Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano C [atualizado]

ANO C

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

Tema da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, a Palavra de Deus fala-nos da Eucaristia, o alimento que Jesus nos deixou como fonte de vida. Quando comungamos o pão e o vinho, corpo e sangue de Jesus, acolhemos em nós a vida e o amor de Jesus. Aprofundamos, além disso, os laços que nos ligam a Jesus e a todos os irmãos que se se sentam connosco à mesa da Eucaristia.

A primeira leitura traz-nos um episódio das “tradições patriarcais”. Conta como Melquisedec, rei e sacerdote de Salém (Jerusalém), veio ao encontro de Abraão trazendo pão e vinho, se sentou com ele à mesa e o abençoou. A catequese cristã viu em Melquisedec uma prefiguração de Jesus, o sacerdote eterno que veio de Deus para oferecer no altar o pão e o vinho, seu corpo e seu sangue.

No Evangelho Jesus divide cinco pães e dois peixes com uma multidão esfomeada. Os gestos feitos por Jesus nesse dia num “local deserto” perto de Betsaida, antecipam os gestos que Ele irá fazer na última ceia, na véspera da sua morte, quando partir e partilhar o pão e o vinho com os discípulos. “Partir”, “partilhar”, “dar” é uma bela forma de resumir toda a vida de Jesus. Assim vivem os que estão com Ele e se alimentam d’Ele.

A segunda leitura oferece-nos o mais antigo relato dos gestos que Jesus fez na última ceia sobre o pão e sobre o vinho. Paulo de Tarso, o autor deste relato, avisa-nos que “comer o pão” e “beber o vinho” de Jesus significa compromisso com Jesus e com a sua maneira de viver e de amar. Comungar o corpo e o sangue de Jesus é, por isso, incompatível com tudo o que signifique divisão, conflito, discórdia, desprezo pelos irmãos mais pobres e mais pequenos.

 

LEITURA I – Génesis 14,18-20

Naqueles dias,
Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho.
Era sacerdote do Deus Altíssimo
e abençoou Abraão, dizendo:
«Abençoado seja Abraão pelo Deus Altíssimo,
criador do céu e da terra.
Bendito seja o Deus Altíssimo,
que entregou nas tuas mãos os teus inimigos».
E Abraão deu-lhe a dízima de tudo.

 

CONTEXTO

A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se dá o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Nesses capítulos aparecem, de forma indiferenciada, “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), histórias sobre as vicissitudes diárias dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o segundo milénio, e ainda reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.

Os clãs referidos nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, de Isaac, de Jacob e de Lot, grupos vagamente aparentados que mais tarde, numa fase posterior da história, aparecem ligados por laços “familiares” – viajavam de lugar em lugar à procura de pastos para os seus rebanhos. Transportavam com eles diversos sonhos e expetativas. Sonhavam encontrar uma terra fértil e com água abundante, onde pudessem instalar-se e descansar, fugindo aos perigos e às incertezas da vida nómada.

No relato que a liturgia deste dia nos apresenta como primeira leitura referem-se dois desses clãs: o de Abraão e o de Lot. São dois grupos oriundos da Mesopotâmia, que na primeira metade do 2º milénio a.C. emigraram para a terra de Canaã. As tradições patriarcais apresentam Lot como sobrinho de Abraão. Lot é o ancestral dos amonitas e moabitas, povos aparentados com os israelitas. Segundo as tradições patriarcais do livro do Génesis, o clã de Lot estabeleceu-se na zona do vale do Jordão, “erguendo as suas tendas até Sodoma” (cf. Gn 13,5-13). Supõe-se que, por essa altura, Sodoma e Gomorra eram ainda terras férteis (cf. Gn 13,10), que ainda não tinham sofrido o cataclismo que, mais tarde, as atingiu (cf. Gn 19).

Conflitos entre reis locais fizeram com que, pouco depois de se ter estabelecido em Sodoma, Lot fosse feito prisioneiro por Cadorlaomer, rei de Elam, e seus aliados (cf. Gn 14,1-12). Mas Abraão correu em auxílio de Lot e libertou-o (cf. Gn 14,13-16). Quando regressava dessa campanha militar, Abraão encontrou-se com uma das figuras mais enigmáticas de todo o Antigo Testamento: Melquisedec, rei de Salém.

 

MENSAGEM

Este Melquisedec, que irrompe subitamente na história de Abraão, é apresentado como rei de Salém e sacerdote “do Deus Altíssimo” (no texto, “El ‘Elión”). O nome “Salém” deve ser identificado com “Jerusalém” (cf. Sl 76,3). Melquisedec seria, portanto, um rei pré-israelita da cidade de Jerusalém. Juntava à realeza funções sacerdotais: a acumulação na mesma pessoa da realeza e do sacerdócio não era rara no antigo Médio Oriente. Sabemos, inclusive por documentos extra-bíblicos, que “El ‘Elión” (o “Deus Altíssimo”) que Melquisedec servia, era a divindade adorada na região de Jerusalém na época pré-israelita. O Salmo 110 liga a tradição sobre Melquisedec com o trono de David, alguns séculos depois estabelecido em Jerusalém. Melquisedec é, ainda, referido na Carta aos Hebreus como um sacerdote “sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, que permanece sacerdote para sempre” (Heb 7,3); e, para o pregador cristão que nos legou a bela “homilia” que é a Carta aos Hebreus, Jesus é um sacerdote à maneira de Melquisedec, “da ordem de Melquisedec” (Heb 7,11.17), que veio ocupar o trono do seu pai David.

Ora, Melquisedec veio ao encontro de Abraão nos arredores de Jerusalém. Trouxe consigo pão e vinho para partilhar com Abraão (vers. 18). Esse pão e esse vinho serviram à gente de Abraão para retemperar as forças. Depois Melquisedec, assumindo as suas funções sacerdotais, abençoou Abraão: “abençoado seja Abraão pelo Deus Altíssimo, criador do céu e da terra. Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou nas tuas mãos os teus inimigos” (vers. 19-20a). Abraão, abençoado pelo sacerdote-rei Melquisedec, é agora portador de uma força que lhe vem de Deus. O relato refere ainda que Abraão, após receber a “bênção”, deu a Melquisedec a “dízima” dos bens que trazia, o que implica o reconhecimento de um direito de propriedade e de supremacia.

Porque é que a liturgia da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo nos propõe este estranho episódio das velhas tradições patriarcais? Antes de mais porque a catequese cristã sempre viu em Melquisedec uma prefiguração de Jesus, o sacerdote eterno que veio de Deus para oferecer no altar o pão e o vinho, seu corpo e seu sangue. Depois, porque a entrega do pão e do vinho para alimentar o grupo faminto de Abraão, de alguma forma prefigura a Eucaristia, a entrega que Cristo faz do seu corpo e do seu sangue para saciar a fome de vida que os homens sentem. Finalmente porque esse banquete de pão e de vinho que une à mesma mesa a gente de Salém e a gente de Abraão prefigura a mesa eucarística, à volta da qual se sentarão, em plena comunhão, pessoas de todas as raças e culturas.

 

INTERPELAÇÕES

  • Melquisedec, o sacerdote do Deus Altíssimo que abençoa Abraão, prefigura e anuncia Jesus, o sacerdote eterno, que veio ligar-nos a Deus e trazer-nos a vida de Deus. É através de Jesus que a vida de Deus nos atinge, nos alimenta, nos conforta e nos renova. Jesus é a nossa ponte para a vida eterna, para a vida verdadeira. Vivemos num tempo em que o projeto de Jesus parece, para muitos dos nossos contemporâneos, pouco praticável, de uma ingenuidade perigosa, sem resposta para os problemas que enfrentamos, desfasado da modernidade e dos seus desafios… E, sendo assim, não é fácil termos Jesus como a nossa grande referência, como aquele que nos aponta o caminho que leva à vida verdadeira. O que “vale” Jesus para nós, homens e mulheres do séc. XXI? Ele ainda é, para nós, o único e verdadeiro sacerdote, aquele que nos liga ao Pai e que nos faz chegar a vida de Deus? Consideramos que vale a pena continuar a olhar para Jesus, a escutar atentamente as suas palavras, a aprender com os seus gestos, a sonhar o seu sonho do Reino de Deus? Vale a pena continuarmos, todos os domingos, a sentarmo-nos com Ele à mesa da Eucaristia para recebermos o pão e o vinho com que Ele nos alimenta e nos dá vida?
  • Melquisedec, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, leva pão e vinho para o banquete com Abraão e a sua gente. Ele sabia que o pão que Deus põe à nossa disposição se destina a todos aqueles que têm fome e que se cruzam connosco nos caminhos da vida. Numa altura em que quase dois biliões e meio de irmãos nossos, em diversos lugares da terra, enfrentam situações de insegurança alimentar moderada ou grave, somos desafiados a pensar na fome do mundo e a sentirmo-nos responsáveis por aqueles que não têm acesso aos alimentos necessários para a sua subsistência diária. Poderemos sentar-nos à mesa da Eucaristia e repartir o pão que Jesus nos oferece, indiferentes à fome que ameaça a vida e a saúde de tantos dos nossos irmãos? A partilha do pão eucarístico não será uma mentira imperdoável se nos recusamos a partilhar com os nossos irmãos necessitados o pão que Deus põe à nossa disposição?
  • O banquete que juntou a gente de Melquisedec e a gente de Abraão foi o banquete da fraternidade: dois povos estranhos entre si que, apesar das diferenças que os separavam, se sentaram à mesma mesa, partilhando o mesmo pão e o mesmo vinho, unindo-se por laços fraternos. A imagem desse banquete é bem uma imagem da Eucaristia, o banquete onde irmãos e irmãs de origens diferentes, de culturas diferentes, de cores diferentes, com histórias de vida diferentes, se sentam à mesma mesa, partilham o pão de Jesus e formam uma comunidade unida e fraterna. Sentimos que a Eucaristia constrói comunidade, esbate as diferenças que nos separam e nos liga com todos os nossos irmãos, sejam eles quem forem, que se sentam connosco à mesa de Jesus? Entendemos a Eucaristia como anúncio e prefiguração de um mundo novo, de um mundo onde há lugar para todos os homens e mulheres, e onde todos se sentem família uns dos outros?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 109 (110)

Refrão 1: O Senhor é sacerdote para sempre.

Refrão 2: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.

Disse o Senhor ao meu Senhor:
«Senta-te à minha direita,
até que Eu faça de teus inimigos escabelo de teus pés».

O Senhor estenderá de Sião
o cetro do teu poder
e tu dominarás no meio dos teus inimigos.

A ti pertence a realeza desde o dia em que nasceste
nos esplendores da santidade,
antes da aurora, como orvalho, Eu te gerei».

O Senhor jurou e não Se arrependerá:
«Tu és sacerdote para sempre,
segundo a ordem de Melquisedec».

 

LEITURA II – 1 Coríntios 11,23-26

Irmãos:
Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti:
o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue,
tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse:
«Isto é o meu Corpo, entregue por vós.
Fazei isto em memória de Mim».
Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse:
«Este cálice á a nova aliança no meu Sangue.
Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim».
Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão
e beberdes deste cálice,
anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha».

 

CONTEXTO

Corinto, cidade nova e próspera, era a capital da Província romana da Acaia e a sede do procônsul romano. Servida por dois portos de mar, nela se cruzavam pessoas de todas as raças e religiões. Era a cidade do desregramento para os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo e que, após semanas de navegação, chegavam com vontade de se divertir. No centro da cidade, o templo de Afrodite, a deusa grega do amor, atraía os peregrinos e favorecia os desregramentos e a libertinagem sexual. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca de 18 meses (anos 50-52). De acordo com At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. Ao sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (2 Cor 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho.

Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maioria dos membros da comunidade era de origem grega, embora de condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.

O texto que a liturgia nos propõe como segunda leitura da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo integra uma secção da carta onde Paulo aborda diversas questões relacionadas com as assembleias litúrgicas (cf. 1 Cor 11,2-14,40). As celebrações litúrgicas eram momentos-chave na vida das primeiras comunidades cristãs. No entanto, os cristãos de Corinto tinham levado para as assembleias litúrgicas cristãs comportamentos a que se tinham habituado quando frequentavam as assembleias religiosas pagãs e que eram incompatíveis com os valores cristãos. Nas comunidades cristãs dos primeiros tempos, a celebração da Eucaristia era precedida habitualmente por uma refeição fraterna, tomada por todos os elementos da comunidade. Em Corinto, no entanto, as coisas não funcionavam bem. Os mais ricos, sem grandes ocupações, chegavam mais cedo às assembleias, colocavam na mesa comum os alimentos que traziam e apressavam-se a comer e a beber, muitas vezes cometendo excessos, sem esperar pelos que chegavam mais tarde. Os pobres que trabalhavam duramente e só podiam chegar à última hora, quando se apresentavam já não encontravam senão migalhas. Isto gerava mal-estar, discussões, divisões, conflitos, um ambiente geral de crispação e de desunião (cf. 1 Cor 11,17-22). Paulo acha tudo isto muito grave: é um atentado contra a comunhão fraterna, a união comunitária; subverte completamente aquilo que devia ser a “ceia do Senhor”.

 

MENSAGEM

Para que os cristãos de Corinto percebam o sem sentido da maneira como se comportam nas assembleias litúrgicas comunitárias, Paulo recorda-lhes como é que a Eucaristia foi instituída. É o relato mais antigo que nos chegou sobre a “ceia do Senhor”.

Paulo começa por dizer que “recebeu do Senhor” o relato que vai fazer (vers. 23a). Na verdade, ele não esteve na “última ceia” de Jesus com os discípulos; mas recebeu esse relato da catequese cristã dos primeiros tempos, provavelmente em Damasco, depois de ter encontrado Jesus. Portanto, o seu testemunho é verdadeiro e deve ser levado a sério.

Na noite da sua despedida, enquanto estava à mesa com os discípulos, Jesus quis fazer um gesto que, de alguma forma, resumisse toda a sua vida, todas as palavras que disse, tudo aquilo que tinha proposto àqueles que o acompanharam desde a Galileia a Jerusalém. Enquanto comia com os discípulos, tomou o pão, partiu-o e deu-o aos que estavam à mesa, dizendo: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós” (vers. 23b-24). Depois, tomou um cálice, deu-o aos discípulos e disse: “Este cálice á a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim” (vers. 25). O que é que Jesus quis dizer com estes gestos?

Toda a vida de Jesus, tudo o que Ele disse e fez, foi um dom de si próprio em favor dos homens. Ele deu-se completamente, por amor, sem pensar em si próprio, nas suas conveniências, nos seus interesses próprios, nos seus projetos pessoais. Deu-se todo, até ao último suspiro, até à última gota de sangue, “amou até ao extremo”. Aliás, Ele continua a dar-se “até ao extremo” sempre que a comunidade dos seus discípulos se senta à mesa com Ele e repete os gestos que Ele fez na última ceia. A Eucaristia cristã é um “memorial” de tudo isto, uma atualização da entrega de Jesus por todos e em favor de todos.

Ora, sempre que os discípulos de Jesus repetem os gestos que Ele fez na última ceia, identificam-se com Ele, assimilam a Sua vida, a Sua entrega por amor; ao comerem o corpo e o sangue de Jesus, comprometem-se a viver como Ele, a doar a vida como Ele, a amar sem medida como Ele. São uma família de irmãos e de irmãs que se sentam à mesma mesa, que se alimentam do mesmo pão e do mesmo vinho, que recebem a mesma vida; a comunhão do corpo e do sangue de Jesus une-os cada vez mais a Ele e estreita os laços de comunhão que existem entre todos os que partilham o mesmo alimento que é Jesus.

Como podem então os cristãos de Corinto celebrar tudo isto num ambiente de divisão, de conflito, de discórdia, de excessos egoístas, de desrespeito pelos mais pobres da comunidade? Faz sentido que num contexto onde se faz memória da vida de Jesus, do seu amor radical, da sua entrega por todos, haja manifestações e comportamentos de um egoísmo atroz? Quem se senta à mesa da Eucaristia para celebrar o amor de Jesus mas não quer saber dos seus irmãos para nada, não estará a viver uma mentira? A sua adesão a Jesus não será um monumental equívoco?

Paulo acha que tudo isto é muito grave; e, num desenvolvimento que o texto da nossa leitura não apresenta, avisa: “aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor” (vers. 27); “aquele que come e bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação” (vers. 29).

 

INTERPELAÇÕES

  • A Eucaristia é o memorial da vida de Jesus: das suas palavras, dos seus gestos, do seu amor, da sua vida dada até ao extremo, especialmente da sua paixão, morte e ressurreição. Concentra, resume e explicita tudo aquilo que Jesus viveu e propôs desde que entrou no mundo até que voltou para o Pai. Faz os discípulos regressarem àquela noite inolvidável em que Jesus se despediu deles e lhes deixou em testamento a sua vida e o seu amor. Não é um mero “recordar” algo que aconteceu há dois mil anos; é um reviver, um atualizar a doação de Jesus, a sua entrega por amor. É um verdadeiro encontro com Jesus, vivo e presente no pão e no vinho, que se dá aos seus como alimento de vida. A Eucaristia é, assim, o centro da vida da Igreja, o maior tesouro que Jesus deixou aos seus. Como é que sentimos e entendemos a Eucaristia? Vemo-la como uma “obrigação” que a Igreja impôs aos seus membros, como uma tradição que vem dos nossos antepassados e que temos de manter, como um ritual a despachar o mais depressa possível para podermos voltar de consciência tranquila a ocupar-nos dos nossos interesses corriqueiros, ou como o momento do encontro com Jesus, da escuta de Jesus, da comunhão com Jesus? Que lugar ocupa na nossa vida a celebração da Eucaristia?
  • Jesus, depois de ter percorrido com os discípulos os caminhos da Galileia e da Judeia, foi morto em Jerusalém, ressuscitou e entrou na glória do Pai. Contudo, antes de partir deste mundo, enviou os discípulos a dar testemunho do Evangelho em toda a terra e confiou-lhes a construção do Reino de Deus. Os discípulos ficaram sozinhos, entregues a si próprios e às suas iniciativas pessoais? Como poderão eles continuar ligados a esse “Mestre” pelo qual deixaram tudo e arriscaram tudo? Uma das formas de os discípulos manterem a ligação com Jesus é continuarem a sentar-se com Ele à mesa da Eucaristia. Aí fazem a experiência da presença de Jesus no meio deles: escutam a Palavra de Jesus, reconhecem-no quando Ele lhes reparte o pão, alimentam-se da Sua vida e do seu amor, aprofundam os laços de comunhão com Jesus. Nós, os discípulos de Jesus que caminhamos no mundo e na história, sentimos necessidade de nos mantermos ligados a Jesus, em comunhão com Jesus? Estamos conscientes de que a participação no banquete eucarístico é uma forma privilegiada de o fazer?
  • Sentarmo-nos à mesa do banquete eucarístico é, também, estreitarmos os laços que nos unem aos nossos irmãos. Ali, na “casa da comunidade”, somos uma família de irmãos e de irmãs que convivem à volta da mesma mesa, que escutam a mesma Palavra, que se alimentam do mesmo Pão, que têm Jesus como a referência fundamental das suas vidas. Ali, à volta da mesa da Eucaristia, todos escutam o convite de Jesus a viver no amor, na doação recíproca, no serviço aos irmãos; ali, reunidos em família, todos sentem o apelo de Jesus à fraternidade, à solidariedade, à responsabilidade pelo irmão que está ao lado, à participação na missão comum. Assim, a Eucaristia edifica a Igreja, cria comunidade verdadeira e fraterna. Se a Eucaristia não criar fraternidade, não nos levar a abraçar o irmão diferente que está connosco à mesa, não nos tornar mais solidários e mais atentos aos pequenos e aos pobres, não fará qualquer sentido; se a Eucaristia não nos levar a eliminar as dissensões, os conflitos, as críticas mesquinhas, as ruturas, as invejas, os ódios de estimação, a indiferença face à sorte dos irmãos, será uma mentira intolerável. As nossas comunidades cristãs que se alimentam da Eucaristia são comunidades fraternas, unidas, que dão testemunho do amor de Jesus? Nós que participamos no banquete eucarístico procuramos sempre dar testemunho de fraternidade, de misericórdia, de acolhimento, de verdadeira comunhão?
  • Talvez constatemos que na Igreja em geral e nas nossas comunidades cristãs em particular há muita incoerência, muitos comportamentos errados, muitas atitudes indignas, muito pecado; talvez vejamos nas nossas comunidades cristãs muito egoísmo, muita vaidade, muita ambição, muita tensão, muitos conflitos, muita indiferença face à sorte dos irmãos; talvez achemos que nas nossas comunidades há pouca misericórdia, pouca bondade, pouca gentileza, pouco acolhimento, pouca partilha, pouco serviço, pouco amor… Sendo assim, podemos continuar a celebrar a Eucaristia? Na verdade, o “pão partido” que Jesus distribuiu é um alimento para homens e mulheres pecadores, não é um prémio reservado exclusivamente a quem se porta sempre bem. O que temos de fazer não é alhear-nos da Eucaristia ou deixar de a celebrar; mas é precisamente descobrirmos na Eucaristia o apelo de Jesus a mudarmos as nossas vidas e as nossas comunidades cristãs. A Eucaristia dá-nos a força para vivermos de forma mais coerente e consequente a nossa fé. Sentimos realmente que o “pão partido” que Jesus nos oferece nos dá força para vivermos de forma mais verdadeira?

 

SEQUÊNCIA

Terra, exulta de alegria,
Louva o teu pastor e guia,
Com teus hinos, tua voz.

Quanto possas tanto ouses,
Em louvá-l’O não repouses:
Sempre excede o teu louvor.

Hoje a Igreja te convida:
O pão vivo que dá vida
Vem com ela celebrar.

Este pão – que o mundo creia –
Por Jesus na santa Ceia
Foi entregue aos que escolheu.

Eis o pão que os Anjos comem
Transformado em pão do homem;
Só os filhos o consomem:
Não será lançado aos cães.

Em sinais prefigurado,
Por Abraão imolado,
No cordeiro aos pais foi dado,
No deserto foi maná.

Bom pastor, pão da verdade,
Tende de nós piedade,
Conservai-nos na unidade,
Extingui nossa orfandade
E conduzi-nos ao Pai.

Aos mortais dando comida,
Dais também o pão da vida:
Que a família assim nutrida
Seja um dia reunida
Aos convivas lá do Céu.

 

ALELUIA – João 6,51

Aleluia. Aleluia.

Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor.
Quem comer deste pão viverá eternamente.

 

EVANGELHO – Lucas 9, 11b-17

Naquele tempo,
estava Jesus a falar à multidão sobre o reino de Deus
e a curar aqueles que necessitavam.
O dia começava a declinar.
Então os Doze aproximaram-se e disseram-Lhe:
«Manda embora a multidão
para ir procurar pousada e alimento
às aldeias e casais mais próximos,
pois aqui estamos num local deserto».
Disse-lhes Jesus:
«Dai-lhes vós de comer».
Mas eles responderam:
«Não temos senão cinco pães e dois peixes…
Só se formos nós mesmos
comprar comida para todo este povo».
Eram de facto uns cinco mil homens.
Disse Jesus aos discípulos:
«Mandai-os sentar por grupos de cinquenta».
Assim fizeram e todos se sentaram.
Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu
e pronunciou sobre eles a bênção.
Depois partiu-os e deu-os aos discípulos,
para eles os distribuírem pela multidão.
Todos comeram e ficaram saciados;
e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram.

 

CONTEXTO

O milagre da multiplicação dos pães e dos peixes é o único que é contado em todos os Evangelhos (cf. Mt 14,13-21; Mc 6,32-44; Jo 6,1-15). Marcos é, provavelmente, a fonte comum onde Mateus e Lucas vão beber.

Lucas coloca o episódio no mesmo seguimento de Marcos: os discípulos, depois de terem sido enviados em missão, tinham regressado ao encontro de Jesus (Lc 9,10a; cf. Mc 6,30). Jesus, recebendo-os, convida-os a dirigirem-se com Ele para outro lugar. Na versão de Marcos, Jesus e os discípulos vão de barco para um lugar deserto, a fim de poderem descansar (cf. Mc 6,31-32); na versão de Lucas, Jesus e os discípulos vão simplesmente para “um lugar afastado, na direção de uma cidade chamada Betsaida” (Lc 9,10). Betsaida, uma cidade situada a noroeste do mar da Galileia, pertencia à tetrarquia de Filipe e era o a terra natal de alguns discípulos, nomeadamente Filipe, André e Simão Pedro. Ficava a cerca de sete quilómetros de Cafarnaum. Alguns pensam que Jesus escolheu essa direção geográfica porque, após a morte de João Batista (cf. Mc 6,17-29), pretendia afastar-se dos territórios de Herodes Antipas.

Seja como for, a retirada de Jesus e dos discípulos não passou despercebida. As multidões foram imediatamente atrás deles.

 

MENSAGEM

Quando Jesus chega com os discípulos ao “lugar deserto”, perto de Betsaida, para onde se dirigia, encontra uma grande multidão à sua espera. Jesus, no entanto, não se mostra incomodado pelo facto de a multidão lhe ter arruinado os planos, mas “acolhe” aquela gente. A palavra grega utilizada no relato (“apodexamenos” – “acolheu-os”) coloca-nos no contexto da hospitalidade e sugere a solicitude que se deve ter pelo hóspede que chega a nossa casa. Revela a preocupação de Jesus em ser para todos aqueles que O procuram um sinal vivo desse amor com que Deus ama os seus filhos. Depois do acolhimento, Jesus avança para a liturgia da Palavra: põe-se “a falar à multidão sobre o reino de Deus e a curar aqueles que necessitavam” (vers. 11b).

Entusiasmado com o seu tema preferido – o Reino de Deus – Jesus nem se dá conta que o dia está a chegar ao fim. São os discípulos que lhe chamam a atenção e que definem o que Ele deve fazer: “manda embora a multidão para ir procurar pousada e alimento às aldeias e casais mais próximos, pois aqui estamos num local deserto” (vers. 12). Fundamentalmente, os discípulos declinam responsabilidades e propõem que cada um se arranje como puder. Dadas as circunstâncias, a proposta dos discípulos parece razoável; mas Jesus ignora a solução que eles apresentam e avança com uma proposta “impossível”: “dai-lhes vós de comer” (vers. 13a).

Porque é que Jesus envolve os discípulos nesta busca de soluções para a fome da multidão? Porque eles, enquanto testemunhas do Reino de Deus, têm de envolver-se na procura de repostas para os problemas dos seus irmãos. Os discípulos de Jesus devem estar conscientes de que não podem passar ao lado das multidões esfomeadas como se isso não lhes dissesse respeito; mas devem sentir-se responsáveis pela “fome” dos homens e assumir plenamente a missão de saciar essa “fome”.

Apesar do “lirismo” de Jesus, os discípulos estão conscientes de que as suas possibilidades de resolver o problema são nulas. Estão ali cinco mil homens (vers. 14a); e eles só têm cinco pães e dois peixes (vers. 13b). Parece-lhes impossível alimentar toda aquela gente com tão pouco. Quanto a ir comprar comida para aquela multidão, parece estar fora de causa (Marcos e João falam mesmo da necessidade de duzentos denários, uma quantia que corresponde a cerca de sete meses de salário base de um trabalhador – cf. Mc 6,37; Jo 6,7). De resto, mesmo que tivessem dinheiro suficiente, onde poderiam, assim de repente, encontrar comida para saciar a fome de tanta gente?

Estamos perante uma situação sem saída? Não. Chegou a altura de Jesus mostrar aos discípulos a “Sua” solução – a solução de Deus – para a fome da humanidade. Jesus assume a condução do processo e, de forma precisa, dá as suas indicações: “mandai-os sentar por grupos de cinquenta” (vers. 14b). Alguns veem nisto uma evocação da organização de Israel durante a marcha pelo deserto (cf. Ex 18,21-25), em grupos de mil, cem, cinquenta e vinte (cf. Ex 18,21.25; Dt 1,15). Talvez se pretenda sugerir, desta forma, que aquelas pessoas que estão com Jesus são o novo povo de Deus. Assim como Deus, ao longo da marcha de Israel pelo deserto, alimentou o seu povo com o maná, assim Jesus irá proceder, naquele “local deserto”, com o novo povo de Deus.

Depois de todos se terem instalado, “Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou sobre eles a bênção. Depois partiu-os e deu-os aos discípulos, para eles os distribuírem pela multidão” (vers. 16). A fórmula aqui utilizada por Lucas para descrever a ação de Jesus é decalcada do relato eucarístico da “última ceia”: Jesus “tomou o pão, deu graças, partiu-o e distribuiu-o por eles” (Lc 22,19). Naturalmente, Lucas vê uma correspondência perfeita entre os dois momentos. Em ambos se refere o “tomar”, “dar graças”, “partir” e “distribuir”.

A fórmula de Jesus para saciar a fome da multidão resultou? Sim. “Todos comeram e ficaram saciados”. Mais: “ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram” (vers. 17). Quando reconhecemos que tudo é dom de Deus (“dar graças”) e nos dispomos a partilhar e a distribuir o que Deus coloca à nossa disposição, o pouco faz-se muito, a “divisão” gera abundância, os dons de Deus chegam para todos e ainda sobram.

Detenhamo-nos um pouco mais na fórmula que Jesus usou para saciar a multidão. Segundo o relato de Lucas, o que Jesus fez não foi exatamente uma “multiplicação”; mas foi a “divisão” e a “partilha” de cinco pães e dois peixes. O grande “milagre” de Jesus não foi fazer aparecer do nada uma montanha de pães e de peixes, suficiente para saciar a fome de cinco mil homens; mas foi mostrar aos seus discípulos que o pouco, quando partilhado com amor, chega para todos e permite saciar todas as fomes. Guiados por Jesus, os discípulos descobriram que a solução para a “fome” dos homens não está no sistema de compra e de venda, que apenas produz exploração, injustiça e desigualdade; mas está na adoção de uma forma de viver que privilegie a partilha, a gratuidade, o dom. Só a partir desta lógica – a lógica de Deus – será possível saciar uma humanidade atormentada pela fome de pão e pela fome de tantas outras coisas necessárias para ter vida em abundância.

Porque é que a liturgia nos propõe, na Solenidade do Corpo e do Sangue do Senhor, um Evangelho que fala de partilha, de gratuidade, de entrega de tudo o que se tem para saciar a fome de todos? Porque isso “explica” muito bem toda a vida de Jesus. Naquela inolvidável ceia de despedida cumprida em Jerusalém na véspera da sua morte, quando deixou aos discípulos o seu “testamento”, Jesus resumiu a sua vida – partida, partilhada, dada em benefício de todos – desta forma: “Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós” (Lc 22,19); “este cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós” (Lc 22,20). São os mesmos gestos, é a mesma mensagem, é o mesmo cenário daquela doação/divisão/partilha dos pães e dos peixes para saciar a fome da multidão. Jesus mostrou claramente – em cada um dos seus gestos, mas especialmente na doação da sua vida até ao extremo – como se faz para saciar a fome do mundo.

Num “local deserto” perto de Betsaida, Jesus quis que os discípulos distribuíssem pela multidão o pão e os peixes repartidos; na última ceia, Jesus pediu aos discípulos que repetissem em sua memória os gestos de entrega e de doação que Ele tinha feito (“fazei isto em minha memória” – Lc 22,19b). Os discípulos são testemunhas e arautos daquilo que viram Jesus fazer. Devem dizer ao mundo, com palavras e com gestos, que a partilha/doação/entrega é fonte de vida para todos e sacia todas as fomes.

O que Jesus fez quando repartiu o pão e os peixes e saciou a fome da multidão torna-se, portanto, numa antecipação da Eucaristia. Revela a preocupação de Deus em dar a todos os seus filhos vida em abundância; mostra que essa vida que Deus oferece chega ao mundo através do dom, da partilha; anuncia e antecipa o banquete escatológico, quando todos os homens e mulheres se sentarem com Jesus à mesa de Deus para participarem no banquete do Reino.

 

INTERPELAÇÕES

  • A solicitude de Jesus com aquela multidão que O segue, sinaliza a preocupação de Deus em dar a todos os seus filhos e filhas vida em abundância. É uma boa e bela notícia: Deus preocupa-se connosco, com as nossas carências e dificuldades, e está verdadeiramente empenhado em proporcionar-nos o “alimento” de que necessitamos para construirmos vidas com sentido. Estamos e estaremos sempre no coração de Deus; Ele encontrará sempre forma de vir ao nosso encontro para nos oferecer a sua vida. Sabemos isto? Sentimo-nos acompanhados por Deus, mesmo quando nos parece que caminhamos de mãos e de coração vazio? Confiamos na bondade, no cuidado e no amor de Deus?
  • Porque é que o “pão” que Deus oferece aos seus filhos não chega à mesa e à vida de todos? Porque alguns apropriam-se dos bens que Deus oferece e usam-nos exclusivamente em benefício próprio; porque muitos vivem numa perfeita indiferença face à sorte dos seus irmãos; porque há quem esteja mais preocupado em açambarcar do que em repartir; porque muitos ainda não entenderam que somos todos responsáveis por cada pessoa que partilha connosco a “casa comum” que é o mundo. Jesus não concebe que os seus discípulos fiquem indiferentes à sorte dos seus irmãos que não têm pão nem acesso a outros bens essenciais; por isso, coloca diante deles as multidões famintas e diz-lhes: “dai-lhes vós de comer”. Poderemos permitir a “globalização da indiferença”, que condena à miséria e à morte uma parte significativa do nosso mundo? Poderemos ficar, de consciência tranquila, a gozar o nosso bem-estar, enquanto milhões e milhões de irmãos nossos procuram o pão de cada dia no lixo que os ricos atiram fora? Que nos dirá Jesus, esse mesmo Jesus que mandou os discípulos “dar de comer” à multidão esfomeada?
  • Em cada palavra que disse, em cada gesto que fez, Jesus desvelou-nos a “solução” de Deus para saciar a fome dos homens. Revelou-a naquele gesto de dividir e partilhar o pão e os peixes pela multidão; mostrou-a de forma sublime quando, na última ceia, dividiu o pão (a sua vida) com os discípulos e lhes deu a beber o cálice (o seu amor). Os gestos feitos por Jesus são extremamente eloquentes. A sua vida dada até ao extremo por todos é uma lição que está sempre diante dos nossos olhos. Porque é que, dois mil anos depois, ainda não assimilamos isto? Porque é que continuamos a querer a posse egoísta dos bens, a acumular em benefício pessoal os dons que pertencem a todos, a viver em circuito fechado, a ignorar a fome e as necessidades dos irmãos que caminham ao nosso lado? Porque é que vivemos comodamente instalados numa sociedade de bem-estar, esbanjando os bens que Deus nos deu para administrar, indiferentes à sorte de tantos homens e mulheres que não têm o necessário para viver dignamente?
  • Todos os domingos sentamo-nos piedosamente à mesa da Eucaristia e fazemos memória da vida doada/partida/oferecida de Jesus; todos os domingos recuperamos o testamento que Jesus nos deixou e somos enviados a testemunhá-lo no meio dos nossos irmãos. A nossa vida do dia a dia testemunha aquilo que celebramos na Eucaristia? Depois de acolhermos a vida dada/oferecida de Jesus, ela deve aparecer nos gestos que fazemos, no amor que partilhamos, na solicitude que oferecemos a cada pessoa “com fome” que se cruza connosco nos caminhos onde a vida nos leva. Se isso não acontecer, aquilo que celebramos na Eucaristia não passa de uma mentira, de um gesto vazio, de um fingimento sem sentido. As nossas “comunhões” são verdadeiras? As nossas “comunhões” têm consequências e traduzem-se em gestos fraternos, em gestos de amor e partilha? Quando recebemos o pão partido e oferecido de Jesus temos consciência do compromisso que assumimos no sentido de saciar a fome dos nossos irmãos?
  • O “pão” que Jesus faz distribuir à multidão faminta refere-se a algo mais do que o pão material que mata a nossa fome física. Aquelas pessoas que correm atrás de Jesus para saciar a sua “fome” são aqueles homens e mulheres que todos os dias encontramos e que, de alguma forma, estão privados daquilo de que necessitam para viver dignamente… Os “que têm fome” são os que são explorados e injustiçados e que não conseguem libertar-se; são os que vivem na solidão, sem família, sem amigos e sem amor; são os que têm que deixar a sua terra e enfrentar uma cultura, uma língua, um ambiente estranho para poderem oferecer condições de subsistência à sua família; são os marginalizados, abandonados, segregados por causa da cor da sua pele, por causa do seu estatuto social ou económico, ou por não terem acesso à educação e aos bens culturais de que a maioria desfruta; são as crianças que sofrem violência; são as vítimas da economia global, cuja vida dança ao sabor dos interesses das multinacionais; são os que são espezinhados pelos interesses dos grandes do mundo… Que outras “fomes” conhecemos e que poderíamos acrescentar a esta lista?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA A SOLENIDADE DO CORPO E SANGUE DE CRISTO

1. A PALAVRA meditada ao longo da semana.

Ao longo dos dias da semana anterior ao Domingo da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. VALORIZAR ESPAÇOS E GESTOS EUCARÍSTICOS.

Valorizar os espaços e gestos eucarísticos, assim como os que se relacionam com a Palavra, é atitude de sempre. Mas isso pode ser relevado em particular neste domingo: cuidar com mais atenção da preparação do altar e seus elementos, podendo prever-se uma procissão das oferendas; valorizar o momento penitencial em ligação com o Batismo que nos conduz à Eucaristia; proclamar a oração eucarística n.º 4, que evoca as alianças sucessivas até à Nova Aliança; dar realce aos grandes gestos da oração eucarística, como a elevação do Corpo de Cristo e do cálice, a doxologia final, assim como a fração do pão; preparar hoje a distribuição da comunhão sob as duas espécies; prever, no momento de ação de graças, uma oração em que alguém possa testemunhar de que modo concreto a Eucaristia o faz viver no quotidiano; proclamar a bênção solene e o envio final, recordando a nossa missão de «dar de comer» a todos os que têm necessidade.

3. À ESCUTA DA PALAVRA.

A fé da Igreja na presença do seu Senhor ressuscitado no mistério da Eucaristia remonta à origem da comunidade cristã. São Paulo transmite o que recebeu da tradição, cerca de 25 anos depois da morte de Jesus. É a narração mais antiga da Eucaristia. A Igreja nunca abandonou esta centralidade.

A Solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo foi instituída em meados do século XIII, numa época em que se comungava muito pouco e onde se levantavam dúvidas sobre a «presença real» de Jesus na hóstia consagrada depois da celebração da Eucaristia. A Igreja respondeu, não com longos discursos, mas com um ato: Sim, Jesus está verdadeiramente presente mesmo depois do fim da missa. E para provar esta fé, criou-se o hábito de organizar procissões com a hóstia consagrada pelas ruas, fora das igrejas.

Hoje, não é raro encontrar católicos que põem em dúvida esta permanência da presença Jesus no pão eucarístico. As palavras de Jesus esclarecem-nos: «Este é o meu Corpo… Este cálice é a nova

Aliança no meu sangue». Estas afirmações de Jesus, na noite de Quinta-Feira Santa, não dependiam nem da fé nem da compreensão dos apóstolos. É Jesus que se compromete, que dá o pão como sendo o seu corpo, o cálice de vinho como sendo o cálice da nova Aliança no seu sangue. Só Ele pode ter influência neste pão e neste vinho.

Hoje, é o sacerdote ordenado que pronuncia as palavras de Jesus, mas não é ele que lhes dá sentido e realidade. É sempre Jesus ressuscitado que se compromete, exatamente como na noite de Quinta-Feira Santa. O sacerdote e toda a comunidade com ele são convidados a aderir na fé a esta ação de Jesus. Mas não têm o poder de retirar a eficácia das palavras que não lhes pertencem. A Igreja tem razão em celebrar esta permanência da presença de Jesus. Que esta seja para nós fonte de maravilhamento e de ação de graças!

4. PALAVRA PARA O CAMINHO: COMER PARA VIVER.

É a lei biológica da nossa condição humana: é preciso comer para viver. A nossa vida espiritual exige também ser alimentada e cuidada, para crescer e ser fecunda. Ao multiplicar os pães e os peixes para a multidão que tinha vindo escutar o seu ensinamento, Jesus respondia, certamente, a uma necessidade física imediata. Mas revelava já todo o seu amor pelos homens e o seu desejo de os saciar com o verdadeiro alimento: a sua própria vida, o seu corpo entregue como Pão da Vida, o seu sangue derramado como sangue da Aliança.

Assim, comungar é ser alimentado pela vida de Jesus, enriquecido pelas suas próprias forças, ser capaz do seu amor. Do mesmo modo que comemos para viver, comungamos na Eucaristia para viver como discípulos de Jesus… Que fazemos das nossas comunhões? Que vidas fazem elas crescer em nós?

Para meditar estas interrogações, perguntemo-nos verdadeiramente sobre o que nos faltaria se não tivéssemos Eucaristia …

A Eucaristia é verdadeiramente «vital» para nós? Se assim não for, um período de «jejum eucarístico», um tempo de retiro espiritual para lhe descobrir o sentido, podem ajudar a reencontrar a grandeza deste sacramento. Se assim for, procuremos rezar por aqueles que são privados da Eucaristia e sofrem, e peçamos ao Senhor para lhes dar de novo a graça do seu amor.

E como andamos de adoração? Com a Festa do Corpo de Deus vem também a questão das procissões e da adoração eucarísticas. Se a ocasião se proporcionar, vivamos este tempo de adoração em ligação com a própria celebração, como prolongamento desta e para melhor nos prepararmos ao serviço dos nossos irmãos.

Na próxima sexta-feira celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Mais uma relevante coincidência que nos impele a recentrar o nosso coração no Coração de Jesus, de modo essencial na Eucaristia celebrada e adorada!

 

Anexo 1.

MEDITAÇÃO: O PÃO DA VIDA

O dia começava a declinar.
Os Doze aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
Manda embora esta multidão…
Aqui estamos num local deserto…

Manda embora esta multidão…
Durante todo o dia, a multidão escutou-Te longamente.
Alimentou-se da tua Palavra
a ponto de esquecer o alimento corporal…
Felizmente que estamos aí, pensam talvez os teus Apóstolos.
Porque a noite chega: é preciso encontrar uma solução!
Eles têm uma:
Manda embora esta multidão…
É a solução humana bem indicada:
nas aldeias dos arredores, as pessoas poderão alojar-se e alimentar-se.

É a solução de facilidade. Mas não é o teu ponto de vista.
Dai-lhes vós mesmos de comer!
É demasiado fácil dar conselhos aos outros
sem se comprometer a si mesmo!
O teu discípulo Tiago retomará o teu pensamento, Senhor, escrevendo:
«Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano,
e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”,
mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?» (Tg 2,15-16)
Tu pedes-nos para fazer qualquer coisa
para ir em ajuda aos outros.

Por vezes a nossa ação não será muito grande,
mas tu queres ter necessidade dela.
A ação dos apóstolos, nesse dia, foi simplesmente
de Te trazer os cinco pães
e de convidar as pessoas a instalarem-se na erva.

Todos comeram…
e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram.
Os apóstolos terão cada um cesto cheio do «dom de Deus»
para levar aos famintos o alimento essencial, o Pão de vida…
E isso até ao fim dos tempos, até ao teu regresso!

Pelo alimento eucarístico, obrigado, Senhor!
Os homens têm fome, sabe-lo bem,
e Tu queres que ninguém caia no caminho…
Mas muitos já não sentem mais esta fome…
Tem piedade deles, Senhor!
Tu queres também ter necessidade de ajuda para partilha o teu Pão
a todas as multidões de todos os lugares…
Dá à tua Igreja, Senhor,
os sacerdotes que continuarão a missão
e o trabalho dos Apóstolos em favor dos famintos de hoje.

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org