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Lectio

Primeira leitura: Romanos 8, 12-17

Irmãos: somos devedores, mas não à carne, para vivermos de acordo com a carne. 13É que, se viverdes de acordo com a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis. 14De facto, todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus. 15Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamamos: Abbá, ó Pai! 16Esse mesmo Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. 17Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados.

Pelo baptismo, o crente em Cristo vive uma vida nova, a vida dos «filhos de Deus» (v. 16). Ser cristão é ser filho de Deus, filho adoptivo, porque Filho unigénito é um só, Jesus Cristo. Mas, ser filho adoptivo de Deus significa ser verdadeiro filho, participante da vida divina, graças ao Filho unigénito. Trata-se de um maravilhoso mistério, que é o mistério da vida de Deus, que é o mistério da vida de Jesus, Filho unigénito do Pai, e que é a vida dos crentes. É um mistério a contemplar de coração jubiloso e agradecido.
Sendo filho de Deus, o crente em Cristo é habilitado e chamado a viver como filho de Deus, na liberdade e na confiança própria dos filhos. Por isso, pode clamar: Abbá, ó Pai! (v. 15), tal como fazia Jesus. A palavra abbá pode traduzir-se por «papá», «paizinho», o que nos deixa entrever a extrema confiança e ternura com que Jesus se dirigia ao Pai. É a atitude com que Jesus nos ensinou a dirigir-nos também ao Pai: «Quando orardes, dizei: Abbá! (Lc 11, 2).
Paulo termina a sua reflexão acrescentando: «se somos filhos de Deus, somos também herdeiros» (v. 17). Isto quer dizer que, como filhos, somos chamados a participar na herança do Filho, na vida eterna, total e definitiva participação na vida divina.

Evangelho: Lucas 13, 10-17

Naquele tempo, 10Ensinava Jesus numa sinagoga em dia de sábado. 11Estava lá certa mulher doente por causa de um espírito, há dezoito anos: andava curvada e não podia endireitar-se completamente. 12Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: «Mulher, estás livre da tua enfermidade.» 13E impôs-lhe as mãos. No mesmo instante, ela endireitou-se e começou a dar glória a Deus. 14Mas o chefe da sinagoga, indignado por ver que Jesus fazia uma cura ao sábado, disse à multidão: «Seis dias há, durante os quais se deve trabalhar. Vinde, pois, nesses dias, para serdes curados e não em dia de sábado.» 15Replicou-lhe o Senhor: «Hipócritas, não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi ou o seu jumento da manjedoura e o leva a beber? 16E esta mulher, que é filha de Abraão, presa por Satanás há dezoito anos, não devia libertar-se desse laço, a um sábado?» 17Dizendo isto, todos os seus adversários ficaram envergonhados, e a multidão alegrava-se com todas as maravilhas que Ele realizava.

Jesus prossegue a caminhada para Jerusalém, onde se irá manifestar e onde irá realizar a sua missão salvífica. Lucas coloca ao longo desta caminhada os ensinamentos de Jesus aos discípulos. Eles são chamados a percorrer o mesmo caminho do Mestre, a partirem de Jerusalém (cf. 24, 47; Act 1, 8).
O milagre da cura da mulher curvada é narrado apenas por Lucas. Jesus realiza-a ao sábado, provocando a indignação do chefe da sinagoga. O Senhor aproveita o ensejo para reafirmar o essencial da mensagem evangélica: o amor de Deus, revelado por Jesus, libertando o homem da Lei, que, tendo sido dada para lhe garantir a liberdade, acabara por torná-lo escravo. O amor de Deus é absolutamente gratuito: Jesus curou a mulher sem que ela o pedisse (v. 12). Com o seu gesto, Jesus afirma que o sábado está ao serviço da vida: para quem ama a Deus, deixar de fazer o bem, significa fazer o mal. E é efectivamente “mal” o desprezo do chefe da sinagoga (v. 14); e são “mal” os pensamentos dos adversários de Jesus, para quem o anúncio do reino se torna vergonha (v. 17ª).
A palavra de Jesus realiza o que diz. Os seus gestos nada têm a ver com o espectáculo que davam os taumaturgos orientais. Jesus liberta do espírito maligno, origem do mal, que deforma a imagem do homem (cf. Gn 1, 26ss.), tornando-o escravo, incapaz de erguer os olhos para o Criador (cf. Sl 121, 1; 123, 1). Restituído à dignidade da relação vital com Deus, o homem é cheio de alegria e dá glória ao seu Senhor e Salvador exaltando as suas obras maravilhosas (vv. 13b.17b).

Meditatio

No mundo actual fala-se muito de liberdade, exige-se liberdade. As leituras de hoje levam-nos a meditar sobre esse valor. E é bom que o façamos, para melhor o entendermos, desejarmos, exigirmos, vivermos, respeitarmos. Na primeira leitura, Paulo convida-nos a viver de acordo com o Espírito, a ultrapassar o espírito de escravos, a vivermos na liberdade que nos é dada pelo Espírito, a clamar “Abbá!”, quando nos dirigimos a Deus. De facto, chamamo-nos – «e, realmente, o somos!» – filhos de Deus (1 Jo 3, 1).
No evangelho vemos Jesus libertar uma mulher que «doente por causa de um espírito, há dezoito anos, que andava curvada e não podia endireitar-se completamente» (v. 11). «Mulher, estás livre da tua enfermidade» (v. 12), diz-lhe Jesus, que se indigna com os reparos do chefe da sinagoga, preocupado com a falta de observância do sábado (v. 14).
Deus quer para nós a verdadeira liberdade, aquela de que Paulo indica a condição, à primeira vista contraditória: «todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus» (v. 14). A verdadeira liberdade não é libertinagem, não é espírito de independência, mas docilidade ao Espírito de Deus, na confiança e na simplicidade. Obedecendo ao Espírito de Deus, somos libertados da escravidão do mundo e do pecado.
Podemos ser escravos de muita coisa: da moda, do conformismo, não só quanto ao modo de vestir, mas também de viver. Muitas pessoas não têm coragem de viver como gostariam, e conformam-se ao espírito do mundo, do «homem velho», como escreveu Paulo (Ef 4, 22). Os cristãos são chamados a inventar um modo novo de viver, e a não ser escravos do que se faz ou não se faz, a encontrar caminhos e meios, ainda que inéditos, para fazer o bem, para ser filhos de Deus na liberdade, com imensa confiança no Pai. Podem enganar-se nas suas tentativas. Mas, se actuarem com o Espírito de Deus, o erro não irá longe, será corrigido e tornar-se-á fecundo de bem, conforme ao desígnio de Deus.
Um cristão há-de ser livre, não só diante dos costumes do mundo, mas também no modo como vive a sua condição de filho de Deus. Cada
vocação é irrepetível. Não há duas iguais. Mais do que imitar este ou aquele santo, devemos procurar o nosso próprio caminho de santidade, segundo o nosso carisma, isto é, conforme o dom que recebemos do Espírito e as orientações que nos dá. É este o verdadeiro pluralismo cristão.

Oratio

Senhor, ensina-me a viver como teu filho, como homem livre; ensina-me a tender à cura perfeita, pela confiança no teu poder divino. Infunde em mim o teu Espírito Santo, que seja o farol dos meus passos, tantas vezes incertos e lentos. Dá-me, cada dia, o pão da tua Palavra, que me fortaleça no caminho íngreme e sinuoso da vida. Suporta com paciência e misericórdia os meus erros. Sê o meu refúgio e o meu descanso, a minha Providência em todas as necessidades e crises. Ensina-me os valores e ideais que dão sentido à vida. Sê o meu Pai, cheio de bondade e de carinho. E que eu viva e me comporte sempre como teu filho. Amen.

Contemplatio

Aprendamos de Nosso Senhor que não podemos merecer a liberdade dos filhos de Deus senão pela obediência, e as alegrias puras das graças do céu senão pelas mortificações e pelas privações desta vida. Nosso Senhor deixa-se conduzir por S. José e levar pela sua divina Mãe, de Nazaré a Belém, para obedecer a um príncipe adorador dos ídolos, Ele que é o Rei dos reis e a luz do mundo. Poderia depor César Augusto do trono onde a sua mão o colocou; obedece-lhe, no entanto, e logo que o seu édito aparece. A obediência é-lhe tão querida que assim há-de seguir toda a sua vida e há-de conduzi-lo à morte: Fez-se obediente até à morte e morte de cruz (Fl 2, 8). (Leão Dehon, OSP 4, p. 580).

Actio

Repete muitas vezes e vive a palavra:
«Os que se deixam guiar pelo Espírito, são filhos de Deus» (Rm 8, 14).