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Os conselhos evangélicos de obediência, pobreza e castidade aparecem tradicionalmente como os gestos significativos e constitutivos da vida consagrada. Neste contexto, o paradigma da «ecologia integral» lança uma nova luz sobre eles, chamando a nossa atenção para dimensões que podiam estar ofuscadas ou pouco valorizadas. Ao mesmo tempo, permite olhá-los como «trilhos ecológicos» que conduzem, de uma forma construtiva e saudável, ao amor respeitoso e à ternura, a maior liberdade interior, e à sobriedade e gratuidade.

A vida consagrada, vivida numa relação simples e profunda com Deus, não rouba a alegria nem a felicidade; não elimina a possibilidade de viver relações profundas e significativas com os irmãos e as irmãs do mundo inteiro; não nos proíbe o uso dos bens da Terra. Nunca é demais repetir isto, pois nem sempre tem sido evidente! A vida consagrada é um «caminho ecológico» para uma vida mais integrada e integradora, que não esquece as relações fundamentais que constituem cada ser humano, mas que lhe dá precisamente o espaço adequado e o terreno fértil para o seu aprofundamento gradual. Cada comunidade religiosa torna-se, assim, um pequeno «ecossistema» que vive fecundamente a relação com Deus, com os irmãos e com a natureza. Isto acontece na oração, na vida comunitária, ou em qualquer outra das dimensões que dão corpo a essa comunidade.

Importa trazer à memória que a teologia dos conselhos evangélicos e a própria espiritualidade da consagração se fundamentaram, ao longo do tempo, num dualismo antropológico. Este dualismo antropológico não só espiritualizou o seguimento de Jesus Cristo casto, pobre e obediente, como também deu origem a uma visão dos conselhos evangélicos exageradamente compartimentada, diluindo assim a sua integração dinâmica e a complementaridade entre eles.

Felizmente, a teologia hoje está a assumir uma visão mais ecológica e holística da realidade, a partir da qual estamos chamado a re-imaginar a vida religiosa como uma forma orgânica de vida e contextualizar a consagração religiosa no amor a Jesus Cristo. Uma recta vivência dos conselhos evangélicos conduz necessariamente à conversão ecológica, sem esquecer que, se esta dimensão é hoje exigida com mais intensidade e urgência, ela sempre fez parte deste carisma eclesial. Efectivamente, viver os conselhos evangélicos é um caminho que não se limita a superar a concupiscência, mas sobretudo se mostra capaz de estabelecer relações gratuitas, oblativas e livres.

Deste modo, estamos perante uma eco-espiritualidade que cura pela raiz o vício consumista do «usa e deita fora» e o narcisismo doentio daqueles que utilizam o próximo sem o sentir como um irmão. Esta espiritualidade ecológica capacita ainda para escutar o grito da terra e o grito dos pobres (ob-audire: obediência), não lhes permanecendo nunca indiferentes ou insensíveis.

 

José Domingos Ferreira, scj