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A comunidade científica tem vindo a alertar – com uma frequência cada vez mais intensa e preocupante – que estamos em tempos de «emergência climática». Não podemos continuar a adiar as medidas necessárias, mas também não podemos viver como se o cenário mais catastrófico já fosse totalmente inevitável. Não podemos ficar à espera que a ciência ou a tecnologia nos resolvam messianicamente o problema, mas também não podemos, pura e simplesmente, aguardar que o poder político faça tudo.

A esperança cristã torna-se, então, mais necessária que nunca e pode levar-nos a comprometer-nos na reparação de tantos males infligidos à criação. De facto, «são necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus. Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades» (LS 14).

Tem todo o sentido, portanto, voltar a propor uma espiritualidade da reparação, com uma tonalidade ecológica. Há várias zonas do nosso mundo que se tornaram desertos ou, pior ainda, lixeiras, onde ninguém consegue habitar com o mínimo de dignidade e decência. Há lugares do nosso mundo que se tornaram inóspitos, feios e horrendos, verdadeiros infernos dos tempos modernos. Há zonas neste nosso mundo face perante as quais é difícil acreditar que tenham sido criadas por Deus.

Ser reparadores, neste sentido, é não fechar os olhos ao mal que fizemos, mas assumir as nossas responsabilidades e empenhar-nos em curar as feridas da terra. O mundo precisa de homens e mulheres que se empenhem nesta tarefa reparadora como forma de garantir que as gerações futuras poderão viver harmoniosamente neste planeta. Ser reparadores é então levar ar puro a um mundo poluído, mas só seremos verdadeiros reparadores, se deixarmos que a dor e a fealdade da criação nos trespassem. Caso contrário, permaneceremos indiferentes e isolados na nossa vida.

O desafio que nos lança o Papa Francisco é, a este propósito, bastante claro: «construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído» (LS 63). Trata-se de uma ecologia da reparação, que nos leve ao encontro desses lugares e ambientes mais degradados e – como jardineiros apaixonados, dedicados e competentes – cuidar, fortalecer e revitalizar o que está mais débil e desprotegido.

Uma ecologia da reparação caracteriza-se por uma extrema atenção à humanidade e à criação, mas também por uma preocupação de sarar verdadeiramente as feridas que continuam a sangrar. Uma ecologia da reparação parte do pressuposto que esta crise ecológica se deve ao acumular de sucessivos pecados ecológicos e à nossa falta de amor para com a criação. Uma ecologia da reparação afirma sem rodeios que o nosso amor pode curar a humanidade e a criação.

José Domingos Ferreira, scj