é aceitar viver em comunhão com Deus. Dessa comunhão resultará, para o homem, a felicidade total, a vida em abundância.
    O Evangelho sugere que é preciso "agarrar" o convite de Deus. Os interesses e as conquistas deste mundo não podem distrair-nos dos desafios de Deus. A opção que fizemos no dia do nosso baptismo não é "conversa fiada"; mas é um compromisso sério, que deve ser vivido de forma coerente.
    Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos um exemplo concreto de uma comunidade que aceitou o convite do Senhor e vive na dinâmica do Reino: a comunidade cristã de Filipos. É uma comunidade generosa e solidária, verdadeiramente empenhada na vivência do amor e em testemunhar o Evangelho diante de todos os homens. A comunidade de Filipos constitui, verdadeiramente, um exemplo que as comunidades do Reino devem ter presente.

    LEITURA I - Is 25,6-10a

    Leitura do Livro de Isaías

    Sobre este monte,
    o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos
    um banquete de manjares suculentos,
    um banquete de vinhos deliciosos:
    comida de boa gordura, vinhos puríssimos.
    Sobre este monte,
    há-de tirar o véu que cobria todos os povos,
    o pano que envolvia todas as nações;
    destruirá a morte para sempre.
    O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces
    e fará desaparecer da terra inteira
    o opróbrio que pesa sobre o seu povo.
    Porque o Senhor falou.
    Dir-se-á naquele dia:
    «Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação;
    é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança.
    Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou.
    A mão do Senhor pousará sobre este monte».

    AMBIENTE

    É extremamente difícil situar, no tempo e no momento histórico, o texto que a primeira leitura deste domingo nos apresenta.
    Para uns, o oráculo pertence à fase final da vida do profeta Isaías (no final do séc. VIII a.C.) quando, desiludido com a política e com os reis de Judá, o profeta começou a sonhar com um tempo novo de felicidade e de paz sem fim para o Povo de Deus.
    Para outros, contudo, este texto não pertenceria ao primeiro Isaías (o autor dos capítulos 1-39 do Livro de Isaías), apesar de aparecer integrado no seu livro. Seria um texto de uma época posterior ao profeta... A referência à superação da morte, das lágrimas e da vergonha, poderia sugerir que a composição deste texto se situaria num momento histórico posterior ao Exílio na Babilónia, quando Judá já teria reconquistado a liberdade.
    Em qualquer caso, o texto constrói-se à volta da imagem do "banquete". O "banquete" é, no ambiente sócio-cultural do mundo bíblico, o momento da partilha, da comunhão, da constituição de uma comunidade de mesa, do estabelecimento de laços familiares entre os convivas.
    Para além de acontecimento social, o "banquete" tem também, frequentemente, uma dimensão religiosa. Os "banquetes sagrados" celebram e potenciam a comunhão do crente com Deus, o estabelecimento de laços familiares entre Deus e os fiéis. É por isso que, na perspectiva dos catequistas que redigiram as tradições sobre a Aliança do Sinai, o compromisso entre Jahwéh e Israel tinha de ser selado com uma refeição entre Deus e os representantes do Povo (cf. Ex 24,1-2. 9-11).
    Neste campo são também particularmente significativos os "sacrifícios de comunhão" ("zebâh shelamim") celebrados no Templo de Jerusalém. Neste tipo de celebração religiosa, o crente trazia ao Templo um animal destinado a Deus. Depois de imolado o animal, a sua gordura era queimada sobre o altar, ao passo que a carne era repartida pelo oferente e pelos sacerdotes. O oferente e a sua família deviam comer a sua parte no espaço sagrado do santuário. Dessa forma, sentavam-se à mesa com Deus, celebravam a sua pertença ao círculo familiar de Deus e renovavam com Deus os laços de paz, de harmonia, de comunhão (cfr. Lv 3).
    É este ambiente que o nosso texto supõe.

    MENSAGEM

    O profeta anuncia que Deus, num futuro sem data marcada, vai oferecer "um banquete"; e, para esse "banquete", Jahwéh vai convidar "todos os povos". Trata-se, portanto, de uma iniciativa de Deus no sentido de estabelecer laços "de família" com a humanidade inteira.
    O cenário do "banquete" é "este monte" (vers. 6) - evidentemente, o monte do Templo, em Jerusalém, a "casa de Jahwéh", o lugar onde Deus reside no meio do seu Povo, o lugar onde Israel presta culto a Jahwéh e celebra os sacrifícios de comunhão. Aceitar o convite de Deus para o "banquete" significará, portanto, participar no culto a Jahwéh, ser acolhido na casa de Jahwéh, entrar no "espaço íntimo" e familiar de Deus e sentar-se com Ele à mesa.
    Nesse "banquete" serão servidos "manjares suculentos", "comida de boa gordura", "vinhos deliciosos" e "puríssimos" (vers. 6). As expressões sublinham a abundância de vida - e de vida com qualidade - com que Deus vai cumular os seus convidados.
    Para os que aceitarem o convite para o "banquete", iniciar-se-á uma nova era, de comunhão íntima com Deus e de vida sem fim. O profeta sugere a comunhão total entre Deus e os homens que então se iniciará, com a indicação de que será removido "o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações" (vers. 7) e que impedia o contacto total com o mundo de Deus. Por outro lado, o profeta sugere o início da nova era de paz e de felicidade sem fim, dizendo que Deus vai destruir a morte para sempre, vai enxugar "as lágrimas de todas as faces" e vai eliminar "o opróbrio que pesa sobre o seu Povo" (vers.8).
    O "banquete" termina com um cântico de acção de graças que evoca, provavelmente, uma fórmula usada na aclamação de um novo rei (vers. 9). Significa que, com o "banquete" que o Messias vai oferecer, se iniciará o reinado de Deus sobre toda a terra.
    O profeta está, sem dúvida, a descrever os tempos messiânicos. Na perspectiva do profeta, serão tempos de comunhão total de Deus com o homem e do homem com Deus. Dessa intimidade entre Deus e o homem resultará, para o homem, a felicidade total, a vida verdadeira e plena.
    A p
    artir daqui, a ideia de um "banquete messiânico" tornou-se corrente no judaísmo.

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

    • A imagem do "banquete" para o qual Deus convida "todos os povos" aponta para essa realidade de comunhão, de festa, de amor, de felicidade que Deus, insistentemente nos oferece. Nunca será de mais recordar isto: Deus tem um projecto de vida, que quer oferecer a todos os homens, sem excepção. Não somos "filhos de um deus menor", pobre humanidade abandonada à sua sorte, perdida num universo hostil e condenada ao nada; somos pessoas a quem Deus ama, a quem Ele convida para integrar a sua família e a quem Ele oferece a vida plena e definitiva. A consciência desta realidade deve iluminar a nossa existência e encher de serenidade, de esperança e de confiança a nossa caminhada nesta terra. A nossa finitude, as nossas limitações, os nossos medos e misérias não são a última palavra da nossa existência; mas caminhamos todos ao encontro da festa definitiva que Deus prepara para todos os que aceitam o seu dom.

    • Ao homem basta-lhe aceitar o convite de Deus para ter acesso a essa festa de vida eterna. Aceitar o convite de Deus significa renunciar ao egoísmo, ao orgulho e à auto-suficiência e conduzir a existência de acordo com os valores de Deus; aceitar o convite de Deus implica dar prioridade ao amor, testemunhar os valores do Reino e construir, já aqui, uma nova terra de justiça, de solidariedade, de partilha, de amor. No dia do nosso Baptismo, aceitamos o convite de Deus e comprometemo-nos com Ele... A nossa vida tem sido coerente com essa opção?

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 22 (23)

    Refrão: Habitarei para sempre na casa do Senhor.

    O Senhor é meu pastor: nada me falta.
    Leva-me a descansar em verdes prados,
    conduz-me às águas refrescantes
    e reconforta a minha alma.

    Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome.
    Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
    não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
    o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

    Para mim preparais a mesa,
    à vista dos meus adversários;
    com óleo me perfumais a cabeça,
    e o meu cálice transborda.

    A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
    todos os dias da minha vida,
    e habitarei na casa do Senhor
    para todo o sempre.

    LEITURA II - Filip 4,12-14.19-20

    Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

    Irmãos:
    Sei viver na pobreza e sei viver na abundância.
    Em todo o tempo e em todas as circunstâncias,
    tenho aprendido a ter fartura e a passar fome,
    a viver desafogadamente e a padecer necessidade.
    Tudo posso n'Aquele que me conforta.
    No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição.
    O meu Deus proverá com abundância
    a todas as vossas necessidades,
    Segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus.
    Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Amen.

    AMBIENTE

    Mais uma vez, a segunda leitura oferece-nos um excerto de uma carta de Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos.
    Estamos nos anos 56/57. Paulo está na prisão (em Éfeso?) por causa do Evangelho. Nesse momento difícil da sua vida apostólica, Paulo recebeu ajuda económica e, mais importante do que isso, a presença solidária e o cuidado de Epafrodito, um membro da comunidade, enviado para ajudar Paulo e para lhe manifestar a solicitude dos seus "filhos" de Filipos.
    O nosso texto é tirado do capítulo final da Carta aos Filipenses. Aí, num tom emocionado, Paulo agradece pelos dons recebidos e pela solidariedade que os cristãos de Filipos lhe manifestaram.

    MENSAGEM

    Paulo está manifestamente satisfeito pela ajuda recebida da comunidade cristã de Filipos. A alegria de Paulo resulta, não tanto da resolução das suas próprias necessidades materiais mas, sobretudo, do significado do gesto dos filipenses. O donativo enviado é sinal, não só da amizade que os cristãos da comunidade votam a Paulo, mas também da solidariedade dos filipenses com o anúncio do Evangelho de Jesus: dessa forma, os filipenses manifestaram o seu apoio ao ministério apostólico de Paulo e ao trabalho que o apóstolo desenvolve no sentido de fazer chegar a proposta libertadora de Jesus a todos os homens. E isso, evidentemente, alegra o coração de Paulo.
    Por si, Paulo está acostumado às privações e à frugalidade. A sua vida e a sua missão não dependem de comodidades materiais: ele sabe "viver na pobreza" e sabe "viver na abundância"... Essa "liberdade interior" face aos bens brota de Cristo: é Cristo quem dá forças ao apóstolo para superar as privações, quem o anima nos momentos de dificuldades, quem lhe dá a coragem para enfrentar as necessidades que a vida apostólica impõe.
    De resto, Paulo está certo de que a solidariedade e a solicitude que os membros da comunidade manifestaram beneficiará, em primeiro lugar, os próprios filipenses, pois Deus não deixará de lhes "pagar" generosamente o seu gesto.

    ACTUALIZAÇÃO

    Considerar, na reflexão, as seguintes linhas:

    • Antes de mais, o nosso texto apela a que os cristãos tenham o coração aberto à partilha e ao dom. Ser cristão implica a renúncia a uma vida de egoísmo e de fechamento em si próprio... Implica abrir o coração às necessidades dos irmãos carentes e desfavorecidos e uma partilha efectiva da vida e dos bens. Numa época em que os valores dominantes convidam continuamente ao egoísmo, à auto-suficiência, à preocupação exclusiva com os próprios interesses, o gesto dos filipenses constitui uma poderosa interpelação.

    • Por outro lado, também somos interpelados pelo sentido de despojamento de Paulo... Como Paulo, o apóstolo de Jesus deve saber "viver na pobreza" e deve saber "viver na abundância"; mas nunca pode colocar as comodidades materiais como prioridade ou como condição essencial para se empenhar na missão. O apóstolo de Jesus tem como prioridade o anúncio do Evangelho, em quaisquer circunstâncias e para além de todos os condicionalismos. Um "apóstolo" que se preocupa, antes de mais, com a sua comodidade ou com o seu bem-estar torna-se escravo das coisas materiais, passa a ser um "funcionário do Reino" com horário limitado e com trabalho limitado e rapidamente perde o sentido da sua entrega e do seu empenhamento.

    • A solicitude dos filipenses por Paulo é sinal da vontade que eles têm de colaborar na expansão do Reino. Todas as comunidades cristãs deviam sentir este apelo a participar - de forma mais directa ou menos directa - no testemunho de Evangelho de Jesus. Levar o Evangelho ao mundo não é uma missão
    que apenas diga respeito a um grupo "especial" dentro da Igreja; mas é uma missão que Jesus confiou a todos os discípulos, sem excepção. Todos os cristãos deviam sentir o imperativo de colaborar, na medida das suas possibilidades, no anúncio do Evangelho.

    • A solicitude dos filipenses por Paulo interpela também as comunidades cristãs acerca da forma como acolhem e tratam aqueles que se entregam a tempo inteiro à causa do Evangelho... A opção que eles fizeram de se entregarem totalmente ao serviço do Reino não os torna menos humanos; eles continuam a ser homens ou mulheres sensíveis às manifestações de afecto, de apreço, de amizade, de solicitude. A comunidade tem o dever de manifestar, em gestos concretos, a sua gratidão pelo trabalho desses irmãos e pelos dons que deles recebe.

    • Paulo refere-se, finalmente, à retribuição que Deus não deixará de dar a todos aqueles que mostram solicitude e amor com os apóstolos e que se empenham no anúncio do Evangelho. No entanto, Paulo está longe de sugerir uma lógica interesseira no nosso relacionamento com Deus... O cristão não age de determinada forma para daí tirar benefícios, mas porque o seu compromisso com Jesus lhe impõe determinado comportamento.

    ALELUIA - cf. Ef 1,17-18

    Aleluia. Aleluia.

    Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
    ilumine os olhos do nosso coração,
    para sabermos a que esperança fomos chamados.

    EVANGELHO - Mt 22,1-14

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    Jesus dirigiu-Se de novo
    aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo
    e, falando em parábolas, disse-lhes:
    «O reino dos Céus pode comparar-se a um rei
    que preparou um banquete nupcial para o seu filho.
    Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,
    mas eles não quiseram vir.
    Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:
    'Dizei aos convidados:
    Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,
    tudo está pronto. Vinde às bodas'.
    Mas eles, sem fazerem caso,
    foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;
    os outros apoderaram-se dos servos,
    trataram-nos mal e mataram-nos.
    O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,
    que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.
    Disse então aos servos:
    'O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.
    Ide às encruzilhadas dos caminhos
    e convidai para as bodas todos os que encontrardes'.
    Então os servos, saindo pelos caminhos,
    reuniram todos os que encontraram, maus e bons.
    E a sala do banquete encheu-se de convidados.
    O rei, quando entrou para ver os convidados,
    viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.
    E disse-lhe:
    'Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?'.
    Mas ele ficou calado.
    O rei disse então aos servos:
    'Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;
    aí haverá choro e ranger de dentes'.
    Na verdade, muitos são os chamados,
    mas poucos os escolhidos».

    AMBIENTE

    Continuamos em Jerusalém, nos dias que antecedem a Páscoa. Os dirigentes religiosos judeus aumentam a pressão sobre Jesus. Instalados nas suas certezas e seguranças, já decidiram que a proposta de Jesus não vem de Deus; por isso, rejeitam de forma absoluta o Reino que ele anuncia.
    O texto que nos é hoje proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projecto que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas, Jesus convida os seus opositores - os líderes religiosos judaicos - a reconhecerem que se fecharam num esquema de auto-suficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos dons de Deus. O nosso texto é a última dessas três parábolas.
    A crítica do texto mostra que Mateus juntou aqui duas parábolas diferentes: a parábola dos convidados para o "banquete" (que é comum a Mateus e Lucas, embora as duas versões apresentem diferenças consideráveis - cf. Mt 22,1-10; Lc 14,15-24) e a parábola do convidado que se apresentou sem o traje adequado (que é exclusiva de Mateus - cf. Mt 22,11-14). Originalmente, as duas parábolas teriam ensinamentos diferentes; mas a temática comum do "banquete" aproximou-as e juntou-as.
    As nossas duas parábolas situam-nos, portanto, no cenário de um "banquete". Já dissemos (a propósito da primeira leitura deste domingo) que o "banquete" era, na cultura semita, o lugar do encontro, da comunhão, do estreitamento de laços familiares entre os convivas. Além disso, o "banquete" era também a cerimónia através da qual se confirmava o "status" das pessoas e o seu lugar dentro da escala social. Quem organizava um "banquete" - por exemplo, por ocasião do casamento de um filho - procurava fazer uma selecção cuidada dos convidados: a presença de gente "desclassificada" faria descer consideravelmente, aos olhos de toda a comunidade, o "status" da família; e, por outro lado, a presença à mesa de pessoas importantes realçava a importância e a honra da família.

    MENSAGEM

    A primeira parábola é a parábola dos convidados para o "banquete" (vers. 1-10). Apresenta-nos um rei que organizou um banquete para celebrar o casamento do seu filho. Convidou várias pessoas, mas os convidados recusaram-se a participar no "banquete", apresentando as desculpas mais inverosímeis. Mateus chega a dizer (um dado que não aparece no relato de Lucas) que teriam até assassinado os emissários do rei... Trata-se de um quadro gravíssimo: recusar o convite era uma ofensa inqualificável; mas, como se isso não bastasse, esses convidados indignos manifestaram um desprezo inconcebível pelo rei, matando os seus servos. O rei enviou então as suas tropas que castigaram os assassinos (vers. 7. Esta referência não aparece no relato de Lucas... É uma provável interpretação da destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos de Tito, no ano 70. Isso significa que a versão que Mateus nos dá da parábola é posterior a essa data).
    O rei resolveu, apesar de tudo, manter a festa e mandou que fossem trazidos para o "banquete" todos aqueles fossem encontrados nas "encruzilhadas dos caminhos". E esses desclassificados, esse "povo da terra", que nunca se tinha sentado à mesa de um personagem importante (com tudo o que isso significava em termos de comunhão e de estabelecimento de laços de família e de amizade), celebrou a festa à mesa do rei.
    O sentido da parábola é óbvio... Deus é o rei que convidou Israel para o "banquete" do encontro, da comunhão, d
    a chegada dos tempos messiânicos (as bodas do "filho"). Os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei recusaram o convite e preferiram continuar agarrados aos seus esquemas, aos seus preconceitos, aos seus sistemas de auto-salvação. Então, Deus convidou para o "banquete" do Messias esses pecadores e desclassificados que, na perspectiva da teologia oficial, estavam arredados da comunhão com Deus e do Reino.
    Esta parábola explicita bem o cenário em que o próprio Jesus se move... Ele aparece, com frequência, a participar em "banquetes" ao lado de gente duvidosa e desclassificada, ao ponto de os seus inimigos o acusarem de "comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de pecadores" (Mt 11,19; Lc 7,34). Porque é que Jesus participa nesses "banquetes", correndo o risco de adquirir uma fama tão desagradável? Porque no Antigo Testamento - como vimos na primeira leitura - os tempos messiânicos são descritos com a imagem de um "banquete" que Deus prepara para todos os povos. Ora, Jesus tem consciência de que, com Ele, esses tempos chegaram; e utiliza o cenário do "banquete" para expressar a realidade do Reino (a mesa da festa, do amor, da comunhão com Deus, para a qual todos os homens e mulheres, sem excepção, são convidados). Para Ele, o sentar-se à mesa com os pecadores é uma forma privilegiada de lhes dizer que Deus os acolhe com amor e que quer estabelecer com eles relações de comunhão e de familiaridade, sem excluir ninguém do seu convívio ou da sua comunidade.
    Os líderes de Israel, no entanto, sempre reprovaram a Jesus esse contacto com os pecadores e os desclassificados... Para eles, os publicanos e as prostitutas, por exemplo, estavam definitivamente arredadas da comunidade da salvação. Sentá-los à mesa do "banquete" do Reino é algo de inaudito e que os líderes de Israel acham absolutamente inapropriado.
    É muito provável que, originalmente, a parábola tivesse servido a Jesus para responder àqueles que o acusavam de ter convidado para o "banquete" do Reino todo o tipo de desclassificados e de pecadores. Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, a questão não é se tal ou tal pessoa tem o direito de se sentar à mesa do Reino; mas a questão essencial é se se aceita ou não se aceita o convite de Deus. Na verdade, os líderes de Israel recusaram o desafio de Deus, enquanto que os pecadores e desclassificados o acolheram de braços abertos.
    Mais tarde, a comunidade cristã irá fazer uma releitura um pouco diferente da parábola e utilizá-la para explicar porque é que os pagãos acolheram melhor do que os judeus a Boa Nova do Reino.
    A segunda parábola é a parábola do convidado que se apresentou na festa sem o traje nupcial (vers. 11-14). O rei que organizou o "banquete" mandou, então, lançá-lo fora da sala onde se realizava a festa.
    A parábola constitui uma advertência àqueles que aceitaram o convite de Deus para a festa do Reino, aderiram à proposta de Jesus e receberam o Baptismo. Mateus escreve no final do século I (anos 80), quando os cristãos já tinham esquecido o entusiasmo inicial e viviam instalados numa fé pouco exigente. Consideravam que já tinham feito uma opção definitiva e que já tinham assegurado a salvação. Mateus diz-lhes: cuidado, porque não chega entrar na sala do "banquete"; é preciso, além disso, vestir um estilo de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus. Quem foi baptizado e aderiu ao "banquete" do Reino, mas recusou o traje do amor, da partilha, do serviço, da misericórdia, do dom da vida e continua vestido de egoísmo, de arrogância, de orgulho, de injustiça, não pode participar na festa do encontro e da comunhão com Deus. Deus chamou todos os homens e mulheres para participarem no "banquete"; mas só serão admitidos aqueles que responderem ao convite e mudarem completamente a sua vida.

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão, considerar as seguintes questões:

    • No nosso texto, a questão decisiva não é se Deus convida ou se não convida; mas é se se aceita ou se não se aceita o convite de Deus para o "banquete" do Reino. Os convidados que não aceitaram o convite representam aqueles que estão demasiado preocupados a dirigir uma empresa de sucesso, ou a escalar a vida a pulso, ou a conquistar os seus cinco minutos de fama, ou a impor aos outros os seus próprios esquemas e projectos, ou a explorar o bem estar que o dinheiro lhes conquistou e não têm tempo para os desafios de Deus. Vivemos obcecados com o imediato, o politicamente correcto, o palpável, o material, e prescindimos dos valores eternos, duradouros, exigentes, que exigem o dom da própria vida. A questão é: onde é que está a verdadeira felicidade? Nos valores do Reino, ou nesses valores efémeros que nos absorvem e nos dominam?

    • Os convidados que não aceitaram o convite representam também aqueles que estão instalados na sua auto-suficiência, nas suas certezas, seguranças e preconceitos e não têm o coração aberto e disponível para as propostas de Deus. Trata-se, muitas vezes, de pessoas sérias e boas, que se empenham seriamente na comunidade cristã e que desempenham papéis fundamentais na estruturação dos organismos paroquiais... Mas "nunca se enganam e raramente têm dúvidas"; sabem tudo sobre Deus, já construíram um deus à medida dos seus interesses, desejos e projectos e não se deixam questionar nem interpelar. Os seus corações estão, também, fechados à novidade de Deus.

    • Os convidados que aceitaram o convite representam todos aqueles que, apesar dos seus limites e do seu pecado, têm o coração disponível para Deus e para os desafios que Ele faz. Percebem os limites da sua miséria e finitude e estão permanentemente à espera que Deus lhes ofereça a salvação. São humildes, pobres, simples, confiam em Deus e na salvação que Ele quer oferecer a cada homem e a cada mulher e estão dispostos a acolher os desafios de Deus.

    • A parábola do homem que não vestiu o traje apropriado convida-nos a considerar que a salvação não é uma conquista, feita de uma vez por todas, mas um sim a Deus sempre renovado, e que implica um compromisso real, sério e exigente com os valores de Deus. Implica uma opção coerente, contínua, diária com a opção que eu fiz no Baptismo... Não é um compromisso de "meias tintas", de tentativas falhadas, de "tanto se me dá como se me deu"; mas é um compromisso sério e coerente com essa vida nova que Jesus me apresentou.

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 28º DOMINGO DO TEMPO COMUM
    (adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 28º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
    Procure-se fazer com que a comunhão, hoje, seja ao mesmo tempo mais solene (fazê-la preceder por um tempo de recolhimento e de silêncio...) e mais festiva (procissão com música...). Pode-se solenizar o convite «felizes os convidados para a Ceia do Senhor». É uma bem-aventurança!

    3. PALAVRA DE VIDA.
    Jesus compara Deus seu Pai a um rei que celebra as bodas do seu filho: nada é mais belo para a festa, e os convidados são numerosos, mas eles declinam o convite, encontrando desculpas, algumas que vão até a maltratar e a matar os que fazem o convite. O rei poderia resignar-se, mas não: é preciso que a sala do banquete esteja cheia. Tal é a prodigalidade de Deus: parece querer que todos tenham recebido o convite, «os maus e os bons». Que criticar a este rei e a este Deus? De se contentar em convidar com o risco de apanhar com recusas? Deus convida sempre, espera uma resposta: «felizes os convidados para a Ceia do Senhor».

    4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
    Introduzir melhor o rito penitencial. «Reconheçamos que somos pecadores», que introduz frequentemente o rito penitencial, corre o risco de lhe dar uma tonalidade culpabilizante. E o «Senhor, tende piedade» pode acentuar ainda mais esta impressão... Mas esta oração quer, logo no início da celebração, renovar a nossa confiança em Deus que nos ama, apesar das nossas fraquezas. Pode-se tomar hoje a fórmula 3 do missal, com a seguinte introdução: «Reconheçamos juntos que Deus nos ama, pois o seu Filho está presente no meio de nós e diz-nos, cada domingo, que temos valor aos olhos de seu Pai: invoquemo-l'O com toda a confiança». Depois de cada intenção do missal, a assembleia repete: «Bendito sejais, Senhor, mudai os nossos corações».

    5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE...
    Repetir um versículo do Salmo 22. Empenhar-se em repetir regularmente, nesta semana, como uma «oração do coro» (repetindo-a frequentemente), esta oração de confiança do Salmo 22: «A bondade e a graça hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida». Mostrar-se feliz, e dar graças a Deus pela sua presença ao nosso lado, no quotidiano das nossas vidas.

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

    S. Teresa de Jesus, Virgem e Doutora da Igreja

    S. Teresa de Jesus, Virgem e Doutora da Igreja


    15 de Outubro, 2023

    Santa Teresa de Jesus nasceu em Ávila, Espanha, no ano de 1515. Entrou no Carmelo da Incarnação em 1535. Depois de um longo período de tibieza, começou a sua "conversão", com uma intensa vida mística em contato com Cristo, que a levou ao forte desejo de servir a Igreja do seu tempo, dilacerada pela Reforma protestante. Em 1562, fundou o Carmelo de S. José, em Ávila, onde deu início à reforma da Ordem. Seguiram-se diversas fundações de conventos reformados em Castela e na Andaluzia. A reforma estendeu-se também aos conventos carmelitas masculinos, graças à colaboração de S. João da Cruz, seu diretor espiritual, a partir de 1567. No leito de morte declarou-se feliz por morrer "filha da Igreja". Faleceu a 4 de Outubro de 1582. Foi canonizada por Gregório XV, em 1623, e declarada Doutora da Igreja por Paulo VI, em 1970.

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 8, 22-27

    Irmãos: Nós sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente.23Não só ela. Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo. 24De facto, foi na esperança que fomos salvos. Ora uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver? 25Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar. 26É assim que também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27E aquele que examina os corações conhece as intenções do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos.

    O capítulo 8 da carta aos Romanos foi chamado o capítulo dos contemplativos. Por isso, é muito adequado para iluminar a figura de Teresa de Jesus. Este texto permite-nos verificar a ligação entre a mensagem teresiana e a experiência da oração interior no Espírito Santo. O Espírito Santo é, efetivamente, como que o motor da esperança de toda a criação no coração dos filhos de Deus. De fato, é na vida cristã que se experimenta a salvação alcançada e a esperança da redenção final no corpo e no cosmos. Do Espírito Santo, intérprete dos nossos desejos e necessidades, brota a oração e a intercessão mais profunda. A oração é um dom da amizade divina, que supõe a presença dos Espírito Santo, que nos impele a rezar e a interceder pela salvação de todos e, sobretudo, solicita a empreender um caminho de perfeição e a passar o limiar das diversas moradas do castelo interior, até à fonte viva da vida divina.

    Evangelho: da féria ou do Comum

    Meditatio

    Teresa de Jesus deixou-nos um precioso testemunho da sua caminhada de fé no livro da sua Vida, onde revela uma infância religiosamente precoce, uma juventude vivida na crise, uma recuperação vocacional aos vinte anos, seguida ainda por uma experiência de vida religiosa com altos e baixos, até à "conversão" definitiva, quando já se aproximava dos quarenta anos. É a lenta caminhada de uma história de salvação que, desde os limites do pecado, se desenvolve numa conversão sincera e total, com uma determinada determinação, com uma opção total e definitiva pelo Senhor, que dá azo a uma experiência mística em que Deus opera maravilhas. A vida de Teresa testemunha o processo de transformação da sua pessoa, o desejo de salvação, a efetiva mudança de vida, a graça do Espírito Santo que a penetra e conduz a uma intensa experiência de fé cristã. Nela notamos a graça mística como iluminação interior e como experiência de salvação e de transformação, a presença de Deus, a força da Palavra e dos Sacramentos, a revelação de Cristo Ressuscitado, na sua santa humanidade, a efusão do Espírito Santo e dos seus dons. A experiência da inabitação trinitária, da comunhão total com Cristo esposo, orientada para o serviço da Igreja, meta ideal da santidade cristã, coroou a sua caminhada. Foi um itinerário em que a oração interior, divina amizade com Deus, foi a chave de compreensão. Tudo desembocou na mística do serviço, numa forte unidade de vida vivida e ensinada pela santa, num grande amor pela Igreja, demonstrado concretamente na promoção da santidade da vida e no serviço da vida contemplativa para renovação da Igreja.

    Oratio

    Santa esposa do Salvador, ensinai-nos a contemplar convosco o Lado ferido do Salvador, que nos deixa ver o seu Coração e que nos revela o seu amor. Convosco, encontrarei nessa chaga sagrada um ninho e um refúgio, e uma porta para entrar na arca no tempo das tentações e sobretudo na hora da minha morte. Ámen. (Leão Dehon, OSP 4, p. 359).

    Contemplatio

    Santa Teresa tem o seu lugar entre as almas que, antes das revelações do séc. XVII, fixaram os seus olhares no Coração de Jesus. Ela escrevia ao bispo de Osma, que lhe pedia um método de oração: «Colocareis diante dos vossos olhos, os do corpo e os da alma, a imagem de Jesus crucificado que haveis de considerar atentamente e em pormenor, com todo o recolhimento e amor de que fordes capaz... A chaga do seu lado, pela qual vos deixará ver o seu Coração a descoberto, revelar-vos-á o indizível amor que nos marcou, quando quis que esta chaga sagrada fosse o nosso ninho e o nosso asilo, e que nos servisse de porta para entrarmos na arca no tempo das tentações». Ela tinha recebido esta orientação dos Padres da Igreja e dos santos dos séculos XII e XIII. Uma das suas práticas mais caras era a de se transportar em espírito, à noite, ao tomar o seu repouso, ao jardim da agonia. Meditava sobre as angústias do Salvador, compadecia, unia-se a ele. Não era isto a Hora santa?E o seu coração trespassado pelo dardo inflamado do Serafim, que lhe causava um tão suave martírio, não a fazia pensar sem cessar na chaga de amor do seu Jesus crucificado? (Leão Dehon, OSP 4, p. 358s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "A oração e a vida não consistem em muito sofrer,
    mas em muito amar" (S. Teresa de Jesus).

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    S. Teresa de Jesus, Virgem e Doutora da Igreja (15 Outubro)

  • S. Margarida Maria Alacoque, Virgem

    S. Margarida Maria Alacoque, Virgem


    16 de Outubro, 2023

    Santa Margaria Maria Alacoque nasceu em Autún, França, no ano de 1647. Entrou no mosteiro da Visitação, em Paray-le-Monial, quando tinha 27 anos de idade. Na capela desse mosteiro teve revelações do Sagrado Coração de Jesus, recebendo a missão de divulgar a devoção ao mesmo Sagrado Coração, com o apoio e a ajuda de S. Cláudio de La Colombière. Faleceu em 1690, sendo canonizada por Bento XV, em 1920. S. Margarida Maria é um dos padroeiros da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, Dehonianos.

    Lectio

    Primeira leitura: Efésios 3, 14-19

    Irmãos: Eu eu dobro os joelhos diante do Pai, 15do qual recebe o nome toda a família, nos céus e na terra: 16que Ele vos conceda, de acordo com a riqueza da sua glória, que sejais cheios de força, pelo seu Espírito, para que se robusteça em vós o homem interior; 17que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações; que estejais enraizados e alicerçados no amor, 18para terdes a capacidade de apreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade... 19a capacidade de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, para que sejais repletos, até receberdes toda a plenitude de Deus.

    Paulo, prisioneiro de Cristo, reafirmara a transcendência e a gratuidade do seu ministério: "A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo" (v. 8). Essa gratuidade é visível, não só na sua tardia integração na Igreja, mas sobretudo no fato de este "mistério estar escondido desde séculos em Deus, o criador de todas as coisas" (Ef 3, 9). É algo de transcendente, cuja realidade não se pode verificar apenas através de uma simples investigação racional ou científica, pois se trata de amor por parte de Cristo, um amor gratuito, um amor "ultrapassa todo o conhecimento" (v. 19). A meta de tudo isto é que os cristãos fiquem "repletos, até receberdes toda a plenitude de Deus" (v. 19). Margarida Maria fez experiência desse amor de Cristo, ao contemplar o seu Coração trespassado. E tornou-se apóstola desse amor.

    Evangelho: da féria ou do Comum

    Meditatio

    Santa Margarida Maria escreve no caderno de um dos seus retiros: «Em tudo o que fizer, entrarei no Sagrado Coração de Jesus para aí colher as suas intenções, me unir a ele e pedir a sua ajuda. Depois de cada ação, oferecê-la-ei a este divino Coração para reparar tudo o que aí encontrar de defeituoso, sobretudo nas minhas orações. Quando cometer faltas, depois de as ter punido em mim pela penitência, oferecerei ao Pai Eterno uma das virtudes deste divino Coração para pagar o ultraje que lhe tiver feito. À noite, colocarei neste Coração adorável tudo o que tiver feito durante o dia, a fim de que purifique o que houver de impuro e de imperfeito nas minhas ações, para as tornar dignas de lhe serem apropriadas e de as introduzir no seu divino Coração, deixando-lhe o cuidado de dispor de tudo segundo o seu desejo, não me reservando senão o de o amar e de o contentar». Eis o programa de uma união completa e de toda a jornada. As ações são oferecidas ao Coração de Jesus como tantos atos de amor e de reparação. São-lhe ainda apresentadas depois da sua realização para que as purifique.
    Num outro retiro, escrevia esta resolução: «Esforçar-me-ei, Senhor, por vos submeter tudo o que está em mim, e de fazer o que julgar mais perfeito, mais glorioso para o vosso Sagrado Coração ao qual prometo nada poupar de tudo o que estiver no meu poder, e de nada recusar fazer ou sofrer para o dar a conhecer, amar e glorificar».
    Aliás, sobre o desejo expresso pelo próprio Nosso Senhor, ela já tinha feito, em favor do Sagrado Coração, um testamento ou doação total, sem reserva, e isto por escrito, assinado com o seu sangue, de tudo o que ela pudesse fazer ou sofrer, doação à qual Nosso Senhor respondeu com o dom do seu próprio Coração, expresso por estas palavras: «Constituo-te herdeira do meu Coração e de todos os seus tesouros, para o tempo e para a eternidade, permitindo-te usar deles segundo os teus desejos». Que doação admirável! Como Nosso Senhor responde generosamente ao que se faz por Ele! É bem o que Ele prometeu em S. João (14, 23): «Se alguém me ama, meu Pai amá-lo-á e eu também o amarei e me manifestarei a ele».
    As palavras de Nosso Senhor a Margarida Maria mostram-nos também como a intercessão desta fiel discípula do Sagrado Coração é poderosa para o tempo e para a eternidade...
    Margarida Maria morreu prematuramente vítima do Sagrado Coração. Era necessário, de facto, que ela deixasse a terra para que se pudesse falar das suas revelações. Nada anunciava a proximidade da sua morte. No entanto, no começo do ano de 1690, ela dizia: «Morrerei seguramente este ano para não impedir os grandes frutos que o meu divino Salvador pretende tirar do livro da devoção ao Sagrado Coração de Jesus». O Padre Croiset estava, de facto, ocupado a compor este livro, do qual não tinha falado a ninguém.
    Três meses antes da sua morte, que ela previa, pediu para fazer um retiro de 40 dias para se preparar. Neste retiro, diante do que ela chamava a imensidão da sua malícia, lançou-se no Sagrado Coração. «Sou insolvente, Senhor, diz nas suas notas, vós o sabeis, colocai-me na prisão, consinto nisso desde que seja no vosso Sagrado Coração; e quando lá estiver, conservai-me lá bem cativa, ligada com as cadeias do vosso amor até que vos tenha pagado tudo o que vos devo; e como nunca o poderei, assim desejaria nunca mais sair desta prisão».
    Caiu doente, como o tinha previsto. Repetia que a sua morte era necessária para a glória do Sagrado Coração, e declarava, para admiração de todos, que estava à porta do túmulo. O Coração de Jesus era como sempre o objeto dos seus pensamentos. Aos cuidados que lhe são propostos, prefere, diz, abismar-se no Coração de Jesus. Depois de três dias de uma doença que ninguém conseguia explicar, deu a sua alma a Deus morrendo de amor, segundo a expressão do médico do mosteiro. (Leão Dehon, OSP 4, p. 367s.).

    Oratio

    Viver e morrer no Coração de Jesus, é todo o meu desejo. Não está aí o paraíso de toda a beleza, de toda a virtude, de toda a bondade? Contemplar os sentimentos do Coração de Jesus, admirá-los e unir-se a eles, essa é a ocupação dos eleitos. Quero que seja a minha desde agora. (Leão Dehon, OSP 4, p. 368).

    Contemplatio

    A devoção ao Sagrado Coração arrasta consigo a devoção ao Santíssimo Sacramento. Pode dizer-se que Margarida Maria vivia do Santíssimo Sacramento. Desde a sua mais tenra infância, uma atração extraordinária a levava para o altar. Quando não estava em casa de seus pais, era seguro poderem encontrá-la diante do Sacrário, que ela olhava com amor, mantendo-se lá sem dizer nada, contente de pensar que Nosso Senhor estava lá. Longe de diminuir com os anos, esta atracão crescia cada vez mais. Ela dizia: «Teria aí passado dias e noites sem beber nem comer, e sem saber o que fazer, senão consumir-me como um círio ardente na sua presença, para lhe dar amor por amor. Teria julgado ser a mais feliz do mundo, se tivesse podido passar as noites, sozinha, diante dele». Depois da sua entrada em religião, Margarida Maria deu livre curso ao seu amor pelo hóspede do Sacrário. Encontravam-na sempre ocupada com este divino objeto, com uma paixão tal, que temiam que esta aplicação lhe prejudicasse a saúde. Ela organizava o seu tempo tanto quanto podia, a fim de ter mais momentos livres para ficar na capela, onde a viam numa adoração profunda, com as mãos juntas, sem fazer nenhum movimento. (Leão Dehon, OSP 4, pp. 364).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Quero viver e morrer no Coração de Jesus" (Leão Dehon).

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    S. Margarida Maria Alacoque, Virgem (16 Outubro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Segunda-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Segunda-feira

    16 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 1, 1-7

    Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus, 2que Ele de antemão prometera por meio dos seus profetas, nas santas Escrituras, 3acerca do seu Filho, nascido da descendência de David segundo a carne, 4constituído Filho de Deus em poder, segundo o Espírito santificador pela ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo Senhor nosso; 5por Ele recebemos a graça de sermos Apóstolos, a fim de, em honra do seu nome, levarmos à obediência da fé todos os gentios, 6entre os quais estais também vós, chamados a ser de Cristo Jesus; 7a todos os amados de Deus que estão em Roma, chamados a ser santos: graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo!

    A Carta aos Romanos, que hoje começamos a escutar, provavelmente escrita no Inverno de 57-58, tem uma importância histórica idêntica ao longo e doloroso processo de desenraizamento que sofreu o próprio Paulo. Para o Apóstolo, não foi fácil mudar de ideias quanto aos privilégios do povo judeu e à centralidade de Jerusalém. A Carta aos Romanos, por sua vez, significa a ruptura definitiva com a ideia de uma aliança entre o Templo de Jerusalém e as simples assembleias eucarísticas, e marca a constituição do novo Povo de Deus, da Igreja verdadeiramente ecuménica. Tanto Pedro, como Paulo, perceberam bem cedo a importância de fazer de Roma, capital do Império, o centro da difusão do Evangelho, inicialmente feita a partir de Jerusalém.
    Paulo apresenta-se dando-nos o sentido e o valor da missão que lhe foi confiada pelo Ressuscitado, com Quem se encontrou no caminho de Damasco. No centro da sua vida e da sua missão, está Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Filho de David e Filho de Deus, ressuscitado mas idêntico ao Jesus de Nazaré. Foi d´Ele que Paulo recebeu a missão de pregar o Evangelho, a "Boa Notícia" que vem de Deus e se refere a Jesus, o Cristo, morto e ressuscitado para salvação de todos. A graça e a paz, que o Apóstolo deseja aos seus leitores resumem esse Evangelho, de quem Paulo se reconhece, com agrado, servo e arauto.

    Evangelho: Lucas 11, 29-32

    Naquele tempo, como as multidões afluíssem em massa à volta de Jesus, Ele começou a dizer:«Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas.
    30Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. 31A rainha do Sul há-de levantar-se, na altura do juízo, contra os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; ora, aqui está quem é maior do que Salomão! 32Os ninivitas hão-de levantar-se, na altura do juízo, contra esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; ora, aqui está quem é maior do que Jonas.»

    Jesus prossegue a viagem para Jerusalém, onde vai consumar o seu mistério pascal. Lucas põe-lhe na boca uma série de ensinamentos, exortações, respostas e repreensões. No texto de hoje, Jesus repreende uma multidão desse povo de cabeça dura, que tem dificuldade em acolher a Palavra de Deus. O povo pede sinais que garantam a autenticidade daquele Messias. Que sinal? Esta multidão é muito semelhante aos ninivitas que não eram capazes de distinguir a mão direita da mão esquerda; é muito semelhante aos pagãos, que há pouco chegaram à fé, e aos quais Lucas se dirige; é muito semelhante a nós, que andamos sempre à busca de coisas extraordinárias e imediatas.
    Jesus responde falando de juízo e de condenação. Mas, ao lembrar a salvação de Jonas, símbolo da sua morte e ressurreição, Jesus acentua a misericórdia salvífica de Deus. Essa misericórdia foi oferecida aos ninivitas em troca da sua conversão, e à rainha do Sul pela busca generosa da sabedoria. Aos Judeus e Gregos é pedido um espírito aberto: «Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 28). Esta bem-aventurança contrasta ainda mais com as palavras de juízo e de condenação. Só é julgado e condenado quem recebeu o tesouro da palavra revelada e, permanecendo escravo de uma falsa fidelidade à Lei, não sabe reconhecer os sinais da presença do Salvador. São também para quem não sabe aceitar a dura linguagem da cruz e não ousa esperar a ressurreição.

    Meditatio

    Começamos hoje a escutar a Carta aos Romanos escrita por Paulo, em Corinto, no Inverno de 57-58, quando se preparava para ir a Jerusalém levar as ofertas recolhidas para os pobres. Por essa mesma altura, o Apóstolo projecta ir a Roma e mesmo à Espanha. Na capital do Império, havia uma comunidade cristã iniciada, não sabemos como nem quando, mas antes da vinda de Pedro e de Paulo. Paulo desejava ardentemente conhecer essa comunidade, a quem se dirige com solenidade na carta que lhe escreve. O muito que tem a dizer parece sair-lhe da pena sob pressão, de modo que não é fácil ler e entender o texto. De qualquer modo, notamos o seu orgulho em ser apóstolo de Jesus Cristo: «Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus» (v. 1). Desde que se encontrou com o Senhor, no caminho de Damasco, Paulo já não pode pensar em si mesmo sem ser em relação com Ele. Sente-se "servo" e "apóstolo" de Cristo Jesus, enviado a pregar o Evangelho. O Apóstolo orgulha-se da sua missão e está impaciente por anunciá-lo no mundo inteiro, para que todos os homens possam chegar à obediência da fé, a reconhecer em Jesus Cristo o Enviado do Pai para nossa salvação.
    O evangelho falo-nos de um outro enviado, Jonas, o pequeno profeta que não queria pregar aos ninivitas, e que não se apercebeu que era tão importante para o Senhor, para aquele Deus que o perseguia de um lado ao outro do mar, e nas próprias profundidades do abismo. E todavia, o caprichoso arauto da conversão dos ninivitas tem a honra de se tornar o "sinal" por excelência oferecido à «geração perversa» (v. 29), que há em todos nós, o sinal do Crucificado-Ressuscitado, descido, em solidariedade para com os pecadores, às profundidades do inferno. Jesus permanece aí para demonstrar até que ponto somos amados. Doravante não há "lugar" que esteja privado da sua presença amorosa, não há solidão que não seja habitada pela sua proximidade. Abrir-nos a esse dom é fonte de felicidade e faz-nos missionários entre os irmãos.
    Tal como aconteceu com Paulo, é impensável que alguém, que tenha encontrado a Cristo, não arda no desejo do O anunciar. E, todavia, dando por adquirida a novidade da vida cristã, é fácil encerrá-la nos nossos pre
    conceitos que nos tornam, como Jonas, juízes de Deus e dos seus desígnios. O Senhor Jesus, misericórdia do Pai, ergue no nosso coração o sinal da sua cruz, para que, vencidos pelo seu amor, nos tornemos seus arautos jubilosos entre os irmãos. Como Paulo, havemos de nos orgulhar da vocação a que fomos chamados.
    A nossa experiência de fé, como dehonianos, é apresentada no n. 9 das Constituições, na sua dimensão carismática, como um "dom" recebido, para anunciar a Cristo, para O testemunhar, num mundo cada vez mais marcado pelo secularismo (cf. Rm 10, 9-11). Somos chamados a proclamar «Cristo Senhor» por meio do Espírito, vivendo a fé na caridade. Assim confessamos, com a nossa vida, que «Deus é amor» (1Jo 4, 16) e que nós «reconhecemos e acreditamos» (1Jo 4, 16; Cst n. 9) nesse amor. Assim nos tornamos «profetas do amor» e servidores da reconciliação» (Cst 7).

    Oratio

    Senhor Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Tu és o centro da minha vida e da minha missão, tal como o fostes para o teu apóstolo Paulo, porque, nascido da descendência de David, fostes constituído Filho de Deus em poder, segundo o Espírito santificador pela ressurreição de entre os mortos. É fundado em Ti que hei-de dar a minha colaboração para que todos cheguem à obediência da fé e experimentem o amor do Pai que nos vem em Ti e por Ti. Obrigado, Senhor, por me teres amado e reconciliado. Obrigado por me teres chamado a anunciar a Boa Notícia aos irmãos. Amen.

    Contemplatio

    (S. Paulo Tinha) um temperamento que era todo fogo; o seu grande zelo tornou-o o perseguidor mais violento do nome de Jesus Cristo. Encoraja os carrascos de Santo Estêvão. Encarrega-se de mandar deter e encarcerar em Jerusalém os cristãos e as cristãs. Aplaude as torturas que se lhes aplicam. Parte depois para Damasco onde vai desempenhar a mesma função, mas aí era já a graça que o esperava. Releiamos o relato tocante desta conversão. Aproximavam-se de Damasco, ele e a sua comitiva. Uma luz, um relâmpago mais brilhante do que o sol os encandeou e os atirou ao chão. Saulo ouviu estas palavras: Saulo, Saulo, porque me persegues? Ele respondeu: Quem sois vós, Senhor? E o Senhor disse-lhe: Eu sou Jesus a quem tu persegues... Saulo disse: Senhor, que quereis que eu faça? Jesus disse-lhe: Levanta-te, entra na cidade, ser-te-á dito o que tens de fazer. Quero estabelecer-te ministro e testemunha daquilo que viste. Enviar-te-ei aos gentios para lhes abrires os olhos, para os converter das trevas à luz. Pela fé, obterão a remissão dos seus pecados e terão parte na herança dos santos. Saulo levantou-se imediatamente, já não via nada, fez-se conduzir a Damasco para aí receber as ordens de Deus. Passou três dias em jejum e em oração. O sacerdote Ananias foi advertido por Deus para ir procurá-lo. Ide ter com ele, dizia-lhe o Senhor, é um homem que escolhi para levar o meu nome diante das nações e dos reis e diante dos filhos de Israel; e hei-de mostrar-lhe quanto tem de sofrer pelo meu nome. Ananias impôs as mãos a Saul que recuperou a vista e ficou cheio do Espírito Santo, depois conferiu-lhe o baptismo. Que belos exemplos! Que simplicidade a de Saulo. Era perseguidor, mas era homem de boa fé. Julgava fazer bem. O Senhor detém-no, ele responde: Senhor, que quereis que eu faça? Eis a regra de toda a conversão e de toda a santidade. Procuremos sempre o que Deus pede de nós. Ora nos fala através de um acontecimento providencial, ora nos conduz por vias ordinárias, pela direcção do sacerdote. É aí que é necessário sempre voltar. S. Paulo pede a Deus o que é necessário fazer, mas Deus envia-o ao sacerdote. Vai à cidade, diz-lhe, ser-te-á dito o que é necessário que faças. Vamos sempre com confiança ao nosso confessor e director, ele tem a graça para nos conduzir. É o instrumento da vontade divina. (Leão Dehon, OSP 3, p. 89s.)

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Por Cristo, recebemos a graça de sermos Apóstolos» (Rm 1, 5)

  • S. Inácio de Antioquia

    S. Inácio de Antioquia


    17 de Outubro, 2023

    S. Inácio sucedeu ao apóstolo S. Pedro no governo da comunidade cristã de Antioquia. Nos inícios do século II, foi conduzido a Roma para ser condenado às feras. Enquanto ia a caminho do martírio, S. Inácio escreveu sete cartas às diversas igrejas do seu tempo. São cartas escritas com sangue, verdadeiros pedaços de vida, com o grito ardente de um místico que anseia pelo martírio. Estas cartas, cuja autenticidade é admitida pela maioria dos estudiosos, com sólidos argumentos, conservam rasgos vivos e luminosos de uma das maiores personalidades dos primeiros séculos da Igreja.

    Lectio

    Primeira leitura: Filipenses 3, 17 - 4, 1

    Irmãos: Sede todos meus imitadores, irmãos, e olhai atentamente para aqueles que procedem conforme o modelo que tendes em nós. 18É que muitos - de quem várias vezes vos falei e agora até falo a chorar - são, no seu procedimento, inimigos da cruz de Cristo: 19o seu fim é a perdição, o seu Deus é o ventre, e gloriam-se da sua vergonha - esses que estão presos às coisas da terra. 20É que, para nós, a cidade a que pertencemos está nos céus, de onde certamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. 21Ele transfigurará o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso, com aquela energia que o torna capaz de a si mesmo sujeitar todas as coisas. 1Portanto, meus caríssimos e saudosos irmãos, minha coroa e alegria, permanecei assim firmes no Senhor, caríssimos.

    Paulo convida os filipenses a imitá-lo, tal como ele imita a Cristo. Jesus, pela sua morte e ressurreição, transfigurou o nosso corpo para o conformar ao seu corpo glorioso (v. 21). A cruz encerra o germe da ressurreição. Quem participa na cruz de Cristo, participa também na sua ressurreição. S. Inácio imitou a Cristo na sua paixão e morte cruenta. Deu o seu testemunho do sangue. Todo o cristão é chamado a idêntico testemunho, se não de modo cruento, pelo menos carregando com alegria e generosidade a cruz de cada dia.

    Evangelho: João 12, 24-26

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto. 25Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna. 26Se alguém me serve, que me siga, e onde Eu estiver, aí estará também o meu servo. Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo.

    Se Jesus Cristo é o grão de trigo que, lançado à terra e morto, produziu muito fruto, o texto que hoje escutamos é uma síntese de todo o evangelho e da vida de Cristo. Inácio, imitador de Cristo, também é esse grão de trigo que, moído pelos dentes das feras, se tornou pão puro de Cristo, verdadeira eucaristia. Se os mártires precisam da Eucaristia, também a eucaristia não pode prescindir do testemunho dos mártires.

    Meditatio

    Para a meditação de hoje, nada melhor do que recorrermos a alguns pensamentos de S. Inácio de Antioquia. Na iminência do seu martírio, o santo bispo escreve aos Romanos: "É bonito partir deste mundo para Deus, a fim de ressuscitar para Ele". "Deixai que me torne alimento das feras, por meio das quais me é dado alcançar a Deus. Sou trigo de Deus, moído pelos dentes das feras, para me tornar pão puro de Cristo. Acariciai as feras, para que se tornem o meu sepulcro e nada deixem do meu corpo, para que uma vez morto, eu não seja peso para ninguém. Então serei, de verdade, discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo deixar de ver o meu corpo. Suplicai a Cristo por mim, para que, por meio daqueles instrumentos, eu me torne hóstia para Deus" "Agora começo a ser discípulo de Cristo". "De nada me serviriam os confins da terra nem os reinos deste século. Para mim, é mais belo morrer por Jesus Cristo do que reinar sobre os confins da terra. Procuro-o, que morreu e ressuscitou por nós, quero-o, que ressuscitou por nós. Agora, o parto está iminente para mim. Tende compaixão de mim, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirais o meu morrer. A quem quer ser de Deus, não o entregueis de graça ao mundo e não o enganeis com a matéria. Deixai-me acolher a luz pura. Junto dela, serei homem. Deixai-me ser imitador da Paixão do meu Deus". "Rezai para que eu seja cristão, não só de nome, mas também de fato". "Rezai para que possa alcançar a Deus".
    S. Inácio alcançou a Deus através do martírio no ano 107. A sua memória é celebrada neste dia desde o século IV.

    Oratio

    Rezemos com S. Inácio de Antioquia: "O meu Amor está crucificado e não há em mim fogo que se alimente da matéria. Mas há uma água viva que murmura dentro de mim e me diz interiormente: "Vem ao Pai". Não me satisfazem os alimentos corrutíveis nem os prazeres deste mundo. Quero o pão de Deus, que é a Carne de Jesus Cristo, nascido da linhagem de David, e por bebida quero o Sangue que é a caridade incorrutível". Ámen.

    Contemplatio

    A caridade tem tido os seus inumeráveis mártires, que têm fecundado a Igreja e enchido o céu. Todos aqueles que sacrificaram a sua vida nos trabalhos e nos perigos do apostolado sob todas as suas formas são mártires da caridade. Enfrentaram as fadigas, as doenças, as dificuldades do clima, a hostilidade dos infiéis para irem em socorro dos que sofrem ou que estão nas trevas da idolatria. Era o espírito da caridade que os conduzia. Dando-nos o seu mandamento novo, Nosso Senhor dá-nos, no Espírito Santo, a graça de o cumprirmos. Se correspondermos a este espírito de caridade, havemos de praticar entre nós a mansidão, a paciência, a benevolência. As obras de misericórdia ser-nos-ão caras e fáceis. Teremos gosto em tomar conta dos pequenos, dos pobres, dos ignorantes, daqueles que sofrem. Havemos de nos recordar da palavra do bom Mestre: «O que fazeis aos pequenos e aos deserdados, tenho-o como feito a mim». Se tivermos uma caridade ardente e abundante, levá-la-emos até ao sacrifício. Despojar-nos-emos, afadigar-nos-emos para socorrer o nosso próximo, e, se for preciso, daremos a nossa vida por ele como Nosso Senhor a deu por nós. (Leão Dehon, OSP 3, p. 419s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Faça-se tudo para honrar a Deus" (S. Inácio de Antioquia).

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    S. Inácio de Antioquia (17 Outubro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Terça-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Terça-feira

    17 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 1, 16-25

    Irmãos: eu não me envergonho do Evangelho, pois ele é poder de Deus para a salvação de todo o crente, primeiro o judeu e depois o grego. 17Pois nele a justiça de Deus revela-se através da fé, para a fé, conforme está escrito: O justo viverá da fé. De facto, a ira de Deus, vinda do céu, revela-se contra toda a impiedade e injustiça dos homens que, com a injustiça, reprimem a verdade. 19Porquanto, o que de Deus se pode conhecer está à vista deles, já que Deus lho manifestou. 20Com efeito, o que é invisível nele - o seu eterno poder e divindade - tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras. Por isso, não se podem desculpar. 21Pois, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram nem lhe deram graças, como a Deus é devido. Pelo contrário: tornaram-se vazios nos seus pensamentos e obscureceu-se o seu coração insensato. 22Afirmando-se como sábios, tornaram-se loucos 23e trocaram a glória do Deus incorruptível por figuras representativas do homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e de répteis. 24Por isso é que Deus, de acordo com os apetites dos seus corações, os entregou à impureza, de tal modo que os seus próprios corpos se degradaram. 25Foram esses que trocaram a verdade de Deus pela mentira, e que veneraram as criaturas e lhes prestaram culto, em vez de o fazerem ao Criador, que é bendito pelos séculos! Ámen.

    Paulo enuncia o tema da sua carta: «O Evangelho é poder de Deus para a salvação de todo o crente, primeiro o judeu e depois o grego» (v. 16). O êxito da sua missão de evangelizador não depende a argumentação que usa, mas do «poder de Deus». Com efeito, no Evangelho, revela-se a justiça de Deus, que tem origem na fé e conduz à fé, como está escrito: «O justo viverá da fé» (v. 17). O Apóstolo sente-se no dever de aprofundar e proclamar a "Boa Nova", segundo a qual Deus quer salvar a todos pelo dom da fé. Paulo não se envergonha desse Evangelho. Orgulha-se dele e transmite-o narrando a sua própria experiência, no caminho de Damasco. Aí experimentou fortemente o poder do amor de Deus que salva.
    Além da apresentação do tema, encontramos nesta página um seu primeiro desenvolvimento: o projecto de Deus já se revelou na história de Jesus de Nazaré, e revela-se, cada dia, na história da humanidade. Se, aqui, Paulo descreve uma situação muito negativa da humanidade, em breve falará da salvação oferecida por Cristo a todos.

    Evangelho: Lucas 11, 37-41

    Naquele tempo, depois de Jesus ter acabado de falar, um fariseu convidou-o para almoçar na sua casa; Ele entrou e pôs-se à mesa. 38O fariseu admirou-se de que Ele não se tivesse lavado antes da refeição. 39O Senhor disse-lhe: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade. 40Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? 41Antes, dai esmola do que possuís, e para vós tudo ficará limpo.

    Em casa de um fariseu, Jesus continua o discurso sobre a honestidade de pensamento e sobre a pureza das intenções. Jesus fala e comporta-se com total liberdade, parecendo mesmo provocar o espanto e o desprezo do fariseu. Atira-se contra o formalismo e a vaidade de quem se pensa justo só porque cumpre pontualmente os ritos.
    A propósito da purificação do copo e do prato, Jesus fala da pureza do coração do homem. A higiene evangélica exige a exclusão da ganância e do egoísmo, que geram «rapina e maldade» (v. 39). O que garante a pureza do coração é a caridade. Da caridade vem a generosidade, que sabe dar esmolas, quando reconhece ter recebido tudo de Deus (v. 41). Confronte o texto paralelo de Mateus (7, 15.21-23), onde Jesus dá mais explicações sobre a pureza do coração.

    Meditatio

    É espantoso lermos que o «Evangelho é poder de Deus para a salvação de todo o crente» (v. 16). Como pode uma palavra ser poder? Nós acreditamos pouco em palavras. Mas o Evangelho é uma palavra especial, que encerra o poder de Deus. Muitas vezes recebemo-lo como uma qualquer palavra que nos incita a pôr todas as nossas forças ao serviço de um trabalho, de um projecto, de uma acção, como quando escutamos: "faz isto", "faz aquilo". Estas palavras não nos dão a força de fazer o que nos é mandado. Ora, com o Evangelho, é diferente. A palavra evangélica é poderosa, e havemos de recebê-la como uma força e não apenas como uma ordem. O Evangelho transmite a fé. E toda a nossa vida é baseada na fé. A nossa força vem-nos da fé e não da confiança que temos em nós mesmos. Pela fé, abrimo-nos ao poder de Deus e fundamos a nossa vida na graça, que nos é dada gratuitamente, e não por causa das nossas obras.
    Paulo, no texto que hoje escutamos, anuncia-nos a salvação pela fé: «Deus revela-se através da fé, para a fé, conforme está escrito: O justo viverá da fé» (v. 17). O que vem depois está de acordo com este anúncio de Paulo. O Apóstolo escreveu que a justiça de Deus, a que salva, se revela no Evangelho a quem crê (cf. Rm 1, 17). Depois acrescentou: «a ira de Deus, vinda do céu, revela-se contra toda a impiedade e injustiça dos homens» (v. 17). Fica, assim, anunciada a tese que seguidamente irá desenvolver para demonstrar a necessidade do Evangelho, «poder de Deus».
    A humanidade, enredada no pecado, mereceu a ira de Deus. Mas Deus estabeleceu um meio de salvação: a fé em Cristo, e não as obras do homem corrompidas pelo pecado. A missão de Paulo, e de todos os apóstolos, é pregar a fé e, por isso, a salvação como dom gratuito de Deus, como graça.
    No evangelho de hoje, Jesus anuncia o mesmo: é preciso mudar de mentalidade, converter-se. É preciso passar de uma religião de pureza exterior a uma religião interior de misericórdia, de humildade, de comunhão. O fariseu, que convidou Jesus para a sua mesa, pôs-se a julgá-lo porque não lavou as mãos antes de começar a comer. Não se tratava de um gesto de higiene, mas de uma prática que pretensamente garantia a pureza diante de Deus. Jesus afasta essa ideia de religião e de pureza, afirmando que o essencial é a pureza interior: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade» (v. 39). O homem pode purificar o exterior, mas não o coração. Só a graça de Deus o pode fazer. Há, pois, que renunciar à pretensão de nos salvarmos a nós mesmos, com as nossas obras. A únicas atitudes que nos salvam são colocar-nos humildemente diante de Deus e, ao mesmo tempo, usar de misericórdia e de benevolência para com os outros. Deus oferece
    a sua graça a quem está disposto a tornar-se graça para os outros.
    É pela fé que Cristo habita nos nossos corações, enraizando-nos e fundando-nos no amor. Assim podemos compreender, com todos os Santos, qual é a largura e o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo. Assim, podemos conhecer, experimentar esse amor que excede todo o conhecimento, para sermos repletos da plenitude de Deus, isto é, para nos tornarmos santos e sermos salvos (cf. Ef 3,17-19).

    Oratio

    Senhor, ajuda-me a compreender a minha condição diante de Ti, para que jamais atribua a mim mesmo o que é apenas teu, para que reconheça que tudo recebi das tuas mãos generosas e misericordiosas. Diante de Ti sou pequeníssimo, e é bom para mim, que sejas glorificado na minha pobre pessoa. Que eu saiba diminuir aos meus próprios olhos, para que possa crescer em Ti, e Tu cresças em mim. Que eu Te conheça, que eu Te acolha, para que experimente o teu amor salvador, para que possas crescer em mim, e tornar-te dom de salvação em mim e, por mim, nos irmãos. Amen.

    Contemplatio

    S. Paulo ensina-nos que Jesus Cristo habita nos nossos corações pela fé (cf. Ef 3). A fé é o primeiro desabrochar da graça numa alma, «Ela abre a porta do nosso coração a Nosso Senhor, diz Santo Ambrósio, e vem nele habitar». Para formar em nós uma fé viva, habituemo-nos a observar o Coração de Jesus e de Maria em tudo o que fazemos. Não tenhamos outro objectivo em vista nos nossos exercícios de piedade. Esforcemo-nos por imitá-lo, recordemo-nos das suas virtudes e dos seus mistérios, esforcemo-nos por nos revestirmos das suas divinas intenções, das suas disposições admiráveis. Mas não é tudo, formar o Coração de Jesus e de Maria no nosso espírito pela fé, pela recordação dos seus mistérios, pela imitação das suas virtudes; é preciso também formá-lo no nosso coração pelo frequente exercício do seu amor. «A fé planta Jesus Cristo em nós, diz S. Gregório Grande; mas somente a caridade, somente a fidelidade do amor faz crescer esta árvore divina que, na terra do nosso coração, produz abundantes frutos para o paraíso. Jesus introduz-se na alma pelo baptismo e pela graça da fé, começa aí um trabalho de formação e de desenvolvimento semelhante ao da criança no seio de sua mãe. Toma, destrói, absorve tudo o que vê em nós de corruptível (cf. 2Cor 5), preenchendo pelo dom celeste da graça e preenchendo assim ele mesmo os vazios que faz em nós; laborioso trabalho da vida cristã, da piedade e da perfeição, que tem por objecto único a formação de Jesus em nós: até que Cristo seja formado em nós (Gal 4). (Leão Dehon, OSP 3, p. 518).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «O justo viverá da fé» (Rm 1, 17).

  • S. Lucas, Evangelista

    S. Lucas, Evangelista


    18 de Outubro, 2023

    S. Lucas nasceu em Antioquia da Síria. Foi educado no paganismo e exerceu a profissão de médico (cf. Cl 4, 14). Convertido ao cristianismo, torou-se colaborador de S. Paulo, estabelecendo com ele uma grande amizade (Fm 24). Homem culto, S. Lucas, é o autor do terceiro evangelho e dos Atos dos Apóstolos, sendo também um dos responsáveis pela ação missionária nos primeiros tempos da Igreja.

    Lectio

    Primeira leitura: 2 Timóteo 4, 10-17b

    Caríssimos: Demas abandonou-me. Preferiu o mundo presente e foi para Tessalónica. Crescente foi para a Galácia, e Tito para a Dalmácia. 11Apenas Lucas está comigo.Traz contigo Marcos, pois me será de grande ajuda no ministério.  12Quanto a Tíquico, enviei-o a Éfeso.13Quando vieres, traz o manto que deixei em Tróade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos. 14Alexandre, o fundidor de cobre, causou-me muitos danos. O Senhor lhe retribuirá segundo as suas obras. 15Toma tu também cuidado com ele, pois muito se tem oposto ao nosso ensinamento. 16Na minha primeira defesa, ninguém esteve ao meu lado. Todos me abandonaram. Que não lhes seja levado em conta. 17O Senhor, porém, esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, o anúncio fosse plenamente proclamado e todos os gentios o escutassem.

    Paulo manifesta o seu conforto por Lucas lhe permanecer fiel, enquanto outros, por cansaço ou por medo, o abandonaram. É sobretudo a presença do Senhor que anima o Apóstolo a pregar o Evangelho aos gentios, mantendo-se fiel à sua vocação inicial. Mas não pode deixar de lembrar os que o abandonaram, quando mais precisava de apoio, tendo de se defender sozinho em tribunal, e tendo de defender a Cristo e à fé que abraçara. O que provoca mais satisfação em Paulo é poder afirmar que foi por seu intermédio que o Evangelho foi anunciado, de modo especial aos gentios. A missão recebida em Damasco estava realizada.

    Evangelho: Lucas 10, 1-9

    Naquele tempo, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Disse-lhes:«A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe.3Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho.5Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!'6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. 7Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa.8Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, 9curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus já está próximo de vós.'

    Só Lucas que nos fala deste episódio. Jesus, depois de ter enviado os Doze em missão (Lc 9, 1ss), envia também estes setenta e dois discípulos. A missão é uma das grandes preocupações do terceiro evangelista. Nos Atos dos Apóstolos, além das missões de Pedro e de Paulo, fala das missões de Estêvão, de Filipe e de outros apóstolos. A messe do Senhor precisa de muitos trabalhadores. Há que pedi-los e que enviá-los. A oração, não só prepara, mas é parte integrante da missão. A missão começa na oração; e rezar é estar em missão. Como o seu Mestre e Senhor, os discípulos devem ir em missão "como cordeiros para o meio de lobos" (v. 3). O anúncio essencial é: "O Reino de Deus já está próximo de vós." (v. 9). Trata-se de uma expressão densa de significado: os tempos completaram-se, isto é, estão cheios da presença de Deus que salva. A presença de Deus concretiza-se na pessoa de Jesus e nos seus ensinamentos.

    Meditatio

    S. Lucas escreveu o terceiro evangelho, com alguns elementos que nos permitem distingui-lo dos outros três evangelistas. S. Lucas é o evangelista de Maria: só ele nos fala da anunciação, da visitação, do nascimento de Jesus e da sua apresentação no templo. É o evangelista do Coração de Jesus: é o que melhor nos revela a sua misericórdia nas parábolas da dracma perdida e reencontrada, da ovelha perdida e achada, do filho pródigo. É o evangelista da caridade: só ele narra a parábola do bom samaritano, e fala do amor de Jesus aos pobres com acentuações mais ternas do que os outros evangelistas. Apresenta-nos Jesus comovido diante do sofrimento da viúva de Naim; Jesus que acolhe delicadamente a pecadora em casa de Simão, o fariseu, e lhe assegura o perdão de Deus; Jesus que acolhe Zaqueu com tanta bondade que muda o coração ganancioso do publicano em coração arrependido e generoso.
    Lucas é o evangelista da confiança, da paz, da alegria. É o evangelista do Espírito Santo. É ele que apresenta a comunidade cristã como tendo "um só coração e uma só alma". O evangelho de Lucas revela o seu zelo missionário. Só ele fala da missão dos setenta e dois discípulos e alguns pormenores dessa missão. Há, pois, muitos tesouros a explorar na obra lucana. Havemos de fazê-lo com gratidão, entregando-nos, também nós, generosamente ao Senhor, vivendo como discípulos e carregando com Ele a nossa cruz de cada dia.
    Lucas acompanhou Paulo em algumas das suas viagens missionárias e durante o cativeiro em Roma. Com a morte do Apóstolo eclipsa-se a história de Lucas. Um escrito do século III diz-nos que morreu virgem na Bitínia, com a idade de 74 anos, cheio de Espírito Santo. Uma tradição do século IV assegura-nos que derramou o sangue por Cristo. Lucas é um médico bondoso e serviçal, um literato, mas sobretudo um santo e mártir, que regou com o seu sangue as sementes do Evangelho por ele lançadas. É considerado padroeiro dos médicos, por causa das palavras de Paulo: "Saúda-vos Lucas, nosso querido médico" (Col 4, 14).

    Oratio

    Senhor, nosso Deus, que escolhestes São Lucas para revelar com a sua palavra e os seus escritos o mistério do vosso amor pelos pobres, fazei que sejam um só coração e uma só alma aqueles que se gloriam no vosso nome e todos os povos mereçam ver a vossa salvação. Ámen. (Coleta de Missa).

    Contemplatio

    S. Lucas é o Evangelista da santa Infância de Jesus. Como os amigos do Sagrado Coração lhe devem estar reconhecidos! Foi ele que nos deu a conhecer tantos pormenores deliciosos sobre o nascimento e a infância de Jesus. Devemos-lhe a saudação angélica, a Ave-maria, o Ecce Ancilla Domini, o Benedictus, o Nunc dimittis, tantos outros tesouros para os amigos do Coração de Jesus. Ele descreve-nos a visita dos pastores. Devemos-lhe também o cântico dos anjos «Gloria in excelsis Deo». Nenhum evangelista deu semelhantes tesouros à liturgia. Descreve a estadia de Jesus no Templo aos 12 anos, o comentário de Isaías por Jesus na sinagoga de Nazaré. Relata a bela parábola de Lázaro e do mau rico, a cura dos dez leprosos, dos quais só um é reconhecido, a cena deliciosa na qual Marta mostra demasiada solicitude e na qual Madalena escolheu a melhor parte, a única coisa necessária. A grande parábola do Filho pródigo é uma das suas mais belas páginas. Era preciso um homem de grande coração para compreender e relatar estas cenas tocantes e estes discursos do Salvador. Relata melhor que os outros a justificação de Madalena por Jesus em casa de Simão, o Fariseu, e a chamada de S. Pedro com a primeira pesca milagrosa. É a ele que devemos o conhecimento desta palavra caída do Sagrado Coração: vim acender o fogo (do amor) sobre a terra, e que desejo senão que se propague. Revelou-nos o santo Coração de Maria. Foi ele que nos disse por duas vezes que Maria conservava no seu coração os mistérios de Jesus e neles meditava (Lc 2, 19 e 51). (L. Dehon, OSP 4, p.369s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Rogai ao dono da messe
    que mande trabalhadores para a sua messe" (Lc 10, 2).

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    S. Lucas, Evangelista (18 Outubro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Quarta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Quarta-feira

    18 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 2, 1-11

    Não tens desculpa tu, ó homem, quem quer que sejas, que te armas em juiz. É que, ao julgares o outro, a ti próprio te condenas, por praticares as mesmas coisas, tu que te armas em juiz. 2Ora nós sabemos que o julgamento de Deus se guia pela verdade contra aqueles que praticam tais acções. 3Cuidas, então - tu, ó homem que julgas os que praticam tais acções e fazes o mesmo - que escaparás ao julgamento de Deus? 4Ou não estarás tu a desprezar as riquezas da sua bondade, paciência e generosidade, ao ignorares que a bondade de Deus te convida à conversão? 5Afinal, com a tua dureza e o teu coração impenitente, estás a acumular ira sobre ti, para o dia da ira e do justo julgamento de Deus, 6que retribuirá a cada um conforme as suas obras: 7para aqueles que, ao perseverarem na prática do bem, procuram a glória, a honra e a incorruptibilidade, será a vida eterna; 8para aqueles que, por rebeldia, são indóceis à verdade e dóceis à injustiça, será ira e indignação. 9Tribulação e angústia para todo o ser humano que pratica o mal, primeiro judeu e depois grego! 10Glória, honra e paz para todo aquele que pratica o bem, primeiro para o judeu e depois para o grego! 11É que em Deus não existe acepção de pessoas.

    A situação da humanidade é negativa. Judeus e Gregos são culpados diante de Deus. Nós próprios somos culpados. Mas, como é que Deus olha para esta situação da humanidade de que fazemos parte? Deus, no seu julgamento, guia-se «pela verdade». Nós, como os Judeus, guiamo-nos por outros critérios. Por isso, como eles, corremos o risco de ser condenados. Diante de Jesus Cristo, os Judeus não souberam reagir de modo positivo e acolhedor. O excessivo apego às suas tradições mão lhes permitiu darem-se conta da grande novidade de Deus feito homem. O juízo de Deus é segundo a verdade, e não pode ser condicionado pelo nosso modo de julgar, nem pela situação de pecado verificada. Deus reserva a salvação para aqueles que «ao perseverarem na prática do bem, procuram a glória, a honra e a incorruptibilidade» (v. 7). A motivação disso é que «em Deus não existe acepção de pessoas» (v. 11).

    Evangelho: Lucas 11, 42-46

    Naquele tempo, disse o Senhor: Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as plantas e descurais a justiça e o amor de Deus! Estas eram as coisas que devíeis praticar, sem omitir aquelas. 43Ai de vós, fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas e de ser cumprimentados nas praças! 44Ai de vós, porque sois como os túmulos, que não se vêem e sobre os quais as pessoas passam sem se aperceberem!» 45Um doutor da Lei tomou a palavra e disse-lhe: «Mestre, falando assim, também nos insultas a nós.» 46Mas Ele respondeu:«Ai de vós, também, doutores da Lei, porque carregais os homens com fardos insuportáveis e nem sequer com um dedo tocais nesses fardos!

    Jesus pronuncia dois «ai de vós» contra os fariseus, os mais observantes e comprometidos, e contra os doutores, encarregados de ensinar e guiar os outros pelos caminhos de Deus. Estigmatizou os que querem sinais para acreditar, desmascarou os corações hipócritas e, agora, dirige palavras duras contra aqueles que aproveitam as suas prerrogativas de cultura e de autoridade para se envaidecerem e oprimirem os outros. São como túmulos disfarçados, cheios de podridão (cf. Mt 23, 27), capazes de contaminar - de acordo com a Lei - aqueles que sobre eles passam.
    Ironicamente, Lucas põe na boca de um doutor a observação: «Mestre, falando assim, também nos insultas a nós» (v. 45). A resposta de Jesus revela a sua tristeza pela atitude defensiva de quem, querendo salvaguardar a própria imagem, não consegue dar-se conta da mesquinhez da sua realidade, nem enxergar o que é verdadeiramente essencial: «a justiça e o amor de Deus».

    Meditatio

    A Palavra de Deus é sempre viva e eficaz. Mas há momentos em que ela parece encarniçar-se para pôr diante dos nossos olhos o nosso pecado. As palavras de Paulo são duras: ninguém tem o direito de se gloriar diante de Deus. O Apóstolo dirige-se àqueles que farisaicamente se julgam justos, e pensam não precisar da misericórdia de Deus. Andam iludidos, e essa ilusão vem-lhes do hábito de julgar os outros: «Cuidas, então - tu, ó homem que julgas os que praticam tais acções e fazes o mesmo - que escaparás ao julgamento de Deus?» (v. 3).
    É realmente uma ilusão comum julgar-se justos, ou por causa do permissivismo que tudo invade, ou porque julgamos os outros. O "todos fazem assim" não é um critério de moralidade para quem quer seguir a Cristo. O fazer-se juiz dos outros também não nos livra de sermos julgados. Quando vemos alguém errar, facilmente pensamos que, no seu lugar, faríamos melhor. Na verdade, uma coisa é julgar e outra é fazer. Provavelmente, no lugar do irmão que julgamos, faríamos pior. É o que infelizmente acontece, tantas vezes, no campo moral, espiritual. Quem julga, ainda que em algumas coisas tenha razão, erra gravemente pelo simples facto de julgar, porque, como diz Jesus, descuida o mais importante, que é a justiça e o amor. Quem julga os outros, separa-se deles, pondo-se numa situação de egoísmo e de orgulho. Por isso, não pode agradar a Deus. «Não tens desculpa tu, ó homem, quem quer que sejas, que te armas em juiz. É que, ao julgares o outro, a ti próprio te condenas», afirma o Apóstolo (v. 1).
    Colocar-se, com humildade e verdade, diante da misericórdia de Deus, é o único caminho de salvação. Judeus e Gregos, cristãos e pagãos, pecadores e justos, devem acolher a graça de Deus, gratuitamente oferecida a todos.
    Para viver a fraternidade, na comunidade, havemos de pôr em prática os ensinamentos de Jesus: «Sede misericordiosos, como é misericordioso o vosso Pai. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e ser-vos-á perdoado; dai e ser-vos-á dado; uma boa medida..., porque a medida que empregardes com os outros será usada convosco» (Lc 6, 36-38). Não leiamos superficialmente estas palavras de Jesus. Reflictamos bem sobre elas. Se as pusermos em prática, com a ajuda do Espírito Santo, experimentaremos uma profunda serenidade interior, seremos criaturas de paz, de alegria, de bondade e de mansidão.

    Oratio

    Pai santo, faz-me compreender que «basta ser homem para ser um pobre homem». Ajuda-me a não cair no erro dos fariseus, que se julgavam justos por cumprirem exteriormente a lei, que andavam cheios de si mesmos, pensando não precisar de ninguém, nem sequer de Ti. Só a tua imensa misericórdia me pode salvar. E salva-me em Jesus, teu Filho, morto e ressuscitado. Com a graça, que por Ele, me ofereces, quero viver a lei com as atitudes humanas suger
    idas pelo Evangelho, nomeadamente a humildade na relação Contigo e com os meus irmãos. Amen.

    Contemplatio

    A oração é tão necessária! É certo que a graça não se obtém, segundo o curso ordinário da Providência, senão pela oração, e sem a graça nós não podemos fazer nada de meritório para o céu. - E porque é que rezamos tão pouco? É, em primeiro lugar, porque não estamos bastante convencidos da nossa fraqueza extrema, da nossa pobreza espiritual, da nossa miséria profunda; é porque não estimamos bastante os bens da graça; é porque duvidamos da verdade das promessas de Nosso Senhor, que disse que tudo o que pedíssemos em seu nome nos seria concedido. Oh! Rezemos com Jesus e como Jesus! Como os apóstolos, unamos as nossas orações às de Maria: perseveravam na oração em união com Maria, Mãe de Jesus (Act 1). Se quereis um advogado junto de Jesus, recorrei a Maria, diz-nos S. Bernardo. Ó vida de orações e de santos desejos, como sois pouco estimada, pouco amada, pouco praticada! Ó doçura da oração, poder da oração, riquezas da oração, como sois pouco conhecidas! As nossas orações mal feitas tornam-se fastidiosas e permanecem ineficazes. Voltemos ao fervor de outros tempos. Um coração amoroso por Deus e pelo próximo reza com fervor. Rezemos pela nossa salvação, pelo nosso progresso, por tantos pecadores que não pensam sequer em apaziguar a justiça de Deus, por tantos pobres idólatras, tantos infortunados hereges, tantos miseráveis de todo o género, que são nossos irmãos. (Leão Dehon, OSP 3, p. 12s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (Rm 3, 23)

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Quinta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Quinta-feira

    19 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 3, 21-30a

    Irmãos: foi sem a Lei que se manifestou a justiça de Deus, testemunhada pela Lei e pelos Profetas: 22a justiça que vem para todos os crentes, mediante a fé em Jesus Cristo. É que não há diferença alguma: 23todos pecaram e estão privados da glória de Deus. 24Sem o merecerem, são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus. 25Deus ofereceu-o para, nele, pelo seu sangue, se realizar a expiação que actua mediante a fé; foi assim que ele mostrou a sua justiça, ao perdoar os pecados cometidos outrora, 26no tempo da divina paciência. Deus mostra assim a sua justiça no tempo presente, porque Ele é justo e justifica quem tem fé em Jesus. 27Onde está, pois, o motivo para alguém se gloriar? Foi excluído! Por qual lei? Pela das obras? De modo nenhum! Mas pela lei da fé. 28Pois estamos convencidos de que é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da lei. 29Será Deus apenas Deus dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, Ele é também Deus dos gentios, 30uma vez que há um só Deus.

    Depois de descrever a situação religiosa do mundo pagão, Paulo volta-se para o mundo religioso judaico. O Povo escolhido recebera a Lei como dom capaz de revelar o rosto e o coração de Deus. Mas a Lei mosaica também acabou por revelar que todos os homens são pecadores. Mas a realidade do pecado não impede a realização do projecto de Deus. Pelo contrário: diante do pecado, Deus sente-se como que provocado a reafirmar o seu projecto de salvação em favor de todos. Assim, na plenitude dos tempos enviou o seu Filho Jesus como mediador da nova Aliança, como ponte entre Deus e os homens, como Redentor de todos. Jesus está, verdadeiramente, no centro da história da salvação, do anseio religiosos de todos os povos, da história de cada pessoa. Paulo procura ilustrar esta verdade com alguns aspectos pessoais, que permanecerão ligados à reflexão teológica. Mas é a fé, e só a fé, que coloca Jesus no centro. É por isso que, segundo o ensino de Paulo, a fé em Jesus, que é a nova lei, enxerta directamente na justiça de Deus, alcançando-nos a salvação. É verdade que «todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (v. 23), mas é ainda mais verdade que «todos são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus» (v. 24).

    Evangelho: Lucas 11, 47-53

    Naquele tempo, disse o Senhor aos doutores da lei: Ai de vós, que edificais os túmulos dos profetas, quando os vossos pais é que os mataram! 48Assim, dais testemunho e aprovação aos actos dos vossos pais, porque eles mataram-nos e vós edificais-lhes sepulcros. 49Por isso mesmo é que a Sabedoria de Deus disse: 'Hei-de enviar-lhes profetas e apóstolos, a alguns dos quais darão a morte e a outros perseguirão, 50a fim de que se peça contas a esta geração do sangue de todos os profetas, derramado desde a criação do mundo, 51desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o santuário.' Sim, Eu vo-lo digo, serão pedidas contas a esta geração. 52Ai de vós, doutores da Lei, porque vos apoderastes da chave da ciência: vós próprios não entrastes e impedistes a entrada àqueles que queriam entrar!» 53Quando saiu dali, os doutores da Lei e os fariseus começaram a pressioná-lo fortemente com perguntas e a fazê-lo falar sobre muitos assuntos, armando-lhe ciladas e procurando apanhar-lhe alguma palavra para o acusarem.

    Jesus, com ironia, desmascara a falsidade dos doutores da lei. Dizem venerar os profetas, mas não acolhem os apelos de Deus, tal como os seus pais. Por isso não são melhores do que eles. Os profetas foram recusados e mortos porque eram incómodos. O mesmo sucede, agora, com Jesus, Palavra definitiva do Pai. Os "sábios", construindo sepulcros aos profetas, tornam-se cúmplices daqueles que os mataram, porque não acolhem as suas mensagens. O Calvário irá confirmar esta análise de Jesus, apoiada pela sentença de juízo profético (vv. 49-51) que lê a história de Israel como uma história de obstinação que foi produzindo vítimas «desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias».
    Notemos como a culpa evocada se limita ao Antigo Testamento: Lucas parece dar a entender que Deus não pedirá contas do sangue do seu Filho. De facto, «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17). Todavia serão pedidas contas do sangue de todos os profetas a esta geração porque, «quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus» (Jo 3, 18).
    Jesus verbera fortemente a arrogância intelectual e religiosa dos doutores da lei que, embora dispondo dos instrumentos necessários, não seguem nem reconhecem o caminho que leva a Deus indicado pela Lei e pelos Profetas. Por ainda: tornaram-no inacessível ao povo retirando aos preceitos e normas o seu verdadeiro significado.

    Meditatio

    Paulo continua a reflectir sobre a condição humana. Infelizmente, nós, homens do século XXI, não nos espantamos com o quadro pintado em tons escuros pelo Apóstolo. Estamos demasiado habituados a ver esse mal entrar-nos pela casa dentro através da televisão e de outros meios de comunicação social, e até a verificá-lo nas nossas próprias famílias, no nosso bairro, na nossa terra... No começo do novo milénio, quando todos nos julgamos evoluídos, cultos e civilizados, assistimos a formas de crueldade e violência impensáveis há apenas algumas décadas... Por isso, não temos dificuldade em repetir como Paulo: «todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (Rm 3, 23). E todos havemos também de admitir que precisamos da misericórdia de Deus, sem a qual não conseguimos tornar-nos justos e agradar a Deus. É por isso que, no segundo capítulo da carta aos Romanos, Paulo se dirige a todos aqueles que farisaicamente se julgam justos, e pensam não precisar da misericórdia de Deus.
    O mesmo faz Jesus, no evangelho. Ao dirigir-se aos escribas e fariseus, arranca-lhes a máscara com que tentam disfarçar as injustiças que cometem. As mesinhas humanas podem iludir-nos. Mas o mal reaparece continuamente, cada vez mais duro e violento. Só Deus pode curá-lo definitivamente. E fê-lo em Jesus Cristo. Paulo lembra que Deus usou o seu Filho como instrumento de expiação, expondo-O na cruz. Poderia ter-nos justificado de outro modo. Mas o caminho que escolheu, escândalo para uns e loucura para outros, foi o do amor até à consumação total, até ao ponto de receber em Si todos os golpes da nossa inaudita violência. A imensidade do dom faz-nos compreender a malícia do pecado. Não conseguimos avaliar totalmente a grande do amor e o dom de Deus, nem a gra
    vidade do nosso pecado. Mas a mais simples ideia sobre esse amor, e sobre a gravidade do nosso pecado, já é suficiente para abrirmos o coração à gratidão, à acção de graças. Vemos, com efeito, como o homem não pode salvar a si mesmo, e como só a fé em Jesus Cristo, Salvador, o salva efectivamente. Em Cristo, nós os injustos, tornamo-nos justos.
    A comunidade religiosa, como a comunidade cristã, há-de ser uma escola de amor, onde todos progridam «alegres no caminho do amor» (LG 43). Esta expressão, recebida do Concílio, realça como, na comunidade, as pessoas devam viver um amor semelhante ao de Cristo, que, para nos salvar, se entregou por nós, até à morte e morte de cruz. Há que aprender esse amor na escuta da Palavra, na contemplação dos Mistérios de Cristo, na oração, e na prática, por vezes difícil, do amor aos irmãos. Então a circularidade do amor torna-se perfeita: o amor vem de Deus e, por meio do amor aos irmãos, regressa a Deus, como escreve S. João: «Caríssimos, se Deus nos amou, também nós devemos amar-nos uns aos outros. Deus permanece em nós e o Seu amor é perfeito em nós» (1 Jo 4, 11-12). Sem o amor fraterno recíproco, o amor de Deus não é perfeito: «Que, com efeito, não ama o irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê. Este é o mandamento que recebemos d´Ele: quem ama a Deus, ama também o seu irmão» (1 Jo 4, 20-21).

    Oratio

    Pai santo, infunde em mim o Espírito do teu Filho Jesus, para que eu possa viver segundo o Espírito, e não segundo a carne. A fé não conhece as obras da infidelidade, nem a infidelidade conhece as da fé. Todavia, também o que fazemos segundo a carne se torna obra do Espírito, quando as fazemos em Jesus.
    Faz-me pedra viva do teu templo, erguida pela cruz de Cristo, e por meio do cabo que é o Espírito Santo. Que a fé me erga ao alto e que a caridade me conduza a Ti. Amen.

    Contemplatio

    Eis o Redentor, o Salvador! «Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, aí crucificaram Jesus com os dois ladrões, um à sua direita e o outro à sua esquerda. O povo olhava, e com os príncipes zombava dele dizendo: Salvou os outros, que se salve agora a si mesmo, se é o Cristo, o eleito de Deus, como disse. Também os soldados o insultavam e apresentavam-lhe vinagre dizendo-lhe: Se és o rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo!» - Não, Senhor, não quereis salvar a vossa vida, quereis ao contrário sacrificá-la para salvar a minha alma. A vossa cruz é a minha salvação. As vossas mãos e os vossos pés perfurados expiam todas as minhas acções culpáveis. O vosso Coração aberto e dilacerado paga o resgate de todos os meus afectos desregrados. Bebeis o fel e o vinagre para reparar a minha sensualidade. Sofreis as humilhações mais cruéis para apagar o meu orgulho. As vossas dores ultrapassam todas as que a terra jamais viu. Pode aplicar-se à letra a vós a lamentação de Jerusalém, formulada por Jeremias: «Ó vos todos que passais, considerai e vede se há dor semelhante à minha, porque o Senhor, no dia da sua cólera, tratou-me como uma vinha que vandalizaram e onde nada deixaram...» (Jr Lm 1, 12). Sim, Senhor, fostes espezinhado como o bago da vinha e o sangue das vossas veias correu sobre o solo. A vossa dor não tem igual senão o vosso amor. Eis, portanto, como vistes o pecado e o quisestes fazer para o expiar! Ó Senhor, como sou culpado por pecar tão facilmente e por expiar tão pouco as minhas faltas! Tomai, portanto, todo o meu coração e não mais o deixeis afastar-se de vós! (Leão Dehon, OSP 4, p. 386s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje esta palavra:
    «Todos pecaram e estão privados da glória de Deus» (Rm 3, 23)

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Sexta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXVIII Semana - Sexta-feira

    20 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 4, 1-8

    Irmãos: que havemos de dizer de Abraão, nosso antepassado segundo a carne? Que obteve ele afinal? 2É que, se Abraão foi justificado por causa das obras, tem um motivo para se poder gloriar, mas não diante de Deus. 3Que diz, de facto, a Escritura? Que Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça. 4Ora bem, àquele que realiza obras, o salário não lhe é atribuído como oferta, mas como dívida. 5Aquele, porém, que não realiza qualquer obra, mas acredita naquele que justifica o ímpio, a esse a sua fé é-lhe atribuída como justiça. 6Aliás é assim que David celebra a felicidade do homem a quem Deus atribui a justiça independentemente das obras: 7Felizes aqueles a quem foram perdoados os delitos e a quem foram cobertos os pecados! 8Feliz o homem a quem o Senhor não tem em conta o pecado!

    «Todos pecaram e estão privados da glória de Deus. Sem o merecerem, são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus» (Rm 3, 23-24). Foi esta a conclusão a que chegou Paulo, depois de analisar o mundo religioso judaico e o mundo religioso pagão, e a redenção realizada por Deus em Jesus Cristo. Assim fica provada a sua tese de que Deus salva por meio da fé e antes das obras. A figura de Abraão, nosso pai na fé, ilustra a verdade da salvação pela fé. Gn 22 narra como o Patriarca, submetido à prova, respondeu com um esplêndido acto de obediência. Mas, já antes, Deus lhe tinha feito a promessa, que acolheu na fé (cf. Gn 15). Assim, em Abraão, a fé precedeu claramente as obras, e as suas obras são fruto da fé: «Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça» (v. 3). Também o exemplo de David, a quem foram perdoadas as culpas, independentemente das suas boas obras, é significativo.

    Evangelho: Lucas 12, 1-7

    Naquele tempo, 1a multidão tinha-se ajuntado por milhares, a ponto de se pisarem uns aos outros. Jesus começou a dizer primeiramente aos seus discípulos:«Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. 2Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a conhecer-se. 3Porque tudo quanto tiverdes dito nas trevas há-de ouvir-se em plena luz, e o que tiverdes dito ao ouvido, em lugares retirados, será proclamado sobre os terraços. 4Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. 5Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar na Geena. Sim, Eu vo-lo digo, a esse é que deveis temer. 6Não se vendem cinco pássaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus. 7Mais ainda, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. Não temais: valeis mais do que muitos pássaros.

    Os «ai de vós» dirigidos por Jesus aos fariseus e doutores da lei têm por objectivo alertar os discípulos para a necessidade de se defenderem da hipocrisia farisaica. Não se trata de avisos de natureza moral. Lucas escreve a comunidades que vêem chegar ao fim o tempo apostólico sem que se verifique a última vinda de Jesus para instaurar o Reino de Deus, a parusia. Além disso, essas comunidades estão ameaçadas por perseguições e por falsas doutrinas. Põe-se o problema da perseverança e da fidelidade. Lucas solicita aos cristãos um comportamento marcado pela autenticidade e pela clareza (vv. 2s.) e oferecendo-lhes uma palavra de consolação que se torna convite à confiança em Deus (vv. 4-7).
    Os cristãos, ao contrário dos fariseus, devem fazer com que as suas palavras correspondam ao que pensam e sentem, professando abertamente e sem medo a sua fé, custe o que custar, porque «nada há encoberto que não venha a descobrir‑se» (v.2). Quando vier o Filho do homem cairão por terra as astúcias e mentiras que se tornarão causa de condenação e não de salvação. O verdadeiro risco que os cristãos correm, no meio das perseguições, não é perder a vida do corpo, mas, sim, a vida verdadeira, a vida eterna. Lucas já tinha lembrado, ao apresentar as condições para o seguimento de Jesus que «quem quiser salvar a sua vida há-de perdê‑la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá‑la» (9, 24). Por outro lado, porque não havemos de nos abandonar a este Deus que cuida com amor das suas criaturas mais insignificantes (vv. 6s.)?

    Meditatio

    A tradição hebraica apresentava Abraão como modelo da obediência da fé, como o justo por excelência, porque não hesitou em oferecer a Deus o sacrifício do seu filho único. Mas Paulo afirma que o Patriarca foi justificado, ainda antes de oferecer Isaac em sacrifício, pela sua fé na promessa de Deus, porque esperou «contra toda a esperança». Só a fé justifica, isto é, nos torna santos diante de Deus, fonte de toda a santidade e justiça. Mas esta fé não é uma atitude passiva. Leva-nos a estar bem vivos, para acreditarmos contra toda a evidência.
    Jesus também convida os seus ouvintes a uma atitude de confiança e de abandono incondicional diante de Deus Pai. Ele cuida de nós com uma ternura atenta, a que nenhum pormenor pode escapar. Até os cabelos da nossa cabeça estão contados. Somos pois chamados a contemplar Deus sempre presente e activo na nossa vida e na nossa história. Assim se assume a obediência da fé e se alcança o fruto da paz. Nada nem ninguém pode fazer mal a quem crê. Paulo aproxima ao tema da fé o tema do perdão dos pecados. Ao fim e ao cabo, que é o pecado se não uma tentativa deliberada dos nos pôr à margem do olhar bondoso e amigo de Deus, para, usando mal a liberdade, tentar afirmar-nos? Se o ícone do pecador é o "filho pródigo" que parte para longe do pai, o ícone do crente é Jesus, o Filho muito amado que, no meio dos tormentos da paixão, se agarra confiadamente ao Pai e se entrega nas suas mãos: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23, 46). Só nestas circunstâncias o amor pode cantar a vitória que o torna mais forte do que a morte. O supremo grito de confiança de Jesus na Cruz manifesta a união de amor entre o Pai e o Filho.

    Oratio

    Pai santo, a gratuidade da justiça, que ofereces a quem crê, torna-se mais evidente quando o destinatário é um pecador, como eu. No entanto, proclamas bem-aventurados aqueles a quem foi perdoada a falta. Assim compreendo que, para ser salvo, basta aderir com um acto de fé a Ti, ao teu dom gratuito, à tua justiça que purifica e faz de mim um pecador perdoado. Obrigado, Senhor! Obrigado pelo teu amor. Basta-me acolhê-lo, e deixar que cuide de mim, para ser salvo. Senhor, aumenta a minha fé! Amen.

    Contemplatio

    Por volta da nona hora, Jesus gritou com voz forte: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?» É a agonia do
    coração, o grito de extrema angústia: abandonado! É como o inferno, a pena de dano, a pena das penas para o condenado o qual, perdendo Deus, tudo perdeu. Jesus exprimiu este lamento da sua natureza para escusar as nossas lamentações e os nossos desânimos, e para nos fortificar mostrando-nos que sofreu mais do que nós, Ele a inocência mesma, para expiar as nossas faltas em nosso lugar. Ele quer ensinar-nos também a suportar as aridezes, os desânimos, na paciência e na humildade. Depois disto, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para que a Escritura se cumprisse, disse: «Tenho sede». E deram-lhe vinagre numa esponja. Mas o que lhe oprimia mais, era a sede do coração, a sede de realizar o seu sacrifício, para cumprir a Redenção, a sede das almas, a sede de ser amado. Ele tem sede hoje do meu arrependimento, da minha conversão, da salvação dos pecadores. Que hei-de fazer para saciar esta sede? Jesus diz ainda: «Tudo está consumado!», isto é: tudo o que pude fazer por vós, fi-lo. Dei tudo, tudo sacrifiquei, pela vossa salvação, por vosso amor, reclamo o vosso coração. Não tenho direito a isso? Tudo está consumado, tende confiança. A salvação foi-vos adquirida, basta que queirais aproveitar-vos dela. As fontes da graça estão abertas, a Igreja está fundada. O resgate está pago, tudo está pronto. Lançai-vos nestes braços abertos para a união da graça esperando a consumação da glória. /363
    «Meu Pai, entrego nas vossas mãos a minha alma». É a última palavra de Jesus. Ele não sofre a morte. Depõe a vida para a retomar. Ninguém lha pode arrebatar, é Ele mesmo que a entrega (Jo 10, 17). É a hora suprema do sacrifício do redentor. (Leão Dehon, OSP 3, p. 362s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje esta palavra:
    «Abraão acreditou em Deus
    e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça» (Rm 4, 3).

  • 29º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    29º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    22 de Outubro, 2023

    Ano A
    29º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    Tema do 29º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum convida-nos a reflectir acerca da forma como devemos equacionar a relação entre as realidades de Deus e as realidades do mundo. Diz-nos que Deus é a nossa prioridade e que é a Ele que devemos subordinar toda a nossa existência; mas avisa-nos também que Deus nos convoca a um compromisso efectivo com a construção do mundo.
    O Evangelho ensina que o homem, sem deixar de cumprir as suas obrigações com a comunidade em que está inserido, pertence a Deus e deve entregar toda a sua existência nas mãos de Deus. Tudo o resto deve ser relativizado, inclusive a submissão ao poder político.
    A primeira leitura sugere que Deus é o verdadeiro Senhor da história e que é Ele quem conduz a caminhada do seu Povo rumo à felicidade e à realização plena. Os homens que actuam e intervêm na história são apenas os instrumentos de que Deus se serve para concretizar os seus projectos de salvação.
    A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã que colocou Deus no centro do seu caminho e que, apesar das dificuldades, se comprometeu de forma corajosa com os valores e os esquemas de Deus. Eleita por Deus para ser sua testemunha no meio do mundo, vive ancorada numa fé activa, numa caridade esforçada e numa esperança inabalável.

    LEITURA I - Is 45,1.4-6

    Leitura do Livro de Isaías

    Assim fala o Senhor a Ciro, seu ungido,
    a quem tomou pela mão direita,
    para subjugar diante dele as nações
    e fazer cair as armas da cintura dos reis,
    para abrir as portas à sua frente,
    sem que nenhuma lhe seja fechada:
    «Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito,
    Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso,
    quando ainda não Me conhecias.
    Eu sou o Senhor e não há outro;
    fora de Mim não há Deus.
    Eu te cingi, quando ainda não Me conhecias,
    para que se saiba, do Oriente ao Ocidente,
    que fora de Mim não há outro.
    Eu sou o Senhor e mais ninguém».

    AMBIENTE

    O texto que hoje nos é proposto pertence ao "Livro da Consolação" do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). "Deutero-Isaías" é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilónia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C.
    Durante o reinado de Nabónides, rei da Babilónia, desponta na Pérsia uma nova estrela da política internacional... Em 553 a.C., Ciro, rei dos Persas, conquista a capital da Média (Ecbátana) e junta no mesmo império os Medos e os Persas. Depois (547 a.C.), marcha contra a Lídia, conquista Sardes e apodera-se da maior parte da Ásia Menor. Nos anos seguintes, uma série de vitórias fulgurantes dão-lhe o domínio do Irão oriental, do Afeganistão e do Turquestão, até à Índia. Fortalecido em ouro e em homens dirige, em seguida, os seus exércitos contra a Babilónia e, em 539 a.C., entra vitorioso na capital babilónica onde, sem qualquer oposição, é recebido como libertador.
    A actividade profética do Deutero-Isaías desenvolve-se nos anos que precederam a entrada vitoriosa de Ciro na Babilónia... As notícias que chegam sobre as vitórias de Ciro fazem os exilados sonhar com a proximidade da libertação do cativeiro. À alegria pela libertação iminente junta-se, no entanto, alguma confusão e perplexidade... Então o libertador não vai sair do meio do Povo de Deus, mas é um rei estrangeiro? E quando a libertação acontecer, a quem deve ser atribuída: a Jahwéh, o Deus dos exilados judeus, ou a Marduk, o deus de Ciro? Jahwéh ter-se-á desinteressado do seu Povo? Ou terá perdido o seu poder?
    Trata-se de um problema teológico sério que, em última análise, pode determinar a manutenção ou não da fé do Povo em Jahwéh. O Deutero-Isaías vai procurar esclarecer esta questão e explicar o papel de Jahwéh nos acontecimentos.

    MENSAGEM

    O Deutero-Isaías não tem dúvidas: Jahwéh é o verdadeiro condutor de todo o processo que vai culminar na libertação do Povo de Deus. Ciro, o grande rei que se apresta para derrubar o orgulhoso poderio babilónico, é "o ungido" (no original hebraico: "o messias"; em grego: "o cristo") de Jahwéh. Dizer que Ciro é "o ungido" significa dizer que ele recebeu a "unção" com óleo; e que, através dessa "unção", Ciro recebeu o Espírito de Deus e foi investido para uma missão. No Antigo Testamento, a unção com óleo capacita o "ungido" seja para a missão real (cf. 2 Sam 5,3), seja para a missão sacerdotal (cf. Ex 29,7), seja para a missão profética (cf. 1 Re 19,16; Is 61,1). Aqui trata-se, evidentemente, da missão real... Portanto, Deus escolheu Ciro, derramou sobre ele o seu Espírito e concedeu-lhe a insígnia do poder ("cingi-te" - vers. 5) para que ele, desempenhando a sua missão real, se tornasse o instrumento de Deus no mundo.
    O que é que, em concreto, Jahwéh pede a Ciro? Qual a missão que Ele lhe confia?
    Ciro foi designado por Deus para "subjugar as nações", "fazer cair as armas das cinturas dos reis", "abrir as portas à sua frente sem que nenhuma lhe seja fechada". As expressões utilizadas pelo Deutero-Isaías situam a missão confiada por Deus a Ciro no âmbito político-militar... No entanto, o que é aqui preponderante é que essa missão deve concretizar-se em benefício do Povo de Deus: se Deus chamou Ciro "pelo nome", lhe deu "um título glorioso" e lhe confiou o poder sobre as nações foi, nas palavras de Jahwéh, "por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito...". Ciro aparece, claramente, como o instrumento através do qual Deus actua no mundo e na história e realiza os seus projectos de salvação e de libertação do seu Povo. É através dos homens que Deus intervém no mundo.
    De resto, o Deutero-Isaías deixa claro que só Jahwéh é o Senhor da história e que, fora d'Ele, não há Deus. É verdade que Ciro ainda não conhece Jahwéh; mas, sem o saber, ele está a realizar o projecto do Senhor.
    Portanto, é a Jahwéh e não a Marduk que os exilados devem agradecer a sua libertação. Embora servindo-se de um rei estrangeiro, Jahwéh vai mostrar a Judá que é, definitivamente, esse Deus salvador e libertador, em quem o Povo pode sempre confiar.

    ACTUALIZAÇÃO

    Considerar os seguintes dados, na reflexão e partilha:

    • Também nós - como os exilados de Judá - ficamos, tantas vezes, perplexos
    e inquietos diante dos acontecimentos do nosso tempo. Não percebemos o significado nem o alcance de certos eventos e não conseguimos saber para onde é que a história nos conduz. Sentimo-nos perdidos, assustados, à deriva, como barco sem leme... E, para além disso, Deus parece manter-se em silêncio, assistindo calmamente e sem mexer um dedo, aos dramas que marcam o ritmo da nossa caminhada. Perguntamo-nos: onde está Deus, quando a história humana parece percorrer caminhos tão ínvios? Ele preocupa-Se, realmente, com os homens? Qual o seu papel na condução dos destinos do mundo? Porque é que Ele deixa que os homens destruam o planeta, inventem esquemas sofisticados de destruição e de morte, cultivem a exploração e a injustiça, mantenham tantos homens, mulheres e crianças amarrados à miséria e à escravidão? A primeira leitura deste domingo garante-nos: Deus nunca abandona os homens. Ele encontra sempre formas de intervir na história e de concretizar os seus projectos de vida, de salvação, de libertação... Talvez as intervenções de Deus nem sempre sejam ortodoxas à luz da lógica dos homens; talvez nem sempre consigamos perceber o verdadeiro alcance dos projectos de Deus; mas Deus lá está, como Senhor da história, conduzindo o mundo de acordo com o projecto de vida que Ele tem para os homens e para o mundo. Resta-nos, mesmo quando não percebemos os seus critérios, confiarmos e entregarmo-nos nas suas mãos.

    • Normalmente, Deus não intervém na história através de manifestações impressionantes, espectaculares, caídas do céu, que se impõem como verdades infalíveis e que deixam os homens espantados... Deus actua no mundo com simplicidade e discrição, através de pessoas - muitas vezes pessoas limitadas, pecadoras, "normais" - a quem Ele chama e a quem Ele confia uma missão. O que é fundamental é que cada homem ou cada mulher que Deus chama esteja disponível para acolher esse chamamento e para aceitar ser instrumento de Deus na construção de um mundo novo.

    • Aqueles que detêm responsabilidades na condução das comunidades (civis ou religiosas) devem procurar, através de um diálogo contínuo e próximo com Deus, perceber os seus projectos e planos para o mundo e para os homens. Só assim poderão ser instrumento de Deus na construção de um mundo melhor.

    • Ciro, frustrando todas as expectativas do Povo de Deus, é um pagão que "não conhecia" Jahwéh... Apesar disso (de acordo com a catequese do Deutero-Isaías), foi ele quem Deus escolheu como seu instrumento a fim de concretizar os seus projectos em favor do seu Povo. Deus pode servir-Se daquele que é pecador e marginal aos olhos do mundo para oferecer aos homens a vida e a salvação. O que interessa não são as "qualidades" do intermediário, mas a força de Deus. É necessário ter isto presente... Se conseguimos fazer algo para tornar o mundo um pouco melhor, isso não se deve às nossas brilhantes qualidades, mas a esse Deus que age por nosso intermédio.

    • A escolha de Ciro significa também a denúncia de uma perspectiva fechada, nacionalista, racista, de Deus e dos seus projectos. Ninguém tem o monopólio de Deus ou da missão... Deus é totalmente livre de chamar quem quiser, quando quiser e como quiser - seja de que raça for, de que extracto social for, ou sejam quais forem os seus antecedentes religiosos. Certos cristãos que se sentem os únicos detentores da autoridade e da missão e que se ficam quase ofendidos quando aparece alguém a fazer algo de diferente na paróquia, deviam ter isto em conta.

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 95 (96)

    Refrão: Aclamai a glória e o poder do Senhor.

    Cantai ao Senhor um cântico novo,
    cantai ao Senhor, terra inteira.
    Publicai entre as nações a sua glória,
    em todos os povos as suas maravilhas.

    O Senhor é grande e digno de louvor,
    mais temível que todos os deuses.
    Os deuses dos gentios não passam de ídolos,
    foi o Senhor quem fez os céus.

    Dai ao Senhor, ó família dos povos,
    dai ao Senhor glória e poder.
    Dai ao Senhor a glória do seu nome,
    levai-Lhe oferendas e entrai nos seus átrios.

    Adorai o Senhor com ornamentos sagrados,
    trema diante d'Ele a terra inteira.
    Dizei entre as nações: «O Senhor é rei»,
    governa os povos com equidade.

    LEITURA II - 1 Tes 1,1-5b

    Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses

    Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses,
    que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo:
    A graça e a paz estejam convosco.
    Damos continuamente graças a Deus por todos vós,
    ao fazermos menção de vós nas nossas orações.
    Recordamos a actividade da vossa fé,
    o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança
    em Nosso Senhor Jesus Cristo,
    na presença de Deus, nosso Pai.
    Nós sabemos, irmãos amados por Deus,
    como fostes escolhidos.
    O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras,
    mas também com obras poderosas,
    com a acção do Espírito Santo.

    AMBIENTE

    Tessalónica era, no século I da nossa era, a cidade mais importante da Macedónia. Importante porto marítimo e cidade de intenso comércio, era uma encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com todo o tipo de propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo.
    Tessalónica foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalónica acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade de Filipos. O tempo de evangelização foi curto - talvez uns três meses; mas foi o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída maioritariamente por pagãos convertidos. No entanto, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reacção da colónia judaica... Os judeus acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade (cf. Act 17,5-9). Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas (cf. Act 17,10-15).
    Entretanto, Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de Tessalónica ainda deixava muito a desejar. A jovem comunidade, fundada há pouco tempo e ainda insuficientemente catequizada, estava quase desarmada nesse contexto adverso de perseguição e de provação (cf. 1 Tes 3,1-10). Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalónica, a fim de saber notícias e encorajar os tessalonicenses na fé (cf. 1 Tes 3,2-5). Quando Timóteo voltou e apresentou o seu relatório, Paulo estava em Corinto. Confortado pelas informações dadas por Timóteo, o apóstolo d
    ecidiu escrever aos cristãos de Tessalónica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns aspectos menos exemplares da vida da comunidade.
    A Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou 51.
    O texto que nos é proposto apresenta-nos o endereço da carta ("Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo" - 1 Tes 1,1) e um extracto de uma longa oração colocada no início da carta, na qual Paulo dá graças a Deus pelo comportamento exemplar dos tessalonicenses: apesar das provas que tiveram de suportar, permanecem fiéis ao Evangelho e ao ensino de Paulo (cf. 1 Tes 1,2-3,13).

    MENSAGEM

    O verbo principal do nosso texto é o verbo grego "eukharistéô"("dar graças"); todos os outros verbos que aparecem são secundários. Assim, fica logo claro quais os sentimentos e qual a atitude fundamental de Paulo, Silvano e Timóteo, os remetentes da carta: eles estão profundamente agradecidos e reconhecidos a Deus. Porquê?
    Porque a acção de Deus se nota claramente na vida diária da comunidade cristã de Tessalónica. Diante da proposta do Evangelho, os tessalonicenses responderam generosamente, com uma fé activa, uma caridade esforçada e uma esperança firme (vers. 3). A "fé activa" traduz a realidade de uma adesão ao Evangelho que não se manifesta só em palavras, mas também em atitudes concretas de conversão e de transformação; a "caridade esforçada" dá conta de um amor que não é teórico mas é efectivo, e que se traduz em gestos de entrega, de partilha, de doação; e a "esperança firme" define essa confiança inabalável dos tessalonicenses em Deus e na vida nova que Ele reserva àqueles que O amam - confiança que, nem a hostilidade do mundo, nem as dificuldades da vida conseguem deitar por terra.
    Na verdade, tudo isto resulta do facto de os tessalonicenses terem sido "escolhidos" por Deus (vers. 4). No Antigo Testamento, a "eleição" é um privilégio de Israel, escolhido por Deus de entre os outros povos, não em virtude dos seus méritos particulares, mas como resultado da graça e do amor de Deus; agora, são as comunidades cristãs de origem pagã que são objecto do mesmo privilégio, que tem a sua fonte no amor gratuito do Deus salvador.
    O Evangelho que Paulo, Silvano e Timóteo anunciaram aos tessalonicenses não foi um discurso feito de belas palavras, mas inconsequente; foi uma Boa Nova de Deus, poderosa e transformadora, que encontrou eco no coração dos tessalonicenses que, pela acção do Espírito Santo, deu frutos de fé, de amor e de esperança (vers. 5a.b).
    É por tudo isto que Paulo, Silvano e Timóteo louvam o Senhor.

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão e na partilha, considerar os seguintes elementos:

    • Hoje, uma comunidade cristã que viva, com fidelidade e entusiasmo, a fé, a esperança e a caridade, não será notícia; em contrapartida, os meios de comunicação social explorarão, com gosto, a vida de uma comunidade cristã marcada pelos escândalos, pelos dramas, pelas infidelidades... Tornamo-nos progressivamente insensíveis às coisas bonitas e boas e só nos deixamos impressionar pelo espampanante, pelo escandaloso, por aquilo que chama a atenção por razões negativas. O nosso texto convida-nos, antes de mais, a repararmos nos testemunhos de fé, de amor e de esperança que encontramos à nossa volta e a vermos aí a presença e a acção de Deus no mundo.

    • O nosso texto convida-nos, depois, a renovar e potenciar a nossa capacidade de louvar e de agradecer a Deus. Ao contemplarmos tantos gestos de bondade, de amor, de doação, de solidariedade que, em geral, acontecem no mundo e que, em particular, enchem as vidas das nossas comunidades cristãs, não podemos deixar de ver aí a presença amorosa de Deus... Teremos sempre a capacidade de agradecer a Deus a sua presença e a sua acção no mundo, na vida das nossas comunidades cristãs ou religiosas, na vida das nossas famílias e de cada um de nós?

    • O exemplo da comunidade cristã de Tessalónica interpela-nos e questiona-nos... É uma comunidade que, apesar de uma catequese incipiente e de um ambiente hostil, abraçou com entusiasmo o Evangelho e concretizou a proposta de Jesus na vida do dia a dia, através de uma fé activa, de um amor esforçado e de uma esperança firme. Nós, seguidores de Jesus, depois de muitos anos de catequese e de compromisso com Jesus, como vivemos o nosso compromisso cristão: com um entusiasmo sempre renovado e sempre coerente, ou com o desleixo e a indiferença de quem não se quer comprometer? A nossa fé não é apenas uma questão de palavras, mas leva-nos a um efectivo compromisso com a transformação da nossa vida, da nossa família, da nossa comunidade ou do mundo que nos rodeia? O nosso amor traduz-se em atitudes concretas de partilha, de doação, de solidariedade, de luta contra tudo o que oprime os pequenos, os débeis, os marginalizados? A nossa esperança mantém-nos serenos e confiantes, de olhos postos nesse futuro novo que Deus nos reserva, apesar das vicissitudes, das dificuldades, das incompreensões que dia a dia temos de enfrentar?

    ALELUIA - Filip 2,15d.16a

    Aleluia. Aleluia.

    Vós brilhais como estrelas no mundo,
    ostentando a palavra da vida.

    EVANGELHO - Mt 22,15-21

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    os fariseus reuniram-se para deliberar
    sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.
    Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos,
    juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe:
    «Mestre, sabemos que és sincero
    e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus,
    sem Te deixares influenciar por ninguém,
    pois não fazes acepção de pessoas.
    Diz-nos o teu parecer:
    É lícito ou não pagar tributo a César?».
    Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu:
    «Porque Me tentais, hipócritas?
    Mostrai-me a moeda do tributo».
    Eles apresentaram-Lhe um denário,
    e Jesus perguntou:
    «De quem é esta imagem e esta inscrição?».
    Eles responderam: «De César».
    Disse-lhes Jesus:
    «Então, daí a César o que é de César
    e a Deus o que é de Deus».

    AMBIENTE

    O nosso texto situa-nos em Jerusalém, o local onde vai desenrolar-se o confronto final entre Jesus e o judaísmo. De um lado estão os dirigentes judeus: instalados nas suas certezas e preconceitos, recusam-se terminantemente a acolher a proposta do Reino. Do outro lado está Jesus: Ele procura que os dirigentes do seu Povo tomem consciência de que, ao
    recusar o Reino, estão a recusar a oferta de salvação que Deus lhes faz.
    Para ilustrar a situação, Jesus conta-lhes três parábolas (que lemos e meditámos nos últimos três domingos). Na primeira, identifica-os com o filho que disse "sim" ao seu pai, mas que não foi trabalhar no campo (cf. Mt 21,28-32); na segunda, equipara-os aos vinhateiros maus que tiveram a ousadia de matar o filho (cf. Mt 21,33-46); na terceira, compara-os com os convidados para o banquete que rejeitaram o convite (cf. Mt 22,1-14). Irritados com a ousadia de Jesus e questionados pelas suas comparações, os líderes judaicos procuram ansiosamente um pretexto para o acusar.
    É neste contexto que Mateus nos vai apresentar três controvérsias entre Jesus e os fariseus (cf. Mt 22,15-22.23-33.34-40). Em qualquer caso, o objectivo é surpreender afirmações controversas e encontrar argumentos para apresentar em tribunal contra Jesus.
    A primeira questão que os fariseus, aliados com os partidários de Herodes Antipas, põem a Jesus é muito delicada. Diz respeito à obrigação de pagar os tributos ao imperador de Roma...
    Além dos impostos indirectos (portagens, direitos alfandegários, taxas várias), as províncias romanas pagavam ao Império o tributo, que era uma quantia estipulada por Roma e que todos os habitantes do Império (com excepção das crianças e dos velhos) deviam pagar. Era considerado um sinal infamante da sujeição a Roma. A questão que põem a Jesus é, portanto, esta: é lícito pactuar com esse sistema gerador de escravidão e de injustiça?
    Os partidários de Herodes e os saduceus (a alta aristocracia sacerdotal) estavam perfeitamente de acordo com o tributo, pois aceitavam naturalmente a sujeição a Roma. Os movimentos revolucionários, no entanto, estavam frontalmente contra, pois consideravam o imperador um usurpador do poder que só pertencia a Jahwéh e interditavam aos seus partidários o pagamento do dito tributo. Os fariseus, embora não aceitando o tributo, tinham uma posição intermédia e não propunham uma solução violenta para a questão...
    De qualquer forma, era uma questão "armadilhada". Se Jesus se pronunciasse a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo e de defender a usurpação pelos romanos do poder que pertencia a Jahwéh; mas se Jesus se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de revolucionário, inimigo da ordem romana...
    Como é que Jesus vai resolver a questão?

    MENSAGEM

    Confrontado com a questão, Jesus convidou os seus interlocutores a mostrar a moeda do imposto e a reconhecerem a imagem gravada na moeda (a imagem de César). Depois, Jesus concluiu: "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (vers. 21). O que é que esta afirmação significa? Significa uma espécie de repartição equitativa das obrigações do homem entre o poder político e o poder religioso?
    Provavelmente, Jesus quis sugerir que o homem não pode nem deve alhear-se das suas obrigações para com a comunidade em que está integrado. Em qualquer circunstância, ele deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum. A isso, chama-se "dar a César o que é de César".
    No entanto, o que é mais importante é que o homem reconheça a Deus como o seu único senhor. As moedas romanas têm a imagem de César: que sejam dadas a César. O homem, no entanto, não tem inscrita em si próprio a imagem de César, mas sim a imagem de Deus (cf. Gn 1,26-27: "Deus disse: 'façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança'... Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus"): portanto, o homem pertence somente a Deus, deve entregar-se a Deus e reconhecê-l'O como o seu único senhor.
    Jesus vai muito além da questão que Lhe puseram... Recusa-Se a entrar num debate de carácter político e coloca a questão a um nível mais profundo e mais exigente. Na abordagem de Jesus, a questão deixa de ser uma simples discussão acerca do pagamento ou do não pagamento de um imposto, para se tornar um apelo a que o homem reconheça Deus como o seu senhor e realize a sua vocação essencial de entrega a Deus (ele foi criado por Deus, pertence a Deus e transporta consigo a imagem do seu senhor e seu criador). Jesus não está preocupado, sequer, em afirmar que o homem deve repartir equitativamente as suas obrigações entre o poder político e o poder religioso; mas está, sobretudo, preocupado em deixar claro que o homem só pertence a Deus e deve entregar toda a sua existência nas mãos de Deus. Tudo o resto deve ser relativizado, inclusive a submissão ao poder político.

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão, considerar as seguintes questões:

    • A questão essencial que o nosso texto aborda é esta: o homem pertence a Deus e deve considerar Deus o seu único senhor e a sua referência fundamental. No entanto, embriagados pelo turbilhão das liberdades e das novas descobertas, os homens do nosso tempo consideraram que eram capazes de descobrir, por si próprios, os caminhos da vida e da felicidade e que podiam prescindir de Deus... Instalaram-se no orgulho e na auto-suficiência e deixaram Deus de fora das suas vidas. É preciso voltarmos a Deus e redescobrirmos a sua centralidade na nossa existência. Deus não atenta contra a nossa identidade e a nossa liberdade. Fomos criados para a comunhão com Deus e só nos sentiremos felizes e realizados quando nos entregarmos confiadamente nas suas mãos e fizermos d'Ele o centro da nossa caminhada.

    • Em muitos casos, Deus foi apenas substituído por outros "deuses": o dinheiro, o poder, o êxito, a realização profissional, a ascensão social, o clube de futebol... tomaram o lugar de Deus e passaram a dirigir e a condicionar a vida de tantos dos nossos contemporâneos. Quase sempre, no entanto, essa troca trouxe, apenas, escravidão, alienação, frustração e sentimentos de solidão e de orfandade... Como me sinto face a isto? Há outros deuses a tomarem posse da minha vida, a condicionarem as minhas opções, a dirigirem os meus interesses, a dominarem os meus projectos? Quais são esses deuses? Eles asseguraram-me a felicidade e a plena realização, ou tornam-me cada vez mais escravo e dependente?

    • O homem e a mulher foram criados à imagem de Deus. Eles não são, portanto, objectos que podem ser usados, explorados e alienados, mas seres revestidos de uma suprema dignidade, de uma dignidade divina. Apesar da Declaração Universal dos Direitos do Homem e de uma infinidade de organizações e de associações destinadas a proteger e a assegurar os direitos, liberdades e garantias, há milhões de homens, mulheres e crianças que continuam, todos os dias, a ser maltratados, humilhados, explorados, desprezados, diminuídos na sua dignidade. Destruir a imagem de Deus que existe em cada criança, mulher ou homem, é um grave crime contra Deus. Nós, os cristãos, não podemos permitir que tal aconteça. Devemos sentir-nos responsáveis sempre que algum irmão ou irmã, em qualquer canto do mundo, é privado dos seus direitos e da sua dignidade; e temos o dever grave de lutar, de forma objectiva, contra todos os sistemas que, na Igreja ou na sociedade, atentem contra a vida e a dignidade de qualquer pessoa.

    • Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar; mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e se demita das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser um cidadão exemplar, que cumpre as suas responsabilidades e que colabora activamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge aos impostos, não aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras legalmente definidas. Vive de olhos postos em Deus; mas não se escusa a lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

    • Como é que eu me situo face ao poder político e às instituições civis: com total indiferença, com sujeição cega, ou com lealdade crítica? Como é que eu contribuo para a construção da sociedade? À luz de que critérios e de que valores julgo os factos, as decisões, as leis políticas e sociais que regem a comunidade humana em que estou inserido? As minhas opções políticas são coerentes com os critérios do Evangelho e com os valores de Jesus?
    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM
    (adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 29º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
    No momento da oração universal, sobretudo neste domingo em que se celebra o Dia Missionário Mundial, poderá ser expressa a atenção às coisas do mundo, em nome da nossa fé em Deus.

    3. PALAVRA DE VIDA.
    O Dia Mundial das Missões deveria manter-nos acordados. Será que, sim ou não, nós acreditamos que a mensagem de Cristo se dirige a todos os homens dos cinco continentes, quaisquer que sejam a sua situação, as suas alegrias, os seus sofrimentos, as suas questões, os seus projectos? Se a mensagem de Cristo é universal, é necessário que aqueles que dela beneficiaram não a guardem só para si, mas devem anunciá-la, gritá-la, e dar àqueles que partiram para a anunciar os meios de a fazer conhecer. Esta mensagem não consiste apenas em palavras para escutar, mas numa Palavra que faz viver, que volta a erguer, que dá felicidade. Então, estejamos preocupados com a propagação do Evangelho em toda a parte e para todos.

    4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
    Programar uma partilha do Evangelho... De vez em quando, será bom programar uma partilha de Evangelho. Trata-se essencialmente, entre algumas pessoas, de dizer o que o texto do Evangelho evoca, de que modo fala a cada um: não se trata de uma discussão, mas de uma verdadeira partilha. Como proceder? Primeiro, desde o início da celebração, é útil advertir que haverá uma partilha para aqueles que quiserem: este anúncio prévio permite uma escuta mais atenta dos textos; será ainda melhor se as pessoas puderem ter o texto nas mãos. De seguida, o grupo que se forma espontaneamente não deve exceder quatro ou cinco pessoas, a fim de que cada um se possa exprimir. É bom indicar o tempo de que se dispõe (cerca de 10 minutos no total). Pode-se orientar a reflexão colocando uma ou duas questões. O essencial, durante a partilha, é que cada um tenha a palavra e se possa exprimir e que todos possam escutar e enriquecer-se com o que os outros dizem.

    5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE...
    Dizer a nossa felicidade a outros... Cabe a cada um fazer o ponto da situação sobre a missão precisa que lhe confere o seu baptismo, no seu lugar de vida. Suscitar esta semana uma ocasião de a testemunhar explicitamente. «Dar a Deus o que é de Deus» é dizer também a outros a felicidade que nos é dada pelo Altíssimo!

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Segunda-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Segunda-feira

    23 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 4, 20-25

    Irmãos: diante da promessa de Deus, Abraão não duvidou por falta de fé. Pelo contrário, tornou-se mais forte na fé e deu glória a Deus, 21plenamente convencido de que Ele tinha poder para realizar o que tinha prometido. 22Esta foi exactamente a razão pela qual isso lhe foi atribuído à conta de justiça. 23Não é só por causa dele que está escrito foi-lhe atribuído, 24mas também por causa de nós, a quem a fé será tida em conta, nós que acreditamos naquele que ressuscitou dos mortos Jesus, Senhor nosso, 25entregue por causa das nossas faltas e ressuscitado para nossa justificação.

    Paulo concentra-se, agora, na fé de Abraão e na sua relação com a promessa de Deus. Nos versículos 20 a 22, sublinha a caminhada decidida e corajosa do Patriarca para a salvação por meio da fé. Nos versículos seguintes (23 a 25), dirige-se aos cristãos de Roma, e a todos nós, filhos de Abraão na fé, para acentuar que somos chamados a acreditar em Deus, capaz de ressuscitar os mortos. Abraão «não duvidou» diante da promessa de Deus, «pelo contrário, tornou-se mais forte na fé» (v. 20). O Patriarca sabe que não tem qualquer mérito diante de Deus, que tudo Lhe deve, e que Ele não falta às suas promessas. Por isso, confia n´Ele e se confia a Ele, tornando-se um claro exemplo e estímulo para nós, como pessoas e como comunidades. Como Abraão, estamos envolvidos pelo projecto salvador de Deus, e pelo mistério pascal de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, «Senhor nosso, entregue por causa das nossas faltas e ressuscitado para nossa justificação» (v. 24s.). Esta dinâmica salvífica não é apenas objecto de fé, mas, em primeiro lugar, fonte de graça e de salvação. A nossa fé, que é um reconhecimento da nossa indigência, e uma aceitação da salvação oferecida pela força de Deus, refere-se essencialmente ao grande acontecimento que é a ressurreição de Cristo, primícias e garantia da ressurreição dos crentes.

    Evangelho: Lucas 12, 13-21

    Naquele tempo, alguém do meio multidão disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» 14Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» 15E prosseguiu: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.» 16Disse-lhes, então, esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. 17E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: 'Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?' 18Depois continuou: 'Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. 19Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.' 20Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?' 21Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.»

    Ao contar o episódio do pedido que alguém faz a Jesus para que resolva uma questão familiar, Lucas introduz a parábola do homem rico cujo campo produzira com abundância. Esse homem decide demolir os celeiros, construir outros e, depois de recolher todos os bens, pensa viver muitos anos sossegado a usufruir deles sozinho. Mas Deus não aceita a sua insensatez, fazendo-lhe ver que é Ele o senhor da vida e que, de um momento para o outro (sempre muito em breve!), o rico avarento será chamado a dar contas dela.
    O texto termina com uma afirmação sapiencial muito forte: «Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus» (v. 21). Quem pensa acumular bens para enriquecer unicamente em vista de si mesmo é insensato; diante de Deus só se enriquece vivendo o preceito do amor. Só quem dá se torna verdadeiramente rico, recebendo o amor de Deus e a vida eterna.

    Meditatio

    Na primeira leitura, Paulo retoma a figura de Abraão, que «não duvidou por falta de fé, mas se tornou mais forte na fé e deu glória a Deus» (v. 20), apesar da realização da promessa divina estar bastante longe da evidência, e da falta de garantias visíveis quanto à herança futura. Também o cristão é chamado à fé. Mas, ao contrário de Abraão, já viu realizadas em Cristo as promessas de Deus. Por isso, pode afirmar como Paulo: «sei em quem acreditei!» Em Cristo, encontramos a fonte da vida, da alegria, da paz. Participando no mistério da sua oferta, tornamo-nos cada vez mais capazes de amar, de nos entregar, de darmos glória a Deus.
    A atitude do homem rico, de que nos fala o evangelho, contrasta com a de Abraão, de Paulo e, ao fim e ao cabo, de todo o verdadeiro crente. Esse homem fundamentou a sua vida, não na fé e na confiança em Deus, mas nos bens terrenos: «Direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.» (v. 19). Abraão fundamentou a sua vida numa realidade que parecia inconsistente: uma palavra pronunciada por Alguém que não via e cuja veracidade, portanto, não podia avaliar. Mas era palavra de Deus, e foi na relação com Deus que Abraão encontrou a máxima segurança. Sendo também ele rico, e podendo viver tranquilo e seguro por muitos anos, na sua terra, preferiu obedecer a Deus e cumprir a sua vontade, certo de que a verdadeira segurança só se encontra no cumprimento da vontade de Deus.
    Na parábola evangélica, Jesus mostra que é Abraão, e todos os que adoptam uma atitude semelhante, que têm razão, e não o rico egoísta: «Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?» (v. 20). O verdadeiro tesouro do homem está na sua relação com Deus e na escuta confiante e obediente da sua palavra.
    Se já Abarão soube olhar para além do momento presente, quanto mais nós cristãos e religiosos, invadidos pelo Espírito do Ressuscitado! «Recebemos o dom da fé que dá fundamento à nossa esperança; uma fé que orienta a nossa vida e nos inspira a deixar tudo para seguir a Cristo; no meio dos desafios do mundo, devemos consolidá-la, vivendo-a na caridade» (Cst 9). «Unidos a Cristo no seu amor e oblação ao Pai (cf. Cst 16-25), somos convidados a «uma abordagem comum do mistério de Cristo» (Cst 16), como fundamento da nossa experiência de fé, da nossa vocação e vida dehoniana, com uma atenção particular ao «Lado aberto do Crucificado, contemplando o Coração de Cristo, símbolo privilegiado do seu amor» (Cst 21).

    Oratio

    Senhor, Tu és o sólido fundamento da minha existência. C
    ontigo, nada temo. Contigo, penso na morte com serenidade e paz, certo de que, ao passar por ela, encontrarei o único e sumo Bem, que és Tu.
    Que a minha vida seja testemunho para aqueles irmãos que andam a caça dos tesouros deste mundo, sacrificando, muitas vezes, a saúde, a consciência, a fé, a família, os outros, para os alcançarem. Não permitas que se deixe embriagar por uma certa mentalidade dominante, alimentada pelos mass media, pois, quem acumula tesouros não enriquece diante de Ti! Ilumina-nos a todos, para compreendermos que é procurando que encontramos, que é dando que recebemos, que é na solidariedade com os pobres que ganhamos cem vezes mais nesta terra e a vida eterna. Amen.

    Contemplatio

    Junto do pobre bairro judeu, a cidade de Heliópolis e sobretudo as de Memphis e de Tebas, eram cidades voluptuosas, com grandes fortunas adquiridas, com uma vida de luxo e de prazer. A Sagrada Família deplorava este abuso dos dons divinos e previa os castigos que a Providência infligiria ao Egipto, como ao mundo grego e romano. As palavras severas que devia escrever S. Tiago na sua epístola, encontravam-se já sem dúvida nos lábios de José e de Maria: «Ricos, chorai e lamentai-vos com o pensamento das infelicidades que vos ameaçam e dos tesouros de cólera que amontoais. Vivendo no luxo e nas delícias, engordai-vos como vítimas que se preparam para o sacrifício» (Tg 5). Será assim que Nosso Senhor mais tarde há-de chorar sobre Jerusalém. Oh! Não usemos dos bens da terra senão com sabedoria, segundo a nossa vocação. Bem-aventurados aqueles que têm espírito de pobreza! (Leão Dehon, OSP 3, p. 136s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «O que preparaste, para quem será?» (Lc 12, 20).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Terça-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Terça-feira

    24 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 5, 12.15b.17-19.20b-21

    Irmãos: tal como por um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte atingiu todos os homens, uma vez que todos pecaram. 15Se pela falta de um só todos morreram, com muito mais razão a graça de Deus, aquela graça oferecida por meio de um só homem, Jesus Cristo, foi a todos concedida em abundância. 17De facto, se pela falta de um só e por meio de um só reinou a morte, com muito mais razão, por meio de um só, Jesus Cristo, hão-de reinar na vida aqueles que recebem em abundância a graça e o dom da justiça. 18Portanto, como pela falta de um só veio a condenação para todos os homens, assim também pela obra de justiça de um só veio para todos os homens a justificação que dá a vida. 19De facto, tal como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se hão-de tornar justos. 20Onde aumentou o pecado, superabundou a graça. 21E deste modo, tal como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reina pela justiça até à vida eterna, por Jesus Cristo, Senhor nosso.

    Paulo recorda o evento que, a seu parecer, determina e justifica a fragilidade universal, a pobreza radical de todos nós diante de Deus e das exigências da sua vontade: o pecado original. Com esse pecado, entrou no mundo a morte: «Tal como por um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte atingiu todos os homens, uma vez que todos pecaram» (v. 12). A morte física, a que não podemos escapar, é imagem da morte espiritual. O Apóstolo sublinha uma dupla solidariedade, que une todos os homens: a solidariedade no mal, que ameaça fazer reinar a morte no mundo; a solidariedade no bem, que é garantia da presença de Cristo.
    A catequese de Paulo é simples e clara, graças a contraposição de Adão, por causa do qual entrou o pecado no mundo (cf. v. 12) e de Jesus, por causa do qual entrou a graça de Deus no mundo. Paulo repete este conceito nos poucos versículos do nosso texto. Assim nos leva a centrar-nos, cada vez mais, no mistério da morte e da ressurreição de Jesus, que mudou o coração dos homens e o rumo da história, uma vez que trouxe definitivamente ao mundo a graça de Deus.

    Evangelho: Lucas 12, 35-38

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 35«Estejam apertados os vossos cintos e acesas as vossas lâmpadas. 36Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar da boda, para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater. 37Felizes aqueles servos a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Em verdade vos digo: Vai cingir-se, mandará que se ponham à mesa e há-de servi-los. 38E, se vier pela meia-noite ou de madrugada, e assim os encontrar, felizes serão eles.

    «Estejam apertados os vossos cintos e acesas as vossas lâmpa­das» (v. 35). Este convite do Senhor é seguido de uma bem-aventurança: «Felizes aqueles servos» (v. 37). Esta bem-aventurança está colocada entre duas parábolas: a dos servos que esperam o seu senhor, e a do senhor que, ao regressar, em vez de se alimentar e descansar, convida os servos para a mesa e os serve. Ele mesmo!
    E vem o tema da vigilância tão frequente no ensino de Jesus. A imagem das lâmpadas lembra a parábola das 10 virgens (Mt 25, 1-13) e tem o seu contraponto no sono de Pedro, Tiago e João no jardim das Oliveiras. Eles dormiam porque «os seus olhos estavam pesados» (Mc 14, 40). O convite de Jesus: «Vigiai e orai, para não cederdes à tentação» (Mc 14, 38) tinha caído em saco roto.
    Os cintos apertados e as lâmpadas acesas indicam a atitude de estar prontos a permanecer ou a partir, conforme as ordens do senhor. Inspirando-se nos costumes da sua terra, Jesus aponta a vigilância espiritual como uma atitude importante para o cristão. Lucas regista outro convite de Jesus: «Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão» (Lc 21, 34). A devassidão entorpece os olhos do coração, dificulta o crescimento e ilude a vida. O torpor espiritual faz perder o sentido da vida actual e futura. A certa altura o cristão já não sabe por que razões viver a sua fé... O que é dramático!

    Meditatio

    Paulo afirma o princípio da solidariedade de todos os homens no mal e no bem: «Tal como por um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte atingiu todos os homens, uma vez que todos pecaram. Se pela falta de um só todos morreram, com muito mais razão a graça de Deus, aquela graça oferecida por meio de um só homem, Jesus Cristo, foi a todos concedida em abundância.» (vv. 14-15).
    Temos dificuldade em admitir tal princípio, principalmente no aspecto negativo: «Pela falta de um só veio a condenação para todos os homens» (v. 18). Parece-nos um princípio muito injusto, e facilmente somos tentados a fugir a essa solidariedade. Não queremos ser confundidos com os pecadores. Até somos capazes de rezar por eles, mas colocando-nos à distância, numa atitude idêntica à do fariseu da parábola, em relação ao cobrador de impostos e ao «resto dos homens» (Lc 18, 11). Mas, se não aceitarmos esta solidariedade no pecado e na condenação, não receberemos «a abundância da graça». Cristo aceitou essa solidariedade e apresentou-se ao Pai carregado pelos pecados de toda a humanidade, Ele, «santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores» (Heb 7, 26). É um mistério profundo, revelação de um amor que a mente humana nem pode imaginar.
    O culto ao Coração de Jesus, introduzindo-nos no mistério da sua oferta solidária com os pecados do mundo, para que, onde abundou o pecado, superabundasse «a graça e o dom da justiça» (v. 17), encoraja-nos a viver com Ele esta solidariedade e a oferecer com amor os pequenos e grandes sofrimentos da nossa vida para que se derrame sobre todos os homens «a justificação que dá a vida» (v. 18). O Padre Dehon sentiu-se particularmente chamado a viver este mistério. Foi o seu carisma e é o carisma que, por ele, receberam os membros da sua congregação: «Implicados no pecado, mas participantes na graça redentora... queremos unir-nos a Cristo presente na vida do mundo e, em solidariedade com Ele e com toda a humanidade e a criação inteira, oferecer-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável (cf. Rm 12,1)», dizem as Constituições (n. 22). E continuam: «No seguimento de Cristo, devemos viver em solidariedade efectiva com os homens. Sensíveis a tudo aquilo que, no mundo de hoje, constitui obstáculo ao amor do Senhor, queremos testemunhar que o esforço humano, para chegar à plenitude do Reino, tem de se purificar e transfigurar constantemente pela Cruz e Ressurreição de Cristo» (Cst 29).

    Oratio

    Pai santo, o que Te agrada não é a morte do pecador, mas que se converta e viva. Implicados no pe
    cado, mas participantes na graça redentora, queremos oferecer-nos a Ti, como oblação viva, santa e agradável. Converte-nos e converte os nossos irmãos para que buscando o único bem necessário, nos consagremos inteiramente ao louvor da tua glória. Amen.

    Contemplatio

    Mesmo na cruz Jesus esquece-se e não vive senão para nós, apesar da nossa indignidade. «Meu Pai, dizia, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem». Esta oração aplica-se a nós todos, a todos os pecadores. Este grito exprime bem a infinita caridade, a infinita generosidade do Coração de Jesus: «Meu Pai, perdoai-lhes! Perdoai a todos os que me dão bofetadas, a todos aqueles que me ferem com chicotes ou com espinhos, a todos os que me desprezam e me escarram no rosto». Jesus pede pelos pecadores, por mim, por nós todos que O crucificámos. Ele desculpa a nossa loucura, o nosso orgulho, a nossa sensualidade: «Eles não sabem o que fazem!» Sim, Senhor, perdoai a estes vossos filhos ingratos, aos filhos da vossa Igreja que se mostram indiferentes ou perseguidores. Perdoai-me! Peço-vos as graças de arrependimento e de misericórdia às quais me dá direito a oração de Jesus Cristo. Depois desta oração, Jesus perdoa ao bom ladrão. Este homem está humilhado e contrito. Pede misericórdia. Jesus pronuncia a sentença do perdão: «Hoje, estareis comigo no paraíso!» A cruz é santificante quando é aceite com humildade, como fez o bom ladrão. União, portanto, a Jesus na cruz. Paciência com Ele e resignação. (Leão Dehon, OSP 2, p. 77).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5, 2).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Quarta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Quarta-feira

    25 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 6, 12-18

    Irmãos: que o pecado não reine mais no vosso corpo mortal, de tal modo que obedeçais às suas paixões. 13Não entregueis os vossos membros, como armas da injustiça, ao serviço do pecado. Pelo contrário, entregai-vos a Deus, como vivos de entre os mortos, e entregai os vossos membros, como armas da justiça, ao serviço de Deus. 14Pois o pecado não terá mais domínio sobre vós, uma vez que não estais sob a Lei, mas sob a graça. 15Então? Vamos pecar, porque não estamos sob a Lei, mas sob a graça? De modo nenhum! 16Não sabeis que, se vos entregais a alguém, obedecendo-lhe como escravos, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado que leva à morte, quer da obediência que leva à justiça? 17Demos graças a Deus: éreis escravos do pecado, mas obedecestes de coração ao ensino que vos foi transmitido como norma de vida. 18E libertos do pecado, tornastes-vos escravos da justiça.

    O baptismo tem exigências. É o que Paulo lembra aos romanos e a todos nós: «que o pecado não reine mais no vosso corpo mortal, de tal modo que obedeçais às suas paixões. Não entregueis os vossos membros, como armas da injustiça, ao serviço do pecado. Pelo contrário, entregai-vos a Deus, como vivos de entre os mortos, e entregai os vossos membros, como armas da justiça, ao serviço de Deus» (vv. 12s.). Quem foi baptizado em Cristo, foi sepultado e ressuscitou com Ele (cf. Rm 6, 3s.) e pode caminhar «numa vida nova» (Rm 6, 4). É sobre esta realidade que Paulo apoia todo o seu discurso. É preciso sermos o que somos, actuar de acordo com o dom recebido, viver o mistério pascal de Cristo, morrer ao pecado e viver em Cristo. Não se pode viver apenas uma dimensão do mistério, abandonando-se ao permissivismo e ao laxismo. É preciso comprometer-se na luta contra o pecado e aderir à graça de Deus. O Apóstolo termina dando graças a Deus pelos cristãos de Roma, que já tinham percebido as exigências da sua fé em Cristo, libertando-se da escravidão do pecado e tornando-se «escravos da justiça» (v. 18).

    Evangelho: Lucas 12, 39-48

    Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 39Ficai a sabê-lo bem: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não teria deixado arrombar a sua casa. 40Estai preparados, vós também, porque o Filho do Homem chegará na hora em que menos pensais.» 41Pedro disse-lhe: «Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou é para todos igualmente?» 42O Senhor respondeu: «Quem será, pois, o administrador fiel e prudente a quem o senhor pôs à frente do seu pessoal para lhe dar, a seu tempo, a ração de trigo? 43Feliz o servo a quem o senhor, quando vier, encontrar procedendo assim. 44Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. 45Mas, se aquele administrador disser consigo mesmo: 'O meu senhor tarda em vir' e começar a espancar servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, 46o senhor daquele servo chegará no dia em que ele menos espera e a uma hora que ele não sabe; então, pô-lo-á de parte, fazendo-o partilhar da sorte dos infiéis. 47O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou e não agiu conforme os seus desejos, será castigado com muitos açoites. 48Aquele, porém, que, sem a conhecer, fez coisas dignas de açoites, apenas receberá alguns. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito será pedido.»

    Esta parábola alerta-nos para o perigo de vivermos uma vida adormentada, não tendo em consideração que não seremos avisados da hora em que o Senhor Jesus há-de vir pedir-nos contas. É, mais uma vez, o tema da vigilância. Pedro, em vez de se deixar provocar positivamente, pergunta se a parábola é para os discípulos ou também para todos. Parece insinuar que os que seguem Jesus, os crentes e praticantes, possam viver tranquilos. Porque, então, dirigir-lhes um discurso tão inquietante? Pedro parece não ter gostado nada das palavras de Jesus.
    Em vez de lhe responder, Jesus, como noutras ocasiões, faz outra pergunta: «Quem será, pois, o administrador fiel e prudente?» (v. 42). Jesus é um provocador! E conta mais uma parábola em que manifesta a satisfação do senhor (que é o "Senhor!") que, ao regressar, encontra os servos a cumprir fielmente os seus deveres. Premeia-os generosamente (vv. 43s.). Mas os servos infiéis aos seus deveres, malcomportados e violentos, serão castigados severamente (vv. 45s.). E a maior severidade será para aqueles que, conhecendo melhor o Senhor e a sua vontade, em vez de a cumprirem amorosamente, se comportam de modo infiel (vv. 47s.).

    Meditatio

    Há em nós uma enorme ânsia de alegria e de privilégios. Mas corremos o risco de errar no caminho para os alcançar. Jesus promete-nos a alegria, e já nos dá muita neste mundo, mostrando-nos o seu amor. Mas o amor de Jesus é exigente. Não podemos descuidar-nos de estar prontos e vigilantes, como talvez pensava Pedro. Depois de ouvir a parábola sobre a necessidade da vigilância, perguntou: «Senhor, é para nós que dizes essa parábola, ou é para todos igualmente?» (v. 41). Não podemos estar tranquilos, nós que somos teus discípulos e colaboradores? O egoísmo tenta sempre infiltrar-se nos nossos pensamentos. Por isso, é preciso dar-lhe luta sem tréguas, para nos libertarmos do pecado e nos colocarmos ao serviço de Deus. Paulo recorda-nos que estamos vivos tendo regressado de entre os mortos (cf. v. 13), habitados pela força e pelo poder de Cristo ressuscitado, sendo chamados a oferecer-nos a Deus com alegria e gratidão em tudo o que fazemos. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor, e nada é estranho a este horizonte de pertença que faz bela e rica a nossa vida. Quanto mais experimentámos em nós, ou nos outros, a verdade de que o pecado escraviza e leva à morte, mais pode o nosso coração dilatar-se em servir a Deus com alegria. Ai de nós se, como o servo da parábola, pensarmos que o «senhor tarda em vir» (v. 44). O nosso amado Senhor e Mestre está connosco para que vivamos, com o auxílio da sua graça, de acordo com a vida nova, que nos deu no baptismo, e nos tornemos santos e imaculados na sua presença no amor. O caminho consiste em obedecer cordialmente aos ensinamentos de Jesus, em unir-nos a Ele e ao seu amor oblativo, para glória e alegria de Deus, e para bem da humanidade. Esse caminho vai da escuta da Palavra ao partir juntos o pão da caridade, ao reconhecer Cristo presente nos pequenos e nos pobres, ao serviço generoso dos irmãos pelos quais todos somos responsáveis. Lemos nas nossas Constituições: «Discípulos do Padre Dehon, queremos fazer da nossa união com Cristo, no seu amor pelo Pai e pelos homens, o princípio e o centro da nossa vida. Meditamos com predilecção nestas palavras do Senhor: "Permanecei em Mim, como Eu permaneço em vós: como a vara n&atil
    de;o pode dar fruto por si mesma, se não permanecer na videira, assim acontecerá convosco, se não permanecerdes em Mim" (Jo 15,4). Fiéis à escuta da Palavra, e à fracção do Pão, somos chamados a descobrir, cada vez mais, a Pessoa de Cristo e o mistério do seu Coração e a anunciar o seu amor que excede todo o conhecimento (cf. Ef 3, 17-19). É também na disponibilidade e no amor para com todos, especialmente para com os pequenos e os que sofrem, que viveremos a nossa união a Cristo» (Cst 17-18).
    Ser-nos-ão pedidas contas do muito que recebemos. Mas também sabemos que, quem nos julgará, será Aquele que morreu por amor do nosso amor.

    Oratio

    Pai, chamaste-nos, no vosso Filho Jesus, para sermos Povo Sacerdotal. Aceita a oferta de nós mesmos para o advento do teu Reino. Aumenta em nós o dom do Espírito, que renova o nosso coração. Mantêm-nos atentos e vigilantes ao serviço do teu Reino. Torna-nos semelhantes a Cristo, teu Servo fiel, e completamente disponíveis ao serviço dos irmãos. Ámen.

    Contemplatio

    O padre é um trabalhador e um semeador, tem uma tarefa rude (Jo 4, 35). É um soldado infatigável de Cristo, um lutador intrépido (2Tim 2). Deve estar disposto a tudo sofrer por amor dos eleitos e pela glória de Deus. É a cruz que fecunda o ministério do padre, por isso deve estar constantemente unido a Cristo sobre a cruz (Jo 12, 26). Discípulo e continuador de Cristo, o padre não pode ser tratado de outro modo senão como o seu Mestre (Mt 10, 24). A perseguição inerente ao ministério sacerdotal não faz senão reavivar a graça e o zelo no padre e aproveita grandemente às almas (2Cor 4, 8). O padre tem o direito à confiança e ao afecto filial dos fiéis. Mas pelo seu lado terá uma conta rigorosa a prestar da sua administração (Heb 13, 17). Uma magnífica recompensa está reservada ao padre, administrador fiel da sua família paroquial; um castigo rigoroso espera o administrador infiel. «Estai preparados, tinha dito Nosso Senhor, e tende as vossas lâmpadas acesas, a lâmpada das boas obras. - É para nós ou para todos que dizeis isto?» diz-lhe S. Pedro. - Qual é então, responde-lhe Nosso Senhor, o administrador fiel e prudente que o Senhor colocou à frente da sua casa para dar a cada um na hora conveniente a sua medida de trigo? (Não é o padre?). Se o Senhor, à sua chegada, encontra este servo fiel, cumulá-lo-á de bens» (Lc 12, 41). (Leão Dehon, OSP 4, p. 148s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Entregai-vos a Deus, como vivos de entre os mortos» (Rm 6, 13).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Quinta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Quinta-feira

    26 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 6, 19-23

    Irmãos: estou a falar em termos humanos, devido à fraqueza da vossa carne. Do mesmo modo que entregastes os vossos membros, como escravos, à impureza e à desordem, para viverdes na desordem, entregai agora também os vossos membros como escravos à justiça, para viverdes em santidade. 20Quando éreis escravos do pecado, éreis livres no que toca à justiça. 21Afinal, que frutos produzíeis então? Coisas de que agora vos envergonhais, porque o resultado disso era a morte. 22Mas agora, que estais libertos do pecado e vos tornastes servos de Deus, produzis frutos que levamà santificação, e o resultado é a vida eterna. 23É que o salário do pecado é a morte; ao passo que o dom gratuito que vem de Deus é a vida eterna, em Cristo Jesus, Senhor nosso.

    Paulo reflecte, mais uma vez, sobre as consequências da fé e do baptismo na vida dos crentes. Pela fé e pelo baptismo, o crente deixou o passado e chegou ao presente, através do mistério pascal da morte e da vida, que foi de Cristo e agora é dos cristãos. É bom tomar consciência de onde viemos e para onde vamos: viemos da escravidão para a liberdade. Agora, falta continuar o percurso, de acordo com o projecto de Deus, e avançar no caminho que é Cristo. A vida cristã é essa caminhada em Cristo e com Cristo. Mas a vida cristã é também serviço: se antes estávamos ao serviço da impureza e da iniquidade, agora estamos ao serviço da justiça e da santidade. Quanto estávamos sob o jugo do pecado, éramos «livres no que toca à justiça» (v. 20). Agora, que fomos justificados pelo amor de Deus, por meio da fé, já não somos livres no que se refere à justiça, mas tornámo-nos servos da justiça, isto é, servos de Deus. Por isso, há que servi-l´O.

    Evangelho: Lucas 12, 49-53

    Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: 49«Eu vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já se tivesse ateado! 50Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize! 51Julgais que Eu vim estabelecer a paz na Terra? Não, Eu vo-lo digo, mas antes a divisão. 52Porque, daqui por diante, estarão cinco divididos numa só casa: três contra dois e dois contra três; 53vão dividir-se: o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.»

    Vim estabelecer «a divisão» (v. 51). Como é possível? Não foi Jesus que, na última ceia, rezou para que todos tivessem «um só coração e uma só alma»? (cf. Jo 17). Não de trata de uma contradição mas de um aprofundamento. Para abrir o coração e o meio em que vive à paz de Cristo, o discípulo deve dissociar-se de todos quantos, na mente e no coração, pertencem ao mundo que «jaz sob o poder do Maligno» (1 Jo 5, 19). «Não é possível servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24). Jesus usa o termo «mamona» que não significa só o dinheiro, mas todo e qualquer ídolo, anichado na mente e no coração de quem O quer seguir e fazer parte do Reino de Deus, fonte de paz e de amor.

    Meditatio

    Paulo procura levar os destinatários da sua carta a reflectir sobre a sua condição quando eram escravos do pecado, e sobre aquela em que gora se encontram. Para nós, hoje, a realidade não é tão distinta. Não há um passado de impureza e de desordem absoluto e um hoje de santidade e de justiça. Há, sim, um caminho de conversão em acto para nos tornarmos semelhantes a Deus. Por isso, cada dia havemos de pedir a graça do poder da cruz, havemos de invocar o dom do Espírito Santo. Se verificamos a nossa lentidão no caminho da conversão, dá-nos confiança a certeza de que Deus é paciente e quer unir-nos a Ele de um modo cada vez mais íntimo e profundo, para que possamos saborear a grandeza da liberdade que nos vem de sermos seus. Paradoxalmente, como testemunham os santos, quanto mais somos possuídos por Deus, mais estamos livres de tudo. Isto não é compreensível à razão. Só quem o experimenta e vive o pode reconhecer.
    Jesus, no evangelho de hoje, fala do seu desejo ardente de realizar a missão que o Pai Lhe confiou, ainda que saiba muito bem que isso comporta a sua passagem pela cruz. Encontramos estas mesmas disposições naqueles cristãos que alcançaram a verdadeira liberdade, tornando-se voluntariamente escravos de Deus que é Amor.
    Peçamos ao Senhor clareza de vistas para sabermos distinguir a verdadeira da falsa liberdade, para servirmos a verdade, ainda que nos seja exigido um alto preço. O autor da carta aos Hebreus convida-nos a correr com perseverança, «tendo os olhos postos em Jesus» (Heb 12, 2). E exorta-nos: «Considerai, pois, aquele que sofreu tal oposição por parte dos pecadores, para que não desfaleçais, perdendo o ânimo. Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado» (Heb 12, 3-4).
    A vida cristã, e a vida religiosa, são caminho que havemos de percorrer, de olhos postos em Jesus, lutando contra o pecado, num permanente esforço de conversão. Escrevem as nossas Constituições: «Seguros da indefectível fidelidade de Deus, radicados no amor de Cristo, sabemos que a nossa opção pela vida religiosa, para que se mantenha viva, exige o encontro frequente com o Senhor na oração, a conversão permanente ao Evangelho e a disponibilidade de coração e de atitudes, para acolher o Hoje de Deus» (Cst 144).

    Oratio

    Senhor Jesus, obrigado porque, graças à tua morte e ressurreição, me teres libertado da antiga condição do pecado, e conduzido à liberdade dos filhos de Deus. Enche-me da tua graça, e dá-me um verdadeiro espírito de oração, para que prossiga o caminho, que me traçaste e marcaste com o teu sangue, num esforço permanente de conversão e de disponibilidade para acolher os sinais da tua presença e as indicações da vontade do Pai. Renova, Senhor, a face da terra; renova a minha vida. Amen.

    Contemplatio

    É preciso que eu purifique a minha alma pela penitência. «Eis que vem o reino de Deus, dizia S. João, portanto penitência! Penitência! Produzi dignos frutos de penitência». Isto queria dizer: Cristo vai chegar com as suas graças, com as suas misericórdias. Vai organizar o Reino de Deus, a sua Igreja. Mas não pode evidentemente admitir-vos nele se não vos converterdes dos vossos pecados. A sua misericórdia é grande sem dúvida, perdoar-vos-á muito, mas ainda é preciso que lamenteis o passado e que mudeis a vossa vida. Os Judeus e os pagãos de então compreenderam isso. Como sinal da sua mudança de vida, recebiam o baptismo. Eram mergulhados na água como na morte e saíam dela com uma vida nova. O baptismo simbolizava a purificação e a renovação da sua alma. Compreendi s
    uficientemente que devo preparar-me cada dia para a vinda do Salvador à minha alma pela graça e pela Eucaristia? Não será que a minha vida decorra na rotina e na tibieza, em vez de se purificar na penitência e de se renovar pela conversão? (Leão Dehon, OSP 3, p. 211).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado» (Heb 12, 3-4).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Sexta-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Sexta-feira

    27 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 7, 18-25a

    Irmãos: eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. 19É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico. 20Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. 21Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. 22Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. 23Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. 24Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte? 25Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso!

    A vida cristã tem sempre algo de dramático, como se deduz do texto de Paulo, que escutamos. Embora salvos pela fé, precisamos de continuar a combater para alcançar a salvação. Uma coisa é conhecer a lei de Deus, e outra é observá-la. Também não é suficiente saber que a fé é capaz de nos salvar por um acto de abandono total ao amor misericordioso de Deus. Do mesmo modo, não basta assumir pela fé o mistério pascal de Cristo, que todavia sustenta e anima a vida do verdadeiro discípulo.
    Paulo descreve a sua própria experiência de luta para nos ajudar a viver o drama de não fazermos o bem que queremos e de fazermos o mal que não queremos. Se é verdade que fomos libertados da escravidão de Satanás, também é verdade que continuamos expostos à escravidão da carne, do mal, dos nossos desejos inconfessáveis. Por isso, nos sentimos muito identificados com a luta do Apóstolo e com os seus anseios: «Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte?» (v. 24).

    Evangelho: Lucas 12, 54-59

    Naquele tempo dizia Jesus às multidões: 54«Quando vedes uma nuvem levantar-se do poente, dizeis logo: 'Vem lá a chuva'; e assim sucede. 55E quando sopra o vento sul, dizeis: 'Vai haver muito calor'; e assim acontece. 56Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis reconhecer o tempo presente?» 57«Porque não julgais por vós mesmos, o que é justo? 58Por isso, quando fores com o teu adversário ao magistrado, procura resolver o assunto no caminho, não vá ele entregar-te ao juiz, o juiz entregar-te ao oficial de justiça e o oficial de justiça meter-te na prisão. 59Digo-te que não sairás de lá, antes de pagares até ao último centavo.»

    Jesus repreende os seus contemporâneos, que sabem distinguir os sinais meteorológicos, mas não o sinal que Ele mesmo é: o Filho unigénito enviado pelo Pai para salvação de todos. Compreender o tempo que vivemos é compreender as intenções de Deus que, em todo o tempo, sobretudo pelo mistério da Igreja e dos sacramentos, torna actual o mistério de Jesus com toda a sua eficácia salvífica.
    Saber fazer previsões do tempo, analisando os dados da meteorologia, implica uma atenção interessada. Se não estivermos realmente interessados e atentos para nos darmos conta da importância do tempo como tempo para exercer a justiça e a caridade, corremos sério risco. Há que reconciliar-se radialmente com aqueles com que estamos em conflito. Caso contrário, podemos cair no remoinho do não-perdão, donde não sairemos indemnes. É como se Jesus apontasse o sinal do tempo por excelência, que é Ele mesmo, como sinal de salvação, mas só para quem se compromete a viver como reconciliado, isto é, na paz, na justiça e na bondade.

    Meditatio

    Tanto Paulo como Jesus nos alertam para a presença do mal em nós. Jesus chama-nos hipócritas. Paulo fala, de modo incisivo e dramático, do mal com que continua a debater-se dentro de si mesmo. A linha de divisão entre o bem e o mal passa pelo nosso coração. Por isso, a luta contra o mal não se trava fora, mas dentro de nós. Se, por um lado, nos sentimos fascinados e atraídos pelo bem, por outro lado, também sentimos o apelo e a sedução do mal. Paulo, que bem conhece essa luta, chega a exclamar: «Que homem miserável sou eu!» (v. 24). Mas não se limita a contemplar o seu drama. Ergue os olhos para o céu e descortina o olhar amoroso de Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Limitar-nos a contemplar a nossa miséria, seria expor-nos à depressão. O crente dá-se naturalmente conta das suas limitações e do seu pecado com uma agudeza superior à de quem não tem fé. É por isso que os santos sempre se julgaram grandes pecadores. Mas também reconheceram, e reconhecem, que o remédio para a sua situação é Jesus, nossa paz e reconciliação, que veio colocar-se no coração da nossa aventura humana. Assim, mesmo no mais profundo abismo, podemos sentir-nos filhos de Deus. Se o cristão faz a experiência dolorosa da sua condição de pecador, também sabe que essa não é a última palavra sobre a sua condição. Por isso, do seu coração, pode brotar sempre a acção de graças, porque toda a nossa existência é agora eucaristia ao Pai, por meio de Jesus Cristo.
    Agradeçamos ao Senhor por estarmos conscientes da nossa incapacidade para fazermos o bem, porque ela nos leva a unir-nos cada vez mais a Ele, nosso Salvador e nossa força. «Cristo faz-nos acreditar que, apesar do pecado, dos fracassos e da injustiça, a redenção é possível, oferecida e já está presente» no mundo (Cst 12).

    Oratio

    Pai misericordioso, recebe em sacrifício o nosso coração limitado e fraco, o nosso coração dilacerado na luta contra o mal, o nosso coração pecador. Perdoa-nos termos confiado mais em nós do que em Ti, e termos caído tantas vezes. Ajuda-nos a que, pela penitência e pela caridade, nos afastemos do caminho do mal, sejamos livres do pecado, e Te façamos oblação do nosso coração contrito. Experimentando a tua solícita misericórdia, queremos fazer da nossa vida uma eucaristia de louvor, de bênção, de acção de graças, de súplica, de oferta. Aceita a nossa disponibilidade e o nosso zelo para colaborarmos no regresso de todos os teus filhos pródigos. Amen.

    Contemplatio

    Nosso Senhor cumula o convertido de carícias. Enche o seu coração com os mais doces sentimentos de alegria para o adoçar da amargura da penitência. Reserva a este pobre coração partido pelo arrependimento o festim delicioso das suas consolações. Longe de lhe reprovar o seu passado, mostra-se com ele cheio de doces delicadezas, porque já não é um pecador, mas um filho ternamente amado. Esta conversão alegra o Coração de Jesus, e se o filho re
    encontrado continua a ser generoso, se é sobretudo amoroso, este regresso pode ser o ponto de partida não somente de uma vida correcta e virtuosa, mas de uma santidade deslumbrante. Mas para isso é preciso sempre que Nosso Senhor encontre no coração do convertido um grande impulso de generosidade. Consideremos o convertido da parábola. Logo que reconhecida a sua falta, o seu coração contrito e humilhado experimentará o sentimento profundo da sua indignidade. A acção segue imediatamente a resolução. «Levantar-me-ei, diz, e irei ter com o meu pai», e não podendo conter-se, levanta-se e vai exprimir ao seu pai a sua indignidade e pedir um lugar de simples criado. Esta generosidade, é preciso tê-la sempre, de outro modo a pessoa arrasta-se primeiro para a tibieza e depois cai ainda mais baixo. Meditemos também no acolhimento feito à generosidade do arrependimento: o pai não deixa ao filho senão o tempo para confessar a sua falta, depois aperta-o ao coração, perdoa-lhe e cumula-o com os seus dons. Que tocante e encorajadora parábola! (Leão Dehon, OSP 4, p. 124s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso!» (Rm 7, 25).

  • S. Simão e S. Judas, Apóstolos

    S. Simão e S. Judas, Apóstolos


    28 de Outubro, 2023

    Os apóstolos, que hoje celebramos, ocupam uma posição bastante discreta nos evangelhos. Simão é cognominado "zelote" por Lucas, talvez porque pertencia ao grupo antirromano dos zelotes. Mateus e Marcos qualificam-no como "cananeu" (10, 3; 3, 18). O apóstolo Judas, cognominado "Tadeu" por Mateus e Marcos (10, 3; 3, 18), é qualificado por Lucas como "filho de Tiago" (6, 16) e, portanto, primo do Senhor. É este Judas que, na última ceia, diz a Jesus: "Porque te hás-de manifestar a nós e não te manifestarás ao mundo?»" (Jo 14, 22). Uma das Cartas Católicas, na qual se previne os cristãos contra os falsos doutores que se haviam infiltrado nas comunidades, é-lhe atribuída. De acordo com uma tradição oriental, os dois apóstolos terão levado o Evangelho até ao Cáucaso, onde teriam sido martirizados. A sua festa, celebrada no Oriente desde o século VI, passou a ser celebrada em Roma no século IX.

    Lectio

    Primeira leitura: Efésios 2, 19-22

    Irmãos: Já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, 20edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. 21É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. 22É nele que também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus, pelo Espírito.

    Na perspetiva de Paulo, o ministério de Cristo e o da Igreja estão intimamente ligados entre si. A unidade e a paz que há entre os cristãos, de origem pagã, ou deorigem hebraica, é dom de Deus Pai, por meio de Cristo Senhor, no Espírito Santo. A Igreja é como que um grande edifício, um templo santo, morada de Deus entre os homens. Os apóstolos, nossos pais na fé, com os profetas, são o fundamento desse edifício, onde nos sentimos "concidadãos dos santos e membros da casa de Deus" (v. 19). A "pedra angular" é Cristo (v. 20). Nesta perspetiva cristológica, a eclesiologia de Paulo torna-se particularmente clara. A presença, a função e o ministério dos apóstolos assume toda a sua importância. A Igreja é, pois, una, santa, católica e apostólica.

    Evangelho: Lucas 6, 12-19

    Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer oração e passou a noite a orar a Deus. 13Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos: 14Simão, a quem chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago, João, Filipe e Bartolomeu; 15Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelote; 16Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor. 17Descendo com eles, deteve-se num sítio plano, juntamente com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, 18que acorrera para o ouvir e ser curada dos seus males. Os que eram atormentados por espíritos malignos ficavam curados; 19e toda a multidão procurava tocar-lhe, pois emanava dele uma força que a todos curava.

    Jesus dá particular atenção ao grupo dos Doze: escolhe-os (Lc 6, 12-19), institui-os como colégio (Mc 3, 13-19) e envia-os em missão (Mt 10, 1-15). Lucas anota que Jesus prepara a escolha dos Doze com uma noite de oração (6, 12). Antes de os escolher, Jesus chama os seus discípulos: o chamamento, a vocação, está sempre na origem de toda a instituição e ministério eclesial. Depois de os chamar, Jesus impõe-lhes o nome de apóstolos. A nota de Lucas pretende certamente exprimir a importância do colégio dos Doze na Igreja que Jesus está para fundar.

    Meditatio

    A festa dos santos apóstolos Simão e Judas oferecem-nos ensejo para refletirmos e tornarmos mais clara consciência da Igreja, que é simultaneamente corpo de Cristo e templo do Espírito Santo. São duas dimensões imprescindíveis. Não se pode receber o Espírito Santo sem pertencer ao corpo de Cristo. A razão é clara: o Espírito Santo é o Espírito de Cristo, que se recebe no corpo de Cristo. A Igreja, todavia, tem um aspeto visível. Por isso, Cristo escolheu os Doze e continua a escolher os seus sucessores, para formar a estrutura visível do seu corpo, quase em continuação da Incarnação. Pertencendo ao corpo de Cristo, podemos receber o seu Espírito e ser intimamente unidos a Ele num só corpo e num só Espírito.
    Um outro aspeto que esta festa nos permite colher é a relação entre a oração e a missão. Jesus demora-se em oração antes de decidir a escolha dos Doze. É preciso rezar para discernir o projeto de Deus. É preciso rezar em ordem às grandes decisões da vida pessoal e comunitária. Nesta perspetiva, a oração não é um momento separado do resto da vida, mas uma atitude prévia à nossa experiência de vida pessoal e eclesial. Rezar antes de iniciar a missão pessoal e/ou comunitária significa confiá-la Àquele que é o seu primeiro responsável, o dono da vinha, o pastor do rebanho, o Senhor do povo.
    "Reconhecemos que da oração assídua depende... a fecundidade do nosso apostolado." (Cst 76).

    Oratio

    Senhor Jesus, na festa de S. Simão e S. Judas, quero pedir-te a graça de, como os santos apóstolos, me tornar teu familiar e amigo. Então virás, com o Pai e com o Espírito Santo estabelecer em mim a tua morada. Que eu seja todo para ti, para o teu amor, para o apostolado, cooperação na tua obra redentora no coração do mundo. Ámen.

    Contemplatio

    Os dois apóstolos, que deviam ter-se conhecido na sua juventude em Caná, terminaram juntos o seu apostolado na Pérsia. Lá quiseram obrigá-los a oferecer sacrifícios ao Sol; preferiram dar a sua vida por Jesus Cristo. A sua morte foi ainda para ambos um ato de caridade, no seu objeto e nas suas circunstâncias. S. Simão estava num templo onde queriam obrigá-lo a sacrificar aos ídolos. Um anjo disse-lhe: «Far-te-ei sair do templo e farei ruir sobre eles todo o edifício». - «Não, respondeu Simão, deixai-os viver. Pode ser que alguns deles venham a converter-se». Enfim, um anjo disse a ambos: «Que escolheis? Ou a morte para vós ou o extermínio deste povo ímpio?» Os dois apóstolos exclamaram: «Misericórdia para este povo! Que o martírio seja a nossa herança». A sua morte foi uma semente de conversões. Unidos na sua vida, foram-no na morte, e são-no também no culto que lhes é prestado. A Igreja honra-os no mesmo dia. Os seus corpos reuniram-se a S. Pedro em Roma. Devo imitá-los no seu amor por Jesus, na sua fidelidade e no seu zelo pela salvação do próximo. (L. Dehon, OSP 4, p. 402s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Sois concidadãos dos santos
    e membros da casa de Deus" (Ef 2, 19).

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    S. Simão e S. Judas, Apóstolos (28 Outubro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Sábado

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXIX Semana - Sábado

    28 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 8, 1-11

    Irmãos: agora não há mais condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus. 2É que a lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus, da lei do pecado e da morte. 3De facto, Deus fez o que era impossível à Lei, por estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o seu próprio Filho, em carne idêntica à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne, 4para que assim a justiça exigida pela Lei possa ser plenamente cumprida em nós, que já não procedemos de acordo com a carne, mas com o Espírito. 5Os que vivem de acordo com a carne aspiram às coisas da carne; mas os que vivem de acordo com o Espírito aspiram às coisas do Espírito. 6De facto, a carne aspira ao que conduz à morte; mas o Espírito aspira ao que dá vida e paz. 7É que a carne aspira à inimizade com Deus, uma vez que não se submete à lei de Deus; aliás nem sequer é capaz disso. 8Os que vivem sob o domínio da carne são incapazes de agradar a Deus. 9Ora vós não estais sob o domínio da carne, mas sob o domínio do Espírito, pressupondo que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não lhe pertence. 10Se Cristo está em vós, o vosso corpo está morto por causa do pecado, mas o Espírito é a vossa vida por causa da justiça. 11E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós.

    Depois dos capítulos precedentes, carregados de tons dramáticos, entramos no capítulo oitavo da carta aos Romanos, um dos mais belos textos de todo o Novo Testamento. O homem "carnal", escravo do egoísmo, que leva ao pecado e à morte, vive agora sob uma nova lei, «a lei do Espírito que dá a vida, em Cristo Jesus» (v. 2). Nesta expressão, segundo os exegetas, ecoam as palavras de Jeremias (31, 33) e de Ezequiel (36, 27; 37, 14). Renovado pelo Espírito de Deus, infundido no seu coração, o homem novo, o crente, pode, não só conhecer, mas também cumprir a vontade de Deus. Depois desta afirmação, o discurso de Paulo prossegue linear e lógico. No centro do seu pensamento está o evento da Incarnação do Verbo: «Deus fez o que era impossível à Lei, por estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o seu próprio Filho, em carne idêntica à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne» (v. 4). O cristão, porque assumiu «a lei do Espírito», e porque o Espírito habita nele, pode viver segundo Espírito, pensar segundo o Espírito, alimentar desejos segundo o Espírito, sente que pertence ao Espírito e vive na esperança de experimentar o poder do Espírito de Deus, que o fará ressuscitar dos mortos e tornará participante da glória de Deus. Leva uma "vida espiritual", em sentido forte.

    Evangelho: Lucas 13, 1-9

    Naquele tempo: apareceram alguns a falar-lhe dos galileus, cujo sangue Pilatos tinha misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. 2Respondeu-lhes:«Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido?
    3Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente. 4E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.» 6Disse-lhes, também, a seguinte parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar frutos, mas não os encontrou. 7Disse ao encarregado da vinha: 'Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro. Corta-a; para que está ela a ocupar a terra?' 8Mas ele respondeu: 'Senhor, deixa-a mais este ano, para que eu possa escavar a terra em volta e deitar-lhe estrume. 9Se der frutos na próxima estação, ficará; senão, poderás cortá-la.'»

    Jesus aproveita dois acontecimentos ocorridos em Jerusalém para dar alguns ensinamentos: Pilatos mandou matar alguns Galileus enquanto ofereciam sacrifícios no templo; cerca de 18 pessoas morreram devido à queda da torre de Siloé. Perante tais factos, conhecidos por todos, Jesus aponta a urgência da conversão (vv. 3-5). Caso contrário, é a perdição. Mas também ensina que Deus não é uma espécie de vigilante sempre à coca de qualquer falta da nossa parte para nos castigar. Não podemos, pois, ler as calamidades da vida - nossa ou dos outros - como punições divinas. O tempo da nossa vida é aquele que é. Não sabemos quando irá terminar. Portanto, é sempre tempo de dar frutos de boas obras... enquanto tivermos tempo.
    A parábola do dono que procura frutos na figueira plantada na sua vinha, completa o ensinamento sobre a conversão, evidenciando outro aspecto muito importante: a paciência de Deus, a sua imensa misericórdia e vontade de salvação. A figueira é certamente uma alusão a Israel que, afastando-se continuamente de Deus, não dá os frutos esperados (cf. Is 5, 1-7; Jr 8, 13). Mas o adiamento em abatê-la e os cuidados amorosos para ver se dá frutos expressam a mediação de salvação realizada por Jesus, com a sua intercessão junto do Pai. Esta acção de Jesus não é só em favor de Israel, mas de todos nós, hoje.

    Meditatio

    Como é bom escutar o capítulo oitavo da carta aos Romanos. Ecoam nele palavras que esclarecem o mal que há em nós e que, sobretudo, nos abrem à esperança por causa da estupenda libertação do pecado realizada por meio de Cristo Jesus. Já não estamos sob o domínio do mal, mas sob a senhoria do Espírito. E é nesta condição que havemos de viver. O Espírito de Deus actua em nós. Não podemos andar distraídos da sua presença e da sua acção. O Espírito é em nós uma fonte de paz, uma torrente de alegria, uma luz maravilhosa que nos dá uma nova sensibilidade para a palavra e para os caminhos de Deus. Conforme a promessa de Deus, o Espírito põem em acção uma força irresistível e doce que guia para a verdade total e liberta dos vínculos da "carne". O caminho de conversão, a que somos chamados, passa por uma docilidade cada vez maior ao Espírito. É o que sugere também o texto do evangelho, onde Jesus convida a reflectirmos sobre alguns acontecimentos dramáticos. Tudo deve levar a haurir do Espírito a seiva boa que nos permita produzir frutos de bem para nós e para os outros. Ninguém pode acolher estes convites por nós. Vamos pois para o mar alto da vida, deixando-nos conduzir pelo sopro do Espírito, r
    umo à liberdade e ao amor.
    Hoje, sábado, não podemos deixar de lançar um olhar para Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Peçamos-lhe que nos alcance a graça da fidelidade ao Espírito Santo, para que nos conduza, com força e suavidade, para os braços do Pai e para o Coração de Jesus. «O Espírito aspira ao que dá vida e paz», afirma Paulo (v. 8). Sabemos como flui em nós a paz, quando nos deixamos conduzir pelos desejos do Espírito. Que Maria nos alcance uma constante adesão ao Espírito, na simplicidade e na alegria.

    Oratio

    Ó Jesus, sacerdote misericordioso, que, ao entrar no mundo, Te ofereceste ao Pai, dizendo: "Eis que venho para fazer a tua vontade", reaviva em nós a disposição que animou o teu coração de Filho. À tua obediência de amor, unimos a oferta da nossa obediência. Aceita a nossa vida que desejamos oferecer-Te até ao sacrifício total de nós mesmos. Que o teu Espírito nos torne atentos à tua vontade em todas as circunstâncias da vida, e a tua graça nos estimule à doação fraterna para que venha o teu Reino de amor. Ámen.

    Contemplatio

    Quando uma alma se abandona à condução do Espírito Santo, ele eleva-a pouco a pouco acima da vida natural e governa-a. No princípio não sabe para onde vai, mas pouco a pouco a luz interior ilumina-a e faz-lhe ver todas as suas acções e o governo de Deus nas suas acções, de modo que ela não tem quase nada a fazer senão deixar que Deus faça nada, e por ela, o que lhe agradar; assim ela avança maravilhosamente. Nós temos uma figura da condução do Espírito Santo na que Deus teve a respeito dos Israelitas ao saírem do Egipto, durante a sua viagem no deserto, para chegarem à terra da promessa. Deu-lhes para os conduzir, durante o dia uma coluna de nuvem, durante a noite uma coluna de fogo. Eles seguiam o movimento desta coluna e detinham-se quando ela parava. Não a ultrapassavam, seguiam-na apenas, e nunca se afastavam dela. É assim que nos devemos comportar a respeito do Espírito Santo. É preciso para isso de muita calma, de recolhimento e de espírito de fé. (Leão Dehon, OSP 2, p. 609s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a Palavra:
    «O Espírito aspira ao que dá vida e paz» (Rm 8, 8).

  • 30º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    30º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    29 de Outubro, 2023

    Ano A
    30º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    Tema do 30º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia do 30º domingo Comum diz-nos, de forma clara e inquestionável, que o amor está no centro da experiência cristã. O que Deus pede - ou antes, o que Deus exige - a cada crente é que deixe o seu coração ser submergido pelo amor.
    O Evangelho diz-nos, de forma clara e inquestionável, que toda a revelação de Deus se resume no amor - amor a Deus e amor aos irmãos. Os dois mandamentos não podem separar-se: "amar a Deus" é cumprir a sua vontade e estabelecer com os irmãos relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, até ao dom total da vida. Tudo o resto é explicação, desenvolvimento, aplicação à vida prática dessas duas coordenadas fundamentais da vida cristã.
    A primeira leitura garante-nos que Deus não aceita a perpetuação de situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos e pela dignidade dos mais pobres e dos mais débeis. A título de exemplo, a leitura fala da situação dos estrangeiros, dos órfãos, das viúvas e dos pobres vítimas da especulação dos usurários: qualquer injustiça ou arbitrariedade praticada contra um irmão mais pobre ou mais débil é um crime grave contra Deus, que nos afasta da comunhão com Deus e nos coloca fora da órbita da Aliança.
    A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã (da cidade grega de Tessalónica) que, apesar da hostilidade e da perseguição, aprendeu a percorrer, com Cristo e com Paulo, o caminho do amor e do dom da vida; e esse percurso - cumprido na alegria e na dor - tornou-se semente de fé e de amor, que deu frutos em outras comunidades cristãs do mundo grego. Dessa experiência comum, nasceu uma imensa família de irmãos, unida à volta do Evangelho e espalhada por todo o mundo grego.

    LEITURA I - Ex 22,20-26

    Leitura do Livro do Êxodo

    Eis o que diz o Senhor:
    «Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás,
    porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto.
    Não maltratarás a viúva nem o órfão.
    Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim,
    escutarei o seu clamor;
    inflamar-se-á a minha indignação
    e matar-vos-ei ao fio da espada.
    As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos os vossos filhos.
    Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo,
    ao pobre que vive junto de ti,
    não procederás com ele como um usurário,
    sobrecarregando-o com juros.
    Se receberes como penhor a capa do teu próximo,
    terás de lha devolver até ao pôr do sol,
    pois é tudo o que ele tem para se cobrir,
    é o vestuário com que cobre o seu corpo.
    Com que dormiria ele?
    Se ele Me invocar, escutá-lo-ei,
    porque sou misericordioso».

    AMBIENTE

    O "Decálogo" ou "dez mandamentos" (cf. Ex 20,2-17) era, sem dúvida, o coração da Aliança e apresentava os valores fundamentais que deviam marcar o comportamento do Povo de Deus, quer em relação a Jahwéh, quer em relação à vida comunitária. No entanto, as leis do "Decálogo" eram relativamente gerais e não consideravam todos os casos e situações...
    A complexidade da vida diária obrigou, portanto, a um esclarecimento e a uma concretização das leis apresentadas no "Decálogo". Em consequência, surgiram novas normas, bem concretas, que regulavam o dia a dia do Povo de Deus. Uma ampla recompilação dessas leis aparece no Livro do Êxodo.
    Logo a seguir ao "Decálogo", em lugar de honra, os catequistas de Israel colocaram um bloco heterodoxo de leis, que se convencionou chamar "Código da Aliança" (cf. Ex 20,22-23,19). São leis que os autores do Livro do Êxodo apresentam como ditadas por Deus a Moisés, no Sinai; na realidade, trata-se de leis de proveniência diversa, cuja antiguidade continua a ser discutida, mas que a maioria dos comentadores faz remontar ao tempo dos "juízes" (séc. XII a.C.).
    O "Código da Aliança" é um bloco legislativo que regula vários aspectos da vida do Povo de Deus, desde o culto até às relações sociais. Trata-se de um conjunto de prescrições, soluções, disposições justas, sãs e sólidas, que solucionam as dificuldades, explicam os princípios e ordenam a conduta dos homens nas situações comuns e variáveis da condição humana. Nele sobressai, não só uma consciência muito viva de que Israel é chamado à comunhão com Deus, mas também um forte sentido social. Revela um Povo preocupado em concretizar os compromissos da Aliança na vida do dia a dia. Sugere que a fé de Israel não é uma realidade abstracta ou fantasmagórica, mas uma realidade bem viva, que se deve viver em cada sector da vida prática.
    O texto que hoje nos é proposto é um extracto do "Código da Aliança".

    MENSAGEM

    A nossa leitura refere-se exactamente a algumas exigências sociais que resultam da Aliança. Apresenta indicações concretas acerca da forma como lidar com três realidades de carência, de necessidade, de debilidade: a do estrangeiro, a do órfão e da viúva, e a do pobre que foi obrigado a pedir dinheiro emprestado. Trata-se, em qualquer caso, de pessoas em situação difícil, quer em termos jurídicos, quer em termos sociais, quer em termos económicos.
    O "estrangeiro" é frequentemente um desenraizado, obrigado a deixar a sua terra de referência e o seu quadro de relações familiares, atirado para um ambiente cultural e social adverso, e onde as leis locais nem sempre protegem convenientemente os seus direitos e a sua dignidade. A sua situação de debilidade é aproveitada, com frequência, por pessoas sem escrúpulos que os exploram, que os escravizam e que contra eles cometem impunemente as maiores injustiças.
    O "órfão" e a "viúva" integram a categoria das vítimas tradicionais dos abusos dos poderosos. Desprotegidos, ignorados pelos juízes e pelos dirigentes, sem defesa diante das arbitrariedades dos mais fortes, vítimas de toda a espécie de injustiças, têm em Jahwéh o seu único defensor.
    O "pobre que pede dinheiro" é, quase sempre, esse camponês carregado de impostos, arruinado por anos de más colheitas, que tem de pedir dinheiro emprestado para pagar as dívidas e para sustentar a família. A sua extrema necessidade é explorada pelos usurários e pelos especuladores sem escrúpulos, que o obrigam a deixar como penhor os seus bens mais básicos. Sufocado por juros altíssimos, acaba por tudo perder e por ficar na miséria mais absoluta, condenado a
    morrer de frio ou de fome.
    A sensibilidade de Israel diz-lhe que Deus não aceita a perpetuação destas situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos dos mais pobres e débeis. Se Israel pretende viver em comunhão com Deus e aproximar-se do Deus santo, tem de banir do meio da comunidade as injustiças e as arbitrariedades cometidas sobre os mais débeis - nomeadamente sobre os estrangeiros, os órfãos, as viúvas e os pobres. Essa é uma das condições para a manutenção da Aliança.

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão, considerar os seguintes dados:

    • O apelo a não prejudicar nem oprimir o estrangeiro convida-nos a considerar como acolhemos esses imigrantes que cruzam as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida e que, além da solidão, das dificuldades linguísticas, do desenraizamento cultural, ainda são vítimas do racismo, da xenofobia, da má vontade, da exploração, das arbitrariedades cometidas por empresários sem escrúpulos, das violências praticadas pelas máfias que transaccionam carne humana. Não podemos ficar indiferentes e insensíveis aos seus dramas e sofrimentos, ou sentir-nos alheados e desresponsabilizados face às injustiças que contra eles se cometem. Precisamos de ver em cada homem ou mulher - russo, moldavo, ucraniano, romeno, cabo-verdiano, angolano, guineense - um irmão que Deus colocou ao nosso lado e que temos de cuidar, proteger e amar.

    • O apelo a não maltratar nem a fazer qualquer mal à viúva e ao órfão convida-nos a considerar a forma como acolhemos e tratamos os nossos irmãos mais débeis, sem defesa, ou que pertencem a grupos de risco... São as crianças, exploradas, usadas, maltratadas, condenadas precocemente a uma vida de trabalho e impedidas de viver a infância; são os idosos, atirados para lares, condenados em vida a uma existência de sombras, subtraídos ao seu ambiente familiar e às suas relações sociais; são os doentes incuráveis, abandonados, condenados à solidão, que escondemos e que evitamos para não perturbar a nossa boa disposição e o mito de uma vida isenta de sofrimento e de morte... Precisamos de aprender que todos os homens e mulheres - particularmente os mais débeis, os mais carentes, os mais abandonados - devem ser respeitados, protegidos e amados.

    • O apelo a não explorar os pobres convida-nos a considerar a situação daqueles que não têm instrução e estão condenados a uma vida de trabalho escravo, ou que têm de viver com salários de miséria, ou que são vítimas da especulação com bens essenciais, ou que são enganados e vilipendiados... O nosso texto diz claramente que Deus não aceita um mundo construído deste jeito e sugere que nós, crentes, não podemos tolerar as situações que roubam a vida e a dignidade dos pobres.

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 17 (18)

    Refrão: Eu vos amo, Senhor: sois a minha força.

    Eu Vos amo, Senhor, minha força,
    minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador.
    Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança,
    meu protector, minha defesa e meu salvador.

    Na minha aflição invoquei o Senhor
    e clamei pelo meu Deus.
    Do seu templo Ele ouviu a minha voz,
    e o meu clamor chegou aos seus ouvidos.

    Viva o Senhor, bendito seja o meu protector;
    exaltado seja Deus, meu salvador.
    O Senhor dá ao Rei grandes vitórias
    e usa de bondade para com o seu ungido.

    LEITURA II - 1 Tes 1,5c-10

    Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses

    Irmãos:
    Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem.
    Tornaste-vos imitadores nossos e do Senhor,
    recebendo a palavra no meio de muitas tribulações,
    com a alegria do Espírito Santo;
    e assim vos tornastes exemplo
    para todos os crentes da Macedónia e da Acaia.
    Porque, partindo de vós, a palavra de Deus ressoou
    não só na Macedónia e na Acaia,
    mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus,
    de modo que não precisamos de falar sobre ela.
    De facto, são eles próprios que relatam
    o acolhimento que tivemos junto de vós
    e como dos ídolos vos convertestes a Deus,
    para servir ao Deus vivo e verdadeiro
    e esperar dos Céus o seu Filho,
    a quem ressuscitou dos mortos:
    Jesus, que nos livrará da ira que há-de vir.

    AMBIENTE

    Já vimos, no passado domingo, o contexto em que apareceu a Primeira Carta aos Tessalonicenses...
    Depois de ter anunciado o Evangelho em Tessalónica e de ter juntado à sua volta uma comunidade viva e entusiasta, constituída maioritariamente por cristãos vindos do mundo pagão, Paulo teve de deixar a cidade à pressa, para fugir às maquinações dos judeus (ano 49/50). Entretanto, preocupado com a fidelidade dos tessalonicenses ao Evangelho, Paulo enviou Timóteo de volta a Tessalónica, a fim de saber notícias e de encorajar os tessalonicenses na fé. Paulo estava em Corinto quando Timóteo regressou de Tessalónica e apresentou o seu relatório. As notícias eram verdadeiramente animadoras: os tessalonicenses eram uma comunidade exemplar e viviam animada e empenhadamente o seu compromisso cristão, apesar das dificuldades e da hostilidade do meio.
    Paulo, feliz e confortado, escreveu aos tessalonicenses animando-os a prosseguir no caminho da fidelidade a Jesus e ao Evangelho. Aproveitou também para completar a formação doutrinal dos tessalonicenses e para corrigir alguns aspectos da vida da comunidade. Estamos na Primavera/Verão do ano 50 ou 51.

    MENSAGEM

    Paulo continua a longa acção de graças que começou no vers. 2. Acção de graças, porquê?
    Porque à acção evangelizadora dos apóstolos (Paulo, Silvano, Timóteo) e do Espírito Santo, os tessalonicenses responderam com o acolhimento entusiasta do Evangelho. O nascimento para Cristo da jovem comunidade cristã de Tessalónica aconteceu num ambiente de alegria e de júbilo, apesar da hostilidade provocada pela oposição dos judeus e pela tensão entre os cristãos e as autoridades da cidade.
    De resto, a alegria e o sofrimento fazem parte do dinamismo do Evangelho, desde o início... Cristo ofereceu a sua vida até à cruz para que a Boa Nova do Reino chegasse a toda a humanidade; Paulo imitou Cristo e anunciou o Evangelho no meio de dificuldades e perseguições; os tessalonicenses imitaram Paulo e receberam jubilosamente o Evangelho, apesar da hostilidade dos seus concidadãos; os crentes de toda a Grécia ("da Macedónia e da Acaia", as duas províncias romanas da Grécia) imitaram os tessalonicenses e sofreram alegremente pelo Evangelho... Dessa forma, fica manifesto que o Senhor, os apóstolos e toda a Igreja partilham o mesmo destino: todos percorrem o mesmo caminho, iluminados pelo Evangelho, no meio da alegria e do sofrimento.
    A hist
    ória desta longa cadeia que vai de Jesus à Igreja mostra que o Evangelho se torna um dinamismo de vida e de salvação para todos os povos quando é acolhido na alegria, apesar do sofrimento e da perseguição.

    ACTUALIZAÇÃO

    Ter em conta, na reflexão e partilha, os seguintes dados:

    • Muitas vezes entendemos a fé como um acontecimento pessoal, que diz respeito apenas a nós próprios e a Deus ("eu cá tenho a minha fé") e que não nos compromete com os outros. Na realidade, a fé liga-nos a uma longa cadeia que vem de Jesus até nós e que inclui uma imensa família de irmãos espalhados pelo mundo inteiro. Tenho consciência de pertencer a uma família de fé e sinto-me unido e solidário com todos os meus irmãos em Cristo? Tenho consciência de que o meu testemunho e a minha vivência ajudam e enriquecem os meus irmãos, assim como a vivência e o testemunho dos meus irmãos me enriquecem e me ajudam a mim?

    • Nenhuma comunidade cristã é uma ilha. É preciso que as comunidades cristãs partilhem, estabeleçam laços, se interpelem uma às outras, se ajudem, se animem mutuamente... É nesse diálogo e nessa partilha que o projecto de Deus se vai tornando mais claro para todos e que podemos discernir, com mais nitidez, os caminhos de Deus. As nossas comunidades cristãs e religiosas estão abertas à partilha, ou são células isoladas, que vivem num total alheamento dos problemas, das vicissitudes e das dificuldades das outras comunidades?

    • Paulo considera que o dinamismo do Evangelho se cumpre na experiência paradoxal da alegria e da dor... Receber o Evangelho com alegria significa abrir-lhe o coração, acolhê-lo, deixar que ele encontre uma terra boa onde possa frutificar e dar fruto... A dor, por sua vez, não é uma realidade boa e que devamos procurar; mas pode ajudar-nos a confiar mais em Deus, a entregarmo-nos nas suas mãos, a amadurecermos o nosso empenho e o nosso compromisso, a percebermos o sentido dos valores evangélicos do dom e da entrega da vida.

    ALELUIA - Jo 14,23

    Aleluia. Aleluia.

    Se alguém Me ama, guardará a minha palavra, diz o Senhor;
    meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.

    EVANGELHO - Mt 22,34-40

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,
    reuniram-se em grupo,
    e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:
    «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».
    Jesus respondeu:
    «'Amarás o Senhor, teu Deus,
    com todo o teu coração, com toda a tua alma
    e com todo o teu espírito'.
    Este é o maior e o primeiro mandamento.
    O segundo, porém, é semelhante a este:
    'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'.
    Nestes dois mandamentos se resumem
    toda a Lei e os Profetas».

    AMBIENTE

    O Evangelho deste domingo leva-nos, outra vez, a Jerusalém, ao encontro dos últimos dias de Jesus. Os líderes judaicos já fizeram a sua escolha e têm ideias definidas acerca da proposta de Jesus: é uma proposta que não vem de Deus e que deve ser rejeitada... Jesus, por sua vez, deve ser denunciado, julgado e condenado de forma exemplar. Para conseguir concretizar esse objectivo, os responsáveis judaicos procuram argumentos de acusação contra Jesus.
    É neste ambiente que Mateus situa três controvérsias entre Jesus e os fariseus. Essas controvérsias apresentam-se como armadilhas bem organizadas e montadas, destinadas a surpreender afirmações polémicas de Jesus, capazes de ser usadas em tribunal para conseguir a sua condenação. Depois da controvérsia sobre o tributo a César (cf. Mt 22,15-22) e da controvérsia sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mt 22,23-33), chega a controvérsia sobre o maior mandamento da Lei (cf. Mt 22,34-40). É esta última que o Evangelho de hoje nos apresenta... Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito.
    A questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica e era, no tempo de Jesus, objecto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação em actualizar a Lei, de forma a que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 acções a pôr em prática. Esta "multiplicação" dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros?
    É esta a questão que é posta a Jesus.

    MENSAGEM

    A resposta de Jesus, no entanto, supera o horizonte estreito da pergunta e vai muito mais além, situando-se ao nível das opções profundas que o homem deve fazer... O importante, na perspectiva de Jesus, não é definir qual o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E, na perspectiva de Jesus, essa raiz gira à volta de duas coordenadas: o amor a Deus e o amor ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários a estes dois mandamentos.
    Os cristãos de Mateus usavam a expressão "a Lei e os Profetas" para se referirem aos livros inspirados do Antigo Testamento, que apresentavam a revelação de Deus (cf. Mt 5,17; 7,12). Dizer, portanto, que "nestes dois mandamentos se resumem a Lei e os Profetas" (vers. 40), significa que eles encerram toda a revelação de Deus, que eles contêm a totalidade da proposta de Deus para os homens.
    A originalidade deste sumário evangélico da Lei não está nas ideias de amor a Deus a ao próximo, que são bem conhecidas do Antigo Testamento: Jesus limita-Se a citar Dt 6,5 (no que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz respeito ao amor ao próximo)... A originalidade deste ensinamento está, por um lado, no facto de Jesus os aproximar um do outro, pondo-os em perfeito paralelo e, por outro, no facto de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos.
    Portanto, o compromisso religioso (que é proposto aos crentes, quer do Antigo, quer do Novo Testamento) resume-se no amor a Deus e no amor ao próximo. Na perspectiva de Jesus, que é que isto quer dizer?
    De acordo com os relatos evangélicos, Jesus nunca se preocupou excessivamente com o cumprimento dos rituais litúrgicos que a religião judaica propunha, nem viveu obcecado com o oferecimento de dons materiais a Deus. A grande preocupação de Jesus foi, em contrapartida, discernir a vontade do Pai e a cumpri-la com fidelidade e amor. "Amar a Deus" é pois, na perspectiva de Jesus, estar atento aos projectos do Pai e procurar concretizar, na vida do dia a dia, os seus planos. Ora, na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai passa por fazer da vida uma entrega de amor aos irmão
    s, se necessário até ao dom total de si mesmo.
    Assim, na perspectiva de Jesus, "amor a Deus" e "amor aos irmãos" estão intimamente associados. Não são dois mandamentos diversos, mas duas faces da mesma moeda. "Amar a Deus" é cumprir o seu projecto de amor, que se concretiza na solidariedade, na partilha, no serviço, no dom da vida aos irmãos.
    Como é que deve ser esse "amor aos irmãos"? Este texto só explica que é preciso "amar o próximo como a si mesmo". As palavras "como a si mesmo" não significam qualquer espécie de condicionalismo, mas que é preciso amar totalmente, de todo o coração.
    Noutros textos mateanos, Jesus explica aos seus discípulos que é preciso amar os inimigos e orar pelos perseguidores (cf. Mt 5,43-48). Trata-se, portanto, de um amor sem limites, sem medida e que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos. Aliás, Lucas, ao contar este mesmo episódio que o Evangelho de hoje nos apresenta, acrescenta-lhe a história do "bom samaritano", explicando que esse "amor aos irmãos" pedido por Jesus é incondicional e deve atingir todo o irmão que encontrarmos nos caminhos da vida, mesmo que ele seja um estrangeiro ou inimigo (cf. Lc 10,25-37).

    ACTUALIZAÇÃO

    Na reflexão e partilha, considerar os seguintes pontos:

    • Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de virtudes, que arrastamos pesadamente pela história. Algures durante o caminho, deixámos que o inevitável pó dos séculos cobrisse o essencial e o acessório; depois, misturámos tudo, arrumámos tudo sem grande rigor de organização e de catalogação e perdemos a noção do que é verdadeiramente importante. Hoje, gastamos tempo e energias a discutir certas questões que são importantes (o casamento dos padres, o sacerdócio das mulheres, o uso dos meios anticonceptivos, as questões acerca do que é ou não litúrgico, aos problemas do poder e da autoridade, os pormenores legais da organização eclesial...) mas continuamos a ter dificuldade em discernir o essencial da proposta de Jesus. O Evangelho deste domingo põe as coisas de forma totalmente clara: o essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida plena e definitiva para os homens. Precisamos de rever tudo, de forma a que o lixo acumulado não nos impeça de compreender, de viver, de anunciar e de testemunhar o cerne da proposta de Jesus.

    • O que é "amar a Deus"? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projectos - para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo. Esforço-me, verdadeiramente, por tentar escutar as propostas de Deus, mantendo um diálogo pessoal com Ele, procurando reflectir e interiorizar a sua Palavra, tentando interpretar os sinais com que Ele me interpela na vida de cada dia? Tenho o coração aberto às suas propostas, ou fecho-me no meu egoísmo, nos meus preconceitos e na minha auto-suficiência, procurando construir uma vida à margem de Deus ou contra Deus? Procuro ser, em nome de Deus e dos seus planos, uma testemunha profética que interpela o mundo, ou instalo-me no meu cantinho cómodo e renuncio ao compromisso com Deus e com o Reino?

    • O que é "amar os irmãos"? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida... Na realidade, a minha vida é posta ao serviço dos meus irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Os pobres, os necessitados, os marginalizados, os que alguma vez me magoaram e ofenderam, encontram em mim um irmão que os ama, sem condições?

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM
    (adaptadas de "Signes d'aujourd'hui")

    1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 30º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa... Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

    2. DURANTE A CELEBRAÇÃO.
    As palavras finais de envio poderão retomar o mandamento do amor fraterno, propondo um ou outro gesto concreto para o aplicar nesta semana: no bairro, ou através de uma ou outra iniciativa, ainda neste mês missionário. O amor ao qual Cristo nos convida é, efectivamente, um amor para viver!

    3. PALAVRA DE VIDA.
    Eram numerosas as prescrições na Lei, o que levava talvez a esquecer o essencial. Jesus, posto à prova por um doutor da Lei, resume os preceitos num só mandamento, o do Amor, tendo como sujeitos a amar: Deus e o próximo. Nenhuma concorrência entre si. Se amar a Deus é o primeiro mandamento e amar o próximo o segundo, Jesus precisa que os dois são "semelhantes". São João, o discípulo que Jesus amava, chega a afirmar: "Aquele que diz «amo a Deus» e não ama o seu irmão é um mentiroso".

    4. UM PONTO DE ATENÇÃO.
    Pôr em realce o Evangelho... Ele lembra-nos a importância do mandamento do amor. A leitura do Evangelho deve ser pausada e, porventura, enquadrada com algum refrão ou gesto que refira o Amor de Deus.

    5. PARA A SEMANA QUE SE SEGUE...
    Comprometer-se com uma pessoa particular... Quem é este "próximo" que tenho dificuldade em amar? O Evangelho deste domingo compromete-nos com uma pessoa particular: através de uma palavra, de um gesto, de um caminho, de uma visita que traduzirá o amor que temos para com ele.

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehoninos.org - www.dehonianos.pt

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXX Semana - Segunda-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXX Semana - Segunda-feira

    30 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 8, 12-17

    Irmãos: somos devedores, mas não à carne, para vivermos de acordo com a carne. 13É que, se viverdes de acordo com a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis. 14De facto, todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus. 15Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai! 16Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. 17Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados.

    Pelo baptismo, o crente em Cristo vive uma vida nova, a vida dos «filhos de Deus» (v. 16). Ser cristão é ser filho de Deus, filho adoptivo, porque Filho unigénito é um só, Jesus Cristo. Mas, ser filho adoptivo de Deus significa ser verdadeiro filho, participante da vida divina, graças ao Filho unigénito. Trata-se de um maravilhoso mistério, que é o mistério da vida de Deus, que é o mistério da vida de Jesus, Filho unigénito do Pai, e que é a vida dos crentes. É um mistério a contemplar de coração jubiloso e agradecido.
    Sendo filho de Deus, o crente em Cristo é habilitado e chamado a viver como filho de Deus, na liberdade e na confiança própria dos filhos. Por isso, pode clamar: Abbá, ó Pai! (v. 15), tal como fazia Jesus. A palavra abbá pode traduzir-se por «papá», «paizinho», o que nos deixa entrever a extrema confiança e ternura com que Jesus se dirigia ao Pai. É a atitude com que Jesus nos ensinou a dirigir-nos também ao Pai: «Quando orardes, dizei: Abbá! (Lc 11, 2).
    Paulo termina a sua reflexão acrescentando: «se somos filhos de Deus, somos também herdeiros» (v. 17). Isto quer dizer que, como filhos, somos chamados a participar na herança do Filho, na vida eterna, total e definitiva participação na vida divina.

    Evangelho: Lucas 13, 10-17

    Naquele tempo, 10Ensinava Jesus numa sinagoga em dia de sábado. 11Estava lá certa mulher doente por causa de um espírito, há dezoito anos: andava curvada e não podia endireitar-se completamente. 12Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: «Mulher, estás livre da tua enfermidade.» 13E impôs-lhe as mãos. No mesmo instante, ela endireitou-se e começou a dar glória a Deus. 14Mas o chefe da sinagoga, indignado por ver que Jesus fazia uma cura ao sábado, disse à multidão: «Seis dias há, durante os quais se deve trabalhar. Vinde, pois, nesses dias, para serdes curados e não em dia de sábado.» 15Replicou-lhe o Senhor: «Hipócritas, não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi ou o seu jumento da manjedoura e o leva a beber? 16E esta mulher, que é filha de Abraão, presa por Satanás há dezoito anos, não devia libertar-se desse laço, a um sábado?» 17Dizendo isto, todos os seus adversários ficaram envergonhados, e a multidão alegrava-se com todas as maravilhas que Ele realizava.

    Jesus prossegue a caminhada para Jerusalém, onde se irá manifestar e onde irá realizar a sua missão salvífica. Lucas coloca ao longo desta caminhada os ensinamentos de Jesus aos discípulos. Eles são chamados a percorrer o mesmo caminho do Mestre, a partirem de Jerusalém (cf. 24, 47; Act 1, 8).
    O milagre da cura da mulher curvada é narrado apenas por Lucas. Jesus realiza-a ao sábado, provocando a indignação do chefe da sinagoga. O Senhor aproveita o ensejo para reafirmar o essencial da mensagem evangélica: o amor de Deus, revelado por Jesus, libertando o homem da Lei, que, tendo sido dada para lhe garantir a liberdade, acabara por torná-lo escravo. O amor de Deus é absolutamente gratuito: Jesus curou a mulher sem que ela o pedisse (v. 12). Com o seu gesto, Jesus afirma que o sábado está ao serviço da vida: para quem ama a Deus, deixar de fazer o bem, significa fazer o mal. E é efectivamente "mal" o desprezo do chefe da sinagoga (v. 14); e são "mal" os pensamentos dos adversários de Jesus, para quem o anúncio do reino se torna vergonha (v. 17ª).
    A palavra de Jesus realiza o que diz. Os seus gestos nada têm a ver com o espectáculo que davam os taumaturgos orientais. Jesus liberta do espírito maligno, origem do mal, que deforma a imagem do homem (cf. Gn 1, 26ss.), tornando-o escravo, incapaz de erguer os olhos para o Criador (cf. Sl 121, 1; 123, 1). Restituído à dignidade da relação vital com Deus, o homem é cheio de alegria e dá glória ao seu Senhor e Salvador exaltando as suas obras maravilhosas (vv. 13b.17b).

    Meditatio

    No mundo actual fala-se muito de liberdade, exige-se liberdade. As leituras de hoje levam-nos a meditar sobre esse valor. E é bom que o façamos, para melhor o entendermos, desejarmos, exigirmos, vivermos, respeitarmos. Na primeira leitura, Paulo convida-nos a viver de acordo com o Espírito, a ultrapassar o espírito de escravos, a vivermos na liberdade que nos é dada pelo Espírito, a clamar "Abbá!", quando nos dirigimos a Deus. De facto, chamamo-nos - «e, realmente, o somos!» - filhos de Deus (1 Jo 3, 1).
    No evangelho vemos Jesus libertar uma mulher que «doente por causa de um espírito, há dezoito anos, que andava curvada e não podia endireitar-se completamente» (v. 11). «Mulher, estás livre da tua enfermidade» (v. 12), diz-lhe Jesus, que se indigna com os reparos do chefe da sinagoga, preocupado com a falta de observância do sábado (v. 14).
    Deus quer para nós a verdadeira liberdade, aquela de que Paulo indica a condição, à primeira vista contraditória: «todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus» (v. 14). A verdadeira liberdade não é libertinagem, não é espírito de independência, mas docilidade ao Espírito de Deus, na confiança e na simplicidade. Obedecendo ao Espírito de Deus, somos libertados da escravidão do mundo e do pecado.
    Podemos ser escravos de muita coisa: da moda, do conformismo, não só quanto ao modo de vestir, mas também de viver. Muitas pessoas não têm coragem de viver como gostariam, e conformam-se ao espírito do mundo, do «homem velho», como escreveu Paulo (Ef 4, 22). Os cristãos são chamados a inventar um modo novo de viver, e a não ser escravos do que se faz ou não se faz, a encontrar caminhos e meios, ainda que inéditos, para fazer o bem, para ser filhos de Deus na liberdade, com imensa confiança no Pai. Podem enganar-se nas suas tentativas. Mas, se actuarem com o Espírito de Deus, o erro não irá longe, será corrigido e tornar-se-á fecundo de bem, conforme ao desígnio de Deus.
    Um cristão há-de ser livre, não só diante dos costumes do mundo, mas também no modo como vive a sua condição de filho de Deus. Cada
    vocação é irrepetível. Não há duas iguais. Mais do que imitar este ou aquele santo, devemos procurar o nosso próprio caminho de santidade, segundo o nosso carisma, isto é, conforme o dom que recebemos do Espírito e as orientações que nos dá. É este o verdadeiro pluralismo cristão.

    Oratio

    Senhor, ensina-me a viver como teu filho, como homem livre; ensina-me a tender à cura perfeita, pela confiança no teu poder divino. Infunde em mim o teu Espírito Santo, que seja o farol dos meus passos, tantas vezes incertos e lentos. Dá-me, cada dia, o pão da tua Palavra, que me fortaleça no caminho íngreme e sinuoso da vida. Suporta com paciência e misericórdia os meus erros. Sê o meu refúgio e o meu descanso, a minha Providência em todas as necessidades e crises. Ensina-me os valores e ideais que dão sentido à vida. Sê o meu Pai, cheio de bondade e de carinho. E que eu viva e me comporte sempre como teu filho. Amen.

    Contemplatio

    Aprendamos de Nosso Senhor que não podemos merecer a liberdade dos filhos de Deus senão pela obediência, e as alegrias puras das graças do céu senão pelas mortificações e pelas privações desta vida. Nosso Senhor deixa-se conduzir por S. José e levar pela sua divina Mãe, de Nazaré a Belém, para obedecer a um príncipe adorador dos ídolos, Ele que é o Rei dos reis e a luz do mundo. Poderia depor César Augusto do trono onde a sua mão o colocou; obedece-lhe, no entanto, e logo que o seu édito aparece. A obediência é-lhe tão querida que assim há-de seguir toda a sua vida e há-de conduzi-lo à morte: Fez-se obediente até à morte e morte de cruz (Fl 2, 8). (Leão Dehon, OSP 4, p. 580).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive a palavra:
    «Os que se deixam guiar pelo Espírito, são filhos de Deus» (Rm 8, 14).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - XXX Semana - Terça-feira

    Tempo Comum - Anos Ímpares - XXX Semana - Terça-feira

    31 de Outubro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Romanos 8, 18-25

    Irmãos: estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós. 19Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus. 20De facto, a criação foi sujeita à destruição - não voluntariamente, mas por disposição daquele que a sujeitou - na esperança 21de que também ela será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus. 22Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente. 23Não só ela. Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo. 24De facto, foi na esperança que fomos salvos. Ora uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver? 25Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar.

    Justificados pela graça de Deus, por meio da fé, no poder do Espírito Santo, tornámo-nos filhos de Deus, co-herdeiros com Cristo. Esta é a nossa realidade actual. As consequências dessa realidade são o que Paulo chama «a glória que há revelar-se em nós» (v. 18). A vida cristã decorre entre um "já" e um "ainda não". Este "já", por vezes, é marcado por diversas provações «os sofrimentos do tempo presente», dúvidas, angústias, doenças... Mas, desde já, entrevemos um futuro de luz e de paz!
    A própria criação partilha e vive esta tensão da humanidade e de cada um de nós: «até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (v. 19).
    «Foi na esperança que fomos salvos», conclui o Apóstolo (v. 24). A nossa salvação "já" está adquirida, tal como a nossa filiação divina. Mas "ainda" devemos esperar, com paciência, a sua plena e definitiva realização.

    Evangelho: Lucas 13, 18-21

    Naquele tempo, disse Jesus: «A que é semelhante o Reino de Deus e a que posso compará-lo? 19É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e deitou no seu quintal. Cresceu, tornou-se uma árvore e as aves do céu vieram abrigar-se nos seus ramos.» 20Disse ainda: «A que posso comparar o Reino de Deus? 21É semelhante ao fermento que certa mulher tomou e misturou com três medidas de farinha, até ficar levedada toda a massa.»

    Depois de se ter manifestado como senhor do tempo, ao curar a mulher curvada em dia de sábado, Jesus manifesta-se como o «hoje» da salvação que se realiza no amor. O reino de Deus está no meio de nós. As duas parábolas do texto evangélico que escutamos hoje revelam-nos duas características desse reino: a sua grande expansão e a sua força transformadora.
    Entre as várias narrativas parabólicas que Lucas coloca ao narrar a caminhada de Jesus para Jerusalém, apenas estas duas se referem ao reino de Deus. Esse reino tem uma grande expansão no mundo, graças à pregação dos discípulos. Os modestos começos do ministério de Jesus têm um grande desenvolvimento: a sua palavra que ecoa no mundo inteiro e da qual todos recebem vida, é comparável à árvore cósmica de Daniel (4, 7ª-9), cuja imagem é evocada no crescimento do arbusto de mostarda (vv. 18s.).
    Outra característica do reino de Deus é a sua força intrínseca, que realiza um crescimento qualitativo no mundo. Como um pouco de fermento escondido na massa inerte de farinha provoca o seu crescimento, assim o reino de Deus, pela evangelização animada pelo poder do Espírito Santo, transforma todo o mundo, sem qualquer discriminação.

    Meditatio

    Paulo abre uma maravilhosa perspectiva de futuro à vida cristã: «estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós» (v. 18). É o dom da esperança que nos ampara, no meio dos sofrimentos e lutas do caminho da vida. «Foi na esperança que fomos salvos», diz o Apóstolo (v. 24). Fomos salvos por Cristo morto e ressuscitado. Mas as consequências da salvação ainda não se manifestaram plenamente em nós. A própria criação «se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (v. 19). A vida cristã decorre entre um "já" e um "ainda não". Entretanto, a acção redentora de Deus continua a realizar-se no mundo, quase sempre de modo discreto, pelo que temos dificuldade em a observar. O modo como o Reino cresce no mundo é descrito por Jesus no evangelho com duas parábolas, uma para o homem e outra para a mulher. Lucas gosta de anotar estas delicadezas do Senhor para com as mulheres. Isso quer dizer que o Senhor convida todos, homens e mulheres, à paciência e à esperança. O Reino de Deus parece coisa pouca, quase nada, mas encerra uma força poderosa. O grão de mostarda mal se vê, mas encerra uma força vital que o faz crescer até se tornar um grande arbusto, onde os pássaros podem poisar. O fermento escondido pela mulher na farinha parece coisa pouca. Mas fá-la fermentar e dá-lhe a capacidade de se tornar pão. O mesmo acontece na nossa vida: devemos acolher o Reino, a Palavra, que é, como palavra, pouca coisa, ar em movimento, mas que é capaz de transformar a nossa vida, desde que tenhamos paciência e confiança. Paciência porque a transformação não acontece de um momento para o outro; confiança porque sabemos que irá acontecer, graças ao poder de Deus em nós. O Reino de Deus foi inaugurado pela presença, pela palavra e pelos actos de Jesus. Mas só se realizará plenamente quando o Filho do homem entregar tudo e todos a Deus, seu Pai. O "Reino de Deus" é uma realidade escatológica, de que Jesus é uma antecipação e uma realização pessoal. Tudo o resto é apenas índice e figura do Reino. Como afirma o Vaticano II, a Igreja é apenas «gérmen e início do Reino de Deus» (LG 5). Aderindo totalmente e com alegria à Pessoa de Jesus, contemplando o Lado aberto do Crucificado e o mistério do Coração de Cristo, testemunhamos o primado do Seu Reino cf. Cst 13).

    Oratio

    Senhor Jesus, Tu és o verdadeiro fermento, que quer levedar cada um dos homens, e a humanidade inteira, transformando-os em Reino de Deus. Para isso vieste ao mundo, viveste a nossa vida e morreste por nós. Para isso, quiseste ficar connosco na Eucaristia, até ao fim dos tempos. Obrigado, Senhor Jesus! Que nos deixemos tr
    ansformar por Ti, e nos tornemos Contigo semente e fermento do Reino.
    Não é fácil semear, como não é fácil amassar e fazer crescer a massa. Dá-me coragem para não desertar, dá-me força para perseverar, dá-me zelo para fazer florir o teu amor nos corações que ainda permanecem ázimos. Dá-me esperança para entrever, com os meus irmãos e irmãs, a tua glória. Amen.

    Contemplatio

    É verdade que a presença sacramental de Jesus em nós cessa com a dissolução das santas espécies; mas o Salvador permanece em nós pela sua acção, pela sua influência vital, segundo a sua palavra tão formal: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele». Permanece em nós para nos transformar n' Ele. Não se deve confundir a vida e o alimento. A vida é um estado, o alimento é alguma coisa de passageiro. O pão que comemos transforma-se na substância do nosso corpo. Traz-lhe uma nova dose de vida e de forças. O mesmo na comunhão: Jesus o pão celeste, o Pão vivificante deixe em breve de estar presente de uma presença terrestre e exterior; mas permanece em nós e nós permanecemos n' Ele de uma maneira toda celeste e muito real; é o que se chama a presença espiritual de Jesus nos seus fiéis. Dura tanto que pela sua fé e na união do Espírito Santo, permanecemos em Cristo. Há esta diferença entre o alimento corporal e o alimento espiritual que, no primeiro, é o pão que é transformado em nós; ao passo que, no segundo, somos nós que temos a felicidade de sermos transformados em Jesus, tanto quanto o permitam as nossas disposições e a nossa fraqueza. «Como o fermento, misturado na massa, a levanta e a transforma, diz S. Cirilo de Alexandria, assim Jesus, sob o véu da sua pequena hóstia, atrai a si o homem todo inteiro, para o encher com a sua graça; e assim Cristo permanece em nós e nós n' Ele» (Lv. 4). (Leão Dehon, OSP 4, p. 247s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive a palavra:
    «O Reino de Deus é semelhante ao fermento» (cf. Lc 13, 21).

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