21º Domingo do Tempo Comum – Ano C [atualizado]

ANO C

21.º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Tema do 21.º Domingo do Tempo Comum

Para onde caminhamos? O que nos espera no final do caminho? Como devemos viver para que a nossa vida não termine num fracasso? A Palavra de Deus que nos é proposta neste vigésimo primeiro domingo comum pretende responder a estas questões. Convida-nos a caminhar de olhos postos na salvação que Deus nos quer oferecer. Diz-nos em que direção devemos caminhar para lá chegar.

Na primeira leitura, um profeta não identificado desvela-nos o projeto que Deus tem para a humanidade: reunir à sua volta, na cidade da fraternidade e da paz, homens e mulheres de todas as nações e línguas, numa comunidade universal de salvação. Essa será a meta final, gloriosa e luminosa, da nossa peregrinação pela terra.

No Evangelho Jesus é confrontado com uma pergunta acerca do número dos que se salvam. Ele não responde; mas aproveita a oportunidade para sugerir como devem viver aqueles que querem construir uma vida com sentido: “esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. Os que se esforçam por entrar pela porta estreita – isto é, aqueles que se dispõem a seguir Jesus e aceitam a Sua proposta de salvação – terão lugar à mesa de Deus, independentemente da sua raça, das suas raízes, da sua história de vida.

Na segunda leitura, um mestre cristão exorta os crentes a verem os sofrimentos e as contrariedades que tiverem de suportar, não como castigos, mas como sinais do amor de Deus. Dessa forma, poderão vencer o temor que desalenta e paralisa; alimentados pela certeza desse amor, poderão caminhar, com firmeza e perseverança, em direção à vida definitiva.

 

LEITURA I – Isaías 66,18-21

Eis o que diz o Senhor:
«Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas,
para que venham contemplar a minha glória.
Eu lhes darei um sinal
e de entre eles enviarei sobreviventes às nações:
a Társis, a Fut, a Luc, a Mosoc, a Rós, a Tubal e a Java,
às ilhas remotas que não ouviram falar de Mim
nem contemplaram ainda a minha glória,
para que anunciem a minha glória entre as nações.
De todas as nações, como oferenda ao Senhor,
eles hão de reconduzir todos os vossos irmãos,
em cavalos, em carros, em liteiras,
em mulas e em dromedários,
até ao meu santo monte, em Jerusalém – diz o Senhor –
como os filhos de Israel trazem a sua oblação
em vaso puro ao templo do Senhor.
Também escolherei alguns deles para sacerdotes e levitas».

 

CONTEXTO

Nos capítulos 56 a 66 do livro de Isaías (o “Trito-Isaías”) temos uma coleção de textos, provavelmente de autores diversos, redigidos em Jerusalém na época pós-exílica (talvez nos últimos anos do séc. VI e princípios do séc. V a.C). O texto que a liturgia deste segundo domingo comum nos apresenta como primeira leitura pertence a essa coleção.

Dentro das fronteiras do antigo reino de Judá temos, por esta época, uma comunidade heterodoxa, que agrupa judeus regressados do Exílio na Babilónia, judeus que não foram à Babilónia pois conseguiram ficar em Judá mesmo após a catástrofe de 586 a.C., estrangeiros que se estabeleceram em Jerusalém durante o Exílio e outros que, após o regresso dos exilados, vieram oferecer a sua mão-de-obra para a reconstrução de Jerusalém. A forte presença de estrangeiros dentro das fronteiras de Judá levanta algumas questões. Como é que a comunidade judaica deve encará-los? Deve acolhê-los e integrá-los, ou deve evitar quaisquer contactos com eles? As respostas a estas questões não são fáceis, pois a comunidade regressada do Exílio, ameaçada por inimigos internos (as gentes que ficaram no país e que não entendem o zelo religioso dos retornados) e por inimigos externos (sobretudo os samaritanos), tem tendência a desconfiar e a fechar-se. Esdras e Neemias, os grandes líderes judaicos desta fase, apostados em evitar influências negativas na “santidade” do Povo de Deus, favorecem uma política xenófoba, proibindo até os casamentos mistos (cf. Esd 9-10; Ne 13,23-27).

Entre as diversas questões abordadas pelos textos do Trito-Isaías está também o problema dos estrangeiros. Tratando-se de uma coletânea de textos de autores e pregadores diversos, é natural que nela constem visões contraditórias sobre essa temática: a par de apelos ao aniquilamento das nações que se obstinam no mal (cf. Is 63,3-6; 64,1; 66,15-16), aparecem propostas de admissão e de integração de estrangeiros no seio do Povo de Deus. No geral domina, apesar de tudo, a perspetiva universalista. É, aliás, nessa perspetiva aberta e tolerante para com os outros povos que a primeira leitura deste vigésimo primeiro domingo comum nos coloca.

 

MENSAGEM

O profeta contempla um quadro futuro, de caráter escatológico. O quadro leva-nos até ao momento em que Deus vem para dar início ao processo de reunião das nações (vers. 18). A “glória de Deus” ilumina toda a cena.

A partir de Jerusalém, Deus enviará os seus mensageiros. Eles irão a Társis (no sul da Espanha, figura usada para falar dos “confins da terra”), a Fut e a Luc (a costa africana do Mar Vermelho, desde o Sudão até à Somália), a Tubal (a sul do Mar Negro), a Java (as ilhas jónias e Grécia). Os missionários enviados por Deus terão como missão anunciar a todas as nações a glória de Deus (vers. 19). A comunidade do Povo de Deus é verdadeiramente uma comunidade “missionária”.

As nações que receberem esse anúncio responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém. Jerusalém é, na teologia judaica, o “umbigo” do mundo, o lugar para onde tudo converge, o local onde Deus reside no meio do seu Povo e onde irá irromper a salvação definitiva. Os que chegam não virão armados, como conquistadores ambiciosos e violentos; mas virão encontrar-se com o Senhor o trarão com eles, como se fosse uma oferenda para Deus, os habitantes de Judá que estavam dispersos entre as nações (vers. 20). Finalmente, o Senhor irá escolher de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para o servirem (vers. 21).

Trata-se de um quadro “impossível”, com tons universalistas até limites impensáveis. Na Jerusalém pós-exílica, habitada por uma população desconfiada em relação aos estrangeiros, o profeta autor da visão anuncia que todos os povos serão convocados por Deus para integrar o seu Povo; e esses estrangeiros aceitarão o convite e virão, felizes e gratos, ao encontro de Deus no seu monte santo. No entanto, a afirmação mais ousada é dada pela indicação de que Deus vai escolher, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrem no espaço sagrado do Templo e desempenhem funções cultuais. Recordemos que, na compreensão tradicional da religião israelita, qualquer pagão que entrasse no espaço sagrado do templo era réu de morte. O profeta que descreve esta visão está a propor aos habitantes de Judá uma impressionante revolução das mentalidades.

A salvação que Deus oferece tem contornos universais. Não está circunscrita a um povo, a uma casta, a uma elite; mas destina-se a “todos, todos, todos”. Ninguém ficará à margem da misericórdia de Deus. Jesus virá tornar realidade esta extraordinária visão. Dele nascerá um povo sacerdotal, constituído por gentes de todas as raças, cores e línguas.

 

INTERPELAÇÕES

  • Desde que começou a dar os primeiros passos na sua caminhada pela história, a comunidade nascida de Jesus sempre se viu como uma comunidade universal de salvação, aberta a homens e mulheres de todas as raças, nações e culturas. Paulo de Tarso dirá isto de uma forma bem clara e sugestiva: “todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus”. No novo Povo de Deus, o que é decisivo é a adesão a Jesus e o compromisso com o projeto de salvação que Deus oferece, em Jesus. Em geral, resulta-nos fácil aceitar que a salvação de Deus se destina a todos, sem exceção; mais difícil é, contudo, olharmos como iguais todos aqueles com quem partilhamos o caminho cristão e que vemos como “diferentes”. As nossas comunidades cristãs são, de facto, comunidades fraternas, onde toda a gente é igualmente acolhida, independentemente da raça, do sexo, da posição social, da preparação intelectual, do estatuto económico? Como tratamos, nas nossas comunidades cristãs, aqueles que têm experiências religiosas e formas de sentir a fé não coincidentes com as nossas, aqueles cujas vidas estão marcadas por feridas que consideramos reprováveis?
  • O autor do texto que nos é proposto como primeira leitura anuncia o envio, por Deus, de “missionários” que vão levar a luz de Deus aos povos que habitam nos confins da terra. Será o anúncio feito por esses “enviados” que trará para Jerusalém pessoas de todas as raças para integrarem o Povo de Deus, para servirem o Senhor, para experimentarem a salvação oferecida por Deus. A comunidade do Povo de Deus é, essencialmente, uma comunidade missionária, chamada a dar testemunho no meio dos homens da proposta de salvação de Deus. Temos consciência disso? Até que ponto nos sentimos “missionários” de Deus, testemunhas e arautos da salvação de Deus? A “missão” está no horizonte da nossa vida?
  • Falar da universalidade da salvação, é falar de um Deus que vê cada ser humano como um filho muito querido. Ele cuida de todos e a todos ama, sem discriminar ninguém; Ele insiste em sentar à sua mesa todos os seus filhos, mesmo aqueles que o ignoram ou que se põem decididamente contra Ele. É estranho e dececionante que nós, seres humanos, ainda não tenhamos assimilado a lógica de Deus. Às vezes defendemos tenazmente o nosso bem-estar e recusamo-nos a partilhar com os nossos irmãos os bens que Deus ofereceu para todos; às vezes recusamo-nos a acolher aqueles que vêm bater à nossa porta, à procura de melhores condições de vida; às vezes tratamos os nossos irmãos como se eles não tivessem a mesma dignidade e os mesmos direitos que nós temos; às vezes privilegiamos o nosso comodismo em detrimento da justiça e da fraternidade; às vezes marcamos como inimigos determinados grupos, pessoas e comunidades, simplesmente para defender os nossos interesses ou a nossa vida acomodada. O racismo, a xenofobia, a discriminação de pessoas ou grupos, a indiferença face à sorte dos imigrantes, serão compatíveis com a pertença à família de Deus?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 116 (117)

Refrão:

Ide por todo o mundo, anunciai a boa nova.

Louvai o Senhor, todas as nações,
aclamai-O, todos os povos.

É firme a sua misericórdia para connosco,
a fidelidade do Senhor permanece para sempre.

 

LEITURA II – Hebreus 12,5-7.11-13

Irmãos:
Já esquecestes a exortação que vos é dirigida,
como a filhos que sois:
«Meu filho, não desprezes a correção do Senhor,
nem desanimes quando Ele te repreende;
porque o Senhor corrige aquele que ama
e castiga aquele que reconhece como filho».
É para vossa correção que sofreis.
Deus trata-vos como filhos.
Qual é o filho a quem o pai não corrige?
Nenhuma correção, quando se recebe,
é considerada como motivo de alegria, mas de tristeza.
Mais tarde, porém,
dá àqueles que assim foram exercitados
um fruto de paz e de justiça.
Por isso, levantai as vossas mãos fatigadas
e os vossos joelhos vacilantes
e dirigi os vossos passos por caminhos direitos,
para que o coxo não se extravie,
mas antes seja curado.

 

CONTEXTO

A chamada “Carta aos Hebreus” parece mais ser uma homilia destinada à proclamação oral do que propriamente uma carta. O tom é solene, expositivo, doutrinal, carregado de erudição e de referências teológicas.

A tradição oriental atribuiu o texto a São Paulo. No entanto, cedo começaram a surgir argumentos contra a autenticidade paulina da Carta aos Hebreus. As diferenças de linguagem, de estilo e mesmo de ideias em relação a outros textos autenticamente paulinos levaram os biblistas a descartar a possibilidade de São Paulo ter sido o seu autor. Admite-se, no entanto, que esse autor tenha sido alguém relacionado com São Paulo, talvez um discípulo do apóstolo. Muito provavelmente a Carta aos Hebreus terá sido redigida alguns anos antes do ano setenta, quando o Templo de Jerusalém ainda não tinha sido destruído pelas tropas romanas.

Não foi possível apurar quem são os destinatários concretos desta reflexão. Para alguns, o designativo “aos hebreus” poderia indicar que os seus destinatários seriam judeus convertidos ao cristianismo; mas, para outros, essa indicação – que apareceu tardiamente – não é decisiva. É verdade que o autor refere frequentemente factos, figuras e tipologias do Antigo Testamento; mas isso não nos autoriza a concluir que os destinatários da Carta provenham exclusivamente do mundo judaico, uma vez que, pelo ano setenta, o Antigo Testamento era já referência fundamental para todas as comunidades cristãs, quer as oriundas do mundo judaico, quer as que provinham do mundo greco-romano. Seja como for, o que parece claro é que os destinatários da Carta aos Hebreus são cristãos que vivem numa situação difícil, num ambiente hostil à fé cristã; perderam o entusiasmo inicial e instalaram-se numa fé rotineira, morna e pouco exigente. O autor procura fortalecê-los na vivência do compromisso cristão e ajudá-los a crescer na fé.

A figura de Cristo é central na “Carta aos Hebreus”. Apresentado como sumo sacerdote, Ele é o mediador entre Deus e os homens. A sua entrega sacrificial na cruz substitui todos os sacrifícios do antigo culto judaico, estabelece uma nova Aliança entre Deus e os homens e inaugura um culto novo. Pelo sacerdócio de Cristo, os crentes são inseridos no Povo sacerdotal que é a comunidade cristã.

O texto que a liturgia do décimo primeiro domingo comum nos propõe como segunda leitura integra uma parte da carta onde o autor faz um veemente apelo à constância e à perseverança na fé (cf. Heb 12,1-13). Jesus, “autor e consumador da fé”, aquele que “renunciando à alegria que lhe fora proposta, sofreu a cruz, mas que depois se sentou à direita do trono de Deus” (Heb 12,2), é o modelo que os cristãos devem ter sempre diante dos olhos.

 

MENSAGEM

O cristão não pode acomodar-se ou deixar-se deter pelas dificuldades. Ultrapassando todos os obstáculos que encontra no caminho, corre para a meta, como um atleta decidido a alcançar a vitória. Cristo é o seu modelo: Ele enfrentou todos os obstáculos, sofreu o suplício da cruz, mas venceu tudo isso e sentou-se à direita de Deus. O exemplo de Cristo deve inspirar e dar ânimo a todos aqueles que enfrentam as dificuldades que a corrida da vida traz (cf. Heb 12,1-4).

Chegado aqui, o autor da Carta aos Hebreus detém-se na questão dos sofrimentos: trata-se de uma realidade que os destinatários da Carta – que enfrentavam a cada passo a hostilidade do mundo – conheciam bem. É verdade – considera ele – que os sofrimentos e as dificuldades dificultam a caminhada. Mas serão apenas algo de absurdamente negativo e sem sentido? Ser-nos-ão enviados por Deus como castigo para as nossas faltas? Constituirão obstáculos intransponíveis, que justificarão que desistamos da luta pela vitória? Recorrendo a uma máxima sapiencial (“meu filho, não rejeites a correção do Senhor, nem te irrites quando Ele te repreender, pois o Senhor castiga aquele a quem ama, como o pai a um filho querido” – Prov. 3,11-12), o autor da Carta convida os crentes a verem nos sofrimentos, não “castigos” de um Deus vingativo e justiceiro, mas “correções” de Deus, atos pedagógicos de um Pai que ama os filhos e que tudo fará para que eles construam vidas com sentido (vers. 7).

Uma certa mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como um castigo de Deus para o pecado do homem (cf. Jo 9,1-3); mas, para o autor da Carta aos Hebreus, o sofrimento não é um castigo, mas sim um remédio que Deus envia aos seus filhos para os corrigir e para os fazer participantes da Sua santidade. Não gostamos que nos corrijam (vers. 11); mas, se um pai corrige o seu filho, é porque quer o seu bem. Sendo assim, essas “correções” são um ato de amor. Através delas, Deus demonstra a sua solicitude paternal. Como sinais do amor que Deus nos tem, os sofrimentos são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”.

Além de serem sinais do amor que Deus nos tem, as “provas” transformam-nos, despertam-nos, curam-nos, levam-nos a mudar de vida, fazem-nos crescer. Por essa transformação, vamo-nos fazendo interiormente capazes de nos aproximarmos da santidade de Deus. Por isso, quando os sofrimentos chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para nós, portadores de paz e de salvação. No fundo, devemos estar profundamente agradecidos a Deus pelas “correções” que Ele nos envia.

A conclusão apresenta-se em forma de exortação (vers. 12-13). Citando Is 35,3 (“fortalecei as mãos débeis, robustecei os joelhos vacilantes”), o autor da Carta aos Hebreus convida os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa.

 

INTERPELAÇÕES

  • Ao longo dos séculos, a questão do sofrimento tem sido, para muitos homens e mulheres um “obstáculo” intransponível na sua aproximação a Deus: se Deus existe, porque é que deixa que o sofrimento marque a vida do homem, inclusive a vida dos justos e dos inocentes? Porque é que tantas pessoas que optam por caminhos de violência e de maldade parecem ter tanta sorte e sucesso, enquanto outras pessoas, boas e generosas, são atingidas por males em catadupa? Nem os teólogos, nem os filósofos conseguiram, até hoje, encontrar respostas satisfatórias para estas questões. O mais honesto é reconhecer, simplesmente, que se trata de algo que ultrapassa a nossa “pobre” compreensão dos grandes mistérios da vida. A catequese cristã, sem explicar cabalmente o sentido do sofrimento, convida-nos a constatar uma realidade: embora não seja algo bom em si mesmo, o sofrimento pode dar-nos a possibilidade de crescermos, de amadurecermos, de alcançarmos uma compreensão superior do sentido da existência, de nos purificarmos de certas visões mesquinhas que só ultrapassamos quando mergulhamos no mistério do amor de Deus. Como lidamos com o sofrimento? Que sentido lhe damos?
  • O “catequista” que escreveu a Carta aos Hebreus considera que o sofrimento pode ajudar-nos a perceber o sem sentido de muitas das nossas opções. Deus não quer ver-nos sofrer. Ele nunca desiste de nos apontar os caminhos que levam à vida verdadeira. Mas nós, frequentemente, ignoramos as indicações de Deus e agimos de acordo com as nossas perspetivas, os nossos interesses, as nossas ilusões. O orgulho e a autossuficiência enganam-nos e levam-nos a avançar em caminhos que não levam a nenhum lado. Então, como consequência das nossas opções irresponsáveis, descobrimos o sofrimento. Chegados “ao fundo do poço”, percebemos finalmente que temos vindo a caminhar na direção errada. Nesses casos, o sofrimento pode ajudar-nos a reformular o sentido da nossa existência, a voltar atrás e a enveredar por caminhos que nos conduzam na direção certa. O sofrimento terá, aqui, um sentido pedagógico. Já fizemos esta experiência?
  • O “catequista” que nos ofereceu a Carta aos Hebreus, apesar de todos os sofrimentos e contrariedades que pontuam o caminho dos seres humanos, acredita no amor de Deus. Deus só quer o nosso bem. Deus nunca fará nada para nos prejudicar ou para nos magoar; e quando a nossa fragilidade ou a nossa debilidade nos fizerem experimentar o sofrimento, Deus virá ao nosso encontro e ficará ao nosso lado. Mais: Deus “escreve direito por linhas tortas” e encontrará maneira de tirar de algo mau (o sofrimento) coisas que nos farão bem. Acreditamos no amor de Deus, mesmo quando a vida nos fere e nos obriga a conhecer a dor?

 

ALELUIA – João 14,6

Aleluia. Aleluia.

Eu sou o caminho, a verdade e a vida, diz o Senhor:
ninguém vai ao Pai senão por Mim.

 

EVANGELHO – Lucas 13,22-30

Naquele tempo,
Jesus dirigia-Se para Jerusalém
e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava.
Alguém Lhe perguntou:
«Senhor, são poucos os que se salvam?»
Ele respondeu:
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita,
porque Eu vos digo
que muitos tentarão entrar sem o conseguir.
Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta,
vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo:
‘Abre-nos, senhor’;
mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’.
Então começareis a dizer:
‘Comemos e bebemos contigo
e tu ensinaste nas nossas praças’.
Mas ele responderá:
‘Repito que não sei donde sois.
Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’.
Aí haverá choro e ranger de dentes,
quando virdes no reino de Deus
Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas,
e vós a serdes postos fora.
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul,
e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus.
Há últimos que serão dos primeiros
e primeiros que serão dos últimos».

 

CONTEXTO

“Jesus dirigia-se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava” (vers. 22). É a segunda menção direta que Lucas faz (a primeira tinha sido em Lc 9,51) a essa “viagem” que leva Jesus da Galileia a Jerusalém para enfrentar as autoridades religiosas judaicas e lhes apresentar o projeto de salvação que Deus lhe confiou. Os discípulos caminham atrás de Jesus. Em cada passo do caminho, Jesus detém-se a explicar o “mapa” do Reino de Deus. Embora as lições de Jesus se destinem a toda a gente, elas têm como destinatários privilegiados os discípulos: eles devem assimilar a lógica do Reino, para serem depois, após a morte e a ressurreição de Jesus, as testemunhas do Evangelho em todo o mundo.

O texto que Lucas nos propõe (cf. Lc 13,22-30) é constituído por materiais de distintas procedências, aqui agrupados por razões de interesse temático. Estes materiais seriam, inicialmente, “ditos” de Jesus – pronunciados em contextos distintos – sobre a entrada no Reino de Deus (o evangelista Mateus apresenta os mesmos “ditos” sob formas e em contextos diferentes – cf. Lc 13,23-24 e Mt 7,13-14; Lc 13,25 e Mt 25,10-12; Lc 13,26-27 e Mt 7,22-23; Lc 13,28-29 e Mt 8,12; Lc 13,30 e Mt 19,30). Lucas utiliza-os para mostrar as diferenças entre a teologia dos judeus e a de Jesus, a propósito da salvação.

 

MENSAGEM

Esta nova “lição” de Jesus no caminho para Jerusalém começa com uma pergunta de um “anónimo”: “Senhor, são poucos os que se salvam?” Durante muitos séculos a questão da salvação não foi equacionada pela catequese de Israel. Acreditava-se que, após a morte, todos desciam ao “sheol”, o mundo dos mortos, e aí levavam existências iguais, independentemente daquilo que tinham sido em vida. Não havia, nesse mundo, nem recompensa para os bons nem castigo para os maus. O prémio ou o castigo era dado na vida terrena. A experiência mostrava, contudo, que as coisas não eram assim tão lineares: na vida terrena, muitas vezes os justos triunfavam, enquanto os justos viviam mergulhados no sofrimento. Deus seria injusto? Numa fase mais tardia da reflexão de Israel, alguns grupos religiosos (como os fariseus e os essénios), para salvaguardar a justiça de Deus, começaram a falar de uma outra vida, onde os bons receberiam o prémio pela sua justiça e viveriam felizes. Os maus, em contrapartida, não ressuscitariam: estariam condenados a viver no mundo das sombras.

Na época de Jesus discutia-se, nos ambientes rabínicos, sobre quem ressuscitaria, depois da morte, e teria acesso a essa vida feliz reservada aos justos. Para os fariseus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito, com exceção de alguns pecadores com comportamentos especialmente graves; mas, em alguns círculos apocalípticos, dominava uma visão mais pessimista e ensinava-se que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Jesus, por sua vez, falava de Deus como um Pai cheio de misericórdia, cuja bondade o levava a acolher todos, especialmente os pobres, os débeis e os pecadores. A pergunta do “anónimo” que Jesus encontrou no caminho para Jerusalém deve enquadrar-se neste contexto. Quem são os que se salvam? Serão muitos? Serão poucos?

Jesus não responde diretamente à pergunta, pois não lhe parece importante especular sobre esse tipo de questões. Para Ele, mais do que falar em números concretos a propósito da “salvação”, é importante definir as condições para pertencer ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” é, em primeiro lugar, esforçar-se por “entrar pela porta estreita” (vers. 24). A imagem poderia ser tomada da entrada das cidades, onde havia duas portas: uma mais larga, destinada a carruagens puxadas por cavalos e outra mais estreita, destinada à passagem de peões. Lucas não explica o que significa “entrar” pela porta estreita”; mas talvez a imagem pretenda sugerir que, para entrar no Reino, será necessário renunciar a tudo aquilo que “engorda” o homem – como o orgulho, a autossuficiência, o egoísmo, a ambição, o desejo de poder e de domínio – e o impede de viver numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida. Quem quiser encontrar a vida verdadeira tem de realizar um esforço pessoal nesse sentido; ninguém chegará à realização plena pelo caminho da facilidade, dos valores efémeros, das apostas exclusivas no comodismo e no bem-estar material.

Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola. Nela, o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como um “banquete” em que os eleitos estarão à mesa, lado a lado com os patriarcas e os profetas (vers. 25-28). Na “casa” onde está a acontecer esse banquete, a porta está fechada. Os que se distraíram com os afazeres fúteis, que se demoraram a gozar as coisas boas da vida, que hesitaram continuamente até deixar passar o tempo oportuno, chegarão atrasados. Baterão à porta, mas o dono da casa não se levantará para os acolher. Convencidos de que o seu estatuto lhes dá acesso direto à mesa do banquete, os que chegaram atrasados pedirão: “abre-nos, Senhor”; mas o dono da casa responder-lhes-á: “não sei de onde sois”. A expressão era usada entre os judeus para declarar a exclusão de alguém da comunidade do Povo eleito. Os excluídos insistirão com o dono da casa, lembrando que comeram e beberam com ele e que se sentaram nas praças a ouvir as suas lições; mas ele manterá a sua decisão: não os conhece, não lhes abrirá a porta, não os deixará sentar-se à mesa.

Quem participará, então, no banquete do Reino de Deus? Muitos que virão “do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul” (vers. 29). O critério para poderem sentar-se à mesa do Reino residirá na forma como acolheram a proposta de salvação que Jesus lhes fez. Quanto àqueles que não acolheram a proposta de Jesus, esses ficarão fora do banquete do “Reino”, ainda que tenham nascido dentro das fronteiras étnicas, geográficas e institucionais do “Povo eleito”. É evidente que Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm assegurada a entrada no “Reino”; mas a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não quiserem despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrer, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida.

As palavras que Lucas põe na boca de Jesus são das mais duras que aparecem no terceiro Evangelho. Esperávamos, da parte de Jesus, tanta severidade? As palavras aqui atribuídas a Jesus – que estão em consonância com o estilo dos pregadores da época – não têm caráter condenatório, mas sim exortativo: pretendem levar os discípulos, os de ontem e os de hoje, a deixarem para trás todas as hesitações e a escolherem inequivocamente o Reino de Deus. Não são um relato factual do que vai acontecer no final dos tempos; são um convite veemente a assumir radicalmente os valores do Reino e a vivê-los.

 

INTERPELAÇÕES

  • Como devemos viver para que a nossa vida não seja perdida? No caminho para Jerusalém, Jesus deixa a sua resposta: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”. Talvez esta frase dita assim, sem explicações, nos pareça estranha e enigmática. Contudo, o Evangelho de Jesus, no seu conjunto, explica-a bastante bem: “entrar pela porta estreita” é não viver de forma irresponsável, sem agarrar a vida e sem se comprometer; é recusar a mediocridade, a acomodação, a alienação; é não ceder ao facilitismo, à tentação do bem-estar, aos valores que não têm qualquer valor; é não viver exclusivamente voltado para os próprios interesses pessoais, alheado dos problemas do mundo e da sorte dos irmãos; é não se conformar com uma vida oca, de meias tintas, indolor, sem metas elevadas; é não confiar em falsas seguranças vindas do dinheiro ou de uma religião vazia e ritualista; é fazer-se pequeno, simples, humilde, servo, capaz de amar até ao dom total de si próprio… Como é que estamos a construir a nossa vida? Confundimos “felicidade” com “facilidade”? Apostamos na “porta estreita”, que implica esforço, renúncia, sacrifício, coerência, risco, luta, compromisso, ou procuramos a “porta larga” da facilidade, da superficialidade, do bem-estar, da popularidade, do êxito efémero, de tudo aquilo que não exige muito mas também não sacia a nossa fome e a nossa sede de vida verdadeira?
  • A parábola do banquete em que a porta se fechou, impedindo a entrada daqueles que chegaram tarde e a más horas, não é sobre a intransigência de Deus para com os seus filhos que às vezes se equivocam na escolha das prioridades; mas é um veemente apelo a que não nos deixemos adormecer numa vida fácil e acomodada, negligenciando as oportunidades que nos são dadas para construirmos uma vida com sentido. A nossa passagem pela terra é efémera. Tem um tempo que rapidamente se esgota. Se, no tempo que nos é dado, formos apostando tudo em coisas rasteiras e fúteis, não conseguiremos ter espaço para as coisas decisivas, as que dão sentido a tudo. Sem darmos conta, o tempo que temos à nossa disposição esvazia-se, a porta fecha-se e acabamos por não viver verdadeiramente. Como gastamos o tempo que Deus nos concede? Apostamos em escolhas que nos realizam? Procuramos a cada instante encher de sentido a nossa vida, esforçando-nos por concretizar o projeto que Deus tem para nós?
  • Na parábola contada por Jesus há pessoas, vindas “do oriente e do ocidente, do norte e do sul” que têm acesso ao banquete; e há outras pessoas que pensavam ter acesso garantido ao banquete, talvez até em lugar de destaque, mas que não conseguem entrar na sala onde o banquete se realiza. Segundo Jesus, sentar-se à mesa do Reino de Deus não depende de direitos adquiridos por nascimento, ou de um qualquer ato formal de adesão a uma instituição; mas depende de uma decisão pessoal por Jesus e pela sua proposta: uma decisão assumida sem hesitação, renovada em cada dia, confirmada em cada passo do caminho. Segundo Jesus, pode haver gente que se senta à mesa da eucaristia, que em cada domingo escuta a Palavra de Jesus, que tem todos os papéis em ordem do ponto de vista da pertença institucional à Igreja, que até exerce um cargo de destaque na comunidade eclesial, mas que não se deu ao trabalho de “entrar pela porta estreita” e que não terá lugar à mesa do Reino de Deus. A esses, o “dono da casa” dirá: “não sei donde sois”. Como é que vemos isto? Como é que, pessoalmente, isto nos toca? Será que reunimos os critérios necessários para sermos admitidos ao banquete do Reino de Deus?
  • O Evangelho deste domingo termina com um provérbio “incómodo”, pronunciado por Jesus, que nos desafia e faz pensar: “há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos”. O que é que Jesus está a dizer? Talvez esteja a dizer que há teólogos que escrevem tratados cheios de elevação sobre Deus, mas que nunca comunicam com Deus nem se abrem aos Seus apelos; e que há crentes simples, iletrados, que não sabem falar sobre Deus, mas que dialogam com Ele com a confiança de filhos que se sentem queridos e amados. Talvez Jesus esteja a dizer que há pregadores e mestres de moral que exigem dos outros o cumprimento de uma longa lista de práticas e de valores éticos, embora não se sintam obrigados a conduzir a sua vida de forma coerente com esses valores; e que há homens e mulheres humildes, que não sabem justificar aquilo em que acreditam, mas que escutam a voz da sua consciência e que atuam de acordo com ela. Talvez Jesus esteja a dizer que há crentes muito preocupados em cumprir “a doutrina” e em viver de acordo com as leis da Igreja, mas que passam ao lado Evangelho; e que há cristãos que não são capazes de explicar as verdades da fé, mas que procuram sinceramente viver de acordo com a verdade de Deus… Sim, por vezes os “primeiros” do mundo não são os “primeiros” de Deus; e os “primeiros” de Deus não são os “primeiros” do mundo. Em qual destes grupos nos situamos?

 

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS PARA O 21.º DOMINGO DO TEMPO COMUM
(adaptadas, em parte, de “Signes d’aujourd’hui”)

1. A PALAVRA MEDITADA AO LONGO DA SEMANA.

Ao longo dos dias da semana anterior ao 21.º Domingo do Tempo Comum, procurar meditar a Palavra de Deus deste domingo. Meditá-la pessoalmente, uma leitura em cada dia, por exemplo… Escolher um dia da semana para a meditação comunitária da Palavra: num grupo da paróquia, num grupo de padres, num grupo de movimentos eclesiais, numa comunidade religiosa… Aproveitar, sobretudo, a semana para viver em pleno a Palavra de Deus.

2. FIÉIS DE TODA A PARTE.

As igrejas situadas em lugares turísticos acolhem, neste mês de Agosto, fiéis vindos de toda a parte. No início da celebração, pode-se convidar os membros da assembleia a dizer de que país ou de que região vêm e sublinhar que esta diversidade prefigura o Reino.

3. ORAÇÃO NA LECTIO DIVINA.

Na meditação da Palavra de Deus (lectio divina), pode-se prolongar o acolhimento das leituras com a oração.

No final da primeira leitura:
“Deus, Pai de todos os homens e de todas as nações, nós Te damos graças pela preferência mundial que manifestaste desde o tempo dos profetas. Tu convidas todos os povos da terra a conhecer-Te.

Nós Te pedimos pelas nossas organizações sociais e políticas. Afasta dos nossos espíritos qualquer pensamento de segregação e que os nossos votos sejam conformes ao ensinamento do teu Filho”.

No final da segunda leitura:
“Deus nosso Pai, nós Te damos graças porque nos enviaste o teu Filho Jesus, para endireitar os caminhos de infelicidade em caminhos para a ressurreição.

Nós Te confiamos todos os nossos irmãos e irmãs duramente provados e que se revoltam contra os seus sofrimentos. Que nós possamos convencê-los que as infelicidades e as provações não são punições que vêm de Ti”.

No final do Evangelho:
“Deus nosso Pai, nós Te damos graças pela porta da tua casa, que Tu nos abres convidando-nos ao festim no teu Reino com os povos de toda a terra.

Nós Te pedimos por todos os nossos contemporâneos que se encontram nos maus caminhos e procuram outras portas para atingir a felicidade”.

4. BILHETE DE EVANGELHO.

A salvação é um dom de Deus. Ele tomou a iniciativa de nos dar o seu Filho, que deu a sua vida para fazer de nós salvos. Mas é necessário ainda que participemos nesta salvação. Fomos batizados, catequizados, talvez fomos também fiéis praticantes, mas isso não basta para entrar no Reino. Será preciso que manifestemos pelos atos a nossa adesão à salvação proposta por Cristo. Deus quer salvar-nos, contando connosco. É sobre este amor que seremos julgados: “Vinde a Mim, benditos de meu Pai, vós que destes de comer ou beber, vós que visitastes o prisioneiro ou o doente, vós que vestistes aquele que estava nu…” Aqueles que terão feito o mal serão afastados do Reino. Aqueles que terão feito o bem estarão no número dos eleitos.

5. À ESCUTA DA PALAVRA.

Eis uma questão que fez correr muita tinta ao longo da história da Igreja: “Senhor, são poucos os que se salvam?” Uma corrente como o jansenismo – que não é só do passado! – acreditava no pequeno número dos eleitos. Poderíamos encontrar sem dificuldade outros exemplos desta tentação. Sem dúvida, outras palavras de Jesus parecem ir no mesmo sentido: as que falam do largo e espaçoso caminho que leva à perdição, em que muitos se comprometem; as que falam da porta estreita que leva à Vida, em que poucos a encontram. Mas, em contraponto, Jesus declarou aos seus apóstolos: “Na casa de meu Pai, há muitas moradas”. Notemos, primeiro, que São Lucas escreve o seu Evangelho quando os cristãos são já perseguidos e as tensões se tornam cada vez mais vivas entre as comunidades cristãs e o judaísmo. A rutura não está longe de ser dolorosamente consumada. O evangelista recorda-se aqui de um aspeto em que Jesus quer despertar a atenção dos seus compatriotas. Abraão, Isaac e Jacob e todos os profetas souberam escutar a palavra de Deus. Os seus longínquos descendentes fecham-se à palavra de Deus. Jesus não responde à questão do seu ouvinte sobre o número dos eleitos. Mas alarga o debate. É preciso dar um salto na fé para O escutar, ter n’Ele confiança. Isto, certamente, não é fácil, porque o caminho que Jesus deverá percorrer vai conduzi-l’O à cruz e os seus discípulos deverão tomar, por sua vez, esse caminho para ter lugar no festim do reino de Deus. Jesus vê, então, a multidão dos pagãos que acolherão a sua palavra, que virão “do oriente e do ocidente, do norte e do sul”. A sua mensagem ultrapassa todas as fronteiras, a salvação não é reservada apenas a um só povo, mesmo sendo o da primeira Aliança. “Os primeiros que serão os últimos” são os contemporâneos de Jesus que recusam escutá-l’O. “Os últimos que serão os primeiros” são o povo da Nova Aliança selada no seu sangue. Então, a palavra de Jesus atinge-nos, ainda hoje. Não tenhamos a pretensão de acreditar que, por sermos cristãos, teremos “direito” à salvação. Jesus é o Salvador de todos os homens. Haverá muitas surpresas “do outro lado”!

6. ORAÇÃO EUCARÍSTICA.

Pode-se escolher a Oração Eucarística I para a Reconciliação.

7. PALAVRA PARA O CAMINHO…

Tomar o Evangelho a sério… Corrida ao poder, às situações de privilégio, às relações de prestígio, às melhores aplicações bancárias, aos primeiros lugares de todos os géneros… Estamos muito ocupados para conseguir os nossos negócios aqui na terra.

E eis uma página do Evangelho que vem alterar tudo. Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros. Forte convite a tomar o Evangelho a sério e conformar com ele as nossas vidas… antes que a porta do Reino se feche!

 

UNIDOS PELA PALAVRA DE DEUS
PROPOSTA PARA ESCUTAR, PARTILHAR, VIVER E ANUNCIAR A PALAVRA

Grupo Dinamizador:
José Ornelas, Joaquim Garrido, Manuel Barbosa, Ricardo Freire, António Monteiro
Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)
Rua Cidade de Tete, 10 – 1800-129 LISBOA – Portugal
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