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Precisamos de místicos (e também de peregrinos)! Pode parecer estranho, mas esta é uma das verdades que se esconde por detrás desta crise ambiental. De facto, para que a preocupação ecológica seja real e não se reduza a uma moda; para instaurar uma nova maneira de habitar este mundo, sem ser apenas uma oportunidade comercial; para alcançar uma transformação do coração humano, sem ficar somente pela superfície do aparente, precisamos de místicos, que vivam «com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmos» (LS 10).

Esta crise ecológica é um apelo urgente e incisivo à redescoberta da dimensão mística da vida humana. Talvez nos tenhamos deixado tentar em demasia pelo pragmatismo calculista, que tudo reduz a números e a resultados concretos e quantificáveis. Absorvemos, de forma desordenada, uma mentalidade cientifista, que só considera verdade o último estudo supostamente científico e reduz tudo o resto a charada inverosímil. Perdemos o sentido do gratuito, da contemplação desinteressada, do olhar cheio de admiração, da intuição de que há algo por detrás de tudo isto. Esquecemo-nos que «o universo se desenvolve em Deus, que o preenche totalmente. E, portanto, há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre» (LS 233). E esta é a missão por excelência do místico.

O místico, ao experimentar a ligação íntima que há entre Deus e todos os seres vivos, «sente que Deus é para ele todas as coisas» (LS 234). Isto significa que o seu coração se abre a «categorias que transcendem a linguagem das ciências exactas ou da biologia e nos põem em contacto com a essência do ser humano». Ao mesmo tempo, «a sua reacção ultrapassa de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo económico, porque qualquer criatura é uma irmã» (LS 11). A vida do místico é sempre uma proposta a reconhecer «a natureza como um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade». Mais do que ninguém, ele compreende que «o mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor» (LS 12).

Neste sentido, é preciso escutar com atenção o alerta do papa Francisco: «se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude» (LS 11).

José Domingos Ferreira, scj