18º Domingo do Tempo Comum – Ano C [atualizado]

ANO C

18.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 18.º Domingo do Tempo Comum

A vida é o bem mais precioso que Deus nos ofereceu. Não podemos dar-nos ao luxo de a desperdiçar. Como devemos viver para que a nossa vida faça sentido? A Palavra de Deus que escutamos neste domingo convida-nos a refletir sobre esta questão. Alerta-nos contra as opções que conduzem a becos sem saída; aponta-nos os caminhos que levam à plena realização.

No Evangelho Jesus, através da parábola do “rico insensato”, denuncia a falência de uma vida voltada exclusivamente para o gozo dos bens materiais. Quem aposta tudo no conforto, no bem-estar, na segurança que o dinheiro proporciona, é um “louco”. As suas opções irresponsáveis levam-no a passar ao lado das coisas mais belas da vida, das coisas que realizam o homem e lhe proporcionam uma felicidade sem fim.

Na primeira leitura, um sábio de Israel (o “Cohelet”) oferece-nos a sua reflexão sobre o sentido da vida. Com pessimismo, mas também com realismo, constata que não vale a pena o homem afadigar-se a acumular bens que um dia abandonará. Esses bens nunca encherão de sentido a vida do homem. Embora a reflexão do “Cohelet” não vá mais além, constitui um patamar para partirmos à descoberta de Deus e para encontramos n’Ele o sentido último da nossa existência.

Na segunda leitura Paulo convida-nos a optar pelas “coisas do alto”, em detrimento das “coisas da terra” (brilhantes e sugestivas, mas também efémeras e fúteis). Aquele que, no batismo, foi enxertado com Cristo, tem de viver de tal forma que seja, no meio dos seus irmãos, “imagem do Criador”.

 

LEITURA I – Cohelet (Eclesiastes) 1,2; 2,21-23

Vaidade das vaidades – diz Cohelet –
vaidade das vaidades: tudo é vaidade.
Quem trabalhou com sabedoria, ciência e êxito,
tem de deixar tudo a outro que nada fez.
Também isto é vaidade e grande desgraça.
Mas então, que aproveita ao homem todo o seu trabalho
e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?
Na verdade, todos os seus dias são cheios de dores
e os seus trabalhos cheios de cuidados e preocupações;
e nem de noite o seu coração descansa.
Também isto é vaidade.

 

CONTEXTO

O Livro de Cohelet (designado também como “livro do “Eclesiastes”) é um escrito estranho, enigmático, polémico, pouco ortodoxo, que se apresenta como uma reflexão sobre o sentido da existência. Pertence à chamada “literatura sapiencial”. O seu autor autointitula-se “Cohelet”. O nome “Cohelet” (assim como o nome grego “Ekklesiastés”) significa “aquele que participa na assembleia” ou, numa perspetiva mais ativa, “aquele que fala na assembleia”. O autor diz ainda, sobre si próprio, que é “filho de David, rei de Jerusalém” (Co 1,1). Ora, o único filho de David que reinou em Jerusalém foi Salomão, o “rei sábio” (cf. 1 Re 3,5-28); no entanto, a linguagem próxima do hebreu rabínico (que apresenta traços tardios) e as ideias apresentadas mostram claramente que a redação do livro é bem posterior à época do rei Salomão. Pensa-se que o autor do livro terá sido um judeu conhecedor da cultura e dos valores religiosos do seu povo, talvez dos círculos intelectuais de Jerusalém. A maior parte dos especialistas situam a sua composição pelos finais do séc. III a.C., na primeira fase do processo de helenização da Palestina.

Apesar de se apresentar como uma reflexão de um sábio sobre o sentido da existência, este livro polémico não fornece respostas para as grandes questões da vida. Pelo contrário, o seu grande objetivo parece ser a destruição das certezas e seguranças que servem de âncora à sabedoria e a catequese tradicionais de Israel. Sempre em tom amargo e pessimista, o autor do livro constata que o homem é incapaz de ter acesso à “sabedoria”, que não há qualquer novidade e que estamos fatalmente condenados a repetir os mesmos desafios, que o esforço humano é vão e inútil, que é impossível conhecer Deus, que nada vale a pena porque a morte está sempre no horizonte e iguala-nos com os ignorantes e os animais. Não é um livro onde se vão procurar respostas; é um livro onde se denuncia o fracasso da sabedoria tradicional e onde ecoa o grito de angústia de uma humanidade ferida e perdida, que não compreende a razão de viver.

O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como primeira leitura pertence à primeira parte do livro. Aí, pondo-se na pele do rei Salomão, desiludido e amargurado depois de uma vida de glórias e prazeres, o autor constata a inutilidade de todos os esforços do homem e conclui que tudo na vida é “vanidade” ou “ilusão” (Co 1,2).

 

MENSAGEM

O nosso texto começa com uma expressão que reaparecerá frequentemente (vinte e cinco vezes) ao longo do livro e que funciona como resumo e conclusão de tudo o que vai ser dito: “Vaidade das vaidades: tudo é vaidade” (Co 1,2). A palavra aqui traduzida como “vaidade” designa o vazio, a vacuidade, a deceção a inconsistência de uma realidade para a qual o autor não encontra razão nem sentido. A existência é, na perspetiva do Cohelet, um imenso “absurdo”.

Depois, o texto salta diretamente para o capítulo 2, versículo 21. Em jeito de exemplo, o Cohelet expõe a situação de um, homem “que trabalhou com sabedoria, ciência e êxito” e juntou uma riqueza significativa; mas isso não lhe serviu para nada pois, chegado o momento da sua morte, teve de deixar tudo isso para outro que nada fez. Sendo assim, pergunta-se o Cohelet, “de que aproveita ao homem todo o seu trabalho e a ânsia com que se afadigou debaixo do sol?” (Co 2,22). Terão feito sentido todas as preocupações e cuidados que teve, as dores que sofreu, as fadigas que suportou para levar até ao fim o seu trabalho e juntar alguns bens que, afinal, são bem efémeros? E o Cohelet responde: “Também isto é vaidade” (Co 2,23). É uma conclusão estranha, sobretudo se tivermos em conta que a “sabedoria” tradicional “excomungava” aquele que não fazia nada e apresentava como ideal do “sábio” aquele que trabalhava e que procurava cumprir eficazmente as tarefas que lhe estavam destinadas.

O que fica desta impressionante manifestação de pessimismo, de frustração e de desencanto? A grande lição que o Cohelet nos deixa é a demonstração da incapacidade de o homem, por si só, encontrar uma saída, um sentido para a sua vida. O pessimismo do Cohelet leva-nos a reconhecer a nossa impotência, o sem sentido de uma vida voltada apenas para o humano e para os bens efémeros. Constatando que em si próprio e apenas por si próprio o homem não pode encontrar o sentido da vida, a reflexão deste livro força-nos a olhar para o mais além. Para onde? O Cohelet não vai tão longe; mas nós, iluminados pela fé, já podemos concluir: para Deus. Só em Deus e com Deus seremos capazes de encontrar o sentido da vida e preencher a nossa existência.

 

INTERPELAÇÕES

  • Para onde caminhamos? Qual o sentido da nossa vida? Vale a pena viver? Que proveito tira o homem desse enorme esforço que constitui a luta diária pela existência? Alguns filósofos existencialistas recentes, no contexto da reflexão sobre o sentido da vida, falam da futilidade da existência, da náusea que o homem moderno sente diante de realidades que lhe escapam, do absurdo de uma vida que se dirige inexoravelmente ao encontro da morte, da sensação de vazio e de angústia que acompanha os passos do homem sobre a terra. Não andamos longe da reflexão feita pelo Cohelet há muitos séculos sobre a “vanidade” do esforço humano e sobre o sentido – ou a falta de sentido – da vida. As conclusões, quer do Cohelet, quer das filosofias existencialistas agnósticas, seriam desesperantes se não existisse a fé. Para os crentes, a vida não é absurda porque ela não termina nem se encerra neste mundo. A nossa caminhada nesta terra está, de facto, cheia de limitações, de desilusões, de imperfeições; mas nós estamos convictos de que a vida que conhecemos aqui desemboca numa realidade totalmente “outra”, naquilo a que chamamos “a vida eterna”. Só aí encontraremos o sentido pleno do nosso ser e da nossa existência. É com esta certeza que vivemos e caminhamos?
  • A reflexão do Cohelet põe a nu a falência de uma vida virada apenas para as coisas materiais, os interesses mais básicos, as preocupações mais rasteiras, os valores mais fúteis; e convida-nos a não colocar a nossa esperança e a nossa segurança em coisas falíveis e passageiras. Quem vive, apenas, para trabalhar, para acumular, para aumentar a conta bancária, para “comprar” todas as possibilidades de conforto e de luxo, para gozar de um nível de vida que o imponha na hierarquia da sociedade do bem-estar, cedo ou tarde perceberá o absurdo da sua existência: “ilusão das ilusões, tudo isso é ilusão”; e uma vida construída sobre “ilusão”, é uma vida construída sobre areia. Para que é que vivemos? O que é que dá pleno sentido à nossa vida? Quais são os valores sobre os quais procuramos alicerçar a nossa existência?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 89 (90)

Refrão: Senhor, tendes sido o nosso refúgio através das gerações.

Vós reduzis o homem ao pó da terra
e dizeis: «Voltai, filhos de Adão».
Mil anos a vossos olhos são como o dia de ontem que passou
e como uma vigília da noite.

Vós os arrebatais como um sonho,
como a erva que de manhã reverdece;
de manhã floresce e viceja,
de tarde ela murcha e seca.

Ensinai-nos a contar os nossos dias,
para chegarmos à sabedoria do coração.
Voltai, Senhor! Até quando…
Tende piedade dos vossos servos.

Saciai-nos desde a manhã com a vossa bondade,
para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.
Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus.
Confirmai, Senhor, a obra das nossas mãos.

 

LEITURA II – Colossenses 3,1-5.9-11

Irmãos:
Se ressuscitastes com Cristo,
aspirai às coisas do alto,
onde Cristo está sentado à direita de Deus.
Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra.
Porque vós morrestes
e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar,
também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.
Portanto, fazei morrer o que em vós é terreno:
imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza,
que é uma idolatria.
Não mintais uns aos outros,
vós que vos despojastes do homem velho com as suas ações
e vos revestistes do homem novo,
que, para alcançar a verdadeira ciência,
se vai renovando à imagem do seu Criador.
Aí não há grego ou judeu, circunciso ou incircunciso,
bárbaro ou cita, escravo ou livre;
o que há é Cristo,
que é tudo e está em todos.

 

CONTEXTO

Não foi Paulo que evangelizou a cidade de Colossos, situada na Ásia Menor, ao sul da antiga Frígia, no vale do rio Lico. De acordo com os dados que constam da Carta aos Colossenses, foi Epafras, discípulo de Paulo, quem anunciou o Evangelho de Jesus na cidade (cf. Cl 2,1; 4,1-2). Do esforço missionário de Epafras nasceu uma comunidade viva e empenhada, constituída maioritariamente por cristãos vindos do paganismo, embora também contasse com alguns cristãos de origem judaica.

Na altura em que escreve a Carta aos Colossenses, Paulo está na prisão. Recebendo a visita de Epafras, Paulo soube que tinham chegado a Colossos pregadores cristãos que ensinavam doutrinas erróneas. Esses pregadores, de tendência judaizante mas influenciados por ideias gnósticas, procuravam convencer os colossenses a acolher um conjunto de práticas, tradições e doutrinas que os levariam a uma maior perfeição, a um grau superior da experiência cristã. Exigiam a circuncisão, o respeito pelo sábado, a observância de certas festas judaicas, a abstinência de alguns alimentos; difundiam o culto dos anjos e de certos “poderes” cósmicos que governavam os astros; pregavam a necessidade da submissão a rituais de iniciação em voga no mundo helénico e a práticas rígidas de ascetismo.

Paulo reconheceu, na informação que Epafras lhe trouxe, que havia motivos de preocupação. O Evangelho estava a ser desvirtuado em Colossos, pois as doutrinas que esses pregadores difundiam acabavam por deixar na sombra Cristo e a proposta de salvação que Ele veio trazer. Paulo decidiu então escrever aos Colossenses, acentuando o papel e o lugar de Cristo no projeto salvador de Deus. A Carta poderia ser dos anos 61-63, altura em que Paulo esteve preso em Roma.

O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como segunda leitura integra a parte moral da carta (cf. Cl 3,1-4,1). Aí Paulo tira conclusões práticas daquilo que afirmou na primeira parte (que Cristo basta para a salvação) e convoca os Colossenses a viverem, no dia a dia, de acordo com essa vida nova que os identificou com Cristo.

 

MENSAGEM

Cristo derrotou o pecado e a morte. Na manhã de Páscoa, saindo vivo do túmulo onde a maldade, a injustiça e a violência o queriam encerrar, Cristo triunfou sobre tudo aquilo que desfeia o mundo e que rouba a vida aos homens. A ressurreição de Cristo é o acontecimento capital, o alicerce sobre o qual Deus construiu o seu projeto de salvação. De Cristo ressuscitado brota um torrente de vida nova.

Ora, pelo batismo fomos “enxertados” em Cristo ressuscitado e passamos a receber vida d’Ele. Ficamos unidos a Cristo e identificamo-nos com Ele. A vida nova que brota de Cristo ressuscitado passa a circular em nós. A vida velha ficou para trás. Passamos a viver de olhos postos nas “coisas do alto” (vers. 1-2).

A nossa vida, enquanto batizados, deve ser expressão da vida nova que circula em nós. Essa vida nova deve manifestar-se desde já, durante o nosso caminho na terra; mas revelar-se-á em plenitude quando Cristo se manifestar definitivamente em toda a sua glória (vers. 3-4).

Sendo assim, todas as obras do “homem velho” (Paulo aponta algumas dessas obras: “imoralidade, impureza, paixões, maus desejos e avareza” – vers. 5) devem ser completamente banidas da vida do cristão: não são compatíveis com a vida que recebemos de Cristo ressuscitado. O cristão é, depois de no batismo se ter “revestido” de Cristo, um “homem novo”; tem impressa em si a imagem do seu Criador (vers. 10).

A vida nova que habita todos aqueles que se revestiram do homem novo, fará com que desapareçam as velhas diferenças de povo, de raça, de religião (vers. 11). Seremos todos iguais, seremos todos imagem de Deus. Foi isso que Cristo veio fazer: criar uma comunidade de homens novos, que sejam no mundo a “imagem do Criador”.

A identificação com Cristo ressuscitado – que resulta do batismo – é, portanto, um renascimento contínuo que deve levar-nos a parecer-nos cada vez mais com Deus.

 

INTERPELAÇÕES

  • Usamos frequentemente as expressões “cristão praticante” e “cristão não praticante” para definir a nossa forma de viver a fé. O que é que elas traduzem? A nossa frequência dos sacramentos? A nossa participação nos rituais litúrgicos previstos no calendário religioso? A nossa obediência às leis da Igreja e às indicações vindas da hierarquia eclesiástica? Paulo propõe-nos uma categoria diferente para aferirmos o nosso envolvimento com a fé: a forma como vivemos os compromissos que assumimos no dia do nosso batismo. Nesse dia, comprometemo-nos a renunciar ao pecado, à escravidão que o egoísmo traz, à maldade que é incompatível com viver como filho de Deus. Temos “praticado” essa renúncia? Nesse dia comprometemo-nos também a escutar Jesus, a segui-lo no caminho do amor, do dom da vida, do serviço humilde a Deus e aos irmãos. Temos “praticado” esses “passos”? Temos procurado viver com coerência as exigências do nosso batismo? Optamos claramente pelas “coisas do alto”, ou as “coisas da terra” (brilhantes e sugestivas, mas também efémeras e fúteis) têm prioridade, condicionam a nossa forma de estar no mundo e de nos relacionarmos com os irmãos?
  • Paulo define, para os que aderiram a Cristo pelo batismo, um objetivo “obrigatório”: renovarmo-nos continuamente até nos tornarmos “imagem” de Deus. Talvez isto nos soe demasiado ambicioso e nos pareça missão impossível. No entanto, todos nós conhecemos homens e mulheres que, pela forma como vivem, pela paz que transmitem, pelo testemunho de amor e de serviço que dão, pelo seu desprendimento e simplicidade, pela maneira como acolhem todos aqueles que se cruzam com eles, pelo seu alheamento dos jogos de ambição e de poder, pela sua generosidade e alegria, nos fazem sonhar com uma vida diferente, com um mundo novo. Sentimos que eles nos trazem algo de Deus. Não poderemos, nós também, ser “imagem” de Deus? Aqueles que nos rodeiam, que convivem connosco, conseguem detetar em nós algo de Deus?
  • Paulo convida os colossenses – e todos aqueles que se encontraram com Cristo e aderiram a Ele – a despojarem-se do homem velho e a revestirem-se do homem novo. Detenhamo-nos um pouco nesta imagem e avaliemos a nossa vida a partir dela… Quais são as coisas da “vida velha” que arrastamos connosco, que nos impedem de caminhar livres e que deveríamos abandonar? Quais são as ideias, os valores, os comportamentos, as atitudes que deveríamos “vestir” para sermos pessoas novas e para darmos mais sentido à nossa existência?

 

ALELUIA – Mateus 5,3

Aleluia. Aleluia.

Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.

 

EVANGELHO – Lucas 12,13-21

Naquele tempo,
alguém, do meio da multidão, disse a Jesus:
«Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo».
Jesus respondeu-lhe:
«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?»
Depois disse aos presentes:
«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola:
«O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita.
Ele pensou consigo:
‘Que hei de fazer,
pois não tenho onde guardar a minha colheita?
Vou fazer assim:
Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores,
onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens.
Então poderei dizer a mim mesmo:
Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te’.
Mas Deus respondeu-lhe:
‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma.
O que preparaste, para quem será?’
Assim acontece a quem acumula para si,
em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

 

CONTEXTO

Enquanto percorre o caminho que leva da Galileia a Jerusalém, Jesus aproveita todos os pretextos para ir formando os seus discípulos nos valores do Reino de Deus. Dessa forma prepara-os para serem, mais tarde, no “tempo da Igreja”, as testemunhas do Reino diante de todos os povos e nações. Com as lições que, a cada passo, vão recebendo de Jesus, os discípulos crescem na lógica do Evangelho; vão-se despindo das suas lógicas pessoais, egoístas e interesseiras, e interiorizando a proposta de Jesus.

A “lição” de Jesus que o Evangelho deste domingo evoca é exclusiva de Lucas. É despoletada por uma questão relacionada com partilhas… Um homem não identificado pede a Jesus que intervenha como árbitro numa questão de repartição da herança familiar. Segundo as tradições judaicas, o filho primogénito de uma família de dois irmãos recebia dois terços das possessões paternas (cf. Dt 21,17). O homem que interpela Jesus será o irmão mais novo, que ainda não tinha recebido a sua parte da herança? Será um irmão descontente com a avaliação dos bens feita pelo outro irmão? Estará a requer a intercessão de Jesus para que o seu irmão seja mais generoso na repartição dos bens familiares? O texto de Lucas não nos esclarece sobre estes pormenores.

Era frequente, no tempo de Jesus, que os escribas e doutores da lei, versados nas escrituras, assumissem o papel de juízes em casos similares. Competia-lhes, a partir da Lei, indicar como resolver situações discutíveis. O homem que solicita a intervenção de Jesus chama-lhe “mestre” (“didaskale”), reconhecendo-lhe uma autoridade semelhante à dos escribas e doutores da Lei.

 

MENSAGEM

Jesus recusa envolver-se naquela questão familiar sobre a partilha de uma herança. Trata-se de uma questão legal, para a qual Ele não tem mandato (“amigo, quem me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?” – vers. 14). A sua missão, a missão que Ele recebeu do Pai, é anunciar o Reino de Deus. Não lhe compete meter-se no meio de dois irmãos que discutem um com o outro sobre dinheiro e bens materiais.

A forma um tanto áspera como Jesus responde parece dar a entender que Ele viu no seu interlocutor qualquer intenção que não lhe agradou. Talvez aquele homem fosse alguém com um apego excessivo ao dinheiro. Isso explicaria a declaração que Jesus fez, logo a seguir (“vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens” – vers. 15). Na perspetiva de Jesus, o homem não pode edificar a sua existência sobre a cobiça, a ambição, a ganância; se o fizer, está a construir uma vida sem sentido. A cobiça dos bens, o desejo insaciável de “ter” mais e mais, é idolatria: toma conta do coração do homem, domina-o, envenena-o, cega-o, faz com que o homem se afaste de Deus, impede o homem de se preocupar com os irmãos. O apego excessivo aos bens materiais leva o homem a conduzir a sua vida ao ritmo de uma lógica interesseira e egoísta, que está em contraste absoluto com a lógica do Reino de Deus.

Para que tudo isto fique bem claro para aqueles que O escutam, Jesus conta uma parábola (vers. 16-21). Essa parábola expõe o caso de um latifundiário da Galileia. Ele contempla os seus campos e percebe que, nesse ano, irá ter uma colheira muito abundante. Em diálogo consigo próprio, deita contas à vida e desenha um plano: vai destruir os seus velhos celeiros, exíguos e degradados, e construir outros novos, capazes de armazenar toda a colheita produzida nesse ano bom; depois, certo de que tem riquezas suficientes para viver bem por muito tempo, poderá dedicar-se a gozar a vida.

Os planos deste agricultor abastado da Galileia parecem-nos, num primeiro olhar, bastante acertados. Intuímos que estamos diante de um homem previdente, esforçado, responsável, que merece que a vida lhe corra bem. Então, estará tudo certo? Uma avaliação mais atenta da parábola mostra-nos que o homem em causa tinha um horizonte de vida bastante limitado: constatando que as suas terras vão produzir uma colheira abundante, propõe-se usar os bens que vai ter à sua disposição apenas em proveito próprio (“descansa, come, bebe, regala-te” – vers. 19). É um egoísta, que apenas pensa em si mesmo. A própria linguagem que utiliza expressa esse egoísmo: refere-se à “minha” colheita, aos “meus” celeiros”, ao “meu” trigo”, aos “meus” bens (vers. 17-18). Nunca pensa nos outros, nunca fala dos outros, nunca coloca sequer a possibilidade de repartir com os seus trabalhadores pobres os bens que Deus lhe vai colocar nas mãos; nunca refere, nos seus planos, a sua família ou os seus amigos; nem sequer pensa em agradecer a Deus pelos bens que irá receber. Vive apenas para si próprio, em circuito fechado. O seu horizonte é o seu pequeno mundo e o bem-estar que pode tirar da vida enquanto está neste mundo.

Jesus considera que esta visão da vida é muito limitada. Na avaliação de Jesus, este homem é um “insensato”. Antes de mais porque é egoísta, só pensa em si próprio, só vive para si próprio; e isso não completa nem realiza o ser humano. Mas o homem também é “insensato” porque põe toda a sua confiança nos bens materiais. Acredita que a posse de muitos bens lhe dá segurança ilimitada. Não reconhece a fragilidade que é inerente à condição humana, não “vê” a brevidade da vida, não pensa naquilo que o espera quando o seu caminho na terra terminar. O seu horizonte é apenas terreno, virado para as realidades materiais e efémeras; e essas realidades não lhe garantem, a vida definitiva, a vida em plenitude.

A parábola conta ainda que Deus, nessa mesma noite, vai “pedir contas” a esse homem, vai desfazer as suas ilusões (vers. 20). Esse homem terá de “entregar a alma” e os seus bens não lhe servirão para nada. Jesus não está a falar de um castigo de Deus; está simplesmente a dizer que uma vida vivida num registo egoísta e materialista é uma péssima opção: acaba por revelar-se uma vida vazia, condenada ao fracasso. É uma vida desprovida de sentido e que termina mal.

Jesus conclui a parábola propondo àqueles que o escutam uma vida diferente, voltada para os valores do Reino de Deus (vers. 21). Os verdadeiros discípulos de Jesus – aqueles que vão com Ele a caminho de Jerusalém e todos aqueles que, pelos séculos fora, decidirem segui-l’O – têm de construir as suas vidas sobre valores que valham a pena, sobre os valores que dão pleno sentido à existência do homem. Só dessa forma a vida não será perdida.

 

INTERPELAÇÕES

  • Deus confiou-nos um capital de valor inestimável: a nossa vida. Não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar esse dom, de o malbaratar em apostas falhadas. Apesar disso, nem sempre conseguimos perceber em que caminhos andar, que valores privilegiar, que opções tomar, para dar pleno significado à nossa existência. Deixamo-nos arrastar pelo movimento do rebanho, pela pressão social, pelos ditames do politicamente correto, pelos gritos estridentes dos influenciadores de serviço, pela tentação da acomodação e do bem-estar, pelo medo que nos impede de arriscar, até chegarmos a becos sem saída e mergulharmos no vazio, na frustração, na desilusão. O que podemos fazer para encher de significado a nossa vida? Como devemos viver? Que apostas devemos privilegiar?
  • No caminho para Jerusalém, Jesus contou a história de um homem que vivia encerrado no seu pequeno mundo, apostado em acumular bens, em armazenar mais e mais, em aumentar o seu bem-estar material, em garantir uma vida cómoda e confortável. É uma história que reproduz muitas histórias de vida que conhecemos bem: histórias de gente frívola e superficial, que vive para o “ter”, que constrói a vida sobre valores efémeros, que reduz a existência à busca do bem-estar material, que se contenta com horizontes limitados, que caminha de olhos postos no chão. Jesus avisa que uma opção desse tipo é uma opção “insensata”, escravizante, vazia, sem futuro, que desumaniza o homem e o impede de chegar à vida verdadeira. Quais são os valores sobre os quais construímos a nossa existência? Quais são as grandes preocupações que nos habitam e os interesses que priorizamos?
  • O protagonista da parábola contada por Jesus nunca se refere à sua família, aos seus amigos, aos seus vizinhos ou aos seus trabalhadores. Também nunca se refere a Deus. O seu mundo, é o pequeno mundo do “eu”; vive numa “bolha” onde não cabe mais ninguém. Está exclusivamente virado para as suas coisas: a sua colheita, os seus celeiros, o seu trigo, os seus bens. Parece não ter qualquer relacionamento com ninguém ou, então, não ter tempo para gastar com as pessoas que fazem parte da sua vida. Para ele, os bens materiais e o bem-estar que eles podem proporcionar valem mais do que o amor e a amizade. Não se dá conta de que vive prisioneiro de uma lógica que o desumaniza e que o esvazia de toda a dignidade. Como vemos uma vida vivida neste registo? É uma vida que vale a pena? O que é que nos realiza mais: as coisas materiais que nos oferecem um certo grau de conforto e de segurança, ou o amor, a amizade, a solidariedade, a partilha, a comunhão?
  • Jesus parece, em tantas páginas do Evangelho, ter uma qualquer prevenção contra os ricos e as riquezas. Em certa ocasião Ele chegou a dizer que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino dos Céus” (Mt 19,24). Não estaria a exagerar? Os bens materiais serão algo intrinsecamente mau? A simples posse dos bens materiais é, por si só, um bilhete direto para o fracasso da existência? O problema não reside nos bens materiais em si, mas sim na forma como os vemos e nos relacionamos com eles. Conscientes de que o dinheiro pode servir para pagar fama, prestígio, segurança, conforto, bem-estar, absolutizamos a sua importância e começamos a construir a nossa vida à volta dele. Aos poucos, o amor do dinheiro domina-nos. A ambição, a cobiça, a avareza, tomam conta de nós e atiram para lugares secundários todos os nossos valores de referência. Por causa dos bens materiais, tornámo-nos injustos, prepotentes, insensíveis, egoístas. Passamos a ignorar os nossos irmãos e as privações que eles passam. Embora sabendo que um quinto da humanidade passa fome, consideramos que isso não é connosco. Para Jesus, construir a vida à volta deste cenário é uma “insensatez”, não leva a lado nenhum. E nós, que achamos disto?
  • A história do rico insensato, que pretendia instalar-se no seu mundo de bem-estar e de abundância, sem se preocupar com mais nada, é uma parábola bem expressiva para descrever o cenário do nosso Primeiro Mundo: uma sociedade frívola e insensível, que vive para o “ter”, que ergue muros para se defender dos pobres, que expulsa os imigrantes ilegais, que atira para as bermas dos caminhos da história os mais frágeis e necessitados, que constrói as suas ilhas de conforto à custa de trabalho escravo, que faz dos centros comerciais as catedrais onde vai adorar os seus deuses, que cria continuamente necessidades artificiais e faz tudo para as satisfazer, que vive para os sentidos e para o imediato, que se recusa a aprofundar o sentido da existência, que tem dificuldade em lidar com tudo aquilo que implica sacrifício, esforço e compromisso. Qual a nossa responsabilidade na construção de um mundo com estas cores?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 18.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(em parte adaptadas de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 18.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. ACOLHER OS NOVOS QUE CHEGAM.

Em grande parte das comunidades, neste mês de agosto, muitos partem em férias para outras paragens, muitos outros aparecem para participar na missa. Pode haver um acolhimento especial para os que chegam de novo, antes da missa, durante ou depois da missa.

3. PROCLAMAR BEM A PRIMEIRA LEITURA.

O texto do Eclesiástico não precisa de grandes efeitos de voz. Leitura simples, tranquila, sem exageros na pronunciação da palavra “vaidade” e sem ares de tristeza… É uma chamada de atenção para a importância que se deve dar à proclamação das leituras. Não se trata de uma simples leitura, muitas vezes incompreensível e mal preparada, mas de uma verdadeira proclamação da Palavra!

4. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
“Deus nosso Pai, nós Te bendizemos por toda a criação. Mesmo as flores efémeras e as vaidades dão testemunho de Ti, ensinam-nos que permaneces eternamente. Bendito sejas, porque nos chamas a participar da tua eternidade.
Nós Te pedimos por todas as vítimas de injustiças e de catástrofes, por todos aqueles que ficam privados do fruto do seu trabalho e do seu suor”.

No final da segunda leitura:
“Cristo Jesus, nosso Deus que fazes de nós teus irmãos, nós Te proclamamos como o Homem Novo, e esperamos a tua vinda, quando apareceres na glória, para reunir todos os membros do teu Corpo.
Nós Te pedimos por todos nós que fomos batizados na tua morte e na tua ressurreição: faz morrer em nós o que pertence à terra, refaz-nos de novo, à tua imagem”.

No final do Evangelho:
“Deus nosso Pai, bendito sejas pelo teu Filho Jesus. Ele renunciou à glória que tinha junto de Ti para se tornar pobre e nos enriquecer com a tua própria vida.
Nós Te pedimos: que o teu Espírito nos purifique dos ataques que nos ligam às riquezas perecíveis, e fortifique em nós o desejo de sermos ricos aos olhos de Deus. Que Ele nos preserve da avidez do lucro e nos abra ao sentido da partilha”.

5. BILHETE DE EVANGELHO.

Ninguém pode decidir no lugar de outro. O próprio Jesus respeita a liberdade do homem, mas veio propor-lhe balizas para marcar o caminho sobre o qual tem escolhas a fazer. Põe-no de sobreaviso em relação às riquezas materiais que podem paralisar ou cegar. De facto, aquele que tem as mãos crispadas sobre os seus bens está impedido de partilhar, de fazer um gesto para com aquele que tem necessidade. E depois, o seu horizonte está fechado por todas as suas riquezas que o impedem de ver o irmão, e de se ver a si próprio na luz de Deus. Quando nos deixamos olhar por Deus, permitimos-Lhe olhar para onde estão as nossas verdadeiras riquezas; a oração ajuda-nos, então, a reconhecê-las para as desenvolver.

6. À ESCUTA DA PALAVRA.

Eis Jesus confrontado com um assunto de herança. Mas declara-Se incompetente para julgar o caso, pois não é juiz, nem notário, nem advogado. Mas é uma boa ocasião para Ele, pois conhece bem o coração de Deus e o coração dos homens! Sabe que o coração do homem anda muitas vezes bem longe do coração de Deus, que o porta-moedas é parte sensível do homem, enquanto Deus não tem nada disso! Aproveita a ocasião para dar atenção ao sentido sobre as riquezas humanas. Jesus não é contra a riqueza, nem contra o progresso, nem contra o crescimento do nível de vida. Mas ser rico para si mesmo, é deixar-se aprisionar pelo dinheiro. A vida do homem não depende das suas riquezas. Hoje, o que diria Jesus aos grandes poderosos do mundo, “ricos de podre”, que não têm pejo em lançar para o desemprego milhares de pessoas sem saber qual o seu destino de vida? São pecados graves! Pode dizer-se que se trata de política. Mas trata-se primeiro do Evangelho! Cabe aos cristãos serem testemunhas pela própria vida, pelo próprio exemplo! E lutar contra este estado de coisas!

7. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística II para a Reconciliação, que está em harmonia significativa com a leitura de São Paulo.

8. PALAVRA PARA O CAMINHO…

O melhor celeiro? O melhor banco? Onde acumulamos as nossas riquezas? E quais são estas riquezas? À luz da parábola de Jesus, eis-nos convidados a fazer o ponto da situação sobre as nossas prioridades na vida – e a retificar, talvez, o nosso uso dos bens da terra. A vida de uma pessoa e o seu valor real não se medem pelas suas riquezas. Estamos verdadeiramente conscientes e persuadidos disso?

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org