A guerra é um flagelo, que não resolve nenhum dos problemas que esteve na sua origem. A guerra é uma carnificina inútil, que apenas produz conflitos novos e mais complexos que os anteriores. A triste verdade é que, mesmo que a guerra terminasse amanhã, serão necessárias várias décadas para que aquelas duas nações se reconciliem novamente entre si.


O papa João XXIII dizia que «nada se perde com a paz; mas, com a guerra, tudo pode perder-se». A guerra é sempre uma derrota da humanidade. A guerra representa a falência de todo o autêntico humanismo. A guerra é também ausência de Deus.

O Evangelho deste domingo apresentava um excerto do testamento espiritual de Jesus, onde se incluía precisamente o dom da paz: «deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo». Com estas palavras, vemos que a paz de Jesus é substancialmente diferente da paz do mundo. No nosso mundo, a paz é imposta pelas armas; é medo e intimidação; é uma mera ausência de guerra. No nosso mundo, a paz revela-se frequentemente podre por dentro, porque é aparente, fingida e temporária. Na maior parte dos casos, a paz não passa de um equilíbrio mais ou menos estável entre forças adversárias.

A paz de Jesus é um dom do Alto; é uma graça que se instala no coração humano e, se encontrar acolhimento e adesão, torna-se num sentimento estável, duradouro e firme; é reconciliação com Deus e com os irmãos.
A paz de Jesus é muito mais que a ausência de guerra: é o contrário daquela agitação interior que nos torna angustiados e ansiosos; é bênção de Deus para a vida de cada dia; é o antídoto contra a mentalidade altamente competitiva, que nos faz guerrear-nos uns aos outros, mesmo sem pegarmos em armas de fogo; é a recusa da agressão fácil – seja física, seja verbal – que fere e mata muita gente, porque a violência nunca constitui uma resposta justa.

A paz de Jesus anda de mãos dadas com a justiça. «A paz periga quando ao homem não é reconhecido aquilo que lhe é devido enquanto homem, quando não é respeitada a sua dignidade e quando a convivência não é orientada em direcção ao bem comum» (CDSI 494). A paz de Jesus anda de mãos dadas com o amor, pois aparece como «acto próprio e específico da caridade» (CDSI 494): a caridade é pacífica e não se alegra com o mal alheio. A paz de Jesus anda de mãos dadas com o cuidado da natureza: um mundo cada vez mais poluído será uma fonte propícia a novos conflitos e lutas entre os povos; a falta de acesso à água potável será uma causa evidente de confrontos entre nações. Na verdade, «paz, justiça e conservação da criação são três questões absolutamente ligadas, que não se poderão separar, tratando-as individualmente sob pena de cair novamente no reducionismo» (LS 92).

José Domingos Ferreira, scj