20º Domingo do Tempo Comum – Ano C [atualizado]

ANO C

20.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 20.º Domingo do Tempo Comum

Como vivemos, no dia a dia da nossa vida, a opção que fizemos quando fomos batizados? A monotonia, o cansaço, a acomodação, tomaram conta de nós e caminhamos sem chama, sem alegria e sem paixão? A Palavra de Deus que hoje nos é servida convida-nos a acordar, a escutar novamente o chamamento de Deus, a redescobrir a missão profética a que somos chamados, a retomar o nosso caminho atrás de Jesus, a reafirmar o nosso compromisso com a construção do Reino de Deus.

A primeira leitura fala-nos dos sofrimentos que o profeta Jeremias teve de enfrentar por causa da sua fidelidade à missão que Deus lhe confiou. Homem sensível e bom, pouco preparado para o confronto e a hostilidade, Jeremias teve de denunciar, de demolir falsas esperanças, de causar alarme social, a fim de que a Palavra de Deus chegasse ao coração dos seus contemporâneos. Detestado por todos, castigado pelos líderes, Jeremias cumpriu, mesmo assim, a sua missão. Não esteve sozinho: Deus acompanhou-o, consolou-o e salvou-o. Deus nunca abandona os seus profetas.

No Evangelho Jesus descreve aos discípulos a missão que recebeu do Pai: “Eu vim trazer o fogo à terra”. Apaixonado por Deus e pelo Reino, Jesus queria contagiar o mundo e os homens com a sua paixão. Trouxe uma esperança nova aos pobres, aos doentes, aos marginalizados, aos malditos; combateu e venceu o egoísmo, a violência, a injustiça, o pecado, a morte. Quis que os seus discípulos abraçassem esse mesmo projeto e que, abrasados pelo fogo do Espírito, fossem testemunhas do Evangelho em todo o mundo. Hoje, é pela ação desses discípulos que o “fogo” de Deus continua a aquecer e a purificar o mundo.

Na segunda leitura, um “mestre” cristão da segunda metade do séc. I, dirigindo-se a cristãos assustados, acomodados e desmotivados, convida-os a reavivar a fé e o entusiasmo. A vida cristã é como uma corrida em direção a uma meta onde Cristo está à nossa espera. Quem quiser vencer, tem de se empenhar seriamente na corrida, de olhos postos em Cristo, sem se deixar distrair e atrasar pelos acidentes do caminho.

 

LEITURA I – Jeremias 38,4-6.8-10

Naqueles dias,
os ministros disseram ao rei de Judá:
«Esse Jeremias deve morrer,
porque semeia o desânimo entre os combatentes
que ficaram na cidade e também todo o povo
com as palavras que diz.
Este homem não procura o bem do povo,
mas a sua perdição».
O rei Sedecias respondeu:
«Ele está nas vossas mãos;
o rei não tem poder para vos contrariar».
Apoderaram-se então de Jeremias
e, por meio de cordas,
fizeram-no descer à cisterna do príncipe Melquias,
situada no pátio da guarda.
Na cisterna não havia água, mas apenas lodo,
e Jeremias atolou-se no lodo.
Entretanto, Ebed-Melec, o etíope,
saiu do palácio e falou ao rei:
«Ó rei, meu senhor, esses homens procederam muito mal
tratando assim o profeta Jeremias:
meteram-no na cisterna, onde vai morrer de fome,
pois já não há pão na cidade».
Então o rei ordenou a Ebed-Melec, o etíope:
«Leva daqui contigo três homens
e retira da cisterna o profeta Jeremias,
antes que ele morra».

 

CONTEXTO

Jeremias nasceu em Anatot, uma pequena cidade situada nas proximidades de Jerusalém, por volta de 650 a.C.; e exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.).

A época de Jeremias é uma época de grande instabilidade política e social. Quando Jeremias assumiu a missão profética, o rei Josias estava a concretizar uma grande reforma religiosa destinada a banir do país os cultos aos deuses estrangeiros, depois de décadas de infidelidade a Deus e de sincretismo religioso. Jeremias, nessa fase, envolveu-se na reforma religiosa de Josias, exortando os habitantes de Judá a converterem-se e a serem fiéis a Javé.

Contudo, em 609 a.C. Josias foi morto em Megido, em combate contra os egípcios. Depois de uns meses de instabilidade, o trono de Judá foi ocupado por Joaquim (609-597 a.C.). Judá voltou a trilhar caminhos de incerteza e insegurança. As injustiças sociais, às vezes fomentadas pelo próprio rei, fragilizavam irremediavelmente o tecido social de Judá; a política de alianças militares com potências estrangeiras, punha em risco a independência nacional. Jeremias entendia, além disso, que ao colocarem a esperança da nação em exércitos estrangeiros, os líderes de Judá estavam a mostrar que não confiavam em Deus. Convencido de que Judá tinha ultrapassado todas as marcas, Jeremias anunciou, a dada altura, a iminência de uma invasão babilónica que castigaria os pecados da nação. As previsões funestas de Jeremias concretizaram-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invadiu Judá e deportou para a Babilónia uma parte da população de Jerusalém.

No trono de Judá ficou, então, Sedecias (597-586 a.C.). Inicialmente, Sedecias manteve-se à margem das convulsões políticas que agitavam os povos da região; mas, após alguns anos de calma submissão à Babilónia, Sedecias voltou a experimentar a velha política das alianças com potências regionais, buscando a ajuda do Egito contra a Babilónia. Jeremias, uma vez mais, manifestou o seu desacordo, prevendo o desastre da nação; mas, nem o rei, nem os notáveis do país prestaram qualquer atenção à opinião do profeta. Considerado por toda a gente um amargo “profeta da desgraça”, Jeremias apenas consegue criar o vazio à sua volta.

Em 587 a.C. Nabucodonosor, rei da Babilónia, põe cerco a Jerusalém; no entanto, um exército egípcio vem em socorro de Judá e os babilónios retiram-se. Nesse momento de euforia nacional, Jeremias anuncia o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf. Jr 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é encarcerado (cf. Jr 37,11-16). É neste contexto que decorre a cena narrada na primeira leitura deste dia.

 

MENSAGEM

O profeta Jeremias, certo de que a derrota de Judá era inevitável, tinha aconselhado os habitantes de Jerusalém a não resistirem aos babilónios, pois só assim poderiam salvar as suas vidas. Os homens fortes do partido que advogava a resistência contra os invasores babilónicos (Chefatias, Godolias, Jucal, Pachiur – cf. Jr 38,1), indignados com o discurso derrotista de Jeremias, foram ter com o rei Sedecias e exigiram a morte do profeta (Jr 38,4).

Sedecias tinha estima por Jeremias; mas sem coragem para se opor às exigências dos influentes, consentiu que o profeta fosse silenciado (cf. Jr 38,5). Atirado para uma cisterna cheia de lodo, sem nada para comer, Jeremias estava condenado a uma morte lenta (cf. Jr 38,6). Mas um escravo etíope – Ebed-Melec – que servia no palácio real, intercedeu por Jeremias e obteve do rei de Judá a libertação do profeta (cf. Jr 38,7-10).

Este episódio dramático não foi um caso isolado na vida de Jeremias. A missão profética obrigou-o a viver numa tensão constante e trouxe-lhe grande sofrimento. De natureza cordial e sensível, Jeremias não tinha sido feito para o confronto, para a agressão, para a violência das palavras ou dos gestos… Mas Javé chamou-o para ser no mundo a Sua voz e confiou-lhe a missão de “arrancar e destruir, arruinar e demolir” (Jr 1,10), predizer desgraças e anunciar violência e morte. Jeremias, impelido pela força de Deus, sentiu-se obrigado a viver para o serviço da Palavra. A certa altura confessará a Deus: “seduziste-me Senhor, e eu me deixei seduzir! Tu me dominaste e venceste. Sou objeto de irrisão, e todos escarnecem de mim. Todas as vezes que falo é para proclamar ‘violência’, ‘opressão’. A palavra do Senhor tornou-se para mim motivo de insultos e escárnios dia após dia” (Jr 20,7-8). Embora sofrendo, Jeremias sente que não pode passar ao lado da missão a que Deus o chamou. Apaixonado pela Palavra de Deus, o profeta coloca-se totalmente ao serviço da Palavra mesmo que isso signifique violentar a sua própria maneira de ser, viver à margem, afastar-se dos familiares, dos amigos, dos conhecidos, afrontar o ódio dos poderosos.

Jeremias é o protótipo do profeta que dá a sua vida para que a Palavra de Deus ecoe no mundo e na vida dos homens. Ele não pensa em si, no seu comodismo, no seu bem-estar, no seu êxito social ou profissional; ele pensa, apenas, em anunciar com fidelidade os projetos de Deus aos homens, a fim de que os homens possam construir a história com Deus e na perspetiva de Deus.

Na parte final do nosso texto, cumpre-se a promessa de Deus, expressa no relato da vocação de Jeremias: “não tenhas medo, Eu estarei contigo para te libertar” (Jr 1,8). Através do sentido de justiça e da coragem de um escravo estrangeiro, Deus intervém e salva Jeremias. Confirma-se uma vez mais que Deus está sempre ao lado daqueles que anunciam fielmente a sua Palavra e que não abandona os profetas perseguidos e marginalizados pelo mundo e pelos poderosos.

 

INTERPELAÇÕES

  • A história do profeta Jeremias é a história de todos os profetas que levam a sério a missão que Deus lhes confia. O profeta é o homem da Palavra de Deus, da Palavra da verdade; e a Palavra de Deus incomoda, desinstala, denuncia, desafia os donos do mundo. Mais tarde ou mais cedo o testemunho profética entra em choque com aqueles que colocam na base das suas vidas o egoísmo, a prepotência, a ambição, a ganância, a mentira; mais tarde ou mais cedo o testemunho profético questiona aqueles que estão acomodados, escondidos atrás do seu bem-estar, instalados numa vida sem exigências e sem compromissos. Então, o profeta começa a ser criticado, ridicularizado, caluniado, maltratado, ameaçado… Em muitos casos o caminho do profeta leva ao martírio, à morte violenta. Na história recente do nosso mundo temos diversos exemplos de profetas que pagaram com a vida a sua fidelidade à verdade de Deus: D. Óscar Romero, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Dietrich Bonhoeffer, Maximiliano Maria Kolbe… Temos consciência de que a verdade de Deus continua a escrever-se na história dos homens com sacrifício, com sangue, com o dom da vida? Na nossa opinião, valerá a pena entregar a vida até ao dom total de si mesmo para que os valores de Deus continuem a ser propostos no nosso mundo?
  • Quem são os profetas? Pessoas de uma raça especial, diferentes dos outros homens e mulheres? Não. Os profetas são simplesmente pessoas que, enquanto caminham pela vida, dão testemunho de Deus no meio dos seus irmãos. Ora, essa é a missão que foi confiada a todos aqueles que optaram por Deus e que, no dia do seu batismo, se comprometeram com Deus. Aliás, no momento do nosso batismo fomos ungidos com o óleo do crisma e constituídos profetas à imagem de Jesus. Comprometemo-nos, nesse dia, a continuar a obra de Jesus: anunciar a todos os homens o amor de Deus, testemunhar e construir o Reino de Deus. Sentimo-nos profetas, investidos por Deus da missão de construir um mundo de justiça e de paz? Somos coerentes com a nossa vocação profética e procuramos, com fidelidade, ser testemunhas de Deus no meio dos nossos irmãos?
  • Num momento crítico da vida de Jeremias, Deus veio ao seu encontro para o salvar, através de um escravo estrangeiro. O facto mostra que Deus não abandona os seus profetas perseguidos, humilhados, atirados para o lodo pelos poderosos do mundo. Isso não quer dizer que Deus os livre da morte; quer dizer que Deus estará sempre ao lado deles, como presença amiga e reconfortante, dando-lhes a força necessária para levarem até ao fim a missão que lhes foi confiada. É possível que, no exercício da nossa missão profética, sejamos incompreendidos, magoados, caluniados, maltratados; é possível que, pelo nosso compromisso com a verdade, nos sintamos abandonados por todos e experimentemos uma profunda solidão… De uma coisa, contudo, podemos estar certos: Deus nunca abandonará os seus profetas; estará ao lado deles, apoiá-los-á, cuidará deles, ainda que seja através de alguém tão improvável como aquele escravo estrangeiro que salvou Jeremias da morte. Temos consciência de que Deus está sempre ao nosso lado e luta connosco para derrotar o mal?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 39 (40)

Refrão: Senhor, socorrei-me sem demora.
Esperei no Senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.

Ouviu o meu clamor
e retirou-me do abismo e do lamaçal,
assentou os meus pés na rocha
e firmou os meus passos.

Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus.
Vendo isto, muitos hão de temer
e pôr a sua confiança no Senhor.

Eu sou pobre e infeliz:
Senhor, cuidai de mim.
Sois o meu protetor e libertador:
ó meu Deus, não tardeis.

 

LEITURA II – Hebreus 12,1-4

Irmãos:
Estando nós rodeados de tão grande número de testemunhas,
ponhamos de parte todo o fardo e pecado que nos cerca
e corramos com perseverança para o combate
que se apresenta diante de nós,
fixando os olhos em Jesus,
guia da nossa fé e autor da sua perfeição.
Renunciando à alegria que tinha ao seu alcance,
Ele suportou a cruz, desprezando a sua ignomínia,
e está sentado à direita do trono de Deus.
Pensai n’Aquele que suportou contra Si
tão grande hostilidade da parte dos pecadores,
para não vos deixardes abater pelo desânimo.
Vós ainda não resististes até ao sangue,
na luta contra o pecado.

 

CONTEXTO

A “Carta aos Hebreus” (mais do que uma “carta”, é uma “homilia”) destina-se a comunidades cristãs que vivem dias complicados… À falta de entusiasmo de muitos dos seus membros na vivência do compromisso cristão, junta-se a hostilidade dos inimigos e as confusões causadas à fé comunitária por certos pregadores pouco ortodoxos que ensinam doutrinas estranhas. São, portanto, comunidades fragilizadas, cansadas e desalentadas, que necessitam de redescobrir o seu entusiasmo inicial, de revitalizar o seu compromisso com Cristo e de apostar numa fé mais coerente e mais empenhada.

Nesse sentido, um “mestre” cristão (talvez um discípulo do apóstolo Paulo) dispõe-se a apresenta-lhes o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, cuja missão é pôr os crentes em relação com o Pai e inseri-los nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã. Uma vez comprometidos com Cristo, os crentes são chamados a fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma, o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar uma experiência de fé enfraquecida pela hostilidade do ambiente, pela acomodação, pela monotonia e pelo arrefecimento do entusiasmo inicial. As referências ao culto praticado no templo de Jerusalém como uma realidade ainda vigente parecem sugerir que esta “Carta” foi escrita antes de o templo ser destruído pelos romanos, no ano 70.

O texto que nos é proposto pertence à quarta parte da carta (cf. Heb 11,1-12,13). Aí, temos um apelo à fé e à constância ou perseverança. Depois de apresentar uma autêntica galeria de personagens do Antigo Testamento que foram exemplos de fé (Abel, Henoc, Noé, Abraão, Sara, Isaac, Jacob, Moisés, Raab, Gedeão, Barac, Sansão, Jefté, David, Samuel, os profetas), o “mestre” que elaborou esta reflexão exorta os cristãos a viverem fielmente o seu compromisso com Jesus. É um pedido que faz todo o sentido no cenário de pouco compromisso em que viviam as comunidades cristãs a que a Carta se destina.

 

MENSAGEM

Depois de apresentar diversas figuras do Antigo Testamento que, pela firmeza e fortaleza da sua fé, deixaram uma memória imperecível (cf. Heb 11,1-40), o autor da carta exorta os destinatários da Carta a imitarem tais exemplos e a perseverarem na fé. O exemplo dos outros sempre conforta e motiva; faz-nos perceber que não estamos sozinhos no caminho.

Esta exortação é ilustrada por uma imagem (frequente na catequese cristã dos primeiros tempos – cf. 1 Cor 9,24-27; Gl 2,2; Flp 2,16; 3,13-14; 2 Tm 2,5) tirada da vida desportiva (Heb 12,1): os cristãos devem ser como atletas que correm de forma decidida e empenhada para uma meta e que dão provas de coragem, de força, de vontade de vencer. As figuras antes nomeadas como modelos de fé são os espectadores que, nas bancadas do estádio, observam, animam e aplaudem o esforço e a perseverança dos crentes… Para que nada atrapalhe essa corrida para a vitória, os “corredores” devem despojar-se do fardo do pecado (o egoísmo, a instalação, a acomodação, a cobardia, a autossuficiência), pois esse peso acrescido será um obstáculo que impedirá o atleta de correr livremente e de chegar vitorioso à meta.

Continuando a desenvolver a metáfora da “corrida”, o autor da Carta convida os “atletas” a não se distraírem e a manterem o olhar focado na “meta”. Ora, a “meta” é Cristo e na meta está Cristo (cf. Heb 12,2). Ele, renunciando a um caminho de facilidade e de glórias humanas, manteve-se fiel a Deus e concretizou o projeto de Deus; Ele, com confiança em Deus, com um sentido pleno de obediência ao Pai, enfrentou a cruz, a violência, a mentira, a maldade. Pela sua perseverança, venceu a morte, foi exaltado e “sentou-Se à direita do trono de Deus”. Chegou à meta como vencedor. Dessa forma, Cristo abriu para os crentes o caminho e mostrou-lhes como proceder para alcançarem a vida nova, que é o prémio que os espera depois da corrida.

Na sua corrida os cristãos devem sentir-se animados pelo exemplo de Cristo (cf. Heb 12,3). Esse exemplo diz-lhes que não podem acomodar-se, mas têm de continuar a dar tudo, sem se deixarem abater pelo desânimo. Já percorreram uma parte do caminho, mas ainda têm de continuar a esforçar-se para chegar à meta (“vós ainda não resististes até ao sangue, na luta contra o pecado” – Heb 12,4).

 

INTERPELAÇÕES

  • Os destinatários da Carta aos Hebreus conheciam bem as dificuldades que o caminho cristão apresenta. Conheciam a hostilidade e a incompreensão do mundo, as lutas fraturantes no seio da comunidade, a arrogância de alguns “mestres” que pretendiam impor a todos as suas visões pessoais; conheciam também o desânimo, a acomodação, o cansaço, o desalento, a monotonia, a fragilidade, tudo aquilo que impede de viver na fidelidade ao Evangelho… Trata-se de um quadro que, para nós crentes do séc. XXI, não nos é estranho. Confrontamo-nos a cada passo com os ataques injustificados dos que não entendem a nossa opção por Jesus; somos ridicularizados a cada momento por aqueles que não apreciam a verdade e que se sentem incomodados pelo nosso testemunho; envergonhamo-nos tantas vezes com as divisões da Igreja, com o testemunho negativo que muitos cristãos dão ao mundo, com a falta de compreensão e de misericórdia no acolhimento dos “pequenos” e humildes; sentimo-nos a cada instante mal com a nossa própria falta de compromisso, com a nossa superficialidade, com a nossa incoerência… O que fazer, diante de tudo isto? Desanimar? Desistir? O autor da Carta aos Hebreus convida os cristãos a continuarem a correr, sem desanimar, sempre de olhos postos na meta. O prémio que nos espera – a vida verdadeira – é demasiado valioso; não podemos desistir de o alcançar. O que sentimos diante de tudo isto?
  • O “mestre” cristão que nos legou a Carta aos Hebreus recomendava que, durante a nossa “corrida”, não tirássemos os olhos de Cristo, “guia da nossa fé e autor da sua perfeição”. De facto Cristo, ao longo da sua “corrida”, nunca cedeu à tentação, nunca escolheu o caminho que exigia menos esforço, nunca foi atrás dos seus gostos pessoais; mas procurou obedecer em tudo ao Pai, mesmo que o caminho que o Pai lhe apontava tivesse de passar pela vergonha da cruz, pelo dom da vida até ao extremo. A verdade é que, no final desse caminho, Cristo encontrou a vitória, a glorificação; e, por isso, “está sentado à direita de Deus”. Na “corrida” da vida, Cristo é a nossa referência? Temos sempre diante de nós o exemplo de Cristo? Estamos dispostos a “arriscar” percorrer o mesmo “caminho” que Ele percorreu, o caminho da cruz, do dom total de si por amor?
  • O autor da Carta aos Hebreus convida os crentes a libertarem-se do fardo pesado que carregam e que os impede de correr livremente para a meta onde os espera a vitória. Na verdade, ao longo do nosso percurso de vida carregamos, muitas vezes, pesos insuportáveis – histórias de vida, feridas que nunca cicatrizaram, culpas não resolvidas, preconceitos e prevenções, apegos a pessoas e a coisas – que nos impedem de caminhar livremente em direção a uma vida com sentido. Quais são os pesos que carregamos, que limitam os nossos movimentos e que condicionam as nossas opções e a nossa liberdade? O que podemos fazer para nos libertarmos de tudo isso?

 

ALELUIA – João 10,27

Aleluia. Aleluia.

As minhas ovelhas escutam a minha voz, diz o Senhor;
Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me.

 

EVANGELHO – Lucas 12,49-53

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu vim trazer o fogo à terra
e que quero Eu senão que ele se acenda?
Tenho de receber um batismo
e estou ansioso até que ele se realize.
Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?
Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão.
A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa:
três contra dois e dois contra três.
Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai,
a mãe contra a filha e a filha contra a mãe,
a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

 

CONTEXTO

Enquanto caminha em direção a Jerusalém, Jesus vai “formando” os seus discípulos (cf. Lc 9,51-19,28). Quer que eles, à medida que caminham, vão deixando para trás as suas visões pessoais, os seus interesses rasteiros, as suas ilusões de poder e grandeza, para assumirem a lógica de Deus, os valores do Reino de Deus.

Portanto, cada passo do caminho para Jerusalém é marcada com uma “lição” de Jesus. Os discípulos, confrontados com o que vão ouvindo, vão crescendo na fé, amadurecendo a sua adesão ao “Mestre”, aprofundando a lógica do Evangelho. Quando chegarem ao final dessa “viagem” estarão mais preparados para dar testemunho do Reino de Deus.

Lucas colocou no cenário da caminhada para Jerusalém diversos materiais que os outros sinópticos situam em contextos diversos. Por vezes, esses materiais aparecem em forma de “ditos”, ao estilo sapiencial, segundo o modelo do paralelismo judaico. Esses “ditos”, que originalmente não estavam relacionados uns com os outros, aparecem agora ligados de acordo com as conveniências teológicas de Lucas.

Os três “ditos” que o Evangelho de hoje nos apresenta são dos textos mais enigmáticos todo o Novo Testamento. Particular dificuldade oferece Lc 12,49, formado com palavras estranhas ao vocabulário de Lucas. Talvez provenha, originalmente, de uma qualquer conversa de âmbito apocalítico, como sugestão de que o mundo antigo iria desaparecer para dar lugar ao Reino de Deus.

Na forma como Lucas os dispôs no seu texto, estes três “ditos” servem para falar da missão e do destino de Jesus, segundo o esquema “missão (Lc 12,49), destino (Lc 12,50), missão (Lc 12,51-53)”.

 

MENSAGEM

Deus enviou Jesus ao mundo com uma missão. Que missão é essa? De acordo com as palavras de Jesus, a Sua missão consiste em trazer o fogo à terra (“Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda?” – vers. 49). Que “fogo” é esse? O que é que Jesus pretende dizer?

O “fogo” possui, no mundo bíblico, um significado simbólico complexo. No Antigo Testamento é, antes de mais, um elemento que aparece no cenário das teofanias (cf. Ex 3,2; 19,18; Dt 4,12; 5,4.22.23; 2 Rs 2,11) para representar a santidade divina, uma santidade que provoca no homem, simultaneamente, atração e temor. O fogo revela a presença do Deus vivo; mas, ao mesmo tempo, infunde temor. A catequese de Israel elabora longamente tudo isto, carrega na ideia do “temor” e acaba por utilizar a imagem do fogo para representar a intransigência de Deus face ao pecado. No discurso profético, o “fogo” já aparece como imagem da ira de Deus (cf. Am 1,4; 2,5) que se derrama sobre as nações pecadoras (cf. Is 30,27.30.33) e sobre o próprio Israel. Por outro lado, ao mesmo tempo que castiga, o fogo faz desaparecer o pecado (cf. Is 9,17-18; Jr 15,14; 17,4.27); por isso, é referido também como elemento de purificação e de transformação (cf. Is 6,6; Sir 2,5; Dn 3). Na literatura apocalíptica, o fogo aparece frequentemente como imagem do juízo escatológico (Is 66,15-16): o “dia de Javé” será como o fogo do fundidor (cf. Ml 3,2); será um dia, ardente como uma fornalha, em que os arrogantes e os maus arderão como palha (cf. Ml 3,19) e em que a terra inteira será devorada pelo fogo do zelo de Deus (cf. Sf 1,18; 3,8). Desse fogo devorador do pecado, purificador e transformador, nascerá o mundo novo, sem pecado, de justiça e de paz sem fim.

É provável que se deva entender a frase atribuída a Jesus neste enquadramento. Jesus tem consciência de que veio que ao encontro dos homens com a missão de os pôr em contacto com a santidade de Deus. Isso inclui destruir o egoísmo, a injustiça, a opressão, a maldade, a fim de que surja, das cinzas desse mundo velho, um mundo novo de amor, de partilha, de fraternidade, de justiça e de paz (o “Reino de Deus”). O que Jesus deseja ardentemente é que a sua proposta incendeie os corações e transforme toda a terra. Muito provavelmente Lucas liga a concretização desse mundo novo com a vinda do Espírito Santo, que ele representa precisamente, no início do livro dos Atos dos Apóstolos, através da imagem das línguas de fogo (cf. At 2,13. O Espírito Santo, o fogo de Deus, incendiará os corações dos discípulos, guiá-los-á ao longo da sua caminhada pela história e levá-los-á a testemunhar em toda a terra a proposta de Jesus.

Para concretizar a sua missão, Jesus tem “de receber um batismo” (vers. 50). “Receber o batismo” é imergir nas águas, afogar nas águas a vida velha e sair das águas com uma vida nova. Jesus está a pensar, certamente, na sua imersão nas águas da morte. Aliás, a ligação entre “receber o batismo” e passar pela morte, está bem presente na catequese cristã dos primeiros tempos. São Paulo dirá, a propósito, que “pelo batismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). Jesus utiliza a expressão “receber o batismo” noutra circunstância: quando pergunta a Tiago e a João se estão dispostos a beber do cálice que Ele vai beber e a receber o batismo que Ele vai receber (cf. Mc 10,38). Também aqui a expressão parece referir-se claramente à imersão na morte. Por outro lado, a consideração “estou ansioso até que ele (esse batismo) se realize” traduz a tensão de Jesus, que quer dar cumprimento ao pedido que o Pai Lhe fez. Para que o “fogo” de Deus, transformador e purificador, se manifeste no mundo, é necessário que Jesus faça da sua vida um dom de amor, até à cruz. Do dom de Jesus, da sua entrega na cruz em favor dos homens, nascerá o mundo novo, o mundo purificado e transformado.

O que acontecerá quando a missão de Jesus se completar e o “fogo” que Ele traz incendiar o mundo? Jesus avisa que isso provocará divisão e conflito (vers. 51-53), como aliás o velho Simeão tinha previsto quando acolheu Maria, José e o menino Jesus no tempo de Jerusalém (“este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição” – Lc 2,34). Mas então a “paz” não é um dom messiânico (cf. Lc 2,14.29; 7,50; 8,48; 10,5-6; 11,21; 19,38.42; 24,36) e não se diz claramente, pela boca do velho sacerdote Zacarias, que a função do Messias será guiar os passos dos homens “no caminho da paz” (Lc 1,79)?

O “dito” de Jesus que o Evangelho deste domingo nos apresenta faz, certamente, referência às reações à pessoa de Jesus e à proposta que Ele veio oferecer. Tudo aquilo que Jesus veio propor com as suas palavras, os seus gestos, a sua pessoa, interpela os homens e exige-lhes uma tomada de posição. Não deixa ninguém indiferente. Alguns acolhem com entusiasmo e paixão a proposta de Jesus; outros reagem agressivamente e rejeitam-na sem considerações. Essa “divisão” notar-se-á até mesmo dentro da própria família, em resultado das diferentes opções que cada um fizer face a Jesus. As comunidades cristãs dos primeiros tempos deviam conhecer bem esta realidade.

Jesus veio trazer a paz, mas a paz que é exigente, que não se faz com meias tintas, que não se conforma com meias verdades, que não se constrói com cedências timoratas. É uma paz que resulta de um compromisso firme e decidido com o Reino de Deus.

As palavras de Jesus que hoje escutamos são dirigidas a todos os seus discípulos, aos de ontem, aos de hoje e aos de amanhã. Jesus pretende que eles O sigam, se deixem incendiar pelo “fogo” que Ele traz e que abracem, sem medos nem hesitações, o projeto do Reino de Deus.

 

INTERPELAÇÕES

  • Desde muito cedo Jesus soube que o Pai lhe tinha confiado uma missão. Essa missão passava por dar testemunho do amor de Deus e propor aos homens um mundo novo, um mundo construído sobre os valores de Deus. Jesus abraçou essa missão com todas as forças do seu coração. Numa imagem bastante expressiva, Jesus dizia-se animado pelo “fogo” de Deus. A sua paixão por Deus e pelo Reino brilhava em cada palavra que Ele dizia ou em cada gesto que ele fazia. Essa paixão contagiava todos aqueles que com Ele se cruzavam e trazia uma esperança nova a todos aqueles que viviam afogados nas sombras da morte: os pobres da Galileia que não tinham pão para dar aos filhos, os doentes desalentados e sem perspetivas, os pecadores condenados pela sociedade e pela religião do Templo, os crentes sinceros que não se reviam numa religião vazia e estéril… Os donos do mundo tentaram apagar o “fogo” de Jesus, mergulhando-O na morte e atirando-O para o silêncio de um sepulcro; mas Jesus voltou a aparecer vivo aos seus discípulos, derramou sobre eles o “fogo” do Espírito e enviou-os pelo mundo a dar testemunho do que tinham visto e escutado. Assim, o “fogo” de Jesus atravessou o tempo e a história e chegou até nós. Vivemos contagiados pelo “fogo” de Jesus, pela sua paixão por Deus e pelo Reino?
  • O “fogo” que Jesus trouxe à terra é também um “fogo” purificador, que se propõe “queimar” o lixo que suja o mundo e que estraga a vida dos homens: o egoísmo, a injustiça, a escravidão, a opressão, a autossuficiência, a prepotência, a ambição, a ganância, a violência, a mentira, o medo, o conformismo, a indiferença, a maldade nas suas mil e uma formas. Jesus queria que das cinzas desse mundo velho, destruído pelo “fogo” purificador da sua proposta, emergisse o Reino de Deus: um mundo de amor, de justiça, de paz, de reconciliação, de fraternidade, de solidariedade, de respeito pela dignidade de cada ser humano e da criação. Sentimo-nos “habitados” pelo “fogo” de Jesus e, como Ele, estamos disponíveis para combater tudo aquilo que estraga o nosso mundo e que traz sofrimento aos homens? Haverá na nossa vida pessoal algum “lixo” que necessita de ser queimado para que surja em nós o Homem Novo?
  • Jesus disse estar ansioso por receber “um batismo” que o levou a mergulhar na morte para emergir para a vida nova da ressurreição. No dia do nosso batismo nós também fomos mergulhados na água e emergimos como pessoas novas, comprometidas com Jesus e com o seu projeto. Morremos para a vida velha do pecado e ressuscitamos para a vida nova. Depois, fomos fazendo caminho, no meio das consolações de Deus e das vicissitudes da vida. No entanto, com o passar do tempo, a rotina, o cansaço, a monotonia, a habituação, a banalização da existência, foram apagando o “fogo de Deus” que ardia em nós e que nos tinha sido dado no dia do nosso batismo. Acomodamo-nos na vivência de uma fé rotineira, feita de ritos externos, de tradições velhas, de palavras ocas, de uma “doutrina” que passa ao lado das exigências da vida. Instalados, acomodados, arrefecidos, vamos atravessando a vida sem chama, apegados a valores efémeros, navegando à vista de terra, sem nos arriscarmos e sem nos empenharmos verdadeiramente na construção de um mundo segundo Deus. O que podemos fazer para reavivar em nós o “fogo de Deus” que recebemos no dia do nosso compromisso batismal?
  • Jesus reconhece que a sua proposta poderá causar divisões e conflitos, inclusive dentro da própria comunidade familiar. Na realidade, a proposta de Jesus é uma proposta exigente, que põe em causa valores, estilos de vida, zonas de conforto, tradições veneráveis, hábitos consagrados, atitudes timoratas… Por isso, nem todos estarão disponíveis para a abraçar. Hoje, vinte e um séculos depois de Jesus, as coisas não mudaram: a proposta de Jesus continua a “incomodar” e a desafiar os homens, a suscitar tomadas de posição contraditórias, a pôr em causa a “paz podre” que muitos escolhem para que as suas vidas decorram sem arestas e sem incómodos. Como nos situamos face a isto? Estamos dispostos a abraçar a radicalidade do Evangelho de Jesus, mesmo que isso implique choques, tensões, incompreensões? Quando a cultura dominante propõe caminhos que estão abertamente contra os valores do Evangelho, vamos na onda para não ter problemas, ou mantemo-nos coerentes com a nossa fé? Acomodamo-nos e resignamo-nos diante da ordem injusta e opressora, ou assumimos uma atitude profética, denunciadora de tudo aquilo que ameaça a dignidade e a vida dos seres humanos?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 20.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 20.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

 

BILHETE DE EVANGELHO.

Jesus era um apaixonado de Deus, seu Pai, e dos homens, seus irmãos. Como qualquer apaixonado, vem abrasar os que estão à sua volta com o fogo da sua paixão: as suas palavras aquecem, os seus gestos queimam, o seu projecto de mundo novo destrói o mundo antigo. Então, Ele gostaria tudo se iluminasse, que tudo se abrasasse, que tudo aquecesse. Porém, Ele encontra o tédio; alguns gostariam de apagar este fogo mesmo antes de ser acendido. O baptismo de que fala é a sua Passagem, a sua Páscoa, este momento em que dará a maior prova do seu amor. Alguns gostariam de O impedir de falar ou de agir, mas Ele prosseguirá o seu caminho, este caminho que o levará ao calvário. Então, compreendemos quanto lhe custa esperar para dizer e manifestar até onde pode ir o Amor de Deus pela humanidade…

 

ESCUTA DA PALAVRA.

Como é estranho este Jesus, cuja missão consiste em fazer a paz e em reconciliar os homens com Deus e entre eles, este Jesus que dirá aos seus apóstolos “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” e que, aparecendo aos seus discípulos na tarde de Páscoa, dir-lhes-á: “Paz para todos”. E eis que hoje Ele declara: “Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão”. Reconheçamos, primeiro, que Jesus não pensava necessariamente segundo a lógica cartesiana. A sua mentalidade semítica ignorava certas “nuances”, não tinha receio daquilo que nós chamamos contradições. Na realidade, tal maneira de falar obriga-nos a ultrapassar as aparentes contradições, a encontrar o “ponto nodal” do nosso pensamento. Segundo os homens, a paz pode ser um equilíbrio do medo, ou uma ordem que o mais forte impõe ao mais fraco (“pax romana”, imposta pelas armas romanas), ou ainda a paz dos cemitérios. Ela pode ser também a obra da justiça e esta paz já é bem mais difícil de realizar. Quando fala de paz, Jesus precisa que não é a paz como a compreendemos muitas vezes. A sua paz, não a dá como o mundo a dá. Ultrapassa os critérios humanos. A sua paz é, a realidade, o fruto do amor, mas de um amor desconcertante pelas suas exigências: “amai os vossos inimigos”. O amor que Jesus nos veio revelar e dar é o amor do Pai. Na medida em que aceitamos ir até aí, podemos entrever a paz segundo Jesus. Dito de outro modo, diante de Jesus, é preciso escolher: ou acolher o seu amor que faz saltar todas as nossas estreitezas, ou fecharmo-nos em nós mesmos pelo egoísmo ou pela indiferença. Na realidade, Jesus vem pôr a nu o nosso coração. Escolher por ou contra Jesus: inevitavelmente, surgirão conflitos. O fogo que Jesus traz à terra é o fogo do amor que desmascara as nossas recusas e, ao mesmo tempo, as purifica.

 

ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística da Reconciliação n.º 2.

 

PALAVRA PARA O CAMINHO

Deus, meu libertador. Com a confiança do salmista, podemos pedir esta semana a Deus para nos ajudar a libertar de tudo aquilo que entrava a nossa liberdade, tudo aquilo que nos impede de ser simplesmente felizes ao longo dos dias… A oração do Salmo 39, retomada todos os dias, pode ser um meio…

 

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
www.dehonianos.org