Print Friendly, PDF & Email

Muito se tem falado do coronavírus por estes dias. A cada hora que passa somos bombardeados com notícias que nos dão conta do seu avanço imparável. Agora que ele já se hospedou no nosso país, temos sido vítimas de um verdadeiro massacre noticioso, feito de constantes actualizações e notícias de última hora, que nos deixam preocupados, apreensivos e assustados com aquilo que ouvimos e vemos.

Estamos a dar-nos conta que o coronavírus é um mal que nos pode afectar a todos e que ninguém neste mundo está imune. Um problema que surge na China demora poucas semanas a chegar ao nosso país e não há forma de o evitar, devido à extraordinária mobilidade de que hoje todos nós dispomos e usufruímos. Apercebemo-nos que as fronteiras são simples linhas imaginárias que, ainda que possam impedir a entrada de pessoas, não conseguem travar estes seres microscópicos. De facto, muitos imigrantes pobres continuam a ser impedidos de entrar no mundo mais desenvolvido, mas o coronavírus – talvez por má educação – entrou sem pedir licença nem autorização. Por conseguinte, eis-nos perante mais uma prova sólida e evidente de que «tudo está interligado» (LS 91), pelo que um problema que surja no outro lado do mundo passa rapidamente a ser um problema para nós.

Penso, por isso, que esta percepção do mal comum que nos oprime nos pode ajudar a amadurecer a consciência do seu contrário, isto é, o bem comum, enquanto «o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» (LS 156). De facto, parece que o coronavírus tem conseguido pôr muita gente a trabalhar em conjunto e com um objectivo comum. Pode ser também que nos faça compreender que o individualismo não é o caminho para uma sociedade mais solidária e inclusiva. Na verdade, «para se resolver uma situação tão complexa como esta que enfrenta o mundo actual, não basta que cada um seja melhor […]. Aos problemas sociais responde-se, não com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunitárias: as exigências desta obra serão tão grandes, que as possibilidades das iniciativas individuais e a cooperação dos particulares, formados de maneira individualista, não serão capazes de lhes dar resposta. Será necessária uma união de forças e uma unidade de contribuições. A conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária» (LS 219).

O coronavírus tem alarmado muito a nossa sociedade ocidental, mas – assim o queira Deus – pode ser também uma grande oportunidade: uma grande oportunidade para desenvolvermos uma maior solidariedade entre todos nós; uma grande oportunidade para amadurecermos uma maior sensibilidade aos problemas e dificuldades que outros enfrentam, independentemente do lugar onde habitem; uma grande oportunidade para crescermos na consciência da nossa comum igualdade.

José Domingos Ferreira, scj