ANO A
2.º DOMINGO DO ADVENTO
Tema do 2.º Domingo do Advento
Preparamo-nos para celebrar o nascimento de Jesus. Na segunda etapa do “caminho do advento”, a liturgia refere-se à razão da vinda de Jesus ao encontro dos homens: Ele vem concretizar as promessas de Deus e inaugurar um mundo novo, radicalmente diferente desse mundo velho que conhecemos, cheio de ódios, de conflitos, de mentiras, de violências, de guerras. A Palavra de Deus que escutamos neste domingo pede-nos que acolhamos esse Menino de braços abertos e que aceitemos o desafio que Ele nos faz para integrar a comunidade do Reino de Deus.
Na primeira leitura, o profeta Isaías propõe, com a linguagem de um poeta e a convicção de um profeta, o projeto que Deus se propõe realizar em favor do Seu povo: no tempo oportuno irá chegar um “ungido” de Javé, nascido da família do rei David, que inaugurará um reino de justiça e de paz sem fim. Nesse mundo belo e harmonioso que então nascerá, “o lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente; e o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora”. Esta janela de sonho permite-nos entrever, ao longe, o Menino de Belém.
No Evangelho, João Baptista deixa um aviso a todos aqueles que vão procurá-lo no vale do rio Jordão: a concretização do Reino de justiça e de paz, outrora anunciado por Deus, está próxima. Para acolher o enviado de Deus, é necessário primeiro “converter-se”. Converter-se é abandonar os caminhos sem saída em que se anda e “voltar para trás”, ao encontro de Deus. Os que aceitarem fazer esse “caminho de conversão”, estarão preparados para acolher o Reino de Deus e para fazer parte da comunidade do Messias.
Na segunda leitura o apóstolo Paulo, dirigindo-se aos cristãos de Roma, lembra-lhes algumas das exigências que resultam do compromisso que assumiram com Cristo. Sendo, junto dos seus concidadãos, o rosto visível de Cristo, eles devem dar testemunho de união, de harmonia, de fraternidade, acolhendo e ajudando os irmãos mais débeis e sendo sinais desse mundo novo que Cristo veio inaugurar.
LEITURA I – Isaías 11, 1-10
Naquele dia,
sairá um ramo do tronco de Jessé
e um rebento brotará das suas raízes.
Sobre ele repousará o espírito do Senhor:
espírito de sabedoria e de inteligência,
espírito de conselho e de fortaleza,
espírito de conhecimento e de temor de Deus.
Animado assim do temor de Deus,
não julgará segundo as aparências,
nem decidirá pelo que ouvir dizer.
Julgará os infelizes com justiça
e com sentenças retas os humildes do povo.
Com o chicote da sua palavra atingirá o violento
e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio.
A justiça será a faixa dos seus rins
e a lealdade a cintura dos seus flancos.
O lobo viverá com o cordeiro
e a pantera dormirá com o cabrito;
o bezerro e o leãozinho andarão juntos
e um menino os poderá conduzir.
A vitela e a ursa pastarão juntamente,
suas crias dormirão lado a lado;
e o leão comerá feno como o boi.
A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra
e o menino meterá a mão na toca da víbora.
Não mais praticarão o mal nem a destruição
em todo o meu santo monte:
o conhecimento do Senhor encherá o país,
como as águas enchem o leito do mar.
Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos;
as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.
CONTEXTO
O profeta Isaías (autor dos capts. 1-39 do Livro de Isaías) nasceu por volta do ano 760 a. C., no tempo do rei Ozias. De origem nobre, parece ter vivido em Jerusalém e frequentado o ambiente da corte. Culto e respeitado, fazia parte dos notáveis do país: participava nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (cf. 7,10).
Foi por volta de 740 a.C. (cf. Is 6,1), quando tinha cerca de vinte anos, que Isaías sentiu o chamamento de Deus e iniciou a sua missão profética. Essa missão prolongou-se durante os reinados de Jotam (740-736 a.C.), Acaz (736-716 a.C.) e Ezequias (716-687 a.C.), reis de Judá.
A época em que Isaías exerceu o seu ministério profético é uma época agitada, do ponto de vista político, marcada pelo expansionismo do império assírio. No ano 745 a.C., Tiglat-Pileser III sobe ao trono assírio e envia os seus exércitos para submeter os povos da zona. Os pequenos reinos da região, assustados com a política militar agressiva dos assírios, procuraram resistir constituindo coligações defensivas anti-assírias. Judá, apesar dos esforços de Acaz, não conseguiu evitar envolver-se nesses jogos de política internacional, acabando por cair na zona de influência dos assírios. Isaías nunca aprovou a participação de Judá nesses jogos da política internacional. Para o profeta, Judá devia abster-se das alianças políticas com potências estrangeiras, sempre perigosas e geradoras de instabilidade. A única política aceitável, para o povo da Aliança, era colocar a sua segurança e esperança nas mãos de Deus.
Mais tarde, já no reinado de Ezequias, Judá procurou libertar-se da influência assíria entrando numa coligação anti-assíria com o Egito, a Fenícia e a Babilónia. Isaías, uma vez mais, condenou essa iniciativa. Para o profeta, colocar a segurança e a esperança da nação no poder de exércitos estrangeiros não poderia conduzir senão à ruína de Judá. De facto, as previsões funestas de Isaías realizaram-se quando Senaquerib invadiu Judá, cercou Jerusalém e obrigou Ezequias a submeter-se ao poderio assírio (701 a.C.).
Os últimos oráculos de Isaías são de 701 ou, talvez, de 689 a. C. Isaías deve ter morrido poucos anos depois, embora não saibamos ao certo quando. Um apócrifo judeu do séc. I d. C. – “Ascensão de Isaías” – afirma que foi assassinado pelo rei ímpio Manassés.
A primeira leitura que a liturgia deste domingo nos propõe apresenta-nos um poema cujo enquadramento histórico não é fácil de definir. Para alguns autores, contudo, este poema (e outros semelhantes) surge na fase final da atividade profética de Isaías, talvez nos últimos anos do reinado de Ezequias. Por essa altura, desiludido com o aventureirismo político dos reis de Judá, o profeta teria começado a sonhar com um tempo novo, sem armas e sem guerras, de justiça e de paz sem fim. Tal “reino” só poderia surgir da iniciativa de Javé (os reis humanos de há muito que se haviam revelado incapazes de conduzir o Povo em direção a um futuro de paz); e o instrumento de Javé na implementação desse “reino” seria, na opinião do profeta, um descendente de David. Este texto será, talvez, dessa época em que a profecia e o sonho de um mundo melhor se combinam.
MENSAGEM
Na primeira parte do poema (vers. 1-5), o profeta apresenta o personagem que será o instrumento de Deus na concretização de um “reino” novo, desse mundo de justiça e de paz com que os homens sonham.
O profeta diz, antes de mais, que esse personagem virá “da raiz de Jessé”. Jessé era o pai do rei David. Portanto, ele será da descendência de David e, presumivelmente, recuperará esse tempo ideal de bem-estar, de abundância e de paz que o Povo de Deus conheceu durante o reinado de David.
Isaías acrescenta que, sobre esse personagem repousará o Espírito de Deus (o “ruah Javé”). É o mesmo Espírito que ordenou o universo na aurora da criação (cf. Gn 1,2), que animou os heróis carismáticos de Israel (cf. Jz 3,10; 6,34; 11,29), que inspirou os profetas (cf. Nm 11,17; 1 Sm 10,6.10; 19,20; 2 Sm 23,2; 2 Re 2,9; Mi 3,8; Is 48,16; 61,1; Zc 7,12). Esse Espírito conferirá ao enviado de Deus as virtudes eminentes dos seus antepassados: sabedoria e inteligência como Salomão, espírito de conselho e de fortaleza como David, espírito de conhecimento e de temor de Deus como os patriarcas e profetas (aos seis dons aqui enunciados, a tradução grega dos “Setenta” acrescentará a “piedade”: é esta a origem da nossa lista dos sete dons do Espírito Santo).
Ungido pelo Espírito de Deus (“Messias”) e possuindo a plenitude dos carismas, o descendente de David irá estabelecer um “reino” de justiça, onde os direitos dos mais pobres sejam respeitados e onde os oprimidos conheçam a liberdade, a lealdade e a paz. Desse “reino” serão excluídas, definitivamente, a injustiça, a mentira, a opressão, a violência.
Na segunda parte do oráculo (vers. 6-9), o profeta desenha – com imagens muito belas – o quadro desse mundo novo que o “Messias” vai instaurar. A revolta dos primeiros humanos contra Deus (cf. Gn 3) havia introduzido no mundo fatores de desequilíbrio que quebraram a harmonia entre o homem e a natureza (cf. Gn 3,17-19), entre o homem e o seu irmão (cf. Gn 4,1-16). Mas agora o “Messias” trará a paz e, dessa forma, cumprir-se-á o projeto inicial que Deus tinha para o mundo e para os homens: os animais selvagens e os animais domésticos viverão em harmonia (o lobo e o cordeiro; a pantera e o cabrito; o leão e o bezerro; o urso e a vitela) e todos eles estarão submetidos ao homem (representado pela criança – isto é, o ser humano na sua fragilidade máxima). A própria serpente (o animal que despoletou a desarmonia universal, ao estar na origem do afastamento do homem do Deus criador) comungará desta harmonia e desta paz sem fim: é a superação total do desequilíbrio, do conflito, da divisão que o pecado do homem introduziu no mundo.
Destruídas as inimizades, superadas as desarmonias, o homem viverá em paz, em comunhão total com Deus (vers. 9). No primeiro paraíso, o homem escolheu ser adversário de Deus e escolheu viver no orgulho e na autossuficiência; agora, por ação do “Messias”, ele regressará à comunhão com o seu criador e passará a viver no “conhecimento de Deus”. É o regresso ao paraíso original, ao “sonho” inicial do Deus criador.
INTERPELAÇÕES
- É muito belo o “mundo” sonhado pelo profeta-poeta Isaías. No entanto, mais de 2.700 anos depois, essa bela utopia parece continuar infinitamente distante da realidade com que lidamos todos os dias. Guerras infindáveis, de uma violência inaudita, deixam por todo o lado um rasto de sofrimento e morte; os poderosos, os donos do mundo, multiplicam as injustiças e as arbitrariedades sobre os mais frágeis e moldam as leis de acordo com os seus interesses; o consumismo, a ambição desmedida, a exploração descontrolado dos recursos naturais, a procura do bem-estar a qualquer custo, têm-nos levado a excessos impensáveis na relação que mantemos com a natureza e colocam a humanidade sob a ameaça de catástrofes devastadoras; uma boa parte da humanidade vive muito abaixo do limiar da pobreza e não tem acesso ao pão de cada dia, a cuidados básicos de saúde, à instrução, a uma vida digna… Como lidamos com tudo isto? Que valor damos à promessa feita por Deus através de Isaías, uma promessa tantas e tantas vezes reiterada, ao longo da história dos homens, por outras vozes proféticas? Ainda alimentamos a esperança nesse mundo novo prometido por Deus?
- Para nós, cristãos, Jesus Cristo é o “Messias”, o “rebento que brotou das raízes” de Jessé, o descendente de David que Deus ungiu com o Espírito e enviou ao mundo para propor aos homens o prometido “reino” de justiça, de paz, de fraternidade, de vida abundante. Jesus, com palavras e com gestos, falou-nos do “Reino de Deus” e lançou a semente desse “reino” no coração dos homens. Temos levado a sério a proposta que Jesus nos veio trazer? A semente que Jesus veio lançar à terra foi acolhida nos nossos corações e tem dado frutos abundantes? Sentimo-nos verdadeiramente comprometidos com a construção do Reino de Deus? Lutamos objetivamente contra tudo aquilo que, nestes dias que nos tocou viver, gera injustiça, violência, mentira, maldade, sofrimento e morte? Somos nós também – tal como Jesus foi – anunciadores desse mundo novo de justiça e de fraternidade que Deus quer continuar a propor aos homens?
- Neste tempo de advento – o tempo em que nos preparamos para celebrar a vinda de Jesus à história dos homens – faz sentido questionarmo-nos sobre aquilo que ainda nos impede de acolher Jesus e a proposta que Ele, por mandato de Deus, nos veio trazer. O que é que temos de mudar na nossa mentalidade, na nossa forma de ver o mundo e os outros, na nossa forma de atuar, nos valores sobre os quais vamos edificando a nossa existência, para que se torne realidade o mundo sonhado por Deus? Há alguma coisa na nossa vida que esteja a ser obstáculo para que Jesus chegue até nós e para que possamos acolher a Sua proposta?
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)
Refrão: Nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre.
Ó Deus, dai ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.
Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.
Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.
O seu nome será eternamente bendito
e durará tanto como a luz do sol;
nele serão abençoadas todas as nações,
todos os povos da terra o hão de bendizer.
LEITURA II – Romanos 15, 4-9
Irmãos:
Tudo o que foi escrito no passado
foi escrito para nossa instrução,
a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras,
tenhamos esperança.
O Deus da paciência e da consolação vos conceda
que alimenteis os mesmos sentimentos uns para com os outros,
segundo Cristo Jesus,
para que, numa só alma e com uma só voz,
glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Acolhei-vos, portanto, uns aos outros,
como Cristo vos acolheu,
para glória de Deus.
Pois Eu vos digo que Cristo Se fez servidor dos judeus,
para mostrar a fidelidade de Deus
e confirmar as promessas feitas aos nossos antepassados.
Por sua vez, os gentios dão glória a Deus pela sua misericórdia,
como está escrito:
«Por isso eu Vos bendirei entre as nações
e cantarei a glória do vosso nome».
CONTEXTO
Não sabemos em pormenor como surgiu a comunidade cristã de Roma. Pensa-se que o cristianismo terá chegado à capital do império levado por judeus palestinos convertidos a Jesus. Por essa altura, havia em Roma uma importante colónia judaica, constituída por cerca de 50.000 pessoas.
Paulo, na altura em que decidiu escrever aos cristãos de Roma, não tinha ainda tido contactos diretos com a comunidade. O seu esforço missionário tinha sido, até então, direcionado para o Mediterrâneo oriental, especialmente para as regiões da Ásia Menor e da Grécia.
Contudo, talvez no inverno de 55-56, prestes a concluir a sua terceira viagem missionária, Paulo começou a pensar em novos horizontes de missão. Preparava-se, então, para retornar à Palestina, a fim de entregar pessoalmente aos cristãos de Jerusalém os donativos recolhidos em favor deles nas igrejas do oriente. As igrejas que ele tinha fundado e acompanhado na Grécia e na Ásia Menor estavam organizadas e pareciam preparadas para caminhar sozinhas. Paulo sentia-se livre para partir para onde o anúncio do Evangelho o levasse. Planeava dirigir-se para ocidente e, talvez, ir até à Espanha para aí proclamar o Evangelho (cf. Rm 15,24-28). A visita a Roma seria um antigo sonho de Paulo.
É neste enquadramento que Paulo resolve dirigir-se por carta aos cristãos de Roma. Apresenta-se (“Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus” – Rm 1,1) e propõe-lhes uma reflexão sobre os principais problemas que o preocupam, entre os quais sobressai a questão da unidade (um problema que a comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos, conhecia bem). Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, expõe-lhes as linhas mestras do Evangelho que anuncia. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina.
A Carta tem duas partes, uma mais de carácter doutrinal e a outra de carácter mais prático. Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna. Na segunda parte da carta (cf. Rm 12,1-15,13) Paulo, de uma forma bastante prática, exorta os cristãos a viverem de acordo com o Evangelho de Jesus.
O texto que hoje nos é proposto pertence à segunda parte da carta. Depois de exortar os cristãos que pertencem à comunidade de Roma ao amor mútuo (cf. Rm 13,8-10), Paulo deixa-lhes uma recomendação sobre a forma de esperar o Senhor que vem.
MENSAGEM
O texto que nos é apresentado como segunda leitura tem de ser entendido no contexto mais amplo de uma perícope que vai de 15,1 a 15,13. Literariamente, esta perícope está construída na base de dois parágrafos simétricos (cf. Rm 15,1-6 e 15,7-13) que apresentam uma mesma sequência e uma mesma organização: a) exortação; b) motivação cristológica; c) iluminação a partir da Escritura; d) súplica final.
No primeiro desses parágrafos (cf. Rm 15,1-6), Paulo exorta os membros da comunidade que se consideram “fortes” a darem as mãos aos mais débeis, ajudando-os a superar as dificuldades do caminho cristão (a). Esses “fortes” devem sentir-se motivados pelo exemplo de Cristo, que não se escondeu atrás de um caminho de facilidade e de bem-estar pessoal, mas escolheu o caminho do amor e do dom da vida (b). Esta é, aliás (e é aqui que começa o texto de hoje), a atitude que a Escritura – que foi escrita para instrução dos crentes – ensina a todos aqueles que integram a família de Deus (c). Finalmente, Paulo pede ao “Deus da perseverança e da consolação” que dê aos cristãos de Roma “os mesmos sentimentos uns para com os outros”, a fim de que vivam em harmonia e louvem a Deus com um só coração e uma só alma (d).
No segundo desses parágrafos (cf. Rm 15,7-13), Paulo convida os membros da comunidade a não fazerem discriminações, mas a acolherem todos, sem exceção (a). Uma vez mais Paulo propõe aos membros da comunidade o exemplo de Cristo, que acolheu todos, independentemente das suas fragilidades e diferenças (b). Paulo justifica o que disse atrás com o exemplo da Escritura (e é neste ponto que termina o trecho que a liturgia nos propõe como segunda leitura), citando explicitamente vários textos do Antigo Testamento que mostram como Cristo, procedendo assim, cumpriu as promessas outrora feitas por Deus (c). Finalmente, Paulo faz votos de que o “Deus da esperança” cumule os crentes “de alegria e de paz, na fé” (d).
A comunidade cristã é constituída por homens e mulheres de muitas proveniências, com histórias de vida muito diversas. Mas, apesar das diferenças, é chamada a ser no meio dos homens testemunha do mundo novo, do mundo sonhado por Deus. Os discípulos de Jesus, a partir do exemplo que Ele lhes deixou, devem cuidar uns dos outros, especialmente dos mais frágeis, e acolherem-se uns aos outros como Cristo os acolheu. Irmanados em Cristo, devem testemunhar a fraternidade, viver no amor e proclamar, a uma só voz, os louvores de Deus. Essa é a vocação fundamental da comunidade dos crentes que se reúne à volta de Jesus.
INTERPELAÇÕES
- Paulo de Tarso, desde que encontrou Cristo na estrada de Damasco (cf. At 9,1-19; 22,4-21; 26,9-18) passou a ver o mundo e a vida com o olhar de Cristo. Cristo passou a ser a sua referência absoluta. Com Cristo, Paulo descobriu que o caminho que leva à vida é o caminho da cruz, o caminho da vida dada até ao extremo, o caminho do amor e do serviço; com Cristo, Paulo aprendeu a acolher toda a gente, independentemente das raças, das diferenças culturais ou de classe. Cristo é verdadeiramente o centro a partir do qual Paulo alicerça o edifício da sua vida. É precisamente essa experiência que ele procura passar aos cristãos de Roma e aos cristãos de todos os tempos e lugares. Cristo Jesus é, de facto, a nossa referência? Procuramos ver a vida, o mundo e os homens com o mesmo olhar de Cristo? Os valores sobre os quais a nossa vida está assente são os valores do Evangelho?
- Para Paulo, a comunidade cristã, nascida de Cristo e rosto visível de Cristo no mundo, tem de ser o lugar do amor, da comunhão, da partilha fraterna, da harmonia, do acolhimento, da misericórdia, do perdão; tem de ser a “casa de família” onde todos têm lugar e onde todos se sentem irmãos queridos e amados. Os conflitos, as divisões, a arrogância, a prepotência, o ressentimento, as lutas pelos lugares de honra, os gestos agressivos, as atitudes discriminatórias, não “cabem” no horizonte comunitário dos cristãos. As nossas comunidades cristãs mostram ao mundo o rosto de Cristo? As nossas comunidades cristãs são a “casa familiar” onde todos se sentem irmãos? As nossas comunidades cristãs são anúncio, ao vivo e a cores, desse mundo novo de paz, de justiça, de fraternidade que Cristo nos veio propor?
ALELUIA – Lucas 3, 4.6
Aleluia. Aleluia.
Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas
e toda a criatura verá a salvação de Deus.
EVANGELHO – Mateus 3, 1-12
Naqueles dias,
apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo:
«Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus».
Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer:
«Uma voz clama no deserto:
‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’».
João tinha uma veste tecida com pelos de camelo
e uma cintura de cabedal à volta dos rins.
O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre.
Acorria a ele gente de Jerusalém,
de toda a Judeia e de toda a região do Jordão;
e eram batizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados.
Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu batismo,
disse-lhes:
«Raça de víboras,
quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
Praticai ações
que se conformem ao arrependimento que manifestais.
Não penseis que basta dizer:
‘Abraão é o nosso pai’,
porque eu vos digo:
Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão.
O machado já está posto à raiz das árvores.
Por isso, toda a árvore que não dá fruto
será cortada e lançada ao fogo.
Eu batizo-vos com água,
para vos levar ao arrependimento.
Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu
e não sou digno de levar as suas sandálias.
Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo.
Tem a pá na sua mão:
há de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro.
Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».
CONTEXTO
Depois do “Evangelho da Infância de Jesus” (cf. Mt 1-2), Mateus apresenta aos seus leitores a figura de João, o “Batista”.
Foi no final do ano 27 ou no princípio do ano 28 que João, um profeta original e independente, começou a pregar nas margens do rio Jordão, nas franjas do deserto de Judá. O local onde João se instalou seria, provavelmente, o atual Qasr El Yahud, um lugarejo situado perto de Jericó, a cerca de dez quilómetros do Mar Morto. Era um local de passagem para os peregrinos que vinham da Galileia para Jerusalém. A pregação de João atraiu multidões e provocou um certo alvoroço no cenário religioso palestino.
A mensagem que João propunha estava centrada na urgência da conversão pois, segundo João, o “juízo de Deus” estava iminente; e incluía um ritual de purificação pela água (“batismo”), a confissão dos pecados e uma mudança de vida. É possível que João estivesse, de alguma forma, relacionado com a comunidade essénia, uma “seita” judaica dissidente instalada ali ao lado, na localidade de Qumran, nas margens do Mar Morto: o tema do juízo de Deus e os rituais de purificação pela água faziam parte do cenário de vida em que os essénios se moviam.
Segundo a mais antiga tradição cristã, Jesus manteve contactos, antes de iniciar a sua vida pública, com o movimento de João; e alguns discípulos de João tornaram-se, a partir de certa altura, discípulos de Jesus (cf. Jo 1,35-42).
Os primeiros cristãos identificaram João, o Batista, com o mensageiro de Deus referido em Is 40,3, apresentado como “uma voz que clama no deserto” e que convida o povo a preparar “o caminho do Senhor”. Também o ligaram com o profeta Elias (2 Re 1,8), aquele que, segundo a tradição judaica, viria anunciar a Israel a chegada do Messias (cf. Mt 11,14; 17,11; Ml 3,23-24). Para a catequese cristã João seria, portanto, o precursor de Jesus.
MENSAGEM
Nesta primeira apresentação que Mateus nos faz do “Batista”, há vários fatores que sobressaem e que importa sublinhar: a figura, a mensagem, as reações ao anúncio, a comparação entre o batismo de João e o batismo de Jesus.
Quem é esse João, o “Batista”? Como podemos enquadrá-lo? Qual o seu papel? Diferentemente de Lucas – que, no seu “Evangelho da Infância”, nos fala dos pais do “Batista” (Zacarias e Isabel) e do seu nascimento (cf. Lc 1,5-25) – Mateus não nos diz nada sobre as origens de João. Limita-se a colocá-lo em cena, recorrendo a uma fórmula genérica de apresentação: “naqueles dias, apareceu João Batista a pregar no deserto da Judeia” (vers. 1).
A indicação do cenário onde João se apresenta ao mundo é um primeiro dado a reter. O deserto é o lugar dos rebeldes, dos que vivem “à margem”. João é um rebelde, que rompeu com a religião institucional, pois não acredita que ela seja capaz de mudar substancialmente a realidade de pecado em que Israel vive mergulhado. O deserto, lugar onde não chegam as discussões teológicas dos doutores da Lei, as notícias das intrigas políticas, os ecos das festas sociais, os pregões dos comerciantes endinheirados da capital, parece-lhe o lugar adequado para escutar as indicações de Deus. Por outro lado, enquanto lugar de privação e de despojamento, o deserto parecia-lhe o lugar mais indicado para deixar para trás a vida velha e para iniciar um caminho novo de conversão e de mudança. Essa mudança não passaria pelos sacrifícios de animais e pelo culto praticado no templo, mas pelo reconhecimento dos próprios pecados e por um gesto (o “batismo”) que assinalasse o começo de uma vida radicalmente diferente.
João usa “uma veste tecida com pelos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins” (segundo 2Rs 1,8 era dessa forma que se vestia Elias – cf. 2 Re 1,8), não as roupas finas, com pregas cuidadosamente estudadas, dos sacerdotes que diariamente frequentam os átrios do templo; a sua alimentação frugal (de “gafanhotos e mel silvestre”) está em profundo contraste com as iguarias finas que são servidas nas mesas dos ricos de Jerusalém. João é, portanto, um homem que – não apenas com palavras, mas também com a sua própria pessoa – questiona um estilo de vida voltado para os bens materiais, para as coisas frívolas, para o efémero, para o “ter”. A sua figura interpela, convida à conversão, propõe uma mudança de valores, desafia a esquecer o supérfluo para viver centrado no essencial.
Qual a mensagem que o profeta João proclama aos seus contemporâneos? Mateus resume a interpelação de João num imperativo: “convertei-vos” (“metanoeite” – vers. 2). O verbo grego (metanoéo) utilizado no relato de Mateus tem, normalmente, o sentido de “mudar de mentalidade”; mas aqui deve ser visto na perspetiva da teologia profética, onde a “conversão” (“shub”) passa, antes de mais, por fazer um caminho de regresso a Deus, reatando a relação com Deus que o pecado interrompeu. Esse “voltar para Deus” significa abandonar caminhos de egoísmo e de autossuficiência, escutar novamente Deus, acolher outra vez as indicações de Deus, voltar a caminhar no sentido de Deus. Implica, portanto, uma mudança de comportamento, uma atitude nova, uma nova maneira de viver.
Porque é que esta “conversão” é tão urgente? Porque o “Reino dos céus” está perto. Muito provavelmente, João ligava a vinda iminente do “Reino” ao “juízo de Deus”, a uma intervenção justiceira de Deus que iria destruir os maus e inaugurar, com os bons, um mundo novo. Na sua linguagem rude de camponês, João avisa que “o machado já está posto à raiz das árvores” e que toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo” – vers. 10). Era inútil que a gente má quisesse escapar da “ira” de Deus (vers. 7). Tinha chegado a altura das grandes decisões; só uma verdadeira conversão poderia evitar o castigo. É uma perspetiva muito em voga em certos ambientes apocalípticos da época, nomeadamente na teologia dos essénios de Qumran.
João pretendia afundar o povo no desespero? Não. Pretendia colocá-lo diante das suas responsabilidades frente a Deus e aos compromissos da Aliança; e pretendia, especialmente, apontar-lhe a única saída possível: uma conversão radical a Deus, uma inflexão profunda do sentido da existência. Se o povo reconhecesse as suas infidelidades, se lavasse das suas faltas, se comprometesse a uma mudança completa de vida, poderia novamente entrar na terra prometida e aí esperar, com confiança, a iminente chegada de Deus. Todos os que fizessem essa “caminhada pelo deserto”, seriam acolhidos no “Reino” que estava para chegar, trazido pelo “messias” de Deus.
Quem são os destinatários desta mensagem? Trata-se de uma mensagem destinada a todos. Mateus fala da “gente que acorria de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão” e que era batizada “por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados” (vers. 5-6).
No entanto, Mateus faz uma referência especial aos fariseus e saduceus, aos quais o profeta dirige palavras duríssimas: “raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Praticai ações que se conformem ao arrependimento que manifestais. Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é nosso pai’” (vers. 7-9). Por detrás deste “julgamento” tão duro de João estará, provavelmente, a convicção de que esses fariseus e saduceus, ao contrário do que acontecia com o povo simples, não estavam disponíveis para acolher a interpelação que lhes era feita. Tinham vindo ao vale do Jordão talvez por curiosidade, ou talvez para se manterem a par das novidades; mas não sentiam questionados e não sentiam medo do “juízo de Deus”. Consideravam-se “filhos de Abraão”, membros privilegiados do Povo eleito. Como poderia Deus condená-los, quando viesse fazer o seu julgamento? João avisa-os, contudo, que não há nada garantido, nem mesmo para os que têm o nome inscrito nos registos do povo eleito. Só uma verdadeira conversão a Deus, uma verdadeira mudança de vida, os colocará a salvo.
Os que aceitavam o apelo de João à conversão, eram convidados a realizar um gesto: um “batismo”. Era um gesto feito uma única vez, que não podia ser repetido (ao contrário dos rituais de purificação feitos pelos essénios de Qumran, repetidos várias vezes ao dia). Esse gesto consistia na imersão total da pessoa na água do rio Jordão. Quando a pessoa, depois de mergulhar, emergia da água, sentia-se limpa das suas faltas, totalmente perdoada por Deus, preparada para um novo começo. Esses “batizados” voltavam para as suas casas dispostos a viver de uma maneira nova, como membros de um povo renovado, preparados para acolher a chegada iminente de Deus.
Mas não era tudo… Os que tinham aderido a essa comunidade de gente renovada, deviam preparar-se para algo novo e mais decisivo. João dizia-lhes: “Eu batizo-vos com água, para vos levar à conversão. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo” (ver. 11).
De facto, o batismo que Jesus veio trazer vai muito além do batismo de João: confere a quem o recebe a vida de Deus (o Espírito), torna-o “filho de Deus”, incorpora-o na comunidade da salvação, torna-o participante na missão da Igreja (cf. At 2,1-4). Não significa, apenas, o arrependimento e o perdão dos pecados; mas significa um quadro de vida completamente novo, uma relação de filiação com Deus, de fraternidade com Jesus e com todos os outros batizados.
INTERPELAÇÕES
- João, o “Batista”, o profeta que veio preparar os homens para a chegada de Jesus coloca-nos hoje diante de um desafio fundamental: “convertei-vos”. Esta é, segundo João, a forma adequada de preparar o caminho para que Jesus possa vir encontrar-se connosco. O que significa exatamente converter-se? Sentir arrependimento por ter procedido mal? Fazer penitência para “reparar” os próprios pecados? Cumprir com mais fidelidade as práticas religiosas tradicionais? Dedicar mais tempo à oração? “Converter-se”, no seu mais genuíno sentido bíblico, é abandonar os caminhos que nos levam para longe de Deus (os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da preocupação com os bens materiais) e voltar para trás, ao encontro de Deus; é aproximar-se novamente de Deus, voltar a escutar Deus, passar a viver de acordo com as indicações de Deus; é tomar a decisão de viver ao estilo de Jesus, no amor, na partilha, no serviço, no perdão, no dom de si próprio a Deus e aos irmãos; é acolher o Reino de Deus e procurar torná-lo uma realidade no mundo. Só quem está disposto a percorrer este “caminho” pode acolher o Senhor que vem. Todos nós precisamos, mais ou menos, de redirecionar a nossa vida: abandonar os caminhos que não nos levam a lado nenhum e a dirigir-nos novamente para Deus. Estamos disponíveis, neste tempo de advento, para percorrer este caminho de conversão?
- A interpelação de João, o “Batista”, não resulta apenas das palavras que ele diz; mas resulta, também, da forma como ele se apresenta, do seu estilo de vida, dos valores que transparecem na sua pessoa. João traja uma veste tecida com pelos de camelo e um cinto de cabedal à volta dos rins; o seu vestuário não tem nada a ver com as roupas finas dos sacerdotes que frequentam o templo ou dos cortesãos que circulam pelo palácio de Herodes Antipas. João alimenta-se de gafanhotos e mel silvestre, desses pobres alimentos que encontra nos lugares desolados que frequenta, e que não têm nada a ver com as iguarias delicadas servidas nos banquetes da gente rica. João é um homem austero, desprendido das realidades materiais, que não dá demasiada importância às coisas fúteis e efémeras, que vive voltado para o essencial e para os valores perenes. A sua prioridade é o anúncio da chegada iminente do “Reino dos céus”. Ora, o “Reino” é despojamento, simplicidade, amor total, partilha, dom da vida… São esses valores que ele procura anunciar, com palavras e com atitudes. E nós, quais são os valores que nos fazem “correr”? Quais são as nossas prioridades? Os nossos valores são os valores do “Reino” ou são esses valores efémeros e fúteis a que a sociedade dá tanta importância, mas que não trazem nada de duradouro e de verdadeiro à vida dos homens?
- Os fariseus e os saduceus consideravam que o desafio da conversão apresentado por João, o “Batista”, não lhes dizia respeito. Eles eram “filhos de Abraão”, membros do povo eleito, viviam de acordo com a Lei e, portanto, não precisavam de mudar nada nas suas vidas: tinham a salvação assegurada. João, no entanto, avisa-os de que essa falsa confiança não lhes servirá de nada se não estiverem permanentemente dispostos a acolher os desafios de Deus. A salvação não é um “direito” conquistado pelo nascimento ou por um qualquer ato institucional; não é algo que é garantido pelo facto de termos o nosso nome inscrito no livro de registos de batismo de uma qualquer paróquia… A salvação é um dom gratuito de Deus, mas implica da nossa parte uma adesão a Deus e à oferta que Ele nos faz. Implica, portanto, uma vida coerente com os valores de Deus e com a graça que nos foi dada no dia do nosso batismo. Estamos conscientes disso? Vivemos e caminhamos atentos aos desafios de Deus?
- João anuncia a chegada próxima de Alguém mais forte do que ele, que vem batizar “no Espírito Santo e no fogo”. A catequese cristã sempre entendeu que esse “Alguém” é Jesus. Ser batizado em Cristo é aceitar o convite para integrar a família de Deus, revestir-se de Cristo e identificar-se com Ele, receber o Espírito e deixar-se conduzir por Ele, passar a integrar a comunidade da salvação e comprometer-se a dar testemunho da vida de Deus. Nós, os que fomos batizados em Cristo, levamos isto a sério? Vivemos de forma coerente com a nossa condição de batizados? Sentimo-nos família de Deus? Identificamo-nos com Jesus e seguimo-l’O no caminho que Ele nos aponta? Vivemos atentos às indicações do Espírito? Somos membros de uma Igreja viva e colocamos ao serviço da comunidade os dons que recebemos? Damos testemunho da vida de Deus no meio dos outros homens e mulheres com os quais nos cruzamos todos os dias?
ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 2.º DOMINGO DO ADVENTO
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)
- A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
Ao longo dos dias da semana anterior ao 2.º Domingo do Advento, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.
- PRESTAR ATENÇÃO À VIRGEM MARIA.
A proximidade da Solenidade da Imaculada Conceição, a celebrar nesta semana, cujo dogma foi proclamado a 8 de dezembro de 1854 pelo Papa Pio IX, pode convidar-nos hoje a uma atenção particular à Virgem Maria. Esta atenção pode ser expressa por uma decoração mais cuidada de uma imagem da Virgem. Mas ao longo da celebração, ou talvez no final da missa, algumas crianças podem levar um ramo de flores e/ou algumas lamparinas acesas que colocam aos pés da imagem, enquanto a assembleia canta um cântico a Nossa Senhora com tonalidade do Advento ou alguém lê uma oração ou um poema.
- JOÃO BAPTISTA, PROFETA-PERCURSOR.
João Baptista é, em cada ano, uma grande figura deste tempo do Advento. Falamos bastante dele, mas será que o conhecemos bem? Na preparação da liturgia, pode-se comunicar melhor como João Baptista tem um verdadeiro lugar de charneira entre o Antigo e o Novo Testamento. Pode ser uma maneira de sublinhar, nas celebrações destes domingos, a iminência da vinda de Cristo, a iminência do Reino. As admonições e algumas intenções da oração dos fiéis podem ser redigidas nesse sentido. Ou ainda, porque não viver de perto esta celebração com João Baptista? Ele pode ser mencionado no início do rito penitencial, no início do credo, no início do “Cordeiro de Deus” (foi João Baptista que assim designou Jesus).
- BILHETE DE EVANGELHO.
Aos homens à procura de um coração novo, Deus dá uma terra nova. Jesus veio para falar de novidade: “Convertei-vos! Acreditai na Boa Nova!” Temos necessidade de ouvir palavras novas (ternura, amor, perdão, solidariedade, respeito…) que façam calar as palavras antigas (violência, ódio, vingança, indiferença, racismo…). Temos necessidade de ver gestos novos (assinatura de paz, reconciliação, dom, partilha…) que façam desaparecer os gestos antigos (declaração de guerra, rancor, crispação, egoísmo…). Preparar-se para o Natal… não será dispor-se a falar uma linguagem nova e a fazer novas ações? Essa poderá ser a nossa maneira de acolher Aquele que vem fazer todas as coisas novas. Mas não as fará sem nós…
- ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.
Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.
No final da primeira leitura:
Bendito sejas, nosso Pai, por nos teres enviado e dado o teu Filho Jesus. N’Ele reconhecemos a plenitude do teu Espírito: sabedoria, discernimento, conselho, fortaleza, conhecimento e piedade.
Nós Te pedimos pela nossa terra: que o conhecimento de Jesus lhe obtenha a paz, realizando o tempo em que o lobo habitará com o cordeiro.
No final da segunda leitura:
Nós Te bendizemos pelo dom dos livros santos que lemos nas nossas assembleias e pelo dom do teu Filho, que Se fez servidor da nossa humanidade e nos acolheu, apesar dos nossos pecados.
Nós Te pedimos por todas as comunidades cristãs: faz com que estejamos de acordo e vivamos em comunhão segundo o teu Espírito Santo.
No final do Evangelho:
Nós Te damos graças por João Baptista, o precursor, pelos apelos à conversão e pelo batismo no Espírito, que nos incorporou no teu Filho.
Abrimos as mãos para Ti e pedimos-Te ainda por nós mesmos: pelo teu Espírito, produz nos nossos corações os frutos que esperas.
- ORAÇÃO EUCARÍSTICA.
Pode-se escolher a Oração Eucarística II, pois relaciona-se mais explicitamente com os textos da liturgia da Palavra de hoje…
- PALAVRA EXPLICADA 1: ESCRITURAS OU LIVROS SAGRADOS.
No início da segunda leitura deste domingo, o apóstolo refere-se às Escrituras, que se poderiam denominar também Livros Sagrados. Tais referências são frequentes no Novo Testamento. Assim, Jesus podia mesmo dizer que as Escrituras dão testemunho d’Ele (Jo 5,39) e os evangelistas apresentam, muitas vezes, as suas palavras e os seus atos como o cumprimento das Escrituras (Mt 1,22; 2,15; etc.). Trata-se aqui dos Livros que os cristãos consideram como constituindo o Antigo Testamento (expressão empregue pelo apóstolo Paulo, 2 Cor 3,14) e aos quais juntaram progressivamente os escritos que constituem o Novo Testamento. O catálogo dos livros reconhecidos, que se chama o Cânon (ou regra) das Escrituras, foi estabelecido pela prática litúrgica. Dito de outro modo, eram considerados como Livros Sagrados aqueles que poderiam ser lidos nas assembleias das sinagogas, para os judeus (como Isaías em Lc 4,17), ou nas igrejas, para os cristãos (primeira menção em 1 Ts 5,27).
- PALAVRA EXPLICADA 2: FILHOS DE ABRAÃO.
Na Oração Eucarística I, recordamos que a Deus Lhe agradou “acolher o sacrifício do nosso pai Abraão”. Assim, como cristãos, reconhecemo-nos filhos de Abraão. Este título refere-se à Aliança que Deus fez com Abraão, prometendo-lhe uma descendência inumerável (Gn 15,1-6). Ora, Abraão e a sua mulher Sara, estéril até essa altura, eram de idade avançada (Gn 18,9-15). O nascimento do seu filho, Isaac, foi para eles um dom inesperado de Deus. Em seguida, Deus recusou que este filho Lhe fosse oferecido em sacrifício (Gn 22,11-18). Isaac foi, pois, reconhecido como o filho da promessa e Abraão como o pai dos crentes, porque tinha dado a Deus a sua plena confiança (Gn 15,6). Isso foi amplamente comentado nos escritos do Novo Testamento, para demonstrar que a verdadeira descendência de Abraão não vinha da geração física, mas da fé: são filhos de Abraão todos aqueles que dão a Deus a sua confiança sem reservas; é por esta fé que são justificados por Deus e não em razão dos seus próprios atos (Rom 4, etc.).
- ATENÇÃO ÀS CRIANÇAS: A MARAVILHOSA HISTÓRIA CONTADA POR ISAÍAS.
A primeira leitura deste domingo é uma página profética muito bela. Se houver oportunidade de passar algum tempo com as crianças durante a liturgia da Palavra, pode-se utilizar algumas linguagens mais adaptadas: explicar às crianças que Isaías representa aqui a felicidade que Jesus nos traz (harmonia, paz, reconciliação para toda a criação); com as cartas de jogo que representam diversos animais, pode-se ver os que podem estar juntos ou não (por exemplo, um lobo e um cordeiro juntos, o que pode acontecer?); depois, descobrimos que, em Jesus, a felicidade é possível. O que Isaías imagina para os animais pode acontecer também com as pessoas, se elas quiserem…
- PALAVRA PARA O CAMINHO.
Convertei-vos! Um sonho muito belo este de Isaías! No estado atual do mundo, como imaginar a sua realização? A chave é-nos dada por João: “Convertei-vos!” Reconhecer o nosso pecado! Deixar o fogo do Espírito queimar-nos e transformar-nos! É a partir de cada um de nós que começa o mundo novo. É a partir do coração novo de cada um de nós que o mundo poderá ter um novo coração! Mais uma semana para rezar e praticar a conversão! Mãos à obra!
UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA
Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org