Liturgia

Events in Fevereiro 2023

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Quarta-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Quarta-feira


    1 de Fevereiro, 2023

    Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Quarta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Hebreus 12, 4-7.11-15

    Irmãos: Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado. 5Esquecestes a exortação que vos é dirigida como a filhos:Meu filho, não desprezes a correcção do Senhor, e não desanimes quando és repreendido por Ele, 6porque o Senhor corrige os que ama e castiga todo o que reconhece como filho. 7É para vossa correcção que sofreis. Deus trata-vos como filhos; e qual é o filho a quem o pai não corrige? 11É certo que toda a correcção, no momento em que é aplicada, não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; mais tarde, porém, produz um fruto de paz e de justiça nos que foram exercitados por ela. 12Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas e os vossos joelhos enfraquecidos, 13fazei caminhos rectos para os vossos pés, para que o coxo não coxeie mais, mas seja curado. 14Procurai a paz com todos e a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor. 15Vigiai, para que ninguém venha a estar privado da graça de Deus, nem alguma raiz amarga, crescendo, vos cause dano e, por meio dela, muitos venham a ser contaminados.

    O autor da Carta aos Hebreus continua a encorajar na fé os seus destinatários. Sofrimento pelo sofrimento? Não! Seria um absurdo, pois é sempre uma privação, algo de negativo. Por isso, o nosso autor, que já ilustrou a dimensão teológica do sofrimento, vai agora tratar do seu aspecto mais imediato, que é o pedagógico. A provação pode parecer dura, pesada. Mas há uma chave de leitura que nos permite descobri-la como positiva: a provação é fruto de amor. Se o Senhor permite provações, é para nos fazer crescer na dimensão filial. Por isso é que Jesus veio falar-nos do coração de Deus e revelar-nos o rosto do Pai. A relação de Deus connosco é sempre a relação de um Pai bom para com os seus filhos. Se corrige, é para nos educar. É um sinal de amor de Alguém que Se inclina sobre o filho vacilante para o tornar estável e forte. Só quem ama é capaz de intervir em prol do nosso verdadeiro bem, mesmo que nos faça sofrer. O sofrimento momentâneo é prelúdio de uma grande alegria.

    Evangelho: Mc 6, 1-6

    Naquele tempo, Jesus foi para a sua terra, e os discípulos seguiam-no. 2Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? 3Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. 4Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» 5E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. 6Estava admirado com a falta de fé daquela gente.

    Depois de apresentar alguns milagres de Jesus, Marcos abre uma nova secção do seu evangelho para falar de uma série de viagens, dentro e fora da Galileia. Começa por ir à «sua terra», a Nazaré e, em dia de sábado, entra na sinagoga. Usa o direito de comentar a Escritura na sinagoga, que era reconhecido a qualquer homem adulto. Mas a sua doutrina é diferente da dos outros rabis. Marcos não cita, ao contrário de Lucas (4, 17ss.) os versículos de Isaías lidos por Jesus. Mas regista o espanto de quantos o ouviram. Esse espanto era motivado pela origem das palavras pronunciadas por Jesus, pela sabedoria que demonstrava e pelos prodígios que fazia. Tudo parecia estar em contradição com o conhecimento que tinham dele e da sua família. Mas é nesta contradição que se revela a verdadeira identidade de Jesus (v. 3). Também os profetas foram muitas vezes perseguidos por aqueles que tinham maior obrigação de os compreender (v. 4). A falta de fé dos seus conterrâneos impede Jesus de fazer entre eles milagres e prodígios, como tinha feito noutras terras.

    Meditatio

    A fé é condição necessária para que Jesus possa actuar e conceder as suas graças. Por isso é que Jesus não pôde realizar prodígios entre os seus conterrâneos: «Não pôde fazer ali milagre algum... Estava admirado com a falta de fé daquela gente» (vv. 5-6).
    A primeira leitura lembra que, também nós, podemos deter-nos nas aparências contrárias e não reconhecer as intervenções de Deus na nossa vida e na vida do mundo. Quando nos encontramos no meio de provações, que nos parecem incompreensíveis e mesmo absurdas, ficamos inquietos e facilmente sucumbimos à tentação contra a fé. A Palavra de Deus, hoje, ajuda-nos a permanecer firmes. Não nos dá respostas directas para cada caso de sofrimento, mas convida-nos a reencontrar aquela atitude filial que, nos momentos de dor, nos permite reconhecer a mão de um Deus que é, acima de tudo, Pai. O homem é homem pelo mistério da sua liberdade. Deus jamais lhe retira esse dom, mas ajuda-o a crescer numa atitude de confiança e de abandono n´Ele, mesmo quando nos vemos em situações de lágrimas e sangue. Nem Jesus, o Filho predilecto, santo e inocente foi poupado: «O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas» (Is 53, 5).
    Não há provação tão dolorosa que não nos permita lançar sobre Ele o nosso olhar para reencontrarmos nas suas lágrimas de compaixão a certeza de que o sofrimento, a dor, os sofrimentos não são maldição, mas caminho que o próprio Amor nos faz percorrer, no seu abraço sem fim. Não podemos compreender! Deus é Deus e, diante d´Ele, diante dos seus insondáveis caminhos, há apenas que assumir uma atitude de adoração e de fé. O maior escândalo para o nosso coração consiste em que, não só o sofrimento não nos seja retirado, mas que o próprio Deus tenha vindo para meio de nós em pobreza, insignificância, a derramar as suas lágrimas humanas de Filho. A Carta aos Hebreus já nos disse como Jesus quis aprender a obediência pelas coisas que sofreu, quis conhecer aquela educação dolorosa que nos é necessária. Quando, por nosso lado, vivemos estes momentos de dolorosa educação, estamos unidos a Ele de modo especial e podemos crescer muito no seu amor.

    Oratio

    Senhor, faz-me compreender que as provações são razões de esperança, são meios para amar. Que, nas pequenas e grandes dificuldades eu tenha presentes estas perspectivas, para alimentar a minha coragem e a minha fé. Tu não me revelas os modos como queres comunicar-me os teus dons e fazer-me crescer na fé e no amor. Por isso, abre-me os olhos para que saiba ver em tudo a tua presença e a tua fraterna atenção para comigo. Amen.

    Contemplatio

    Certa ocasião Nosso Senhor apresentou-se a Margarida Maria,
    levando numa mão o quadro de uma vida cheia de paz e de consolação interior e exterior, com a estima dos outros; na outra mão, o quadro de uma vida abjecta, crucificada, desprezada, contradita, e sempre sofredora quanto ao corpo e ao espírito, e disse-lhe para escolher aquele que lhe agradasse mais, que lhe daria as mesmas graças na escolha de um como na escolha de outro. Prostrando-se aos seus pés, respondeu: «Ó meu Senhor, só vos quero a vós e a escolha que fizerdes para mim». Pressionada a escolher, disse: «Sois para mim suficiente, ó meu Deus, fazei para mim o que mais vos glorificar, sem terdes consideração aos seus interesses e consolações. Contentai-vos e isso me basta». «Então o Salvador apresentou-lhe o quadro da crucifixão dizendo-lhe: «Eis o que me agrada mais, tanto para o cumprimento dos meus desígnios como para te tornar conforme a mim». - «Aceitei o quadro, diz Margarida Maria, beijando a mão que mo apresentava, embora a natureza tremesse; abracei-o com todo o afecto da minha alma, e apertando-o contra o meu peito, senti-o tão fortemente impresso em mim, que me parecia já não ser mais do que um composto de tudo o que já tinha visto nele representado». Para nós, Nosso Senhor pede-nos sobretudo que levemos a cruz da regra, da vigilância, da fidelidade a todas as nossas resoluções. (Leão Dehon, OSP 4, p. 373).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Ainda não resististes até ao sangue na luta contra o pecado» (Heb 12, 4).

  • Apresentação do Senhor

    Categoria: Santoral Apresentação do Senhor


    2 de Fevereiro, 2023

    Esta festa já era celebrada em Jerusalém, no século IV. Chamava-se festa do encontro,hypapántè , em grego. Em 534, a festa estendeu-se a Constantinopla e, no tempo do Papa Sérgio, chegou a Roma e ao Ocidente. Em Roma, a festa incluía uma procissão até à Basílica de S. Maria Maior. No século X, começaram a benzer-se as velas.

    José e Maria levam o Menino Jesus ao templo, oferecendo-o ao Pai. Como toda a oferta implica renúncia, a Apresentação do Senhor é já o começo do mistério do sofrimento redentor de Jesus, que atingirá o seu ponto culminante no Calvário. Maria e José unem-se à oferta do seu divino Filho estando a seu lado e colaborando, cada um a seu modo, na obra da Redenção.

    Lectio

    Primeira Leitura: Malaquias 3, 1-4

    Assim fala o Senhor: "Eis que Eu vou enviar o meu mensageiro, a fim de que ele prepare o caminho à minha frente. E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor, que vós procurais, e o mensageiro da aliança, que vós desejais. Ei-lo que chega! - diz o Senhor do universo. 2Quem suportará o dia da sua chegada? Quem poderá resistir, quando ele aparecer?Porque ele é como o fogo do fundidor e como a barrela das lavadeiras.  3Ele sentar-se-á como fundidor e purificador. Purificará os filhos de Levi e os refinará, como se refinam o ouro e a prata. E assim eles serão para o Senhor os que apresentam a oferta legítima. 4Então, a oferta de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor como nos dias antigos, como nos anos de outrora".

    Os dois mensageiros anunciados pelo profeta introduzem-se mutuamente: um prepara a vinda do Senhor e outro realiza a Aliança, é o Esperado. Estas duas figuras perspetivam João Baptista e Cristo. Um é apenas precursor; o outro é o Messias esperado, de origem divina, o Redentor. O primeiro prepara o caminho; o segundo entra efetivamente no templo, santificando, pela oferta de si mesmo, o sacrifício da nova Aliança, os ministros e o culto.

    Segunda leitura: Hebreus 2, 14-18

    Uma vez que os filhos dos homens têm em comum a carne e o sangue, também Ele partilhou a condição deles, a fim de destruir, pela sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo, 15e libertar aqueles que, por medo da morte, passavam toda a vida dominados pela escravidão. 16Ele, de facto, não veio em auxílio dos anjos, mas veio em auxílio da descendência de Abraão. 17Por isso, Ele teve de assemelhar-se em tudo aos seus irmãos, para se tornar um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel em relação a Deus, a fim de expiar os pecados do povo. 18É precisamente porque Ele mesmo sofreu e foi posto à prova, que pode socorrer os que são postos à prova.

    A carne e o sangue, submetidos ao poder da morte pelo inimigo, são divinizados e libertados por Cristo, Deus feito homem. A descendência de Abraão é restituída à vida. O Filho de Deus apresenta-se como primeiro entre muitos irmãos e como sacerdote, mediador na sua divindade e humanidade, da fidelidade de Deus, Pai da vida.

    Evangelho: Lucas 2, 22-40

    Ao chegarem os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, 23conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo o primogénito varão será consagrado ao Senhor» 24e para oferecerem em sacrifício, como se diz na Lei do Senhor, duas rolas ou duas pombas. 25Ora, vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão; era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel. O Espírito Santo estava nele. 26Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não morreria antes de ter visto o Messias do Senhor.27Impelido pelo Espírito, veio ao templo, quando os pais trouxeram o menino Jesus, a fim de cumprirem o que ordenava a Lei a seu respeito. 28Simeão tomou-o nos braços e bendisse a Deus, dizendo:  29«Agora, Senhor, segundo a tua palavra, deixarás ir em paz o teu servo, 30porque meus olhos viram a Salvação  31que ofereceste a todos os povos,  32Luz para se revelar às nações e glória de Israel, teu povo.» 33Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele.  34Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: «Este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; 35uma espada trespassará a tua alma. Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações.»36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, a qual era de idade muito avançada. Depois de ter vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, 37ficou viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, participando no culto noite e dia, com jejuns e orações. 38Aparecendo nessa mesma ocasião, pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém. 39Depois de terem cumprido tudo o que a Lei do Senhor determinava, regressaram à Galileia, à sua cidade de Nazaré. 40Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele.

    O Evangelho da Infância de Jesus tem o seu ponto alto no templo, lugar da plenitude do povo de Israel. É aí que Zacarias ouve a palavra que dirige a história para a sua meta (anúncio de João); é aí que o Menino é apresentado a Deus, revelado a Simeão e a Ana. É daí que regressa a Nazaré. Pano de fundo da cena da apresentação é lei judaica segundo a qual os primogénitos são sagrados e, por isso, devem ser apresentados a Deus. O Pai responde à apresentação e oferta de Jesus com o dom do Espírito ao velho Simeão, que profetiza. Israel pode estar descansado: a sua história não acaba em vão. Simeão viu o Salvador e sabe que a meta é agora o triunfo da vida.

    Meditatio

    Os pais de Jesus, de acordo com a lei mosaica, 40 dias depois do nascimento do primeiro filho, foram ao Templo de Jerusalém para oferecer o primogénito ao Senhor e para a mãe ser purificada. Mas este rito não foi exatamente igual aos outros. Nos ritos comuns, eram os pais que apresentavam os filhos a Deus em sinal de oferta e de pertença; neste rito é Deus que apresenta o seu Filho aos homens. Fá-lo pela boca do velho Simeão e da profetisa Ana. Simeão apresenta-O ao mundo como salvação para todos os povos, como luz que iluminará as gentes, mas também como sinal de contradição; como Aquele que revelará os pensamentos dos corações.
    O encontro de Jesus com Simeão e Ana no Templo de Jerusalém é símbolo de uma realidade maior e universal: a Humanidade encontra o seu Senhor na Igreja. Malaquias preanunciava este encontro: «Eis que Eu vou enviar o meu mensageiro, a fim de que ele prepare o caminho à minha frente. E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor, que vós procurais». No Templo, Simeão reconheceu Jesus como o Messias esperado e proclamou-o salvador e luz do mundo. Compreendeu que, doravante, o destino de cada homem se decidia pela atitude assumida perante Ele; Jesus será ruína ou salvação. Como dirá João Baptista: Ele tem na mão a joeira para separar o trigo bom da palha (cf. Mt 3, 12).
    É o que acontece, a outra escala, também hoje: no novo templo de Deus que é a Igreja, os homens «encontram» Cristo, aprendem a conhecê-lo, recebem-no na Eucaristia, como Simeão o recebeu nos braços; a sua palavra torna-se, aí, para eles, luz e o seu corpo força e alimento. É a experiência que fazemos, sempre que vamos à missa. A comunhão é um verdadeiro encontro entre Deus e nós. Hoje, essa experiência é acentuada pelo simbolismo da festa: a procissão com que entramos na igreja com o sacerdote, levando a vela acesa e cantando, era, sinal deste ir ao encontro de Jesus que nos chama no interior da sua igreja, na esperança de irmos ao seu encontro um dia no Hypapante eterno, quando formos nós a ser apresentados por Ele ao Pai.
    A Candelária é festa de luz. A luz da fé não nos foi dada apenas para iluminar o nosso caminho, desinteressando-nos dos outros... A luz da fé também não é para ter acesa apenas na igreja, ou em certos momentos, mas em todos os momentos e situações da nossa vida... A nossa fé há de ser luz que ilumina, fogo que aquece... É luz e fogo quem é compreensivo e bom com todos... quem sabe apoiar os pequenos esforços... os pequenos progressos... quem tem palavras de amizade, de estímulo, de apoio... quem sabe dizer uma boa palavra, dar uma ajuda... O amor cristão tem a sua origem em Deus que nos amou e nos enviou o seu Filho com quem nos encontramos em vários momentos da nossa vida, particularmente quando celebramos a Eucaristia. Esse é o nosso encontro, enquanto esperamos o encontro definitivo no Céu.

    Oratio

    Ó Jesus, eis-me aqui para fazer a vossa vontade. Quero estar atento e ouvir as vossas ordens, os vossos desejos, que me chegam através da vossa Palavra, das orientações dos vossos representantes na terra, dos acontecimentos da minha vida e da vida dos meus irmãos. Uno-me à oblação generosa do vosso divino Coração. Que quereis que vos faça? Dizei-mo, pelos meus pastores, pelas vossas inspirações, pela vossa providência. Falai, Senhor, que o vosso servo escuta. Iluminai-me com a vossa luz divina e refleti-la-ei nos meus irmãos. Ámen.

    Contemplatio

    «Eis-me aqui, meu Deus, para vos servir e para fazer a vossa vontade: Eis a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra». Esta é a regra, Maria obedece. Está escrito na lei, no Levítico e no Êxodo. A jovem mãe apresentar-se-á no templo para ser purificada, quarenta dias depois do nascimento de um filho e oitenta dias depois do nascimento de uma filha. Maria não costuma hesitar quando se trata da lei. Cumpre tudo à letra, segundo a Lei de Moisés. No quadragésimo dia, está em Jerusalém. Não examina se está dispensada pelo carácter sobrenatural da sua maternidade. A hesitação não lhe vem, é a lei. Como o seu divino Filho, renuncia a todo o privilégio e, contente com a sorte comum, obedece à lei. Jesus obedece e deixa-se levar, apresentar, resgatar, Maria obedece também e deixa-se purificar. Como Jesus, Maria leva no meio do seu Coração a lei de Deus, como sua regra de vida. Oh! Como esta obediência pontual, humilde, heroica, condena todas as nossas hesitações, toda a nossa procura de exceções e de dispensas! Maria podia dizer: Eis a serva do Senhor. E eu posso dizer: Ecce venio: eis que venho, Senhor, para obedecer, para fazer a vossa vontade. Eis o teu servo. (Leão Dehon, OSP 3, p. 120).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a Palavra do Senhor:
    "Eu sou a luz do mundo" (Jo 8, 12).

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    Apresentação do Senhor (02 Fevereiro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Quinta-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Quinta-feira


    2 de Fevereiro, 2023

    Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Quinta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Hebreus 12, 18-19.21-24

    Irmãos: Na verdade, não vos aproximastes de uma realidade palpável, de fogo ardente, das trevas, da obscuridade ou da tempestade, 19nem do som da trombeta ou do ruído das palavras, cujos ouvintes pediam que não se lhes falasse mais; 20de facto, não podiam suportar o que fora ordenado: Até um animal, se tocar a montanha, será apedrejado. 21E o espectáculo era tão terrível, que Moisés disse: Estou apavorado e a tremer. 22Vós, porém, aproximastes-vos do monte Sião e da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, de miríades de anjos, da reunião festiva, 23da assembleia dos primogénitos inscritos nos céus, do juiz que é o Deus de todos, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição, 24de Jesus, o Mediador da Nova Aliança, e de um sangue de aspersão que fala melhor que o de Abel.

    O cristão deve estar consciente do seu estado. Para o ajudar, o autor da Carta aos Hebreus propõe-nos uma última oposição entre a antiga e a nova aliança servindo-se de dois lugares simbólicos: o monte Sinai e o monte Sião. Os dois montes expressam dois modos diferentes de se aproximar de Deus.
    A primeira teofania aconteceu num lugar impressionante, a montanha do Sinai, com os seus granitos vermelhos, as suas nuvens de tempestade, a queda dos raios, o fulgor dos relâmpagos e o fragor dos trovões impressionaram vivamente o povo habituado às calmas planícies do Egipto. O próprio Moisés se encheu de temor e tremor (cf. Dt 4, 11 e 5, 22 LXX; Ex 19, 16 e 20, 18).
    A experiência dos cristãos é muito diferente. Eles aproximaram-se de outro monte, o Sião, alegria de toda a terra (cf. Sl 48, 2-4), da santa Jerusalém (cf. Sl 122), para o qual, desde sempre, Deus queria conduzir o seu povo para fazer comunhão com ele, no encontro festivo dos anjos e dos santos. Os cristãos podem ser admitidos nesse lugar "celeste", graças à conversão e ao baptismo que nos introduziram na morte e na ressurreição do único «Mediador da nova aliança», Jesus Cristo. O seu sangue inocente torna-nos também a nós "perfeitos", isto é, agradáveis ao Pai na obediência e no amor.

    Evangelho: Mc 6, 7-13

    Naquele Tempo, Jesus chamou os Doze e começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. 8Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; 9que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. 10E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. 11E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» 12Eles partiram e pregavam o arrependimento, 13expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos.

    A proclamação do reino não se faz de modo ocasional. Jesus cria uma «instituição» que põe em movimento e planifica o anúncio da Boa Nova. São os Doze que, depois da visita a Nazaré, Jesus envia em missão, dando-lhes os seus próprios poderes (cf. v. 7).
    Distinguimos no texto três momentos: no primeiro, Jesus dá orientações quanto ao estilo de vida dos missionários: não devem levar provisões, mas confiar na generosidade daqueles a quem se dirigem; no segundo, define o método de pregação: deter-se em casa de quem os acolhe, mas abandonar sem lamentações as daqueles que os não recebam; o terceiro momento é o da execução: os discípulos partem, pregam a conversão, fazem exorcismos e curas com sucesso (vv. 12s.).
    Contentar-se com o essencial da vida, que se apoia na absoluta confiança no Senhor, é condição indispensável para estar ao serviço da Palavra. Isto tem a ver com cada um dos missionários, mas também com a própria Igreja que, não só há-de ser Igreja dos pobres, mas também Igreja pobre.

    Meditatio

    O autor da Carta aos Hebreus insiste no privilégio de termos entrado na intimidade divina: «Vós, porém, aproximastes-vos do monte Sião e da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, de miríades de anjos, da reunião festiva, da assembleia dos primogénitos inscritos nos céus, do juiz que é o Deus de todos, dos espíritos dos justos que atingiram a perfeição, de Jesus, o Mediador da Nova Aliança» (vv. 22-24a). A tomada de consciência desta situação há-de encher-nos de alegria. O Mediador da nova aliança, Jesus, possibilitou-nos esta comunhão, esta paz, este amor luminoso. É, sobretudo, na celebração da Eucaristia que vivemos este mistério, aproveitando a presença do Mediador para entrarmos cada vez mais profundamente nele e lhe saborearmos os frutos.
    Mas não podemos deter-nos, sempre e só, na intimidade divina. Os Doze, depois de permanecerem com Jesus, foram enviados dois a dois em missão. Para que a nossa vida e o nosso ministério sejam autênticos, precisamos de momentos de intimidade com o Senhor. Mas depois temos de partir ao encontro dos outros para lhes anunciarmos o Evangelho e prestarmos os serviços de que precisam: «enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os doentes» (Lc 9, 2). A vida de amor, que é a vida cristã, tem de ter o mesmo dinamismo da de Cristo: ser um movimento de amor para Deus e para os irmãos. Aquilo que Cristo é e vive determina aquilo que nós devemos ser e viver: «com Cristo e como Cristo» (Cst 21). Este é o modo dehoniano de nos aproximarmos do «mistério de Cristo» (Cst 16). Nas novas Cst, são numerosas e significativas as expressões desta abordagem existencial de Cristo (cf. n. 16). Já encontramos algumas nos nn. 2.6.9. Mas queremos dar especial atenção a duas pequenas fórmulas que lemos no n. 17: «Pelo Pai» e «pelos homens» ou, com maior exactidão teológica: «Ao Pai pelos homens». Nestas duas atitudes de Cristo, contempladas e vividas, descobrimos o caminho para chegar a «uma abordagem comum do mistério de Cristo, sob a guia do Espírito». Consideramo-las com «especial atenção» (Cst 16), para penetrar «na inesgotável riqueza do mistério», segundo a experiência que fizeram o P. Dehon e os primeiros membros da congregação (cf. Cst 16). Da intimidade com o Senhor partimos para a evangelização do mundo: A escuta da Palavra, a oração, a Eucaristia celebrada, comungada e adorada alimentam a nossa intimidade com o Senhor, consagram-nos a Deus, mas também nos lançam incessantemente pelos caminhos do mundo ao serviço do Evangelho.

    Oratio
    Nós te louvamos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, autor e consumador da nossa fé, Mediador da Nova Alanca, porque quiseste renovar em Ti todas as coisas. Derrama sobre nós o teu Espírito para que continue a renovar-nos sem cessar. Aceita a contrição sincera das nossas culpas e dá-nos a graça da reconciliação perfeita com o Pai, Contigo e com a tua Igreja. Faz-nos teus colaboradores na renovação do mundo segundo a justiça, a caridade e a paz. Amen.

    Contemplatio

    A cruz pelo reino do Sagrado Coração. - Noutra circunstância, Nosso Senhor pôs ainda à prova a generosidade da sua piedosa serva e ela mostrou a mesma dedicação. Nosso Senhor apresentou-lhe vários corações infiéis e disse-lhe: «Carrega este fardo e participa nas amarguras do meu Coração; derrama lágrimas de dor sobre a insensibilidade destes corações que tinha escolhido para os consagrar ao meu amor, ou então deixa-os abismarem-se na sua perda, e vem gozar as minhas delícias». - «Deixando todas as doçuras, diz, dei largas ao curso das minhas lágrimas, sentindo-me carregada com estes corações que iam ser privados de amor. Escutando continuamente que me convidavam para ir gozar o santo amor, prostrei-me diante da divina bondade apresentando-lhe estes corações para os penetrasse com o seu divino amor; mas foi necessário sofrer muito antes que isso acontecesse». Pressionada a sofrer para fazer reinar o Sagrado Coração, escreve ainda Margarida Maria: «foi-me mostrada a felicidade dos Serafins e foi-me dito: «Não gostarias mais de gozar com eles, do que de sofrer torturas, humilhações, desprezos, para contribuir para o estabelecimento do meu reino nas almas?» - «Abracei avidamente a cruz eriçada de espinhos que me era apresentada, e fiz dela a minha feliz escolha». A nós, são imolações mais modestas que Nosso Senhor nos pede; pequenos sacrifícios, uma vida segundo a regra, recolhimento, trabalho e a aceitação de pequenas penas que se apresentam cada dia. (Leão Dehon, OSP 4, p. 373s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Jesus é o Mediador da Nova Aliança» (Heb 12, 24).

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Sexta-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Sexta-feira


    3 de Fevereiro, 2023

    Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Sexta-feira

    Lectio

    Primeira leitura: Hebreus 13, 1-8

    Irmãos: Permanecei na caridade fraterna. 2Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos. 3Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos que são maltratados, porque também vós tendes um corpo. 4Seja o matrimónio honrado por todos e imaculado o leito conjugal, pois Deus julgará os impuros e os adúlteros. 5Vivei sem avareza, contentando-vos com o que possuís, porque o próprio Deus disse: Não te deixarei nem te abandonarei. 6Assim, podemos dizer confiadamente:O Senhor é o meu auxílio; não temerei; que poderá fazer-me um homem? 7Recordai-vos dos vossos guias, que vos pregaram a palavra de Deus; observai o êxito da sua conduta e imitai a sua fé. 8Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos.

    Estamos a chegar ao fim da Carta aos Hebreus. O seu autor dá orientações concretas para a vida dos cristãos: perseverança no amor fraterno, hospitalidade, ajuda aos presos e a outros que estão em situação de sofrimento. Todos formam connosco um só corpo. Depois, trata da santidade com que o matrimónio há-de ser vivido. Ele é, de facto, um caminho de santidade. Prossegue alertando para a tentação de nos deixarmos envolver pela avareza. Jesus é a nossa verdadeira riqueza. O Pai sabe do que precisamos.
    Finalmente, há que recordar aqueles que nos pregaram o Evangelho e a heroicidade do seu testemunho. A fé em Jesus morto e ressuscitado por nós muda a nossa vida e as relações, dando plenitude à história humana: «Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos» (v. 8).

    Evangelho: Mc 6, 14-29

    Naquele tempo, o rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o seu nome se tornara célebre; e dizia-se: «Este é João Baptista, que ressuscitou de entre os mortos e, por isso, manifesta-se nele o poder de fazer milagres»; 15outros diziam: «É Elias»; outros afirmavam: «É um profeta como um dos outros profetas.» 16Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou.» 17Na verdade, tinha sido Herodes quem mandara prender João e pô-lo a ferros na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, que ele desposara. 18Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter contigo a mulher do teu irmão.» 19Herodíade tinha-lhe rancor e queria dar-lhe a morte, mas não podia, 20porque Herodes temia João e, sabendo que era homem justo e santo, protegia-o; quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. 21Mas chegou o dia oportuno, quando Herodes, pelo seu aniversário, ofereceu um banquete aos grandes da corte, aos oficiais e aos principais da Galileia. 22Tendo entrado e dançado, a filha de Herodíade agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei.» 23E acrescentou, jurando: «Dar-te-ei tudo o que me pedires, nem que seja metade do meu reino.» 24Ela saiu e perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?» A mãe respondeu: «A cabeça de João Baptista.» 25Voltando a entrar apressadamente, fez o seu pedido ao rei, dizendo: «Quero que me dês imediatamente, num prato, a cabeça de João Baptista.» 26O rei ficou desolado; mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis recusar. 27Sem demora, mandou um guarda com a ordem de trazer a cabeça de João. O guarda foi e decapitou-o na prisão; 28depois, trouxe a cabeça num prato e entregou-a à jovem, que a deu à mãe. 29Tendo conhecimento disto, os discípulos de João foram buscar o seu corpo e depositaram-no num sepulcro.

    Flávio José diz-nos que Herodes Antipas, temendo possíveis desordens políticas desencadeadas pelo movimento de João Baptista, prendeu o profeta em Maqueronte, onde o mandou executar. O relato de Marcos, mais subjectivo, e menos exacto, levou a ver João Baptista apenas como vítima da vingança de uma mulher irritada.
    O segundo evangelho apresenta-nos Herodes que, atormentado pelos remorsos, julga reconhecer em Jesus o profeta que mandara matar (v. 16). E assim começa a narrativa do martírio de João, mais longa que a de Mateus ou a de Lucas: prisão, acusação, denúncia corajosa do rei pelo profeta (vv. 18-20), trama de Herodíades que usa Salomé, fraqueza de Herodes, sentença de morte e execução da mesma (vv. 26-28). Mas o remorso persegue o rei. O relato termina com um toque de piedade: o corpo do profeta é entregue aos discípulos que lhe dão sepultura (v. 29).
    Esta narrativa popular realça a atitude ridícula de Herodes, por um lado, escravo das suas paixões, e, por outro, interessado na figura austera de João Baptista. Para Marcos, o martírio de João, e a liquidação do seu movimento, indica que a comunidade cristã, criada por Jesus, era completamente nova, ainda que conservasse a memória veneranda do maior de todos os profetas.

    Meditatio

    Quase a concluir a Carta aos Hebreus, o seu autor exorta aqueles a quem se dirige a viverem na caridade, na castidade, na pobreza e na obediência. É o ideal de uma vida realmente cristã, a que todos os baptizados são chamados. Os religiosos apenas radicalizam a vivência desse ideal.
    Em primeiro lugar, a caridade: «Permanecei na caridade fraterna» (v. 1). E o nosso autor concretiza: «Não vos esqueçais da hospitalidade» (v. 2), «lembrai-vos dos presos» (v. 3). A caridade é expressão do amor divino recebido e comunicado, um amor generosos, participativo, constante.
    A castidade: «Seja o matrimónio honrado por todos e imaculado o leito conjugal, pois Deus julgará os impuros e os adúlteros» (v. 5). O autor fala da castidade dos casados. A castidade dos casados estimula a dos religiosos. Mas a castidade dos religiosos, por sua vez, é sinal, ajuda, força para os outros.
    A pobreza: «Vivei sem avareza, contentando-vos com o que possuís» (v. 5). O espírito de pobreza, próprio de todos os cristãos, e a pobreza dos religiosos, vivida coerentemente, manifestam a nossa confiança em Deus: «Assim, podemos dizer confiadamente:O Senhor é o meu auxílio; não temerei...» (v. 6).
    A obediência: «Recordai-vos dos vossos guias» (v. 7), dos vossos chefes. Mas adiante lê-se: «Sede submissos e obedecei aos que vos guiam... que eles o façam com alegria e não com gemidos, o que não seria vantajoso para vós» (v. 17).
    Na caridade, na castidade, na pobreza e na obediência, vividas segundo a graça e a vocação de cada um, todos os discípulos de Cristo hão-de tornar-se dom total a Deus e aos irmãos, tal como Jesus. De qualquer modo, cada um de nós é chamado a morrer a si mesmo, ao homem velho, ao egoísmo e ao orgulho que nos impede de viver com a disposição e a atitude de João Baptista que dizia: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3, 30). Porque Jesus é sempre o mesmo ontem, hoje e sempre, quanto mais nos perdermos n&a
    cute;Ele, que é o Amor, mais saborearemos a verdadeira vida.

    Oratio

    Senhor, dá-nos a graça de viver em plenitude o belo ideal de vida cristã que hoje nos apresentas, e de ajudar aqueles que se aproximam de nós a vivê-lo também, com alegria e coragem. Que todos vivamos Contigo e em Ti, entregues ao projecto de salvação que o Pai concebeu para reconduzir todos os homens à verdadeira liberdade dos filhos de Deus. Que nada anteponhamos ao teu amor. Sê a nossa vida, a nossa santificação e nossa alegria inefável. Que, a exemplo dos Santos, tudo saibamos oferecer por amor da tua glória e bem dos irmãos. Amen.

    Contemplatio

    A caridade é o dom dos dons. - A caridade é como o único fruto do Espírito Santo. S. Paulo diz aos Gálatas: «O fruto do Espírito é a caridade, a paz, a alegria, etc.». Enumerando os doze frutos, reúne-os num só, porque não diz «os frutos do Espírito Santo são...», mas: «O fruto do Espírito Santo é a caridade, etc.». Ora eis o mistério deste modo de falar: «A caridade de Deus foi espalhada nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5). A caridade é como o fruto único, que tem uma infinidade de excelentes propriedades, que podem enumerar-se em seguida. S. Paulo não quer, portanto, dizer outra coisa senão que o fruto do Espírito Santo é a caridade, a qual é alegre, pacífica, paciente, benigna, boa, longânime, doce, fiel, modesta, continente, casta; isto é, que o divino amor nos dá uma alegria interior com uma grande paz do coração, que se conserva no meio das adversidades pela paciência, e que nos torna graciosos e benignos em socorrer o próximo por uma bondade cordial para com ele, bondade que não é variável e inconstante, mas longânime e sempre leal, e que é acompanhada de simplicidade, de modéstia, de uma continência oposta a todos os excessos e de uma cuidadosa castidade. Não é o mesmo dom de caridade, tão fecundo em frutos, que S. Paulo exalta ainda quando diz aos Coríntios (1Cor 13): «A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, malévola, orgulhosa, egoísta, irascível, isto é, ainda que é pacífica, doce, paciente e boa». Sim, ela é bem o fruto por excelência do Espírito Santo. (Leão Dehon, OSP 3, p. 571s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Permanecei na caridade fraterna» (Heb 13, 1).

  • S. João de Brito, Presbítero e Mártir

    Categoria: Santoral S. João de Brito, Presbítero e Mártir


    4 de Fevereiro, 2023

    João de Brito nasceu em Lisboa, a 1 de Março de 1647. Ainda criança, perdeu o pai, que fora mandado governar o Brasil por D. João IV, e lá faleceu. Aos 16 anos, João entrou no Noviciado da Companhia de Jesus em Lisboa. Foi ordenado sacerdote em 1673. Anelando conquistar almas para Jesus Cristo e sacrificar-se a exemplo de S. Francisco Xavier, partiu, pouco depois, para a Índias, onde trabalhou com ardor na missão do Maduré. A 4 de Fevereiro de 1693, sofreu o martírio, por decapitação, em Urgur. Foi canonizado em 1947.

    Lectio

    Primeira leitura: da féria (ou tempo Comum)

    Evangelho: Marcos 6, 7-17

    Naquele tempo, Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar. 7Chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. 8Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto;9que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. 10E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. 11E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» 12Eles partiram e pregavam o arrependimento, 13expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos. 4O rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o seu nome se tornara célebre; e dizia-se: «Este é João Baptista, que ressuscitou de entre os mortos e, por isso, manifesta-se nele o poder de fazer milagres»;15outros diziam: «É Elias»; outros afirmavam: «É um profeta como um dos outros profetas.»16Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou.» 17Na verdade, tinha sido Herodes quem mandara prender João e pô-lo a ferros na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, que ele desposara.

    Marcos apresenta-nos uma das facetas essenciais da eclesiologia do Novo Testamento: a proclamação do Reino não é feita ao acaso; há uma "instituição" que põe em movimento e planifica o anúncio da Boa Nova.
    Pregar o Reino implica ser enviado por Jesus. Da pregação faz parte um conteúdo intelectual, mas também uma dimensão prática. Por isso, Jesus deu aos Doze "poder sobre os espíritos impuros" (v. 7). Estes "espíritos impuros" ou "alienações" são tudo o que ameaça exteriormente o homem, não o deixando realizar-se como ser humano. A Boa Nova não é apenas uma determinada interpretação do mundo e da história, mas uma indicação de transformação desse mundo e dessa história, uma dinâmica desalienante.
    Os discípulos são enviados "dois a dois": o anúncio faz-se sempre de forma comunitária. Os discípulos não podem levar consigo senão o estritamente necessário: nada de exageros, nem de triunfalismos. Mas, mais que a pobreza dos missionários, o nosso texto acentua a pobreza da missão: o missionário é enviado por Aquele que é o único responsável pelo êxito da missão. No cumprimento da missão, o apóstolo há-de estar pronto a dar própria vida. João de Brito deu-a como supremo testemunho da Verdade que anunciava.

    Meditatio

    Marcos, ao falar da escolha dos Doze, diz que Jesus os chamou "para estarem com ele" e para "os enviar". Não se trata de contradição, mas de complementaridade: chamou-os para estarem em intimidade com Ele e serem enviados a propagar a sua mensagem.
    S. João de Brito viveu este mistério. Educado piedosamente pela sua mãe, desde muito novo sonhou com o sacrifício e a imolação de si mesmo a Deus, por amor. A coerência e o fervor com que vivia a sua fé provocavam a mofa de alguns dos seus colegas pajens da corte. Por isso, bem cedo, começou a ser apelidado de mártir. Tendo entrado na Companhia de Jesus, em breve se distinguiu pela sua piedade e observância religiosa. A sua vida eucarística, a sua devoção a Nossa Senhora eram notáveis. Nesta vida de intimidade com Deus, sonhou partir para a Índia, e imitar o zelo de S. Francisco Xavier no anúncio da Boa Nova. E foi enviado pelos seus superiores com mais 17 missionários, em Março de 1673. Foi destinado à missão do Maduré, uma das mais difíceis por causa do clima ardente, das viagens longas pelas areias, pelos pântanos, pelas florestas. Mas havia dificuldades ainda maiores por causa da condição dos hindus e pelas suas ideias a respeito dos europeus. Tinham-nos como párias por verem que tratavam com estes "fora de castas". Por isso, não lhes consentiam que morassem nas suas aldeias. Mas a caridade inspirou aos missionários o modo de vencer tais dificuldades: adotaram os trajes, os costumes e o modo de viver dos brâmanes saniássis, espécie de religiosos letrados. Assim puderam prosseguir o seu apostolado. Em 1686, João de Brito esteve a ponto de perder a vida para socorrer os cristãos do Maravá sobre os quais se desencadeara tremenda tempestade. Saiu-lhe ao encontro o comandante das tropas do maravá que o prendeu com um grupo de catequistas e os mandou açoitar a todos, pretendendo que invocassem o deus Xivá. Resistiram, passando por muitos tormentos físicos e psicológicos. Dezoito dias depois, o rei condenava o padre à morte: seria espetado, depois de lhe cortarem os pés e as mãos. Seguiram-se novas tribulações, até que o rei, ouvindo João de Brito expor-lhe a doutrina cristã, ficou tão admirado com ela que acabou por declarar que os cristãos são justos e santos. Pouco depois, o P. João de Brito foi chamado à Europa pelo Provincial. Assim, a 8 de Setembro de 1688, chegou a Lisboa, sendo recebido por todos com grande admiração e com a benevolência do rei D. Pedro II, a quem expôs os seus trabalhos. Depois de percorrer os colégios da Companhia, João de Brito regressou à Índia, apesar das súplicas que muitos lhe fizeram para que não voltasse. O seu trabalho missionário produziu tais frutos, que se levantou contra ele nova perseguição, que acabou por levá-lo ao martírio, a 4 de Fevereiro de 1693. Na véspera da sua morte, o santo escrevia do cárcere: "Agora espero padecer a morte por meu Deus e meu Senhor... A culpa de que me acusam vem a ser que ensino a Lei de Deus Nosso Senhor... Quando a culpa é virtude, o padecer é glória". João de Brito continuava, na missão, a vida de intimidade com Deus, iniciada na sua infância e juventude. Se queremos relacionar-nos positivamente com os outros, se queremos ser missionários, precisamos de uma relação íntima, profunda e amorosa com Deus. Sem ela, a nossa vida não é verdadeira, a nossa entrega é vazia. Mas também não podemos viver a intimidade com Ele, fechando-nos aos outros. O egoísmo não conduz à adesão ao Senhor, à comunhão com Ele. Para ser vida de amor, a vida do cristão, particularmente a vida do dehoniano, deve ter o mesmo dinamismo que a de Cristo: ser um movimento de amor para Deus e para os irmãos.

    Oratio

    Senhor, que fortalecestes com invencível constância o mártir São João de Brito para pregar a fé entre os povos da Índia, concedei-nos, por seus méritos e intercessão, que, celebrando a memória do seu triunfo, imitemos os exemplos da sua fé. Por Cristo, nosso Senhor. Ámen. (Coleta da missa).

    Contemplatio

    Nosso Senhor não responde (a Herodes). O momento é grave. Cumpre o seu sacrifício para a redenção do mundo. Não tem tempo para dar às questões frívolas e curiosas de Herodes. Aqui está para nós uma grande lição de vida interior, de gravidade, de dignidade. Nosso Senhor vive unido ao seu Pai, e não condescende em conversar com os homens a não ser que algum motivo de caridade ou de justiça o exija. O silêncio tem as suas preferências. Assim devia ser também para nós. É o que diz S. Paulo aos Filipenses: «Que a vossa modéstia seja manifesta a todos os homens!». A modéstia é aqui a moderação nas palavras e nas ações. "Guardai a calma, acrescenta S. Paulo, ocupai o vosso coração a louvar a Deus, a dar-lhe graças, a rezar. Se for preciso conversar com os homens, que seja sobre temas de edificação, de piedade ou de necessidade" (Fil 4,5)... Paulo recomendava a todos os seus discípulos esta modéstia de Cristo: «Revesti-vos, diz aos Colossenses, da doçura, da modéstia, da paciência de Jesus Cristo» (Col 3,12). A paciência infinita do bom Mestre manifesta-se também com brilho em casa de Herodes. O príncipe e a sua corte tratam Jesus como um louco. Zombam dele, insultam-no. Não lhe batem como os criados do Templo, mas gozam dele. É uma outra prova, não menos cruel para o Filho de Deus. (L. Dehon, OSP 3, p. 325s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Quando a culpa é virtude, o padecer é glória." (S. João de Brito)

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    S. João de Brito, Presbítero e Mártir (04 Fevereiro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Sábado

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Sábado


    4 de Fevereiro, 2023

    Tempo Comum - Anos Ímpares - IV Semana - Sábado

    Lectio

    Primeira leitura: Hebreus 13, 15-17.20-21

    Irmãos: Ofereçamos por meio dele, continuamente a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. 16Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com os outros, pois são esses os sacrifícios que agradam a Deus. 17Sede submissos e obedecei aos que vos guiam, pois eles velam pelas vossas almas, das quais terão de prestar contas; que eles o façam com alegria e não com gemidos, o que não seria vantajoso para vós. 18Rezai por nós, pois estamos convencidos de ter uma boa consciência e desejamos comportar-nos bem em tudo. 19Exorto-vos com maior insistência a que o façais, para que eu vos seja restituído mais depressa. 20O Deus da paz, que ressuscitou dos mortos o grande Pastor das ovelhas, Jesus, Senhor nosso, pelo sangue da Aliança eterna, 21vos torne aptos para todo o bem, a fim de que façais a sua vontade. Que Ele realize em nós o que lhe é agradável, por meio de Jesus Cristo, ao qual seja dada glória pelos séculos dos séculos. Ámen.

    Ao concluir a sua carta, o autor alterna a catequese (vv. 12-15) com a exortação (vv. 16s.) e a oração (vv. 20s.). Mas o centro unificador destes versículos é o mistério pascal de Cristo: «o grande Pastor das ovelhas» (v. 20). É Ele o Messias esperado que, pelo seu sangue, se tornou mediador de uma aliança eterna de vida e de paz entre nós e Deus. É desta realidade que brota a novidade fundamental do culto cristão de que trata a carta. Por Jesus, toda a vida do crente se pode tornar oferta agradável a Deus, conforme recomenda Paulo na Carta aos Romanos: «Exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus» (12, 1). O sacrifício de louvor prolonga-se e autentica o sacrifício da caridade e da submissão a quem guia a comunidade nos caminhos do Senhor. Esta existência pascal é um dom a pedir e um compromisso a assumir com responsabilidade. É por isso que o autor confia ao Pai os destinatários da sua carta. Só Ele pode dispor os corações a acolher o dom e a colaborar com a graça. A aliança selada na morte e ressurreição de Cristo é premissa e garantia de que o Pai atenderá esta oração. Tal como Deus realizou a nova aliança por meio de Cristo, assim também nos tornará «aptos para todo o bem» (v. 21). A obra começada será completada.

    Evangelho: Mc 6, 30-34

    Naquele tempo, os Apóstolos reuniram-se a Jesus e contaram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado. 31Disse-lhes, então: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco.» Porque eram tantos os que iam e vinham, que nem tinham tempo para comer. 32Foram, pois, no barco, para um lugar isolado, sem mais ninguém. 33Ao vê-los afastar, muitos perceberam para onde iam; e de todas as cidades acorreram, a pé, àquele lugar, e chegaram primeiro que eles. 34Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas.

    Na segunda parte do seu evangelho (6, 30-10), Marcos diz-nos que Jesus, apesar de galileu, é profundamente universal: dirige-se aos outros, aos afastados, aos gentios; mas não esquece os clássicos, os eleitos.
    O texto que escutamos lembra-nos uma visita «ad limina»: os Apóstolos vêm dos seus lugares de trabalho e contam a Jesus o que fizeram. Jesus escuta-os, mas não quer vê-los cair no triunfalismo do muito que fizeram e fazem, nem no activismo de quem se entrega às coisas do Senhor, esquecendo o próprio Senhor. Por isso, lhes diz: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco». É um momento de intimidade entre Jesus e os seus, um convite ao repouso e ao recolhimento. A comunidade dos Doze, com Jesus no barco, recompõe-se e renova-se em vista da secção dos milagres e da dupla multiplicação dos pães. Estes milagres são preanunciado e introduzidos com a referência à necessidade de alimento, material e simbólico: os discípulos «não tinham tempo para comer» (v. 31); as multidões «eram como ovelhas sem pastor» (v. 34).
    É uma pena que a tradição os retiros e exercícios espirituais se tenham convertido em outras coisas que nem sempre contribuem para o bem dos homens e para o bem da Igreja.

    Meditatio

    Ao concluir a Carta aos Hebreus, o seu autor dá-nos um ensinamento muito importante: «Ofereçamos por meio dele, continuamente a Deus um sacrifício de louvor» (v. 15). Um cristão há-de viver sempre em atitude de louvor e de acção de graças. Para isso, havemos de estar conscientes dos grandes dons que Deus nos faz por meio de Cristo. Se estivermos convencidos disso, a gratidão levar-nos-á a realizar com alegria outros sacrifícios que o autor da carta aconselha: «Não vos esqueçais de fazer o bem e de repartir com os outros, pois são esses os sacrifícios que agradam a Deus» (v. 16). É o sacrifício da caridade fraterna, que nos permite continuar a oferta de Cristo ou, melhor dizendo, Lhe permite continuar em nós a sua oblação.
    «Obedecei aos que vos guiam» (v. 17). Nem sempre é fácil obedecer. Mas o caminho da caridade e da unidade passa pela submissão e pela obediência aos chefes por Ele escolhidos.
    Se vivermos assim, o Deus da paz poderá tornar-nos perfeitos em todo o bem por meio de Jesus Cristo, Nosso Senhor, realizando em nós a sua vontade.
    O evangelho fala-nos da ternura de Jesus pelas pessoas que O procuravam e seguiam. Essa ternura é também por nós, hoje. Talvez andemos preocupados em testemunhar o Evangelho e precisemos de repousar o espírito na sua presença. Talvez nos reconheçamos naquelas «ovelhas sem pastor» sem rumo nem segurança. Jesus é «o grande Pastor das ovelhas» (v. 20), guia dos pastores e das ovelhas sem pastor. Para abrir a todos –também a mim - um caminho seguro para o redil do Pai, deu a sua vida. Ele mesmo é «o Caminho, a Verdade e a Vida».

    Oratio

    Ó Jesus, Tu revelas-nos o rosto amoroso do Pai. Vimos ao teu encontro como ovelhas sem pastor. Guia-nos Tu com força e doçura para descobrirmos o caminho da vida na oferta total de nós mesmos a Deus. Transforma os nossos dias em incessantes sacrifícios de louvor ao Pai e de caridade aos irmãos. Faz-nos participar na tua páscoa pela morte ao egoísmo e à presunção, para vivermos em Ti como filhos obedientes, que cumprem a vontade do Pai. A Ele, fonte de misericórdia, confiamos, por Ti, a nossa fraqueza e a nossa miséria, para que faça de nós o que quiser para sua glória e bem dos irmãos. Amen.

    Contemplatio

    «Desde o instante da sua conversão, Santo Agostinho nunca deixou de louvar a Deus em todas as suas acções, de dia, de noite, bebendo, comendo, falando, escrevendo, cantando os louvores da sua misericórdia e da sua graça. Era tão devoto a esta gra&c
    cedil;a divina, diz S. Francisco de Sales, que não podia saciar-se, não somente de a louvar, mas também de falar e de escrever em seu louvor. Vedes, portanto, como este santo dizia muito justamente, depois da sua conversão, estas palavras do salmista: «Rompestes os meus laços, ó meu Deus, oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor», e chamarei todas as criaturas a vos louvar em reconhecimento das misericórdias que me fizestes». (Leão Dehon, OSP 4, p. 196s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor» (Heb 13, 4).

  • 05º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    Categoria: Dominical 05º Domingo do Tempo Comum - Ano A


    5 de Fevereiro, 2023

    ANO A
    5º Domingo do Tempo Comum

    Tema do 5º Domingo do Tempo Comum

    A Palavra de Deus deste 5º Domingo do Tempo Comum convida-nos a reflectir sobre o compromisso cristão. Aqueles que foram interpelados pelo desafio do "Reino" não podem remeter-se a uma vida cómoda e instalada, nem refugiar-se numa religião ritual e feita de gestos vazios; mas têm de viver de tal forma comprometidos com a transformação do mundo que se tornem uma luz que brilha na noite do mundo e que aponta no sentido desse mundo de plenitude que Deus prometeu aos homens - o mundo do "Reino".
    No Evangelho, Jesus exorta os seus discípulos a não se instalarem na mediocridade, no comodismo, no "deixa andar"; e pede-lhes que sejam o sal que dá sabor ao mundo e que testemunha a perenidade e a eternidade do projecto salvador de Deus; também os exorta a serem uma luz que aponta no sentido das realidades eternas, que vence a escuridão do sofrimento, do egoísmo, do medo e que conduz ao encontro de um "Reino" de liberdade e de esperança.
    A primeira leitura apresenta as condições necessárias para "ser luz": é uma "luz" que ilumina o mundo, não quem cumpre ritos religiosos estéreis e vazios, mas quem se compromete verdadeiramente com a justiça, com a paz, com a partilha, com a fraternidade. A verdadeira religião não se fundamenta numa relação "platónica" com Deus, mas num compromisso concreto que leva o homem a ser um sinal vivo do amor de Deus no meio dos seus irmãos.
    A segunda leitura avisa que ser "luz" não é colocar a sua esperança de salvação em esquemas humanos de sabedoria, mas é identificar-se com Cristo e interiorizar a "loucura da cruz" que é dom da vida. Pode-se esperar uma revelação da salvação no escândalo de um Deus que morre na cruz? Sim. É na fragilidade e na debilidade que Deus Se manifesta: o exemplo de Paulo - um homem frágil e pouco brilhante - demonstra-o.

    LEITURA I - Is 58, 7-10

    Leitura do Livro do profeta Isaías

    Eis o que diz o Senhor:
    «Reparte o teu pão com o faminto,
    dá pousada aos pobres sem abrigo,
    leva roupa ao que não tem que vestir
    e não voltes as costas ao teu semelhante.
    Então a tua luz despontará como a aurora
    e as tuas feridas não tardarão a sarar.
    Preceder-te-á a tua justiça
    e seguir-te-á a glória do Senhor.
    Então, se chamares, o Senhor responderá,
    se O invocares, dir-te-á: "Aqui estou".
    Se tirares do meio de ti a opressão,
    os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
    se deres do teu pão ao faminto
    e matares a fome ao indigente,
    a tua luz brilhará na escuridão
    e a tua noite será como o meio-dia».

    AMBIENTE

    Os capítulos 56 a 66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto heterodoxo de temas, de situações, de géneros e de estilos; por isso, a maior parte dos estudiosos recentes atribuem estes textos, não a um autor, mas a uma pluralidade de autores - embora continuem a catalogar estes capítulos sob o nome genérico de "Trito-Isaías".
    Embora se discuta também a época em que estes textos apareceram (as opiniões vão desde o séc. VII ao séc. II a.C.), a maioria dos estudiosos costuma situar estes textos na época pós-exílica, provavelmente dos últimos decénios do séc. VI, ou nos primeiros anos do séc. V. a.C. Estamos em Jerusalém; os repatriados da Babilónia chegaram cheios de entusiasmo, mas depressa conheceram a desilusão... A cidade está destruída; o domínio persa continua a recordar ao povo de Jerusalém que não é livre nem tem nas próprias mãos a chave do seu futuro; e, acima de tudo, as belas promessas de reconstrução, de libertação, parecem ter-se desvanecido e a intervenção definitiva de Deus tarda em chegar.
    Alguns autores recentes falam (a propósito desta época) de uma forte tensão entre dois grupos que procuram impor-se em Jerusalém: de um lado, o sacerdócio sadoquita (de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que voltou do exílio na Babilónia convencido de que tinha sido provado e perdoado das suas faltas, que está em boas relações com o império persa, que domina a política, que está disposto a fazer valer os seus direitos e privilégios e que define as coordenadas do culto oficial; do outro, o partido levítico, que se manteve em Jerusalém durante o exílio, que dominou o culto durante essa época e que tem uma visão mais "democrática", mais pragmática, menos "oficial" e legalista da fé. Os autores do nosso texto pertencem, provavelmente, a este último grupo.
    O capítulo 58 (a que pertence o texto que nos é proposto) apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida (cf. Is 58,1-12); e um convite a que o Povo respeite a santidade do sábado (cf. Is 58,13-14).
    No nosso texto, a palavra "jejum" (que, no contexto do capítulo, aparece sete vezes) é a palavra-chave.

    MENSAGEM

    O tema do "jejum" é um tema fundamental para a vivência judaica da fé e da relação com Deus (cf. Ex 34,28; Lv 16,29.31; Jz 20,26; 2 Sm 12,16-17; 1 Re 21,27; Jon 3,7; Dn 9,3; Esd 8,21; Est 4,16). No Antigo Testamento, é um gesto religioso utilizado muito frequentemente para traduzir a humildade diante de Deus, a dependência, o abandono, o amor. Implica a renúncia a si próprio, ao próprio egoísmo e auto-suficiência, para se voltar para o Senhor, para manifestar a entrega confiada nas mãos de Deus, para mostrar que se está disposto a acolher a acção e o dom de Jahwéh.
    Ora, o nosso texto sugere que o Povo pratica certas formas de piedade sem ter em conta as suas exigências profundas. No que diz respeito ao jejum, o facto é que o Povo pratica esta forma de piedade de forma interesseira: para pôr Deus do seu lado, para Lhe agradar, para provocar em Deus uma resposta à medida dos desejos do homem. O jejum, visto dessa forma, não é um traduzir num gesto a humildade, a dependência, a entrega do homem face a Deus; mas é uma tentativa de pôr Deus do seu lado, de captar a sua benevolência, a fim de que Ele realize os interesses e os desejos egoístas do homem.
    Deus desmascara a falsidade das atitudes do homem, que manifesta em gestos (jejum) a sua humildade, dependência e entrega mas depois não confirma (com a vida) essa atitude (provocam "rixas e contendas, dando murros sem piedade" - Is 58,4).
    Para Deus, a atitude de dependência, de humildade, de entrega, tem de se traduzir numa vida consentânea com as propostas de Deus. O culto tem de ter tradução em atitud
    es concretas.
    Assim, o "jejum" autêntico (que manifesta a entrega do homem a Deus e a sua vontade de viver em relação com Ele, a sua aceitação e acolhimento de Deus) é aquele que se traduz em partilha com os pobres (vers. 7.10), na eliminação da opressão, da injustiça, da violência, dos gestos de ameaça (vers. 9).
    Para Deus, não é um culto formalista, rico de gestos estrondosos e de ritos solenes mas estéril e vazio quanto aos sentimentos, que faz do Povo de Deus a "luz" do mundo; o Povo de Judá será uma luz que anuncia Deus no mundo, se testemunhar o amor e a misericórdia em gestos concretos de libertação, de partilha, de amor e de paz. A relação com Deus (expressa nos gestos cultuais) só é verdadeira se se traduz em gestos que anunciem e testemunhem a misericórdia e o amor de Deus no meio dos outros homens.

    ACTUALIZAÇÃO

    A reflexão do texto pode fazer-se a partir dos seguintes dados:

    • A questão essencial é esta: como é que podemos ser uma luz que acende a esperança no mundo e aponta no sentido de uma nova terra, mais cheia de paz, de esperança, de felicidade? Esta leitura responde: não é com liturgias solenes ou com ritos litúrgicos espampanantes, muitas vezes estéreis e vazios; mas é com uma vida onde o amor a Deus se traduz no amor ao irmão e se manifesta em gestos de partilha, de fraternidade, de libertação.

    • Atenção: não se diz aqui que os momentos de oração e de encontro pessoal com Deus sejam supérfluos, inúteis, desnecessários; o que se diz aqui é que os ritos em si nada significam, se não correspondem a uma vivência interior que se traduz em gestos concretos de compromisso com Deus e com os seus valores. A multiplicidade de ritos, de orações solenes, de celebrações, por si só nada vale, se não tem a devida correspondência na vida de relação com os irmãos.

    • Sinto o imperativo de ser uma "luz" que se acende na noite do mundo e que dá testemunho do amor e da misericórdia de Deus? A minha fé e a minha relação com Deus têm tradução na luta pela libertação dos meus irmãos? O meu compromisso de crente leva-me a estar atento à partilha com os pobres, os débeis, os desfavorecidos? A minha vivência religiosa traduz-se no ser profeta do amor e servidor da reconciliação?

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 111 (112)

    Refrão 1: Para o homem recto
    nascerá uma luz no meio das trevas.

    Refrão 2: Aleluia.

    Brilha aos homens rectos, como luz nas trevas,
    o homem misericordioso, compassivo e justo.
    Ditoso o homem que se compadece e empresta
    e dispõe das suas coisas com justiça.

    Este jamais será abalado;
    o justo deixará memória eterna.
    Ele não receia más notícias:
    seu coração está firme, confiado no Senhor.

    O seu coração é inabalável, nada teme;
    reparte com largueza pelos pobres,
    a sua generosidade permanece para sempre
    e pode levantar a cabeça com altivez.

    LEITURA II - 1 Cor 2, 1-5

    Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

    Quando fui ter convosco, irmãos,
    não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria
    a anunciar-vos o mistério de Deus.
    Pensei que, entre vós, não devia saber nada
    senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.
    Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor
    e a tremer deveras.
    A minha palavra e a minha pregação
    não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana,
    mas na poderosa manifestação do Espírito Santo,
    para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana,
    mas no poder de Deus.

    AMBIENTE

    Já vimos, na passada semana, que um dos grandes problemas que a comunidade cristã de Corinto enfrentava tinha a ver com a propensão dos coríntios para a busca de uma sabedoria puramente humana, que os levava a apostar em pessoas (Pedro, Paulo, Cefas), em mestres humanos capazes de transportar os discípulos ao encontro da sua realização; mas, dessa forma, acabavam por esquecer Jesus Cristo e por passar ao lado da "sabedoria da cruz".
    Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a "sabedoria humana" não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na "loucura da cruz".
    Como é que a salvação e a realização plena do homem podem, no entanto, manifestar-se nesse facto paradoxal de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um bandido?
    Para que as coisas se tornem perfeitamente claras, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro (a segunda leitura do passado domingo), Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: apesar da pobreza, debilidade e fragilidade dos membros da comunidade, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo. No segundo (e que é a leitura que nos é aqui proposta), Paulo apresenta com humildade o seu próprio caso.

    MENSAGEM

    Paulo apresenta-se na dupla condição de evangelizador e de homem.
    Como evangelizador (vers. 1-2), Paulo não se apresentou com palavras grandiosas, com discursos sublimes, com filosofias elaboradas e coerentes; mas apresentou-se com toda a simplicidade para anunciar esse paradoxo de um Deus fraco, que morreu numa cruz rejeitado por todos. Apesar de tudo, em Corinto nasceu uma comunidade cristã cheia de força e de fé.
    Como homem (vers. 3-5), Paulo apresentou-se em Corinto consciente da sua fraqueza, assustado e cheio de temor. Não foi, portanto, pela sedução da sua personalidade arrebatadora, pelas suas "brilhantes" qualidade do pregador, nem pelo brilho e coerência da sua exposição que os coríntios se sentiram atraídos por Jesus e pelo Evangelho.
    Qual foi, então, a razão pela qual os coríntios aderiram à proposta de Jesus, apresentada humildemente por Paulo?
    Porque a força de Deus se impõe, muito para além dos limites do homem que apresenta a proposta ou do ouvinte que a escuta. O Espírito de Deus está sempre presente e age no coração dos crentes, de forma a que eles não se fiquem pelos esquemas da sabedoria humana, mas se deixem tocar pela sabedoria de Deus.

    ACTUALIZAÇÃO

    Considerar as seguintes questões:

    • Após dois mil anos de Evangelho, a nossa civilização "cristã" ainda age como se a salvação do mundo e dos homens estivesse no poder das armas, na estabilidade da economia, no desenvolvimento sustentado, no controle do buraco do ozono, no pleno emprego, na paz social, na eliminação do terrorismo, na defesa da floresta amazónica, nas declarações de boas intenções feitas pelos senhores do mundo nos grandes areópagos internacionais... Mas Paulo diz, muito simplesmente, que a salvação está na "loucura da cruz" e que a vida em plenitude es
    tá no amor que se dá completamente. Quem tem razão: os nossos teóricos, formados pelas grandes universidades internacionais, ou o judeu Paulo, formado na universidade de Jesus?

    • A força e a "sabedoria de Deus" manifestam-se, tantas vezes, na fragilidade, na pequenez, na obscuridade, na pobreza (como o exemplo de Paulo o comprova). Sendo assim, não nos parecem ridículas e descabidas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de brilho intelectual?

    • Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem recordar sempre que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projecto de salvação para o mundo... Para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos.

    ALELUIA - Jo 8, 12

    Aleluia. Aleluia.

    Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor:
    quem Me segue terá a luz da vida.

    EVANGELHO - Mt 5, 13-16

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos seus discípulos:
    «Vós sois o sal da terra.
    Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?
    Não serve para nada,
    senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
    Vós sois a luz do mundo.
    Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
    nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
    mas sobre o candelabro,
    onde brilha para todos os que estão em casa.
    Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
    para que, vendo as vossas boas obras,
    glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

    AMBIENTE

    Continuamos no contexto do "sermão da montanha" (cf. Mt 5-7). Jesus está (na versão de Mateus) no cimo de um monte, a apresentar a nova Lei que deve reger a caminhada do novo Povo de Deus na história (já vimos, no passado domingo, que a indicação geográfica - no cimo de um monte - nos transporta à montanha do Sinai, onde Jahwéh Se revelou ao seu Povo e lhe deu a sua Lei; aqui Jesus é, portanto, apresentado como o Deus que, no cimo de um monte, dá ao seu Povo os "mandamentos" da nova aliança).
    Mateus agrupa, neste primeiro discurso, um conjunto de "ditos" de Jesus (provavelmente, pronunciados em contextos e ocasiões diversas), destinados a proporcionar à comunidade concreta a que o Evangelho se destinava, um conjunto de ensinamentos básicos para a vida cristã.

    MENSAGEM

    O texto que nos é proposto reúne duas parábolas - a do sal e a da luz - destinadas a pôr em relevo o papel do novo Povo de Deus no mundo e a definir a missão daqueles que aceitam viver no espírito das bem-aventuranças. Depois de apresentar a nova Lei ("bem-aventuranças"), Jesus define a missão do novo Povo de Deus.
    A primeira comparação é a do sal (vers. 13). O sal é, em primeiro lugar, o elemento que se mistura na comida e que dá sabor aos alimentos (cf. Jb 6,6). Também é um elemento que assegura a conservação dos alimentos e a sua incorruptibilidade. Simboliza, nesta linha, aquilo que é inalterável... No Antigo Testamento, o sal é usado para significar o valor durável de um contrato; nesse contexto, falar de uma "aliança de sal" (Nm 18,19) é falar de um compromisso permanente, perene (cf. 2 Cr 13,5).
    Dizer que os discípulos são "o sal" significa, portanto, que os discípulos são chamados a trazer ao mundo essa "qualquer coisa mais" que o mundo não tem e que dá sabor à vida dos homens; significa também que da fidelidade dos discípulos ao programa enunciado por Jesus (as "bem-aventuranças") depende a perenidade da aliança entre Deus e os homens e a permanência do projecto salvador e libertador de Deus no mundo e na história.
    A referência à perda do sabor ("se o sal perder o sabor... já não serve para nada") destina-se a alertar os discípulos para a necessidade de um compromisso efectivo com o testemunho do "Reino": se os discípulos de Jesus recusarem ser sal e se demitirem das suas responsabilidades, o mundo guiar-se-á por critérios de egoísmo, de injustiça, de violência, de perversidade, e estará cada vez mais distante da realidade do "Reino" que Jesus veio propor. Nesse caso, a vida dos discípulos terá sido inútil.
    A segunda comparação é a da luz (vers. 14-16). Para a explicar, Jesus utiliza duas imagens.
    A primeira imagem (a da cidade situada sobre um monte) leva-nos a Is 60,1-3, onde se fala da "luz" de Deus que devia brilhar sobre Jerusalém e, a partir de lá, alumiar todos os povos. A interpretação judaica de Is 60,3 aplicava a frase a Israel: o Povo de Deus devia ser o reflexo da luz libertadora e salvadora de Jahwéh diante de todos os povos da terra. A segunda imagem (a da lâmpada colocada sobre o candelabro, a fim de alumiar todos os que estão em casa) repete e explicita a mensagem da primeira: os que aderem ao "Reino" devem ser uma luz que ilumina e desafia o mundo. É possível que haja ainda nestas imagens uma referência ao "Servo de Jahwéh" de Is 42,6 e 49,6, apresentado como a "luz das nações".
    De qualquer forma, a verdade é que, na perspectiva de Jesus, essa presença da "luz" de Deus para alumiar as nações dar-se-á, doravante, nos discípulos, isto é, naqueles que aceitaram o apelo do "Reino" e aderiram à nova Lei (as "bem-aventuranças") proposta por Jesus. Eles são a "nova Jerusalém", ou o novo "Servo de Jahwéh" de onde a proposta libertadora de Deus irradia e a partir de onde ela transforma e ilumina a vida de todos os homens.
    Estas duas imagens não pretendem, contudo, dizer que os discípulos de Jesus devam dar nas vistas, mostrar-se, escolher lugares de visibilidade de onde as massas os admirem e os aplaudam. Mas pretende dizer que a missão das testemunhas do "Reino" deve levá-las a dar testemunho, a questionar o mundo, a ser uma interpelação profética, a ser um reflexo da luz de Deus; e que não devem esconder-se, demitir-se da sua missão, fugir às suas responsabilidades.
    Essas "boas obras" que os discípulos devem praticar, e que serão um testemunho do "Reino" para os homens, são, provavelmente, aquelas que Mateus apresenta na segunda parte das "bem-aventuranças" (cf. Mt 5,7-11): a "misericórdia" (um coração capaz de compadecer-se, de amar, de perdoar, de se comover, de se deixar tocar pelos sofrimentos e angústias dos irmãos), a "pureza de coração" (a honestidade, a lealdade, a verdade, a verticalidade), a defesa
    intransigente da paz (a recusa da violência e da lei do mais forte a luta pela reconciliação) e da justiça. É desse labor dos discípulos que nascerá o mundo novo, o mundo do "Reino".
    A missão dos discípulos é, portanto, a de "dar sabor" ao mundo, garantir aos homens a perenidade da "aliança" e iluminar o mundo com a "luz" de Deus. Eles são as testemunhas dessa realidade nova que nasce da oferta da salvação e da vivência das "bem-aventuranças". Neles tem de estar presente essa realidade nova, que Jesus chamava "Reino".

    ACTUALIZAÇÃO

    A reflexão pode considerar os seguintes aspectos:

    • A questão essencial que este trecho do Evangelho nos apresenta é esta: Deus propôs-nos um projecto de libertação e de salvação que conduzirá à inauguração de um mundo novo, de felicidade e de paz sem fim; e aqueles que aderiram a essa proposta têm de testemunhá-la diante do mundo e dos homens com palavras e com gestos concretos, a fim de que o "Reino" se torne uma realidade. Como é que me situo face a isto? Para mim, ser cristão é um compromisso sério, profético, exigente, que me obriga a testemunhar o "Reino", mesmo em ambientes adversos, ou é um caminho "morno", instalado, cómodo, de quem se sente em regra com Deus porque vai à missa ao domingo e cumpre alguns ritos que a Igreja sugere?

    • Eu sou, dia a dia, o sal que dá o sabor, que traz uma mais valia de amor e de esperança à vida daqueles que caminham ao meu lado? Para aqueles com quem lido todos os dias, sou uma personagem insípida, incaracterística, instalada numa mediocridade cinzenta, ou sou uma nota de alegria, de entusiasmo, de optimismo, de esperança numa vida nova vivida ao jeito do Evangelho, ao jeito do "Reino"? No meio do egoísmo, do desespero, do sem sentido que caracteriza a vida de tantos dos meus irmãos, eu dou um testemunho de um mundo novo de amor e de esperança?

    • Ser cristão é também ser uma luz acesa na noite do mundo, apontando os caminhos da vida, da liberdade, do amor, da fraternidade... Eu sou essa luz que aponta no sentido das coisas importantes, impedindo que a vida dos meus irmãos se gaste em frivolidades e bagatelas? Para os que vivem no sofrimento, na dúvida, no erro, para os que vivem de olhos no chão, eu sou a luz que aponta para o mais além e para a realidade libertadora do "Reino"?

    • Atenção: eu não sou "a luz", mas apenas um reflexo da "luz"... Quer dizer: as coisas bonitas que possam acontecer à minha volta não são o resultado do exercício das minhas brilhantes qualidades, mas o resultado da acção de Deus em mim. É Deus que é "a luz" e que, através da minha fragilidade, apresenta a sua proposta de libertação e de vida nova ao mundo. O discípulo não deve, pois, preocupar-se em atrair sobre si o olhar dos homens; mas deve preocupar-se em conduzir o olhar e o coração dos homens para Deus e para o "Reino".

    ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM

    1. A liturgia meditada ao longo da semana.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 5º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa...

    2. Vós sois a luz do mundo.
    Há quinze dias as leituras apontavam para Deus como Luz das nações. Neste domingo, apontam para nós mesmos, que devemos viver como filhos da luz, isto é, portadores da claridade de Deus. Eis uma proposta (a adaptar pelos que preparam a liturgia): no momento da abertura da liturgia da Palavra, acendem-se algumas lamparinas, em silêncio, perto do lugar da Palavra; antes da profissão de fé, o sacerdote - ou outra pessoa - entrega-as a alguns membros da assembleia que avançam para o lugar da Palavra e mantêm as lamparinas na mão até ao momento da preparação do Pão e do Vinho, em que vão colocar as lamparinas sobre o altar.

    3. Oração na lectio divina.
    Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

    No final da primeira leitura:
    Deus de luz, nós Te bendizemos: Quando te chamamos, Tu responde "Eis-me aqui", nos encontros e na presença dos nossos irmãos e irmãs.
    Nós Te pedimos pelos famintos e pelos infelizes sem abrigo, mas sobretudo pelas missões que nos confias. Enche-nos do teu Espírito de generosidade. Que Ele nos abra as mãos para a partilha e nos inspire palavras de esperança e de coragem.

    No final da segunda leitura:
    Nós Te damos graças, Pai todo-poderoso, pelo teu Filho Jesus Cristo, o Messias crucificado, que transformou a cruz em passagem para a vida.
    Nós Te pedimos: purifica-nos das sabedorias ilusórias e das doutrinas contrárias ao Evangelho; pelo teu Espírito, fortifica a nossa fé, faz-nos aderir ao teu Filho, porque só a Ele queremos conhecer.

    No final do Evangelho:
    Pai Nosso que estais nos céus, nós Te damos glória pela luz que entrou no nosso mundo, manifestada no teu Filho Jesus, e pela multidão dos fiéis que caminharam no seguimento da luz, fazendo o bem.
    Nós Te pedimos por todas as nossas assembleias cristãs: que elas dêem sabor à nossa humanidade e sejam a luz que brilha para o nosso mundo.

    4. Oração Eucarística.
    Pode-se escolher a Oração Eucarística II para as Missas da Reconciliação.

    5. Palavra para o caminho.
    "Sal da terra". As nossas vidas têm gosto? E que gosto? O gosto da partilha, do acolhimento, da misericórdia, da caridade, como nos convida Isaías? Têm o sabor de Cristo ressuscitado? Se sim, as nossas vidas terão gosto para nós mesmos e para os outros... tornar-se-ão "Luz diante dos homens". Que assim seja em mais uma semana!

    6. Semana do Consagrado.
    Termina neste domingo a celebração da II Semana do Consagrado, tempo para rezar, reflectir e deixar-se interpelar por esta vocação a que muitos são chamados. A Semana incluiu a Festa do Apresentação do Senhor, a 2 de Fevereiro, dia em que, por decisão de João Paulo II desde 1997, se celebra o Dia do Consagrado. Quem quiser continuar a viver os dinamismos desta Semana, que são de sempre e para sempre, pode utilizar os subsídios para oração e reflexão que se encontram na net (www.cirp.pt).

     

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

  • S. Paulo Miki e Companheiros

    Categoria: Santoral S. Paulo Miki e Companheiros


    6 de Fevereiro, 2023

    Paulo Miki, jesuíta japonês, é um dos 26 mártires que, a 5 de Fevereiro de 1597, morreram crucificados na colina de Tateyama - depois chamada «colina santa» - junto de Nagasaki. A evangelização do Japão, iniciada por S. Francisco Xavier (1549-1551), tinha dado os seus grupos e a comunidade cristã atingia, em 1587, os 250.000 membros. O imperador, que inicialmente tinha favorecido os missionários, decretou a expulsão dos jesuítas e mandou prender 6 franciscanos espanhóis e três jesuítas japoneses. Foi um tempo de dura repressão.

    Paulo Miki era filho de um oficial. Foi educado num colégio jesuíta e, em 1580, entrou na Companhia de Jesus. Tornou-se muito conhecido pela qualidade da sua vida e pela sua capacidade de evangelizar. Ainda não era sacerdote quando foi martirizado com outros 25 cristãos: 6 missionários franciscanos espanhóis, um escolástico e um irmão, jesuítas japoneses, e 17 leigos também japoneses. Foram canonizados por Pio IX, em 1862.

    Lectio

    Primeira leitura: Gálatas, 2, 19s.

    Irmãos, eu pela Lei morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo.20Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim.

    A forte experiência a que Paulo faz alusão neste texto, está inserida na vida da comunidade da Galácia, que, se por um lado vive em grande fervor, por outro é provada pelos irmãos que julgam necessário continuar a observar a lei de Moisés, com tudo o que ela implica, também a circuncisão (cf. Gal 1, 2 e Act 15, 1).
    É na provação que os discípulos descobrem a verdadeira origem da salvação. Em consequência, chegam a uma relação viva com o Senhor Jesus, a uma maior consciência da sua identidade, aprendem a reconhecer a acção do Espírito no desenvolvimento da Igreja e descobrem o seu lugar na sociedade. Trata-se de fazer, mais uma vez, uma opção por Cristo e pelo único evangelho, fundamentando a própria vida, não em normas e rituais, como acontecia entre os judeus, mas em Cristo e em Cristo Crucificado. Paulo não quer propor aos Gálatas uma doutrina a discutir, mas levá-los a reflectir, narrando a sua experiência (1, 10-2,21), na «verdade do evangelho» (2, 14), a reconhecer que a justificação vem da fé e não das obras da lei, a encontrar-se com Cristo crucificado, a viver a vida em liberdade, guiados pelo Espírito.
    Paulo «sabe» quem é o seu Senhor! «Estou crucificado com Cristo» (2, 20): é o nascimento da vida nova e é a plena identificação com Jesus. A vida desenrola-se na comunhão profunda, única e misteriosa, com Cristo, que o amou e deu a vida por ele.

    Evangelho: Mateus, 28, 16-20

    Naquele tempo, os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. 17Quando o viram, adoraram-no; alguns, no entanto, ainda duvidavam.18Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes:«Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. 19Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»

    Jesus convoca a comunidade dos discípulos para a revelação definitiva. O lugar é significativo: a Galileia, um Monte. Foi na Galileia que Jesus anunciou, pela primeira vez, a vinda do Reino (4, 17); foi sobre um monte que Jesus foi tentado pelo Demónio que Lhe oferecia o domínio sobre os reinos do mundo (4, 8-10); foi sobre um monte que Jesus proclamou as Bem-aventuranças (5, 1ss.); foi sobre um monte que aconteceu a Transfiguração (7, 1). Agora, sobre um monte, o Ressuscitado manifesta-se aos seus e revela-lhes que o Pai Lhe deu todo o poder «no Céu e na Terra» (v. 17).
    Jesus confia aos Apóstolos a missão, que é a missão universal da Igreja. Promete-lhes a sua presença perene: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (v. 20). A senhoria universal do Ressuscitado é a fonte donde brota a missão universal da Igreja: «ir e ensinar todos os povos», «fazer discípulos todos os povos». Mas o Senhor não deixa a Igreja só nesta missão longa e difícil. Ele está com eles como guia, apoio, purificação, luz. Está com eles para apoiar a sua obediência ao Pai e o seu amor activo para com todos.

    Meditatio

    A leitura da Carta aos Gálatas, na memória dos Mártires do Japão, leva-nos a confrontar-nos, mais uma vez, com o «evangelho de Deus» (Rm 1, 1), convidando-nos a renovar a nossa opção por Cristo em todas as situações da nossa vida: na alegria, no sofrimento, no êxito, no fracasso... «a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gal 2, 20). O testemunho dos Mártires Japoneses e das suas comunidades cristãs é Palavra e conforto para nós, os crentes, e é anúncio e luz transformadora para a humanidade. A vida nasce da vida que se gasta, que se faz dom. Nos fundamentos da Igreja está o sangue e a fidelidade, isto é, o amor. A Igreja nasce do ágapedivino e vive dele. O ágape é o princípio vital da sua existência e da sua acção, que o irradia e comunica.
    O evangelho faz brotar a gratidão e o louvor, porque leva a tocar com mão a realização do mandato confiado a por Cristo ressuscitado aos seus. A Igreja contempla-O nas terras do Japão, onde o Espírito abriu corações e mentes e agregou novos membros ao novo povo. Todos, com efeito, «são admitidos à mesma herança, membros do mesmo Corpo e participantes da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho». É com este coração apaixonado que também nós queremos ver o homem e a sociedade de hoje. Abertos a todos, dados a todos.
    As comunidades cristãs envolvem o mundo no amor de Cristo crucificado, atestam o senhorio de Cristo, a universalidade do mandato e do amor do Pai, e são, por sua vez, seu ícone entre os homens porque são membros do seu corpo, animados pelo mesmo Espírito.

    Oratio

    Pai santo, nós Te bendizemos e damos graças porque és o autor e dador de todos os bens. Hoje, queremos particularmente agradecer-Te pelo testemunho dos nossos irmãos mártires. À imitação de Cristo, teu Filho, derramaram o seu sangue pela confissão do teu nome. A sua vida é conforto, apoio e luz para nós. Neles manifestas as maravilhas do teu poder. Neles tiras força da fraqueza humana e fazes da fragilidade testemunho da tua grandeza.
    O nosso espírito emudece de espanto na contemplação destes mártires crucificados como o teu Filho e por causa d´Ele. Por sua intercessão, queremos pedir-Te força e coragem para prosseguirmos a nossa peregrinação terrena na fidelidade ao teu amor, mesmo quando tivermos de participar na paixão do teu Filho Jesus. Infunde em nós a sabedoria da cruz e ajuda-nos para aderirmos totalmente a Cristo e com Ele cooperarmos na redenção do mundo. Amen.

    Contemplatio

    Esperando a glória dos céus, os perseguidos experimentam já uma alegria íntima sobre a terra. É uma recompensa da graça divina. «Vêem o fruto do que as suas almas sofreram, diz-nos o profeta, e são assim saciados» (Is 53, 2). É a alegria íntima do apostolado e o triunfo do sofrimento e do sacrifício: «O meu servo é justo e pelo ensino da sua doutrina tornará justo um grande número de homens...Dar-lhe-ei em partilha uma multidão de discípulos; vencerá os seus inimigos e partilhará os seus despojos» (Is 53, 11-12). Isto aplica-se ao Salvador e àqueles que propagam o seu reino. A salvação das almas! Que recompensa consoladora pelas lágrimas derramadas, pelas fadigas suportadas, pelas perseguições sofridas e pelo ódio do mundo!... Seguindo a Jesus, que levou a cruz com alegria, com os apóstolos e os mártires, que louvam a Deus nas perseguições, levemos generosamente a nossa cruz quotidiana. - O Coração de Jesus ama a cruz redentora: o meu coração esperou o opróbrio e a vergonha (Sl 68). Amemos a nossa cruz de cada dia, o trabalho, a fadiga, a humildade, a obscuridade. Suportemos com uma doce paciência as incomodidades da vida comum e as provações que a Providência nos envia. (Leão Dehon, OSP 4, p. 61s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a Palavra do Senhor:
    «Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 20).

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    S. Paulo Miki e Companheiros (6 Fevereiro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Segunda-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Segunda-feira


    6 de Fevereiro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Génesis 1, 1-19

    No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, 2a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. 3Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. 4Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. 5Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia. 6Deus disse: «Haja um firmamento entre as águas, para as manter separadas umas das outras.» E assim aconteceu. 7Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento das que estavam por cima do firmamento. 8Deus chamou céus ao firmamento. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o segundo dia. 9Deus disse: «Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus, num único lugar, a fim de aparecer a terra seca.» E assim aconteceu. 10Deus chamou terra à parte sólida, e mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom. 11Deus disse: «Que a terra produza verdura, erva com semente, árvores frutíferas que dêem fruto sobre a terra, segundo as suas espécies, e contendo semente.» E assim aconteceu. 12A terra produziu verdura, erva com semente, segundo a sua espécie, e árvores de fruto, segundo as suas espécies, com a respectiva semente. Deus viu que isto era bom. 13Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o terceiro dia.
    14Deus disse: «Haja luzeiros no firmamento dos céus, para separar o dia da noite e servirem de sinais, determinando as estações, os dias e os anos; 15servirão também de luzeiros no firmamento dos céus, para iluminarem a Terra.» E assim aconteceu. 16Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite; fez também as estrelas. 17Deus colocou-os no firmamento dos céus para iluminarem a Terra, 18para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom. 19Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quarto dia.

    Os relatos da criação descrevem acções divinas que se situam, não na história, mas num "princípio" que ninguém pode conhecer. Daí o uso da linguagem dos "mitos". De facto, ninguém assistiu à criação do mundo para no-la poder narrar: «Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra?» - pergunta Deus a Job (Jb 38, 4). Portanto, o carácter destes relatos não é científico, embora o autor se sirva da noção experimental do mundo corrente no seu tempo; nem é histórico, embora as apresente em movimento e num processo análogo ao da história. Estas afirmações são teológicas: falam de Deus enquanto revelam acção e desígnio no mundo, e enquanto este encontra a plenitude do seu ser na referência a Deus. São teologia de linguagem medida e refinada, e são também mensagem para determinados destinatários, como os pagãos que adoravam o Sol, a Lua e outras criaturas.
    No primeiro relato, o autor sagrado refere que Deus tudo criou pela sua palavra e baseia a estrutura da sua narrativa nos sete dias da semana, com os seis dias de trabalho e mais um de repouso, o «sétimo dia» para o qual converge toda a acção semanal, que nele encontra plena realização. Esta estrutura é propositadamente usada, tanto mais que as acções de Deus são mais de sete: a luz, a abóbada celeste, a terra enxuta, a vegetação, os luzeiros, os peixes, as aves, o gado, os répteis, o homem (macho e fêmea). O relato de Gn 1 quer dizer-nos que a criação foi organizada em vista de um fim muito concreto que se resume no sábado, que é dia de repouso para o homem e o dia de louvor para Deus.
    Ao terminar esta página lemos: «Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado» (Gn 2, 2). Como pôde concluir a criação se, no mesmo dia cessou toda a actividade? Faltava uma coisa essencial no mundo: o tempo e o espaço para a oração. O sábado vem colmatar essa falta, concluir a obra, porque permite viver, com a periodicidade de uma semana, o tempo todo de Deus criador e salvador, e celebrar de antemão a criação terminada. É uma imagem da meta posta à vista, para iluminar o caminho e assegurar que por ele se chega à realização total e ao repouso de Deus.

    Evangelho: Marcos 6, 53-56

    Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos fizeram a travessia do lago e vieram para a terra de Genesaré, onde aportaram. 54Assim que saíram do barco, reconheceram-no. 55Acorreram de toda aquela região e começaram a levar os doentes nos catres para o lugar onde sabiam que Ele se encontrava. 56Nas aldeias, cidades ou campos, onde quer que entrasse, colocavam os doentes nas praças e rogavam-lhe que os deixasse tocar pelo menos as franjas das suas vestes. E quantos o tocavam ficavam curados.

    Jesus acaba de atravessar o lago de Genesaré, unindo a margem leste, onde habitam os pagãos, com a margem oeste, onde habitam os hebreus. A descrição de Marcos lembra-nos as promessas messiânicas: «Acorrerão ao monte do Senhor todas as gentes, virão muitos povos e dirão... Ele nos ensinará os seus caminhos» (cf. Is 2, 2-3); «Virão povos e habitantes de grandes cidades. E os habitantes de uma cidade irão para outra, dizendo: 'Vamos implorar a face do Senhor!» (Zc 8, 21). Todos os que se reconhecem carecidos de salvação dirigem-se a Jesus. Diante dele são expostas todas as misérias humanas. As pessoas não se deixam dominar pela vergonha, mas agem com confiança: basta que os Senhor lhes toque apenas com «as franjas das suas vestes». Assim se cumpre a palavra do profeta: «Assim fala o Senhor do universo: Naqueles dias, dez homens de todas as línguas das nações tomarão um judeu pela dobra do seu manto e dirão: 'Nós queremos ir convosco, porque soubemos que Deus está convosco'» (Zc 8, 23). Não precisamos de nos esforçar para demonstrar que, no Evangelho, se tratava sempre de verdadeiros milagres, e não de casos idênticos àqueles de que fala hoje a parapsicologia. Uma correcta cristologia não exige que Jesus fosse um super-homem. Marcos não usa métodos racionalistas para demonstrar a divindade de Jesus. Aliás, para ele, a fé é um dom gratuito de Deus que geralmente precede os «milagres». O interessante é que as pessoas perceberam que a mensagem do Evangelho não era algo de abstracto de puramente filosófico, mas que implicava a melhoria da sua situação. Se, intuindo que Deus estava com Jesus, acorriam a Ele, depois de estarem com Ele, partiam gritando: Deus está connosco e a nossa favor... em Jesus.

    Meditatio

    As páginas do Génesis, que nos falam de Deus Criador, suscitam em nós sentimentos de admiração e de grandeza. É pela sua palavra que Deus cria o mundo. Dá uma ordem, e tudo acontece: «Deus disse: «Faça-se», e «assim se fez
    ». E não falta uma avaliação da obra feita: «E Deus viu que isto era bom» (cf. Gn 1, 25). Deus aprecia as obrs que realiza. Compraz-se nelas.
    Sabemos que a Bíblia não pretende explicar cientificamente a criação do mundo. Os relatos do Génesis são uma história religiosa que fala de todas as criaturas, que afirma que todas têm origem em Deus e na sua palavra criadora. O escritor bíblico está claramente cheio de admiração pelas obras de Deus. A nossa admiração, a milénios de distância, há-de ser ainda maior, porque hoje, graças à investigação científica, compreendemos muito melhor a grandeza do universo. O autor bíblico não conhecia a distância da Terra à Lua, nem as quase inimagináveis distâncias medidas em anos luz entre os astros. Continuam a ser descobertas estrelas, vias lácteas, galácias... Nós, agora, temos conhecimento de tudo isso, que não é suficiente, mas é importante, como revelação de Deus. Deus revela-se na criação. É bom e útil para nós deter-nos a contemplar a grandeza e as maravilhas de Deus nas suas obras pequenas e grandes. Os santos comoviam-se profundamente diante da grandeza do universo, mas também diante da simplicidade e da beleza de uma pequena flor. Em tudo descobriam a presença da sabedoria, do poder, do amor de Deus. «Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia», convida-nos o salmo (2 Cr 7, 3).
    O cristão cultiva, diante da criação, um olhar de grande optimismo e de respeito. Optimsmo porque, apesar do mal que há no mundo, o conjunto das obras de Deus é bom; de respeito, porque, se tudo foi feito para o homem, ele deve usá-lo na medida das suas reais necessidades, sem destruir nem desperdiçar o que quer que seja.
    O encontro com Deus feito homem, com Jesus, possiblita-nos uma cura que nos permite ver a verdade da criação, e a nossa própria verdade.

    Oratio

    Obrigado, Senhor, pela obra maravilhosa da criação. Louvado sejas por todas as tuas criaturas: o Sol, a Lua, as estrelas, o ar, as águas, o fogo e a mãe Terra, com tudo o que a enche, nos sustenta e governa.Obrigado por teres feito o homem como obra-prima da criação. Que ele saiba usá-la com respeito, com amor, com gratidão. Que jamais se limite a perguntar: «Para que serve?»; «Quanto rende?». Mas que tenha consciência de que, o que existe na Terra, é para os que vivem hoje, e hão-de viver no futuro. Amen.

    Contemplatio

    Chegou o momento de imaginarmos as piedosas conversas de Jesus e de seus pais. Regressavam os três a Nazaré, tão felizes por estarem de novo reunidos. «Desceu com eles», diz-nos S. Lucas, como para nos dizer: meditai sobre as suas conversas. Com que é que Jesus podia entreter-se com os seus pais, senão com a sua missão messiânica e com todos os desígnios de misericórdia que enchiam o seu Coração. Aí conduzia docemente o seu pensamento: «Mãe, dizia, os homens passam mal os dias da sua peregrinação na terra. Deixam-se absorver pelo cuidado dos interesses temporais. E, no entanto, os milagres da criação estão por toda a parte semeados sobre os seus caminhos, mas não se dignam olhá-los. Não consideram quem é que fez crescer e reverdejar esta árvore, quem, com tantos matizes, coloriu este bando alado de graciosas aves, nem quem o alimentou sem que ele se inquiete. Certamente, estes pássaros folgazões não semeiam nem recolhem. - Contemplai, ó minha mãe, ó meu lírio, a vossa irmã, aquela flor ali, branca como a neve. Na verdade, nem a esposa de um rei, nem Salomão mesmo na sua glória foram adornados tão magnificamente. E no entanto não passa de uma flor. (Leão Dehon, OSP3, p. 162s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor» (Sl 136, 57).

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    Subsídio Litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj

  • As cinco Chagas do Senhor

    Categoria: Santoral As cinco Chagas do Senhor


    7 de Fevereiro, 2023

    O culto das Cinco Chagas do Senhor, isto é, das feridas que recebeu na cruz e manifestou aos Apóstolos depois da Ressurreição, foi impulsionado por S. Bernardo, e encontrou sentida e profunda adesão no povo português, desde os começos da nacionalidade. Luís de Camões, nos Lusíadas, faz eco dessa devoção (I, 7). Prestando culto às Chagas do Redentor, é para Jesus Cristo que se dirige a nossa adoração, para quem nos amou até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8). A contemplação das Chagas do Senhor deu particular atenção ao Lado aberto, conduzindo os místicos medievais e posteriores à contemplação do Coração trespassado, a mais viva expressão do seu amor. Essa contemplação move-nos espontaneamente à correspondência, "amor com amor se paga".

    Lectio

    Primeira leitura: Isaías 53, 1-10

    Quem acreditou no nosso anúncio?A quem foi revelado o braço do Senhor? 2O servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente,  3desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado.  4Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado. 5Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas.  6Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes.7Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador. 8Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido.  9Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude. 10Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele.

    O quarto cântico do Servo de Javé é um dos momentos mais altos da revelação do Antigo Testamento. Nele encontramos uma interpretação da história de Israel como expiação vicária e redentora do resto em favor de toda a comunidade judaica e de todos os povos da terra. Tudo isto se realiza plenamente em Cristo, membro eminente da comunidade dos que foram salvos, dos Pobres de Israel, do Resto, dos Fiéis. Os evangelistas, inspirados por Deus, leram os acontecimentos da vida de Jesus de Nazaré à luz deste misterioso Servo de que fala o profeta. Jesus é o Servo fiel e sofredor, o "homem das dores" que nos salvou. As suas Chagas são o testemunho mais eloquente do amor, com que realizou a sua intervenção em favor do povo de Deus.

    Segunda leitura: João 19, 28-37

    Naquele tempo, sabendo Jesus que tudo se consumara, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: «Tenho sede!» 29Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca. 30Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.31Como era o dia da Preparação da Páscoa, para evitar que no sábado ficassem os corpos na cruz, porque aquele sábado era um dia muito solene, os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. 32Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e também ao outro que tinha sido crucificado juntamente. 33Mas, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. 34Porém, um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água. 35Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também. 36É que isto aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: Não se lhe quebrará nenhum osso. 37E também outro passo da Escritura diz: Hão-de olhar para aquele que trespassaram.

    Depois de tudo o que aconteceu na paixão, a sede de Jesus é completamente natural. Mas João na se limita a esse fato. Para ele, a sede de Jesus significa a sua intensa tendência para Deus. O Sl 63, 1 ajuda-nos a compreender a sede de Jesus crucificado: "Ó Deus! Tu és o meu Deus! Anseio por ti! A minha alma tem sede de ti!". O clamor de Jesus era uma oração. Para João, Jesus recitava o salmo 63.
    Jesus morre como verdadeiro cordeiro pascal. É por isso que o evangelista fixa a sua morte no dia e na hora em que, no templo, eram sacrificados os cordeiros que, no dia seguinte, eram comidos na ceia pascal.
    Do seu Lado aberto "saiu sangue e água". Isto é possível fisiologicamente. Mas, para João, mais uma vez, o que interessa é o símbolo do acontecimento: do Lado de Cristo, morto na cruz, brotam os sacramentos da Igreja: a Eucaristia e o Batismo.
    Os homens "hão-de olhar para Aquele que trespassaram", e aqueles que neste olhar de fé, se converterem receberão a água misteriosa do Espírito de Deus. Com o seu sacrifício, o Cordeiro Pascal libertou o seu Povo do pecado. As suas Chagas não são sinais de derrota, mas de triunfo.

    Meditatio

    Nas Chagas do Senhor, particularmente na do seu Lado aberto, contemplamos o caminho do amor de Deus até nós e o nosso caminho de amor até Ele. S. Agostinho realça bem este caminho nos seus discursos: "Cristo é a porta. Esta porta foi aberta para ti quando o Seu Lado foi aberto pela lança. Recorda-te do que saiu e escolhe por onde entrar". Percorrendo este caminho de amor, chegamos à devoção ao Coração de Jesus. Foi este o caminho de Santa Margarida Maria. Desde pequena, teve uma afetuosa devoção à Paixão de Cristo e às cinco Chagas, atraindo particularmente a sua atenção a chaga do Lado. Finalmente, a convite de Jesus, fez a descoberta do Coração, reconhecido como símbolo da Pessoa amante do Redentor. Foi este, também, o caminho "místico" do Pe. Dehon. No "Ano com o Coração de Jesus", escreve: "O profeta não disse: "Verão Aquele que trespassaram", mas "Voltarão o olhar para dentro d'Aquele que trespassaram" ("Videbunt in quem transfixerunt") (Jo 19, 37 - Vulgata). S. João aplica estas palavras à abertura do Lado de Jesus, ao próprio Coração de Jesus que pôde entrever através da chaga do lado aberto...". Para além de todas as questões críticas de tal leitura e interpretação bíblica, a verdade é que "ver em alguém" e muito mais do que "ver alguém". Uma coisa é conhecer uma pessoa só externamente, outra é conhecê-la na sua interioridade e intimidade. O Pe. Dehon fala deste olhar íntimo também na Vida de amor... E põe na boca de Jesus as seguintes palavras: "Eu sou, de verdade, nos mistérios da Minha Paixão, um livro escrito por dentro e por fora (cf. Ap 5, 1) e o que aí está escrito é o Meu amor... Não vos contenteis em ler e admirar esta divina escritura somente do lado de fora, mas penetrai até ao Meu Coração e vereis". E, nas "Coroas de amor"... "Leiamos e voltemos a ler este livro de amor do Coração de Jesus, devoremos este livro de amor que é o próprio amor e, quando ardermos de amor, a nossa oblação será facilmente generosa, pronta, sem cedências". Deste modo, o Pe. Dehon faz eco a S. João: "Hão-de olhar para Aquele que trespassaram" (19, 37); isto não é só uma profecia, é uma exortação, um convite, porque do mistério do Lado aberto (e do Coração Trespassado do Salvador), "nasce o homem de coração novo" (Cst 2-3). "Com S. João, vemos no Lado aberto do Crucificado o sinal do amor que, na doação total de Si mesmo, recria o homem segundo Deus" (Cst 21). Assim contemplamos o Trespassado, no ato supremo da Redenção, não como os israelitas contemplavam a serpente de bronze, elevada no deserto, para curar as mordeduras das serpentes, mas penetramos na realidade suprema do Seu amor, no Seu Coração trespassado, e acolhemos o seu apelo à oblação, à reparação, à imolação, à consolação, àquele "culto de amor e de reparação que o Seu Coração deseja", que nos torna criaturas de coração novo.

    Oratio

    Rezemos com o P. Dehon: "Meu Senhor e meu Deus! Quero tirar nas vossas chagas a bebida da salvação. Sede condescendente comigo como foste com S. Tomé. Emprestai-me as vossas mãos e os vossos pés para que aí cole os meus lábios. Tenho tanta necessidade de forças. Ousarei mesmo aproximar-me do vosso Coração para daí tirar o arrependimento e o fervor. Perdoai-me!" (OSP 2, p. 296).

    Contemplatio
    Jesus aparece no meio dos apóstolos, na sua majestade e na sua bondade. Intervém para curar Tomé das suas dúvidas. Pax vobis! A paz esteja convosco, diz. É a saudação habitual de Jesus aos seus amigos, saudação afetuosa e verdadeiramente eficaz. Tomé com dificuldade ousa acreditar nos seus olhos. Está perturbado. É sobretudo para ele que Jesus aparece hoje. Vem cumprir um milagre moral, a mudança das disposições de Tomé, e é pelas suas cinco chagas que Jesus quer fazer este milagre. Dirige-se, de seguida, a Tomé: «Vem, diz-lhe, coloca o teu dedo aqui, vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado», neste lado aberto pela lança e onde se sente bater o mais amável dos corações, - «e não sejas incrédulo, mas fiel». Os apóstolos observam e aguardam. Tomé vai levar mais longe a incredulidade e tocar as chagas do Salvador? Não, coloca-se de joelhos, e exclama: «Meu Senhor e meu Deus!». Nosso Senhor tinha respondido diretamente às palavras de dúvida que tinha formulado. Nada o podia impressionar mais. Aqui está o começo da devoção às cinco chagas, que preludia à do Sagrado Coração. Nosso Senhor tinha querido mostrar-nos a eficácia das suas chagas. Têm um enorme papel na mística cristã. São as fontes misteriosas pelas quais correu o sangue redentor. Estavam figuradas nas fontes do paraíso terrestre, que levavam a toda a parte a fecundidade e a alegria. Foram profetizadas por Isaías: «Bebereis nas fontes do Salvador». Aparecem no Apocalipse sob a forma das fontes que correm sob os pés do Cordeiro divino. Foram reproduzidas nos membros benditos de alguns santos, como S. Francisco de Assis e santa Catarina de Sena. São o objeto de uma das devoções tradicionais da Igreja. (L. Dehon, OSP 3, p. 295s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28).

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    As cinco Chagas do Senhor (07 Fevereiro)

    Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Terça-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Terça-feira


    7 de Fevereiro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Génesis 1, 20-2, 4a

    Deus disse: «Que as águas sejam povoadas de inúmeros seres vivos, e que por cima da terra voem aves, sob o firmamento dos céus.» 21Deus criou, segundo as suas espécies, os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas, e todas as aves aladas, segundo as suas espécies. E Deus viu que isto era bom. 22Deus abençoou-os, dizendo: «Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar e multipliquem-se as aves sobre a terra.» 23Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quinto dia. 24Deus disse: «Que a terra produza seres vivos, segundo as suas espécies, animais domésticos, répteis e animais ferozes, segundo as suas espécies.» E assim aconteceu. 25Deus fez os animais ferozes, segundo as suas espécies, os animais domésticos, segundo as suas espécies, e todos os répteis da terra, segundo as suas espécies. E Deus viu que isto era bom. 26Depois, Deus disse: «Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.» 27Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. 28Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» 29Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. 30E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus e a todos os seres vivos que existem e se movem sobre a terra, igualmente dou por alimento toda a erva verde que a terra produzir.» E assim aconteceu. 31Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o sexto dia. 1Foram assim terminados os céus e a Terra e todo o seu conjunto. 2Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado. 3Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, visto ter sido nesse dia que Ele repousou de toda a obra da criação. 4Esta é a origem da criação dos céus e da Terra.

    O homem macho e fêmea, homem-mulher, foi criado «à imagem de Deus» (v. 26). Mas, o homem «imagem de Deus», não é qualquer um. À luz da cultura do tempo em que foi escrito o nosso texto, é homem «à imagem de Deus» aquele que está acima de todos os outros, isto é, o rei. A página de Gn 1 foi escrita na Babilónia, onde encontramos um texto bastante eloquente: «A sombra de Deus é o Homem e os homens são sombra do Homem; o Homem é o rei, igual à imagem da divindade». O autor sagrado, é certo, estendeu a todos os homens e mulheres a prerrogativa serem imagem de Deus. Com efeito, a ordem de 'dominar sobre a terra» e sobre os outros seres vivos é dada indistintamente a todos os homens. Mas, insistimos na pergunta: qual é o homem que realiza plenamente esta missão real no interior da criação? Os Padres orientais tentaram responder a esta questão introduzindo uma distinção entre «imagem» e «semelhança». Todos os homens levam em si a imagem divina. Mas, para reinar verdadeiramente, é preciso conseguir também uma certa semelhança com o verdadeiro rei do mundo, que é o Filho, perfeita «imagem de Deus invisível» (Cl 1, 15), assumir as suas opções, entrar nos seus pensamentos. Esta perspectiva patrística, com fundamento bíblico, corresponde à afirmação paulina: «E assim como trouxemos a imagem do homem da terra, assim levaremos também a imagem do homem celeste» (1 Cor 15, 49).

    Evangelho: Marcos 7, 1-13

    Naquele tempo, reuniram-se à volta de Jesus os fariseus e alguns doutores da Lei vindos de Jerusalém, 2e viram que vários dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar. 3É que os fariseus e todos os judeus em geral não comem sem ter lavado e esfregado bem as mãos, conforme a tradição dos antigos; 4ao voltar da praça pública, não comem sem se lavar; e há muitos outros costumes que seguem, por tradição: lavagem das taças, dos jarros e das vasilhas de cobre. 5Perguntaram-lhe, pois, os fariseus e doutores da Lei: «Porque é que os teus discípulos não obedecem à tradição dos antigos e tomam alimento com as mãos impuras?» 6Respondeu: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu:Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7Vazio é o culto que me prestam e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos. 8Descurais o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens.» 9E acrescentou: «Anulais a vosso bel-prazer o mandamento de Deus, para observardes a vossa tradição. 10Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e ainda: Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido de morte. 11Vós, porém, dizeis: "Se alguém afirmar ao pai ou à mãe: 'Declaro Qorban' - isto é, oferta ao Senhor - aquilo que poderias receber de mim...", 12nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, 13anulando a palavra de Deus com a tradição que tendes transmitido. E fazeis muitas outras coisas do mesmo género.»

    O texto que hoje escutamos parece dar-nos a perceber que Marcos escreve para uma comunidade judeo-cristã que procurava ultrapassar certos dados da sua origem. Provavelmente tratava-se de judeo-cristãos de cultura helenista, isto é, de judeus da dispersão, cujas formas e costumes tinham sido influenciados pela cultura grega. Marcos procura mostrar-lhes que a nova relação entre os discípulos e Jesus de Nazaré também implicava uma nova relação entre os eles e as regras estabelecidas pelos homens para o encontro com Deus, nomeadamente no que se refere à pureza ritual: «Porque é que os teus discípulos não obedecem à tradição dos antigos e tomam alimento com as mãos impuras?» (v. 5). Mais do que nas suas palavras, é na sua Pessoa que encontramos a resposta à questão que Lhe é posta. Ao revelar-se como o Filho de Deus, o Mediador entre Deus e os homens, Jesus relativiza as regras e preceitos humanos. Não os anula, mas mostra que são válidos se estiverem relacionados com Ele. Ele é a norma, Ele é a incarnação do mandamento de Deus, a Palavra viva.

    Meditatio

    O livro do Génesis dá-nos uma esplêndida imagem do homem. Criado por Deus, à sua imagem e semelhança, o homem é chamado a dominar a terra, a ser seu senhor, a povoá-la: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra... » (v. 28). Verdadeiramente, o homem é a obra-prima de Deus: «Quase fizeste dele um ser di
    vino; de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos, tudo submeteste a seus pés» (Sl 8, 7-8). À luz da Palavra de Deus, o homem é realmente grande, e há que resistir à tentação de, por qualquer modo, o diminuir. Deus quer o homem grande e glorioso. Deus não é um senhor mesquinho e invejoso. Deus é amor que Se dá, e Se dá com generosidade: «Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança» (v. 26). Deus é amor oblativo, sempre em expansão: dá generosamente e quer dar sempre mais. Tem grandes ambições para o homem, e não quer que ele se perca em ninharias. Como vemos no evangelho, nem sequer agrada a Deus que o homem se diminua numa religião feita de formalismos, de legalismo tacanho, que dá importância ao que o não merece. É certo que Jesus não ab-rogou a Lei nem os Profetas, mas reconduziu-os às suas intenções originárias, àqueles dados escritos que precedem todas as reelaborações da tradição. Ao fazer isso, recorda a hebreus e a cristãos que a prática da Lei e a obediência à Palavra escrita, é imitação de Deus que restabelece no homem a imagem do mesmo Deus, e a plena semelhança com o seu Criador. Em qualquer dos casos, torna-se claro que a honra que o homem dá a Deus consiste essencialmente em viver a sua vocação original: ser «imagem e semelhança» do Criador. É um enorme desafio que nos é posto. Há que optar e vivê-lo com todas as suas consequências.

    Oratio

    Senhor, torna-me cada vez mais consciente da minha vocação humana, de modo que me orgulhe e encha de alegria por causa dela. Faz-me compreender a grandeza com que me criaste e a enorme ambição que tens em meu favor. Obrigado, Senhor! Obrigado! Quem sou eu, para que te lembres de mim? Mas o teu imenso amor fez com que me criasses pouco inferior aos anjos e ambiciones tornar-me maior do que eles, porque participante da tua natureza divina. Obrigado, Senhor! Que eu saiba corresponder ao ter amor e tornar-me alegria para os teus olhos. Amen.

    Contemplatio

    Na criação. Deus tinha principalmente em vista o Coração de Jesus. Deus é amor. Criava o mundo para ser amado. Tinha, portanto, necessariamente como objectivo principal o Coração de Jesus: a fornalha ardente de caridade, o rei e o centro de todos os corações, no qual o Pai colocou todas as suas complacências, o desejado das colinas eternas... Deus criador contempla o Coração de Jesus, tudo o resto é acessório. As outras criaturas serão boas, se reflectirem o Coração de Jesus. Deus cria o céu, a terra, o sol, o oceano, as plantas, os animais, e vê que tudo isso é bom, porque tudo isso é feito sobre um tema único, o Coração de Jesus. O céu e o sol vivificante, isso é uma imitação do Coração de Jesus. Os físicos, diz Macróbio, chamam o sol o coração do mundo; a terra e as suas fontes fecundantes, isso é ainda uma imitação do Coração de Jesus; a planta e a seiva que a anima, aí está a imagem do Coração de Jesus e da sua graça santificante. Deus viu que isso é bom. O Coração de Jesus é o coração de Deus sobre a terra, como o Espírito Santo é o coração de Deus no céu. Também o Coração de Jesus é concebido do Espírito Santo. Ele é a obra do Espírito Santo, é animado pelo Espírito Santo, é como a continuação do Espírito Santo. Jesus tem como que três corações: um coração divino, que é o Espírito Santo, amor infinito do Filho pelo seu Pai; um Coração espiritual, que é a parte superior da sua alma santa e que compreende a sua memória, o seu entendimento e a sua vontade e que é particularmente deificada pela sua união hipostática; um coração corporal, que é igualmente deificado pela união hipostática. Eis o tríplice objecto das complacências do Pai. - Ele ama o coração espiritual e o coração corporal do seu Filho, porque são feitos à imagem de Deus: «Façamos o homem à nossa imagem». Ele ama os homens e todas as criaturas, porque aí encontra a mesma imagem e semelhança. (Leão Dehon, OSP4, p. 514).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança» (Gn 1, 26).

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    Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Quarta-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Quarta-feira


    8 de Fevereiro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Génesis 2, 4b-9, 15-17

    Quando o Senhor Deus fez a Terra e os céus, 5e ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar, 6e da terra brotava uma nascente que regava toda a superfície, 7então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. 8Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. 9O Senhor Deus fez brotar da terra toda a espécie de árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer; a árvore da Vida estava no meio do jardim, assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal. 15O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar. 16E o Senhor Deus deu esta ordem ao homem: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; 17mas não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás.»

    Havia alguma coisa, quando ainda não existia nada? Esta pergunta não é tão ingénua como possa parecer. De facto, não podemos falar das origens do mundo sem ser por paradoxos. O autor de Gn 2 responde assim: havia a terra e o céu, mas não havia o homem para trabalhar a terra. Gn 2 esta centrado na criação do homem, da mulher e dos animais, e não do cosmos, como Gn 1, onde o homem foi criado em vista do serviço litúrgico, do louvor sabático. Gn 1 é um relato "sacerdotal". Em Gn 2, o homem é tirado do pó humedecido, da terra, adamáh, «a avermelhada». Daí o seu nome de Adão. Nascido da terra, para à terra voltar, o homem é destinado ao trabalho agrícola, indispensável para a vida do mundo. É uma perspectiva aparentemente mais «leiga». Mas em hebraico "serviço litúrgico" e «trabalho agrícola» expressam-se com o mesmo termo. Não são duas coisas opostas e inconciliáveis. Para cultivar a terra, o homem é colocado «num jardim», ou «paraíso» como também costumamos dizer. A palavra hebraica gan indica um oásis na estepe (edin). O termo hebraico gan tem um sinónimo pardés, termo com origem na palavra persa pardeiza, que significa propriedade vedada, jardim, pomar. Pardeiza, em grego deu parádeisos, e em latim paradisum, que está na origem do português paraíso. No paraíso, o homem podia dispor de todos os frutos das árvores, excepto do da árvore do «conhecimento do bem e do mal» (v. 17). Porque terá Deus proibido ao homem distinguir o bem do mal? Os exegetas tentam actualmente uma explicação: o bem e o mal são opostos. Com frequência, na linguagem bíblica, usam-se opostos para indicar a totalidade. Assim, por exemplo, «entrar e sair» significa viver. Conhecer o bem e o mal quereria dizer, pouco mais ou menos, conhecer tudo o que é cognoscível. Mas, conhecer tudo é uma prerrogativa divina e não humana. O homem que aspira à omnisciência pretende ocupar o lugar que só a Deus pertence. Daí que lhe seja proibido comer daquela árvore.

    Evangelho: Marcos 7, 14-23

    Naquele tempo, Jesus chamou de novo a multidão e disse-lhes: «Ouvi-me todos e procurai entender. 15Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. 16Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça.» 17Quando, ao deixar a multidão, regressou a casa, os discípulos interrogaram-no acerca da parábola. 18Ele respondeu: «Também vós não compreendeis? Não percebeis que nada do que, de fora, entra no homem o pode tornar impuro, 19porque não penetra no coração mas sim no ventre, e depois é expelido em lugar próprio?» Assim, declarava puros todos os alimentos. 20E disse: «O que sai do homem, isso é que torna o homem impuro. 21Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos, as prostituições, roubos, assassínios, 22adultérios, ambições, perversidade, má fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios. 23Todas estas maldades saem de dentro e tornam o homem impuro.»

    Jesus dirige-se agora ao povo simples e, num segundo momento, apenas aos discípulos. Enfrenta questões legais delicadas para a mentalidade dos judeus piedosos e observantes. Jesus difere dos profetas e dos judeus de cultura helenista. Não se pode distinguir a esfera religiosa, divina, e a vida, como esfera quotidiana, que não pertence a Deus. As coisas do mundo não são «impuras» em si mesmas. São os homens que as podem tornar impuras. A comunidade de Jesus acredita na bondade da criação.
    Podemos distinguir no texto três momentos: o ensinamento de Jesus à multidão (vv. 14-16); a sentença de Jesus (v. 15); o ensinamento aos discípulos (vv. 17-23); a verdadeira impureza, o coração, o catálogo dos vícios. Mas o mais importante é o comportamento dos homens diante das exigências do reino de Deus. A pureza ou a impureza das coisas depende do coração do homem. É a atitude do homem perante elas, é o uso que faz delas que as pode tornar impuras. Não há nada sagrado ou profano, puro ou impuro em si. A criação é «secular»: pode ser profana e pode ser sagrada. A sacralidade e a pureza vêm ao homem e ao mundo, não de modo automático pelo contacto com determinadas coisas, lugares ou pessoas, mas unicamente através do canal do diálogo entre Deus e o homem.

    Meditatio

    Mais uma vez, Jesus fala por enigmas: «Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro» (v. 15). Como qualquer enigma, também este não é de fácil compreensão. Por isso é que Jesus começou por dizer: «Ouvi-me todos e procurai entender» (v. 14).
    Estas palavras podem ser entendidas em sentido físico. Segundo a lei de Moisés, havia impurezas rituais concernentes aos alimentos e ao comer sem ter lavado as mãos. No evangelho de hoje a discussão partiu exactamente do facto dos Apóstolos comerem sem antes lavar as mãos. Mas havia outras impurezas ligadas aos que «sai do homem», tal como perdas de sangue e outras. A mulher do Evangelho, que tinha perdas de sangue, escondia-se para não tocar outras pessoas e torná-las impuras. Quem fosse tocado por ela, teria de lavar-se e aguardar algum tempo antes de poder participar no culto.
    O enigma de Jesus poderia ser entendido no sentido em que Ele dava mais importância ao que sai do homem do que ao que ele come e bebe. Mas não era essa a intenção de Jesus: Ele distinguia o exterior e o interior no sentido do físico e do moral ou espiritual. Queria dizer que as coisas materiais têm menos importância para a pureza religiosa. E isto era uma verdadeira revolução religiosa, uma dessacralização. É certo que,
    para Jesus, todas as coisas têm relação com Deus e devem ser santificadas. Mas não devem ser sacralizadas, não se lhes deve dar uma importância desproporcionada. O alimento, o lavar as mãos, têm importância. Mas não devem ser entendidos como realidades sagradas. Uma coisa é a higiene; outra é a pureza religiosa. Há relação entre a limpeza do corpo e o respeito devido a Deus. Mas não se pode considerá-los tão importantes, que permitam esquecer outros aspectos bem mais importantes, e que não são tão facilmente alcançáveis. Purificar o coração é mais difícil do que lavar as mãos!
    Jesus revela que a pureza religiosa não é exterior, mas interior. É preciso purificar o coração, o nosso íntimo, o nosso «eu profundo», onde realmente se dá o encontro com Deus, mais do que as mãos. Há que purificar as intenções, os desejos, os actos da vontade e da inteligência, pois é deles que nasce tudo o que é mau: «as prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições, perversidade, má fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios. Todas estas maldades saem de dentro e tornam o homem impuro» (v. 21-23).

    Oratio

    Obrigado, Senhor Jesus, pela luz que trouxeste aos teus discípulos, libertando-os da opressão de práticas religiosas vãs, com a efusão do teu Espírito. Continua a derramar sobre nós esse mesmo Espírito: «Manda, Senhor, o teu Espírito, e tudo é criado», pediam os justos do Antigo Testamento, quando rezavam pela primeira criação. «Manda, Senhor, o teu Espírito, e tudo é criado», rezamos nós, agora, pensando na nova criação, a criação do homem novo, à imagem e semelhança de Deus. Amen.

    Contemplatio

    Escutemos o grande apóstolo, Paulo: «Desde que pertencemos a Jesus Cristo, tornamo-nos uma nova criatura: o passado já não existe; tudo é renovado. Ora, tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo pelo Cristo e foi a nós que Ele confiou o ministério da reconciliação. Sim, foi Deus quem reconciliou os homens consigo em Jesus Cristo, não lhes imputando os seus pecados, e foi em nós que Ele colocou a palavra da reconciliação. Nós desempenhamos, portanto, as funções de embaixadores de Cristo, como se Deus mesmo vos exortasse pela nossa boca. Oh! Conjuramo-vos, em nome de Cristo, reconciliai-vos com Deus! Por nosso amor, fez pecado (ou vítima do pecado) aquele que não conhecia o pecado, a fim de que nos tornássemos a justiça (ou os justificados) de Deus» (2Cor 5, 17). Senhor, exercei a vossa misericórdia sobre a minha pobre alma. (Leão Dehon, OSP4, p. 222).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Nada há fora do homem que o possa tornar impuro» (cf. Mc 7, 15).

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    Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Quinta-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Quinta-feira


    9 de Fevereiro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Génesis 2, 18-25

    O Senhor Deus disse: «Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele.» 19Então, o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse. 20O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo, não encontrou auxiliar semelhante a ele. 21Então, o Senhor Deus fez cair sobre o homem um sono profundo; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. 22Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. 23Então, o homem exclamou: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!» 24Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne. 25Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha.

    O homem só, sem companhia nem ajuda, não é homem, nem pode viver como tal. A primeira ajuda vem-lhe dos animais domésticos. O homem adamita é domesticador de animais e cultivador da terra. É o tipo de homem posterior ao neolítico. O homem é superior aos animais, pois é capaz de lhes dar nomes e de lhes destinar um lugar no âmbito dos seus domínios. Mas não é no âmbito do domínio que o homem encontra a ajuda adequada, mas no diálogo com o tu semelhante, não dominado mas igual. O javista situa nesse lugar a mulher, que no caso representa todos os humanos. O sono profundo não permite ao homem assistir ao nascimento do seu semelhante. Encontrá-lo-á já diante de si, como ele, na mesma condição. Só tem que acolhê-lo, aceitá-lo.
    O homem só é uma criatura incompleta. Em Gn 1, depois de ter criado o homem macho e fêmea, Deus considerou que tudo «era muito bom» (Gn 1, 31). Em Gn 2, o homem macho, só, não é bom (cf. Gn 2, 18). A solidão do homem não é boa porque ele não é Deus. Só Deus é grande. A solidão implica grandeza, auto-suficiência. O homem é pequeno, deve crescer e multiplicar-se. Deve percorrer um caminho, não pode permanecer só. Para ter uma história, precisa de um partner. A mulher é «uma auxiliar semelhante a ele» (v. 18.20). Uma tradução mais exacta diria: é um auxiliar contra ele, porque lhe resiste, se lhe opõe, rompe a sua solidão, a sua auto-suficiência. É uma ajuda porque o limita no seu desejo de omnipotência, porque o força a sair do seu isolamento. O autor do Génesis é muito realista ao falar da relação homem-mulher. Essa relação pode tornar-se conflituosa, como veremos em Gn 3, 16. Mas é abençoada porque arranca o homem, e arranca a mulher, da sua solidão. É por isso que o primeiro encontro entre um homem e uma mulher tem sempre algo de fascinante.

    Evangelho: Marcos 7, 24-30

    Naquele tempo, Jesus partindo dali, foi para a região de Tiro e de Sídon. Entrou numa casa e não queria que ninguém o soubesse, mas não pôde passar despercebido, 25porque logo uma mulher que tinha uma filha possessa de um espírito maligno, ouvindo falar dele, veio lançar-se a seus pés. 26Era gentia, siro-fenícia de origem, e pedia-lhe que expulsasse da filha o demónio. 27Ele respondeu: «Deixa que os filhos comam primeiro, pois não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.» 28Mas ela replicou: «Dizes bem, Senhor; mas até os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas dos filhos.» 29Jesus disse: «Em atenção a essa palavra, vai; o demónio saiu de tua filha.» 30Ela voltou para casa e encontrou a menina recostada na cama. O demónio tinha-a deixado.

    Depois de ter curado muitos doentes e discutido com os fariseus em Genesaré, Jesus prossegue a sua viagens por Tiro, Sídon e Decápole, terras pagãs. E também aí realiza milagres: a cura da filha da mulher cananeia, que escutamos hoje, e a do surdo-mudo, que escutaremos amanhã.
    No diálogo com a mulher cananeia emerge a tensão entre o papel proeminente de Israel na história da salvação e o universalismo da mesma salvação. Não só os «filhos», os judeus, mas também os «cães», os pagãos, segundo a metáfora, são chamados à salvação. A única condição é escutar a Boa Nova e acolher Jesus como Senhor: «Dizes bem, Senhor...», exclama a mulher. «Em atenção a essa palavra, - diz-lhe Jesus - vai; o demónio saiu de tua filha» (v. 30). A fé da cananeia dissolveu a tensão e alcançou-lhe o milagre. A filha foi libertada do demónio.
    No diálogo entre Jesus e a mulher aparecem as expressões «pão dos filhos» e «migalhas dos cachorrinhos» (v. 28). É já um anúncio do milagre da multiplicação dos pães, que Marcos narrará pouco depois (cf. Mc 8, 1-10).
    Jesus também continua a rebater, com palavras e acções, o legalismo dos judeus, dando atenção ao mundo e à cultura grega. Não esqueçamos que Marcos escreve para uma comunidade cristã grega.
    Meditatio

    As diferenças entre o homem e a mulher sempre suscitaram diversos sentimentos que podem ir desde a irritação, por se ter necessidade de alguém diferente de nós mesmos, até à tentação de desprezar o que é diferente. O desprezo da mulher pelo homem, a misoginia, bem como o desprezo do homem pela mulher, a misantropia, são tentações tão velhas como a humanidade. No nosso tempo, assistimos a algumas tentativas, no mínimo ridículas, para disfarçar as diferenças entre homem e mulher. A Bíblia já reagiu para demonstrar que as diferenças entre o homem e a mulher têm em vista a sua complementaridade e a vocação ao amor na unidade.
    O relato bíblico insiste na fundamental igualdade e na profunda unidade entre o homem e a mulher. Deus verifica que o homem precisa de um auxiliar e procura-lho. O homem tem que aceitar serenamente a ideia de não ser completo em si mesmo, de precisar de um auxiliar que lhe seja igual. Neste momento que o autor sagrado insere a criação dos animais. O homem não encontra entre eles um que lhe seja semelhante (cf. v 20). Isto quer dizer que a mulher não é um animal. É certo que em muitas civilizações ela foi, e ainda continua a ser tratada como besta de carga. Mas o relato bíblico mostra que os animais são diferentes do homem, estão a outro nível, onde o homem não encontra, nem pode encontrar, o auxiliar de que precisa. Então, Deus intervém para lhe dar a ajuda de que precisa: «Então, o Senhor Deus fez cair sobre o homem um sono profundo; e, enquanto ele dormi
    a, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem» (v. 21-22). É um modo imaginativo de dizer a profunda unidade entre o homem e a mulher. É esta unidade que o homem reconhece quando afirma: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher (em hebraico: ishsha), visto ter sido tirada do homem (em hebraico: ish)!» (v. 23). O homem reconhece que a mulher é o auxiliar de que precisava. "Precisar" é sempre, em certo sentido, ser inferior. A mulher, por sua vez, tem de reconhecer que foi feita para ajudar o homem. Esta é a perspectiva do Antigo Testamento. Com Cristo, algo mudou na relação homem-mulher. S. Paulo afirma que, em Cristo, já não há homem nem mulher, e que a igualdade se tornou muito mais fundamental. Já não há Judeu ou pagão, homem livre ou escravo. Todos são um em Cristo. A unidade em Cristo relativiza qualquer diferença. Noutro passo, o Apóstolo diz que não há homem sem mulher, nem mulher sem homem, no Senhor. A mulher não existe sem o homem. O homem nasce da mulher e tudo isso vem de Deus. Homens e mulheres havemos de estar conscientes de que, a diferença e a complementaridade são necessárias para caminharmos no amor, saindo de nós mesmos e acolhendo o outro. Podemos ser tentados a procurar alguém idêntico a nós, a procurar a nossa imagem noutro. Mas isso pode ser uma forma de narcisismo. Aceitar alguém diferente de si mesmo é sair de si, e dar passos no amor, que é sempre saída de si mesmo. Homens e mulheres, precisamos de ajuda para caminhar no amor.
    Os Padres da Igreja viram no relato da criação da mulher, a partir de uma costela de Adão, o nascimento da Igreja do Lado de Cristo, morto na Cruz. As nossas Constituições fazem eco dessa perspectiva, citando um texto do Pe. Dehon: «Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja (Cst 3; cf. Études sur le Sacré-Coeur, I, p. 114)».

    Oratio

    Senhor, Tu afirmaste, referindo-te ao homem: «Vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele» (Gn 2, 18). Assim querias ensinar que nem tudo depende exclusivamente dos homens, que as mulheres não são desprezíveis e que a discriminação entre homens e mulheres, que prevalece em muitas mentes e em numerosas sociedades, não tem qualquer sentido. Quiseste evitar que o homem assumisse atitudes de presunção e de superioridade em relação à mulher por ter sido criado antes dela e por ela ter sido formada por meio dele. Quiseste mostrar que as coisas do mundo precisam da mulher não menos que do homem. Ajuda, pois, todos os homens a vencerem a auto-suficiência e o orgulho masculino, que os impedem de olhar a mulher como igual em dignidade, e como companheira e ajuda no caminho para Ti. Amen.

    Contemplatio

    S. Paulo teve a missão de nos explicar o sentido místico do matrimónio e a superioridade da virgindade. «O matrimónio, diz, é um grande sacramento ou um grande mistério em Cristo e na Igreja» (Ef 5, 13). O matrimónio foi elevado a esta dignidade, de representar, de figurar a união de Cristo com a Igreja, e participa nas graças que representa. O esposo é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja. Entre eles deve reinar uma união de afecto, de confiança e de respeito. A mulher honra Cristo no seu esposo. É-lhe submissa em tudo o que é segundo Deus. Honra nele o chefe e o protector da família. O esposo ama a sua esposa como Cristo ama a Igreja. Dedica-se por ela. Deve ajudá-la em tudo e sobretudo na sua santificação. O matrimónio é, portanto, a nobre imagem da união de Cristo e da Igreja. (Leão Dehon, OSP4, p. 278).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Aquele que tem uma mulher possui o primeiro dos bens,
    uma ajuda condizente e uma coluna de apoio» (Sir 36, 24)».

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    Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj

  • Tempo Comum – Anos Ímpares – V Semana – Sexta-feira

    Categoria: Semanal Tempo Comum – Anos Ímpares – V Semana – Sexta-feira


    10 de Fevereiro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Génesis 3, 1-8

    A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» 2A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; 3mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis.’ 4A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereis; 5porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal’.» 6Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. 7Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, coseram folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta dos rins.

    Segundo o javista, o homem, desde as suas origens, aspira ao paraíso. Mas também se deixa envolver pelo mal, como verificamos neste relato, onde aparece uma personagem astuta e inquietante: a serpente. Na tradição sucessiva, tanto hebraica como cristã, a serpente do Génesis tornar-se-á figura do diabo, do maligno. Mas no antigo Oriente, a serpente era, sobretudo, símbolo da fertilidade sexual e da saúde. Anda hoje, entre nós, a serpente é símbolo da farmacêutica. A Bíblia desmitiza completamente a serpente ao apresentá-la como «animal selvagem», semelhante aos outros. Na verdade, a serpente não pode fazer o bem nem o mal. Só o homem e a mulher os podem fazer. Portanto, a serpente no «paraíso» não explica a origem do mal. É mais um recurso literário para introduzir a dinâmica sedutora que está na origem do pecado humano. É o homem e é a mulher que pecam. O animal que fala, seja a serpente, seja a burra de Balaão, é um recurso narrativo para descrever o que se passa na mente dos protagonistas da história. O homem e a mulher dialogam no íntimo de si mesmos sobre o teor da proibição divina e sobre a sua verdadeira motivação (vv. 2s.). Com grande perspicácia psicológica, o autor bíblico diz-nos que o pecado, antes de ser um gesto, um acto, acontece na consciência, por meio de uma dúvida que nela se insinua acerca da bondade do Criador. Não se trata, portanto, de explicar a origem do mal no mundo, mas a origem e a dinâmica do pecado humano, como um processo subtil e progressivo de desobediência à palavra de Deus. É verdade que, neste processo, podem intervir factores externos e causas sobre-humanas. Mas o autor quer acentuar, sobretudo, a responsabilidade do homem-mulher. Falamos de “pecado original” porque ele nos descreve a origem de todo o pecado.

    Evangelho: Marcos 7, 31-37

    Naquele tempo, Jesus deixou de novo a região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. 32Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele. 33Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua. 34Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.» 35Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava correctamente. 36Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam. 37No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»

    Desta vez, Jesus cura um surdo tartamudo, cuja capacidade intelectual estava condicionada pela sua deficiência. Por isso, ao tocar-lhe os órgãos doentes com saliva, Jesus não quer fazer magia à maneira dos taumaturgos da época, mas apenas dirigir-se à consciência daquele que ia ser objecto do prodígio. Noutros casos bastavam as palavras. Aqui, tratando-se de um surdo tartamudo, são precisos gestos. E Jesus fá-los.
    É o segundo milagre que Jesus faz em território pagão e este texto, exclusivo de Marcos, pretende continuar a descrição da actividade missionária da primeira comunidade cristã e assinalar a abertura dos pagãos à fé em Jesus Cristo.
    O assombro dos que presenciam os milagres de Jesus lembra-nos Gn 1: «E Deus viu que tudo era bom», mas também Isaías: «O mudo gritará de alegria» (Is 35, 6). Em Jesus realizam-se as promessas de salvação. Não se trata, pois, de triunfalismo político-messiânico, mas de um reconhecimento gozoso da eficácia desalienante da presença do reino de Deus.

    Meditatio

    O desconhecimento de Deus está na base da tentação. A serpente tentadora sabe disso e, portanto, começa por insinuar uma falsa ideia de Deus: Deus é ciumento, é inimigo da liberdade, é inimigo do conhecimento. Numa palavra: Deus limita o nosso bem o mais que pode. A verdade é bem outra: Deus criou o homem à sua imagem e quer que se assemelhe o mais possível a Ele, defendendo-o de toda a tentação que impeça ou reduza essa semelhança.
    Como criatura, o homem sempre se deu conta de que há uma diferença irredutível entre ele e Deus e que, portanto, há limites que não pode ultrapassar. Enquanto permanecer nesses limites, o homem pode ser feliz e gozar dos bens da criação. Mas o inimigo tenta e consegue impingir-lhe uma falsa imagem de Deus. Assim acontece o pecado original, que consiste nesta ultrapassagem dos limites fixados, com a pretensão de ser ilimitado como Deus.
    A sedução da serpente ou, se quisermos, a sedução do pecado leva a uma tripla transgressão dos nossos limites de criaturas: arrogar-nos prerrogativas divinas, como a imortalidade («Não morrereis»), a omnisciência («Abrir-se-ão os vossos olhos»), a omnipotência («Sereis como Deus»).
    Vamos limitar-nos a uma breve reflexão sobre a segunda pretensão, a da omnisciência («Abrir-se-ão os vossos olhos»). Trata-se da sedução intelectual, do desejo de conhecer tudo. Este desejo exacerbado acaba por levar à percepção da própria nudez, da própria pobreza: «reconhecendo que estavam nus, coseram folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta dos rins» (v. 7).
    O episódio evangélico da abertura dos ouvidos do surdo, realizada por Jesus, contrasta com a ilusória abertura dos olhos prometida pela serpente. O homem, para ser feliz, para se tornar como Deus, mais do que ver e do que conhecer, precisa de ouvir, de escutar e de obedecer. Só a Palavra de Deus lhe abre horizontes de vida. A palavra do egoísmo e da auto-suficiência fecha o homem e arrasta-o para onde não quer. É uma palavra enganosa, que o leva a ler de modo errado a sua própria realidade, a realidade do mundo e a realidade de Deus. E, assim, acaba por descobrir a sua vulnerabilidade. A Palavra de Deus, pelo contrário, i
    nsere-o na realidade, suscita nele sentimentos de espanto, leva-o a entoar hinos de louvor e de alegria. É uma alegria escutar a palavra do Senhor «abre-te!». Abertos a essa palavra, vemos a maravilhosa vocação a que somos chamados, abrimo-nos ao mundo com um novo olhar, ao amor com novo entusiasmo, ao conhecimento de Deus que é amor e luz, onde não há trevas.

    Oratio

    Senhor Jesus, faz-me compreender o amor do Pai, que não me impede de crescer, de me abrir, mas que pela tua obra redentora me abriu para horizontes de realização e felicidade insuspeitos. Ao contrário do que insinua o tentador, o Pai não teme que o homem e a mulher abram os olhos. «Effathá»! Abre-te!» foi a palavra que ouvi no dia do meu baptismo. Por Ti, o Pai libertou-me, permitiu-me progredir na vida, entrar em comunicação e em comunhão com Ele. Obrigado, Senhor! Obrigado por me teres tornado capaz de escutar a Palavra, que me enche de alegria, me aponta a vocação, me abre ao mundo, ao conhecimento de Deus-amor, à luz da verdade. Amen.

    Contemplatio

    Maria, Mãe de Deus – É justo que, ao menos uma vez, meditemos especialmente sobre a maternidade de Maria, relativamente a Jesus e, por extensão, relativamente a nós? «Tendo fixado o desígnio da Incarnação, diz S. Francisco de Sales, Deus podia produzir de várias maneiras a humanidade do seu Filho, como, por exemplo, criando-a do nada, ou então formando o seu corpo da terra como fez com Adão; mas preferiu dar-lhe uma mãe, para manifestar melhor a sua bondade e a sua infinita sabedoria». Deus mostra-nos a sua bondade elevando Maria, uma simples criatura tomada de entre nós, à dignidade sublime de Mãe de Deus. Manifesta-nos a sua sabedoria opondo à obra fatal da nossa primeira mãe, a obra reparadora de Maria. «A obra da nossa conceição começa por Eva, diz Bossuet, a obra da reparação por Maria; a palavra de morte é levada a Eva, a palavra de vida à santíssima Virgem… O anjo de trevas quer elevar Eva à falsa grandeza; Vós sereis como Deus! O anjo de luz estabelece Maria na verdadeira grandeza por uma sociedade com Deus: O Senhor está convosco…». Maria é a Mãe de Deus, e é este privilégio incomparável da maternidade divina, que faz de Maria a Rainha de todas as criaturas, e que é a fonte e a causa de todas as suas grandezas, de todas as suas graças, do seu poder e da sua glória. Ó Maria, quando contemplo em vós esta eminente dignidade de Mãe de Deus, a minha veneração, a minha confiança e o meu amor por vós não têm limites e sinto-me impotente para vo-los manifestar. (Leão Dehon, OSP3, p. 104).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «O mudo gritará de alegria!» (Is 35, 6).

     

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    Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj

  • Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Sábado

    Categoria: Semanal Tempo Comum - Anos Ímpares - V Semana - Sábado


    11 de Fevereiro, 2023

    Lectio

    Primeira leitura: Génesis 3, 9-24

    O Senhor Deus chamou o homem e disse-lhe: «Onde estás?» 10Ele respondeu: «Ouvi a tua voz no jardim e, cheio de medo, escondi-me porque estou nu.» 11O Senhor Deus perguntou: «Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura, da árvore da qual te proibi comer?» 12O homem respondeu: «Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi.» 13O Senhor Deus perguntou à mulher: «Por que fizeste isso?» A mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi.» 14Então, o Senhor Deus disse à serpente: «Por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais selvagens. Rastejarás sobre o teu ventre, alimentar-te-ás de terra todos os dias da tua vida. 15Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça e tu tentarás mordê-la no calcanhar.» 16Depois, disse à mulher: «Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, entre dores darás à luz os filhos. Procurarás apaixonadamente o teu marido, mas ele te dominará.» 17A seguir, disse ao homem: «Porque atendeste à voz da tua mulher e comeste o fruto da árvore, a respeito da qual Eu te tinha ordenado: 'Não comas dela', maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, todos os dias da tua vida. 18Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. 19Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e ao pó voltarás.» 20Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela seria mãe de todos os viventes. 21O Senhor Deus fez a Adão e à sua mulher túnicas de peles e vestiu-os. 22O Senhor Deus disse: «Eis que o homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre.» 23O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, a fim de cultivar a terra, da qual fora tirado. 24Depois de ter expulsado o homem, colocou, a oriente do jardim do Éden, os querubins com a espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da Vida.

    O Senhor Deus deu esta ordem ao homem: «Não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás.» (v. 17). Não se trata de uma ameaça de Deus, mas de um aviso: fica a saber que, se fizeres isso, te acontecerá isto e aquilo. Deus revela um nexo de causa e efeito: o pecado produz a morte (cf. Gn 1, 15).
    Mas a mulher, quando refere à serpente a palavra de Deus, introduz algumas ligeiras alterações que a mudam: «Deus disse: 'Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis´.» Nestas palavras pressente-se a ameaça de um castigo. Por isso é que a mulher nem sequer ousa tocar na árvore.
    É significativo que também nós, hoje, chamemos "interrogatório" ao diálogo entre Deus e o homem, como se se tratasse de um acto judicial. Na realidade, trata-se de um puro acto de misericórdia. Deus procura o homem - «onde estás?» - para lhe dizer que não o abandona, apesar do pecado. Não se trata de perguntas intimidatórias, mas pedagógicas. Deus dirige-se a Adão e Eva como se não soubesse de nada, para os ajudar a tomar consciência do seu pecado. As consequências do pecado são temperadas pela misericórdia. O homem não morre, como estava previsto. A sua vida terrena será penosa, como continuamos a verificar em nós mesmos, mas não é posta sob o signo do castigo e da maldição. A serpente é amaldiçoada. O homem e a mulher, não.

    Evangelho: Marcos 8, 1-10

    Naqueles dias, havia outra vez uma grande multidão e não tinham que comer. Jesus chamou os discípulos e disse: 2«Tenho compaixão desta multidão. Há já três dias que permanecem junto de mim e não têm que comer. 3Se os mandar embora em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho, e alguns vieram de longe.» 4Os discípulos responderam-lhe: «Como poderá alguém saciá-los de pão, aqui no deserto?» 5Mas Ele perguntou: «Quantos pães tendes?» Disseram: «Sete.» 6Ordenou que a multidão se sentasse no chão e, tomando os sete pães, deu graças, partiu-os e dava-os aos seus discípulos para eles os distribuírem à multidão. 7Havia também alguns peixinhos. Jesus abençoou-os e mandou que os distribuíssem igualmente. 8Comeram até ficarem satisfeitos, e houve sete cestos de sobras. 9Ora, eram cerca de quatro mil. Despediu-os 10e, subindo logo para o barco com os discípulos, foi para os lados de Dalmanuta.

    A crítica interroga-se se esta multiplicação dos pães é, de facto, um novo milagre ou se é uma segunda versão do que foi narrado em Mc 6, 34-44. Mas, mais importante que saber se se trata de um ou de dois prodígios diferentes, é conhecer as intenções querigmáticas do evangelista.
    Toda esta secção parece orientada para realçar a finalidade da evangelização, incluindo o seu aspecto taumatúrgico, a saber: libertar o homem da alienação e de tudo o que ameaça a sua existência, não só no limite extremo entre a vida e a morte, mas também na sua acção de cada dia. Nos dois relatos facilmente se pode ver uma alusão à refeição eucarística, tal como era celebrada pela comunidade judeo-helenista de Cesareia, em cujo seio nasceu o evangelho de Marcos. O evangelista parece querer realçar a multiplicação dos pães como prefiguração da eucaristia cristã e das suas implicações a favor dos pagãos. De facto, anota: «alguns vieram de longe» (v. 3b). Além disso, a compaixão de Jesus é suscitada pela miséria física daquela gente que andava com Ele havia três dias. É este sentimento de compaixão que provoca o milagre. É esse mesmo sentimento que há-de levar à partilha na comunidade, em favor dos carenciados.

    Meditatio

    «Arrancarás alimento à custa de penoso trabalho», lemos na primeira leitura (v. 17). O evangelho, ao referir a milagrosa multiplicação dos pães, parece contradizer a palavra de Deus aos nossos primeiros pais. Que significa este contraste entre a primeira leitura e o evangelho? Significa que Jesus vai reparar completamente os pecados do homem, dando-lhe acesso à verdadeira prosperidade.
    O relato do Génesis mostra-nos as consequências do pecado. O pecado separa-nos de Deus. Mas também dos nossos semelhantes: «Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi» (v. 12). Adão acusa a Deus e acusa a mulher! A mulher, por sua vez, também atira a culpa para a serpente: «A serpente enganou-me e eu comi» (v. 12).
    O comportamento de Adão e de Eva é infantil. Não assumem as próprias responsabilidades e procuram atribuí-las a outros. Se pensarmos bem, também nós, por vezes, fazemos esse triste papel, criando separações entre nós. O sofrimento vivido na vontade de Deus une; a alegria vivida fora da vontade de Deus separa. A unidade e a comunhão encontram-se na vontade de Deus ou, se preferirmos, no amor de Deus manifestado na sua vontade, que acolhemos e realizamos.
    Mas a primeira leitura, além de situações deploráveis, também contém promessas. Logo que o homem pecou, Deus concebeu um projecto para reparar o pecado do homem e restabelecê-lo na comunhão Consigo e com os outros homens: «Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça », diz Deus à serpente (v. 15). Esta promessa realizou-se na história de Maria, Mãe de Jesus, e na história do próprio Jesus. Segundo a Bíblia hebraica, é a «descendência» da mulher que esmaga a cabeça da serpente; na Vulgata é a própria mulher que esmaga essa cabeça. As duas afirmações estão correctas. No Calvário, Maria foi solidária com Cristo na obra da nossa redenção, e foi solidária connosco, porque não se separou dos pecadores. Aceitou o sofrimento de Cristo, e uniu-se a ele, para redenção dos pecadores. Ofereceu-se com Cristo para glória de Deus e salvação dos homens.

    Oratio

    Senhor, ensina-nos que não podemos viver pelo nosso conhecimento, mas somente pela tua misericórdia. No jardim do Paraíso, o homem e a mulher podem comer de todas as árvores: tudo é dom! Duma só árvore não podem comer. Mas a dinâmica do pecado faz-lhes pensar que o secundário é principal, e que, faltando uma árvore, faltavam todas. Esquecem a tua misericórdia por causa de algo que, eles próprios, queriam alcançar. Mas, só Tu, podes saciar a nossa fome, também aquela que nem ousamos confessar. Sacias-nos abundantemente, gratuitamente, como sinal do teu amor. Que saibamos aceitar e comer agradecidos o alimento que nos dás. Amen.

    Contemplatio

    O reino dos céus, diz Nosso Senhor (Mt 13), é semelhante a uma pedra preciosa que um negociante descobre. Vende tudo o que tem para a conseguir. Nós temos no tabernáculo o Rei dos reis. Está à nossa disposição com o seu reino que é a sua graça sobre a terra aguardando a sua glória no céu. Não deveríamos deixar tudo e tudo sacrificar por este reino? Infelizmente deixei muitas vezes a Eucaristia e o Coração de Jesus pelas criaturas, como o povo de Israel que sacrificava o serviço de Deus por um bocado de pão (Ez 13, 19). Mas a pedra preciosa não está longe. Ainda é tempo. Posso encontrá-la e comprá-la, se faço os sacrifícios necessários. A Eucaristia está lá, o Coração de Jesus está lá no tabernáculo. Mas Nosso Senhor fixa-me um preço de resgate, é o tal sacrifício que é preciso fazer, é o tal apego que é preciso romper. Conheço este preço pelo meu exame particular, conheço-o pelas minhas confissões habituais. Sei o que é preciso sacrificar, mas a coragem falta-me. Senhor, ajudai-me, peço-vos pela bondade do vosso coração e pela intercessão de Maria. Eis a árvore da vida, continuarei a abandoná-la para correr ao fruto proibido? Eis a fonte de vida, irei ainda beber ao riacho envenenado? Eis a jóia de um preço infinito, vou desdenhá-la /633 por um prazer sensual? Não, quero hoje voltar às minhas resoluções salutares. Hei-de ir buscar a minha força junto do sacrário. (Leão Dehon, OSP3, p. 632s.).

    Actio

    Repete frequentemente e vive hoje a palavra:
    «Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela» (Gn 3, 15).

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    Subsídio litúrgico a cargo de Fernando Fonseca, scj

  • 06º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    Categoria: Dominical 06º Domingo do Tempo Comum - Ano A


    12 de Fevereiro, 2023

    06º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    Tema do 6º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia de hoje garante-nos que Deus tem um projecto de salvação para que o homem possa chegar à vida plena e propõe-nos uma reflexão sobre a atitude que devemos assumir diante desse projecto.
    Na segunda leitura, Paulo apresenta o projecto salvador de Deus (aquilo que ele chama "sabedoria de Deus" ou "o mistério"). É um projecto que Deus preparou desde sempre "para aqueles que o amam", que esteve oculto aos olhos dos homens, mas que Jesus Cristo revelou com a sua pessoa, as suas palavras, os seus gestos e, sobretudo, com a sua morte na cruz (pois aí, no dom total da vida, revelou-se aos homens a medida do amor de Deus e mostrou-se ao homem o caminho que leva à realização plena).
    A primeira leitura recorda, no entanto, que o homem é livre de escolher entre a proposta de Deus (que conduz à vida e à felicidade) e a auto-suficiência do próprio homem (que conduz, quase sempre, à morte e à desgraça). Para ajudar o homem que escolhe a vida, Deus propõe "mandamentos": são os "sinais" com que Deus delimita o caminho que conduz à salvação.
    O Evangelho completa a reflexão, propondo a atitude de base com que o homem deve abordar esse caminho balizado pelos "mandamentos": não se trata apenas de cumprir regras externas, no respeito estrito pela letra da lei; mas trata-se de assumir uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas, que tenha, depois, correspondência em todos os passos da vida.

    LEITURA I - Sir 15, 16-21 (15-20)

    Leitura do Livro de Ben-Sirá

    Se quiseres, guardarás os mandamentos:
    ser-lhe fiel depende da tua vontade.
    Deus pôs diante de ti o fogo e a água:
    estenderás a mão para o que desejares.
    Diante do homem estão a vida e a morte:
    o que ele escolher, isso lhe será dado.
    Porque é grande a sabedoria do Senhor,
    Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas.
    Seus olhos estão sobre aqueles que O temem,
    Ele conhece todas as coisas do homem.
    Não mandou a ninguém fazer o mal,
    nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.

    AMBIENTE

    O Livro de Ben Sira (designado na Bíblia Católica com o nome de "Eclesiástico") é um livro "sapiencial" - isto é, um livro cujo objectivo é apresentar indicações de carácter prático, deduzidas da reflexão e da experiência, sobre a arte de viver bem, de ter êxito, de ser feliz (é essa a temática da reflexão sapiencial no Médio Oriente, em geral, e em Israel, em particular). O seu autor é um tal Jesus Ben Sira, um judeu tradicional, convencido que a Tora (a Lei) dada por Deus a Israel é a súmula da sabedoria.
    Estamos no início do séc. II a.C.; a cultura grega (instalada na Palestina desde 333 a.C., quando Alexandre da Macedónia venceu Dario III, em Issos, e se apossou da Palestina e do Egipto) minava há já algum tempo, a cultura, a fé, os valores tradicionais de Israel. Os mais jovens abandonavam a fé dos pais, seduzidos pelo brilho superior dessa cultura universal, que era a cultura helénica...
    Jesus Ben Sira escreve para ajudar os israelitas a perceber a singularidade da sua fé e da sua cultura, a fim de que não se perca a identidade do Povo de Deus. Apresenta, na sua obra, uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, mostrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
    Nos capítulos 14 e 15 do Livro de Ben Sira, há uma reflexão sobre como encontrar a verdadeira felicidade. É nesse contexto que devemos situar o nosso texto: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira felicidade e convida-os a percorrê-lo.

    MENSAGEM

    O tema da opção entre dois caminhos - o caminho da vida e da felicidade e o caminho da morte e da desgraça - é um tema caro à teologia tradicional de Israel. Para os teólogos deuteronomistas, essa é a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de auto-suficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no "temor" de Deus e no respeito pelas propostas de Jahwéh (mandamentos), ele constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de abundância, de paz. A questão está muito bem expressa em Dt 30,15-20.
    A reflexão sapiencial tradicional mantém-se na mesma linha. Os "sábios" de Israel já perceberam (inclusive a partir da experiência que a própria história da sua nação lhes forneceu) que, quando respeita as indicações de Deus (mandamentos), o Povo constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos se respeitam e têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas quando o Povo escolhe caminhos à margem de Jahwéh e faz "orelhas moucas" às propostas de Deus, constrói egoísmo, exploração, divisão e, portanto, sofrimento, privações, morte. As grandes catástrofes nacionais (nomeadamente o exílio na Babilónia) resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos seus mandamentos.
    Neste texto, Jesus Ben Sira pretende colocar os homens do seu tempo - sobretudo aqueles que oscilavam entre os valores da fé dos pais e os valores mais "in" da cultura dominante - diante da opção fundamental que a liberdade lhes oferece: a vida e a morte, a felicidade e a desgraça.
    Um pormenor notável reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo Ben Sira, um títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com o seu comando; mas o homem é um ser livre, que faz as suas escolhas (escolhas que condicionam, necessariamente, o seu futuro) e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita absolutamente as opções que o homem faz. Resta ao homem fazer as suas escolhas e construir o seu destino: ou com Deus, ou contra Deus; ou um destino de vida e felicidade, ou um destino de morte e de desgraça.

    ACTUALIZAÇÃO

    • A questão fundamental que aqui nos é posta é esta: existem caminhos diversos, opções várias, que dia a dia nos interpelam e desafiam. Em cada momento, corremos o risco da liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, do "politicamente correcto", aceitando que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?

    • Uma proposta leva à vida e &agrav
    e; felicidade. Quem quiser ir por aí, tem de seguir os "sinais" (mandamentos) com que Deus delimita o caminho que leva à vida. Percorrer esse caminho implica, evidentemente, viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das suas propostas. Esforço-me por viver na escuta de Deus e por descobrir os "sinais" que Ele me deixa?

    • A outra proposta leva à morte. É o caminho daqueles que escolhem o egoísmo, a auto-suficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Ao fechar-se em si e ao ignorar as propostas de Deus, o homem acaba por escolher os seus interesses e por manipular o mundo e os outros homens, introduzindo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, morte. Talvez nenhum de nós escolha, conscientemente, este caminho; mas o orgulho, a ambição, a vontade de afirmar a nossa independência e liberdade, podem levar-nos (mesmo sem o notarmos) a passar ao lado dos "sinais" de Deus e a ignorá-los, resvalando por atalhos que vão dar ao egoísmo, ao fechamento em nós. Em cada dia que começa, é preciso fazer o balanço do caminho percorrido e renovar as nossas opções.

    • Este texto levanta, também, a questão da liberdade. A Palavra de Deus que aqui nos é proposta deixa claro que Deus nos criou livres e que respeita absolutamente as nossas opções e a nossa liberdade. Deus não é um empecilho à liberdade e à realização plena do homem. Ele coloca-nos diante das diferentes opções, diz-nos onde elas nos levam, aponta o caminho da verdadeira felicidade e da realização plena e... deixa-nos escolher.

    • Atenção: a morte e a desgraça nunca são um castigo de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos errados; mas é o resultado lógico de escolhas egoístas, que geram desequilíbrios e que destroem a paz, o equilíbrio, a harmonia do mundo, da família e de mim próprio.

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 118 (119)

    Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor.

    Felizes os que seguem o caminho perfeito
    e andam na lei do Senhor.
    Felizes os que observam as suas ordens
    e O procuram de todo o coração.

    Promulgastes os vossos preceitos
    para se cumprirem fielmente.
    Oxalá meus caminhos sejam firmes
    na observância dos vossos decretos.

    Fazei bem ao vosso servo:
    viverei e cumprirei a vossa palavra.
    Abri, Senhor, os meus olhos
    para ver as maravilhas da vossa Lei.

    Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos
    para ser fiel até ao fim.
    Dai-me entendimento para guardar a vossa lei
    e para a cumprir de todo o coração.

    LEITURA II - 1 Cor 2, 6-10

    Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

    Irmãos:
    Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos,
    mas de uma sabedoria que não é deste mundo,
    nem dos príncipes deste mundo,
    que vão ser destruídos.
    Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta,
    que já antes dos séculos
    Deus tinha destinado para a nossa glória.
    Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu;
    porque se a tivessem conhecido,
    não teriam crucificado o Senhor da glória.
    Mas, como está escrito,
    «nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram,
    nem jamais passou pelo pensamento do homem
    o que Deus preparou para aqueles que O amam».
    Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo,
    porque o Espírito Santo penetra todas as coisas,
    até o que há de mais profundo em Deus.

    AMBIENTE

    Continuamos no ambiente da comunidade cristã de Corinto e à volta da discussão sobre a verdadeira sabedoria. Recordemos que o ponto de partida para a reflexão de Paulo é a pretensão dos coríntios em equiparar a fé cristã a um qualquer caminho filosófico, que devia ser percorrido sob a orientação de mestres humanos (para uns, Paulo, para outros Pedro, para outros Apolo), à maneira do que se fazia nas escolas filosóficas gregas. Os coríntios corriam, dessa forma, o risco de fazer da fé uma ideologia, mais ou menos brilhante conforme as qualidades pessoais ou a elegância do discurso dos mestres que defendiam as teses. Paulo está consciente, no entanto, que o único mestre é Cristo e que a verdadeira sabedoria não é a que resulta do brilho e da elegância das palavras ou da coerência dos sistemas filosóficos, mas é a que resulta da cruz.
    Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar - de forma mais desenvolvida - a "sabedoria de Deus".

    MENSAGEM

    Para Paulo, falar da "sabedoria de Deus" é falar do projecto de salvação que Deus preparou para a humanidade (noutros textos, Paulo usa um outro conceito para falar da mesma coisa: "mystêrion" - cf. Rom 16,25; Ef 1,3-10; 3,3.4.9; Col 1,26; 2,2; 4,3). Trata-se de um plano "que Deus preparou para aqueles que o amam", no sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus manteve misterioso e oculto durante muitos séculos, e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo (antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da "sabedoria de Deus").
    Na leitura que Paulo faz da história da salvação, as coisas são claras: Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à realização plena. Por isso, veio ao nosso encontro, fez aliança connosco, indicou-nos os caminhos da vida e da felicidade; e, na plenitude dos tempos, enviou ao nosso encontro o seu próprio Filho, que nos libertou do pecado, que nos inseriu numa dinâmica de amor e de doação da vida e que nos convocou à comunhão com Deus e com os irmãos. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós... Esse plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos crentes pela acção do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia, como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.

    ACTUALIZAÇÃO

    • O projecto de salvação que Deus tem para os homens, e que resulta do seu imenso amor por nós, é um projecto que nos garante a vida definitiva, a realização plena, a chegada ao patamar do Homem Novo, a identificação final com Cristo. Os crentes são, em consequência deste dinamismo de esperança que o projecto de salvação de Deus introduz na nossa história, pessoas
    que olham a vida com os olhos cheios de confiança, que sabem enfrentar sem medo nem dramas as crises, as vicissitudes, os problemas que o dia-a-dia lhes apresenta, e que caminham cumprindo a sua missão no mundo, em direcção à meta final que Deus tem reservada para aqueles que O amam.

    • No entanto, Deus não força ninguém: a opção pelo caminho que conduz à vida plena, ao Homem Novo, é uma escolha livre que cada homem e cada mulher devem fazer. O que Deus faz é ladear o nosso caminho de "sinais" (mandamentos) que indicam como chegar a essa meta final de vida definitiva. Como é que eu percorro esse caminho: na atenção constante aos "sinais" de Deus, ou na auto-suficiência de quem quer ser o responsável único pela sua liberdade e não precisa de Deus para nada?

    ALELUIA - cf. Mt 11, 25

    Bendito sejais, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
    porque revelastes aos pequeninos os mistérios do reino.

    EVANGELHO - Mt 5,17-37

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos seus discípulos:
    «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
    não vim revogar, mas completar.
    Em verdade vos digo:
    Antes que passem o céu e a terra,
    não passará da Lei a mais pequena letra
    ou o mais pequeno sinal,
    sem que tudo se cumpra.
    Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
    por mais pequenos que sejam,
    e ensinar assim aos homens,
    será o menor no reino dos Céus.
    Mas aquele que os praticar e ensinar
    será grande no reino dos Céus.
    Porque Eu vos digo:
    Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
    não entrareis no reino dos Céus.
    Ouvistes que foi dito aos antigos:
    'Não matarás; quem matar será submetido a julgamento'.
    Eu, porém, digo-vos:
    Todo aquele que se irar contra o seu irmão
    será submetido a julgamento.
    Quem chamar imbecil a seu irmão
    será submetido ao Sinédrio,
    e quem lhe chamar louco
    será submetido à geena de fogo.
    Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
    e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
    deixa lá a tua oferta diante do altar,
    vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
    e vem depois apresentar a tua oferta.
    Reconcilia-te com o teu adversário,
    enquanto vais com ele a caminho,
    não seja caso que te entregue ao juiz,
    o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
    Em verdade te digo:
    Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
    Ouvistes que foi dito:
    'Não cometerás adultério'.
    Eu, porém, digo-vos:
    Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
    já cometeu adultério com ela no seu coração.
    Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
    arranca-o e lança-o para longe de ti,
    pois é melhor perder-se um dos teus membros
    do que todo o corpo ser lançado na geena.
    E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
    corta-a e lança-a para longe de ti,
    porque é melhor que se perca um dos teus membros,
    do que todo o corpo ser lançado na geena.
    Também foi dito:
    'Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio'.
    Eu, porém, digo-vos:
    Todo aquele que repudiar sua mulher,
    salvo em caso de união ilegal,
    fá-la cometer adultério.
    Ouvistes que foi dito aos antigos:
    'Não faltarás ao que tiveres jurado,
    mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor'.
    Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
    nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
    nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
    nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
    Também não jures pela tua cabeça,
    porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
    A vossa linguagem deve ser: 'Sim, sim; não, não'.
    O que passa disto vem do Maligno».

    AMBIENTE

    Terminado o preâmbulo do "sermão da montanha" (que vimos nos dois anteriores domingos), entramos no corpo do discurso. Recordamos aquilo que dissemos nos domingos anteriores: o discurso de Jesus "no cimo de um monte" transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a Lei; agora, é Jesus que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus essa nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao "Reino". Neste discurso (o primeiro dos cinco grandes discursos que Mateus apresenta), o evangelista agrupa um conjunto de "ditos" de Jesus e oferece à comunidade cristã um novo código ético, a nova Lei, que deve guiar os discípulos de Jesus na sua marcha pela história.
    Para entendermos o "pano de fundo" do texto que nos é hoje proposto, convém que nos situemos no ambiente das comunidades cristãs primitivas e, de forma especial, no ambiente da comunidade mateana: trata-se de uma comunidade com fortes raízes judaicas, na qual preponderam os cristãos que vêm do judaísmo... As questões que a comunidade põe, na década de oitenta (quando este Evangelho aparece), são: continuamos obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que é que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?

    MENSAGEM

    Mateus tenta conciliar as tendências e as respostas dos vários grupos que, no contexto da sua comunidade cristã, eram dadas a estas questões.
    Na primeira parte do Evangelho que hoje nos é proposto (vers. 17-19), Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso encará-la, não como um conjunto de prescrições legais e externas, que obrigam o homem a proceder desta ou daquela forma rígida, no contexto desta ou daquela situação particular, mas como a expressão concreta de uma adesão total a Deus (adesão que implica a totalidade do homem, e que está para além desta ou daquela situação concreta). Dito de outra forma: os fariseus (que eram a corrente dominante no judaísmo pós-destruição de Jerusalém) tinham caído na casuística da Lei e achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas; mas Mateus achava que a proposta libertadora de Jesus ia mais além e passava por assumir uma atitude interior de compromisso total com Deus e com as suas propostas.
    Na segunda parte do texto que nos é proposto (vers. 20-37), Mateus refere quatro exemplos concretos desta nova forma de entender a Lei (na realidade, são seis os exemplos que aparecem no conjunto do texto mateano; mas o Evangelho de hoje só apresenta quatro; os outros dois ficam para o próximo domingo).
    O primeiro (vers. 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige, simplesme
    nte, o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus (que não se resume ao cumprimento estrito da letra da Lei, mas exige uma nova atitude interior), o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao irmão... Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos do "Reino" não podem limitar-se a cumprir a letra da Lei; têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. A propósito, Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação (o cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo, não é uma forma de matar?). Na perspectiva de Mateus, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois é uma mentira a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos.
    O segundo (vers. 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema - ou seja, o próprio coração do homem... É no coração do homem que nascem os desejos de apropriação indevida daquilo que não lhe pertence; portanto, é a esse nível que é preciso realizar uma "conversão". A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é, nesta cultura, o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é, nesta cultura, o órgão da acção, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes (bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de traduzir à letra) para dizer que é preciso actuar lá onde as acções más do homem têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.
    O terceiro (vers. 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei tem de ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida.
    O quarto (vers. 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (cf. Lv 19,12; Nm 20,3; Dt 23,22-24); mas, na perspectiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com o "Reino". Para os que estão inseridos na dinâmica do "Reino", deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples "sim" e "não" bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do "Reino".
    A questão essencial é, portanto, esta: para quem quer viver na dinâmica do "Reino", não chega cumprir estrita e casuisticamente as regras da Lei; mas é preciso uma atitude interior inteiramente nova, um compromisso verdadeiro com Deus que envolva o homem todo e lhe transforme o coração.

    ACTUALIZAÇÃO

    • Os discípulos de Jesus são convidados a viver na dinâmica do "Reino", isto é, a acolher com alegria e entusiasmo o projecto de salvação que Deus quis oferecer aos homens e a percorrer, sem desfalecer, num espírito de total adesão, o caminho que conduz à vida plena.

    • Cumprir um conjunto de regras externas não assegura, automaticamente, a salvação, nem garante o acesso à vida eterna; mas, o acesso à vida em plenitude passa por uma adesão total (com a mente, com o coração, com a vida) às propostas de Deus. Os nossos comportamentos externos têm de resultar, não do medo ou do calculismo, mas de uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas. É isso que se passa na minha vida? Os "mandamentos" são, para mim, princípios sagrados que eu tenho de cumprir, mecanicamente, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o "inferno"), ou são indicações que me ajudam a potenciar a minha relação com Deus e a não me desviar do caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para mim, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que eu fiz por Deus e pelo "Reino"?

    • "Não matar", é, segundo Jesus, evitar tudo aquilo que cause dano ao meu irmão. Tenho consciência de que posso "matar" com certas atitudes de egoísmo, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia e má língua que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem estar, as suas relações, a sua paz? Tenho consciência que brincar com a dignidade do meu irmão, ofendê-lo, inventar caminhos tortuosos para o desacreditar ou desmoralizar é um crime contra o irmão? Tenho consciência que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem necessita de um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, é assassinar a vida?

    • Não podemos deixar, nunca, que as leis (mesmo que sejam leis muito "sagradas") se transformem num absoluto ou que contribuam para escravizar o homem. As leis, os "mandamentos", devem ser apenas "sinais" indicadores desse caminho que conduz à vida plena; mas o que é verdadeiramente importante, é o homem que caminha na história, com os seus defeitos e fracassos, em direcção à felicidade e à vida definitiva.

    A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 6º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa...

     

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

  • S. Cirilo, Monge e S. Metódio, Bispo, Padroeiros da Europa

    Categoria: Santoral S. Cirilo, Monge e S. Metódio, Bispo, Padroeiros da Europa


    14 de Fevereiro, 2023

    Os Santos Cirilo e Metódio nasceram em Salónica, na primeira metade do século IX. Bizantinos de formação, tornaram-se apóstolos dos povos eslavos, na Morávia, atuais repúblicas Checa e Eslovaca, e na Panónia, atual Croácia. Para eles, traduziram A Bíblia e os livros litúrgicos para a língua paleoeslava, e reuniram discípulos. As suas iniciativas missionárias foram aprovadas pelo Papa Adriano II. Entretanto, Cirilo adoeceu, acabando por morrer na cidade, e sendo sepultado na igreja de S. Clemente. Metódio, ordenado bispo, regressou à Morávia, falecendo aí no ano de 885. Os seus discípulos, expulsos do país, refugiaram-se na Bulgária. Daí a liturgia e a literatura eslava passaram para o reino de Kiev, na Rússia e para todos os países eslavos de rito bizantino.

    Lectio

    Primeira leitura: Atos 13, 46-49

    Naqueles dias, Paulo e Barnabé disseram aos judeus: «Era primeiramente a vós que a palavra de Deus devia ser anunciada. Visto que a repelis e vós próprios vos julgais indignos da vida eterna, voltamo-nos para os pagãos,47pois assim nos ordenou o Senhor: Estabeleci-te como luz dos povos, para levares a salvação até aos confins da Terra.»48Ao ouvirem isto, os pagãos encheram-se de alegria e glorificavam a palavra do Senhor; e todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé.49Assim, a palavra do Senhor divulgava-se por toda aquela região.

    Os pagãos escutaram com interesse e entusiasmo Paulo e Barnabé, o que suscitou a inveja e os ciúmes dos Judeus contra os missionários, que são insultados e rejeitados. E dá-se a separação entre o Evangelho e o Judaismo. Os Judeus eram os primeiros destinatários da Boa Nova. Uma vez que a rejeitaram, ela é oferecida aos pagãos, que a aceitam. Nesse contexto, Barnabé e Paulo declaram que vão passar a dirigir-se aos pagãos, baseando a sua dercisão, não só na rejeição dos Judeus, mas também nas palavras da Escritura que falam da luz das nações (Is 49, 6). Quem acolher o Evangelho e abraçar a fé torna-se herdeiro das promessas, seja judeu ou pagão. Fica destinado à "vida eterna" (v. 48).

    Evangelho: Lucas 10, 1-9

    Naquele tempo, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Disse-lhes:«A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe.3Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho.5Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. 7Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa.8Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, 9curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: 'O Reino de Deus já está próximo de vós.'

    Além dos Apóstolos, fundamento da missão da Igreja, Jesus escolheu outros setenta e dois discípulos e enviou-os a pregar a Boa Nova. Ao longo dos séculos escolheu muitos outros. Foi o caso de Cirilo e Metódio, enviados a missionar os povos eslavos. Quem acolhe o Reino, sente a necessidade de o anunciar. Por isso, a missão é tarefa de todos os batizados. Isso, todavia, não impede que alguns sejam particularmente destinados a pregar que Deus salva, isto é, que o seu "Reino está no meio de nós". O reino vem como "paz". Por isso, é dever dos missionários invocar a paz de Deus sobre as casas e cidades onde vão. A palavra de Jesus assegura ao missionário a possibilidade da sua mensagem ser ouvida. Mas, quando surgem perseguições, os missionários não têm outro caminho senão o de Jesus, isto é, o que leva à morte, como supremo testemunho do Evangelho.

    Meditatio

    S. Cirilo e S. Metódio sentiram a urgência de levar a salvação para fora das fronteiras do mundo helénico, tal como Paulo e Barnabé tinham sentido a necessidade de levar a Boa Nova para fora das fronteiras do mundo judaico. Isaías falava de Boa Nova e de um movimento centrípto de todos os povos em direção a Jerusalém. No evangelho o movimento é inverso. Jesus envia os discípulos para todo o mundo: "Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura... Eles, partindo, foram pregar por toda a parte." (Mc 16, 15.20). São duas dinâmicas diferentes: Isaías pensa em Jerusalém como centro do mundo, para onde devem acorrer todos os povos, e subir ao monte do Senhor, que a todos atrai. No Novo Testamento, o centro do mundo já não é Jerusalém, mas o corpo de Cristo ressuscitado, misteriosamente presente onde estão os seus discípulos. É aí que encontram a unidade todos os que acreditam em Jesus.
    S. Cirilo e S. Metódio partiram para meio dos eslavos, apesar das dificuldades das viagens e, sobretudo, do problema que era evangelizar povos que não pertenciam à cultura grega e latina. Estes santos foram verdadeiramente pioneiros naquilo que hoje se chama a "inculturação", isto é, em traduzir a fé para a cultura dos povos a evangelizar, sem querer impôr a própria cultura. Traduziram a Bíblia e os textos litúrgicos para eslavo. Esse atrevimento valeu-lhes ser denunciados em Roma pelos missionários latinos. Tiveram que rumar à cidade eterna, e explicar-se às autoridades. Felizmente foram compreendidos pelo Papa Adriano II, que aprovou o seu método missionário.
    Hoje, é questão pacífica que, uma coisa é a fé e outra a cultura, que são realidades separáveis, que a fé deve radicar nas diversas culturas como fermento que as impregna de Evangelho. Mas o mesmo se deve pensar em relação à diferentes gerações: em cada geração a fé deve ser expressa de modo novo. A fé, com efeito, é um fermento de vida que tem de crescer e encontrar novas formas de progresso. Temos de aprender a ir ao encontro dos outros, e não obrigá-los a uniformizar-se com os nosso costumes, ou àquilo que pensamos ser melhor. Há que ir aos outros como Jesus veio até nós, isto é, fazendo-se homem e aceitando tudo o que é humano para se fazer entender por nós, e poder introduzir-nos na sua intimidade.
    O P. Dehon recebeu "a graça e a missão de enriquecer a Igreja com um Instituto religioso apostólico que vivesse da sua inspiração evangélica" (Cst 1). A mística oblativa-reparadora, inspirada pela contemplação do Coração trespassado de Cristo, levou-o a viver uma espiritualidade profundamente sacerdotal e eucarística, e a empenhar-se num apostolado característico onde a atividade missionária tem um lugar importante. Essa atividade tem de ser devidamente insculturada entre os povos, "para que a comunidade humana, santificada pelo Espírito, se torne uma oblação agradável a Deus" (Cst 30. 31).

    Oratio

    Resplandeça sobre nós, Senhor, a luz incorrutível da tua sabedoria. Abre-nos os olhos da mente, para podermos entender os teus preceitos evangélicos. Que, desprezados os desejos carnais, possamos levar uma vida verdadeiramente espiritual, pensando e fazendo o que é do teu agrado. Nós to pedimos por intercessão dos Santos Cirilo e Metódio. Ámen.

    Contemplatio

    Jesus percorria as cidades e as vilas da Galileia, anunciando a boa nova e curando os doentes; mas não podia acorrer tudo sozinho e ao ver todo este povo sofrendo e abatido, foi tomado de compaixão, e disse aos discípulos: «A messe é grande, peçamos ao divino Mestre para lhe enviar operários», depois chamou os seus doze apóstolos e enviou-os dois a dois para pregarem com o poder de expulsarem os demónios e de curarem os doentes... Nosso Senhor indica aos apóstolos três condições requeridas para o sucesso da sua missão. A primeira é o espírito de desinteresse. «Recebestes gratuitamente, dai gratuitamente». Que os vossos ouvintes vejam que não é por ganho, mas pela salvação das almas e pela felicidade dos homens que trabalhais. A segunda é o desapego das coisas da terra e o amor da santa pobreza: «Não leveis convosco nem ouro nem provisões». A terceira é a mais inteira confiança nos cuidados e na proteção da divina Providência: «O trabalhador tem direito ao seu alimento». Estas condições são ainda hoje as do sucesso. (L. Dehon, OSP 4, p. 267s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Rogai ao dono da messe
    que mande trabalhadores para a sua messe" (Lc 10, 2).

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    S. Cirilo, Monge e S. Metódio, Bispo, Padroeiros da Europa (14 Fevereiro)

  • S. Cláudio de La Colombière

    Categoria: Santoral S. Cláudio de La Colombière


    15 de Fevereiro, 2023

    S. Cláudio de La Colombière nasceu em Saint-Symphorien d´Ozon, França, no ano de 1641. Em 1659 ingressou na Companhia de Jesus. Ordenado sacerdote em 1669, ensinou retórica e dedicou-se ao ministério da pregação. Prestou auxílio eficaz a S. Margarida Maria Alacoque na difusão do culto ao Sagrado Coração de Jesus. Enviado para Londres, como pregador da Condessa de York, sofreu calúnias, o cárcere e o exílio. Morreu em 1682, na cidade de Paray, em França, onde se pode venerar o seu túmulo. Foi canonizado por João Paulo II, em 1992.

    Lectio

    Primeira leitura: Efésios 3, 8-9.14-19.

    A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo 9e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido desde séculos em Deus, o criador de todas as coisas. 14É por isso que eu dobro os joelhos diante do Pai,15do qual recebe o nome toda a família, nos céus e na terra: 16que Ele vos conceda, de acordo com a riqueza da sua glória, que sejais cheios de força, pelo seu Espírito, para que se robusteça em vós o homem interior; 17que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações; que estejais enraizados e alicerçados no amor, 18para terdes a capacidade de apreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade... 19a capacidade de conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo o conhecimento, para que sejais repletos, até receberdes toda a plenitude de Deus.

    Paulo, o antigo fariseu, "hebreu descendente de hebreus, circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel" (Fl 3, 5) reconhece que a graça que lhe foi concedida foi precisamente a de fazer tábua rasa do nacionalismo judaico e dirigir-se abertamente aos gentios. Este anúncio, segundo o próprio Paulo, é um mistério, algo que estava escondido nos recônditos da transcendência e que unicamente se descobre por meio de uma gratuita revelação de Deus. Nas gerações passadas não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como agora foi revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas. Paulo considera-se o último desses santos, porque a sua integração no grupo dos responsáveis foi tardia. Mas foi-lhe "concedida a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo".
    A Igreja utiliza este testo na memória de S. Cláudio de La Colombière, que recebeu a graça de conhecer e divulgar as revelações do Coração de Jesus feitas a S. Margarida Maria.

    Evangelho: Mateus, 11, 25-30

    Naquele tempo, Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos.26Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 28«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

    Nesta perícopa encontramos descrito o mistério da filiação de Jesus, Filho de Deus, da sua relação com o Pai, com a terminologia e profundidade peculiares do Quarto Evangelho. Até se diz que esta perícopa teria pertencido inicialmente ao evangelho segundo S. João. Ela consta de três pares: a) a ação de graças ao Pai pela revelação recebida; b) o conteúdo dessa revelação; o convite e chamamento. Os escribas e fariseus recusaram a revelação. O mistério do Reino não é acessível a toda a espécie de sabedoria humana. Só aqueles que se apresentam diante de Deus conscientes da sua pequenez, a podem receber. Jesus é o único revelador do Pai, a plenitude da revelação. Os que acolhem a revelação são chamados a tornar-se discípulos submissos e obedientes, tomando sobre si o "jugo" do Senhor, um jugo suave porque motivado e carregado por amor.

    Meditatio

    Cláudio de la Colombière, nascido em 1641 em S. Sinfrónio, perto de Lião, foi enviado pelo seu provincial a Paray em 1675 para ser superior da casa que os Jesuítas tinham nessa cidade. Aí conheceu a S. Margarida Maria, tornando-se seu confessor. Era precisamente o momento da grande revelação do Sagrado Coração, que data de 16 de Junho de 1675. Depois de um exame atento e prudente, o P. Cláudio de la Colombière julgou esta revelação autêntica. Adotou a devoção ao Sagrado Coração e tornou-se o seu propagador mais zeloso, depois de ter confirmado Margarida Maria e a sua superiora a Madre de Saumaise. No ano seguinte, teve de partir para Inglaterra, onde inspirou esta bela devoção em muitas almas. Banido da Inglaterra e já doente, passou por Paray, indo para Lião; aí reviu Margarida Maria, confirmou-a, fortaleceu-a; confirmou igualmente a Madre Greyfié, que tinha sucedido a Madre de Saumaise. Deus quis que viesse morrer a Paray, e que pudesse ver ainda e encorajar Margarida Maria. A sua morte aconteceu no dia 15 de Fevereiro de 1682. O próprio Nosso Senhor fez saber a Margarida Maria que tinha escolhido o P. de la Colombière para a secundar na sua missão.
    Oh! Como importa ter um bom diretor! E preciso pedi-lo a Deus e escolhê-lo com cuidado. A nossa santificação e a nossa salvação estão fortemente interessadas nisso.
    O Padre de la Colombière consagrou-se, ele mesmo, ao Sagrado Coração na sexta-feira 21 de Junho de 1675; era o dia seguinte à oitava do Corpo de Deus, o dia designado por Nosso Senhor para a futura festa. Começou desde então a inspirar esta devoção em todas as suas filhas espirituais em Paray. Chamado a Londres no ano seguinte, como pregador da duquesa de York, deu a conhecer e a amar o Sagrado Coração, a começar pela própria duquesa, que interveio mais tarde com outros príncipes e princesas junto do Papa Inocêncio XII, para o estabelecimento da nova devoção. Ele mesmo fala disso em alguns dos seus sermões da Quaresma. Regressado a França, continuou o seu apostolado, de uma maneira muito persuasiva, nas suas cartas de direção. Pedia aos superiores para a estabelecerem nas suas comunidades. Exercia o mesmo apostolado junto dos jovens religiosos de quem tinha, em Lião, a direção espiritual. É a ele que o Padre de Gallifet faz remontar a sua própria devoção ao Sagrado Coração. Mas seria sobretudo depois da sua morte que o Padre iria cumprir a sua missão. Partiu para o céu no dia 15 de Fevereiro de 1682. Dois anos depois, eram publicados os seus sermões em quatro volumes, e, num volume à parte, o diário dos seus retiros espirituais. Aí lia-se isto: "Reconheci que Deus queria que eu o servisse procurando o cumprimento dos seus desígnios no tocante à devoção que sugeriu a uma pessoa à qual se comunica de modo muito confidencial, e para a qual quis servir-se da minha fraqueza. Depois fazia o relato da grande aparição de 16 de Junho de 1675. Este escrito foi muito lido, porque o seu autor gozava de grande fama de santidade. Anexado ao diário dos retiros estava um belo ato de oferenda ou de oblação ao Sagrado Coração que também teve a sua parte no desenvolvimento da devoção. E eu, o que é que fiz até ao presente para propagar esta bela devoção segundo o desejo de Nosso Senhor? ". (Leão Dehon, OSP 3, p. 171s.).

    Oratio

    Senhor, que farei, senão unir-me à oblação do Padre de la Colombière e fazê-la também? Sim, Senhor, dou-me e consagro-me ao vosso divino Coração. Ofereço-vos tudo aquilo de que posso dispor, e proponho unir-me a vós frequentemente durante o dia (Leão Dehon, OSP 3, p. 173).

    Contemplatio

    O belo ato do Padre de la Colombière caracteriza admiravelmente a devoção ao Coração de Jesus. Começa por dizer qual o seu fim: «Esta oferenda, diz, faz-se para honrar este divino Coração, a sede de todas as virtudes, a fonte de todas as bênçãos e o retiro de todas as almas santas». «Por todas as suas bondades, diz, este divino Coração não encontra no coração dos homens senão dúvida, esquecimento, desprezo, ingratidão». O santo religioso formula então a sua oferenda: «Para reparação de tantos ultrajes e de tão cruéis ingratidões, ó muito adorável Coração do meu amável Jesus, e para evitar cair numa semelhante infelicidade, ofereço-vos o meu coração com todos os movimentos de que é capaz, e dou-me inteiramente a vós... Ofereço ao vosso divino Coração todo o mérito, toda a satisfação de todas as minhas missas, de todas as orações, de todos os atos de mortificação, de todas as práticas religiosas, de todos os atos de zelo, de humildade, de obediência e de todas as outras virtudes que praticar até ao último momento da minha vida. Não só tudo isto será para honrar o Coração de Jesus, mas ainda lhe peço que aceite a doação inteira que lhe faço, de dela dispor do modo que lhe agradar e em favor de quem lhe agradar». Este belo ato contribuiu muito para determinar e para propagar a verdadeira devoção ao Sagrado Coração. (Leão Dehon, OSP 3, p. 142s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a Palavra do Senhor:
    «Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mt 25, 30).

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    S. Cláudio de La Colombière (15 Fevereiro)

  • 07º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    Categoria: Dominical 07º Domingo do Tempo Comum - Ano A


    19 de Fevereiro, 2023

    ANO A
    7º Domingo do Tempo Comum

    Tema do 7º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia do sétimo Domingo do Tempo Comum convida-nos à santidade, à perfeição. Sugere que o "caminho cristão" é um caminho nunca acabado, que exige de cada homem ou mulher, em cada dia, um compromisso sério e radical (feito de gestos concretos de amor e de partilha) com a dinâmica do "Reino". Somos, assim, convidados a percorrer o nosso caminho de olhos postos nesse Deus santo que nos espera no final da viagem.
    A primeira leitura que nos é proposta apresenta um apelo veemente à santidade: viver na comunhão com o Deus santo, exige o ser santo. Na perspectiva do autor do nosso texto, a santidade passa também pelo amor ao próximo.
    No Evangelho, Jesus continua a propor aos discípulos, de forma muito concreta, a sua Lei da santidade (no contexto do "sermão da montanha"). Hoje, Ele pede aos seus que aceitem inverter a lógica da violência e do ódio, pois esse "caminho" só gera egoísmo, sofrimento e morte; e pede-lhes, também, o amor que não marginaliza nem discrimina ninguém (nem mesmo os inimigos). É nesse caminho de santidade que se constrói o "Reino".
    Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto - e os cristãos de todos os tempos e lugares - a serem o lugar onde Deus reside e Se revela aos homens. Para que isso aconteça, eles devem renunciar definitivamente à "sabedoria do mundo" e devem optar pela "sabedoria de Deus" (que é dom da vida, amor gratuito e total).

    LEITURA I - Lv 19, 1-2.17-18

    Leitura do Livro do Levítico

    O Senhor dirigiu-Se a Moisés nestes termos:
    «Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes:
    'Sede santos,
    porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo'.
    Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos,
    mas corrigirás o teu próximo,
    para não incorreres em falta por causa dele.
    Não te vingarás,
    nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo.
    Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
    Eu sou o Senhor».

    AMBIENTE

    O Livro do Levítico (assim chamado porque trata de questões preferencialmente relacionadas com o culto, que era incumbência dos sacerdotes, considerados membros da tribo de Levi) apresenta-se como um discurso de Jahwéh, no qual este explica ao seu Povo o que deve fazer para viver sempre em comunhão com Deus. Apresenta um conjunto de leis, de preceitos, de ritos, quase sempre relacionados com o culto, que o Povo deve praticar, para viver como Povo de Deus. Fundamentalmente, o Levítico preocupa-se em instilar na consciência dos fiéis que a comunhão com o Deus vivo é a verdadeira vocação do homem.
    O texto que nos é proposto pertence à quarta parte do Livro do Levítico (cf. Lv 17-26), conhecida como "lei da santidade". O nome provém do refrão insistentemente repetido: "sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo" (Lv 19,2; 20,7; 21,8; 22,16...).
    Na teologia de Israel, Jahwéh é o Deus "santo", quer dizer, transcendente, incomparável, inefável, inatingível, perfeito. Este Deus santo elegeu Israel, chamou-o, distinguiu-o entre todos os povos da terra, fez aliança com Ele. Introduzido na comunhão com Deus, Israel participa da santidade de Deus. É, portanto, um Povo à parte, separado dos outros, cuja vocação consiste na comunhão com o Deus santo.
    Esta "eleição" conduz, necessariamente, à exigência de santidade: o Povo tem de viver de acordo com determinadas regras para manter esta comunhão de vida com Deus. Daí que o Levítico apresente as leis que devem orientar a vida do Povo, a fim de que ele possa manter-se na órbita do Deus santo e testemunhar a santidade de Deus no mundo.
    Neste "código da santidade", encontramos os temas mais diversos. Uma parte significativa das leis aqui propostas dizem respeito à vida cultual (cf. Lv 17-18; 21-22); mas outras dizem respeito à vida social (cf. Lv 19).

    MENSAGEM

    O nosso texto começa com o refrão posto na boca de Deus: "sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo" (vers. 2). A comunhão com o Deus santo exige que o Povo cultive, por sua vez, a santidade. Ora, ser santo significa o quê?
    Na "lei da santidade", temos disposições que dizem respeito às mais variadas dimensões da vida; mas neste caso, em concreto, liga-se a questão da santidade com o comportamento "justo" para com os irmãos, membros da comunidade do Povo de Deus. Os membros do Povo santo são convidados a arrancar as raízes do mal que crescem no íntimo do homem, de forma a que nos seus corações não haja ódio, nem rancor contra o irmão (vers. 17-18).
    A expressão final "amarás o teu próximo como a ti mesmo" (vers. 18) resume o comportamento que a santidade exige, quanto à vida fraterna. É, na opinião do rabbi Aqiba (que viveu entre 50 e 135 d.C.), "um princípio fundamental da Lei". Jesus retomará esta afirmação (combinada com a de Dt 6,5) para exprimir o essencial da Lei de Moisés (cf. Mt 22,37-39).

    ACTUALIZAÇÃO

    • "Sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo". Porque é que o convite à santidade soa como algo de estranho para os homens de hoje? Porque uma certa mentalidade contemporânea vê os santos como extra-terrestres, seres estranhos que pairam um pouco acima das nuvens sem se misturar com os outros seus irmãos e que passam ao lado dos prazeres da vida, ocupados em conquistar o céu a golpes de renúncia, de sacrifício e de longos trabalhos ascéticos... No entanto, a santidade não é uma anormalidade, mas uma exigência da comunhão com Deus. É o "estado normal" de quem se identifica com Cristo, assume a sua filiação divina e pretende caminhar ao encontro da vida plena, do Homem Novo. A santidade é algo que está no meu horizonte diário e que eu procuro construir, minuto a minuto, sem dramas nem exaltações, com simplicidade e naturalidade, na fidelidade aos meus compromissos?

    • Como o nosso texto deixa claro, ser santo não significa viver de olhos voltados para Deus esquecendo os homens; mas a santidade implica um real compromisso com o mundo. Passa pela construção de uma vida de verdadeira relação com os irmãos; e isso implica o banimento de qualquer tipo de agressividade, de vingança, de rancor; implica uma preocupação real com a felicidade e a realização do outro ("corrigirás o teu próximo"); implica amar o outro como a si mesmo. Tenho consciência de que não posso ser santo se o amor não se derramar dos meus gestos e das minhas palavras? Tenho consciência de que não posso ser santo se vivo fechado em mim mesmo, na indiferença para com os meus irmãos (ainda que reze muito)?

    • Para que a santidade não seja uma miragem, temos de ter o cuidado de viver num contínuo processo de conversão,
    que elimine do nosso coração as raízes do mal, responsáveis pelo egoísmo, pelo ódio, pela injustiça, pela exploração.

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 102 (103)

    Refrão: O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

    Ou: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.

    Bendiz, ó minha alma, o Senhor
    e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
    Bendiz, ó minha alma, o Senhor
    e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

    Ele perdoa todos os teus pecados
    e cura as tuas enfermidades;
    salva da morte a tua vida
    e coroa-te de graça e misericórdia.

    O Senhor é clemente e compassivo,
    paciente e cheio de bondade;
    não nos tratou segundo os nossos pecados,
    nem nos castigou segundo as nossas culpas.

    Como Oriente dista do Ocidente,
    assim Ele afasta de nós os nossos pecados;
    como um pai se compadece dos seus filhos,
    assim o Senhor Se compadece dos que O temem.

    LEITURA II - 1 Cor 3, 16-23

    Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

    Irmãos:
    Não sabeis que sois templo de Deus
    e que o Espírito de Deus habita em vós?
    Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá.
    Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo.
    Ninguém tenha ilusões.
    Se alguém entre vós se julga sábio aos olhos do mundo,
    faça-se louco, para se tornar sábio.
    Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus,
    como está escrito:
    «Apanharei os sábios na sua própria astúcia».
    E ainda:
    «O Senhor sabe como são vãos os pensamentos dos sábios».
    Por isso, ninguém deve gloriar-se nos homens.
    Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro,
    o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras.
    Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.

    AMBIENTE

    Continuamos no contexto da comunidade cristã de Corinto. Depois de apresentar a "sabedoria de Deus", revelada em Jesus Cristo (sobretudo através da "loucura da cruz") e oferecida aos homens (cf. 1 Cor 1,18-2,16), Paulo constata que os coríntios ainda não acolheram essa sabedoria: mantêm-se na dimensão do homem carnal (isto é, do homem fraco, limitado, pecador, escravo das suas paixões e apetites), imaturos na fé; cultivam as divisões e os conflitos, em flagrante contradição com o que Jesus lhes ensinou; correm atrás de mestres humanos como se eles tivessem a chave da felicidade e da realização plena, esquecendo que, por detrás de Paulo ou de Apolo, está Deus (cf. 1 Cor 3,1-15). Ao viverem, ainda, de acordo com a "sabedoria do mundo", os coríntios estão a ser infiéis à sua vocação: não dão testemunho de Deus e não o tornam presente no mundo.

    MENSAGEM

    É por isso que Paulo pergunta: "Não sabeis que sois Templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" O Templo de Jerusalém é, no contexto do Antigo Testamento, a residência de Deus, o lugar por excelência da presença de Deus no meio do seu Povo. É aí que Israel encontra o seu Deus e estabelece comunhão com Ele.
    Mas agora, considera Paulo, é a comunidade cristã que é o verdadeiro Templo da nova aliança, isto é, o lugar onde Deus reside, onde ele se manifesta aos homens e onde ele oferece a salvação. Ora, ser Templo de Deus (lugar onde Deus reside no mundo e onde os homens encontram Deus) será compatível com uma existência onde a preocupação fundamental é procurar a "sabedoria do mundo"? A comunidade de Corinto pode ser Templo de Deus onde reside o Espírito e viver no conflito, na divisão, no ciúme, no confronto?
    Na segunda parte deste texto (vers. 18-23), Paulo exorta os coríntios a deixarem, definitivamente, a "sabedoria do mundo" e a pautarem a sua existência pela "sabedoria de Deus" (que é amor até ao extremo, que é dom da vida, que é cruz). E Paulo volta a recordar: a "sabedoria de Deus" parece ser loucura aos olhos do mundo; mas é nessa "loucura" que reside o segredo da vida em plenitude.
    Atenção: estas afirmações de Paulo não significam que ele seja adversário de todos os valores humanos, ou que ele imponha a renúncia à ciência e ao conhecimento; significa que, para Paulo, o verdadeiro segredo da felicidade e da realização do homem não está na ciência, na técnica, na elegância dos discursos, na definição de um esquema filosófico que explique coerentemente a vida do homem; mas está em Jesus que, ao longo de toda a sua vida e, de forma privilegiada na cruz, nos mostrou que só o amor, a doação, a entrega, o serviço, geram vida plena e fazem nascer o Homem Novo.
    A última frase do nosso texto é muito rica: "tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus" (vers. 23). Deve ser compreendida em função de 1 Cor 1,12: "cada um de vós diz: 'eu sou de Paulo; e eu de Apolo; e eu de Cefas'"... "Não é assim", esclarece Paulo. "Vós não pertenceis a estes pregadores; eles é que vos pertencem a vós, pois são vossos servidores. Eles estão ao vosso serviço para que vós descubrais Cristo e a 'loucura da cruz' e, para que por Cristo, o mediador da salvação, chegueis a Deus".

    ACTUALIZAÇÃO

    • Os cristãos são Templo de Deus, onde reside o Espírito. Isso quer dizer, em concreto, que, animados pelo Espírito, eles têm de ser o sinal vivo de Deus e as testemunhas da sua salvação diante dos homens do nosso tempo. O testemunho que damos, pessoalmente, fala de um Deus cheio de amor e de misericórdia, que tem um projecto de salvação e libertação para oferecer - sobretudo aos pobres e marginalizados, aqueles que mais necessitam de salvação? No nosso ambiente familiar, no nosso espaço de trabalho, no nosso círculo de amigos, somos o rosto acolhedor e alegre de Deus, as mãos fraternas de Deus, o coração bondoso e terno de Deus?

    • A nossa comunidade paroquial ou religiosa é uma comunidade fraterna, solidária, e que dá testemunho da "loucura da cruz" com gestos concretos de amor, de partilha, de doação, de serviço, ou é uma comunidade fragmentada, dividida, cheia de contradições, onde cada membro puxa para o seu lado, ao sabor dos interesses pessoais?

    • O que é que preside à minha vida: a "sabedoria de Deus" que é amor e dom da vida, ou a "sabedoria do mundo", que é luta sem regras pelo poder, pela influência, pelo reconhecimento social, pelo bem estar económico, pelos bens perecíveis e secundários?

    ALELUIA - 1 Jo 2, 5

    Aleluia. Aleluia.

    Quem observa a palavra de Cristo,
    nesse o amor de Deus é perfeito.

    EVANGELHO - Mt 5, 38-48

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos seus discípulos:
    «Ouvistes que foi dito aos antigos:
    'Olho por olho e dente por dente'.
    Eu, porém, digo-vos:
    Não resistais ao homem mau.
    Mas se alguém te bater na face direita,
    oferece-lhe também a esquerda.
    Se alguém quiser levar-te ao tribunal,
    para ficar com a tua túnica,
    deixa-lhe também o manto.
    Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha,
    acompanha-o durante duas.
    Dá a quem te pedir
    e não voltes as costas a quem te pede emprestado.
    Ouvistes que foi dito:
    'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo'.
    Eu, porém, digo-vos:
    Amai os vossos inimigos
    e orai por aqueles que vos perseguem,
    para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus;
    pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus
    e chover sobre justos e injustos.
    Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis?
    Não fazem a mesma coisa os publicanos?
    E se saudardes apenas os vossos irmãos,
    que fazeis de extraordinário?
    Não o fazem também os pagãos?
    Portanto, sede perfeitos,
    como o vosso Pai celeste é perfeito».

    AMBIENTE

    Continuamos com o "discurso da montanha" e com a apresentação da "nova Lei" que deve conduzir a caminhada cristã.
    Vimos, no passado domingo, como Mateus estava preocupado em definir, para os cristãos vindos do judaísmo, a relação entre Cristo e a Lei de Moisés. Os cristãos continuam obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?
    A perspectiva de Mateus é que Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à plenitude. No entanto, considera Mateus, a Lei tornou-se um conjunto de prescrições que são cumpridas mecanicamente, dentro de uma lógica casuística que, tantas vezes, não tem nada a ver com o coração e com a vida. É preciso que a Lei deixe de ser um conjunto de preceitos externos a cumprir para conquistar a salvação, para se tornar expressão de um verdadeiro compromisso com Deus e com o "Reino".
    Vimos como Mateus apresentava um conjunto de exemplos, destinados a tornar mais clara e concreta esta perspectiva. Dos seis exemplos apresentados por Mateus, quatro apareceram no Evangelho do passado domingo; para hoje, ficam os dois últimos exemplos dessa lista.

    MENSAGEM

    O primeiro exemplo que o Evangelho de hoje nos propõe (o quinto da lista) refere-se à chamada "lei de talião" (vers. 38-42). A "lei de talião", consagrada na conhecida fórmula "olho por olho, dente por dente", aparece em vários textos vétero-testamentários (cf. Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Em si, é uma lei razoável, destinada a evitar as vinganças excessivas, brutais, indiscriminadas...
    Jesus, no entanto, não se dá por satisfeito com uma lei que apenas limita os excessos na vingança, e propõe uma lógica inteiramente nova. Na sua perspectiva, não chega manter a vingança dentro de fronteiras razoáveis, mas é preciso acabar com a espiral de violência de uma vez por todas; para isso, Jesus propõe que os membros do "Reino" sejam capazes de interromper o curso da violência, assumindo uma atitude pacífica, de não resistência, de não resposta às provocações.
    Para tornar mais clara a sua proposta, Jesus apresenta quatro casos concretos. No primeiro (vers. 39), pede que não se responda com a mesma moeda àquele que nos agride fisicamente, mas que se desarme o violento oferecendo a outra face; no segundo (vers. 40), recomenda que, diante de uma exigência exorbitante (entrega da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental, que não era tirada senão àquele que era vendido como escravo - cf. Gn 37,23), se responda entregando ainda mais (a entrega da capa, vestimenta que servia para proteger dos rigores da noite e que, por isso, a própria Lei não admitia que fosse retida, senão por um dia - cf. Ex 22,25; Dt 24,12-13); no terceiro (vers. 41), exige que se acompanhe por duas milhas aquele que quer forçar-nos a acompanhá-lo por uma (provavelmente, haverá aqui uma referência a uma prática frequente das patrulhas romanas que, desorientadas, requisitavam os habitantes da Palestina para que as guiassem durante algum tempo); no quarto (vers. 42), Jesus recomenda que não se ignore, nem se deixe sem atender aquele que pede dinheiro emprestado... Este conjunto de exemplos concretos aponta numa única direcção: os membros da comunidade de Jesus devem manifestar a todos um amor sem medida, que vai muito além daquilo que é humanamente exigido. Dessa forma, eles inauguram uma nova era de relações entre os homens.
    O segundo exemplo que o Evangelho de hoje nos apresenta (o sexto da lista) refere-se ao amor aos inimigos (vers. 43-48). Jesus afirma que a Lei antiga recomendava: "ama o teu próximo e odeia o teu inimigo"... No entanto, embora haja na Lei antiga uma referência ao amor ao próximo (cf. Lv 19,18), não se refere, em lado nenhum, o ódio aos inimigos (o verbo "odiar" pode significar, nas línguas semitas, simplesmente "não amar"; no entanto, certos grupos contemporâneos de Jesus defendiam o ódio aos inimigos: a seita essénia de Qûmran, por exemplo, pregava o ódio contra os "filhos das trevas" - isto é, contra aqueles que não pertenciam à comunidade essénia e que estavam, portanto, entregues à vingança divina).
    Em qualquer caso, o amor ao próximo recomendado pela Lei havia adquirido, na época de Jesus, um sentido muito restrito: era o amor a esse próximo mais chegado que, quando muito, chegava a incluir todos os israelitas mas que não atingia, em nenhum caso, os não membros do Povo eleito. Quando muito, o amor ao próximo atingia, na visão judaica, o compatriota, aquele que pertencia à comunidade do Povo de Deus.
    O pedido de Jesus apresenta, portanto, uma verdadeira novidade e exige uma autêntica revolução das mentalidades. Para Jesus, não chega amar aquele que está próximo, aquele a quem me sinto ligado por laços étnicos, sociais, familiares ou religiosos; mas o amor deve atingir todos, sem excepção, inclusive os inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; são abatidas todas as barreiras que separam os homens.
    Qual o motivo desta exigência? É porque Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, que oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (vers. 45). O amor universal de Deus é a razão do amor que os membros do "Reino" devem oferecer a todos os homens e mulheres que Deus coloca no seu caminho. "Ser filho de Deus" significa dar testemunho do amor de Deus e parecer-se com Deus no modo de agir.
    A expressão final (&
    ldquo;sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito") parafraseia o refrão da "lei da santidade" que encontramos na primeira leitura ("sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo") e resume, de forma magnífica, o ensinamento que Mateus pretende apresentar à sua comunidade com estes seis exemplos (os quatro do passado domingo e os dois de hoje): viver na dinâmica do "Reino" exige a superação de uma perspectiva legalista e casuística, para viver em comunhão total com Deus, deixando que a vida de Deus, que enche o coração do crente, se manifeste na vida do dia-a-dia, inclusive nas relações fraternas.

    ACTUALIZAÇÃO

    • Este Evangelho recorda-me que, ao aceitar o desafio de viver em comunhão com Deus, eu sou chamado a dar testemunho da vida de Deus diante de todos os meus irmãos e a ser um sinal vivo de Deus, do seu amor, da sua perfeição, da sua santidade, no meio do mundo. Aceito esse desafio e estou disposto a corresponder-lhe?

    • A leitura que nos foi proposta coloca, mais uma vez, como cenário de fundo, as exigências do compromisso com o "Reino". Sugere que viver na dinâmica do "Reino" implica, não o cumprimento de ritos ou de leis, mas uma atitude nova, revolucionária, que resulta de um compromisso interior com Deus verdadeiramente assumido, e manifestado em atitudes concretas. Exige a superação de uma religião feita de leis, de códigos, de ritos, de gestos externos e o viver em comunhão com Deus, de tal forma que a vida de Deus encha o coração do crente e transborde em gestos de amor para com os irmãos. O que é que define a minha atitude religiosa: o cumprimento dos ritos, a letra da lei, ou a comunhão com Deus que enche o meu coração de vida nova e que depois se expressa em atitudes de amor radical para com os irmãos?

    • Jesus pede, aos que aceitaram embarcar na aventura do "Reino", a superação de uma lógica de vingança, de responder na mesma moeda, e o assumir uma atitude pacífica de não resposta às provocações, que inverta a espiral de violência e que inaugure um novo espírito nas relações entre os homens. Não é, no entanto, esta a lógica do mundo, mesmo do mundo "cristão": em nome do direito de legítima defesa ou do direito de resposta, as nações em geral e as pessoas em particular recusam enveredar por uma lógica de paz e respondem ao mal com um mal ainda maior. Como é que eu vejo a questão da violência, do terrorismo, da guerra? Tenho consciência de que a lógica da violência, da vingança, não tem nada a ver com os métodos do "Reino"? O que é que é mais questionante, interpelador e transformador: a violência das armas, ou a violência desarmada do amor?

    • Jesus pede, também, aos participantes do "Reino" o amor a todos, inclusive aos inimigos, subvertendo completamente a lógica do mundo. Como é que eu me situo face a isto? A minha atitude é a de quem não exclui nem discrimina ninguém, mesmo aqueles de quem não gosto, mesmo aqueles contra quem tenho razões de queixa, mesmo aqueles que não compreendo, mesmo aqueles que assumem atitudes opostas a tudo em que eu acredito?

    A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 7º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa...

     

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

  • Santos Francisco e Jacinta Marto

    Categoria: Santoral Santos Francisco e Jacinta Marto


    20 de Fevereiro, 2023

    Francisco Marto nasceu em 11 de Junho de 1908, em Aljustrel, Fátima, vindo a falecer também aí, no dia 4 de Abril de 1919. Muito sensível e contemplativo, Francisco orientou toda a sua oração e penitência para "consolar a Nosso Senhor". Jacinta Marto nasceu em Aljustrel, no dia 11 de Março de 1910 e faleceu em 20 de Fevereiro de 1920, no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, depois de uma longa e dolorosa doença, oferecendo todos os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo e pelo Santo Padre. Os seus restos mortais de Francisco e Jacinta repousam atualmente na Basílica da Cova da Iria. O Santo Padre João Paulo II proclamou-os beatos, em Fátima, a 13 de Maio de 2000.

    Lectio

    Primeira Leitura: 1Samuel 3, 1.3-10

    Naqueles dias, o jovem Samuel servia o Senhor sob a direção do sumo sacerdote Heli. Samuel dormia no templo do Senhor, no lugar onde se encontrava a arca de Deus. O Senhor chamou Samuel e ele respondeu: «Aqui estou». E, correndo para junto de Heli, disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Mas Heli respondeu: «Eu não te chamei; torna a deitar-te». E ele foi deitar-se. O Senhor voltou a chamar Samuel. Samuel levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Heli respondeu: «Não te chamei, meu filho; torna a deitar-te». Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor. O Senhor chamou Samuel pela terceira vez. Ele levantou-se, foi ter com Heli e disse: «Aqui estou, porque me chamaste». Então Heli compreendeu que era o Senhor que chamava pelo jovem. Disse Heli a Samuel: «Vai deitar-te; e se te chamarem outra vez, responde: 'Falai, Senhor, que o vosso servo escuta'». Samuel voltou para o seu lugar e deitou-se. O Senhor veio, aproximou-Se e chamou como das outras vezes: «Samuel, Samuel!». E Samuel respondeu: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta».

    Samuel é uma figura singular e polifacetada do Antigo Testamento: sacerdote, profeta e juiz. Vive no momento da transição da federação de tribos ao regime monárquico. A vocação de Samuel está enquadrada num cenário de simplicidade e sublimidade, de serenidade e dramatismo, de silêncio e eloquência, de quietude e dinamismo. Essa vocação acontece de noite, hora propícia à revelação. O jovem é chamado três vezes, e ainda uma quarta. Samuel pensa tratar-se de Heli, o sacerdote. Este, fazendo um discernimento da situação, coloca Samuel na presença do Senhor. O seu chamamento de Samuel, o primeiro dos profetas, tem semelhanças ao de João Baptista, o último dos profetas: ambos têm a missão de anunciar uma nova etapa da História da salvação. Ambos tiveram que sofrer a dilaceração que implica romper com uma época que se ama e que vai desaparecer, mas também a dor que acarreta a aurora de uma nova etapa.

    Evangelho: Mateus 18, 1-5.10

    Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe: «Quem é o maior no reino dos Céus?». Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos Céus. Quem for humilde como esta criança, esse será o maior no reino dos Céus. E quem acolher em meu nome uma criança como esta acolhe-Me a Mim. Vede bem. Não desprezeis um só destes pequeninos. Eu vos digo que os seus Anjos vêem continuamente o rosto de meu Pai que está nos Céus».

    O texto paralelo de Marcos (9, 33-34) faz-nos supor que o contexto imediato destes ensinamentos do Senhor é uma discussão dos discípulos sobre o lugar que cada um deveria ocupar no reino pregado por Jesus. Jesus Manda-lhes que se tornem como crianças, não tanto no que se refere à inocência, mas no que se refere à humildade: a criança não tem pretensões. A humildade cristã é fruto da alegria de ser filhos de Deus. A filiação divina requer conversão. Os discípulos, particularmente os que são chamados a ser dirigentes da comunidade cristã, devem ser humildes e comportar-se como tais. Essa atitude dá-lhes uma dignidade maior que a dos anjos, que estão ao seu serviço

    Meditatio

    "Eu te bendigo, ó Pai, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos". Com estas palavras, Jesus louva os desígnios do Pai celeste: "Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do Teu agrado". Quiseste abrir o Reino aos pequeninos. Por desígnio divino, veio do céu a esta terra, à procura dos pequeninos privilegiados do Pai, uma mulher revestida com o Sol. Fala-lhes com voz e coração de Mãe: convida-os a oferecerem-se como vítimas de reparação, oferecendo-se ela para os conduzir, seguros, até Deus. Foi então que das suas mãos maternais saiu uma luz que os penetrou intimamente, sentindo-se imersos em Deus como quando uma pessoa - explicam eles - se contempla num espelho. Mais tarde, Francisco, um dos três privilegiados, exclamava: nós estávamos a arder naquela luz que é Deus e não nos queimávamos. Como é Deus? Não se pode dizer. Isto sim que a gente não pode dizer. Deus: uma luz que arde mas não queima. A mesma sensação teve Moisés quando viu Deus na sarça-ardente. Ao beato Francisco, o que mais o impressionava e absorvia era Deus naquela luz imensa que penetrara no íntimo dos três. Na sua vida, dá-se uma transformação que poderíamos chamar radical; uma transformação certamente não comum em crianças da sua idade. Entrega-se a uma vida espiritual intensa que se traduz em oração assídua e fervorosa, chegando a uma verdadeira forma de união mística com o Senhor. Isto mesmo leva-o a uma progressiva purificação do espírito através da renúncia aos seus gostos e até às brincadeiras inocentes de criança. Suportou os grandes sofrimentos da doença que o levou à morte, sem nunca se lamentar. Grande era no pequeno Francisco, o desejo de reparar as ofensas dos pecadores, esforçando-se por ser bom e oferecendo sacrifícios e oração. E Jacinta sua irmã, quase dois anos mais nova que ele, vivia animada pelos mesmos sentimentos. Na sua solicitude materna, a Santíssima Virgem veio a Fátima, pedir aos homens para não ofenderem mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido. Dizia aos pastorinhos: Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver que se sacrifique e peça por elas. A pequena Jacinta sentiu e viveu como própria esta aflição de Nossa Senhora, oferecendo-se heroicamente como vítima pelos pecadores. Um dia - já ela e Francisco tinham contraído a doença que os obrigava a estarem de cama - a Virgem Maria veio visitá-los a casa, como conta a pequenita: Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito em breve para o céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim. E, ao aproximar-se o momento da partida do Francisco, Jacinta recomenda-lhe: Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e diz-lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem para converter os pecadores. Jacinta ficara tão impressionada com a visão do inferno, durante a aparição de treze de Julho, que nenhuma mortificação e penitência era demais para salvar os pecadores. (João Paulo II, Homilia da Missa da Beatificação de Francisco e Jacinta Marto no dia 13 de Maio 2000, em Fátima)

    Oratio

    Deus de infinita bondade, que amais a inocência e exaltais os humildes, concedei, pela intercessão da Imaculada Mãe do vosso Filho, que, à imitação dos bem-aventurados Francisco e Jacinta, Vos sirvamos na simplicidade de coração, para podermos entrar no reino dos Céus. Ámen. (Coleta da Missa).

    Contemplatio

    Jesus acolhia as crianças e abençoava-as... Os apóstolos querem afastar as crianças, mas Jesus não deixa. «Deixai-as vir a mim, diz. São semelhantes aos anjos do céu. A criança é dócil, simples, crente, obediente. Em lugar de afastardes as crianças, imitai as suas qualidades». Abraçava-as, impunha-lhes as mãos e abençoava-as. É uma curta lição de educação cristã. É preciso encorajar as crianças à piedade, abençoá-las e ensinar-lhes a rezar. Alguns dias antes, Jesus já tinha apresentado uma criança aos seus apóstolos como um modelo a imitar, porque a criança é simples, humilde, doce. «Se não tiverdes, dizia Jesus, estas disposições da infância espiritual, não entrareis no reino dos céus». E recomendava-lhes as crianças: «Quem as recebe em meu nome, recebe-me a mim, dizia. Tenho como feito a mim mesmo o que fizerem por elas. Ai daqueles que as escandalizam! Melhor seria que não tivessem nascido» (L. Dehon, OSP 4, p. 278s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "O Senhor exaltou os humildes" (Lc 1, 46).

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    Beatos Francisco e Jacinta Marto (20 Fevereiro)

  • Cadeira de S. Pedro

    Categoria: Santoral Cadeira de S. Pedro


    22 de Fevereiro, 2023

    A festa da Cadeira de S. Pedro, colocada no dia 22 de Fevereiro por um martiriológio muito antigo, é uma boa oportunidade para fazermos memória viva e atualizante do primeiro dos Apóstolos, Simão Pedro. Nascido em Cafarnaum, exercia a sua profissão de pescador quando se encontrou com Jesus de Nazaré. Deixou o trabalho, a casa e a família para seguir o Senhor. Os evangelhos deixam-nos entrever a sua personalidade simples, espontânea e simpática. Jesus escolheu-o como primeiro no grupo dos Doze. Com a festa que hoje celebramos, apoiando-nos no símbolo da cadeira, realçamos a missão de mestre e de pastor conferida a Pedro por Cristo. O Senhor fez assentar sobre ele, como sobre uma pedra, todo o edifício da Igreja.

    Primeira Leitura: 1 Pedro 5, 1-4

    Aos presbíteros que há entre vós, eu - presbítero como eles e que fui testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há-de manifestar - dirijo-vos esta exortação: 2Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, governando-o não à força, mas de boa vontade, tal como Deus quer; não por um mesquinho espírito de lucro, mas com zelo; 3não com um poder autoritário sobre a herança do Senhor, mas como modelos do rebanho. 4E, quando o supremo Pastor se manifestar, então recebereis a coroa imperecível da glória.

    O texto começa com uma autoapresentação do Apóstolo Pedro, que nos permite colher a sua identidade. Seguem-se algumas recomedações aos ansiãos que, com Pedro, carregam a honra e o peso das responsabilidades que Jesus lhe pôs sobre as costas (vv. 2s.). O Apóstolo transmite, não algo de seu, mas a missão que lhe foi confiada para ser partilhada e participada. Os que, na Igreja, são chamados a exercer um ministério hão-de deixar mover, não por interesse, mas por amor. A sua espiritualidade tem como caraterísticas o total serviço, a plena dedicação, a incondicionada fidelidade. Os que permanecerem fiéis receberão "a coroa imperecível da glória" das mãos do supremo Pastor (cf. v. 4).

    Evangelho: Mateus 16, 13-19

    Ao chegar à região de Cesareia de Filipe, Jesus fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» 14Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou algum dos profetas.»15Perguntou-lhes de novo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» 16Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.» 17Jesus disse-lhe em resposta: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu. 18Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. 19Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.»

    No nosso texto, Jesus começa por interrogar os discípulos sobre o que se diz sobre Ele. As respostas que dão são parcialmente válidas, mas inexatas. É então que Jesus interroga os discípulos sobre o que pensam dele. Responde Pedro, em nome de todos: "Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo." (v. 16). Estas palavras são uma profissão de fé total, completa, que já tem o sabor da fé pascal. Estas palavras revelam também a identidade de Pedro como crente e representante de todos os crentes.
    Na segunda parte do texto, temos temos uma série de palavras com as quais Jesus define a sua relação com Pedro e o ministério do Apóstolo em relação à Igreja (vv. 17-19). Pedro é bem-aventurado porque falou sob inspiração divina. O nome novo que Jesus dá a Pedro indica a sua missão de "pedra" fundamental e sólida do edifício que é a Igreja, a comunidade dos salvos. A entrega das chaves simboliza que é com Pedro e por meio de Pedro que Cristo realiza a salvação de todos.

    Meditatio

    «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»... «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Em nome dos Doze, Pedro responde à pergunta de Jesus, não segundo o ponto de vista dos homens, mas segundo o ponto de vista de Deus: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». Por isso, Jesus replica, proclamando-o bem-aventurado: «És feliz, Simão, filho de Jonas». Mas essa resposta é fruto de uma iluminação especial de Deus: «não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu» - diz-lhe Jesus.

    Pedro personifica a Igreja. A sua resposta será a da Igreja iluminada pelo Espírito no Pentecostes. Simão Pedro recebeu essa luz antecipadamente, por causa da missão que Cristo lhe queria confiar: «Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus, e tudo quanto ligares na terra ficará ligado nos Céus, e tudo quanto desligares na terra será desligado nos Céus" (Mt 16, 18-19).» Bento XVI comenta assim estas palavras do Senhor: «As três metáforas às quais Jesus recorre são muito claras: Pedro será o fundamento, a rocha sobre o qual se apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do reino dos céus, para abrir ou fechar a quem melhor julgar; por fim, poderá ligar ou desligar, no sentido em que poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e permanece a Igreja de Cristo. [...]

    Esta posição de preeminência que Jesus decidiu conferir a Pedro verifica-se também depois da ressurreição (Mc 16, 7; Jo, 20, 2. 4-6). [...] Pedro será, entre os Apóstolos, a primeira testemunha de uma aparição do Ressuscitado (Lc 24, 34; 1 Cor 15, 5). Este seu papel, realçado com decisão (Jo 20, 3-10), marca a continuidade entre a preeminência obtida no grupo apostólico e a preeminência que continuará a ter na comunidade que nasceu depois dos acontecimentos pascais. [...] Vários textos-chave relativos a Pedro podem ser relacionados com o contexto da Última Ceia, no decurso da qual Cristo confere a Pedro o ministério de confirmar os seus irmãos (Lc 22, 31ss.). [...] Esta contextualização do primado de Pedro na Última Ceia, no momento da instituição da Eucaristia, Páscoa do Senhor, indica também o sentido último deste primado: Pedro deve ser, para todos os tempos, o guardião da comunhão com Cristo; deve conduzir à comunhão com Cristo; deve preocupar-se por que a rede não se rompa (Jo 21, 11), para que possa perdurar a comunhão universal. Só juntos, podemos estar com Cristo, que é o Senhor de todos. A responsabilidade de Pedro é, pois, a de garantir a comunhão com Cristo pela caridade de Cristo, conduzindo à realização desta caridade na vida de todos os dias».

    Oratio

    Senhor Jesus, quero hoje dar-te graças porque fundaste a Igreja sobre a pedra que é Pedro, para que seja na terra o sinal vivo da santidade do Pai, e anuncie a todos os povos o Evangelho do reino dos céus. Como Simão Pedro, quero dizer-te: afasta-te de mim que sou pecador, mas à tua palavra lançarei as redes; porque só és o Filho do Deus vivo, só tu tens palavras de vida eterna, só tu és a rocha segura, só tu és o Senhor e o Mestre. Sou fraco, muito fraco, mas com a tua graça darei a minha vida por ti, que sabes tudo, que sabes que te amo. Ámen.

    Contemplatio

    O dedo de Deus está bem marcado no estabelecimento da Religião cristã em Roma e na sua conservação há dezanove séculos. No seu estabelecimento, porque Deus se serviu de um pobre pescador galileu estranho às ciências profanas, sem recursos e sem apoios temporais para impor o jugo do Evangelho aos espíritos mais orgulhosos que jamais existiram, aos patrícios da velha Roma todos cheios de si mesmos, orgulhosos das suas riquezas e dados à sensualidade e ao prazer. Na sua conservação, porque nem as torrentes de sangue que os tiranos fizeram correr no circo e no coliseu, nem os assaltos da heresia tão frequentemente repetidos, nem o furor nem a corrupção dos homens nem as potências dos infernos conseguiram abalar esta pedra, centro e fundamento da Religião católica. Renovemos a nossa devoção e a nossa confiança para com a Igreja romana. Sejamos dóceis a todos os seus ensinamentos, a todas as suas direções. Amemo-la, veneremo-la tanto mais quanto mais ela for atacada e combatida. Rezemos pelo Soberano Pontífice e pela Igreja. (L. Dehon, OSP 3, p. 69s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16, 18).

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    Cadeira de S. Pedro (22 Fevereiro)

  • S. Policarpo, Bispo e Mártir

    Categoria: Santoral S. Policarpo, Bispo e Mártir


    23 de Fevereiro, 2023

    S. Policarpo foi discípulo de S. João Evangelista e por ele colocado à frente da igreja de Esmirna, como bispo. Foi também amigo de S. Inácio de Antioquia, que hospedou em sua casa, quando ele se dirigia para Roma, onde viria a ser martirizado. E foi Inácio que o definiu como "bom pastor com fé inabalável" e "forte atleta por causa de Cristo". Este juízo foi totalmente confirmado no ano 155, quando o corajoso bispo de Esmirna enfrentou o martírio pelo fogo, no estádio da cidade. A sua morte trouxe para a Igreja, como o seu nome indica "muito fruto".

    Lectio

    Primeira leitura: Apocalipse 2, 8-11

    Ao anjo da igreja de Esmirna escreve: «Isto diz o Primeiro e o Último, aquele que estava morto, mas reviveu: 9'Conheço as tuas tribulações e a tua pobreza; no entanto, és rico. Também conheço as calúnias dos que se dizem judeus, mas que não são mais que uma sinagoga de Satanás. 10Não temas nada do que vais sofrer. Eis que o Diabo vai lançar alguns de vós na prisão para vos provar. Sereis atribulados durante dez dias. Sê fiel até à morte e dar-te-ei a coroa da vida.' 11Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Aquele que vence não será vítima da segunda morte.

    Cristo ressuscitado dita ao vidente do Apocalipse sete cartas para as sete igrejas da Ásia Menor, dirigindo-as aos seus "anjos", isto é, aos seus bispos. Hoje escutamos a mensagem enviada à igreja de Esmirna, que foi bem aceite por Policarpo, seu bispo na época imediatamente sucessiva à dos apóstolos. O santo bispo enfrentou corajosamente os sofrimentos, superou a provação, foi fiel até à morte. Assim se tornou participante do mistério pascal de Cristo. Depois de o celebrar durante muitos anos no sacrifício eucarístico, tornou-o visível no seu próprio corpo, pelo martírio.

    Evangelho: da féria ou do Comum

    Meditatio

    S. Policarpo teve a felicidade de conhecer e de abraçar a religião cristã desde a juventude. Foi nela instruído pelos próprios apóstolos, e particularmente por S. João evangelista, que o estabeleceu depois bispo de Esmirna. Governou a Igreja de Esmirna durante sessenta e dois anos. O brilho das suas virtudes fazia com que fosse visto como o chefe e o primeiro dos bispos da Ásia. Os fiéis reverenciavam-no, esforçavam-se por lhe tirarem os seus sapatos no regresso das suas viagens apostólicas, considerando uma graça prestarem-lhe um pequeno serviço. Formou vários discípulos, como ele mesmo tinha sido formado pelos apóstolos. Santo Ireneu, bispo de Lião, foi deste número. «Tenho ainda presente no espírito, diz este santo, a gravidade do seu caminhar, a majestade do seu rosto, a pureza da sua vida e as santas exortações com que alimentava o seu povo. Parece-me que ainda o ouço dizer como tinha conversado com S. João, e com vários outros que tinham visto Jesus Cristo, as palavras que tinha escutado das suas bocas e as particularidades que tinha aprendido dos milagres e da doutrina deste divino Salvador. Tudo o que acerca disto dizia era absolutamente conforme às divinas Escrituras, como sendo transmitido por aqueles que tinham sido as testemunhas oculares do Verbo, da palavra de vida» ... A virtude é sempre provada. Nosso Senhor, no Apocalipse, descreve as provações do nosso grande santo: «Conheço a tua tribulação e a tua pobreza - e no entanto és rico - e sei que és difamado pelos que se dizem judeus, mas não são mais do que uma sinagoga de Satanás. Não temas os sofrimentos que te esperam. O diabo vai meter alguns de vós na prisão, para serdes postos à prova; e sereis atribulados durante dez dias. Sê fiel até à morte e dar-te-ei a coroa da vida.» O povo enganado pediu a sua morte, como tinha feito para Cristo. Procuraram o santo no seu modesto quarto. Teria podido salvar-se, mas não quis. «Que se faça a vontade de Deus!», diz. Os guardas queriam persuadi-lo a oferecer incenso aos ídolos e a César para salvar a sua vida. «Não posso», disse-lhes simplesmente. Como Jesus, foi conduzido ao suplício, bruscamente e sem considerações. Caiu e levantou-se pelo caminho. No anfiteatro, ouviram uma voz do céu que dizia: «Coragem, Policarpo, sê firme!» O magistrado pressionou-o em vão para que renunciasse a Jesus Cristo. «Há oitenta e seis anos que o sirvo, diz o santo, e nunca me fez mal». O povo gritava: «É o chefe dos cristãos, o destruidor dos nossos deuses; foi ele que ensinou a muitos a não mais os adorarem". Teriam querido que o entregassem aos leões, mas o espetáculo público tinha terminado. Condenaram-no ao fogo. O povo correu a procurar madeira nas lojas e nos banhos públicos e preparou uma grande fogueira. (Leão Dehon, OSP 3, p. 92s.).
    Policarpo, segundo a palavra de Paulo, "oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus" (Rm 12, 1), fez de si mesmo, uma oblação a Deus. A eucaristia que celebrava no altar plasmou totalmente a sua vida e a sua morte. O seu martírio foi uma verdadeira celebração litúrgica.

    Oratio

    Grande santo, ajudai-me. Vós sois uma testemunha do amor do Coração de Jesus, aceso na vossa alma pelo apóstolo S. João. Ajudai-me a amar o Coração de Jesus, a imitar as suas virtudes de humildade, de mansidão, de generosidade, a sofrer com Ele e por Ele, esperando a hora de ir gozar na sua presença. (Leão Dehon, OSP 3, p. 94).

    Contemplatio

    Aconteceu a S. Policarpo o que tinha acontecido ao seu mestre S. João, o fogo do seu coração ultrapassou e extinguiu o fogo material com que o envolviam. Tinha-se entregue ao suplício. Como o quisessem pregar a um poste, disse: «Deixai-me; aquele que me dá a força para sofrer o fogo, dar-me-á a graça de permanecer firme na fogueira, sem o socorro dos vossos pregos». Contentaram-se em ligá-lo com cordas. Assim amarrado, ergueu os seus olhos ao céu e disse: «Senhor, Deus todo poderoso, dou-vos graças pelo que me haveis concedido neste dia, por entrar no número dos vossos mártires e tomar parte no cálice do vosso Cristo, a fim de que eu ressuscite para a vida eterna. Que eu seja admitido hoje com eles na vossa presença, como uma vítima de agradável odor, tal como a haveis preparado, predito e cumprido, vós que sois o verdadeiro Deus; eu vos bendigo, vos glorifico pelo pontífice eterno e celeste, Jesus Cristo vosso filho, ao qual seja dada glória, assim como a vós e ao Espírito Santo, agora e em toda a eternidade. Ámen!» Quanto disse ámen, acenderam o fogo, mas por um milagre surpreendente, a chama, em vez de consumir o santo mártir, estendeu-se à volta dele como a vela de um barco enfunada pelo vento. Os pagãos, vendo que o fogo se recusava a servi-los, mandaram ferir o santo com um golpe de espada e o seu sangue extinguiu a fogueira. (Leão Dehon, OSP 3, p. 93s.).

    Actio

    Repete muitas vezes e vive hoje a palavra:
    "Recebei-me, Senhor, como oblação de suave odor" (S. Policarpo).

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    S. Policarpo, Bispo e Mártir (23 Fevereiro)

  • 08º Domingo do Tempo Comum - Ano A

    Categoria: Dominical 08º Domingo do Tempo Comum - Ano A


    26 de Fevereiro, 2023

    ANO A
    8º Domingo do Tempo Comum

    Tema do 8º Domingo do Tempo Comum

    A liturgia deste 8º Domingo do Tempo Comum propõe-nos uma reflexão sobre as nossas prioridades. Recomenda que dirijamos o nosso olhar para o que é verdadeiramente importante e que libertemos o nosso coração da tirania dos bens materiais. De resto, o cristão não vive obcecado com os bens mais primários, pois tem absoluta confiança nesse Deus que cuida dos seus filhos com a solicitude de um pai e o amor gratuito e incondicional de uma mãe.
    O Evangelho convida-nos a buscar o essencial (o "Reino") por entre a enorme bateria de coisas secundárias que, dia a dia, ocupam o nosso interesse. Garante-nos, igualmente, que escolher o essencial não é negligenciar o resto: o nosso Deus é um pai cheio de solicitude pelos seus filhos, que provê com amor às suas necessidades.
    A primeira leitura sublinha a solicitude e o amor de Deus, desta vez recorrendo à imagem da maternidade: a mãe ama o filho, com um amor instintivo, avassalador, eterno, gratuito, incondicional; e o amor de Deus mantém as características do amor da mãe pelo filho, mas em grau infinito. Por isso, temos a certeza de que Ele nunca abandonará os homens e manterá para sempre a aliança que fez com o seu Povo.
    Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Corinto a fixarem o seu olhar no essencial (a proposta de salvação/libertação que, em Jesus, Deus fez aos homens) e não no acessório (os veículos da mensagem).

    LEITURA I - Is 49, 14-15

    Leitura do Livro do Êxodo

    Sião dizia:
    «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim».
    Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta
    e não ter compaixão do filho das suas entranhas?
    Mas ainda que ela se esqueça,
    Eu não te esquecerei.

    AMBIENTE

    A primeira leitura apresenta-nos, hoje, um trecho do Deutero-Isaías, o profeta da esperança. O Deutero-Isaías é um profeta que exerce a sua missão entre os exilados judeus na Babilónia, na fase final do Exílio (por volta de 550/540 a.C.); a sua missão consiste em consolar um povo decepcionado e desiludido, porque a libertação tarda. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, "Livro da Consolação".
    A mensagem de "consolação" do Deutero-Isaías desenrola-se à volta de duas grandes coordenadas: na primeira (cap. 40-48), o profeta anuncia a libertação do cativeiro e um "novo êxodo" do Povo de Deus em direcção à Terra Prometida; na segunda (cap. 49-55), o profeta fala aos exilados da reconstrução e da restauração de Jerusalém.
    O nosso texto pertence à segunda parte. Faz parte de um quadro com três cenas (cf. Is 49,14-26), nas quais Jahwéh responde às questões postas por Jerusalém (aqui apresentada na figura de uma mulher). Na primeira (Is 49,14-20), Jahwéh procura demonstrar que não esqueceu nem abandonou Sião; na segunda (Is 49,21-23), Jahwéh promete o regresso dos exilados; na terceira (Is 49,24-26), respondendo à questão da viabilidade desse projecto, Jahwéh, o poderoso de Jacob, o "goel" ("vingador") de Israel, garante a sua concretização.
    O Exílio na Babilónia representa uma experiência bem dramática, que abala a fé e as convicções mais profundas do Povo de Deus. O drama nem reside tanto na derrota e no exílio em si; mas reside, sobretudo, no desmoronamento de todas as certezas e de todas as convicções em que o Povo se apoiava. Porque é que Deus permitiu a derrota e o exílio? Jahwéh abandonou o seu Povo? O Senhor rompeu a aliança que fizera com Israel? Ainda mais: Jerusalém, a cidade do Templo e, portanto, o lugar da residência de Deus no meio do seu Povo, foi reduzida a um montão de ruínas. Pode, ainda, confiar-se em Jahwéh? Porque é que Ele não protegeu nem salvou a sua morada? Ele não tinha feito uma aliança eterna com o seu Povo? A aliança continua válida, ou Deus abandonou para sempre o seu Povo?

    MENSAGEM

    O profeta/poeta põe na boca da "mulher" Jerusalém (o nome "Sião" é sinónimo de Jerusalém; e a mulher/Jerusalém representa, na linguagem profética, a mulher/Povo de Deus) um lamento sentido porque, depois de quarenta anos, continua reduzida a ruínas e Jahwéh não parece ter qualquer plano para trazer de novo à sua cidade o esplendor antigo.
    "O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim" (vers. 14). Tanto o verbo "abandonar" como o verbo "esquecer" situam-nos no âmbito da aliança: são utilizados na literatura profética para definir o quadro da infidelidade de Israel em relação a Deus (cf. Jr 22,9; Os 2,15; 8,14; 13,6; Is 17,10; Jr 2,32; 13,25...). Sugerem, portanto, que Jahwéh abandonou a aliança e repudiou a sua esposa (Israel). A ideia que está por detrás deste versículo parece ser a seguinte: já que Israel abandonou Jahwéh e enveredou por caminhos de pecado e de injustiça, Deus repudiou o seu Povo e rompeu definitivamente a aliança. Isto será verdade? É desta forma que as coisas se passam? O amor de Deus segue a lógica do "olho por olho, dente por dente"?
    Ao lamento de Sião, Deus responde de forma dramática: pode uma mãe abandonar a criança que amamenta e a quem ama ternamente? (vers. 15).
    Para definir o amor da mãe pelo filho, o profeta utiliza o verbo "raham" ("amar ternamente"). Ele expressa o apego quase instintivo de um ser a outro, um amor que vem das "entranhas" ("rehem": "entranhas"), um amor especial e gratuito que nenhuma vicissitude pode destruir e que é feito de ternura, de misericórdia, de compaixão, de fidelidade, de eternidade. Este amor encontra, de facto, a sua expressão mais feliz no amor que a mãe tem pelo seu filho, pois da unidade que liga a mãe ao filho, brota uma particular ligação com ele, um amor especial que é total, absoluto, único, avassalador, gratuito e não fruto de qualquer merecimento.
    A pergunta é, portanto, retórica: é evidente que uma mãe que ama o filho não o pode esquecer... No entanto, mesmo que por hipótese absurda isso acontecesse, Deus não esqueceria o seu Povo e a sua cidade. A conclusão é óbvia: Deus ama o seu Povo, ainda mais do que uma mãe ama o seu filho. Como o amor da mãe, também o amor de Deus é ternura, misericórdia, compreensão, bondade, amor inquebrantável e eterno, apego instintivo e gratuito; mas o amor de Deus por Israel é tudo isso em grau infinito.
    O amor total, inquebrantável, eterno, que Deus tem pelo seu Povo traduz-se, concretamente, na aliança. Não têm, portanto, qualquer razão de ser os lamentos da cidade/Povo: a aliança não acabou nem acabará, pois Jahwéh não cessou nem cessará nunca de amar o seu Povo.

    ACTUALIZAÇÃO

    A refle
    xão pode partir das seguintes pistas:

    • A um Povo que vive numa situação dramática de frustração, de desorientação, de total incerteza em relação ao futuro, que olha à volta e não vê Deus presente na sua caminhada, que começa a duvidar do amor e da fidelidade de Deus, o profeta diz: "não desanimeis: apesar da aparente ausência, Deus ama-vos ainda mais do que uma mãe ama o filho; por isso, Ele continua comprometido convosco, continua a percorrer convosco esse caminho histórico que, dia a dia, vos leva ao encontro da vida plena". É uma mensagem eterna, consoladora e repousante... Num mundo em que as referências se alteram rapidamente, em que o futuro é incerto e a humanidade não sabe exactamente para onde caminha, em que o terrorismo, a guerra, as ameaças ambientais, o totalitarismo dos bens materiais ameaçam o frágil equilíbrio da humanidade, somos convidados a descobrir o amor materno de Deus, a sua solicitude nunca desmentida, a sua presença protectora. Temos medo de quê, se Deus é a mãe que nos ama de forma absoluta, que vigia o berço onde nós dormimos, que vela e nos serena com a sua presença e a sua solicitude maternal?

    • A fotografia de Deus que o profeta nos apresenta convida-nos a descobrir um Deus que não é interesseiro, chantagista, negociante... O nosso Deus é um Deus que nos ama, gratuitamente, de forma absoluta e eterna - como uma mãe ama o filho, mesmo quando ele é rebelde. Qual é, na verdade, o Deus em quem acreditamos?

    • O amor de Deus não é condicional e não espera nada em troca. É este amor desinteressado que procuramos testemunhar, ou os nossos gestos de bondade, de amizade, de misericórdia são um negócio em que esperamos ganhar?

    SALMO RESPONSORIAL - Salmo 61 (62)

    Refrão: Só em Deus descansa, ó minha alma.

    Só em Deus descansa a minha alma,
    d'Ele me vem a salvação.
    Ele é meu refúgio e salvação,
    minha fortaleza: jamais serei abalado.

    Minha alma, só em Deus descansa:
    d'Ele vem a minha esperança.
    Ele é meu refúgio e salvação,
    minha fortaleza: jamais serei abalado.

    Em Deus está a minha salvação e a minha glória,
    o meu abrigo, o meu refúgio está em Deus.
    Povo de Deus, em todo o tempo ponde n'Ele a vossa confiança,
    desafogai em sua presença os vossos corações.

    LEITURA II - 1 Cor 4, 1-5

    Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

    Irmãos:
    Todos nos devem considerar como servos de Cristo
    e administradores dos mistérios de Deus.
    Ora o que se requer nos administradores é que sejam fiéis.
    Quanto a mim, pouco me importa
    ser julgado por vós ou por um tribunal humano;
    nem sequer me julgo a mim próprio.
    De nada me acusa a consciência,
    mas não é por isso que estou justificado:
    quem me julga é o Senhor.
    Portanto, não façais qualquer juízo antes do tempo,
    até que venha o Senhor,
    que há-de iluminar o que está oculto nas trevas
    e manifestar os desígnios dos corações.
    E então cada um receberá da parte de Deus
    o louvor que merece.

    AMBIENTE

    O texto que nos é proposto como segunda leitura é a parte final da argumentação de Paulo sobre a questão das divisões na comunidade de Corinto (cf. 1 Cor 1,10-4,21). Os coríntios transportaram para a comunidade cristã os esquemas das escolas filosóficas gregas, elegeram os seus mestres preferidos (seduzidos pelo brilho do discurso e pela elegância das palavras), dividiram-se em grupos, cada um deles com o seu guia e o seu mentor... Dessa forma, a fé cristã corria o risco de se transformar numa aposta em pessoas, em linguagens, em filosofias, em lugar de se tornar uma adesão a uma proposta de salvação apresentada por Jesus. Diante disto, Paulo sente que tem de dar um "murro na mesa", pois é a essência da experiência cristã que está a ser adulterada.

    MENSAGEM

    Paulo não utiliza meias palavras: os mensageiros do Evangelho são apenas "servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus" (vers. 1). Eles não são os protagonistas da mensagem; são, apenas, os veículos de que Deus se serve, a fim de que a sua Boa Nova chegue aos homens. A missão destes veículos da Palavra não é colocar-se no centro do palco e atrair sobre si próprios a atenção das multidões; mas é levar os homens a aderir ao Evangelho e a acolher a proposta de salvação que, em Jesus, Deus lhes faz.
    De resto, os mensageiros da Palavra não devem estar preocupados com a forma como as pessoas os vêem, mas devem apenas preocupar-se em transmitir, com fidelidade, a proposta de Deus (vers. 2).
    Por sua parte, Paulo está de consciência tranquila. Ele nunca usou o Evangelho para servir interesses próprios ou para promover a sua pessoa. Não lhe interessa se os coríntios acharam ou não brilhantes as suas palavras. Ele apenas procurou anunciar o Evangelho com integridade, com verdade e sem adoçar a mensagem. A este respeito, os coríntios podem julgá-lo da forma que entenderem; a Paulo só interessa o juízo de Deus.

    ACTUALIZAÇÃO

    Para a reflexão, considerar os seguintes dados:

    • A reflexão de Paulo convida-nos, em primeiro lugar, a tomar consciência daquilo que é essencial na nossa fé: a proposta de salvação/libertação que, em Jesus, Deus oferece aos homens. É isso e apenas isso que deve atrair o nosso olhar e encher o nosso coração. Não convém perder isto de vista: o cristianismo não é a adesão a uma determinada filosofia ou estilo de vida, nem a aceitação de uma moda que agora está "in" mas a qualquer momento pode ficar "out"; mas é o abrir o coração à oferta de salvação que, em Jesus, Deus nos faz.

    • Portanto, não interessam muito os "invólucros", através dos quais a proposta de salvação de Deus nos chega: se o padre é simpático ou não, se o seu discurso é cativante ou não, se temos razões de queixa contra ele ou não, se ele tem muitos defeitos ou muitas virtudes... O essencial é a mensagem; os mensageiros são apenas veículos mais ou menos imperfeitos dessa mensagem eterna.

    • Os veículos da mensagem - sejam eles padres ou leigos - devem ter consciência de que não estão a anunciar-se a si próprios... Por isso, devem evitar atrair sobre si as luzes da ribalta; devem apresentar a proposta salvadora de Deus com fidelidade e coerência - sem adoçar as palavras e sem procurar fazer jogos de "charme"; devem assumir-se como discretos e fiéis "servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus".

    • Paulo refere o seu desinteresse em relação ao julgame
    nto dos homens; só lhe interessa o julgamento de Deus. Estas palavras, no entanto, não podem servir para justificar comportamentos arbitrários ou prepotentes por parte dos animadores das comunidades cristãs ("faço o que me apetece e não tenho de dar satisfações a ninguém"...). Devem ser entendidas no contexto em que se apresentam: Paulo está, apenas, a dizer que não lhe interessam os juízos dos homens acerca do seu jeito para brilhar com as palavras; só lhe interessa ser fiel à missão que Deus lhe confiou.

    ALELUIA - Heb 4, 12

    Aleluia. Aleluia.

    A palavra de Deus é viva e eficaz,
    conhece os pensamentos e intenções do coração.

    EVANGELHO - Mt 6, 24-34

    Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

    Naquele tempo,
    disse Jesus aos seus discípulos:
    «Ninguém pode servir a dois senhores,
    porque ou há-de odiar um e amar o outro,
    ou se dedicará a um e desprezará o outro.
    Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.
    Por isso vos digo:
    «Não vos preocupeis, quanto à vossa vida,
    com o que haveis de comer ou de beber,
    nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir.
    Não é a vida mais do que o alimento
    e o corpo mais do que o vestuário?
    Olhai para as aves do céu:
    não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros;
    o vosso Pai celeste as sustenta.
    Não valeis vós muito mais do que elas?
    Quem de entre vós, por mais que se preocupe,
    pode acrescentar um só côvado à sua estatura?
    E porque vos inquietais com o vestuário?
    Olhai como crescem os lírios do campo:
    não trabalham nem fiam;
    mas Eu vos digo:
    nem Salomão, em toda a sua glória,
    se vestiu como um deles.
    Se Deus assim veste a erva do campo,
    que hoje existe e amanhã é lançada ao forno,
    não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
    Não vos inquieteis, dizendo:
    'Que havemos de comer? Que havemos de beber?
    Que havemos de vestir?'
    Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas.
    Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso.
    Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça,
    e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
    Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã,
    porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações.
    A cada dia basta o seu cuidado».

    AMBIENTE

    Estamos, ainda, no contexto do "sermão da montanha" (cf. Mt 5-7). Jesus continua aqui a apresentar a "nova Lei" (como, no Antigo Testamento, Deus apresentou ao seu Povo, na montanha do Sinai a antiga Lei) que deve guiar a comunidade cristã na sua caminhada histórica.
    O Evangelho que hoje nos é proposto começa com um "dito" de Jesus (vers. 24) que, em rigor, faz parte da secção anterior (cf. Mt 6,19-24: é aí que aparecem os "ditos" ou "sentenças" de Jesus que advertem os discípulos para o uso das riquezas). Depois, na sequência, Mateus apresenta uma "instrução" (vers. 25-34), na qual se procura definir (a partir das lições das "sentenças" anteriores) a atitude vital e o caminho do cristão.

    MENSAGEM

    O "dito" do vers. 24 afirma a incompatibilidade entre o amor a Deus e o amor aos bens materiais (o termo utilizado por Mateus - "mamonas" - personifica o dinheiro como um poder que domina o mundo). Qual a razão dessa incompatibilidade?
    Em primeiro lugar, Deus deve ser o centro à volta do qual o homem constrói a sua existência, o valor supremo do homem... Mas, sempre que a lógica do "ter" domina o coração, o dinheiro ocupa o lugar de Deus e passa a ser o ídolo a quem o homem tudo sacrifica. O verdadeiro Deus passa, então, a ocupar um lugar perfeitamente secundário na vida do homem; e o dinheiro - ídolo exigente, ciumento, exclusivo, que não deixa espaço para qualquer outro valor - é promovido à categoria de motor da história e de referência fundamental para o homem.
    Em segundo lugar, o amor do dinheiro fecha totalmente o coração do homem num egoísmo estéril e não deixa qualquer espaço para o amor aos irmãos. O homem deixa de ter lugar, na sua vida, para aqueles que o rodeiam; e, por amor do dinheiro, torna-se injusto, prepotente, corrupto, explorador, auto-suficiente...
    Na "instrução" (vers. 25-34) que se segue aos "ditos" sobre a riqueza, Mateus procura responder às seguintes questões: como deve ser ordenada a hierarquia de valores dos discípulos de Jesus? Os membros da comunidade cristã não se devem preocupar minimamente com as suas necessidades básicas?
    Para os discípulos de Jesus, o "Reino" deve ser o valor mais importante, a principal prioridade, a preocupação mais séria, aquilo que dia a dia "faz correr" o homem e que domina todo o seu horizonte ("procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça").
    E as preocupações mais "primárias" da vida do homem: a comida, a bebida, a roupa, a segurança? São valores secundários, que não devem sobrepor-se ao "Reino". De resto, não precisamos de viver obcecados com essas coisas, pois o próprio Deus Se encarregará de suprir as necessidades materiais dos seus filhos ("tudo o mais vos será dado por acréscimo" - ver. 33). Aliás, quem aceita o desafio do "Reino" descobre rapidamente que Deus é esse Pai bondoso que preside à história humana, que cuida dos seus filhos, que vela por eles com amor, que conhece as suas necessidades: se Deus, cada dia, veste de cores os lírios do campo e alimenta quotidianamente as aves do céu, não fará o mesmo - ou até mais - pelos homens?
    O crente que escolheu o "Reino" passa, então, a viver nessa serena tranquilidade que resulta da confiança absoluta no Deus que não falha.
    A proposta de Jesus será um convite a viver na alegre despreocupação, na inconsciência, na passividade, no comodismo, na indiferença? Não. As palavras de Jesus são um convite a pôr em primeiro lugar as coisas verdadeiramente importantes (o "Reino"), a relativizar as coisas secundárias (as preocupações exclusivamente materiais) e, acima de tudo, a confiar totalmente na bondade e na solicitude paternal de Deus. De resto, viver na dinâmica do "Reino" não é cruzar os braços à espera que Deus faça chover do céu aquilo de que necessitamos; mas é viver comprometido, trabalhando todos os dias, a fim de que o sonho de Deus - o mundo novo da justiça, da verdade e da paz - se concretize.

    ACTUALIZAÇÃO

    A actualização da Palavra pode fazer-se a partir das seguintes linhas de reflexão:

    • A primeira grande questão que, neste texto, Jesus nos coloca é a questão das nossas prioridades. Di
    a a dia somos bombardeados com um conjunto de propostas mais ou menos aliciantes, que nos oferecem a chave da felicidade e da vida plena: o dinheiro, o êxito profissional, a progressão na carreira, a beleza física, os aplausos das multidões, o poder... E estes ou outros valores semelhantes - servidos por técnicas de publicidade enganosa - tornam-se o "objectivo final" na vida de tantos dos nossos contemporâneos. No entanto, Jesus garante-nos que a vida plena não está aqui e que, se estes valores se tornam a nossa prioridade fundamental, a nossa vida terá sido um tremendo equívoco. Para Jesus, é no "Reino" - isto é, na aposta incondicional em Deus e no acolhimento do seu projecto de salvação/libertação - que está o segredo da nossa realização plena. Quais são as minhas prioridades? Em que é que eu tenho apostado incondicionalmente a minha vida?

    • As propostas equívocas de felicidade criam, muitas vezes, desorientação e confusão. Ao encherem o coração do homem de ídolos com pés de barro, afastam o homem de Deus e deixam-no perdido e sem referências, só diante de um mundo hostil - como criança perdida, indefesa, impotente. Jesus lembra-nos, porém, que Deus é um Pai cheio de solicitude e de amor, permanentemente atento às necessidades dos filhos (Ele até veste os lírios do campo e alimenta as aves do céu...). Ele convida-nos a colocar a nossa confiança e a nossa esperança nesse Pai que nos ama e a enfrentar o dia a dia com essa serena confiança que nos vem da certeza de que Deus é nosso Pai, conhece as nossas dores e necessidades e nos pega ao colo nos momentos mais dramáticos da nossa caminhada.

    • A referência à incompatibilidade entre Deus e o dinheiro convida-nos a uma particular reflexão neste campo... O dinheiro é, hoje, o verdadeiro centro do poder no mundo. Ele compra consciências, poder, bem-estar, projecção social, reconhecimento e até compra amor. Por ele mata-se, calcam-se aos pés os valores mais fundamentais, renuncia-se à própria dignidade, envenena-se o ambiente (que interessa o buraco do ozono, a poluição dos rios, o desaparecimento das florestas, se isso fizer mais ricos os donos do mundo...), escravizam-se os irmãos. Quando a lógica do "ter mais" entra no coração do homem e o domina, o homem torna-se escravo e, por sua vez, leva a escravidão aos outros homens. Torna-se injusto, prepotente e explorador, passa indiferente ao lado dos irmãos que vivem abaixo do limiar da dignidade humana, deixa de ter tempo para gastar com aqueles que ama (o amor do dinheiro sobrepõe-se a todos os outros amores), relega Deus para a lista dos valores secundários, acha o "Reino" proposto por Jesus "uma absurda quimera". Como nos situamos face a isto? Se tivermos que optar (não em termos teóricos, mas nas situações concretas da vida) entre o dinheiro e os valores do "Reino", qual é que escolhemos?

    A LITURGIA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.
    Ao longo dos dias da semana anterior ao 8º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo... Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa...

     

     

    UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
    PROPOSTA PARA
    ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA NAS COMUNIDADES DEHONIANAS
    Grupo Dinamizador:
    P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho
    Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
    Rua Cidade de Tete, 10 - 1800-129 LISBOA - Portugal
    Tel. 218540900 - Fax: 218540909
    portugal@dehonianos.org - www.dehonianos.org

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